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março 11, 2012

Estrondo

_O que aconteceu?! – a Clara perguntou, como se acordasse num susto – Ouvi um barulho, a porta batendo com forç...
 
A interrompi com um abraço, subindo na cama, me apertando contra o seu corpo no escuro. Me perdoa. Me perdoa, por favor, a abracei, sem dizer nada. Me perdoa. Me arrependia de cada passo errado, idiota que eu dava, argh, cacete, numa recorrência autodestrutiva de merda, furiosa comigo mesma, arriscando magoar a única garota que realmente me importava. Como eu sou burra, porra. Apertei os braços ao redor da Clara. Inferno. E os meus pensamentos dispararam. Se atropelavam, pareciam desmoronar sobre mim, maldição. Numa vontade louca de gritar, de chorar, mas engolia, quieta – tentando conter a minha raiva, minha fragilidade, dentro do meu peito. E a Clara também permaneceu em silêncio, me segurando ali no escuro. Os lençóis estavam desarrumados e eu sabia que era injusto, sabia. Mas deitei ao seu lado e ela se aninhou no meu ombro. Eu não te mereço. Não queria soltá-la nunca mais. Deslizei as costas da mão pelo seu braço, acariciando o seu rosto. Que diabos eu fui fazer? Meus pensamentos seguiam vertiginosos, me consumindo por dentro, mas me acalmava tê-la, assim, perto...
 
...enquanto deixava a Mia lá, do lado de fora.

março 07, 2012

Partidas

“Me beija”, sussurrou no meu ouvido, conforme eu a subia no meu colo, a pressionando contra a parede. You let me violate you. Mordi a ponta do seu queixo e fui arranhando os dentes pela linha do seu maxilar, pelo seu pescoço. A sua pele ia marcando com facilidade, nuns chupões, enquanto eu arrancava a sua calcinha. Filha da mãe. Me agarrou pelo cabelo, me puxando para si e eu a beijei, a empurrando contra os ladrilhos duros. You let me desecrate you. Rudes – eu, ela. Meus ombros sustentavam os seus braços, as pernas ao redor do meu corpo. Puxei a calcinha até o meio das suas coxas, num movimento arrogante; e ela se inclinou. You let me penetrate you. Encaixou o quadril nos meus dedos e suspirou, gemendo – cacete. As minhas mãos, pudera, já estavam sujas no instante em que entraram nela. Enxarcadas. Suas pernas nuas, abertas, se apertavam contra mim. You let me complicate you. Minha língua percorreu a curva do seu pescoço, imprestável. Alcançando a sua boca de novo e ela pressionou o meu braço, conforme eu ia cada vez mais fundo, mais forte. (...) Puta merda, me desconcertei por um instante, no calor do momento. Me perdendo nela. Caralho. Senti a minha pele esquentar, cada vez mais, mais molhada, a escutando sussurrar baixaria no meu ouvido, me falando o que eu queria, agarrando a minha regata e me puxando, enquanto eu a fodia. Suas mãos subiam pelas minhas costas, me arranhando a pele. E eu me contraía, tentando me conter. Inferno. Numa vontade desgraçada dela. (...) Epifania estrondosa, violenta. Contra a parede. Ela me olhava, agora, direto nos olhos. E a sua respiração escalava, crescia ofegante; os seus lábios entreabertos. I wanna... Murmurou algo, entre um fôlego e outro, inebriada, prestes a gozar; entrelacei meus dedos no seu cabelo, com força, ela fechou os olhos e os abriu, ainda fixos em mim, se contorcendo de tesão... fuck you like... A segurei por dentro, movendo meus dedos do jeito que ela gostava, a sentindo ali, suja, a um segundo de explodir na minha mão... an animal... Ambas, tensionadas entre si, como eu te quero, filha-da-puta. O ar se suspendeu, num começo demorado de orgasmo. Com seus olhos nos meus. Segurei a sua boca para que não fizesse barulho e a encarei, vem. Todas as cores, de repente. Suas pálpebras se fecharam por um segundo... I wanna feel you from... num prazer nostálgico... e perigoso... the inside... os segundos se esticaram, prolongados.
 
(...)
 
Então os meus pés, descalços contra o piso frio, e as costas dela, na parede de ladrilhos, descontraíram-se. Aos poucos. Lentamente, ela suspirou, retomando a respiração, voltando a si. E então eu me dei conta do que tinha feito.
 
Merda.
 
Ergui o queixo, a encarando – com raiva de mim mesma, dela. Puta merda. A Mia sorriu e se moveu para frente, para me beijar, mas eu me afastei. Tirei a minha mão dela e desencostei nossos corpos, dando um passo na direção contrária. Não. Não, não, não. Inferno. Ela me olhou, sem entender, na mesma posição em que eu a deixara. Ainda atordoada, recuperando o fôlego apoiada contra a parede. Eu sou uma idiota. Uma porra duma idiota, o que eu fui fazer?! Senti a minha consciência pesar, como um soco no estômago, caralho. O meu coração acelerou, embriagado, e eu sabia – sabia que a Clara estava deitada no meu quarto, do outro lado do corredor. E eu, puta que pariu, e-eu não queria estar ali, com a porra da Mia. De novo, não. Não! Esfreguei a mão no rosto, angustiada. As mãos dela subiram a calcinha pelas pernas, meio sem jeito, constrangida. E antes que pudesse dizer qualquer coisa, eu saí. Irascível, que se foda. Deixando o silêncio e a porta escancarada para trás.
 
Já não tinha o que fazer ali.

março 06, 2012

Vem

Naquela noite, ainda que acompanhada da Clara, eu não consegui dormir. Só fecha os olhos, inferno, eu me revirava na cama. Mas algo me mantinha acordada. Por mais que lutasse contra, sabia que uma parte significativa da minha insônia tinha o dedo da Mia. A sua presença desconcertante ao meu lado no teatro, os seus malditos beijos na garota da festa. Merda. Buscando silêncio na ponta dos pés, me levantei e saí para o corredor, encostando cuidadosamente a porta do quarto. Esqueci de pegar o cigarro, mas... deixa, tarde demais.
 
