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agosto 06, 2010

S2

“Q hrs vai rolar?”, escrevi a contragosto.
 
As quatro palavras me tomaram minutos a fio para serem, enfim, digitadas. Engolir meu orgulho não era algo que eu fazia com frequência. E agora que eu já havia me calado por quase um dia inteiro, beirando o fim da tarde, a possibilidade da Mia resolver me ignorar de volta me assombrava.
 
Não que aquelas quatro palavras assim, curtas e pouco simpáticas, ajudassem muito a situação. Então, adicionei um “;)” ao final do SMS, a fim de amenizar a minha incapacidade de ser legal com a Mia naquele momento. Olhei para a tela e aí fiz uma careta involuntária. Não. Sorrisinho idiota, resmunguei mentalmente, o apagando. E pronto, de volta à grosseria inicial. Que se foda, vou mandar assim mesmo. Apertei a tecla de envio e larguei o celular na mesa.
 
Retomei então o que estava fazendo, determinada a me afundar em trabalho pelas poucas horas restantes. Mas não durou muito – a resposta da Mia seguiu-se à minha pergunta com uma rapidez espantosa. Ainda mais considerando a sua falta urgência dos últimos dias. O celular vibrou num dos cantos da mesa e eu espiei a tela com o canto do olho, com medo de encontrar a segunda bronca do dia ou qualquer questionamento que me tirasse do sério, justo quando eu começava a lentamente engolir minha estupidez.  
 
“Acabei de chegar, eh naquele que te falei uma vez... lado bom da augusta. vem pra ca! ;)”. É. Não só ela continuava irritantemente disposta, ignorando a minha economia de palavras, como também havia resolvido fazer uso do mesmo sorrisinho que 30 segundos antes eu me recusara a usar. Porra. Ainda assim, não importava, toda aquela dança de mando-ou-não-mando, havia sido inútil.
 
“Tô no trampo agora, meu, ñ posso...”, mandei.
 
E a Mia não respondeu. Nem em um, dois minutos seguintes... quatro... cinco... sete... argh. Nada. Passei a mão pela minha nuca, nervosa, tentando relaxar. Olhei mais uma vez para o celular e já haviam se passado oito minutos inteiros. Inferno. Me convenci, então, de que ela não ia me escrever de volta. E num movimento brusco, meti o telefone no bolso de trás da calça, me dirigindo à cozinha. Quer dizer, à máquina de café, que a essa altura já estava tão exausta de trabalhar quanto o restante de nós naquele estúdio.
 
A cozinha era como o meu segundo lar, praticamente. Uma porcentagem considerável das minhas horas de trabalho era gasta procrastinando, sentada naquela pia, me entupindo de uma quantidade não-saudável de cafeína. Puxei a cafeteira na minha direção, com uma avidez digna duma viciada, e enchi um dos copos plásticos.
 
_AH! PUTA MERDA!
 
Eu xinguei, parada em pé, ao realizar a proeza de derramar metade do conteúdo do copinho na minha camiseta. Branca. Da Cavalera. Claro, porque preta não poderia ser. E nem barata. Caralho, viu, como se eu precisasse de mais uma hoje, reclamei para mim mesma, enquanto tentava inutilmente me secar com um bando de guardanapos. Na mesma hora, o meu celular resolveu tocar. Mia. Deixei todos os papéis sujos em cima da pia num ato quase involuntário e tirei o telefone do bolso, rapidamente.
 
“:(”
 
É. Só isso, dez minutos depois. Encostei a lateral da perna na superfície de granito e olhei mais uma vez para a mensagem. Por mais babaca que soe – e isso vai soar realmente babaca – as diferentes combinações de pontos duplos, ponto-virgulas e parênteses são mesmo capazes de comover uma geração inteira viciada em celular. Isto é, a minha. Olhei para a minha blusa suja, argh, aí olhei para o relógio pendurado na parede – 16:12 – e para a porta que levava à saída. Não. Tá cedo demais, calculei, tirando os fios de cabelo bagunçados da cara.
 
E é, estava mesmo. Entretanto, na minha mão, eu segurava o desejo por escrito da garota que eu gostava, querendo que eu estivesse lá com ela. E às vezes, isso simplesmente fala mais alto do que o orgulho. Ou um chefe prestes a ficar realmente puto com a sua falta completa de comprometimento. Que se dane.
 
“Vc vai me meter em encrenca aqui... to indo ;)”

agosto 04, 2010

A bronca

_Não, vão vocês. Eu tô sem fome – respondi para dois dos meus colegas de trabalho, conforme eles saíam para o mesmo restaurante de sempre.
 
A hora do almoço já tinha chegado e a terceira mensagem da Mia não saía da minha cabeça. Permaneci sentada na porta do estúdio, fumando, enquanto olhava meus colegas se afastarem na calçada. Lá pelo quarto ou quinto cigarro do expediente, o meu mau humor já havia se diluído em nicotina e eu estava relativamente mais calma. Bem relativamente. A minha cabeça continuava a mil e eu encarava a tela do celular, de tempos em tempos, suspirando.
 
Nenhuma mensagem nova.
 
Os meus pés se mexiam no chão, ansiosos. Sequer sabia se queria receber mais uma mensagem dela, mas a sua insistência em me escrever três vezes depois de me ignorar por dias me inquietava. Apoiei os cotovelos nos joelhos e coloquei a cabeça entre as mãos para focar melhor. Numa tentativa de limpar a minha mente. Isso é ridículo, pensei. Qual é a grande dificuldade de simplesmente ignorar a porra da Mia? Respirei fundo. E no segundo seguinte, fui tomada por um desejo desesperado de escrever para ela. Não.  
 
_Você pode falar? – perguntei, aflita.
_Não exatamente... – a Marina respondeu, do outro lado da linha.
_É rápido, eu juro.
_O que foi? – ela continuou, falando baixinho.
_A Mia. É aniversário dela.
_E...?
_E ela quer que eu vá com ela num estúdio hoje... – tentei explicar, sem conseguir realmente expressar o tamanho do problema – Tipo, ela vai tatuar e me chamou para ir junto. Só que a gente não se fala desde sábado, então não respondi. Não sei o que falar!
_Por que diabos vocês não se falam desde sábado?! – a Marina indagou, sem entender – Eu achei que tava tudo bem!
_Porque e-eu... eu disse que queria ver ela e ela respondeu que não era uma boa ideia, meu, por causa do Fer.
_E...?
_Como “e...”?! – eu me revoltei – Ela me deu um puta fora!
_Espera... vou sair no corredor – ouvi o celular mexendo-se na sua mão e pouco segundos depois uma porta se fechando, aí ela continuou – Como foi isso? Por telefone?
_Não, ela me mandou uma mensagem curta no sábado depois de, tipo, várias minhas.
_Mas cê tentou ligar para ela? Conversar?
_Não, eu... – o pouco de vergonha da cara que eu tinha segurou as palavras na minha boca, hesitante – ...e-eu tava na casa duma mina.
_Como assim? Que menina?
_A Thaís, amiga da Lê, cê não vai lembrar dela...
_Fazendo o que na casa dela?!
_O QUE CÊ ACHA, MEU?? – me irritei.
_Ai, eu não acredito nisso!
_QUÊ, PORRA?? A MIA TAVA ME IGNORANDO DESDE QUE A GENTE SAIU, NÃO MANDOU UMA MERDA DE MENSAGEM... TIVE QUE PASSAR A NOITE DE SEXTA TODA SOZINHA EM CASA, ME TORTURANDO COM A CERTEZA DE QUE ELA TAVA COM A DROGA DO FER, MANO! CÊ TEM NOÇÃO DO QUE É ISSO?? E AÍ ELA VAI E ME DISPENSA NO DIA SEGUINTE, MEU, DEPOIS DAQUELA PUTA NOITE FANTÁSTICA NA QUINTA, COMO SE NÃO TIVESSE... NÃO TIVESSE... SIGNIFICADO NADA, VELHO!
_Você tá se ouvindo falar?
_Quê??
_Meu deus... – ela riu – Essa garota fode mesmo com a sua cabeça, hein?!
_Que foi, Marina? FALA!
 
Indaguei, de novo, mais irritada ainda.
 
_“Eu tive que passar a noite de sexta sozinha em casa”, meu, cê tá escutando o que cê tá dizendo? O drama que cê tá fazendo? – ela riu mais uma vez – Meu bem, se você acha que a coisa complicou pro seu lado, que é solteira e sapatão, imagina ela que é hétero e passou uma noite inteira com a melhor amiga do namorado, que nunca tinha dormido com mina antes, que nunca passou por nada disso, que sequer saiu do armário... Fofa, você acha que é fácil ir lá depois e encontrar o bonitão, recebendo mensagem sua e tendo que lidar com tudo ao mesmo tempo?!
_Ela... – eu murmurei, já com a bola bem mais baixa – ...e-ela, ela não precisava ir encontrar com ele.
_Ahh, não precisava? E você acha que ela ia fazer o quê? Largar toda a vida dela depois de uma noite com você?? Dispensar o Fer, meu, do nada? – ela riu – Você não pode realmente achar que é tão boa assim de cama...
_Vai se foder.
_Olha, ia ser lindo se a Mia te assumisse, gata. Mas cê achou mesmo que ia ser tão fácil?
_Não, eu... – senti uma vontade idiota de chorar, sem nem saber por quê, e engoli seco – ...mas, Má, a gente se divertiu tanto juntas. Foi tão bom. Tão, tão bom, porra! Não é possível que ela não esteja, no mínimo, sei lá... Pensando em mim, sabe?
_Mas não tá? Ela não te chamou para ir lá hoje, meu?
_Chamou... mas só porque o Fer não vai poder ir! Aí ela lembra que eu existo! – assim que as palavras saíram da minha boca, senti um nó na garganta.
_E você preferia que ela te chamasse quando o Fer pudesse ir?
_Não, lógico que não!
_Então, o quê? Ela tinha que chamar você primeiro ao invés do namorado? E depois aparecer tatuada, com você do lado, e dizer “oi, amor, olha a tatuagem que eu fiz”?!
_Não! Claro que não! Mas tem vários jeitos de fazer dar certo... Porra, por que cê tá defendendo ela?! Cê não tá vendo que eu tô mal, caralho??
_Porque você tá agindo que nem uma criança de 3 anos de idade, meu. O que eu venho te falando esse tempo todo? Cê precisa voltar para a realidade, gata: ela namora o Fer. Ela sempre namorou o Fer. Eu também acho que tem outros jeitos de resolver as coisas, também acho que ela não devia ter te ignorado. Mas não vai ser fácil... Aliás, não é fácil! Muito menos para ela, que tá muito menos resolvida nessa vida do que você.
_Tá, m-mas... – eu interrompi, reclamando.
_Quer me escutar?! – ela continuou, me dando bronca – Se você realmente quer que isso dê certo para vocês, cê vai ter que parar com esses chiliques.
_Não é chilique! EU TÔ APAIXONADA, PORRA, DÓI PRA CARALHO!
_Eu sei. Eu sei, linda. Mas ela não vai sair dessa sozinha e você sabe disso. Ninguém é tão seguro assim! Você vai ter que segurar a mão dela e ter muita, muita paciência. É diferente pra ela. Você não sabe o que a Mia tá passando. Ela ia não vai largar tudo dum dia pro outro, flor... Não vai. A situação de vocês é mil vezes mais complicada do que qualquer outra, enfia isso na sua cabeça – a voz dela diminuiu o ritmo, indicando uma conclusão – E por favor, para de comer a lista telefônica inteira.
_Eu não... – pus a me defender, ofendida.
_Olha, eu preciso ir – ela me interrompeu, de novo – Me manda mensagem depois falando no que deu. Preciso mesmo ir, tô cheia de trabalho... Um beijo!
_Tá... – suspirei.
 
