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janeiro 12, 2012

Pele

Bati a porta do quarto atrás de mim, irritada. Com as provocações do Fernando, sim, mas mais ainda com a atitude da Mia, a sua falta de noção. Deu pra fazer ceninha agora, porra? Aquilo me tirou do sério. Caminhei de volta para a cama, respirando fundo e deixando o ar escapar ruidosamente dos pulmões. Acordada pela barulheira toda, a Clara sentou no colchão e eu alcancei o maço na cômoda, me sentando ao seu lado.
 
_Tá tudo bem?
 
Ela perguntou, baixinho.
 
_Tá – menti, acendendo o cigarro – Não foi nada.
_Hum... – me abraçou por trás, colocando uma perna de cada lado do meu corpo, e deslizou as mãos pela minha pele, por debaixo da camiseta – ...sei. Não quer me contar, não?
_Não.
 
Me levantei e busquei o cinzeiro ao lado do computador, um tanto grosseira. Me afastando. Talvez fossem as brincadeiras do Fer desde a noite anterior ou a birra da Mia, ou talvez fosse a porra da mensagem da Patti, não sei – mas, de repente, me sentia sobrecarregada. Sem cabeça para lidar, além de tudo, com o fato de que a Clara estava na porcaria da minha cama e que tudo o que precisou para eu ir correndo de volta pra ela foi uma droga de mensagem, depois de eu a ter pegado com outra no Vegas. Inferno.
 
_Ei...
 
A Clara subiu uma das pernas, dobrando-a em frente ao corpo, e me observou ali em pé, como se esperasse uma resposta.
 
_Escuta, isso aqui... – fiz um sinal com a cabeça, amarga, indicando o colchão – ...eu e você, não muda nada. Não é como se agora, de repente, a gente fosse namorada, melhor amiga, porque não somos. Os meus problemas não são da sua conta.
_Uau, hein... – forçou um tom irônico – E como tá funcionando isso pra você? Essa estupidez toda?!
 
Retirei o cigarro dos lábios e deixei com que a fumaça saísse lentamente, merda. Bati um princípio de cinza no cinzeiro e olhei pela janela, o dia estava nublado. Aí encarei mais uma vez a Clara, sentada na minha cama e ainda despida, agora com as costas apoiadas na parede. O que eu tô fazendo, caralho? O lençol cobria parte das suas pernas, tocando bem de leve a sua pele e as pintinhas que se espalhavam pelas suas coxas. Me observava de volta, vendo-me me afundar na minha própria babaquice.
 
_Olha... – abaixei a cabeça, sentando na cama – ...se cê veio procurando romantismo...
 
Deixei o resto da frase solto no ar. Nem eu estava com paciência para mim mesma. A Clara se moveu no colchão, deslizando as mãos e as pernas descobertas pelo lençol. Na minha direção. Encarei o chão com o cigarro entre os dedos, me sentindo um lixo. Os seus joelhos se encaixaram na lateral do meu corpo, mais uma vez, e as pontas dos seus dedos percorreram os meus braços. Num gesto contínuo, ergueu a minha camiseta até o alto das minhas costas e eu senti o seu corpo morno encostar contra o meu. Me deu um beijo na altura da coluna. E eu traguei mais uma vez. Os seus lábios suaves deixaram a minha pele. Então, veio de novo. Mais um. Aí outro, subindo aos poucos. Depois outro. Pelo pescoço, enroscando os braços sobre meus peitos descobertos. A sua língua tocava a minha pele, numas brechas, entre um beijo e outro. Mais um, outro. Fechei os olhos e ela sussurrou, encostando a boca na lateral do meu rosto.
 
_Não vim...

janeiro 06, 2012

Os invernos

“Well, you can get out of this party dress
But you can’t get out of this... skin”
(Boy)
 
Na manhã seguinte, deixei a Clara ainda dormindo na cama e caminhei silenciosamente até o armário. Peguei uma camiseta velha com a gola toda arrebentada, intencionalmente alargada anos antes. Me vesti e saí para o corredor, fechando a porta cuidadosamente atrás de mim. Vamos lá, passei a mão no rosto. Só quando estava ali, do lado de fora, criei coragem para abrir a minha caixa de mensagens. O meu estômago revirava por antecipação, sem querer lidar com a consequência dos meus atos.
 