Na cozinha, o relógio marcava quase três da manhã e os ponteiros ecoavam ritmadamente seus tics-e-tacs pelo cômodo vazio. Todos, exceto eu, naquele apartamento dormiam. A luminosidade da madrugada agitada na Frei Caneca entrava à surdina pelos vitrôs abertos sobre a pia, me dispensando de acender o interruptor. Caminhei no escuro, apenas eu e os meus pensamentos angustiados, e abri a geladeira. A luz forte me doeu os olhos. Observei as garrafas enfileiradas aleatoriamente na porta até chegar numa de rum, quase cheia e esquecida ali. Fazia alguns meses que não a bebia. , vamos lá. Sentindo o vidro gelado entre os meus dedos, voltei à mesa da cozinha. E com gestos sonolentos, acendi a luz na parede, empurrando a cadeira sem muita delicadeza. 
 
Me sentei ali, com a garrafa em frente a mim, e enchi um copo. A Marina vai me matar, pensei. Estou perdendo o controle. Mas virei de uma vez e o primeiro gole desceu gelado – esquentando a minha garganta. Me invadindo assim, aos poucos. A minha cabeça ia e vinha nos acontecimentos daquela noite, daquela semana. Daquele ano. Horas antes, a Clara tinha reclamado, incomodada com a atitude da Mia no decorrer daquela noite, ainda que não tivesse percebido todos os desdobramentos. “Essa garota só quer tanto sua atenção porque você não é mais dela”, disse, antes de deitarmos. E eu sou sua, então?, me inquietei.
 
Mas sabia que era ela quem tinha razão – não a Mia. 
 
Não?
 
A ideia me incomodava. Era o que me mantinha acordada. Respirei fundo, angustiada – eu não queria a Mia de volta. Isso eu sabia. Tinha certeza. Que não queria a confusão, a traição, não queria toda aquela merda de novo. Mas não conseguia agora, insone, tirar o meu pensamento da minha cabeça, me afastar das suas mãos. Do atrevimento silencioso dos seus dedos, céus. Por que? Podia senti-los, ali, tão reais e intencionados, na minha pele, sozinha na cozinha. Iam deslizando em mim, numa memória sensorial, sem intenção ou controle. Não, não faz isso, cacete, eu implorava pra mim mesma. Mas ainda assim eles seguiam, a pontinha do seu indicador, encostando na minha mão. E meus dedos escorregavam pelo copo suado, frio, sobre a mesa da cozinha, lembrando perigosamente de todas as vezes em que as mãos da Mia correram assim por mim. Pelos contornos do meu corpo, da minha boca, descobertas, no chão frio do banheirinho da sua casa, do seu quarto, do meu, no andar escuro da Sarajevo, nas ruas do Itaim. Caralho. A sensação ia me tomando lentamente. Insólita. A sua memória, arrebentando cada centímetro de mim. 
 
Não. O meu peito contestou, doído. Por que, p-por que eu faço isso?, apoiei os braços na mesa e pressionei as mãos contra a minha cabeça. Puta merda. Baguncei o meu cabelo, me desesperando. E-ela, ela nunca lutou por você, tentei me convencer, me agarrando à raiva que sentiaNas madrugadas, às vezes, era pior – aquela nostalgia burra e meio impensada do peso dela dentro de mim, do amor que eu tinha pela Mia me ocupando. Denso, em todo o coração. Nem sempre o seu corpo quer a leveza que conquista, entende? 
 
Mas não, você não. N-não tem direito, garota. O meu copo se esvaziava, me embriagando aos poucos. De me tirar isso, de me roubar a paz. E o que me incomodava mesmo era a proporção. Do quanto a Mia, de fato, fizera naquela noite e o quanto era eu quem permitia. É, “permitia”. Essa era a palavra – pois permitia que entrasse de novo em mim, que me afetasse. Parte da culpa era minha, sim. Ainda que não tivesse movido um milímetro em sua direção. E como poderia? Agora que não te quero, agora que não me importa mais, não é, merda, virei o segundo copo, agora você vemMas eu não quero mais, Mia. O seu drama, as suas incertezas, as suas idas e vindas com o Fer, comigo, não é mais problema meu. E eu não quero. Agora que me livrei de você, eu sei. Sei o quanto me faz mal e não quero, porra.
 
A mera ideia de perder a amizade com o Fer ou o que eu tinha com a Clara me embrulhavam o estômago, me fazendo arrepender de sequer olhar na sua direção, lhe dirigir a palavra. Não vale a pena, enchi mais uma vez o copo, começando a perder a conta. E balancei a cabeça, amarga, já com o copo vazio de novo em mãos. Não, não vale, repetia para mim mesma. Como um mantra. E ainda assim não conseguia tirar da cabeça os seus beijos na droga da festa, ou pior. O que fez naquele banheiro. Num refluxo de emoções, tomada por uma angústia dilacerante, inferno de garota. Senti então que precisava reassumir o controle da situação, da minha vida. Já estava no meu quarto, quinto copo, não sei. Com os olhos secos, insones. Chega.
 
Já se ia quase uma hora ali, sentada e ridícula. Suspirei, empurrando um último gole, matando os dois dedos de rum restantes no copo, e me levantei. Me sentia exausta. Num desgaste emocional, dor de cabeça, tudo junto, sei lá. Preciso parar com isso. Com aquela mania de confusão, aquela dependência do caos, da dor, numas obsessões recorrentes demais de madrugada, sozinha na porra da cozinha e sem saber parar. Peguei a garrafa em mãos, já não tão fria quanto antes, e a devolvi à geladeira. Voltaria aos lençóis compartilhados com a Clara. Mais uma tentativa de dormir, uma última. Talvez o álcool ajude, pensei. É. Apaguei a luz da cozinha e saí para o corredor escuro, mas quase no mesmo segundo ele se acendeu. 
 
O qu...? 
 
Do outro lado, saindo do quarto, a Mia tomou um susto ao me ver. Parada ali. O que diab...?, os meus pensamentos demoraram alguns segundos para assimilar, já um tanto bêbada e inconsequente. Os seus olhos grandes, e castanhos, me encaravam de volta, como um veado paralisado em frente aos faróis dum carro, a sua respiração suspensa. Com a mão ainda no interruptor, terminou de fechar a porta atrás de si – tinha as pernas descobertas num camisetão branco do Fer. Ela está acordada. E aqui. Caí em mim. E assim que o fiz, todo o rancor voltou, me inundando violentamente, a minha expressão mudou – ficando séria. E o silêncio entre nós se esgotou tão rápido quanto surgiu.
 