Ouvi a linha desligando, enfiei o celular no bolso da jaqueta e afundei o rosto na mão. Eu odiava quando a Marina tinha razão.

agosto 02, 2010

Bom dia... ou não

“Viu minha msg?” foram as primeiras palavras que eu li ao acordar, antes mesmo de me levantar da cama e me preparar para enfrentar aquela porra daquele dia – que já tinha tudo para ser um lixo. Não tinha dormido quase nada durante a noite, o que implicava numa considerável alteração no meu humor pela manhã, e ler aquela segunda mensagem não ajudava nem um pouco. Não dá bola, porra, eu me indignava, tentando inutilmente lutar contra a minha falta completa de amor próprio quando se tratavam daquelas três malditas letras no remetente.
 
Inferno. O pior é que a mensagem me partia o coração. Eu sabia que o meu silêncio ia enlouquecer a Mia – o que pode até parecer vingança, mas a verdade é que eu não tinha ideia do que fazer com o que estava sentindo. Com o medo que eu tinha de me afogar de novo, de ser engolida pelo quanto aquela garota me afetava, no segundo em que a respondesse e ela decidisse me dar outro perdido. À beira de um ataque de nervos nos primeiros 20 minutos daquela terça-feira.
 
Ah, este vai ser um longo dia...
 
Ainda assim, resisti. Não posso responder. Não – não enquanto não decidir o que pensar disso tudo, enquanto não souber palavra por palavra do que dizer e o que elas vão desencadear. Não quero passar por essa merda de novo. E transbordando de uma sensatez incomum, ainda mais para aquela infeliz hora da manhã, acelerei o passo e me mantive o mais longe possível do celular até partir para o trabalho.
 
Por uma vez na vida, eu não estava atrasada. Que milagre. Me esquivei dos outros na rua, conforme subia a Frei Caneca, e fumei um cigarro para me esquentar. A cidade começava a acordar. No metrô, desprovida de sinal e entretenimento, reli umas quinze vezes as duas mensagens da Mia. Aí olhava o horário e guardava o celular no bolso – para, no segundo depois, tirá-lo novamente e ler mais uma vez, claro. A segunda mensagem, às 8:13, me intrigava ainda mais do que a primeira. O que será que está passando pela cabeça dela?, me torturava, metendo as mãos no rosto, no cabelo, no bolso da jaqueta e olhando, inquieta, para os outros no vagão. Porcaria.
 
Ao chegar na estação Vila Madalena, a porta se abriu e todos os passageiros desceram apressados em direção à escada, inclusive eu. Assim que avistei o céu cinza daquela manhã fria de São Paulo, o meu sinal retornou e instantaneamente o celular vibrou no meu bolso. Por sorte, minhas mãos estavam ocupadas acendendo o segundo cigarro do dia e minha cabeça se recusou a pensar a respeito. Coloquei o isqueiro de volta na parte da frente da minha jaqueta e tomei meu tempo na primeira tragada. Lentamente, como se a evitasse...
 
É, ela.
 
Até que não deu mais, não é? A nicotina se esvaziou dos meus pulmões e a curiosidade entrou no seu lugar. Então puxei o aparelho do bolso de trás da calça. Coloquei o cigarro de novo na boca, sentindo necessidade de segurar o celular com as duas mãos, e li o SMS: “ta recebendo minhas msgs? :( hj eh meu aniversario, meu... vou tatuar mais tarde e acho q o Fe ñ vai poder ir. oq vc vai fazer hj? quer ir cmg?”.
 
Pois é. Respirei fundo e reli, tentando manter calma. Desta vez até o final. O que uma ignorada não faz com a pessoa, balancei a cabeça, inconformada, e meti a droga do celular de volta no bolso. Me sentia ofendida, de certa forma, mas não sabia bem o porquê. Terminei de fumar o cigarro, ao longo do caminho até o trabalho, e o joguei na porta do estúdio assim que cheguei. Meu humor estava pior do que quando acordei naquela manhã. Argh, eu preciso de café, resmunguei mentalmente ao cruzar a recepção.

julho 29, 2010

2:44

De repente, acordei. Num susto.
 
O quarto estava inteiro em silêncio. Estranho. Tirei o lençol amontoado de cima de mim, olhei em volta e o cômodo continuava escuro, apesar da janela aberta. Ainda não é dia, concluí. E eu não estava atrasada para porra nenhuma. Não havia nada, portanto, nada ali que me indicasse um bom motivo para a interrupção do meu sono. Nada, a não ser...
 
Espera.
 
