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julho 23, 2012

7 meses em 20 minutos

Vem, pensei, tá demorando demais. O conserto do vazamento na lava-roupas chegava ao fim e nada do Fernando passar por aquela porta. Merda, cadê você? Terminei de rosquear o cano na torneira, vedando com um pedaço de fita isolante. E a minha preocupação cresceu, arrependida de ter falado qualquer coisa para ele.
 
O relacionamento dos dois era uma catástrofe – o pai do Fer era do tipo que nunca tinha dito uma só palavra de carinho pro filho a vida toda, menos ainda de orgulho. Também não media insulto para criticar, sempre que queria impor a sua própria moral. O Fer passou a infância toda mudo e, na adolescência, começou enfrentar o pai, a retrucar. Mas ainda era o seu pai e a opinião dele ainda importava. O velho conseguia destruí-lo como ninguém. E era isso que me preocupava.
 
Vem logo, porra.

Levantei de joelhos no chão e virei a torneira, testando o sucesso da minha gambiarra. Não vazou nem uma gota. Toma essa! Largado sobre o tanque, o meu celular vibrou com um SMS da Clara. Já estava na porta do prédio. Pedi que subisse, ganhando tempo para tomar um banho e para esperar o Fer sair do telefone. Queria estar lá quando a briga dos dois terminasse. Limpei mais uma vez as mãos nos shorts e olhei para o relógio da cozinha – a ligação já durava mais de vinte minutos. Ugh. Molhei o rosto no tanque e lavei as mãos brevemente, as enxugando numa toalha qualquer que pendia no varal.

E então fui para a sala, abrindo a porta antes que a campainha tocasse. Alguns metros adiante, apoiado contra a parede do corredor do prédio, vi o Fer com a cabeça baixa e o celular ainda no ouvido. Sua orelha já deve tá quente, puta merda. A mão segurava a nuca, parecia abalado. Me cortou o coração ver ele ter que se submeter a aquilo – a pedir dinheiro para o pai. Por que cê foi pedir demissão, moleque?! Mas que droga. Não sabia o que fazer para protegê-lo daquela situação. Foi quando ouvi o elevador chegar no andar. E aos poucos, o Fer começou a discutir de volta com o pai, assim que a porta do elevador se abriu.
 
A Clara veio na minha direção. E o tom da briga aumentou, o Fer tinha os olhos vermelhos e molhados – como se estivesse prestes a chorar. Podia vê-lo frustrado. Secava o rosto nos antebraços, com raiva, e continuava argumentando. A Clara o notou ali, a uns metros de nós. Aí me cumprimentou, estranhando a situação toda, e perguntou o que estava rolando. Quis saber se tinha algo a ver com a Mia. E eu disse que não, atenta ao que o Fer estava dizendo – sem explicar direito. Ele já tava fora de si, discutindo de volta.

_E EU SOU O QUÊ? FALA! – gritou com o pai no telefone, irritado – E EU SOU O QUÊ, PORRA?!

Coloquei a Clara pra dentro do apartamento, falando baixo – “vem”. A última coisa que o Fernando precisava era de plateia. Então entramos. Ela ficou esperando no meu quarto e eu fui tomar o meu banho. Não demorei muito. Tornei a entrar no quarto e me troquei rapidamente, já com fome. A Clara mexia no meu celular, meio à toa. Saímos para a sala nem cinco minutos depois. E ao passarmos pelo sofá, vi o Fer sentado, fumando um baseado e já sem o celular nas mãos. “Espera um minuto”, pedi para a Clara, “deixa eu falar com ele”.
 
_E aí? – sentei ao seu lado, preocupada – Quão ruim foi?
_Ah, foi uma bosta – resmungou – Já sabia que ia ser...
_O que ele disse? Não vai emprestar?

O Fer tinha os antebraços apoiados nos joelhos, sentado com as pernas espaçadas. Tirou o baseado da boca, o segurando na ponta dos dedos e soltou a fumaça. Tinha colocado a camiseta de novo e as tatuagens apareciam sob as mangas enroladas nos braços. Passou a mão pela cabeça raspada, frustrado, com um ar de derrota.
 
_Ele quer que eu volte, né... Quer que eu vá morar lá com eles, não sei – abaixou de novo a cabeça – Ia ajudar não ter que pagar aluguel e a comida, posso pegar uns freelas e ir me virando com o resto, com o carro e tal. Mas, sei lá... – suspirou – ...ia ser foda. Mesmo que fosse só por uns meses, cara, não me bico com o velho. Não dá.
_Você não precisa sair, Fer...
_Como não?! – se exaltou – Ele não vai dar a grana, não vai emprestar nada! É UM FILHO-DA-PUTA! ELE NÃO TÁ NEM AÍ! – chutou a mesa de centro à sua frente – Cê sabe disso, velho! Ele só quer mostrar que eu sou um bosta, provar que eu não sei fazer porra nenhuma!!
_Não, meu. Calma. Eu vou pegar com os meus pais este mês, fica pelo menos mais um aí e a gente...
_DE QUE JEITO?!? EU NÃO TENHO GRANA, MANO!!
_Não sei, mas... – hesitei, aflita – C-cê não precisa sair agora, porra, a gente vê um j...
_Não, mano. Não. Não vou ficar te atrasando a vida também! Já te devo pra caralho, meu, para! Cê já fez até o que não podia, já fez demais. Não quero que cê comece a se endividar também, mano.
_Não é assim, meu.
_Não, já tá decidido – me cortou – O aluguel tá aí, cê precisa correr atrás de alguém pra dividir. Nem que seja só por uns meses. Depois eu volto, a gente vê o que faz. Não sei...
_NÃO! NADA A VER! – senti um aperto no peito, de repente – Eu moro com você, porra! Não vou dividir com outra pessoa! Nem deixar você ir morar com o sociopata de merda, caralho, nada a ver. Nada a ver mesmo! – o contrariei – A gente se resolve, foda-se, mas você fica, Fer.
_Meu, não vai ser tão ruim... – ele forçou um sorriso, ainda abatido, e brincou – Pensa, divide aí com a Clarinha...
_Deus me livre!

