- »

janeiro 10, 2013

Deslizes

Saí na calçada da Augusta, acendendo um dos últimos cigarros do meu maço. Conforme soltei a fumaça pro lado, checando o celular, me dei conta de uma mensagem da Mia que não tinha visto – “vai ta sozinha hj?”. O ar na rua estava abafado. Dei mais um trago e digitei de volta, “ñ, desci com o fer pra augusta.. acho q vms pro apto dps”. Aí pausei por um instante, com os olhos na mensagem, apoiada contra a parede imunda do lado de fora do boteco.
 
Me sentia estranha falando com a Mia depois da madrugada com a Clara. Entre isso e o fato de que o Fer provavelmente ia dormir em casa, recusar devia ter sido fácil – mas não foi. Nunca era. Não aprendera a lidar com o interesse da Mia. E a verdade é que eu gostava, gostava de cada palavra sua que encontrava caminho até a minha caixa de entrada, me convidando para ficar com ela, aparecendo de surpresa na porta do meu trabalho, me beijando entre um pega e outro dum baseado, descendo dum táxi às duas da manhã em frente ao prédio, num vai-dar-merda impagável. Podia me enganar o quanto quisesse, e não só a mim, mas bastava seu nome aparecer na tela que meu coração acelerava.
 
Argh
 
Enviei a mensagem. Dane-se. A real é que não tinha como encontrá-la, pelo menos não naquela noite. E a última coisa que me passava pela cabeça era dispensar o Fer para ir ficar com a sua namorada – ainda que o canalha do meu amigo estivesse levantando do seu banco para ir dar uma volta com a nossa companheira de mesa em um canto do bar. Fora do meu campo de minha visão, isto é. Cê nunca superou, hein, dei mais um trago, achando certa graça na cena, a bronca que tomou quando te peguei com a Júlia em casa.
 
Me divertia a discrição do Fer de quem come quieto, observando de longe, de fora do bar. E não me importava se ele dava uns beijos em qualquer garota, de tempos em tempos. Ainda mais agora, depois de tanto tempo e águas passadas, quem era eu para achar ruim? Não conseguia sequer dar conta ou entender a complexidade dos meus relacionamentos, dos meus sentimentos, que dirá os dos outros. Mas me divertia.
 
Soltei a fumaça para baixo, num último trago, e apaguei o cigarro na parede do bar. Aí entrei de novo. As mesas de sinuca ficavam ao fundo, numa espécie de porãozinho aberto a uns 5 degraus do piso de entrada. Desci as escadas e peguei meu copo, que já estava formando uma poça na lateral da mesa. E fiquei trocando ideia com o tal do Max – enquanto o Fernando beijava a amiga dele contra a parede, segurando a lateral do pescoço dela com as mãos tatuadas, no corredor escuro que ia pros banheiros.
 
Dei uma olhada e virei de costas para eles, começando outra partida com o cara. Fingindo que não tinha visto.
 
_Vamos lá, mais uma...

0 comentários: