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abril 07, 2010

Santa Augusta

Quase cinco da manhã e nós persistíamos na Augusta, como quatro gambás bêbados, sentados numa sarjeta imunda qualquer. O nosso porto seguro, o Ibotirama, havia fechado algumas horas antes e nos expulsado educadamente junto com alguns dos últimos clientes. O caos de sexta à noite dominava a rua em alto e bom som.
 
Entre um bar superlotado e outro, os meninos cometeram a besteira de comprar dois litros de vodka barata – e eu cometi a besteira ainda maior de ajudar a virar toda aquela dor-de-cabeça engarrafada. Após algumas pequenas confusões quase propositais, cambaleando pela rua, e muitos novos amigos conhecidos no meio do caminho, sentamos acabados em frente ao Santa Augusta, atraídos pela movimentação constante.
 
O convívio com a Mia até aquela altura estava sendo bastante simples: ela me ignorava e eu engolia, calada, com o rabo entre as pernas. Algo próximo do tolerável. Ao chegar no Santa Augusta, ela entrou para usar o banheiro e eu fui um tempo depois para buscar uma cerveja, munida com o dinheiro do Fer. Dei de cara com a Mia no meio da muvuca, assim, de repente, enquanto ela voltava para o lado de fora e eu entrava. Olhei para a cara dela e a Mia olhou imediatamente para baixo, incomodada com a minha presença. Merda. Desviei dela, evitando qualquer constrangimento desnecessário, e me pus a caminho do bar. O que mais eu poderia fazer?
 
De volta à calçada, matei a garrafa com o Fer e começamos a comentar sobre um amigo em comum com o Rafa, detalhando os absurdos do passado duvidoso dele. O Fer ria tanto, mas tanto, que chegou a tombar duas ou três vezes para trás, esbarrando no cara parado atrás dele, o irritando. Quase deu briga. Não que o meu estado fosse tão melhor, afinal, esquecia uma de cada três palavras e já não fazia mais sentido em nada do que eu dizia. Enquanto isso, a Mia ficava cada vez mais soltinha e, consequentemente, cada vez mais em cima do Fer. Literalmente em cima. Argh. Aí, sim, começou a me incomodar. Nuns beijos empolgados, sentada no colo dele, beirando o insuportável. Desgraçada. E no auge da minha irracionalidade alcoólica, eu não podia evitar senão ficar encarando enquanto os dois se pegavam na sarjeta, completamente mordida de ciúmes, ignorando o que o Rafa tagarelava bêbado ao meu lado.
 
Para de olhar. Para de olhar. Para de olhar.
 
Argh. Não dava. Quanto mais eu me esforçava para recuperar parte da minha sobriedade, virar a cabeça e encarar a porra do chão, mais indiscreta eu ficava. Olhando fixamente para as mãos do Fer, agarrando as coxas da Mia naquela meia-calça arrastão rasgada. As mesmas pernas que estiveram sob os meus dedos naquela noite no sofá da casa dos seus pais. Por sorte, meu amigo estava tão bêbado e tão ocupado em pôr as mãos nela, que não percebeu. A Mia, por outro lado, fazia questão de virar os olhos sutilmente na minha direção, de tempos em tempos, para checar se eu estava prestando atenção suficiente – e eu estava, é claro. Porcaria.
 
Por volta das cinco e quarenta, o meu celular tocou. Eu não percebi logo de início, hipnotizada pela ceninha desconcertante da Mia e do Fer. Só fui ver alguns minutos depois. Quando olhei o visor, meu telefone já registrava duas chamadas não atendidas. Liguei de volta e, para a minha surpresa, era a Dani.
 
_Seguinte, não tô afim de ir pra Lari. Quero te encontrar – soou arrependida – Onde cê tá? Eu tô saindo daqui agora, posso ir aí? 
 
Não. Não pode. Não pode. Não pode, nem pensar.
 
_Tá. Que se dane. Tô no Santa Augusta, vem aí.

abril 06, 2010

Transtorno

Deixei a minha comanda vazia no balcão da frente e saí para a rua, puta da vida. Parei em frente à balada, arrependida de ter sequer saído de casa naquela noite, e acendi um cigarro. Eu sabia que isso ia acontecer, eu me torturava mentalmente, me sentindo idiota. Que bem poderia vir de sair com a Dani? Nenhum, porra. Nenhum!
 
