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abril 02, 2013

A fossa

Peguei mais uma cerveja na geladeira. E disquei o seu número – “por favor”, murmurei, com os olhos já inchados de tanto chorar. Fui até a área de serviço, tentando não fazer barulho conforme me escondia. Ouvi o telefone chamar, sem resposta. Era a minha quarta ligação em menos de duas horas. Atende, atende. A latinha suava entre meus dedos e o calor que assolava São Paulo naquela noite se esparramava janela adentro. Contra meu ouvido, os toques ecoavam ignorados. Vai, porra, atende.
 
Escutei o meu nome na cozinha e a ligação caiu mais uma vez.
 
_Caralho... – chutei um balde entulhado de produtos de limpeza no chão, apoiada nas beiradas do tanque com o celular e a cerveja em cada mão.
 
O Fernando abriu a porta atrás de mim.
 
_Mano, cê tá se escondendo?!  
_Não – retruquei, grossa.
_Para, porra... – relou na minha mão e eu saí da área de serviço, trombando no seu ombro – ...para de ligar pra ela!
 
Continuei em direção ao corredor, sem responder. Larguei a latinha sobre a mesa da sala e enfiei a cara numa almofada, me jogando no sofá. O Fer veio em seguida. Sentou na poltrona, me observando ter um ataque, e riu. Então ordenou que eu entregasse o celular. “Não” – respondi, rancorosa. E me sentei, tornando a discar o número da Clara. Ninguém atendia. O Fer se levantou, dando dois passos até mim, e tirou o aparelho do meu ouvido, “chega”. Desligou o telefone ao sentar-se de volta na poltrona e o meteu no bolso da bermuda, encerrando o assunto.
 
_Me dá, Fer. Eu não vou ligar.
_Vai, sim.
_Me dá a merda do telefone!
_Não, cara... – ele riu, de novo – Quê que cê vai conseguir com isso? Faz dias que você tá perseguindo a mina e ela num dá sinal de vida, meu... a única coisa que vai sair disso é briga.
_Dane-se! Talvez eu queira que ela brigue comigo!
_Mais?!
 
O Fer balançou a cabeça, indignado.
 
Aí puxou a camiseta por cima da nuca, a tirando. E tornou a encostar na poltrona, largando a blusa no chão e acendendo um baseado.
 
_Velho... – soltou a fumaça espessa no ar, me encarando – ...para. Cê não é assim, na boa.
_Foda-se. Eu preciso fazer alguma coisa! Qualquer coisa! Eu prefiro que ela atenda essa porra desse telefone e me xingue, que grite comigo, do que eu não ter nem chance de falar, caralho, de explicar q-que eu... porra, que eu sinto uma falta desgraçada dela!! Fer, eu, e-eu tô enlouquecendo!
_Calma, ela vai voltar... Cê tem que dar um tempo para ela, mano.
_Não. Não a Clara... – neguei e ele roubou um gole da minha cerveja, com calor – ...ela não vai me esperar. Já deve ter uma porra duma fila de mina pra curar ela de mim, cacete. Eu não posso, não posso deixar ela me esquecer. Porque eu sei que ela vai, mano! Ela não vai vir rastejando de volta, não a Clara.
_Meu, cê tá viajando, o que cês tinham não é descartável assim. Ela ama você.
_Não, Fer... Eu fodi tudo, fodi mesmo. Ela tá puta.
_Ela te levou para a Argentina, porra! Cê que não tá vendo o quanto essa mina gosta de você...
 
Balancei a cabeça, não sei se a Argentina melhora ou piora as coisas. Tomei mais um gole da minha cerveja, pensando se devia fumar também. Queria me afogar em más escolhas. Meu coração estava dilacerado. Não conseguia acreditar que tinha fodido tudo com a garota que eu amava. Sentia-me vazia sem ela do meu lado, sem seu cheiro em mim, sem os seus SMS apitando no meu celular o dia todo. Parecia que faltava algo, alguém para dividir a minha vida, a porra de existência naquele buraco de cidade. São Paulo tornava-se ainda mais cinza.
 
Argh.
 
Já era quarta-feira. E eu me deixava amargurar com o passar dos dias, a ausência dela parecia gritar dentro de mim. Eu tinha feito tudo, tudo errado. Chorei por três noites seguidas, consolada pela Marina, que dormiu comigo desde o domingo em que desembarquei no aeroporto até aquela quarta de manhã. A cada pausa que fazia no trabalho, cada segundo que tinha livre, eu mandava mensagem, ligava e checava a tela do meu celular compulsivamente. E nada.
 
Mais cedo naquela noite, o Fer me encontrou na saída da produtora, provavelmente depois de receber uma mensagem preocupada da minha ex. Contei tudo que tinha acontecido. Ou quase. Ele não entendia como eu podia ter mencionado o nome de outra garota em meio à nossa viagem em Buenos Aires. No caso, o da namorada dele – cujas mensagens eu vinha ignorando a semana toda. Eu sabia que o Fer já tinha contado para ela e que a Mia só estava preocupada, tentando me apoiar. Mas não estava com coração cabeça para lidar com o motivo personificado do meu término com a Clara. Não agora. Inferno.
 
_Pelo menos deixa ligada essa merda, meu! – me inquietei no sofá – Vai que ela responde...
_Não vou ligar, cacete. Esquece!
_Fernand... – interrompi meu próprio resmungo, nervosa.
 
Ele me observava, inabalado. E me vi obrigada a ceder – não estava desesperada o bastante para ir, de fato, até lá e tirar o celular à força do bolso dele. De repente, ouvimos a porta da frente abrir. Era o Du. Chegando de algum happy hour, com cheiro de bar. O Fer se virou para ver quem entrava, estendendo-lhe a mão por cima do encosto da poltrona.
 
_E aí, velho? Beleza? – ambos se cumprimentaram e o Du largou uma sacola da Livraria da Vila sobre a mesinha à minha frente.
_Que cês tão fazendo aí?
 
Perguntou ao sentar na ponta oposta do sofá, largado a meu lado. Revirou então os olhos e riu, de bom humor, assim que o Fernando explicou – “curando a fossa dessa aí”.

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