_Sabe, eu queria entender... – disparei na sua direção, meio estúpida – ...QUE MERDA se passa pela sua cabeça que cê tá por aí pegando mina – a encarei, arrogante – Que é?! Tá com saudade de beijar mulher agora?!
_Você sabe muito bem o que é.
 
Ela não recuou. Seus olhos pegos de surpresa rapidamente se fixaram nos meus, me encarando de volta sem se deixar intimidar pelas minhas palavras – enxarcadas de rum, de ressentimento. Me enfrentando como se não tivesse nada a perder.
 
_Sei? – ri, de nervoso – Me diz, então. O que é que eu sei, Mia?
_O que eu quero.
 
Senti o meu maxilar se contrair. E as palavras escaparam entre os meus dentes, amargas:
 
_Quer saber, não. Não sei! E-eu... – passei as mãos no rosto, perdendo a cabeça – ...eu não tenho IDEIA d-de PORRA NENHUMA, Mia! NADA! Porque ainda é com ele... – baixei a voz momentaneamente – ...que você vai dormir toda maldita noite, não é?! – senti as lágrimas de raiva me doendo a garganta, embriagada – Então, não, não sei. Não sei! Não sei NADA DO QUE SE PASSA NESSA MERDA DA SUA CABEÇA! EU NÃO TENHO IDEIA DO QUE VOCÊ QUER!!
_TEM! TEM, SIM!! – ela ergueu a voz de volta.
 
E eu perdi o controle. 
 
TENHO?!? EU TENHO???, me revoltei. E o que é??!? Eu?! SOU EU, PORRA?! A minha respiração foi ficando pesada, cada vez mais carregada pelo que eu não conseguia suportar dentro de mim, o pouco que sobrou de nós depois de todo estrago e eu quis, quis que ela sentisse tudo o que tinha me custado. É isso?! DE REPENTE, EU VALHO A PENA?! De repente, você quer ficar comigo?!??  Os meus pensamentos gritavam tão alto que a Mia quase os ouvia. Seus olhos se perdiam nos meus, depois de tudo?? Simples assim, não é?!, senti o meu coração disparar, de repente não tem problema, não te importa mais o Fer, a porra do seu namoro?? De repente, tudo bem colocar tudo a perder na frente dele?? Da Clara?? De todo mundo?? Na droga do teatro, numa festa lotada com todos os nossos amigos?! Que se foda, né?!, comecei a ir na sua direção, num impulso. É ISSO?? É ISSO, MIA?! Fui, sem pensar. Por todos os seus nãos, as suas meias palavras. Por toda aquela merda do caralho, os seus erros, os meus. Todos eles. E pelos acertos. Pelo tanto que eu a quis por tanto tempo e pelo tanto que, desgraçada, eu a queria naquele instante. Pelas suas pernas descobertas naquela droga de corredor, pelo seu gosto na minha memória. Pelo desgosto também. Pela dor que eu nunca realmente deixei de sentir. Então tá, garota, a empurrei para dentro do banheiro, batendo a porta atrás de nós duas, quer ser sapatão?! 
 
Então, vem.

março 03, 2012

Bulletproof

_Fica aí dois segundos, cacete! A gente já volta... – o Fer reclamou, rindo – ...não vou roubar a menina, porra!
 
A gente tava naquela dança infeliz desde que chegamos no teatro. Ele tentando me deixar sozinha com a Mia, para “sondar” sobre a garota da festa, e eu querendo ficar o mais longe possível dela – pelo mesmo motivo. Porcaria. Agora, meu amigo arrastava a Clara para buscar pipoca com ele, insistindo que eu e a Mia ficássemos para guardar os lugares na fila. Eu sei o que você está fazendo, encarei o cachorro do meu amigo.
 
Agia como se eu estivesse fazendo grande caso daquilo e fui obrigada a ficar quieta – não tinha um motivo aceitável para não querer ficar. Então assisti, conforme ele e a Clara se afastavam, nos deixando ali. Eu e a Mia, é. Argh. Faltava vinte minutos para a peça começar e umas quarenta pessoas já se aglomeravam em frente ao teatro, falando alto. Abaixei o olhar, observando fixamente os meus All Stars contra o chão de concreto, tentando não dar nem um segundo de atenção para ela. Todavia, sentia que me olhava.
 
E como num pesadelo que se concretiza rápido demais, assim que ficamos sozinhas, a Mia alcançou a minha mão – “quero falar com você”. Me afastei imediatamente.
 
_Não tenho nada pra falar com você.
 
A olhei, com rancor, por um segundo antes de voltar os olhos para o lado, para as pessoas na calçada, cruzando os braços.
 
_Por favor – a Mia insistiu.
 
E eu me segurei. Sem olhar na sua direção, sem dizer uma só palavra. Porque sabia que se o fizesse, se ousasse abrir a boca ou sequer virar o rosto na sua direção, se a visse ali, era capaz e me deixar tomar pela raiva louca que sentia queimar no meu peito e falaria alguma besteira da qual me arrependeria depois. Não posso perder o controle, pensei, ciente de que a Clara e o Fer não estavam longe, não aqui, inferno. Mas meu coração acelerava, por mera proximidade dela. E a Mia ainda me encarava, com seja lá o que fosse engasgado em seus olhos.
 
_Eu... – retomou, após algum tempo desconfortável de silêncio – ...e-eu só queria d...
_Eu vou achar eles.
 
A interrompi, saindo da fila.
 
Não quero saber. Caminhei na direção do carrinho de pipoca e a Mia ficou parada no meio da fila, me olhando.  A calçada estava cheia de intelectuais paulistanos, amantes de teatro. Assim que dei alguns passos, vi o Fer e a Clara voltando já com as pipocas em mãos. Os encontrei no meio do caminho e o Fer me encarou sem entender – como se eu tivesse acabado de desperdiçar uma oportunidade e tanto. Não vou fazer isso, que se dane, pode esquecer!
 