Subi a rua até a esquina oposta, parando no posto seguinte para comprar uma cerveja, sem saber direito para onde ir dali. Eu devia saber, eu já devia saber, eu passava a mão no rosto, inconformada, enquanto esperava na fila do caixa. Os meus trocados não foram suficientes para pagar a porcaria da cerveja superfaturada da loja de conveniência e um playboy idiota que estava atrás de mim se ofereceu para pagar. Isto é, dependendo de como eu ia “agradecê-lo”. Claro. Babaca do caralho. Mandei ele à merda e saí, sem a cerveja.
 
Tirei o celular do bolso, descendo em direção ao meu apê, e liguei para o Fer. Não sei bem por que, simplesmente liguei. Ele atendeu em meio a uma gritaria, soando realmente bêbado. Perguntei onde ele estava e não consegui ouvir o que ele dizia. Desliguei, mais irritada ainda, e joguei a bituca do cigarro no meio da rua. Que fracasso. De repente, o meu celular vibrou e eu vi uma mensagem do Fer piscando na tela.
 
“To na augusta com a mia e o rafa benatti no ibotirama,vem ai.”
 
E contrariando todo o bom senso – como sempre –, eu fui.

Implícito

Vows are spoken to be broken
Feelings are intense, words are trivial
Pleasures remain… so does the pain.
Words are meaningless
And forgettable

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm

Enjoy the silence... bitch.

(Depeche Mode)

Carma

Vinte minutos, por mais longos que tivessem parecido, ainda eram vinte minutos. E dada a minha falta de sorte com a Mia no último final de semana – ou em todo aquele tempo –, eu queria bem mais do que só umas baixarias casuais no banheiro. Já estávamos na segunda rodada de não-me-lembro-o-quê, quando empurrei a Dani contra uma das paredes, desta vez do bar, antes que ela voltasse para a cabine de DJ. Aí me aproximei do seu rosto, com todas as minhas más intenções, e a observei de perto. Caralho, você é bonita demais. Sorri.
 
_Não pense que eu tô satisfeita, viu... – eu disse, apertando minhas mãos na sua cintura.
_Cê quer mais, é?
 
Ela sorriu também, imprestável, e eu achei graça.
 
_Eu quero você a noite inteira, garota.
_Ah, mas eu tenho que trabalhar... – ela se insinuou, se divertindo.
_Vem dormir comigo... – a abracei pela cintura, na maior pilantragem, e encostei no seu ouvido – ...vem comigo pra casa hoje, vai.
_Hmm... tentador... – ela me olhou, como quem realmente fosse aceitar, e colocou o meu cabelo atrás da orelha, quase condescendente – Mas eu já tinha combinado outra coisa, gata.
_Outra...? Como assim?
 
Eu me afastei, confusa, olhando para ela. E a Dani se constrangeu.
 
_Ah... É que e-eu não sabia s-se você ia vir, não é? E eu precisava dormir em a-algum lugar, então eu...
_Espera, cê está falando sério? – a interrompi, indignada.
_É, e-eu... – abaixou a cabeça – ...eu vou ficar lá na Lari hoje.
 
Filha-da-mãe.
 
_Ah, vai se foder, Dani... A LARI, PORRA?! – me irritei, já meio alterada pelo álcool, exagerando no tom de voz – Você sequer gosta dela, meu!
_Quê que tem?!
_Eu não entendo, cara... Não entendo!! Por que cê faz isso?!
_E você queria QUE EU FIZESSE O QUÊ?! – ela brigou de volta e as pessoas nos olharam como se fossemos um casalzinho discutindo a porra da nossa relação no meio da balada – Você não me disse se ia vir no telefone, você sabe que eu não gosto de pegar a estrada de madrugada...
_E então VOCÊ VAI DAR PARA IMBECIL DA SUA EX EM TROCA DE UMA PORRA DE UMA CAMA?! – eu ri, nervosa – SÉRIO MESMO??? Pra quê me chamou aqui então??
_Não é isso – ela se apressou em se explicar – Eu já tinha combinado, poxa... Senão é claro que eu preferia ir pra sua casa, gata.
_Que seja... – eu resmunguei, virando as costas – Faz o que você quiser.

abril 05, 2010

Endorfina, baby!