Espiei debaixo da cama e vi o meu celular com a tela acesa, largado no chão. Mensagem nova, pensei, o barulho deve ter me acordado. Tal teoria até que fazia sentido, considerando a lógica da coisa, mas o contato de terceiros para comigo em plena madrugada de segunda-feira me parecia extremamente improvável. Mesmo que já fosse terça, tecnicamente. Que seja. Me espichei para alcançar o meu fiel companheiro antes que a luz dele se apagasse e eu passasse uns possíveis cinco minutos tentando tateá-lo no chão em meio ao breu.
 
Deitei de novo na cama e olhei para a tela, sem poder antecipar o que encontraria. Como é?, arregalei os olhos. E li novamente: “ñ consigo dormir, eh meu aniversario... ñ sei oq tá acontecendo cmg. com a gnt.” – a Mia me enviou, às 2:44. Caralho. Respirei fundo. O que mais eu poderia fazer senão respirar e engolir aquele soco no estômago em silêncio? Àquela hora da madrugada, eu não conseguia. Não conseguia lidar com aquela mensagem e menos ainda com o “a gente” ao final. A gente quem, Mia?, soltei o ar pouco a pouco, com todo o tempo que ela me ignorou ainda engasgado na minha garganta. E então retornei à tela inicial do celular, eram 2:46. Passei as mãos no rosto, agoniada.
 
E agora?
 
Por mais que eu quisesse deixar para lá aquele rolo todo e voltar a enfiar o meu rosto no travesseiro, eu não conseguia. Ela tá acordada. E eu sabia. Sabia e a imaginava, contra a minha vontade, enquanto o meu sono se esvaía. Com a certeza de que, em algum lugar de Higienópolis, deitada em sua cama, num quarto igualmente escuro, a Mia esperava por uma resposta minha. Qualquer coisa que lhe devolvesse o sono. Mas por que eu faria isso?, pensei. E rancorosa, desisti de digitar uma resposta.
 
Por que responderia, agora, se quando bem queria ela me tratava como... c-como... “como um nada”, eu queria concluir, mas a memória de quinta me impediu. Veio o show e o carro e o quarto, a forma como ela me beijava e sorria, afundando o rosto no meu pescoço – e eu sabia que não tinha sentido aquilo sozinha. Eu, e-eu não sou um nada, tentei me convencer, sem muitas certezas para me apegar. O meu coração se revirava no escuro.
 
Essa era uma situação difícil. Para mim e para ela. E eu sabia disso, afinal, a gente estava atolada na mesma lama. Empatia era o mínimo que eu poderia ter. Mas aí tinha o sábado, não é, uma lembrança desagradável. E para ajudar, tinha também o Fer – tanto para mim, quanto para ela – deitado no quarto ao lado, desavisado de todo o contexto. E o resultado, após minutos de indecisão, é que eu simplesmente não conseguia responder.
 
Nem dormir.

julho 28, 2010

Então, passou

O resto daquela noite e o dia seguinte e a noite inteira daquele domingo. Passaram. Indiferentes, sem nada. Nada dela. E eu, se é que eu estava lá, me mantive num estado deliberado de inconsciência. Aí veio segunda. E o trabalho também passou – como um nada na minha vida. Depois casa, jantar, TV, chuveiro, internet, cama e a segunda-feira já tinha acabado também. Incrível como uma pessoa pode te fazer tão bem numa noite e, dias depois, te transformar num vegetal só por cruzar a porra do seu pensamento. Pois é. Já se iam meses daquela merda instável – e não, eu não tinha me acostumado ainda.

#FAIL

Duas derrotas depois e eu perdi o ânimo de jogar. Sapatão de merda. E aí desandou – o excesso de bebida e a falta recorrente de dinheiro começaram a ter o efeito contrário em mim. Droga. Toda distração momentânea daquele rolê escapava por entre meus dedos, o barulho no bar parecia aumentar com as horas, as cervejas não paravam mais de vir e a minha cabeça já rodava de um jeito desagradável. E o que é pior, o meu coração começava a ficar sóbrio.
 
Me larguei sentada numa cadeira qualquer, mergulhada nuns pensamentos errados. E então, fiz o que não deveria – peguei o celular na mão e o segurei ali. Como se fosse tocar a qualquer momento, numa insistência bêbada e burra. Inconscientemente desejando que a mensagem daquela tarde não fosse a última. Que ela mudaria de ideia e me escreveria, que me salvaria de mim mesma. A Mia. Ah, a Mia. Eu nunca deveria ter me esforçado tanto para não pensar nela. Não por tanto tempo. O tiro começava agora a sair pela culatra e a desgraçada voltava violentamente para o meu peito. Como se nunca o tivesse deixado.
 
E de fato, não tinha.
 
Inferno. Me ajeitei contra o encosto, desconfortável. Então larguei o celular na mesa à minha frente e meti as mãos nos bolsos da calça, me afundando naquela cadeira de plástico. Encarava o telefone fixamente, sentindo a cerveja se misturar com a lembrança ainda viva de duas noites antes, dos nossos beijos e de como eu a amava, como a queria, e não a tinha, embriagando os meus sentimentos mais amargos. E o resultado é que eu tive que sair dali. Não podia mais ficar. Não assim – emburrada e calada em um canto, contemplando obsessivamente a ausência da Mia no meu telefone na minha vida. Não. Insisti até não dar mesmo para aguentar, aí inventei qualquer desculpa para a minha amiga – que a esta altura já estava pegando a caminhão do chinelo – e me coloquei a caminho de casa.
 
Como deixei chegar a esse ponto, porra, pensei, enquanto acendia um cigarro, irritada. Me revoltava a saudade que eu sentia de estar com ela, a solidão que me tomava de repente, conforme soltava a fumaça no ar e atravessava a rua em direção à Frei Caneca. Droga. Então tentava me lembrar do que a Marina costumava dizer, que “ninguém sabe o que tá fazendo, todo mundo tá na mesma merda”, mas aquilo não me fazia sentir melhor.
 
Passei em frente à banca próxima ao meu prédio e, em poucos minutos, já estava de volta em casa – de onde eu sequer deveria ter saído. Atravessei pela sala, pelo corredor e entrei no quarto. E não, não havia ninguém ali. De novo. Sábado à noite, concluí a contragosto. Eu já havia aprendido a lógica, mas parte de mim não queria se lembrar. Deixei a carteira e o maço em cima da cama e fui para o banheiro, numa tentativa de esfriar os ânimos.
 
Eu não devia ter falado nada, me arrependia, enquanto arrancava a camiseta do corpo e a largava no chão, não devia ter mandado porra de mensagem nenhuma. Argh. Me sentia uma idiota. Uma porra duma idiota. Como se tivesse me exposto à toa, dizendo que queria vê-la, o quanto tinha gostado, perguntando se estava com ele, quando o seu silêncio na sexta e naquela manhã já tinha sido claro o suficiente. Por que eu não fiquei quieta? Pelo menos eu ia me poupar de... Argh. Tirei o celular do bolso da calça e o abri, num impulso, olhando para a mensagem da Mia mais uma vez. Caralho. E se ela se arrependeu?
 
Não. Coloquei o telefone de lado. Chega. Eu não posso entrar nessas. Tirei a calça e entrei no chuveiro frio, determinada a não remoer mais os meus sentimentos. E por uns minutos, deixei a água escorrer na minha nuca para amenizar a dor de cabeça e aquele peso nos meus ombros. Saí do banho me sentindo melhor e desliguei o telefone, indo para o quarto me trocar. De camiseta-de-ficar-em-casa dos Stooges e banho tomado, por fim, tentei me forçar a dormir para acabar logo com aquele dia de merda.
 
Uma hora, tem que passar.

julho 26, 2010

Pequena trégua

“Rapidinho”. Eram nove e meia e nós continuávamos enfurnadas no mesmo snooker bar sujo de horas antes, cercadas de outras sapatas e umas sapateens com idade suficiente para estarem no ensino fundamental – e que provavelmente se sentiam mais em casa ali, no meio das caminhoneiras, do que frente aos olhares de julgamento dos seus pais. Eu amava aquela imundice dyke paulistana, os tão estimados botecos de sinuca da Augusta. De certa forma porque, em algum momento, anos e anos antes de sair do armário, aquele também tinha sido o meu “lar” fora de casa.
 
Como um verdadeiro rei em meio às sapatonas, o Bruce tinha se acomodado debaixo de uma das mesas e ia ganhando sobras de comida a cada 5 minutos. Cada vez de uma mão diferente, em segredo, enquanto ele abanava o rabo. O meu dinheiro já tinha acabado completamente. Àquela altura, eu sobrevivia no rolê por benfeitoria, às custas das cervejas e aperitivos alheios – mas, para dizer bem a verdade, ninguém mais sabia quem tinha comprado o quê. Tudo era socializado.
 
Depois de cinco ou seis rodadas de cerveja, me encontrava levemente bêbada entre umas amigas da Thaís que trombamos ao acaso ali, em meio às garrafas e cinzeiros e tacos, bebendo e falando mais do que deveria. Fiz amizade com uma delas, que me humilhava na sinuca pela segunda vez no dia, depois do fiasco daquela tarde, e acabei perdendo quatro das cinco vezes que jogamos. O meu orgulho já estava no chão. Reuni o pouco que restava e fui atrás da Thaís para pedir patrocínio. Na maior cara de pau. Afinal, quem perdia providenciava também a ficha para o jogo seguinte.
 
Minha amiga estava sentada numa das mesas de trás, ao lado do Bruce e a poucos metros de mim, flertando com uma caminhão dessas de chinelo, camisa aberta e regata por baixo. Um clássico. Tive a impressão de que já a tinha visto algumas vezes ali pela Frei Caneca. E quando me aproximei, a Thaís começou a rir, me olhando como se pudesse prever o motivo da minha visita àquelas bandas.
 
_O que cê quer agora? – ela achou graça e eu coloquei os braços ao seu redor, prestes a implorar – Hein, desgraça?!
_Pô, vê mais uma ficha para mim...
_Cê não tem vergonha na cara mesmo, não é, não? – ela se divertia comigo – VELHO, CÊ TÁ PERDENDO UMA ATRÁS DA OUTRA!
_AH, MEU! OLHA QUEM VOCÊ ME APRESENTA, MANO! ESSA CRETINA PARECE PROFISSIONAL, NUM ERRA UMA, PORRA! – resmunguei, bêbada – Vai. Por favor... Por favorzinho! Eu preciso ganhar minha dignidade de volta, cara.
_Tá, tá... – ela riu e tirou alguns trocados do bolso – ...mas vê se ganha uma pelo menos, caralho!
 