Voltamos para a fila e, de maneiras pouco perceptíveis aos demais, o contexto se agravou. Naquele breve período de espera frente ao teatro, é, com a insistência dos olhos da Mia em me procurar. Em todas as brechas, a cada oportunidade que tinha. Isso já tá beirando o absurdo. Eu virava o corpo, incomodada, e me voltava à Clara, fingindo que nada acontecia. Ela me abraçava, desavisada, conversando com o Fer sobre um VJ da MTV que vivia nos rolês da Augusta e que os dois conheciam através de diferentes amigos em comum. A Mia ainda me olhava. Não sei ao certo se eu era realmente tão boa mentirosa ou se a Clara já tinha percebido a patifaria toda e optado por não se envolver. Sinceramente não sei o que é pior, refleti, torcendo para abrirem logo as portas do teatro.
 
Quando enfim entramos, o Fernando logo se apressou para entrar primeiro na fileira, sendo seguido naturalmente pela Mia. Calculista do caralho. Rapidamente, fiz um gesto para que a Clara me passasse e fosse atrás deles, mas ela se recusou. “Não vou sentar do lado dessa garota”, cochichou, “ela não vai com a minha cara”. Inferno. Suspirei, me sentindo encurralada, , e entrei na sua frente. A contragosto. Satisfeita com sua pequena vitória, a Clara me seguiu e se sentou na outra ponta.
 
Ótimo.
 
Ficamos o Fer, a Mia, eu e depois a Clara – e eu não consegui me mover direito a peça inteira. Mal respirava. Durante as suas longas duas horas, senti que a Mia me olhava. Aquilo começou a me tirar do sério, digo, a sua atitude. Vai ser assim a noite toda?!, suspirei e me esforcei para olhar para frente, sem conseguir prestar atenção direito na peça. Do outro lado da cadeira, eu segurava as mãos da Clara, com os dedos entrelaçados nos seus. A Mia os observava, nos observava. Insistentemente. Só me deixa em paz, minha cabeça implorava, maldição. Mas ela não ia embora – a sua atenção, sua intenção, os seus olhos em mim o tempo todo. Puta merda. De tempos em tempos, a Clara comentava a peça comigo. Eu a olhava e forçava um sorriso amarelo de volta, tentando focar nela, no Gui, no palco, em qualquer outra coisa. Mas a minha respiração seguia suspensa.
 
Até que, de repente, senti a Mia encostar em mim.
 
Ah, não. Nem a pau. Me ajeitei na cadeira, desejando que se fosse um engano das suas mãos. Querendo mesmo acreditar que aquele milésimo de segundo havia sido sem intenção. Um descuido, dela. Mas então ela voltou. A Mia, é. E outra vez pude sentir a sua pele na minha, tão deliberadamente. Colocou a ponta do indicador sobre as costas da minha mão, num toque suave. E inconsequente. Com o Fer ao seu lado, a Clara ao meu, você perdeu a cabeça, porra?! Aquilo ultrapassava todos os limites. E ainda assim, ela foi. Deslizando lentamente o dedo sobre a minha mão, nuns centímetros intermináveis de carinho.
 
Minha respiração congelou. E eu respirei fundo, atravessada, sentindo como se tocasse além de mim. Dentro de mim, droga, como se sua mão esbarrasse de leve no nosso passado. Um incômodo me subiu pelo corpo, pela garganta – e pensei que a ânsia ia me expor ali mesmo. Imediatamente me veio à cabeça a memória dela com a garota na festa. Se atracando. O rancor tomou conta de mim. Senti que o meu coração ia sair do peito, filha-da-puta.
 
Não.
 
Afastei a minha mão, num movimento grosseiro, e cruzei os braços frente ao corpo. Impermeável. A Mia se encolheu na sua cadeira. E me olhou, mas os meus olhos permaneceram fixos no palco. Me recuso a participar disso.

março 01, 2012

Pretensão, inevitável

“I wanna be your last, first kiss
That you'll ever have”
(Anberlin)
 
Eu fumava, um atrás do outro.
 
Os minutos passavam devagar, sozinha no meu quarto. A Clara chegaria a qualquer momento e o apartamento tinha o seu silêncio perturbado pelo som do Fer martelando a mesinha de centro da sala – um dos suportes estava solto. E ali dentro, de um jeito intragável, a Mia não saía da minha cabeça. Desgraçada. A beirada da janela já acumulava cinzas o suficiente para me matar. Dum câncer no pulmão, do que fosse, qualquer coisa é melhor do que essa merda. O meu coração dava voltas, inquieto. E os meus olhos se fixavam na calçada imunda da Frei Caneca, naquelas árvores e nas pessoas que eu nunca iria conhecer. Por que não consigo simplesmente deixar pra lá?
 
Me incomodava como a Mia me afetava. Mas afetava – os seus beijos, o que fez com a outra garota no banheiro. E continuava me afetando quase dois dias depois do ocorrido, numa incapacidade de esquecer o que tinha acontecido na festa. Cacete. Me despertei daquele estado reflexivo, martirizante, ao ouvir tocar a campainha. A Clara chegou. Chega dessa merda. Apertei contra a madeira o último cigarro de uma série nada saudável e o joguei pela janela. Eu não ia tornar a situação pior do que já era e me recusava – r e c u s a v a – a transparecer o caos dos meus pensamentos para a Clara, que nada tinha a ver com aquela confusão toda.
 
Saí no corredor de jeans e regata cinza. Passei pelo Fer na sala, vendo-o terminar o reparo sem camiseta, com as tatuagens todas à mostra – e me irritei com aquela demonstração desnecessária de testosterona, sem paciência com ele. Com a sua mera existência, é. Abri a porta e a Clara sorriu assim que me viu, me beijando e me resgatando quase imediatamente daquela amargura. Parecia que fazia semanas que eu não a via.
 
_E aí... – virei e olhei para o Fer, o acelerando – Vamos?
_Vamos! – ele se levantou, largando o martelo sobre a mesa – Deixa só eu pôr uma camiseta lá... Aguenta aí!
 