Estar cercada por quatro paredes apertadas faz com que a sua percepção do tempo se altere. E quanto menor o lugar, mais os segundos parecem demorar para passar – vinte minutos facilmente se transformaram em horas dentro do banheiro abafado do Sonique.
 
Eu ainda estava com o meu jeans – e a mão da Dani metida nele –, numa baixaria pela metade, quando comecei a sentir o calor claustrofóbico daquelas paredes fervendo o álcool no meu sangue. Assim que gozei, afastei ela de mim, num gesto pesado e lento, e me apoiei nas minhas pernas a fim de respirar. Era algo como quando a sua vista toda escurece após parar, de repente, de correr... E nós duas havíamos corrido pra caralho.
 
_Foi tão bom assim? – a Dani me perguntou, rindo.
_Nossa... – eu confirmei com a cabeça, recuperando o fôlego, ainda ofegante – ...mas não fica se achando aí, não.
 
Eu não gostava de alimentar o ego de ninguém – muito menos o dela, que já era enorme. Mas que a Dani sabia como eu gostava, cacete, isso ela sabia. Uma vez recuperado o fôlego e esfriados os ânimos, levantei e vesti minha camiseta de novo. Observei a Dani subindo a calcinha até em cima das suas pernas. Essa mina, meu deus. Ela encostou na parede oposta, me olhando, e nós rimos juntas. Eu peguei o seu vestido, que estava caído ao lado dos meus pés, e joguei contra ela. Ela riu, segurando-o, e eu puxei o maço do bolso.
 
_Você e os seus cigarros... – ela disse, já vestida.
_Você e as suas ideias malucas... – eu ri, de volta, colocando um dos cigarros na boca.
 
Nós saímos por fim, descabeladas e ainda vermelhas, com cinco ou seis marcas no pescoço nuca costas seios pernas pelo corpo. A Dani se olhou rapidamente no espelho, ajeitando a roupa e prendendo novamente o cabelo, enquanto eu acendia o cigarro. Saímos para a pista, com uma cara inegável de culpadas, e a funcionária responsável pelo banheiro nos olhou feio.
 
_Se sentindo melhor?!
 
Ela resmungou, ironicamente.
 
_Cê não faz ideia... – a Dani riu, com o braço ao redor de mim.
_Não pode fumar no banheiro, viu?! – a mulher soltou na minha direção.
_Bom, também não podia entrar duas juntas numa cabine, não é?
 
Eu levantei as sobrancelhas para ela, rindo, e dei de ombros – saindo abraçada com a Dani para a pista.

abril 04, 2010

Fucking Dani

As mãos dela seguraram a minha camiseta e me forçaram contra a parede. Antes que eu pudesse reagir. Mal terminei de fechar a porta do banheiro, empurrando-a com o pé pelo terço restante, e a Dani já estava em cima de mim. Isso não vai ficar assim, a empurrei contra a parede oposta, a pressionando pela cintura. Ela sorriu e eu a beijei, enfim.
 
Ao contrário de muitos banheiros inconvenientes, o do Sonique tinha portas enormes, que vinham do chão até bem acima das nossas cabeças. Ou seja – privacidade absoluta. Se havia um banheiro bom para aproveitar a companhia de uma garota na balada, ah, esse banheiro era o do Sonique. E nós tratamos de nos aproveitarmos muito bem.
 
O som da pista entrava clandestinamente pelas frestas e ladrilhos. Forcei meu corpo contra o dela, abrindo as suas pernas com a minha e a empurrando contra a porta trancada. Ela resistiu, mas eu a pressionei com mais força ainda. O lance com a Dani é que ela gostava de ficar no controle e eu, bom, não gostava de deixar. Então, toda vez nos enrolamos em algum banheiro ou outro canto escuro qualquer, as chances são de que uma de nós vai sair com alguns hematomas pelo corpo. Se não as duas. Era sempre uma disputa – no bom sentido – entre beijos violentos, movimentos indelicados e uns amores brutos.
 
Beijei ela mais uma vez contra a parede e subi minhas mãos pelas suas pernas, descobrindo-as. Segurei-a com força no meu colo, ainda a empurrando contra a madeira. Ela arrancou a minha blusa e começou a me beijar, descendo pelo meu pescoço. Suas mãos me arranhavam por todo o decorrer das minhas costas, me machucando impiedosamente. Desgraçada. Sussurrei qualquer baixaria no seu ouvido e ela me beijou, me agarrando com ambas as mãos. Até que alguém bateu na porta.
 
