Logo fomos interrompidas. Já no segundo cigarro e milésimo beijo,
amassadas contra a parede e testando os limites da boa conduta na casa dos
outros. “Epa, epa, vamos parar de baixaria aqui?”, a Thaís falou bem alto,
rindo, assim que nos encontrou na lateral da casa. A Clara rapidamente a mandou
tomar no cu. Numa intimidade conquistada nos últimos meses – de tanto me
acompanhar na casa da Thaís para fumar uns, já que eu andava evitando rolê para
economizar dinheiro, as duas acabaram se tornando amigas.
Voltamos para a sala pouco depois dela, levemente descabeladas e guardando
os nossos maços nos bolsos. Ainda sentia as minhas bochechas levemente
vermelhas de tanto, ahm, passar calor. Sentamos na mesa e nos pusemos a
comer aquele “jantar”, tão atrasado que estava começando à 1 da manhã. Pelas
horas seguintes, pratos e tigelas amontoados, com apenas restos, foram se
acumulando à nossa frente. Mesmo quando acabou a comida, continuamos à mesa e
as taças de vinho seguiram fluindo tão bem quanto a conversa.
Propus um brinde ao aniversário da Jéssica – que, a essa altura,
já estava sentada no colo da Lê nuns beijos embriagados. O álbum do Uh Huh Her
tocava sem parar. No auge da sapatonice. Ficamos todas tão
bêbadas, de uma garrafa chilena atrás da outra, que eu e a Thaís nos
debruçávamos sobre a mesa, rindo, sem nem saber de quê. Até a Clara estava
tagarelando com a Marina, agora sentada ao seu lado. E é, verdade,
eu devia tá ouvindo aquilo – mas
já não conseguia prestar atenção em mais nada. Outra meia hora e aquela era a
3ª vez que escutava “I'm better than the
other one, you're a harder chase” sair do rádio. Mais dez minutos, outras
duas taças. E eu discutia, aos gritos, com a Camila na outra ponta da mesa.
Entre um verso e outro da música alta, fora de mim, enquanto a Clara me puxava
pela camiseta e me mandava sentar de novo, ordenando que parasse de fazer cena.
_CÊ TÁ OUVINDO O QUE ESSA IDIOTA TÁ FALANDO?! – bati na mesa, indignada,
e voltei a atacar a Camila – CÊ TÁ MUITO LOUCA, MANO!!
Alguns minutos antes, ela defendeu que a versão traduzida de “Starman”
era melhor que a do Bowie. E eu perdi a cabeça em meio segundo. Não satisfeita,
a minha amiga tomou as dores do rock nacional e começou a gritar de volta
comigo, irritada, me acusando de ser uma fã chata. A Thaís me forçou de volta à
cadeira e encerrou de vez a briga. “You're fast against mine, I will tear you from
the...”, quarta vez. Pazes
feitas, todas amigas de novo. Rodamos uma garrafa vazia, deitada, no centro da
mesa e nos desafiamos a contar nossos piores podres umas para as outras. A
Clara se divertia com os meus. E a Marina, já quase sem fôlego de tanto rir, confirmava
tudo com a cabeça. Seus óculos já estavam abandonados sobre a mesa. Deus, eu me afundava na cadeira, cobrindo a minha cara de pau, ainda bem a Clara não vai lembrar metade
disso amanhã.
_Vem – disse, então, no ouvido dela – Vamos cair fora um pouco.
E aí escapamos, enquanto as meninas tentavam descoordenadamente abrir
a sei-lá-qual rolha da madrugada. Já tinha perdido a conta. Cês são loucas de beber mais vinho, meu deus.
Rindo, trombamos na porta da lateral e fugimos com sucesso para o nosso
cantinho de antes. O quintal continuava escuro – o sol ainda não tinha nascido
e uma umidade meio fria das 5 e pouco se alastrava no ar. Nos escondemos atrás
da casinha onde ficava o botijão de gás, acoplada à lateral da casa. Beijei a
Clara com uma vontade embriagada, quase incontrolável.
Aí nos enroscamos – os seus braços subiram até os meus ombros, eu
desci as minhas mãos. E a empurrei contra a parede. Não conseguia me concentrar
em nada. Eram momentos desconexos, nuns lapsos de memória que, de alguma forma,
faziam sentido quando fluíam assim, cada beijo, cada chupão, as mãos dela, a
pressão nos meus lábios, as mordidas, o seu corpo pesando no meu, nuns toques
indelicados – como se eu fechasse e abrisse os olhos, o tempo todo, repetidas
vezes. A minha cabeça rodava. E a Clara tinha as mãos metidas no meu jeans. Roubava-lhe um beijo e nos contorcíamos, juntas. “Tell me I’m the
only one, the only one”, soava ao fundo – aquela era a quinta vez. Ri sozinha ao reparar e a beijei logo em
seguida. Enfiei as minhas mãos no seu cabelo, a segurando com vontade enquanto
a beijava, esquecendo de respirar. Desci um dos meus braços até um dos botões
da sua calça, dois, o zíper, o lance todo. Apoiei a testa no seu ombro, por um
segundo, buscando um pouco de estabilidade – tentando voltar à realidade, ao
mínimo de consciência. Numa tontura alcóolica, o fogo queimando, desnorteada.
Caralho.
A Clara encostou a boca no meu ouvido, “vamos voltar pra casa,
quero você sentada na minha cara enquanto eu...”, e foi deslizando os dedos
para dentro de mim, me falando cada obscenidade que estava com vontade de fazer
ali e não podia. Puta merda. Tudo o
que eu queria era uma cama, porra. E sobriedade.
Senti que ia passar mal. Nem pensar, se
controla, era o único pensamento que a minha cabeça conseguia formular, você
consegue. Aceleramos então, a intensidade, tudo. Os beijos se multiplicaram,
o calor, nossos corpos arrastados, tudo. Tudo confuso – e gostoso. Sentia como
se estivesse prestes a explodir. “Tell me I'm the only one, the only one...”,
ouvia Uh Huh Her cantar, repetidamente. Nuns orgasmos simultâneos. Perdi o
fôlego por um instante, meu corpo inteiro em êxtase. A Clara beijava o canto da
minha boca, entreaberta, sentindo cada pedacinho das nossas peles se tocando. Cacete.
Assim que caí de novo em mim, me senti mal. Dei dois passos para
trás no breu e me virei rapidamente, apoiando a mão nos tijolos da casinha do
gás.
_Cê tá bem, Bo? – a Clara se assustou, vindo na minha direção.
Colocou a mão no meu ombro, preocupada. E tão logo respondi “n-não
muito”, engasgada e sem ar, foi o que bastou para o meu estômago se revirar por
completo. Vomitei duas vezes, todo o maldito vinho. Gran finale.