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março 01, 2012

Pretensão, inevitável

“I wanna be your last, first kiss
That you'll ever have”
(Anberlin)
 
Eu fumava, um atrás do outro.
 
Os minutos passavam devagar, sozinha no meu quarto. A Clara chegaria a qualquer momento e o apartamento tinha o seu silêncio perturbado pelo som do Fer martelando a mesinha de centro da sala – um dos suportes estava solto. E ali dentro, de um jeito intragável, a Mia não saía da minha cabeça. Desgraçada. A beirada da janela já acumulava cinzas o suficiente para me matar. Dum câncer no pulmão, do que fosse, qualquer coisa é melhor do que essa merda. O meu coração dava voltas, inquieto. E os meus olhos se fixavam na calçada imunda da Frei Caneca, naquelas árvores e nas pessoas que eu nunca iria conhecer. Por que não consigo simplesmente deixar pra lá?
 
Me incomodava como a Mia me afetava. Mas afetava – os seus beijos, o que fez com a outra garota no banheiro. E continuava me afetando quase dois dias depois do ocorrido, numa incapacidade de esquecer o que tinha acontecido na festa. Cacete. Me despertei daquele estado reflexivo, martirizante, ao ouvir tocar a campainha. A Clara chegou. Chega dessa merda. Apertei contra a madeira o último cigarro de uma série nada saudável e o joguei pela janela. Eu não ia tornar a situação pior do que já era e me recusava – r e c u s a v a – a transparecer o caos dos meus pensamentos para a Clara, que nada tinha a ver com aquela confusão toda.
 
Saí no corredor de jeans e regata cinza. Passei pelo Fer na sala, vendo-o terminar o reparo sem camiseta, com as tatuagens todas à mostra – e me irritei com aquela demonstração desnecessária de testosterona, sem paciência com ele. Com a sua mera existência, é. Abri a porta e a Clara sorriu assim que me viu, me beijando e me resgatando quase imediatamente daquela amargura. Parecia que fazia semanas que eu não a via.
 
_E aí... – virei e olhei para o Fer, o acelerando – Vamos?
_Vamos! – ele se levantou, largando o martelo sobre a mesa – Deixa só eu pôr uma camiseta lá... Aguenta aí!
 
Apoiei o corpo no batente da porta, observando a Clara na minha frente. E ela sorriu. Estava com saudades, garota. Senti o algodão da minha regata deslizar suavemente pelas costas da minha mão, metida debaixo da blusa, escorregando à toa sobre a minha barriga. A Clara e eu nos olhávamos, em nossas eternas reticências, e ríamos. “E aí, hein?”, ela fez graça, esbarrando a ponta da sua bota contra o meu coturno. Nutria um carinho descomplicado por ela, não sei. Nos gostávamos – e isso, de repente, me bastava para aguentar duas horas no teatro com a droga da Mia.
 
Talvez não seja tão ruim, me convenci.
 
Entramos no carro alguns minutos depois, os três, e dirigimos por uma São Paulo congestionada, em plena noite de quinta, até as ruas de Higienópolis. Ao estacionarmos em frente ao prédio da Mia, que eu bem conhecia, o Fer ligou duas vezes para ela. Sem sucesso. Desceu então do carro, já irritado, indo à portaria para pedir que interfonassem no apartamento. Aí voltou e se sentou de novo atrás do volante, batendo a porta.
 
_Inferno! – resmungou.
 
O meu braço estava ao redor da Clara, no banco de trás, quando a Mia finalmente saiu pelo portão. Absolutamente linda. Filha da mãe. Era como se fizesse de propósito – numa skinny e jaqueta pretas, com o cabelo castanho jogado para o lado. Merda, me afundei no banco, sentindo a raiva voltar. E a contragosto, a observei entrar no carro. Não parecia feliz ou disposta a ir. Se sentou no banco, ao lado do Fer, mas não o beijou ao entrar. O carro mal deu partida e ela logo se virou para trás, na minha direção. Sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar.
 
Me olhou com os seus olhos castanhos, amendoados. Descaradamente. Você não tá facilitando, garota. Me ajeitei no banco, desconfortável, presa naquele carro com o Fer, a Clara, a Mia e a porra da garota da festa, inferno, que agora não saía da minha cabeça. Argh. Parecia querer me dizer algo, a Mia, digo, mas eu não queria ouvir. Nem a pau. Virei os olhos para fora do carro, fugindo dos seus. Senti que não ia conseguir não transparecer o rancor entalado na minha garganta, que dirá aguentar uma noite toda ao seu lado – e a gente mal tinha saído do seu quarteirão.

fevereiro 28, 2012

"Típico"

Cheguei em casa às 5:37 da manhã e não dormi porra nenhuma. Ao invés disso, tomei um banho para acordar, bebi meio litro de café e saí para trabalhar virada. Que se dane. Aquela quarta-feira se arrastou dum jeito insuportável. Passei cada minuto com dor de cabeça e irritada, estava num humor de merda. Inferno. Fui incapaz de trocar mais do que duas mensagens com a Clara – não estava no clima. E depois das horas extras usuais, exausta, voltei para casa e fiz um jantar com o que achei na geladeira.
 