Apoiei o corpo no batente da porta, observando a Clara na minha frente. E ela sorriu. Estava com saudades, garota. Senti o algodão da minha regata deslizar suavemente pelas costas da minha mão, metida debaixo da blusa, escorregando à toa sobre a minha barriga. A Clara e eu nos olhávamos, em nossas eternas reticências, e ríamos. “E aí, hein?”, ela fez graça, esbarrando a ponta da sua bota contra o meu coturno. Nutria um carinho descomplicado por ela, não sei. Nos gostávamos – e isso, de repente, me bastava para aguentar duas horas no teatro com a droga da Mia.
 
Talvez não seja tão ruim, me convenci.
 
Entramos no carro alguns minutos depois, os três, e dirigimos por uma São Paulo congestionada, em plena noite de quinta, até as ruas de Higienópolis. Ao estacionarmos em frente ao prédio da Mia, que eu bem conhecia, o Fer ligou duas vezes para ela. Sem sucesso. Desceu então do carro, já irritado, indo à portaria para pedir que interfonassem no apartamento. Aí voltou e se sentou de novo atrás do volante, batendo a porta.
 
_Inferno! – resmungou.
 
O meu braço estava ao redor da Clara, no banco de trás, quando a Mia finalmente saiu pelo portão. Absolutamente linda. Filha da mãe. Era como se fizesse de propósito – numa skinny e jaqueta pretas, com o cabelo castanho jogado para o lado. Merda, me afundei no banco, sentindo a raiva voltar. E a contragosto, a observei entrar no carro. Não parecia feliz ou disposta a ir. Se sentou no banco, ao lado do Fer, mas não o beijou ao entrar. O carro mal deu partida e ela logo se virou para trás, na minha direção. Sem sequer se dar ao trabalho de disfarçar.
 
Me olhou com os seus olhos castanhos, amendoados. Descaradamente. Você não tá facilitando, garota. Me ajeitei no banco, desconfortável, presa naquele carro com o Fer, a Clara, a Mia e a porra da garota da festa, inferno, que agora não saía da minha cabeça. Argh. Parecia querer me dizer algo, a Mia, digo, mas eu não queria ouvir. Nem a pau. Virei os olhos para fora do carro, fugindo dos seus. Senti que não ia conseguir não transparecer o rancor entalado na minha garganta, que dirá aguentar uma noite toda ao seu lado – e a gente mal tinha saído do seu quarteirão.

fevereiro 28, 2012

"Típico"

Cheguei em casa às 5:37 da manhã e não dormi porra nenhuma. Ao invés disso, tomei um banho para acordar, bebi meio litro de café e saí para trabalhar virada. Que se dane. Aquela quarta-feira se arrastou dum jeito insuportável. Passei cada minuto com dor de cabeça e irritada, estava num humor de merda. Inferno. Fui incapaz de trocar mais do que duas mensagens com a Clara – não estava no clima. E depois das horas extras usuais, exausta, voltei para casa e fiz um jantar com o que achei na geladeira.
 
Assim que sentei para comer, no entanto, o Fer entrou na cozinha. Argh.
 
_Ah, aí tá você... – ele disse, indo vagarosamente até o fogão para espiar o que havia dentro da panela.
 
Com a tampa na mão, pegou um ou dois pedaços de batata cozida e colocou na boca, sem se dar ao trabalho de se servir. Então veio na minha direção, como quem não tem nada melhor para fazer numa noite infeliz de quarta, e se sentou na cadeira em frente à minha.
 
_Pô. Cê sumiu ontem, mano... – comentou do outro lado da mesa, se ajeitando na cadeira – ...achei que cê ia embora com a gente.
_Ficou tarde – resmunguei, de boca cheia – Precisava trampar.
_Cê tava lá quando baixou a polícia?
_Não...
_Acho que era umas sete. Nossa, fiquei mó cara te procurando, meu... – pôs os braços sobre a mesa e aí sorriu – ...mas, pô, foi do caralho essa festa.
_Hum... – murmurei, sem paciência.
_Mano, rolou uma parada... – se curvou para frente para contar, animado – ...cê num tem ideia.
 
Infelizmente, tenho.
 
_A Mia, velho! Pegou uma mina do nada... – continuou – ...aí me meteu no banheiro junto com elas, mano, foi uma baixaria.
_Hum.
 
Senti o meu estômago embrulhar, tudo de novo. Droga.
 
_...porra, sério, foi do caralho.
_Sei.
_Fui quase até o fim, mano. Foda que a Mia quis parar, se não acho que...
_C-como assim? – perguntei, desconfortável – Do nada?!
_Não sei, a gente tava lá q-quase... – ele hesitou – ...tipo, quase... cê sabe, no banheiro e, e e-ela... – pareceu escolher as palavras, tentando não expor a namorada – ...ela, tipo, desceu lá n-na mina, enquanto eu...
 
Espera. Como é?!
 
Repete. Larguei o garfo no prato e encarei o Fernando ali, pega de surpresa. A Mia fez o quê?!? A minha respiração começou a acelerar de novo, do mesmo jeito sufocante de horas antes na sala do Benatti, e o meu coração disparou. Não. Não, mano. Não repete essa merda nunca mais, me arrependi na mesma hora. Nunca mais. Puta que pariu, de repente não conseguia tirar a imagem da cabeça e ele seguia contando, contra a minha vontade.
 
_...e-eu me pegava com a mina, então não vi bem, só vi quando a Mia já tava de pé de novo. Parou no meio do bagulho e me puxou, quis ir embora. Ficou brava. Mas, porra... antes tava animal! A mina já tav...
 
Cacete. Forcei a comida que restara na minha boca garganta abaixo, sem ouvir direito o restante da história – a muito contragosto. O meu estômago se embrulhava numa ansiedade repentina. Sem saber o que pensar ou, pior, o que sentir. Inferno.
 
_Nunca achei que fosse rolar qualquer coisa assim, mano... – ele continuou, empolgado, praticamente num monólogo – ...cê já imaginou, meu?
_O q-quê?
_A Mia dando a louca aí, beijando mina – riu – Cê imaginaria?
 
Engoli seco, doído.
 
