_Onde cê tava, mano? – a Lê perguntou, embriagada, com os braços
ao redor da possível fefelechiana de antes – Cê sumiu!
_Ahh, meu, por aí...
Eu sorri e apoiei os cotovelos no balcão do bar, de costas.
_Sei... – ela sorriu, me olhando desconfiada, e deu um gole numa cerveja
já pela metade – A gente tava indo pra pista, vamos?!
_Não, meu... – balancei a cabeça – ...deixa, vou dar um tempo
aqui.
_O que cê aprontou, hein?
_Nada.
_Nada?! – a Lê achou graça, sem acreditar.
_Eu... – me aproximei do seu ouvido, de lado, para cochichar – ...peguei
a Mia na pista de cima, meu.
A Lê afastou o rosto, arregalando os olhos, e então começou a rir.
A garota ao seu lado ficou boiando, sem entender do que diabos estávamos
falando. Já a minha amiga continuava me encarando, desacreditada, como se não
pudesse aceitar. Reafirmei a veracidade dos fatos com a cabeça, com toda minha credibilidade
bêbada.
_Cê é doida! Sério, cê tem problema... – riu – ...puta merda.
_Quê? Ninguém viu, meu.
_Não, vem, vou te pagar uma bebida... – ela se divertia – Você
merece.
_Não, não... Para! Já tô alta pra caralho, mano. Se eu beber mais,
vou passar mal aqui...
_Larga de cu doce, vai, meu, diz aí o que cê quer.
Tá. Pedi um rum com gelo, sabendo que não deveria. Fazer o quê, né? E a Lê terminou sua
long neck, enquanto eu virava a minha dose de arrependimento-programado. Só
depois me apresentou propriamente a garota. E claro – ela fazia Letras
na USP. Eu sabia. Conversamos por um tempo, as
três, sobre qualquer coisa que a embriaguez logo me fez esquecer. E quando,
enfim, saímos para a pista, uns bons vinte minutos mais tarde, minha percepção da
realidade já estava consideravelmente prejudicada. Fui olhando o mar de gente à
minha volta, caminhando, trombando para todos os meus lados, sem conseguir, de
fato, raciocinar. Caralho, mano.
Sempre me orgulhei da minha capacidade de perceber o quão bêbada
eu estava antes de realmente afundar o pé na jaca – só que esse momento já tinha
passado há um bom tempo. E eu não fiz nada a respeito. Estava ocupada demais
pegando a Mia no dark room da Sarajevo. Então, quando cheguei na pista principal,
já não conseguia delinear uma pessoa sequer ao meu redor, com o corpo leve e a
cabeça pesada, bastante tonta. Para piorar, a Lê, aquela amiga da onça, logo
se pôs a dançar exclusivamente com a tal da fefelechiana.
E eu, óbvio, sobrei.
Sem outra opção, apanhei a garrafa ainda fechada que ela segurava
nas mãos e procurei me distrair com a cerveja dentro. Que se dane, já tô na
merda mesmo. Poucos minutos depois, quando o DJ embalou um Seu Jorge
remixado e eu fiz uma careta de desgosto, a Mia apareceu dentre as pessoas ao
meu lado. Lá vem merda, pensei assim que a vi, toda irresistível, com medo
da minha falta de controle naquele estado.
_Cê não vai dançar comigo?
Ela perguntou, já me pegando pela cintura.
Possivelmente mais bêbada do que eu. Apenas acenei que “não” com a
cabeça, sorrindo para ela. E ela insistiu, como uma criança mimada, me
segurando pela mão quando tentei me afastar. Caralho, viu. Estava maravilhosa ali. Olhei em volta, à procura do Fer, e
passei a outra mão na nuca, preocupada. Isso não vai dar certo.
_Cadê o seu namorado? – questionei, no seu ouvido.
_Tá com os amigos dele... Já fui lá, tava com ele até agora, meu –
respondeu e sorriu para mim, me puxando – Veeem...
Mais uma vez, fiz que “não” com a cabeça, relutante – mas os meus
pés cederam na sua direção. A Mia me olhou, já quase me convencendo, e sorriu. Você é bonita demais, garota, puta que pariu,
eu a observava fazendo graça para mim, com consciência de que aquela guerra
estava perdida antes mesmo de começar. Diabo de mulher. E foi quando ela
se virou, ainda com as mãos nas minhas, e começou a se enfiar no meio daquela
bagunça da Sarajevo, me puxando por entre as pessoas. Hesitei, por alguns
segundos, em pensamento, mas as minhas pernas já a estavam seguindo. Não estava
realmente em condições de lhe negar qualquer coisa. Então que se dane.