Assim que sentei para comer, no entanto, o Fer entrou na cozinha. Argh.
 
_Ah, aí tá você... – ele disse, indo vagarosamente até o fogão para espiar o que havia dentro da panela.
 
Com a tampa na mão, pegou um ou dois pedaços de batata cozida e colocou na boca, sem se dar ao trabalho de se servir. Então veio na minha direção, como quem não tem nada melhor para fazer numa noite infeliz de quarta, e se sentou na cadeira em frente à minha.
 
_Pô. Cê sumiu ontem, mano... – comentou do outro lado da mesa, se ajeitando na cadeira – ...achei que cê ia embora com a gente.
_Ficou tarde – resmunguei, de boca cheia – Precisava trampar.
_Cê tava lá quando baixou a polícia?
_Não...
_Acho que era umas sete. Nossa, fiquei mó cara te procurando, meu... – pôs os braços sobre a mesa e aí sorriu – ...mas, pô, foi do caralho essa festa.
_Hum... – murmurei, sem paciência.
_Mano, rolou uma parada... – se curvou para frente para contar, animado – ...cê num tem ideia.
 
Infelizmente, tenho.
 
_A Mia, velho! Pegou uma mina do nada... – continuou – ...aí me meteu no banheiro junto com elas, mano, foi uma baixaria.
_Hum.
 
Senti o meu estômago embrulhar, tudo de novo. Droga.
 
_...porra, sério, foi do caralho.
_Sei.
_Fui quase até o fim, mano. Foda que a Mia quis parar, se não acho que...
_C-como assim? – perguntei, desconfortável – Do nada?!
_Não sei, a gente tava lá q-quase... – ele hesitou – ...tipo, quase... cê sabe, no banheiro e, e e-ela... – pareceu escolher as palavras, tentando não expor a namorada – ...ela, tipo, desceu lá n-na mina, enquanto eu...
 
Espera. Como é?!
 
Repete. Larguei o garfo no prato e encarei o Fernando ali, pega de surpresa. A Mia fez o quê?!? A minha respiração começou a acelerar de novo, do mesmo jeito sufocante de horas antes na sala do Benatti, e o meu coração disparou. Não. Não, mano. Não repete essa merda nunca mais, me arrependi na mesma hora. Nunca mais. Puta que pariu, de repente não conseguia tirar a imagem da cabeça e ele seguia contando, contra a minha vontade.
 
_...e-eu me pegava com a mina, então não vi bem, só vi quando a Mia já tava de pé de novo. Parou no meio do bagulho e me puxou, quis ir embora. Ficou brava. Mas, porra... antes tava animal! A mina já tav...
 
Cacete. Forcei a comida que restara na minha boca garganta abaixo, sem ouvir direito o restante da história – a muito contragosto. O meu estômago se embrulhava numa ansiedade repentina. Sem saber o que pensar ou, pior, o que sentir. Inferno.
 
_Nunca achei que fosse rolar qualquer coisa assim, mano... – ele continuou, empolgado, praticamente num monólogo – ...cê já imaginou, meu?
_O q-quê?
_A Mia dando a louca aí, beijando mina – riu – Cê imaginaria?
 
Engoli seco, doído.
 
_Não.
_Hum. Foi da hora – sorriu – E ô, fiquei pensando, cê... c-cê acha que... – já não queria mais ouvir aquela merda toda, perdera todo o apetite e infeliz agora enrolava, irritantemente – ...q-que se eu lançar, ela dorme comigo e outra mina?
 
Não, porra. Ficou louco?!?
 
_Fer, não... – o desencorajei na maior cara de pau, me desesperando, cacete – ...nada, n-nada a ver, meu. Cê tá viajando, a Mia... – resmunguei, me sentindo traída por ela – ...não é dessas, e-ela...
_Como não?! – sequer me deixou terminar e riu, se exaltando – Ela que começou! Pô, quando vi já tava metendo a mão na...
_Sei – o cortei, grosseira, sem querer ouvir os detalhes.
_Olha... – ele sorriu – Acho que, se pá, rola, sim.
 