_Não.
_Hum. Foi da hora – sorriu – E ô, fiquei pensando, cê... c-cê acha que... – já não queria mais ouvir aquela merda toda, perdera todo o apetite e infeliz agora enrolava, irritantemente – ...q-que se eu lançar, ela dorme comigo e outra mina?
 
Não, porra. Ficou louco?!?
 
_Fer, não... – o desencorajei na maior cara de pau, me desesperando, cacete – ...nada, n-nada a ver, meu. Cê tá viajando, a Mia... – resmunguei, me sentindo traída por ela – ...não é dessas, e-ela...
_Como não?! – sequer me deixou terminar e riu, se exaltando – Ela que começou! Pô, quando vi já tava metendo a mão na...
_Sei – o cortei, grosseira, sem querer ouvir os detalhes.
_Olha... – ele sorriu – Acho que, se pá, rola, sim.
 
Mano, eu juro, eu juro por tudo que tem de mais sagrado na porra do universo, juro, Fernando, que se cê enfiar a Mia numa cama com outra garota, seu babaca, eu juro, pensei, já perdendo a cabeça, que eu te mato, uma, duas, vinte vezes, puta merda. Apenas a ideia já me fazia contorcer involuntariamente, sem conseguir controlar aquele ciúme indesejado, meio fora de lugar dentro de mim, deslocado, amargo, me dilacerando. Argh.
 
_Sei lá, eu boto fé. Cê não? – meu amigo emendou, sem calar mais a boca – Cê acha que não mesmo?
_Meu, por que cê tá me perguntando isso?! – retruquei num impulso, revirando os olhos – Sei lá, mano! Tal... t-talvez... – comecei a vasculhar a porra da minha cabeça atrás de algo para encobrir o meu rancor, qualquer resposta que não fosse o “qual o nome da filha-da-puta dessa garota?” que era a única maldita coisa que me ocorria, latejando na minha cabeça, numa vontade irracional de arranjar briga – ...eu, e-eu não sei, Fer. Ela tava bêbada, quis parar no meio, meu, não acho que, q-que ela sabia o que tava fazendo...
_Tá, mas...
_E outra, meu... – o interrompi – ...a Mia é sua namorada, porra. É furada... – argumentei, fazendo um esforço desgraçado para apagar a merda daquela imagem da minha cabeça, a da, d-da Mia com, c-com a boca na desgraçada da garota, caralho – ...na boa, Fer, vai por mim. Isso vai dar maior rolo depois... se... se ela... – me enrolei para justificar, enquanto olhava o meu amigo ali, ô carma dos infernos, e rezava para que desistisse da ideia – ...se ela já ficou mal só de ter pegado a mina com você, imagina s-se... se cê for lá comer outra na frente dela, meu? A, a Mia vai surtar, cara... – suspirei – ...sério, não faz isso. Vai ser puta bad pra vocês!
 
Pelo amor de Deus, implorei mentalmente, sentindo o nervosismo tomar conta. Esquece isso.
 
_Hum... – o Fer pareceu refletir, não muito convencido – ...cê num falaria com ela, né?
_Eu?? Falar o quê?!
_Ah, mano, não sei... – riu – ...tenta sacar qual é que é, o que ela achou da parada. Dá uma sondada!
_Não... – me indignei – ...não, meu! Fora que nem sei quando vou trombar com a Mia de novo... Não dá, não rola!
 
Nem fodendo.
 
_Ué. Como assim?! – ele estranhou – Cês não vão amanhã?
_Amanhã?!
_É, pô! No lance lá do Gui!
 
Merda. Tinha me esquecido. Duas semanas antes, enchi o saco do Fernando para que comprasse ingressos para a nova peça do Gui – era um dos primeiros papeis principais que ele pegava e estava com medo de que ninguém fosse ver. Não era nada demais, uma peça pequena no circuito alternativo paulistano, mas eu azucrinei o Fer para que fosse comigo. E obviamente, porque eu era a rainha de me meter em situações como aquela, já sabendo que meu amigo levaria a Mia, eu convidei a Clara. É. Só para não ir sozinha com os dois.
 
Vai ser a porra da festa do caqui, mas que inferno.

fevereiro 27, 2012

Não

Meu coração parou.
 
Encarei as duas se atracando em meio a toda aquela gente. Em choque. Puta que pariu. A Mia subia em cima da, d-da garota no sofá, bêbada, mordendo a sua boca, e, caralho, as mãos dela puxavam a cintura da, d-da Mia, agarrando a sua meia-arrastão, deslizando sobre seu sutiã, aproximando os seus corpos e eu me sentia, m-me sentia, não sei, não sei que porra eu sentia. O meu coração começou a acelerar. E com muita dificuldade, forcei o ar goela abaixo, sem conseguir respirar direito.
 
Não, me desnorteei. Isso não.
 
E o meu estômago se embrulhou na mesma hora. Preciso sair daqui, senti o ar me faltar de novoMas não conseguia tirar os olhos da Mia, ali, em cima d-daquela, daquela escrota, beijo atrás de beijo – ainda que eu não quisesse, argh, ainda que não quisesse dar a mínima – enquanto o estúpido do Fernando não fazia porra nenhuma, sentado ao lado delas e assistindo, chapado, provavelmente com tesão. Filho-da-puta. 
 
Tentei me controlar, com uma vontade desesperada de ir embora dali, daquela porra daquela festa, inferno, sem querer saber de mais nadaNão sabia por que me importava tanto com a Mia ali – e ainda assim, me importava. Importava, porra! A boca dela na de outra garota, os seus beijos, as suas mãos correndo pelo seu corpo, cacete. Importava. Puta merda, como importava. Contra todo o bom senso, é, talvez. Mas o fato é que importava.
 
Respirei fundoSentindo o ciúme crescer em mim, incômodo, como um câncer. Me consumindo, invadindo os meus órgãos, contaminando tudo. A cada beijo dela com, c-com... arghNão. Não, assim não, me irritei, tacando a latinha ainda cheia para o lado, que se foda. Que se foda todo mundo nessa merda. Saí trombando nas pessoas, num surto violento, tentando apagar aquela imagem da minha cabeça. Senti uma raiva como nunca antes, filha-da-mãeSua desgraçada.
 