Ela logo recusou, do outro lado da sala. Engraçadinha.

_Não, nem a pau... – retruquei, mais uma vez – Fer, esquece essa ideia! Sério. Mais tarde eu tô aí e a gente pensa em alguma coisa. Cê num inventa de levar suas tralhas pra lugar nenhum... Tá me ouvindo?!
_Tá. A gente vê, vai lá, vai. Vão almoçar... – ele sorriu, sem muito ânimo – ...eu vou pra Mia também. A gente se fala mais tarde...

julho 22, 2012

A cor do fim do poço

Para baixo, joguei a franja para fora da cara, mais um pouco. O isqueiro já me queimava o dedo, perigando derreter de vez o tubo. E eu fazia uma força enorme. Um pouco para direita, isso, assim. Uns dias depois da noite do SWU, a nossa lava-roupas começou a vazar. A rosca estava péssima e, passada uma semana de inundações na área de serviço, decidi trocar eu mesma a peça só para não ter que pagar pelo conserto.
 
Me encontrava, então, sentada na área de serviço rodeada por ferramentas. E o que deveria ser uma simples, porém cara, troca de cano – logo se tornou uma barata e complicada empreitada contra o plástico do tubo de saída. Por que fazem essas porcarias tão duras assim? Argh. O meu polegar já estava vermelho, tentando lacear o furo com o calor do fogo. E estava quase dando certo – quase. Fui empurrando a boca de ferro para dentro do cano, usando toda a minha força, concentrada em resolver de vez aquela merda. E foi quando ouvi a porta da frente bater.
 
Mas, que porra...?
 
Não pode ser o Fer, pensei. Era sábado de manhã. A muito contragosto, uma semana antes, ele descolou um emprego temporário como vendedor numa loja de skate no Shopping Morumbi. Quase uma hora para chegar lá e o contrato acabava logo depois do Natal, mas pelo menos pagaria parte das nossas contas atrasadas. No último mês, sem muito sucesso, ele tentou mais alguns freelas para cobrir os gastos, até discotecou numa festa de rocksteady de um amigo nosso no Centro – mas o dinheiro ainda era pouco. Da minha parte, eu já tinha emprestado até o que não tinha e daqui a pouco ia começar a dormir na produtora de tanta hora extra que pegava. É. Tava foda.
 
Olhei para o relógio. Faltavam quinze minutos para meio-dia. Limpei a mão na bermuda – com os dedos sujos da poeira que soltava daquele tubo imundo e do plástico queimado – e me levantei. Meia hora no chão ao lado da máquina e a minha testa já estava molhada de suor. Preciso tomar um banho. Fui até a sala para ver de onde vinha o barulho. Talvez eu tenha deixado a porta aberta, calculei, imaginando que a Clara tinha chegado antes da hora para irmos almoçar, sei lá. Mas saí da cozinha e dei de cara com o Fernando, largando a mochila com raiva sobre o sofá e tirando a camisa, meio de qualquer jeito.
 
_Mas o... – o encarei, confusa – ...q-que cê tá fazendo aqui?!
_Nada – resmungou, puto.
_Fer! – insisti – Seu horário não vai até as três hoje?
_Vai.
_E...??
_E EU PEDI DEMISSÃO, PORRA!
_O QUÊ?!?
_Pedi. Caí fora, meu! Aquele cara é um babaca! – se exaltou, se apoiando com ambas as mãos no sofá – Ele acha que pode falar e fazer o que bem entende com os funcionários, mano! Desgraçado! Acha que eu sou obrigado a aguentar essa bosta de emprego, o filho da mãe nã...
_Não. Cê tá me zoando que você... – comecei a aumentar o tom de voz, interrompendo-o, nervosa – ...LARGOU A PORRA DO PRIMEIRO EMPREGO QUE VOCÊ CONSEGUE EM MESES, PORQUE VOCÊ NÃO GOSTA DO SEU CHEFE, MEU?!
_“NÃO GOSTO”, NÃO! NÃO FAZ SOAR COMO SE FOSSE FRESCURA MINHA, CARALHO! O CARA TÁ ME TESTANDO A PACIÊNCIA DESDE O PRIMEIRO DIA QUE EU PISEI NAQUELA PORCARIA DE LUGAR!! TRATA TODO MUNDO QUE NEM LIXO!!
_E VOCÊ NÃO PODIA SEGURAR A PORRA DA SUA BOCA?!?
_O CARA É UM ESCROTO, MANO!!
_FODA-SE! PRECISA IR LÁ E BRIGAR COM ELE?? CÊ NÃO SE CONTROLA TAMBÉM, CACETE! VOCÊ ACHA QUE É O ÚNICO COM UM CHEFE DE MERDA NO MUNDO?!
_Ah, tá! – revirou os olhos – Falou a que não vê a hora de ir pro batente pra ficar vendo a chefe gostosona...
_NÃO VEJO A HORA?! – me irritei – EU NÃO AGUENTO MAIS PEGAR HORA EXTRA NAQUELA PORRA DAQUELA PRODUTORA, POR SUA CAUSA! E VOCÊ VAI ME DIZER QUE EU GOSTO DE IR TRABALHAR?! POR QUÊ? POR QUE A MINHA CHEFE, PELA PRIMEIRA VEZ NA VIDA, NÃO É UMA FILHA-DA-PUTA?! AH! SE LIGA, FERNANDO!! QUANTO CHEFE BABACA EU JÁ NÃO TIVE QUE ATURAR NA MINHA VIDA, PORRA! A GENTE ENGOLE ATÉ ACHAR OUTRA COISA, TODO MUNDO FAZ ISSO! CÊ ACHA QUE É ESPECIAL, CACETE?!?
 