Mano, eu juro, eu juro por tudo que tem de mais sagrado na porra do universo, juro, Fernando, que se cê enfiar a Mia numa cama com outra garota, seu babaca, eu juro, pensei, já perdendo a cabeça, que eu te mato, uma, duas, vinte vezes, puta merda. Apenas a ideia já me fazia contorcer involuntariamente, sem conseguir controlar aquele ciúme indesejado, meio fora de lugar dentro de mim, deslocado, amargo, me dilacerando. Argh.
 
_Sei lá, eu boto fé. Cê não? – meu amigo emendou, sem calar mais a boca – Cê acha que não mesmo?
_Meu, por que cê tá me perguntando isso?! – retruquei num impulso, revirando os olhos – Sei lá, mano! Tal... t-talvez... – comecei a vasculhar a porra da minha cabeça atrás de algo para encobrir o meu rancor, qualquer resposta que não fosse o “qual o nome da filha-da-puta dessa garota?” que era a única maldita coisa que me ocorria, latejando na minha cabeça, numa vontade irracional de arranjar briga – ...eu, e-eu não sei, Fer. Ela tava bêbada, quis parar no meio, meu, não acho que, q-que ela sabia o que tava fazendo...
_Tá, mas...
_E outra, meu... – o interrompi – ...a Mia é sua namorada, porra. É furada... – argumentei, fazendo um esforço desgraçado para apagar a merda daquela imagem da minha cabeça, a da, d-da Mia com, c-com a boca na desgraçada da garota, caralho – ...na boa, Fer, vai por mim. Isso vai dar maior rolo depois... se... se ela... – me enrolei para justificar, enquanto olhava o meu amigo ali, ô carma dos infernos, e rezava para que desistisse da ideia – ...se ela já ficou mal só de ter pegado a mina com você, imagina s-se... se cê for lá comer outra na frente dela, meu? A, a Mia vai surtar, cara... – suspirei – ...sério, não faz isso. Vai ser puta bad pra vocês!
 
Pelo amor de Deus, implorei mentalmente, sentindo o nervosismo tomar conta. Esquece isso.
 
_Hum... – o Fer pareceu refletir, não muito convencido – ...cê num falaria com ela, né?
_Eu?? Falar o quê?!
_Ah, mano, não sei... – riu – ...tenta sacar qual é que é, o que ela achou da parada. Dá uma sondada!
_Não... – me indignei – ...não, meu! Fora que nem sei quando vou trombar com a Mia de novo... Não dá, não rola!
 
Nem fodendo.
 
_Ué. Como assim?! – ele estranhou – Cês não vão amanhã?
_Amanhã?!
_É, pô! No lance lá do Gui!
 
Merda. Tinha me esquecido. Duas semanas antes, enchi o saco do Fernando para que comprasse ingressos para a nova peça do Gui – era um dos primeiros papeis principais que ele pegava e estava com medo de que ninguém fosse ver. Não era nada demais, uma peça pequena no circuito alternativo paulistano, mas eu azucrinei o Fer para que fosse comigo. E obviamente, porque eu era a rainha de me meter em situações como aquela, já sabendo que meu amigo levaria a Mia, eu convidei a Clara. É. Só para não ir sozinha com os dois.
 
Vai ser a porra da festa do caqui, mas que inferno.

fevereiro 27, 2012

Não

Meu coração parou.
 
Encarei as duas se atracando em meio a toda aquela gente. Em choque. Puta que pariu. A Mia subia em cima da, d-da garota no sofá, bêbada, mordendo a sua boca, e, caralho, as mãos dela puxavam a cintura da, d-da Mia, agarrando a sua meia-arrastão, deslizando sobre seu sutiã, aproximando os seus corpos e eu me sentia, m-me sentia, não sei, não sei que porra eu sentia. O meu coração começou a acelerar. E com muita dificuldade, forcei o ar goela abaixo, sem conseguir respirar direito.
 
Não, me desnorteei. Isso não.
 
E o meu estômago se embrulhou na mesma hora. Preciso sair daqui, senti o ar me faltar de novoMas não conseguia tirar os olhos da Mia, ali, em cima d-daquela, daquela escrota, beijo atrás de beijo – ainda que eu não quisesse, argh, ainda que não quisesse dar a mínima – enquanto o estúpido do Fernando não fazia porra nenhuma, sentado ao lado delas e assistindo, chapado, provavelmente com tesão. Filho-da-puta. 
 
Tentei me controlar, com uma vontade desesperada de ir embora dali, daquela porra daquela festa, inferno, sem querer saber de mais nadaNão sabia por que me importava tanto com a Mia ali – e ainda assim, me importava. Importava, porra! A boca dela na de outra garota, os seus beijos, as suas mãos correndo pelo seu corpo, cacete. Importava. Puta merda, como importava. Contra todo o bom senso, é, talvez. Mas o fato é que importava.
 