E lá estava – 1 mensagem não lida.
 
Eu tinha, sim, respondido à Patti na noite anterior. Aconteceu depois de algumas tentativas dela de me ligar e uns SMS perguntando onde diabos eu estava. E em algum momento da madrugada, já fora de mim na Hot Hot, em meio a uma descarada falta de comedimento com a Clara, eu a respondi. Sequer lembrava direito o que tinha digitado, bêbada, e talvez fosse isso o que eu tanto temia. Argh. Abri a resposta, em pé no corredor naquela tarde de domingo. Podia ouvir o Fer e a Mia na cozinha, provavelmente já almoçando. Olhei para a tela do telefone, segurando a respiração por um instante.
 
E elas vieram. Uma a uma, as suas palavras rancorosas. Outras garotas já me detestaram por muito menos – por muito mais, também. Mas dessa vez, de alguma forma, eu me sentia pior do que em todas elas. “Interesse efusivo, ñ era?”, a Patti escreveu, às 2:49, “espero q algum dia alguem seja capaz de se interessar por vc, por esse seu jeito errado, e q vc ñ acabe sozinha... espero de vdd. Pq pra mim ñ da”. Encostei a cabeça contra a madeira, pressionando a testa no batente da porta. E suspirei.
 
Aquilo me doeu. A verdade é que, sim, eu tinha me interessado pela Patti. Mas, agora, a realidade seria aquela.
 
Eu fodi tudo. E tinha que encarar as consequências, como se não a tivesse desejado como desejei nos últimos dias, a querido o tanto que quis. Agora de pouco adiantava questionar se tinha tomado a decisão certa, porque já estava tomada. Não posso mais voltar atrás., fechei o celular e respirei fundo. Saber que a Clara estava do outro lado daquela porta, depois da noite que passamos juntas, aquela porra daquela noite, arrebatadora, também me bagunçava a cabeça, os sentimentos. Caralho. Sentia como se estivesse prestes a entrar num mar revolto, a dar um passo adiante sem enxergar direito onde estava pisando. Não sei por que me sentia tão suscetível àquela porra de garota – mas me sentia. Puta merda, como sentia.
 
Era como encarar o maremoto e querer que ele te engula.
 
De repente, senti a minha garganta seca. Numa ressaca desgraçada, o meu corpo ainda desacostumado. Movi os pés descalços contra o piso e fui até a cozinha pegar um copo d’água. Entrei só com a camiseta velha no corpo e dei de cara com a Mia, sentada na mesa, com o prato terminado à sua frente. Ela me olhou como se já soubesse. E eu a encarei de volta por um segundo, antes de seguir em direção à geladeira. O Fernando deve ter aberto sua boca grande, presumi. Abri a porta para pegar uma Coca e o dito cujo, que estava lavando o coador para passar café, reparou na minha presença.
 
_Hum. Pra quem não resiste a um pé na bunda, hein... – apoiou o corpo na pia, rindo – ...até que cê esperou bastante.
_Não enche, Fernando!
_Ah, vai, demorou o quê? – ele se divertia – Cinco, seis horas desde que cê saiu pra encontrar sua namoradinha até cê passar pela porta com a Clara?!
 
Num estrondo, a Mia se levantou bruscamente e saiu da cozinha.

janeiro 05, 2012

Entreatos

(...)
 
O seu rosto escorregou no meu ombro descoberto. Minha regata já tava completamente puxada fora de lugar, suja contra a porta de ferro de uma loja fechada. Já não era mais branca – não desde aquela madrugada, rolando na imundice do centro de São Paulo. Amassou o rosto contra o pouco de tecido que havia no alto das minhas costas e eu comecei a rir de novo, junto com ela, a Clara, que me abraçava por trás. Traguei mais uma vez o cigarro, roubado, tossindo em seguida, numa respiração atropelada pelo riso. Os olhos dela me acompanhavam, com seus ares latinos, me vendo dali de baixo. Apoiada no meu ombro, o peso largado em mim. Balancei a cabeça, tentando manter certa sobriedade – ou o que me restava dela. Zero dignidade.
 