O Fernando ficou quieto, puto, com os braços cruzados e o corpo apoiado contra o encosto do sofá. O meu argumento ficou ali, solto no ar. É de foder. Não podia acreditar, a gente não tinha como arcar com aquilo. Naquele mês, eu já ia precisar pedir grana emprestada para quem quer que tivesse, os meus pais, meus amigos, não sei, com ou sem o emprego do Fer. Não tínhamos mais um puto.
 
_Escuta... – encostei contra o sofá também, ao seu lado, e baixei a voz – ...eu sei que é foda, meu, ouvir merda e engolir, ficar quieto. O cara é folgado pra caralho mesmo, mas... – hesitei – ...n-não sei, Fer, eu não sei o que mais a gente pode fazer.
 
Cruzei os braços também. E ele abaixou a cabeça, ainda quieto. O clima na sala ficou pesado. Não sabíamos mesmo mais o que fazer. Cogitamos tudo, tudo o que podíamos. Desde vender o carro dele, que ainda acumulava algumas parcelas para ser quitado, até pedir para os pais da Mia – por grana ou vaga no sofá. Tudo. Argh. Odiava quando as coisas saíam do controle assim. E por mais que a gente andasse discutindo, não queria ver o meu amigo naquela situação. Inferno. Sem muita alternativa, o Fernando desencostou do sofá e foi em direção ao corredor do prédio.
 
_Vou ligar pro velho... – disse então, desistindo.

julho 21, 2012

Bis

E ah, só para constar – o Hole não tocou “Awful”.

julho 20, 2012

SWU

VC TINHA Q TA AQUI!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!”, a Mia me escreveu, bem assim, num exagero de exclamações. E eu ri, deitada à toa na minha cama. A sua primeira mensagem foi seguida quase imediatamente por outras duas – “PQP EH A COURTNEY!! <3 <3” e “MT FODA.. C TA ASSISTINDO DAI???”. Esfreguei o rosto, me livrando daquela preguiça de fim de domingo, e então me levantei para ir até a sala.
 
As luzes do apartamento estavam todas apagadas. O Fer fazia horas que estava trancado no quarto, fumando maconha e ouvindo ska. Liguei a TV e me esparramei no sofá, procurando algum canal que estivesse passando o show. Assim que aquela deusa grunge desbocada surgiu na tela, larguei o controle ao meu lado. E sorri. Aí peguei o celular para responder – “acabei de ligar aqui... q inveja, meu. qria mto ter ido! :(“.  
 
Não tive dinheiro para comprar o ingresso, meses antes. Agora assistia a Courtney Love xingar todo mundo de cima do palco e achava graça, imaginando a empolgação da Mia, que devia estar sendo esmagada entre milhares de pessoas em algum lugar daquela plateia. Por que, inferno, essas coisas custam tão caro? Toda vez que a infame vocalista do Hole pausava as músicas para tagarelar – e não foram poucas –, mais dois ou três SMS piscavam no visor do meu celular. Conversamos durante todo o show. Até que a banda saiu do palco para fazer aquele suspense irritante que sempre antecede o bis. “Ñ!!! Ñ!!”, a Mia me mandou, “PORRA..Ñ, ELES TEM Q VOLTAR E TOCAR AWFUL!!!!”.
 
Sem pensar, me escapou um sorriso no canto da boca.
 
Essa era uma das duas músicas que estavam no CD que fiz para ela, um ano antes. Aquela cafonice apaixonada, sabe, com todas as músicas que “perdi” para a Mia. Pois é. Esfreguei a mão na cara, agora, achando certa graça. E digitei de volta – “ah, tem? rs”. Olhei para a TV e a câmera sobrevoava aquele oceano de gente no festival. Meus olhos buscavam na multidão, em vão. Dali a pouco, vibrou meu celular. “TEMMM NEH :3”. Li sua mensagem e me afundei ainda mais no sofá, tirando um sarro de volta – “pq? essa musica eh mo chata, meu”. Ao que a Mia prontamente me respondeu com um “CALA A BOCAaa”. Comecei a rir. “Eles ñ vão tocar essa, mano”, digitei então, a provocando. “TEM Q TOCAR!!”. “ñ vai, quer apostar?”. “QRO! OQ EU GANHO?”. “Nd :P”. “CREDO..ESSE EH O MELHOR Q VC PODE OFERECER?”. Balancei a cabeça e, assim que a Courtney Love voltou para o palco, respondi – “vai acostumando, rs”.

julho 19, 2012

Perfekte Welle

_Ah, porra, cês tão aí... – a Flavinha disse ao nos achar na lateral da casa – ...tô saindo daqui a pouco, cês vão querer a carona?
 