Respirei fundoSentindo o ciúme crescer em mim, incômodo, como um câncer. Me consumindo, invadindo os meus órgãos, contaminando tudo. A cada beijo dela com, c-com... arghNão. Não, assim não, me irritei, tacando a latinha ainda cheia para o lado, que se foda. Que se foda todo mundo nessa merda. Saí trombando nas pessoas, num surto violento, tentando apagar aquela imagem da minha cabeça. Senti uma raiva como nunca antes, filha-da-mãeSua desgraçada.
 
Desci na rua e peguei o primeiro táxi que passou, abrindo a janela para fumar. Em desespero. No rádio, tocava baixinho “Dancing on my own”, da Robyn, numa ironia cruel. Acendi um cigarro atrás do outro, nervosa – mas não conseguia pensar em outra coisa, conforme o carro atravessava o centro da cidade, angustiada com a ideia da Mia ainda estar lá na festa, se amassando com, c-com outra garota que não era eu, como se, c-como se fosse normal, como se, c-como se agora não fosse uma porra dum problema.

fevereiro 26, 2012

Noutros cantos

Em algum momento, o meu “fico só um pouco” virou quatro da manhã. Pois é. E lá pelas tantas, já de saco cheio de reclamar do barulho, um dos vizinhos ameaçou chamar a polícia. A resposta óbvia para isso foi colocar “Mucha policía, poca diversión” para tocar e aumentar o volume no máximo. Claro. Completamente chapado, o Benatti gritava a letra do Eskorbuto de cima de uma mesa, pulando e girando a própria camiseta sobre a cabeça, encorajando os amigos a cantar junto. E todo mundo o fazia, aos berros.
 
Era tanta gente se espremendo naquele apartamento que o chão parecia tremer. Eu observava a cena, sentada no chão ao lado duns amigos, gargalhando. É hoje que a gente vai preso. A cada minuto que se passava, a festa parecia mais lotada. E fora de controle. Me levantei e tentei passar pelo corredor abarrotado de gente, num esforço para chegar até o banheiro. Aí trombei sem querer com a Mia, mais uma vez. Parecia que todas as vezes que a via, o seu copo estava sempre mais cheio – nunca mais vazio.
 
Entrei no banheiro e uma das ex-namoradas do Benatti, a Cá, entrou logo atrás. Estava com um vestido preto curto e tinha toda a cabeça raspada, exceto as costeletas, que eram tingidas de laranja. Os dois ainda eram amigos. Fazia uns anos que tinham terminado e agora, segundo começou a tagarelar, ela já não saía mais com caras. “Foi uma decisão política mesmo”, argumentou, passando lápis no olho em frente ao espelho enquanto eu mijava, “de me relacionar só com mulheres, sabe?”. Não, pensei. Mas dei descarga e sorri, sapatona de nascença, achando certa graça no papo todo.
 
Assim que abrimos a porta, demos de cara com o Fer pelado e louco correndo com outros dois amigos nossos também sem roupa – e aí, milagrosamente, dei toda razão para a Cá. Certa ela. O corredor estava com um cheiro enjoado de loló misturado com maconha. Fui até o último quarto, que ficava bem no fundo, e trombei com o Fer de novo. Agora vestindo a bermuda, meio de qualquer jeito. Assim que me viu, ele me abraçou, quase caindo de bêbado.
 
_C-cê viu a Mia? – perguntou, falando arrastado.
_Não sei. Foi pro lado da sala, acho...
 
Entrei no quarto e ele voltou pelo corredor. O cômodo inteiro estava numa marofa desgraçada. Tinha talvez dez, quinze pessoas ali. Fui caminhando no escuro, quase pisando em quem estava sentado no chão, até achar um outro amigo nosso, o Vini – que estava fumando uma ponta com a namorada na cama. Sentei do lado deles e pedi um trago, mas já estava quase queimando os dedos de tão pequena. Então comecei a bolar outro baseado. Puts. Como chama essa mina mesmo?, pensei, enquanto apertava a seda e olhava o Vini beijar a garota. Não conseguia lembrar o nome dela por nada. Acendi o baseado, dando um trago demorado.  
 
E aí... o quarto me engoliu.
 
Quando terminei, já com a cabeça tonta, a tal namorada estava sentada no colo do Vini, nuns amassos ao meu lado que nem vi quando começaram. Não sabia se tinham passado 15 ou 40 minutos. Como diabos eu vou trabalhar amanhã? Puta que pariu, passei a mão no rosto e dei uma olhada para o lado, vendo o meu amigo agarrar as coxas da garota e subir as mãos por debaixo da sua saia – e foi quando me dei conta de que ela estava sem calcinha. Ah, não. Nem a pau. Não ia dar para ficar ali de plateia.
 