Sequer lembrava onde estava tamanha graça. Meu deus, eu ria. E continuava. Sentadas na porta de um comércio qualquer nas redondezas da Hot Hot, já meio perdidas naquelas ruas confusas. O céu ainda estava escuro e a noite seguia sem fim, irreal e agradável. Numa brisa morna – apenas o chão estava frio, cimento áspero; mas a rispidez da calçada não parecia ter impacto algum em nossas pernas, revirando sobre o concreto, nos reajeitando, incessantes, inquietas e empolgadas. Com os joelhos cruzados uma sobre a outra, bêbadas, a Clara me abraçava e nós caíamos. Aí ríamos, muito.
 
E eu a beijava com vontade. Numa ausência de lucidez, de tempo e espaço, nuns instantes espontâneos. A todo momento. Ela tentava tirar os meus tênis, à força, dizendo que os adorava e exigindo que os desse de presente pra ela. De jeito nenhum, eu brigava fisicamente com o seu corpo e nos pegávamos loucamente, como se não pudéssemos evitar. É. Tomei posse da garrafa que a Clara até então segurava com apego e dei mais um gole – como se precisássemos de algo além das nossas comandas estourando de tão cheias, pagas vinte minutos antes, decidimos investir o restante das nossas malgastas economias numa garrafa inteira de sabe-se-lá-o-quê que aquele cara tava vendendo na porta. Coloquei o gargalo na boca, olhando-a sujar suas pernas naquele chão imundo, sem dar a mínima – e a admirei genuinamente. A minha cabeça começou a rodar, puta merda.
 
(...)
 
Cercando o meu corpo, suas coxas forçavam o shortinhos verde-musgo cada vez mais para cima. Arregaçando a borda rasgada e a fazendo enrolar. Até o meio das suas pernas. No seu ouvido, eu dizia as mais baixas obscenidades. O taxista tentava nos ignorar, ou não. E eu tentava me controlar, manter a porra da calma. Prestes a comer ela ali mesmo. A Clara metia a mão entre a minha calça e os seus shorts, sentada em cima de mim. Mordia a minha boca e eu subia as mãos por baixo da sua regata, sem nada por baixo, cacete. Ela ficava realmente, realmente linda com os fios bagunçados assim. Observava-a ali, me olhando de volta. E sentia me apertar os pulmões, numa ausência filha-da-puta de paciência para tê-la.
 
(...)
 
Entramos barulhentas no apartamento, nos anunciando. Eram quase cinco da manhã. Nos pegamos pelas paredes, quase caindo entre um beijo e outro, rindo. Completamente bêbadas. A quietude da sala escura era interrompida apenas pela TV ligada e, agora, por nós. O Fer assistia qualquer programa com o volume quase no mínimo, enquanto a Mia dormia com a cabeça apoiada no seu colo, apenas de blusão sobre o sofá. Não notei se nos ouviu entrar. Mantive meus olhos e as minhas mãos ocupadas com a regata preta da Clara, que tirei e larguei no meio do corredor, assim que pude, a despeito da possível plateia.
 
A joguei na minha cama. E subi por cima dela, entre suas pernas, a beijando inteira. Deslizando meus dentes na sua pele, a mordendo vorazmente. Numa fome que só a saudade pode causar. Nos movíamos num ritmo alucinado, fora de nós mesmas. O peso do seu corpo contra o meu. Num ato justo, perdi também a minha regata e logo perdemos todo o resto. Sentia as suas mãos me puxarem, me machucando, insensíveis, apertando minhas costelas recém-tatuadas sem dar a mínima. E eu a machucava de volta – com as mãos, com a boca, com toda a vontade que eu tinha dela, a segurando pela cintura, pelos quadris. Meti os dedos entre suas pernas e os escorreguei para cima. Perturbando o silêncio do quarto e, tão logo, de todos os cômodos do apartamento e da porcaria do prédio inteiro. Que se foda.
 
(...)
 