Me recuperei quase instantaneamente, sem um puto no bolso, desapoiando ambas as mãos da casinha de tijolos e erguendo o corpo, ainda um tanto zonza. A Clara estava ao meu lado, preocupada, e as duas me perguntaram sequencialmente se eu estava bem. “Aham...”, acenei, numa mentira deslavada, “só vamos”. Fechei as calças e peguei o maço no chão. O vento gelado se fazendo sentir duramente no meu corpo debilitado, argh.
 
Entramos e nos despedimos das garotas que restavam na sala, sem muitos rodeios. Abracei a Lê já na porta e nos metemos no banco de trás do carro da Flávia. Minha cabeça doía, nauseada, e o caminho de volta pareceu durar uma eternidade. Colocadas por cima das minhas, as pernas da Clara aqueciam o meu colo no banco de trás. Estava gostoso, mas as luzes de São Paulo me machucavam a vista. Ou talvez fosse enxaqueca de tanto álcool fermentado. Inferno.
 
Subimos as escadas do seu prédio com dificuldade, eu apoiada na Clara e ela cambaleando, às vezes, contra o corrimão. O seu apartamento estava silencioso e, como de costume, tinha certo charme naquela bagunça toda. Sentou-se na beira da janela do quarto, descalçando os tênis, e me observou admirá-la. Dividimos a cama, então, e dormimos sob diversas camadas de lençóis emaranhados, quase o dia todo. Só voltei para a minha casa quando já era noite do dia seguinte.
 
_Recebi seu “bilhete” – o Fernando resmungou detrás do sofá, assistindo TV na sala, assim que passei pela porta.
 
Ótimo. Revirei os olhos e fui direto para o corredor, em direção ao quarto. Só de birra, não nos falamos direito por uma semana. A namorada dele, por outro lado, numa contradição um tanto curiosa, lotaria a minha caixa de entrada no domingo seguinte. Estava com uma amiga num festival de música no interior de São Paulo. E assim que o Hole entrou no palco – ou a Mia virou sua vigésima cerveja da noite, vai saber – as notificações começaram a chegar.

julho 13, 2012

Meio fim de festa

Logo fomos interrompidas. Já no segundo cigarro e milésimo beijo, amassadas contra a parede e testando os limites da boa conduta na casa dos outros. “Epa, epa, vamos parar de baixaria aqui?”, a Thaís falou bem alto, rindo, assim que nos encontrou na lateral da casa. A Clara rapidamente a mandou tomar no cu. Numa intimidade conquistada nos últimos meses – de tanto me acompanhar na casa da Thaís para fumar uns, já que eu andava evitando rolê para economizar dinheiro, as duas acabaram se tornando amigas.
 
Voltamos para a sala pouco depois dela, levemente descabeladas e guardando os nossos maços nos bolsos. Ainda sentia as minhas bochechas levemente vermelhas de tanto, ahm, passar calor. Sentamos na mesa e nos pusemos a comer aquele “jantar”, tão atrasado que estava começando à 1 da manhã. Pelas horas seguintes, pratos e tigelas amontoados, com apenas restos, foram se acumulando à nossa frente. Mesmo quando acabou a comida, continuamos à mesa e as taças de vinho seguiram fluindo tão bem quanto a conversa.
 
Propus um brinde ao aniversário da Jéssica – que, a essa altura, já estava sentada no colo da Lê nuns beijos embriagados. O álbum do Uh Huh Her tocava sem parar. No auge da sapatonice. Ficamos todas tão bêbadas, de uma garrafa chilena atrás da outra, que eu e a Thaís nos debruçávamos sobre a mesa, rindo, sem nem saber de quê. Até a Clara estava tagarelando com a Marina, agora sentada ao seu lado. E é, verdade, eu devia tá ouvindo aquilo – mas já não conseguia prestar atenção em mais nada. Outra meia hora e aquela era a 3ª vez que escutava “I'm better than the other one, you're a harder chase” sair do rádio. Mais dez minutos, outras duas taças. E eu discutia, aos gritos, com a Camila na outra ponta da mesa. Entre um verso e outro da música alta, fora de mim, enquanto a Clara me puxava pela camiseta e me mandava sentar de novo, ordenando que parasse de fazer cena.
 
_CÊ TÁ OUVINDO O QUE ESSA IDIOTA TÁ FALANDO?! – bati na mesa, indignada, e voltei a atacar a Camila – CÊ TÁ MUITO LOUCA, MANO!!
 
Alguns minutos antes, ela defendeu que a versão traduzida de “Starman” era melhor que a do Bowie. E eu perdi a cabeça em meio segundo. Não satisfeita, a minha amiga tomou as dores do rock nacional e começou a gritar de volta comigo, irritada, me acusando de ser uma fã chata. A Thaís me forçou de volta à cadeira e encerrou de vez a briga. “You're fast against mine, I will tear you from the...”, quarta vez. Pazes feitas, todas amigas de novo. Rodamos uma garrafa vazia, deitada, no centro da mesa e nos desafiamos a contar nossos piores podres umas para as outras. A Clara se divertia com os meus. E a Marina, já quase sem fôlego de tanto rir, confirmava tudo com a cabeça. Seus óculos já estavam abandonados sobre a mesa. Deus, eu me afundava na cadeira, cobrindo a minha cara de pau, ainda bem a Clara não vai lembrar metade disso amanhã.
 
_Vem – disse, então, no ouvido dela – Vamos cair fora um pouco.
 