Me levantei e pisoteei uns três ou quatro até chegar na porta, já consideravelmente chapada. Aí me espremi entre as pessoas no corredor. Entrei brevemente na cozinha para pegar mais uma latinha de cerveja e logo voltei para a sala, onde o rádio gritava Exploited no último volume. Virei o primeiro gole e, quando olhei para frente, vi a Mia no sofá – aos beijos.
 
Com outra garota.

fevereiro 25, 2012

E o capeta

_Relaxa... – balancei a cabeça e aí olhei para o que quer que fosse que a Mia estava tomando, achando certa graça – ...mas cê num acha que devia pegar leve, não?
_Isso?
_É.
_Ah, meu... – riu – ...tá tranquilo.
_Sei. O que tem aí nesse copo, afinal?
_Num faço ideia.
_Jesus... – passei a mão no rosto e comecei a rir também – ...puta merda, Mia.
_Quê?!
_Nada...
_Hum. E você, não tá bebendo por quê? – achou graça – Agora só te vejo aí tomando água, cervejinha...
_Ah, sei lá. Eu tava fazendo muita merda. Aí prometi para a Marina que ia dar uma trégua...
_Hum, sei.
 
A Mia arqueou as sobrancelhas na menor menção à sua arqui-inimiga, e nós rimos. Como uma piada antiga. Era gostoso estar ali com ela, assim. Sem drama. Trégua. Me fazia sentir que havia alguma forma de deixar tudo aquilo para trás, algum dia – que o tempo ia passar e que algumas coisas deixariam de ser importantes. Sei lá. A Mia deu mais um trago e me ofereceu, enquanto as caixas de som estouravam qualquer banda punk latino-americana. Peguei o cigarro da sua mão e levei à minha boca por um momento, numa tragada rápida, o devolvendo logo depois.
 
_Bom... – ela segurou o filtro entre os dedos e me olhou, ainda se divertindo com a minha cerveja, numa referência mais a si mesma que a mim – ...pelo menos assim cê não dá vexame por aí, né.
_Que vexame? – a provoquei – Adoro que vomitem na minha mão, meu.
_Argh... – riu, colocando a mão no rosto rapidamente – D-desculpa.
_Tranquila. Tô acostumada... – fiz graça – Já cuidei de tanto bêbado que, puta merda.
_Dei muito trabalho?
_Não. Só a hora que te coloquei no chuveiro que, mano, jurei que cê ia cair. Cê num tava conseguindo ficar em pé, meu. Foi foda. E assim, né, depois de trabalhar o dia inteiro, não é como se eu tivesse muito animada para ficar debaixo de água gelada... Mas acontece, né?
_Hum... – ela tragou mais uma vez, com um sorriso de canto de boca, encarando meus olhos – ...é.
_Quê?
_Nada. Só... sei lá, e-essa parte eu queria lembrar mais.
_Ah, queria?! – dei risada – Foi bom pra você, então?
 
Falei brincando. Todavia, a Mia ergueu o queixo, me observando de volta. Seus olhos na minha boca, a sua entreaberta. Soltou a fumaça para cima, enquanto a minha pergunta pairava no ar sobre nós duas, solta. E eu juro – juro – que se não tivéssemos cercadas por tantos amigos do Fer naquela porra daquele inferninho, ela tinha vindo. Tinha colado o corpo no meu, tinha me beijado como se o tempo não tivesse passado um só dia. Cacete. Mas aí alguém passou entre nós, entrando na cozinha. E ela se controlou, por mero contexto.
 
E tendo encarado o perigo nos seus olhos, eu abaixei os meus – encerrando o que quer que fosse aquilo antes que começasse.
 
_Acho que... – desconversei – ...v-vou achar o Benatti, ainda não falei com ele. Vamos ver, né... – forcei uma piadinha, me virando para ir para a sala – ...se ele já largou do saco do seu namorado.

fevereiro 24, 2012

O inferninho

Aquilo me fez, de certo, algum bem. Estar com a Clara me fazia bem. Assim que cheguei na loja em que trabalhava, ela deu uma desculpa qualquer para o chefe e vazou comigo. Fomos caminhando até o seu prédio. E chegando lá, nos pegamos em todos os cômodos do apartamento. Um por um – só porque podíamos. “Feliz aniversário”, ela sussurrou, entre um beijo e outro. A sua roomie estava trabalhando e não tinha ninguém ali para nos julgar, exceto a gata preta da Clara, a Luna, que nos observou com certo desprezo do alto de uma prateleira da cozinha, enquanto nós duas ríamos e nos comíamos contra a pia.
 
Não voltei para casa até terça de manhã. É.
 