Sem escrúpulos, duas, três vezes seguidas. Um baseado aceso e, depois, mais uma. Pode vir, maldita. 

janeiro 04, 2012

A maré

Passei pelas cortinas na entrada da Hot Hot, uma balada cara no centro sujo paulistano, e caminhei entre as pessoas superproduzidas que se amontoavam ali, se divertindo escandalosamente. Aquele caos bem viado na porra da cidade que nunca dorme. Tinha fumado meio maço no banco de trás do táxi no caminho para me acalmar – ou foi o que pareceu. Durante o breve percurso, pensei na Patti, sozinha, me esperando. Mas fui incapaz de lhe enviar uma mensagem, não sabia o que dizer, e agora me detestava. Por isso e por tudo. Pelas possibilidades estragadas.
 
Inferno.
 
Não sabia direito por quê estava ali, impulsionada por uma curiosidade idiota e certo rancor da Clara, de mim mesma – sei lá. Tudo o que não preciso na minha vida agora é outra garota que me tire a razão, que me mexa comigo nesse nível. Já basta todo o tempo que perdi correndo atrás da Mia. O que diabos eu tô fazendo aqui, mano? Convenhamos, a minha história com a Clara não era das melhores. Entrei naquele inferninho incomodada com a impossibilidade de voltar atrás, mas entrei. Abracei a minha própria decisão de merda, e que se dane.
 
Não foram nem cinco minutos a procurando. E lá estava ela, absolutamente linda. Com os cabelos morenos soltos e a mesma regata de horas antes – agora com as pernas de fora, e magníficas, num shorts verde-musgo curto e rasgado, cujo único propósito parecia ser me desgraçar a cabeça. E uma botinha marrom que se misturava com o tom da sua pele. Tinha uma cerveja na mão, conversando distraída com um amigo, ainda sem me notar. A menos de três metros de onde eu estava. Agora que a via ali, me arrependia de tudo – essa mina, caralho. Aquela era uma péssima, ainda que inegavelmente tentadora, ideia. E eu sabia.
 
A Clara sorriu ao ver eu me aproximar – uma curvinha sutil se formava na sua pele quando ela sorria, bem no cantinho da boca. Argh. Eu odiava como lembrava tão visceralmente de coisas assim. “Não acredito que cê veio!”, ela me abraçou, surpresa. Pois é, nem eu. O tal amigo me cumprimentou com um gesto. Dei meio sorriso, cumprimentando de volta, incapaz de fingir naturalidade. E fui pro bar. Apoiei as mãos no balcão e encarei o cara do outro lado como se estivesse prestes a cometer um erro muito grande. Respirei fundo. E então pedi uma dose de whisky. É uma emergência, pensei, depois me explico para a Marina.
 
A Clara encostou ao meu lado. Esbarrando o corpo no meu, como quem não percebe – mas eu sabia que percebia. Não olhei na sua direção. Não conseguia. Ela pediu algo para si, uma cuba libre, acho, me encarando em seguida. Agora é tarde demais para voltar atrás, dei o primeiro gole. Ainda tentando entender, na minha cabeça bagunçada, o que diabos me fez subir naquele táxi.
 
_V-você... – eu disse, do nada – ...você estragou tudo entre a gente, sabia?
_E-eu... – ela me olhou, apagando o sorriso da cara – ...eu sei.
_Eu não devia tá aqui... – suspirei, esfregando as mãos no rosto – ...mas eu tô. E agora eu é que vou foder tudo com outra pessoa.
 
Essa era a verdade. Me frustrava comigo mesma. Enfiada numa merda de uma balada lotada e escura, mal ouvindo a minha própria voz. Puta merda. Eu tenho umas, viu – como diria a minha mãe – que às vezes pareciam duas. Numa capacidade fora do comum de arranjar problema pra cabeça. E a culpa sequer era da Clara, àquela altura, era minha. Inteira minha. Dei mais um gole, engolindo minhas hipocrisias junto.
 
_Não sabia que cê tava com alguém...
_N-não tô, a gente só... – resmunguei, amarga – ...não importa.
 
Hum”, ela apoiou o braço no bar e levou a mão perto da boca, mordendo a pontinha do polegar com os lábios entreabertos. Tinha um jeito de me observar, assim, sem rodeios, que me prendia. E de repente, eu não conseguia mais desviar o olhar. Desgraça. Senti a curiosidade voltar.
 