E aí escapamos, enquanto as meninas tentavam descoordenadamente abrir a sei-lá-qual rolha da madrugada. Já tinha perdido a conta. Cês são loucas de beber mais vinho, meu deus. Rindo, trombamos na porta da lateral e fugimos com sucesso para o nosso cantinho de antes. O quintal continuava escuro – o sol ainda não tinha nascido e uma umidade meio fria das 5 e pouco se alastrava no ar. Nos escondemos atrás da casinha onde ficava o botijão de gás, acoplada à lateral da casa. Beijei a Clara com uma vontade embriagada, quase incontrolável.
 
Aí nos enroscamos – os seus braços subiram até os meus ombros, eu desci as minhas mãos. E a empurrei contra a parede. Não conseguia me concentrar em nada. Eram momentos desconexos, nuns lapsos de memória que, de alguma forma, faziam sentido quando fluíam assim, cada beijo, cada chupão, as mãos dela, a pressão nos meus lábios, as mordidas, o seu corpo pesando no meu, nuns toques indelicados – como se eu fechasse e abrisse os olhos, o tempo todo, repetidas vezes. A minha cabeça rodava. E a Clara tinha as mãos metidas no meu jeans. Roubava-lhe um beijo e nos contorcíamos, juntas. Tell me I’m the only one, the only one”, soava ao fundo – aquela era a quinta vez. Ri sozinha ao reparar e a beijei logo em seguida. Enfiei as minhas mãos no seu cabelo, a segurando com vontade enquanto a beijava, esquecendo de respirar. Desci um dos meus braços até um dos botões da sua calça, dois, o zíper, o lance todo. Apoiei a testa no seu ombro, por um segundo, buscando um pouco de estabilidade – tentando voltar à realidade, ao mínimo de consciência. Numa tontura alcóolica, o fogo queimando, desnorteada.
 
Caralho.
 
A Clara encostou a boca no meu ouvido, “vamos voltar pra casa, quero você sentada na minha cara enquanto eu...”, e foi deslizando os dedos para dentro de mim, me falando cada obscenidade que estava com vontade de fazer ali e não podia. Puta merda. Tudo o que eu queria era uma cama, porra. E sobriedade. Senti que ia passar mal. Nem pensar, se controla, era o único pensamento que a minha cabeça conseguia formular, você consegue. Aceleramos então, a intensidade, tudo. Os beijos se multiplicaram, o calor, nossos corpos arrastados, tudo. Tudo confuso – e gostoso. Sentia como se estivesse prestes a explodir. Tell me I'm the only one, the only one...”, ouvia Uh Huh Her cantar, repetidamente. Nuns orgasmos simultâneos. Perdi o fôlego por um instante, meu corpo inteiro em êxtase. A Clara beijava o canto da minha boca, entreaberta, sentindo cada pedacinho das nossas peles se tocando. Cacete.
 
Assim que caí de novo em mim, me senti mal. Dei dois passos para trás no breu e me virei rapidamente, apoiando a mão nos tijolos da casinha do gás.
 
_Cê tá bem, Bo? – a Clara se assustou, vindo na minha direção.
 
Colocou a mão no meu ombro, preocupada. E tão logo respondi “n-não muito”, engasgada e sem ar, foi o que bastou para o meu estômago se revirar por completo. Vomitei duas vezes, todo o maldito vinho. Gran finale.

julho 10, 2012

Partners in crime

"I couldn't tell her 
What my private thoughts were
But she had some way of 
Finding them out"

(Bob Dylan)

julho 09, 2012

Tautologia

Qual o tamanho da merda que falei?
 
Me angustiei, a observando no meio da sala, com uma taça de vinho entre os dedos. Conversava animadamente com a Lê, a Thaís e a Ju, entre sorrisos e o trincar da garrafa na borda das taças, constantemente enchidas antes mesmo de esvaziar. Droga. Entrei na sala e a Clara sorriu ao ver eu me aproximar da roda que elas formavam, ali em pé. Apoiei suavemente a minha mão nas suas costas e ela me olhou, ao seu lado, me oferecendo um gole. Aceitei. Conforme bebia, a encarei em busca de qualquer indício de que tinha escutado a declaração que deixei escapar, minutos antes, sem intenção.
 
Ela percebeu? Percebeu ou não percebeu?!, tentava ler cada milímetro dos seus gestos, em vão, analisando o seu comportamento. Era estranho não saber – aquilo me deixava ansiosa. Mas as suas expressões permaneciam neutras, enigmáticas. Indecifráveis. Enquanto eu me torturava atrás de sinais invisíveis, a Thaís tagarelava incessantemente com a Lê na nossa frente. A Clara me encarou de volta, dando um gole no vinho. E assim que abaixou de novo a taça, sorriu discretamente na minha direção.
 
Ah, sim. Ela ouviu.
 
_Sabe... – a Clara se aproximou então do meu ouvido, cochichando, sem atrapalhar a conversa das meninas – ...eu quis te matar lá dentro.
_Desculpa – murmurei baixinho, rindo.
_Você é muito panaca!
 
Referia-se à minha ceninha com a Marina na cozinha. Já tinha quase esquecido daquilo de tão preocupada que estava com a porra do “eu te amo” que soltei sem querer. , pensei, talvez ela sequer tenha ouvido. Uma pausa de milésimos de segundos do seu olhar no meu, todavia, fez com que a dúvida ressurgisse. Oscilando a cada sinal incerto. Isso é ridículo, me irritei com a minha inquietação involuntária, eu devia só perguntar logo de uma vez. E num impulso, toquei de leve no seu braço.
 