Dei uma passada rápida antes do trabalho só para pegar uma troca de roupa, já que naquela noite ia ter festa na casa do Benatti. Ele fazia aniversário quatro dias depois de mim – o que, quando o Fer conseguia organizar festas forçadas pra minha pessoa, significava uma semana inteira de bebedeira entre os nossos amigos. Às vezes, a comemoração era tanta que se estendia até o aniversário do Fer quase um mês depois. Tudo era desculpa pra encher a cara. E vejam bem, o meu problema com aniversários é só com o meu próprio – o dos outros eu gostava.
 
Passei o dia inteiro animada, atazanando a Clara para que fosse comigo, sem muito sucesso. “Cansou de mim?”, brinquei, enviando SMS para ela no meio de uma gravação. “Ñ! Tonta!”, ela me respondeu em seguida, “hj ñ da, dsclp! :3”.
 
Argh.
 
Fiz hora extra até tarde naquela noite e quando finalmente cheguei no prédio do Benatti, numa ruazinha perto da praça Tiradentes, já era quase hora de eu voltar para casa – isto é, caso quisesse dormir antes de ter que ir trabalhar de novo. Fico só um pouco, pensei, é terça-feira, meus amigos vão pegar leve. Mas assim que abri a porta e dei de cara com o Rafa lambendo as bolas do Fer, ali, de calça arriada no meio da sala, trêbados, cercados por uma multidão aos gritos – logo percebi que não.
 
Tá. Vai ser esse tipo de festa.
 
O Rafa era um dos melhores amigos do Fernando, estava em todas. O conhecemos por acaso nos rolês punks do ABC que a gente ia na adolescência. Era um pivete magrelo com um moicano verde, normalmente desbotado. Estava fazendo 22. Morava numa república com três outros caras e as ocasionais namoradas, num apartamento caindo aos pedaços em que eles pixaram todo tipo de merda e uns símbolos anarquistas pelas paredes. Era um inferninho.
 
Atravessei toda a marofa e a gritaria, já rindo daquele caos, e fui até a cozinha ver se descolava alguma coisa para beber. A situação era deplorável. Tinha tanta latinha e garrafa vazia espalhada pelo chão, pela mesa, pela pia que parecia que a festa tinha começado uns três dias antes. Caralho. O rádio tocava Discharge no último volume. Numa área de serviço apertada, achei o tanque transbordando de gelo – enfiei a mão e peguei uma cerveja. Abri a latinha e me virei para voltar, desviando de duas ou três pessoas na cozinha, quando vi a Mia.
 
Ela estava acendendo um cigarro no corredor, encostada na parede e, por algum motivo, só de sutiã preto. Com uns shorts rasgados e uma meia-arrastão que começava na metade da sua barriga e terminava nos seus coturnos surrados. Puta merda. Deu um primeiro trago, soprando a fumaça para o lado, depois subiu à boca um copo plástico com conteúdo duvidoso. E foi quando os seus olhos cruzaram comigo ali, saindo da porta da cozinha. Tirou o copo da boca e veio até onde eu estava, caminhando como se já tivesse tomado alguns daqueles.
 
_E aí...
_E aí... – ri.
 
A Mia encostou no batente oposto, sorrindo para mim. Era um tanto desconcertante vê-la tão bonita assim – fazia alguns meses que não a notava desse jeito. Qual o meu problema?, me repreendi. E a encarei ali na minha frente. Ela respirou fundo, aí abaixou os olhos por um milésimo de segundo, quase como se tentasse não se constranger.
 
_Obrigada... – me encarou em seguida e sorriu – ...pelo outro dia.

fevereiro 23, 2012

Despertando, de novo

Minha cabeça doía. E os meus olhos se forçavam a ficar fechados, mas a luz do sol invadia violentamente o cômodo todo. Inferno. Não tinha dormido quase nada e o meu corpo sentia o estrago em cada músculo. Ouvi uns passos arrastados no fim do corredor, depois atrás do sofá. Abri os olhos com certo custo, colocando o antebraço sobre a testa na tentativa de bloquear a luz. Argh. O Fer estava parado ali, com umas olheiras fundas e a pior cara de ressaca que já vi.
 
_Mano... – murmurou, confuso – ...cê viu se a Mia passou aí, mais cedo?
 
Devia estar indo atrás dela depois de acordar sozinho, desavisado, horas depois de toda a comoção.
 
_Ela tá no meu quarto, Fer.
_Tá? – esfregou os olhos, com uma aparência horrível.
_Tá. Eu encontrei ela caída no banheiro de madrugada, te chamei várias vezes, meu – resmunguei – Ela tava mal pra caralho – senti minha cabeça doer ainda mais e o olhei parado ali, em pé atrás do sofá – Tomar no cu você também, hein, cê não me ouviu?!?
_Não, meu. Não ouvi nada! Ela tá bem???
_Tá. Tava bêbada só – me sentei, desconfortável – Vomitou várias vezes, troquei a roupa dela e ela capotou na minha cama.
_Eita. Vou ver se ela t...
_Não... – o interrompi – ...deixa ela dormir, meu.
_Nossa. A gente encheu a cara ontem, mano...
 