Agora vai.

julho 23, 2010

Marasmo

Ergui os braços sobre a cabeça, me espreguiçando, e em seguida os soltei sobre o colchão – cada músculo do meu corpo estava exausto. E relaxado. Podia facilmente dormir por algumas horas. Virei o rosto e observei a Thaís, que se esticava para fora da cama como se procurasse algo no chão. Então voltou com um dichavador e um pacote de seda na mão. E imediatamente repensei o meu desejo para aquele fim de sábado – fumar um, cochilar e aí comer uma pizza quando acordar, é, é isso.
 
Alheia aos meus planos, sentada mais acima no colchão, a Thaís desfazia a ponta que acendemos juntas em frente ao boteco umas horas antes. Misturou o resto com um pouco mais de erva no dichavador, depois fechou e começou a girar. Suas mãos eram inteiras tatuadas – uma mariposa old school na direita e um pardal na esquerda, além duns desenhos menores rabiscados nos dedos. Tinha os dois braços fechados, as costas, a lateral do pescoço e parte das pernas, onde os traços se misturavam com seus pelos. Caralho – a admirei, imersa no momento. Nunca a tinha visto assim. Então virei o corpo na sua direção, deslizando os dedos instintivamente pelos seus pelos, enquanto ela dichavava, a lambendo perna acima. Bem lentamente. Subindo pelo seu joelho, sua coxa, sentindo a sua pele arrepiar contra a minha língua. 
 
_Meu... – ela riu – ...acho que preciso dar um tempo, cara. 
 
Argh. Joguei o corpo de volta no colchão e revirei os olhos para ela, rindo.
 
_Arregona.
_Velho, sou nada, cê que é muito intensa... – resmungou – Sossega aí.
 
A Thaís balançou a cabeça, achando graça, enquanto abria o dichavador e virava toda a maconha numa seda. Bolou habilidosamente entre os dedos e lambeu a beirada, apertando o baseado. Então o acendeu.
 
_Mano... – comentei, observando ela tragar – ...cê não sente que a melhor parte do sexo é quando cê num aguenta mais e mesmo assim continua?
_Hum – soltou a fumaça e sorriu, me passando o baseado – Pode ser.
_Sabe quando cê pensa “num dá mais” e aí dá?
_Sei – ela riu, enquanto eu dava um pega – Mas eu ainda preciso dar uns 10...
 
Passou a mão no cabelo curtinho e a esticou em seguida, para pegar o baseado de volta. Notei o seu olhar percorrer o meu corpo discretamente. E então sorriu, balançando mais uma vez a cabeça.
 
_Velho, isso é muito doido...
_O quê? – perguntei, soltando a fumaça para cima.
_Isso. Eu e você, aqui.
_Né?
_Se alguém me perguntasse hoje de manhã como ia ser minha tarde... – achou graça – ...eu nunca ia ter adivinhado.
_Pois é... – me espreguicei mais uma vez – Mas, por outro lado, sei lá, eu meio que sempre soube que ia acontecer um dia. Cê não?
_Pode crer.
_Rolava uma curiosidade.
_Mano, muito fogo no rabo. Eu e você – ela riu – Era só questão de tempo...
 
Nos olhamos por um instante e a Thaís me empurrou de leve, fazendo graça. Me sentia bem de poder falar com ela sobre o nosso pequeno delito. Sentei na beirada da cama e alcancei meu maço no bolso da calça, que estava amassada num canto do colchão. Coloquei um dos cigarros na boca e olhei para a janela – o apartamento dela ficava no terceiro andar dum predinho baixo da Peixoto Gomide.
 
Me levantei e senti o olhar da Thaís me acompanhar pelo quarto. Abri o vidro, me apoiando no parapeito sem uma roupa sequer no corpo, enquanto os sons de São Paulo invadiam o cômodo. A juventude porralouca paulistana já começava a lotar a rua – e qualquer um que olhasse para cima da calçada facilmente veria os meus peitos ali. Mas que se dane. Acendi o cigarro e pus-me a observar o movimento naquele começo de noite gelado. Passei a mão no meu cabelo bagunçado, tirando-o da cara meio de qualquer jeito. E senti o vento arrepiar toda a minha pele.
 
De repente, ao fundo, ouvi a Thaís murmurar algo.
 
_Cê falou alguma coisa? – apoiei as costas contra a janela, me virando para dentro por um instante.
_Falei... – ela riu – ...eu perguntei... – repetiu, colocando o braço atrás da cabeça – ...quando que cê vai me deixar tatuar essa sua pele aí.
 
Com os seus olhos em mim, o comentário soava mais como um xaveco. E me fez sorrir.
 
_Olha, quando cê quiser, eu também topo...
_É? – ela sorriu de volta, como se falássemos de outra coisa – Tá faltando uns rabiscos meus aí.
_Tá. Tá sobrando muito espaço... – eu ri.
_Meu... Eu não ia dizer nada, mas tá mesmo, velho – mudou o tom, me zombando – Tá vergonhoso isso aí. Porra! Já num basta o vexame que cê é na sinuca, nem para compensar em tatuagem...
_Ah! Vai se foder, mano!
_Quê?!
_Num ouvi ninguém reclamando uma hora atrás.
 
Arqueei as sobrancelhas e a Thaís deu de ombros, debochada, como se tivesse razão. Revirei os olhos e me virei outra vez para fumar na janela, achando graça, apoiando o corpo contra o parapeito. O barulho do lado de fora intensificava junto com a aglomeração que se formava na Peixoto. E assim que coloquei o cigarro na boca, em meio às buzinas e gritos bêbados da rua, tive a impressão de escutar algo também do lado de dentro.
 