_Ei! Não pode entrar duas juntas aí! – reclamou uma funcionária mal-humorada responsável pelo banheiro.
_Minha amiga tá passando mal... – bati de volta na porta, sem paciência – ...usa o outro!
 
A Dani riu da minha cara de pau. E ouvimos alguém resmungar qualquer coisa do lado de fora. Foda-se, beijei ela mais uma vez e terminei de subir o seu vestidinho, o jogando no chão. Não é problema nosso, pensei, enquanto descia pelo corpo maravilhoso da Dani, a virando contra a porta e mordendo suas costas, descendo a boca pela sua coluna, centímetro por centímetro, me ajoelhando e a agarrando com as mãos cheias, beijando a sua bunda, suas coxas. E então a virando de novo – puta que pariu. Que saudade que eu tava.
 
Ela segurou a minha cabeça com uma das mãos, entrelaçando os dedos no meu cabelo. E eu tirei a sua calcinha, meio de qualquer jeito, lambendo-a coxa acima. Fui molhando cada pedacinho da sua pele. Ela apoiou a perna no meu ombro, me puxando na sua direção e me molhando de volta, ali. A beijei com gosto.
 
Ah, a Dani...

abril 02, 2010

Egos

Olhei a tequila descer turva pelo copo, dourada e sedutora, enquanto a Dani virava o seu segundo shot consecutivo. O barman a encarou preocupado, com certa razão, como se aquela quantidade toda de álcool fosse derrubar uma garota de tamanho tão desproporcional ao desafio. Ela baixou o copo vazio na bancada, sem fazer careta, e jogou a franja de cima dos olhos novamente.
 
_Aprendeu a beber, gracinha?
_E você por acaso já soube algum dia? – ela retrucou, levantando as sobrancelhas.
_Me dá um desconto, vai...
 
Eu ri, me apoiando no bar.
 
_Cê não está bebendo?
_Não. Tô sem grana...
_Eu te pago uma, vai... O que cê quer?
_Não gosto de mina me pagando bebida – a cortei imediatamente.
_Mas eu não sou qualquer mina, sou? – ela se inclinou na minha direção, ignorando minha resistência, e roubou um cigarro ainda sem acender das minhas mãos, o colocando delicadamente na sua boca – Eu sou sua mina, não?
 
Ela sorriu com o canto da boca, com o filtro entre os lábios.
 
_Ah, é? Eu não sabia dessa... – eu ri da sua presunção e puxei outro cigarro do maço, olhando para ela enquanto acendia o meu e, depois, o dela.
_Me vê uma dose de Jameson, por favor – ela pediu, certeira – Pode colocar na minha conta.
_Por que cê me ligou hoje, hein?
_Porque se depender de você, eu fico mais um ano sem pisar em São Paulo.
_Cê sabe que isso não é verdade... – eu disse, tragando demoradamente, e com o canto do olho vi minha dose de whisky aterrissando ao lado do meu braço na bancada.
_Eu liguei porque ia tocar aqui e é quase do lado da sua casa, oras... Que maldade tem?
_Nenhuma – eu ri – Mas então, quanto tempo cê tem até subir lá de novo?
_Não muito, uma meia hora... E aí? Você vem? – ela perguntou, se afastando do bar.
 
Não respondi e ela sorriu, como se já soubesse a resposta. Tirei o cigarro da boca e soltei a fumaça lentamente. Acompanhei com os olhos conforme a Dani caminhava confiante no meio de todas aquelas outras pessoas menos importantes – até o banheiro. Era como um flashback de milhares de noites no passado e joguinhos como aquele, sempre a mesma ceninha idiota. Eu sou muito trouxa mesmo. Virei para o bar novamente e segurei o copo de Jameson, hesitante. Já me arrependendo do que estava prestes a fazer, mas sabia que era inútil tentar me convencer a não ir atrás dela. Engoli todo o whisky nas minhas mãos num só gole e bati o copo vazio no balcão. Vamos acabar de uma vez com isso.

abril 01, 2010

Maus hábitos

Uma a uma, as luzes coloridas do Sonique passavam dançando pelo meu rosto. Eu olhava em volta, encostada numa das paredes da pista, pensando no que diabos eu estava fazendo ali. A Dani tinha me colocado na lista. E de qualquer forma, não tinha como voltar atrás agora – ou tinha, eu é que não queria. Eu precisava vir, me convenci mentalmente, precisava. Afinal, todo mundo tem uma história mal resolvida e a Dani era a minha. Uma delas, pelo menos.
 