Ah, cê jura.
 
_...mas num sabia que, que tinha sido tão, sei lá... – ele passou a mão na nuca, preocupado – ...e-ela, ela parecia bem quando a gente foi dormir, mano, mas que... q-que merda! Caralho.
_Tá tudo bem, Fer.
_E cê dormiu aí, meu? Porra, zoado – lamentou – Foi mal. Temos que ir almoçar em algum lugar da hora hoje pra compensar...
_Não, meu. Deixa.
_Mas a gente não vai comemorar seu aniversário, pô?
_Acho que vou lá na Clá...
_Hum. Aí fica complicado, né...
_Como assim?
_De competir... – ele riu, fazendo graça – ...com essa comemoração sua aí.
_Cala a boca!
 
Me levantei e passei por cima do encosto do sofá, rindo, dando um tapa atrás da cabeça do Fer. Então nos separamos – ele foi para a cozinha e eu fui até o meu quarto. Entrei tentando não fazer barulho. A Mia continuava dormindo na cama, apagada. Caminhei até o armário e abri uma das gavetas cuidadosamente, pegando uma cueca e a vestindo em silêncio. Daí troquei de camiseta e coloquei uma bermuda, depois alcancei um moletom na prateleira de cima.
 
Assim que o vesti, passei a mão pelo meu cabelo bagunçado e observei a Mia, por um instante. Era estranho vê-la ali. Na minha cama. Dormia afundada no meu travesseiro, sequer conseguia ver o seu rosto. Meti as mãos nos bolsos do moletom, a olhando dormir por uns segundos. Tinha as pernas tatuadas meio descobertas pelo lençol, na minha camiseta dos Stooges amarrotada. Respirei fundo – me sentindo estranha.
 
E aí saí.

fevereiro 21, 2012

[ CONTEÚDO EXCLUSIVO ]

AVISO: Os próximos 2 posts foram escrito exclusivamente para o livro do Fucking Mia e não estão disponíveis aqui. Os títulos são "Perdendo o sono" e "No sofá".
 
O livro do Fucking Mia está sendo preparado com muito carinho, em comemoração aos 10 anos de blog. O novo conteúdo está sendo escrito desde meados da pandemia e a ideia é lançar em breve! ♥
 
Se você quer ser avisada(o) sobre o lançamento do livro, deixe seu e-mail aqui:
 


fevereiro 20, 2012

2:40

“To indo dormir, bo... vms se ver amanha? qro te dar parabens, sua azeda :)”. A Clara era a única capaz de me fazer sorrir no estado de exaustão que eu me encontrava, largada no banco de trás de um táxi. O carro já se aproximava da Frei Caneca. Na tentativa de ultrapassar todos os bêbados que se aglomeravam em frente aos bares da Augusta, em plena madrugada, o motorista se via forçado a ir lentamente e o trajeto parecia não acabar nunca.
 
Assim que chegou no meu prédio, paguei o cara e arrastei os pés até o elevador. Subi até meu andar, meio escorada no espelho, lendo as mensagens de amigos e ligações que perdi durante o dia. Meus olhos já estavam embaçados de tanto cansaço. Sentia como se tivesse sido atropelada por um trem e o pior é que não podia ir direto para a cama. Preciso comer, pensei, senão ia dobrar de fome, puta merda. Estava faminta. E como já eram quase três da manhã, as opções de delivery eram consideravelmente limitadas. Decidi checar na geladeira primeiro, rezando para ter qualquer merda que desse para esquentar ali.
 
Arroz velho e meio pedaço de pizza, argh.
 
Tirei os dois dali e os coloquei num prato, metendo-o no microondas por quarenta segundos. Que se dane, vai isso mesmo. Não tinha condições de esperar uma entrega de sabe-se-lá onde, já estava caindo de sono. Sentei na mesa da cozinha e comecei a mandar pra dentro a refeição mais deplorável da minha vida. Olhava para aquele arroz seco no prato, escorregando pelos dentes do garfo, sem nem um feijãozinho para ajudar e me dava pena de mim mesma. Lamentável.
 
Engoli tudo como deu. A coisa toda não demorou mais do que uns minutos, desde a porta até a última garfada. Larguei o prato sobre a pia e fui até o banheiro, com os olhos já quase se fechando conforme caminhava pelo corredor. Assim que abri a porta, todavia, a luz já estava acesa. Estranho. E foi quando vi a Mia num camisetão cinza, caída no chão, desacordada.
 