_E então... – ela segurou um sorriso – ...por que você veio?
 
Minha respiração acelerou. Você sabe por quê. E em meio às estampas cool psicodélicas da Hot Hot e a multidão barulhenta, num impulso contínuo, contra todas as boas razões, a empurrei contra a parede, num dos beijos mais rancorosos que já dei.

Ah, que se dane também.

dezembro 30, 2011

"Here I go...

“...and I don’t know why”.
(Patti Smith)
 
Saí do banho com certa folga para as dez e meia – o filme só começava lá pelas onze, numa dessas programações especiais de São Paulo. Caminhei de um lado ao outro do quarto, indecisa quanto ao que usar. Só de cueca e com o cabelo ainda molhado. Sem decidir nada, voltei para o banheiro para secá-lo. Ao passar pelo corredor, olhei para a porta fechada do quarto do Fer – ele e a Mia já estavam trancados ali há algum tempo. Liguei o secador e, no meio do barulho e daquele ar quente todo, ouvi chegar uma mensagem no meu celular.
 
Estava largado na pia. Entre os fios bagunçados no meu rosto, abaixei para ler – “oi, ñ sei se seu numero eh o msm. qria ter falado mais com vc hj. foi estranho te ver, fiquei pensando nisso dps... mas enfim, ñ vou falar por aqui. Hj vou com um amigo ai perto, na hot hot. tô indo pra lá daqui a pouco. Se ñ for fazer nd, te devo uma? ;-) Bjs, clara”.
 
Fiquei parada por um instante, sem reação. Precisava de mais tempo para processar. Aquilo e todos os acontecimentos daquele dia. Li mais uma vez. Em silêncio. E então coloquei o telefone de volta na pia. Sem a responder. De algum jeito que eu não conseguia entender, as suas palavras me inquietavam. Me sentia cutucada – só não tinha certeza em que sentido. Não vou fazer isso, pensei. Não ia revirar aquilo dentro de mim. Liguei de novo o secador, tentando não me distrair do meu objetivo ali, que era só secar o cabelo e voltar para a porra do quarto. Observei os meus olhos no espelho, quase por inércia, enquanto o ar passava pelos fios na minha cabeça. Mas a inquietude continuava lá. Em algum lugar. Baguncei o cabelo para um lado, mexendo-o sob o ar quente. Pouco tempo depois, não o suficiente para já estar seco, pro outro lado. E então ao oposto, o mesmo de antes, mais uma vez. E aí virei de novo – merda.
 
A ansiedade cresceu no meu peito.
 
Joguei todo o cabelo para a frente, abaixando a cabeça e ignorando o sentimento. Dane-se. Comecei pela nuca, aí desci para a franja e a lateral esquerda, a diagonal da frente. A de trás. A direita. A outra diagonal. A mesma de antes. A nuca. O lado esquerdo. A franja. Não importava quanto bagunçava meu cabelo, aquela porcaria não secava. Deixei o ar correr em cima dos fios por um tempo, depois joguei-os para trás e tornei a secá-los normalmente, mas não ia. Parecia que eu estava ali há horas, ainda que provavelmente não tivessem se passado nem 5 minutos. Droga. Peguei o celular e li mais uma vez a mensagem.
 
Apoiei ambos os antebraços na borda da pia, com o telefone em mãos, olhando para a tempestade em copo d’água que eu, de repente, estava fazendo. Considerei responder, mas, o que diabos vou dizer? “Já tenho planos”? Por algum motivo besta, não conseguia dispensá-la. Não totalmente. Passei a mão na nuca, encarando o teto e respirando fundo, me livrando daquela situação ridícula. Engoli todas as minhas idiotices e devolvi o telefone à pia, pegando novamente o secador e o ligando na última potência.
 
