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outubro 06, 2012

Maldade

...com o meu coração, é.
 
Inclinei o corpo na direção da Mia, a segurando pela cintura, num beijo descomedido. Sequer pensei. Em pé no hall de entrada do seu prédio. Colada à tua boca, a minha desordem – o meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem*. E toda vez que a sua boca juntava com a minha era como se tentassem compensar todos os beijos que não demos naqueles meses todos. Sabe como? Com uma saudade intensidade que me fodia a cabeça. Tão logo nos atracamos ali, todavia, a Mia se desvencilhou das minhas mãos, com o celular na sua.
 
_Obrigada... – ela deu um passo para trás, encerrando aquilo tão rápido quanto o começou, e sorriu – ...por “trazer”.
 
Comecei a rir.
 
_Cê tá tirando com a minha cara, né...
 
Encarei-a. Porra, garota. E ela arqueou as sobrancelhas, satisfeita, cruel, enquanto me deixava de mãos abanando. Meus olhos desesperados, um fogo dentro de mim. Você, v-você chega em mim, desse jeito, e, e vai embora? É assim?! A Mia me olhou, confiante, como se respondesse à pergunta na minha cabeça, menosprezando a minha angústia, voltando lentamente de costas para o elevador. Eu me diverti, tá certo então.
 
_Te vejo essa semana? – sugeri, rindo.
 
E ela deu de ombros.
 
Filha da puta.
 
 
 


*Do Desejo, por Hilda Hilst

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