_O quê? – encarei o quarto mais uma vez, para ouvir direito.
_Que foi?
_Achei que cê tinha falado alguma coisa...
_Não – ela riu – É o Bruce que tá fazendo escândalo na porta.
 
O Bruce era um vira-lata misturado com boxer, já velho e meio cego, que a Thaís tinha adotado um ou dois anos antes. Era o amor da vida dela e o cachorro mais boa praça de toda Baixo Augusta. E que agora arranhava o vão da porta do quarto, choramingando, como se a sua vida dependesse de um passeio para mijar nos postes da vizinhança. Traguei mais uma vez, soltando a fumaça rapidamente para o lado de fora, e caminhei até a beirada da cama.
 
_Vamos dar um rolê com ele – falei, esticando a mão e oferecendo o cigarro para a Thaís.
_Agora?
_É – peguei a cueca no chão e vesti, rindo – A gente desce rapidinho.
_Bora então.

julho 20, 2010

Timing

Dali para o apartamento dela, que não ficava a cem passos do boteco, levamos dois minutos. Da porta até eu colocar minhas mãos nela foram menos de dois segundos. E nos dois milésimos seguintes, a sua boca já estava na minha – com gosto de cerveja e baseado, de sábado à tarde na rua Augusta. O meu corpo pressionava a Thaís contra a parede. Mas aquele primeiro beijo foi estranho. E não só pelo mero estranhamento de ficar com uma amiga, era... não sei.
 
O que há com você, porra, me indignei comigo mesma. Faz direito.
 
Forcei os olhos, fechados, e me obriguei a ignorar o incômodo por me pôr naquela situação. Tudo fluiu bem até aqui, pra quê estragar agora? Não queria pensar na Mia. Queria fazer o que bem entendesse, beijar quem me desse vontade. Como ela também fazia. Mas, de repente, não era assim que eu me sentia. E foi difícil, como nunca antes. Uma vez que começamos era como se eu não precisasse mais pensar – da minha boca à ponta dos meus dedos, tudo se convertia em sacanagem. Naturalmente. Mas segurar alguém com o coração em outra é mais complicado do que pode parecer. E aquela rodada em especial foi bastante difícil.
 
Mas enfim, foi.
 
E no fim, restei eu – ao lado da minha amiga na cama, sem roupa ou paz alguma de espírito. É. Eu já devia ter aprendido, passei a mão no rosto, frustrada com o fracasso absoluto daquilo. Numa tentativa desesperada de assumir o controle dos meus sentimentos, como se pudesse consertar o presente com os métodos do passado. Aquele era o fim do poço. Sentei no colchão, colocando os pés descalços no chão frio. E senti o peso do ar deixando os meus pulmões – amargamente.
 
Pronto. Você já veio, já fez o que tinha que fazer. Tentou e não deu certo, agora pega suas coisas e vai embora. Me levantei, sem pensar, e peguei o celular para ver as horas. A Thaís continuava deitada, falando desavisada sobre qualquer coisa, quando de repente vi uma resposta tardia da Mia na tela. Não a havia notado ali. À primeira impressão, a economia de palavras me empurrou de volta para a cama. Já o “desculpa” seguido de um “não” e, um pouco depois, do “Fer” me tirou a boxer na mesma hora.
 
E dessa vez, não foi nada difícil.

Botequinho

Sentei naquele snooker bar sujo, contando os poucos trocados que eu tinha no bolso. R$ 2,47. Isso só me garantia 4 fichas – talvez 5, se eu chorasse um pouco para o cara do caixa. Enfiei as moedas de volta no bolso da calça. E logo em seguida, avistei a minha amiga atravessando a rua. Numa regata branca e jeans largos, o boné virado para trás – puta merda, tava gata.
 
A Thaís era a única tatuadora num estúdio cheio de macho em Pinheiros. Era uma dessas butch gordas com uns braços fortes e um sorriso que te desgraçam a cabeça. Para piorar, recentemente ela tinha tatuado a lateral do pescoço. Cacete. Entrou no bar com aquela cara de quem tinha caído do sofá dez minutos antes. Parou no balcão antes de me cumprimentar e pediu uma garrafa de Brahma gelada, que o cara entregou para ela junto com dois copos americanos. Então veio até onde eu estava sentada.
 
_E aí, sapatão!
_E aí... – a Thaís sorriu, colocando a cerveja na mesa e puxando uma cadeira.
_Te acordei, meu?
_Não, tranquilo... Precisava sair daquele sofá, foi bom que cê ligou.
_Porra, saudade, faz tempo que a gente num se vê. Acho que desde a festa, não?
_Nossa... – arregalou os olhos e começou a rir, passando a mão na cara – Que que foi aquela sua festa, mano. Não sei nem como cheguei em casa naquele dia...
_Hum. Eu sei bem como cê chegou em casa... – pisquei na sua direção, a provocando.
_Cala a boca.
_Quê? – eu ri – Eu lembro.
_Fica quieta que cê tava caída do lado do sofá com a porra da Aninha em cima de você, velho. Cê não viu merda nenhuma!
_Ah, então não era você saindo pela porta com a sua ex do lado?!
_Filha da puta...
 
Ela riu, balançando a cabeça, e se esticou para frente para colocar cerveja nos nossos copos.
 
_Vem. Vamos beber, vai!
 