Fechei os olhos. E dei início à maior barulheira, contínua, bagunçando os fios de um lado para o outro com as mãos. Sem pensar. 1... 2... 3... 19... 20... Chega. Larguei o secador sobre a pia do banheiro e apoiei ambas as mãos na superfície fria, irritada. Respirei fundo. Isso não tá certo, briguei comigo mesma, não com a Patti. Me forçaria àquilo, a ir na porcaria do cinema e foda-se a merda da Clara. Retornei ao quarto, determinada. Vesti a primeira regata branca que vi, dessas que ficam soltas no corpo, quase indecente de tão larga. E enfiei as pernas numa calça jeans. Peguei o meu maço e isqueiro, já pronta para sair. Sentia como se não pudesse parar um segundo ou faria, de certo, uma merda muito grande.
 
Saí do quarto e fui para a sala atrás da minha carteira. O Fer estava na cozinha agora, de samba-canção e descalço. Caminhou até a porta do corredor, apoiando-se de lado na parede e me olhando enquanto comia um lanche improvisado. Provavelmente depois de comer a Mia. Achei a carteira. Alcancei-a, esmagada no vão do sofá, provavelmente ali desde que voltei do estúdio. Separei apenas o documento e o dinheiro, colocando-os no bolso junto ao maço e largando a carteira de volta no sofá.
 
_Humm... – o Fer disse, então, me olhando de cima a baixo – ...bom encontro com a namoradinha, hein?!
 
Revirei os olhos, sem dar ouvidos. Ela não é minha nam..., interrompi o pensamento antes que saísse pela minha boca, argh. Deixa pra lá. Me movi em direção à porta, sem intenção alguma de desacelerar, e apanhei a chave na saída. Andei pelo corredor em linha reta, chamei e o elevador chegou. Já no térreo, atravessei a entrada do prédio e desci para a rua. O cinema era a uns dez minutos andando rua acima. Acendi um cigarro e comecei a caminhar. No escuro e agora perigosamente sozinha, todavia, me sentia estranha – com um sentimento conhecido no estômago.
 
Merda.
 
Segui em frente, ignorando a mim mesma. Passei pela banca, por outros prédios e atravessei a primeira rua, então a segunda. Aí passei a Peixoto, o bar da Aloka. Os jovens bêbados circulavam pela calçada da Frei, escandalosos, podia ouvi-los conversar aos gritos. Caminhei os últimos quarteirões olhando os meus tênis contra o cimento, tentando me distrair, e quando já estava quase lá, por um descuido encarei o escuro à minha frente. Então parei. Inferno. Me virei, a cinco metros de um ponto de táxi, tomada por uma curiosidade desgraçada, masoquista que não deveria me permitir. A última coisa que eu queria era provar o Fer certo em toda a sua análise psicológica barata de mim. Olhei no celular e já estava atrasada, droga. Dei dois passos e hesitei ao encostar na porta do carro, querendo voltar para onde indo – porra. O motorista me encarava confuso, do lado de dentro de um Palio com a luz acesa. Entrei.
 
_Sabe onde é a Hot Hot, amigo?
_Sei. Lá na Santo Antônio, não?
_É... – afundei contra o encosto do táxi, já me odiando.

dezembro 28, 2011

Irredutível

_Mas e aí, afinal, o que rolou hoje?
 
O Fer perguntou, curioso, ao meu lado no sofá.
 
_Não, nada – desdenhei – A gente só... se cumprimentou na rua e aí, sei lá... eu disse que tinha ido tatuar lá perto e tal, mas não rolou nada.
_E cê ficou de boa?
_Ah, fiquei... não sei, foi estranho. Num esperava encontrar ela, acho que me pegou meio de surpresa – hesitei, bebendo mais um pouco da cerveja – Fazia tempo que eu não pensava nela...
_Hum, sei...
_E meu, e-ela... – passei a mão no rosto, afundada entre as almofadas – ...t-tava bonita.
_Ihhh... – o Fer começou rir.
 
A Mia subiu novamente os olhos para mim, com dificuldade de esconder o desgosto.
 