Por pura cautela, não fui falar com ela assim que entrei. Ela já estava na cabine de DJ, começando a esquentar os seus discos e a pista, que se enchia numa rapidez incrível. Fiquei de longe, observando-a, e ela sorriu na minha direção, rapidamente, sem me dar muita importância. Seu cabelo estava mais escuro e mais curto, repicado e mal preso em um rabo, o que a obrigava a jogar a franja constantemente para o lado com a cabeça. Ela ficava realmente mais bonita quando não se esforçava. E naquela noite, uau, ela não tava se esforçando nem um pouco.
 
Por um ano, a Dani tinha ficado fora, morando na França com os pais. Mas eu não a via desde muito antes disso. Por tempo demais, pensei. Vê-la assim me dava uma saudade tonta, que eu não queria sentir. Nós tínhamos um relacionamento confuso, mas mais intenso e verdadeiro do que a maioria dos que eu já tive. Bem lá no fundo das nossas entrelinhas, nós estávamos sempre “para acontecer”. Só que nunca realmente acontecemos. A verdade é que a Dani era mais imprestável do que eu e me dava bem menos bola do que eu gostaria – o que, infelizmente para o meu ego, era realmente instigante.
 
Caráter à parte, agora ela aparentemente era aspirante a DJ. E dez... cem... mil vezes mais gata. Merda, eu realmente não deveria ter vindo, me arrependi, enquanto a olhava jogar aquela maldita franjinha de cima dos olhos. Como eu odiava minas assim. Irrecusáveis, argh. Eu conseguia dizer “não” para qualquer garota, qualquer uma – só não o fazia tão frequentemente porque, sejamos sinceras, nunca vi vantagem. No entanto, sentia uma dificuldade considerável em resistir a garotas assim, com essa falta de limite, como era a Dani. Ou a Mia, ao que me consta. E a minha falta de controle perto delas me incomodava. Bastante.
 
Ainda assim, eu não conseguia evitar.
 
“Words like violence, break the silence...” e, de repente, acordei dos meus pensamentos como num susto. Aquilo era Depeche Mode, ecoando pela pista inteira. Olhei para cima e a Dani me encarava discretamente ao longe, como se já esperasse que eu fosse me virar na sua direção. Levantei as sobrancelhas, num gesto referente à música, e ela piscou indiscreta para mim. Eu sorri. A porra da faixa era minha, eu sabia. É hoje, presumi. E cantarolei “Enjoy the Silence”, entre um olhar e outro dela.

março 27, 2010

Old routine

Antes que eu pudesse me dar conta, já era sexta de novo.
 
A iminência do fim de semana me revirava o estômago. O trabalho ocupou a minha mente durante os dias da semana, da forma mais medíocre possível, e eu passei o restante do meu tempo entediada até a morte – largada no sofá, deitada no meu quarto, debaixo do chuveiro, parada em frente à geladeira ou fumando na calçada do prédio. O meu consumo de cerveja quase triplicou. E agora já era sexta-feira de novo, droga.
 
O Fer havia iniciado um processo lento de reaproximação com a Mia, tentando limpar sua consciência pesada com gestos românticos e atenciosos ao longo da semana. Eu ignorei cada segundo daquilo, rancorosa com a Mia por ter ferido o meu orgulho e me rejeitado tão determinadamente no último sábado. Mais do que ela, eu estava me odiando. Por cada minuto que fiquei plantada do lado de fora do seu prédio, esperando no frio.
 
O lado positivo disso tudo é que eu não ia precisar vê-la tão cedo. Segundo o que ela mesma disse para o Fer – durante uma briga por telefone na terça –, o nosso apartamento "prejudicava o relacionamento deles". E eu estava certa de que a culpa não era dos móveis e eletrodomésticos contidos dentre as quatro paredes. Era inteiramente minha. Óbvio. Mas quando o Fer me contou, sem entender a indisposição repentina, eu não disse nada. Apenas olhei para o outro lado e balancei a cabeça, como se também não conseguisse compreender.
 