Brindamos e tomei um gole, achando graça na cara de pau da minha amiga. Ela ria também e me contava os desdobramentos daquela noite. Assim que terminamos o primeiro copo, levantei para comprar as fichas no bar. O boteco era um clássico trash paulistano – com uma estufa de salgados de origem duvidosa, um banheiro imundo com porta sanfonada e uma estátua de São Jorge empoeirada ao lado dumas laranjas e uns conhaques na prateleira atrás do balcão. Me sentia em casa. Peguei quatro fichas e ocupamos uma das mesas de sinuca, apoiando os nossos copos na beirada. 
 
Jogar contra a Thaís era má ideia. Toda santa vez. Não gostava nem de pensar na quantidade de dinheiro que eu já tinha perdido para ela ao longo dos anos, apostando cerveja atrás de cerveja em mesas exatamente como aquela. Não que eu fosse ruim, isto é, eu até que me garantia contra os bêbados da Augusta – mas não uma sapatão de respeito daquelas. E ela fazia questão de me provocar a toda maldita jogada que eu errava. É. Para depois ir lá e encaçapar três seguidas como se nada fosse.
 
Inferno.
 
Numa dessas, a bola branca aterrizou a poucos centímetros de uma das minhas. Praticamente na reta da caçapa. Tomei um gole da minha cerveja e coloquei o copo para o lado, me inclinando sobre a mesa. Era para ser fácil. Mas a Thaís ficou parada ali, me assistindo mirar, com os braços cruzados naquela regata e – cacete. Ergui o olhar na sua direção por um segundo e ela sorriu para mim. Como se por um breve instante soubéssemos o que se passava na cabeça uma da outra. E quando voltei a minha atenção para a bola, agora já levemente desconcertada, acertei o taco muito para a esquerda. Maldição. A branca pegou de raspão na outra bola, que bateu na quina da porra da caçapa e eu errei feio.
 
_PUTA MERDA! – a Thaís gritou e começou a rir – Que vergonha! Que vergonha pra nossa classe, mano...
_Cala a boca!
_Velho, na boa, cê tem sorte de ser gata assim, porque cê joga mal pra caralho...
_Ah, vai se foder!!
_COMO CÊ ERRA UMA BOLA DESSAS??
_PEGOU ERRADO NA BRANCA, CARALHO, IA ENTRAR!
_Ia... – ela zombou, rindo da minha cara – ...ia, sim. Tá bom.
_Cala a boca, mano! – eu ri também e a empurrei pro lado, a Thaís se divertia – Babaca.
_Sério. Como cê consegue se chamar de sapatão?
_Fácil. Porque... – fiz graça – ...o que importa, eu faço direito.
 
Ela arqueou as sobrancelhas como se dissesse “é?” e balançou a cabeça, rindo. Era gostoso flertar com a Thaís. Em algum lugar, nós nos entendíamos – testando os limites quando nos dava na telha e falando merda, sem nenhuma pretensão de necessariamente fazer algo a respeito. Encostei contra a parede. E ela me olhou ali, tomando mais um gole da cerveja, antes de se virar para me humilhar jogar.
 
De repente, existia uma tensão entre nós.
 
Foi como se aquele breve momento desencadeasse segundas intenções em tudo o que dizíamos. Ou fazíamos. Nos esbarrando entre as jogadas, esvaziando os copos, enchendo-os de novo e sorrindo, encarando uma à outra, sem dizer muito de fato. Havia certa arrogância na forma como a Thaís sabia que eu não conseguia tirar os olhos dela. Dobrando aquele braço forte, tatuado, para trás e deslizando o taco entre os dedos da outra mão – e olha, eu gostava.
 
Quando matamos a segunda garrafa de Brahma, saímos na calçada para fumar. A Thaís puxou o maço do bolso de trás da calça e pegou um cigarro, colocando-o atrás da orelha. Logo abaixo do boné, com um sorriso no canto da boca, como se fizesse charme. Depois resgatou uma ponta no fundo do maço, acendendo-a com o meu isqueiro. Demos dois tragos cada e ela logo apagou, guardando o baseado antes que alguém reclamasse. Não eram nem quatro da tarde ainda.
 
_Mas e aí... – a Thaís subiu o olhar na minha direção, tirando o cigarro da orelha e o colocando na boca – ...qual o lance com a Aninha, cês voltaram?
_Não, meu...
_Não?
_Foi só aquele dia lá da festa... – eu ri e ela tragou, me passando o cigarro em seguida – Depois até trombei com ela no Glória, num outro dia aí, mas não rolou nada.
_Hum. Por que não? Cê tá pegando alguém?
_Ah... – hesitei, sem saber como diabos responder a pergunta – ...é complicado.
_Complicado como?
_Ah, mano... – suspirei e a Thaís achou graça – Uma mina aí, curto ela pra caralho. Mas ela... e-ela namora. E uma hora me quer, na outra não. Esses dias a gente saiu, dormimos juntas e depois ela não falou mais comigo, tá me ignorando agora. Não sei o que pensar. Sei lá, é foda...
_Nossa.
_É... – arqueei as sobrancelhas e ri, tragando demoradamente.
_Velho, não dá, por isso que não tenho paciência pra me envolver com ninguém agora.
_Né? – soltei a fumaça por um espaço pequeno entre os lábios, passando o cigarro de volta para ela – Queria que as coisas pudessem ser mais simples, meu.
_Pode crer.
_Às vezes, cê... – disse e olhei descaradamente para a sua boca, conforme ela colocava o filtro entre os lábios – ...cê não acha que seria melhor simplesmente, sei lá, transar com suas amigas? Sabe, só... foder e se divertir, ficar de boa?
 
A Thaís segurou o riso e me olhou de volta, enquanto tragava, quase como se me desafiasse.
 
_Ué, vamos então.