_Mia? – a olhei ali, confusa – Mia!

fevereiro 19, 2012

24

Na sexta daquela semana, todavia, veio a má notícia – era o meu aniversário.
 
Chamem de inferno astral, azar sazonal, azedume, me acusem de ser rabugenta, que seja – mas eu sempre me fodo nos meus aniversários. E esse ano não parecia que ia ser diferente. Trabalhei como uma condenada a semana toda numa série de ações publicitárias. E de todos os dias em que podia cair a maior gravação da porra da campanha toda, é claro que tinha que ser na sexta. Sério. Odeio aniversários.
 
Meu despertador tocou às 5 da manhã para que eu conseguisse chegar a tempo no set, que ficava pra lá de Interlagos. Amanheci tão sapatão quanto todos os outros dias da minha vida – com a diferença de que, agora, eu podia me dizer oficialmente viada. Aquela era a minha 24ª volta ao redor do Sol. E começou sem um pingo de luz, pisando para fora de casa enquanto ainda estava escuro para pegar a primeira de três conduções.
 
Inferno.
 
Meu azar em aniversários era tanto que, com o tempo, parei de comemorar. Não falava para ninguém, não fazia festa – sequer colocava nas redes sociais. Então, naquela manhã, quando finalmente cheguei no estúdio onde seria a gravação, quase duas horas de trânsito depois, tratei de ficar bem quieta para que nenhum colega meu descobrisse. Deus me livre ser vítima duma festinha de firma, pensei, enquanto colava o cronograma na parede do set.
 
As únicas pessoas que sabiam da infeliz data eram as já que me conheciam há tempo suficiente – como a Marina, com quem eu tinha um acordo de “comemorar” fora de época. Ainda assim, ela foi a primeira a me enviar um SMS de manhã, me desejando um “feliz não-aniversário”. Ha-ha, engraçadinha. Passei o resto do dia de um lado para o outro, resolvendo pepino atrás de pepino. Absolutamente tudo o que podia dar de errado naquela merda de gravação, é óbvio, deu – de ator atrasado a objeto de cena faltando e iluminação quebrada no meio da tarde.
 
Para piorar, o buffet esqueceu de mandar uma porra de opção vegetariana, apesar dos meus insistentes pedidos duas semanas antes. Fui obrigada a sobreviver o dia todo à base de amendoim e cigarro. Vai tomar no cu. Lá pelas 6 da tarde, numa das minhas pausas para fumar, senti o meu celular vibrando. Era uma mensagem da Clara, inteira em caixa alta “ENTÃO C Ñ IA ME CONTAR Q EH SEU CUMPLE, BO?? EH ASSIM??! KKKK”. Era só o que me faltava. Respirei fundo e meti o telefone de volta no bolso, desejando que aquele dia acabasse logo. Mas espera, estranhei, como diabos ela sabe?
 
Peguei o celular de novo e disquei, furiosa:
 
_PODE PARAR! – ordenei.
_Parar o quê, mano?!
_Fernando, eu não quero festa!
_Mas do que cê tá falando? – ele riu do outro lado da linha, nitidamente culpado – Que festa, meu? Eu, hein... Hoje é algum dia especial por acaso?
_É SÉRIO, PORRA! NEM VEM!
 
Todo ano, mano. Todo maldito ano, eu pedia a mesma coisa. E todo ano, um atrás do outro, o Fer me ignorava e organizava uma noite de bebedeira com os nossos amigos. Fala sério. Mais cedo naquela semana praticamente implorei para que ele não fizesse nada e expliquei que estaria ocupada. Mas o fato de a Clara ter sido informada no meio da tarde sobre a data só poderia ter o dedinho fofoqueiro do Fernando envolvido. Ahh, desgraçado.
 
_Fer, eu vou trabalhar até tarde, mano – resmunguei – Já são seis e a gente num tá nem perto de acabar aqui...
_Deixa de ser cuzona. Vem logo pra casa e a gente vai tomar umas, vai.
_Não posso! Tô numa puta gravação importante, meu. Não dá, real!
_Foda-se. A gente espera cê sair...
_Fer, na moral, não dá. Não sei nem que horas vou chegar em casa, porra... Provavelmente só de madrugada!
_Velho, é seu aniversário! – ele argumentou, indignado – Fala pra sua chefe que é uma emergência e vem tomar umas com a gente, meu. Vai! Comprei um whisky pro cê... Pode ser só nós mesmo, a Mia já tá vindo aí...
 
Agora é que não quero mesmo.
 
_Não vai rolar, Fer. Desculpa. Eu nem tô bebendo direito, meu... – o desencorajei – Deixa quieto, sai só vocês. Hoje não rola...
 
E contrariado, entre um xingo e outro, meio brincando, o Fer se contentou a me desejar feliz aniversário e então desligou. Ufa.