Enfrentava agora a minha indecisão com sexta à noite, fumando sentada na calçada às seis da tarde. Preciso de um porre, concluí. Infelizmente eu andava mais falida do que vendedor de guarda-chuva em dia de sol – sem um tostão para gastar em escolhas ruins. Pegar um táxi do fundo de Higienópolis até a Frei Caneca, às cinco da manhã, só porque fui cabeça-dura e mandei a Marina embora, também não tinha contribuído com a minha situação financeira.
 
Puxei o celular do bolso para olhar as horas e fiquei tentada a fuçar na minha lista de contatos. Não. Sem arranjar problema hoje, me controlei e rapidamente enfiei o telefone de volta na jaqueta, como se quisesse evitar uma catástrofe em potencial. Assim que voltei para a companhia pouco saudável do meu cigarro, no entanto, o meu celular tocou. Tirei ele de novo do bolso e espiei a tela para ver quem estava me ligando. DDD 19, número desconhecido. Estranho.
 
Cogitei deixar tocar, sem dar muita importância, mas curiosidade é uma praga mesmo.
 
_Alô?!
_E aê, doida... – ouvi uma garota dizer.
_Quem tá falando?!
_Sou eu – ela riu – a Dani.
 
Merda.

março 25, 2010

Domingo Legal

_Que porcaria é essa que cê tá assistindo?
 
O Fer perguntou de trás do sofá.
 
_Não sei e nem quero saber – argumentei, fumando um baseado – A meta aqui é alienação completa.
_Acho que vou me juntar a você – ele riu.
_Noite difícil?
_Nossa, mano – reclamou, de saco cheio – Não sei o que rola com a Mia, porra. Tá foda. Me largou aqui sozinho ontem, meu, foi embora sem falar nada! Cê... – me olhou, desconfiado – ...cê não contou mesmo, né?
_Hein?
_Da Júlia, porra.
_Não, Fernando, não contei – resmunguei.
_É que, sei lá... Ela anda estranha. Fui tentar falar com ela hoje e ainda me deu patada!
_Vai entender...
_É... – ele bufou – Mas e você, tava onde ontem? Não vi cê chegar.
_Tava lá na Marina.
_Caralho, na Marina? Mas cês não... – ele começou a rir – ...deixa quieto, vai.
_Nem faz essa cara aí pra mim! Fui lá só pra conversar.
_Sei... – ele riu – Ah! Aliás... A Roberta passou aí ontem.
_Jesus! Cê tá de brincadeira?
_Não, passou mesmo. Até tomamos umas juntos, eu disse que cê não tava e ela ficou aí um tempo pra ver se você aparecia. Deve ter ido embora lá pra meia noite ou uma... – contou e eu sacudi a cabeça, desacreditada – Eu fui dormir logo em seguida.
_Meu deus – revirei os olhos, dando mais um trago – Qual é o problema das pessoas?
 
Disse a fracassada que ficou até 5 da manhã na calçada da Mia.
 
_Na moral, cê devia dar mais bola pra ela... Puta mina gente boa, meu.
_Não, obrigada. Tô dando um tempo de mulher.
_Ah, claro. Você?! – ele riu – Até parece.
_É sério, Fer. Pra mim chega, só me meto em furada. E além do que, meu, a Rô pode ser ótima e tudo mais, mas é meio intensona, né? Não dá... Já não era nem para ela ter vindo aqui na quinta, puta cilada que eu fui inventar. Mano, toda vez a gente treta. Toda vez! E toda vez ela fica vindo atrás. A gente já passou por isso mil vezes. Preciso parar com essas ideias idiotas...
_Como cê é sensível, hein... Parece até que não tem culpa.
_Ah! Falou o morador mais íntegro desse apartamento – o empurrei – Hein, ô adúltero de meia-tigela?
_Vai se foder.
 
Nós rimos e terminamos o baseado juntos. No fim das contas, não era tão ruim estar no apartamento com o Fer. Ainda era o Fer – o mesmo de sempre. Ruim era passar por uma noite horrível daquelas e não poder contar nada pra ele. Sempre dividimos tudo. Mas agora tinha que ficar sentada ali, do seu lado, sem me entregar. E assim ficamos, os dois, enfurnados na sala em pleno domingo à tarde. De bode pela mesma mulher.