_Ei, escuta, quer sair pra fumar ou algo assim?
_Vamos.
_Tá – sorri – Vou só pegar o meu maço, espera aí... Já volto!
 
Voltei uns passos até a cozinha, onde tinha largado o meu cigarro. No caminho, trombei com outra amiga nossa, a Flavinha, que saía lá de dentro. Estava com uma regata preta e jaqueta de couro por cima – o que, junto com o cabelo Joãozinho, a deixava mais caminhão do que nunca. Assim que cruzou comigo, me segurou pelo braço por um instante:
 
_Cara, é sério que a Marina saiu com essa mina aí que cê trouxe? – falou baixo, como se fofocasse, e eu a encarei, surpresa – Cê já sabia? Faz tempo isso?!?
 
Como diabos vocês trocam esse tipo de informação em menos de cinco minutos, mano, me irritei, surpresa com tamanha boca de sacola das minhas amigas, puta merda.
 
_Sim. Não. E sim – respondi, impaciente – Quem te falou?!
_A Camila... – riu e eu fiquei ainda mais confusa, como a Camila já sabe? – ...mas e aí, mano, ela expulsou mesmo a Má depois de ter comid...?!
_Escuta – a interrompi – Não é da sua conta, é?
 
Larguei ela falando sozinha e continuei até a cozinha. Minha ex-namorada estava encostada no balcão, com as pernas cruzadas em frente ao corpo e a mão beliscando um pote de amendoins, enquanto falava com a Paula. Uma fofoca dessas, jura, logo você? Lancei um olhar indignado para ela. E peguei o maço que tinha esquecido sobre a mesa. Saí de novo para a sala e fiz um gesto para a Clara me seguir. Passamos por uma porta que dava na lateral da casa, numa espécie de quintal estreito. Alguns vasos com temperos malcuidados ocupavam o chão de ladrilho. Encostamos na parede e acendemos cada qual um cigarro.
 
_Cê já tá oficialmente conhecida entre as minhas amigas... – murmurei com o filtro ainda na boca, colocando o isqueiro de volta no maço – ...já virou a “mina que deu um fora na minha ex”.
_Nossa, hein... – a Clara arqueou a sobrancelha, irônica – Valeu!
_Quê?! Não fui eu que espalhei, meu... – achei graça – ...só tô te contando, porque vieram me falar.
_Ai, que ótimo...
 
Colocou a mão no rosto, soltando a fumaça para baixo. E nós rimos juntas. Estava frio e escuro ali, do lado de fora. Conforme tragava o meu cigarro, observei a Clara sorrir e senti verdade em cada palavra que escapou da minha boca naquela noite.
 
_Meu... – senti meu estômago embrulhar e desencostei da parede, ficando na sua frente – ...eu q-queria... falar com, com v-você.
_Sobre...?
_Ah... – peguei na sua mão, envergonhada, e os meus tênis esbarraram nos seus – ...sobre uma parada aí que... eu... m-meio que falei... antes.
_Ahm... – a Clara riu de volta – ...e o que foi que você “meio” falou antes?
_Ah... cê sabe...
_Não, não sei. O que era?
 
Agora eu tinha certeza. A desgraçada sabe. Levantei a cabeça e olhei bem nos olhos da Clara, espertos e debochados, mordendo os seus lábios à espera da minha resposta e, ah, ela sabe.
 
_Nada – respondi, a contrariando.
_Hum, sei... – ela riu junto e entrelaçou os dedos nos meus, carinhosamente – ...eu te “nada” também.

julho 02, 2012

A petulante

_E aí, meu... tá bonita!
_Você disse que não vinha! – a Marina sorriu, surpresa – O que aconteceu?!
 
Dei-lhe um beijo no rosto, afastando-me em seguida e ela logo voltou os seus olhos para a Clara, na sua camiseta do Billy Idol e jaqueta larga, em pé ao meu lado. “Mudei de ideia e resolvemos vir...”, respondi, a observando atentamente. Agia normalmente, ainda que a reconhecesse – eu podia perceber. Sorri e as apresentei, então, como se não soubesse de nada.
 
_Essa é a Clara, aliás!
_Oi...
_A... a gente se conhece – a Marina se constrangeu, virando-se para a Clara – E aí, tudo bem?
_Tudo. E você?
_Uhum.
_Nossa, mas... – as interrompi, com um sorriso no rosto – ...se conhecem de onde?
 
A Clara me lançou um olhar na mesma hora, me repreendendo. Quê?
 
Atrás de nós, as garotas seguiam cozinhando o que eu agora confirmara ser mesmo um molho de tomate bastante cheiroso. Uma travessa de lasanha descansava, crua e com muitas camadas diferentes, sobre um balcão próximo de nós. Cumprimentei a Jéssica com um gesto, por cima do ombro da minha ex, gesticulando um "parabéns" silencioso com a boca e sorri.
 
A Marina fechou os olhos, confusa.
 
_A, a gen... – ela hesitou, atrapalhada na própria explicação, e eu me diverti – ...quer dizer...
_Hum?!
_É que... a, a ge...
_Ela é amiga da irmã da minha melhor amiga – a Clara se adiantou.
 
Ah, jura, a olhei de volta, com um sorriso no canto da boca, não acaba com a graça.
 