Desci na rua e peguei o primeiro táxi que passou, abrindo a janela para fumar. Em desespero. No rádio, tocava baixinho “Dancing on my own”, da Robyn, numa ironia cruel. Acendi um cigarro atrás do outro, nervosa – mas não conseguia pensar em outra coisa, conforme o carro atravessava o centro da cidade, angustiada com a ideia da Mia ainda estar lá na festa, se amassando com, c-com outra garota que não era eu, como se, c-como se fosse normal, como se, c-como se agora não fosse uma porra dum problema.

fevereiro 26, 2012

Noutros cantos

Em algum momento, o meu “fico só um pouco” virou quatro da manhã. Pois é. E lá pelas tantas, já de saco cheio de reclamar do barulho, um dos vizinhos ameaçou chamar a polícia. A resposta óbvia para isso foi colocar “Mucha policía, poca diversión” para tocar e aumentar o volume no máximo. Claro. Completamente chapado, o Benatti gritava a letra do Eskorbuto de cima de uma mesa, pulando e girando a própria camiseta sobre a cabeça, encorajando os amigos a cantar junto. E todo mundo o fazia, aos berros.
 
Era tanta gente se espremendo naquele apartamento que o chão parecia tremer. Eu observava a cena, sentada no chão ao lado duns amigos, gargalhando. É hoje que a gente vai preso. A cada minuto que se passava, a festa parecia mais lotada. E fora de controle. Me levantei e tentei passar pelo corredor abarrotado de gente, num esforço para chegar até o banheiro. Aí trombei sem querer com a Mia, mais uma vez. Parecia que todas as vezes que a via, o seu copo estava sempre mais cheio – nunca mais vazio.
 
Entrei no banheiro e uma das ex-namoradas do Benatti, a Cá, entrou logo atrás. Estava com um vestido preto curto e tinha toda a cabeça raspada, exceto as costeletas, que eram tingidas de laranja. Os dois ainda eram amigos. Fazia uns anos que tinham terminado e agora, segundo começou a tagarelar, ela já não saía mais com caras. “Foi uma decisão política mesmo”, argumentou, passando lápis no olho em frente ao espelho enquanto eu mijava, “de me relacionar só com mulheres, sabe?”. Não, pensei. Mas dei descarga e sorri, sapatona de nascença, achando certa graça no papo todo.
 
Assim que abrimos a porta, demos de cara com o Fer pelado e louco correndo com outros dois amigos nossos também sem roupa – e aí, milagrosamente, dei toda razão para a Cá. Certa ela. O corredor estava com um cheiro enjoado de loló misturado com maconha. Fui até o último quarto, que ficava bem no fundo, e trombei com o Fer de novo. Agora vestindo a bermuda, meio de qualquer jeito. Assim que me viu, ele me abraçou, quase caindo de bêbado.
 
_C-cê viu a Mia? – perguntou, falando arrastado.
_Não sei. Foi pro lado da sala, acho...
 
Entrei no quarto e ele voltou pelo corredor. O cômodo inteiro estava numa marofa desgraçada. Tinha talvez dez, quinze pessoas ali. Fui caminhando no escuro, quase pisando em quem estava sentado no chão, até achar um outro amigo nosso, o Vini – que estava fumando uma ponta com a namorada na cama. Sentei do lado deles e pedi um trago, mas já estava quase queimando os dedos de tão pequena. Então comecei a bolar outro baseado. Puts. Como chama essa mina mesmo?, pensei, enquanto apertava a seda e olhava o Vini beijar a garota. Não conseguia lembrar o nome dela por nada. Acendi o baseado, dando um trago demorado.  
 
E aí... o quarto me engoliu.
 
Quando terminei, já com a cabeça tonta, a tal namorada estava sentada no colo do Vini, nuns amassos ao meu lado que nem vi quando começaram. Não sabia se tinham passado 15 ou 40 minutos. Como diabos eu vou trabalhar amanhã? Puta que pariu, passei a mão no rosto e dei uma olhada para o lado, vendo o meu amigo agarrar as coxas da garota e subir as mãos por debaixo da sua saia – e foi quando me dei conta de que ela estava sem calcinha. Ah, não. Nem a pau. Não ia dar para ficar ali de plateia.
 
Me levantei e pisoteei uns três ou quatro até chegar na porta, já consideravelmente chapada. Aí me espremi entre as pessoas no corredor. Entrei brevemente na cozinha para pegar mais uma latinha de cerveja e logo voltei para a sala, onde o rádio gritava Exploited no último volume. Virei o primeiro gole e, quando olhei para frente, vi a Mia no sofá – aos beijos.
 
Com outra garota.

fevereiro 25, 2012

E o capeta

_Relaxa... – balancei a cabeça e aí olhei para o que quer que fosse que a Mia estava tomando, achando certa graça – ...mas cê num acha que devia pegar leve, não?
_Isso?
_É.
_Ah, meu... – riu – ...tá tranquilo.
_Sei. O que tem aí nesse copo, afinal?
_Num faço ideia.
_Jesus... – passei a mão no rosto e comecei a rir também – ...puta merda, Mia.
_Quê?!
_Nada...
_Hum. E você, não tá bebendo por quê? – achou graça – Agora só te vejo aí tomando água, cervejinha...
_Ah, sei lá. Eu tava fazendo muita merda. Aí prometi para a Marina que ia dar uma trégua...
_Hum, sei.
 
A Mia arqueou as sobrancelhas na menor menção à sua arqui-inimiga, e nós rimos. Como uma piada antiga. Era gostoso estar ali com ela, assim. Sem drama. Trégua. Me fazia sentir que havia alguma forma de deixar tudo aquilo para trás, algum dia – que o tempo ia passar e que algumas coisas deixariam de ser importantes. Sei lá. A Mia deu mais um trago e me ofereceu, enquanto as caixas de som estouravam qualquer banda punk latino-americana. Peguei o cigarro da sua mão e levei à minha boca por um momento, numa tragada rápida, o devolvendo logo depois.
 