_É. A, a gente saiu, uns anos atrás.
_Quê?! – me fiz de surpresa ao ouvir a minha sempre honesta ex-namorada contar o que eu tinha descoberto cinco minutos antes – Vocês duas?! Vocês ficaram??
_Foi u-uma vez.
_Como assim, Marina?!
_A, a gente... – ela se enrolou, de novo – ...só se v-viu...
_Ela sabe.
 
Silêncio, Clara.
 
_Eu contei assim que te vi, agora pouco – continuou, cortando meu barato.
_Ah! É claro que já você sabe... – a Marina revirou os olhos para mim, num suspiro irritado.
_Enfim, bom te ver... – a Clara encerrou o assunto e se virou para mim – ...eu vou buscar mais vinho, tá?
_Não, Bi, espera...
 
Droga. Ambas me deram as costas, cada uma indo para um lado. Por que estragar o momento, gente? A Marina deixou de lado um pano de prato, o apoiando sobre a pia e indo em direção à geladeira; e a Clara retirou-se novamente para a sala, fugindo para bem longe da minha inconveniência. Ah. Qual é, meninas?! Mantive o meu espírito esportivo, de bom humor, ainda sorrindo. Corri uns três passos para alcançar a Marina no outro canto da cozinha, encostando o antebraço no alto da Cônsul antiga da Lê e a encarando.
 
_Quer dizer, então... – sorri – ...que vocês duas, hum... hein?
_Você tá adorando isso, né? Eu já devia saber... – desviou o olhar de mim, abrindo a porta da geladeira, revoltada com a forma como as minhas pupilas brilhavam com a informação – ...é a sua cara mesmo, se divertir com uma coisa dessas.
_Ah, vai...
_Quieta!
_O quê?! Eu não posso achar nada? Nem um pouco... – pausei – ...interessante?!
_Não. Você tá imaginando nós duas na cama, que eu sei. E isso é ridículo!
_Olha, não tava... – achei graça – ...mas agora que você disse.
_É. “Agora”, né. Sei.
 
Fechou a porta da geladeira com uma peça pequena de parmesão nas mãos, se voltando para a mesa bagunçada ali ao lado. A Paula tinha uma faca em mãos, ao nosso lado, picando framboesas para o que parecia ser uma possível calda, cortando-as na mesa e enchendo uma panela. Hum, vai ter sobremesa então. A Marina se acomodou ao seu lado, colocando o queijo entre os ingredientes do molho. Eu ainda me divertia.
 
_Mas, e aí? – insisti, a perseguindo pela cozinha – O que aconteceu entre vocês?!
_Nada. Você já sabe o que aconteceu...
_Tá, mas...
_“Mas” nada, chega.
_Mas eu quero saber o quê, como, a sua opinião sobre a Clara. Sei lá!
_Eu não vou dizer a minha opinião, foi anos atrás. E meu, que diferença faz agora? Você gosta dela, eu não vou ficar aqui falando da menina.
_Gosto. Gosto mesmo.
_Então, pronto!
 
A Marina virou o rosto, como se encerrasse o assunto. Tá, tá. Não tá mais aqui quem falou, ergui as mãos e me abstive de qualquer outro comentário, ainda rindo. Era uma graça como a Marina apertava os olhos toda vez que estava irritada, o fazia com frequência na minha direção. Tentou se concentrar então em ralar o parmesão dentro de um pote. As raspas caíam finas e delicadas, com leves curvas nas pontas, umas sobre as outras. Bati os meus dedos sutilmente na superfície de madeira. E foi quando, do nada, dois segundos da minha conversa com a Clara voltaram, frescos, à minha memória. Mas o quê...?, apoiei a palma da mão sobre a mesa, confusa.
 
_Na verdade, eu... – o meu cérebro só então processou e murmurei, atordoada pela lembrança – ...eu acho que, q-que eu... d-disse uma... coisa, merda. Já volto!

junho 23, 2012

Os casos

_Você?! E a Má?! – questionei e a Clara acenou um ‘sim’ envergonhado com a cabeça, os olhos ainda escondidos entre os dedos – V-vo... VOCÊS DUAS, MANO?!
 
Dei um passo para trás, com uma das mãos sobre a testa, e comecei a rir ainda mais. No máximo de silêncio que conseguia, claro, para não chamar atenção. A festa seguia atrás de nós desavisadamente. Constrangida, a Clara me encarou, fazendo um gesto com as mãos como se dissesse “e agora?”, mas tudo o que eu conseguia fazer era rir. Não, não é possível, balancei a cabeça. A Marina não tem NADA A VER com a bandida da Clara, porra. Estiquei o pescoço novamente para a cozinha e observei a minha ex em seu vestidinho preto, sapatos de boneca e os seus olhos atentos ao fogão, por detrás dos óculos pretinhos.
 
Mano, tornei a encarar a Clara, ainda desacreditada, essa é a melhor fofoca do ano.
 
_Não. Fala sério. Você?! – repeti, abismada – Com, com a minha Marina?!
_“Sua”?
_É. Ela... – expliquei, rindo – ...é minha ex. Eu te falei dela!
_E-eu achei que v-vocês fossem... amigas, não?!
_Não, nós namoramos uns anos atrás. Mas agora a gente é tipo muito, muito amiga.
_Tá me zoando, né?!
_Não. Eu fui a primeira namorada dela – ri.
_Inferno... – a Clara se desesperou, subindo as mãos novamente ao rosto – ...merda! Eu não sab...
_Como? – continuei me divertindo, a interrompendo – Quando? Quando vocês duas, digo, COMO?! COMO É POSSÍVEL?!
_Não... – choramingou, se recusando a falar, sem conseguir rir junto – ...para, não piora tudo, mano. Por favor!
 
A puxei então pela mão, para entrarmos de vez na cozinha. Vamos acabar logo com isso, pensei, indo cumprimentar as meninas. Mas a Clara grudou as costas na parede, a menos de um metro da porta – “não posso entrar aí!”. E eu não pude evitar senão rir ainda mais da situação. “Isso é ridículo, relaxa!”, cochichei, “ela não vai te morder, mano, todo mundo aqui já saiu uma com a outra! Vem!”. “Não!”. A Marina seguia cozinhando, inadvertidamente, junto às meninas. E não havia argumento que convencesse a Clara a entrar lá do meu lado.
 
Foi quando, de repente, me deu um estalo:
 
_Voc... v-você deu bolo nela! – a olhei, como se desvendasse um grande enigma – Filha da mãe! Você deu perdido na Marina!
_Eu não dei bolo em ninguém – me desprezou com os olhos.
_Alguma coisa! Alguma coisa você fez, mano, pra tá agindo assim... – gargalhei – Você não consegue nem esconder. Olha o medo na sua cara, meu! Vai, só fala. O quê?! O que você fez? – me aproximei da Clara, sem conter a curiosidade – Juro que não falo pra Má que cê falou, mas conta, vai, o que foi?! – ela virou o rosto e eu a apertei contra a parede, insuportável – Você deu bolo nela, não deu? Deu?!
_Não! Não dei, para... – sussurrou – ...e-eu, eu só nã...
_O quê? O quê?!
_Não fica aí pulando de felicidade, mano! – me deu bronca, fugindo do assunto, e eu revirei os olhos, nem aí, voltando a rir – Para!
_Só me conta logo!
_Não.
_Por favor, Bi!
_Quieta!
_Por favoooooor!
_Tá. Mas é que... f-faz muito tempo... – hesitou – U-uns, uns dois anos já. Três, sei lá! A gente só saiu uma vez, ela é amiga da irmã da Lu. A gente se pegou numa festa e e-ela dormiu lá em casa depois e eu... meio que... – a Clara suspirou, sem conseguir me olhar direito – ...namorava outra menina, na época. Só que aí ela... a-apareceu do nada, no dia seguinte, e eu tive que ir correndo pedir pra, p-pra Marina sair.
_DA SUA CAMA?! – quase gritei – Espera, espera, você acordou a Marina e pediu pra ela sair?!?
_Ela já tava acordada, idiota, eu s-só...
_Ainda assim! – eu me diverti – Que desgraçada!
_Você quer o quê?! Deixar pior do que já é?!?
_Cara... – ri ainda mais – ...eu tô te odiando muito agora. Cê tem noção?
 
A Clara enfiou o rosto nas mãos, mais uma vez, constrangida. E então me olhou, desesperada por qualquer salvação daquela festa, sem querer estar ali. Comigo, ainda por cima. Eu não conseguia parar de rir, sem qualquer intenção de ajudá-la a sair daquela. Tomada pelo absurdo do rebuceteio paulistano. Ela também ria, de tempos em tempos. Eu tirava sarro da sua cara e ela me dava tapas no braço, implorando para que eu parasse.
 
_Ela me mandou à merda, cê sabe, né... – comentou, apoiada contra a parede comigo.
_Merecido. Porra, mano, é a, a Marina!
_É, bom. Se eu soubesse...
 
Ela riu, arqueando as sobrancelhas de leve.
 
Não é fácil, eu sei. Ficar conhecida como “a mina que deu um puta fora na Marina” entre as minhas amigas certamente era a última coisa que a Clara esperava daquela noite. Levou uma das mãos ao topo da cabeça, entrelaçando os dedos no cabelo, como se tomasse coragem. E aí me olhou, determinada – “tá, vamos entrar logo”. Desencostou da parede e eu segurei a sua mão. Mas bastou um passo para ela mudar de ideia. “Não dá, isso vai ser muito feio”, voltou atrás. “Não vai, só vem”. “Não consigo”, hesitou, balançando a cabeça. “Cara, ela não vai falar nada! A Má é a pessoa mais de boa que existe!”, argumentei e a Clara me contrariou imediatamente com os seus olhos castanhos. “É sério”, reafirmei, rindo. “Muito fácil pra você dizer, né...”. “Eu conheço ela, besta”, cochichei, “tô te falando”. “Mano, por que? Por que ela?? Cê não podia ter namorado outra pessoa??”. “Olha quem fala!”. “Não acredito nisso... por quê?? Por que comigo??”, irritou-se. “Calma”, ri. “Calma nada, como é que eu vou entrar ali?”. “Vai ficar tudo bem”. “Argh”. “Vem, vamos só entrar, eu te protejo...”, tentei puxá-la pela mão. “Não, não. Não dá, meu!!”. “Não vai acontecer nada, Clá”. “Eu quero morrer”. “Só vem”. “Não”. “Vai ficar tudo bem! Olha, eu te amo, aconteça o que acontecer. Só vamos!”, ri do seu nervosismo. Ela suspirou. E os nossos pés lentamente foram se afastaram da parede. “E se ela ainda tiver puta comigo?”, sussurrou. “Não vai estar”. “Promete?”. “Prometo”, sorri.
 
Corajosamente, fizemos as nossas melhores caras de não-era-a-gente-que-tava-discutindo-por-dez-minutos-atrás-dessa-parede para entrar na cozinha. A um passo da porta, a Clara apertou a minha mão e eu fui na frente.
 
_Flor!