_Bom... – ela segurou o filtro entre os dedos e me olhou, ainda se divertindo com a minha cerveja, numa referência mais a si mesma que a mim – ...pelo menos assim cê não dá vexame por aí, né.
_Que vexame? – a provoquei – Adoro que vomitem na minha mão, meu.
_Argh... – riu, colocando a mão no rosto rapidamente – D-desculpa.
_Tranquila. Tô acostumada... – fiz graça – Já cuidei de tanto bêbado que, puta merda.
_Dei muito trabalho?
_Não. Só a hora que te coloquei no chuveiro que, mano, jurei que cê ia cair. Cê num tava conseguindo ficar em pé, meu. Foi foda. E assim, né, depois de trabalhar o dia inteiro, não é como se eu tivesse muito animada para ficar debaixo de água gelada... Mas acontece, né?
_Hum... – ela tragou mais uma vez, com um sorriso de canto de boca, encarando meus olhos – ...é.
_Quê?
_Nada. Só... sei lá, e-essa parte eu queria lembrar mais.
_Ah, queria?! – dei risada – Foi bom pra você, então?
 
Falei brincando. Todavia, a Mia ergueu o queixo, me observando de volta. Seus olhos na minha boca, a sua entreaberta. Soltou a fumaça para cima, enquanto a minha pergunta pairava no ar sobre nós duas, solta. E eu juro – juro – que se não tivéssemos cercadas por tantos amigos do Fer naquela porra daquele inferninho, ela tinha vindo. Tinha colado o corpo no meu, tinha me beijado como se o tempo não tivesse passado um só dia. Cacete. Mas aí alguém passou entre nós, entrando na cozinha. E ela se controlou, por mero contexto.
 
E tendo encarado o perigo nos seus olhos, eu abaixei os meus – encerrando o que quer que fosse aquilo antes que começasse.
 
_Acho que... – desconversei – ...v-vou achar o Benatti, ainda não falei com ele. Vamos ver, né... – forcei uma piadinha, me virando para ir para a sala – ...se ele já largou do saco do seu namorado.

fevereiro 24, 2012

O inferninho

Aquilo me fez, de certo, algum bem. Estar com a Clara me fazia bem. Assim que cheguei na loja em que trabalhava, ela deu uma desculpa qualquer para o chefe e vazou comigo. Fomos caminhando até o seu prédio. E chegando lá, nos pegamos em todos os cômodos do apartamento. Um por um – só porque podíamos. “Feliz aniversário”, ela sussurrou, entre um beijo e outro. A sua roomie estava trabalhando e não tinha ninguém ali para nos julgar, exceto a gata preta da Clara, a Luna, que nos observou com certo desprezo do alto de uma prateleira da cozinha, enquanto nós duas ríamos e nos comíamos contra a pia.
 
Não voltei para casa até terça de manhã. É.
 
Dei uma passada rápida antes do trabalho só para pegar uma troca de roupa, já que naquela noite ia ter festa na casa do Benatti. Ele fazia aniversário quatro dias depois de mim – o que, quando o Fer conseguia organizar festas forçadas pra minha pessoa, significava uma semana inteira de bebedeira entre os nossos amigos. Às vezes, a comemoração era tanta que se estendia até o aniversário do Fer quase um mês depois. Tudo era desculpa pra encher a cara. E vejam bem, o meu problema com aniversários é só com o meu próprio – o dos outros eu gostava.
 
Passei o dia inteiro animada, atazanando a Clara para que fosse comigo, sem muito sucesso. “Cansou de mim?”, brinquei, enviando SMS para ela no meio de uma gravação. “Ñ! Tonta!”, ela me respondeu em seguida, “hj ñ da, dsclp! :3”.
 
Argh.
 
Fiz hora extra até tarde naquela noite e quando finalmente cheguei no prédio do Benatti, numa ruazinha perto da praça Tiradentes, já era quase hora de eu voltar para casa – isto é, caso quisesse dormir antes de ter que ir trabalhar de novo. Fico só um pouco, pensei, é terça-feira, meus amigos vão pegar leve. Mas assim que abri a porta e dei de cara com o Rafa lambendo as bolas do Fer, ali, de calça arriada no meio da sala, trêbados, cercados por uma multidão aos gritos – logo percebi que não.
 
Tá. Vai ser esse tipo de festa.
 
O Rafa era um dos melhores amigos do Fernando, estava em todas. O conhecemos por acaso nos rolês punks do ABC que a gente ia na adolescência. Era um pivete magrelo com um moicano verde, normalmente desbotado. Estava fazendo 22. Morava numa república com três outros caras e as ocasionais namoradas, num apartamento caindo aos pedaços em que eles pixaram todo tipo de merda e uns símbolos anarquistas pelas paredes. Era um inferninho.
 
Atravessei toda a marofa e a gritaria, já rindo daquele caos, e fui até a cozinha ver se descolava alguma coisa para beber. A situação era deplorável. Tinha tanta latinha e garrafa vazia espalhada pelo chão, pela mesa, pela pia que parecia que a festa tinha começado uns três dias antes. Caralho. O rádio tocava Discharge no último volume. Numa área de serviço apertada, achei o tanque transbordando de gelo – enfiei a mão e peguei uma cerveja. Abri a latinha e me virei para voltar, desviando de duas ou três pessoas na cozinha, quando vi a Mia.
 
Ela estava acendendo um cigarro no corredor, encostada na parede e, por algum motivo, só de sutiã preto. Com uns shorts rasgados e uma meia-arrastão que começava na metade da sua barriga e terminava nos seus coturnos surrados. Puta merda. Deu um primeiro trago, soprando a fumaça para o lado, depois subiu à boca um copo plástico com conteúdo duvidoso. E foi quando os seus olhos cruzaram comigo ali, saindo da porta da cozinha. Tirou o copo da boca e veio até onde eu estava, caminhando como se já tivesse tomado alguns daqueles.
 
_E aí...
_E aí... – ri.
 
A Mia encostou no batente oposto, sorrindo para mim. Era um tanto desconcertante vê-la tão bonita assim – fazia alguns meses que não a notava desse jeito. Qual o meu problema?, me repreendi. E a encarei ali na minha frente. Ela respirou fundo, aí abaixou os olhos por um milésimo de segundo, quase como se tentasse não se constranger.
 
_Obrigada... – me encarou em seguida e sorriu – ...pelo outro dia.