_Quê?! Que foi?
_Vai começar já...
_Vai começar o quê, meu?! – me indignei com o deboche do Fernando.
_Você aí... – ele fez graça, acendendo um cigarro – ...já vai se interessar pela menina de novo.
_Vou nada...
_Ah, vai, sim. É a sua cara, mano... É só cê tomar um fora que cê fica obcecada! – tragou, soltando a fumaça em seguida, e a Mia ficou escutando a conversa – Essa Clara mesmo, meu! Quanto tempo cê ficou com ela antes?! E depois já tava lá, toda mal, sofrendo. Puta bad e vocês nem tinham namorado...
_E daí?! Num posso achar ruim?? – resmunguei – Eu gostava dela, porra! Cê nunca sentiu nada assim por ninguém que saiu só umas vezes? Ah, vá Fernando!
_Não. Não é isso, é que você não resiste a um pé na bunda! – riu – Se for trocada por outra, então... NOOOSSA! Aí é que você entra em surto até conseguir a mina de volta... Faça sol, faça chuva, que se dane, cê dá um jeito!
_Cala boca, mano. Nada a ver! – me revoltei – E eu não vou sair com ela, tá, não é nada disso. Tô só te contando o que rolou, porra... Por isso que não te falo mais as coisas, caralho, cê só me enche o saco! Não tem nada a ver, nada a ver... – enfatizei – ...eu tô em outra, meu.
_“Tá bom”... – riu e encostou de volta no sofá, irônico – ...vai ser igual aquela lá, a do colegial. A... a Nana!
_O que tem a ver, cacete?!
_Ela não te deu um fora depois que vocês se pegaram no meio do primeiro ano e cê ficou toda obcecada até conseguir voltar com ela no meio do segundo e aí foi uma grande merda eterna por sei lá quanto tempo?!
_Não foi uma grande merda... – murmurei, contrariada.
_Velho, cê fez até tatuagem pra mina!
 
A dona do infinito.
 
_Ai, como cê é mala, Fernando... – o empurrei – ...e nada a ver, meu. Eu tô saindo com outra mina agora... e ela é ótima, a Clara nã...
_Ah, é! – me interrompeu, rindo – Porque isso sempre te impediu!
_Não, babaca, eu quis dizer que tô saindo pra valer...
_Quem, aquela lá do Vegas? A que cê conhece faz três dias?
_É, a Patti.
 
A Mia virou o rosto e voltou a encarar a TV, cada vez mais desconfortável. Qual é, garota? Sem se dar conta da movimentação, o Fer começou a me tirar de apaixonadinha e eu fiz questão de retribuir os seus comentários com alguns socos de leve. Acabamos nos enrolando numa pancadaria amigável no sofá, aos risos, o que só piorou o humor da sua namoradinha – de cara feia, ali, sentada no chão. Que seja.   

À toa

Demorei pra voltar para o apartamento. Já eram quase 8 quando passei pela porta de entrada, me deparando com o Fer e a Mia na sala. Em meio a uma marofa descomunal. Uma travessa de bolo de chocolate parcialmente comida estava sobre a mesa de centro – o clichê do clichê da larica. Assim que me viu, o Fer me chamou para checar a tatuagem nova. Me acomodei ao seu lado no sofá, roubando um gole da sua cerveja, e puxei a lateral da camiseta para que visse o desenho.
 
Os restos de tinta e um pouco de sangue tiravam um tanto da visibilidade por trás do plástico, então o Fer o esticou com os dedos para ver melhor – tentando não me machucar. Mas minha pele estava tão inchada e dolorida que seus esforços não adiantaram. Era um tigre em traços old school. Mais adiante, sentada no chão, a Mia levantou os olhos discretamente e observou por um segundo. Depois tornou a olhar para frente, para a televisão. Fiquei algum tempo lá, afundada no sofá, comentando sobre a ida ao estúdio com o Fer. Já com a blusa devidamente abaixada e um dos pés sobre a mesinha de centro, segurando a cerveja em mãos.
 
_Come um pedaço aí... – o Fer sugeriu, levantando a travessa de bolo – ...a Mia que fez agora à tarde.
_Não, tô de boa. Acabei de tatuar, nem posso comer chocolate...
_E cerveja pode?!
_Ah, sei lá, né... – ri.
_Nada a ver, mano! Não dá nada! Eu nunca faço essas merdas e todas as minhas tão de boa, meu...
 
Pensando por esse lado, considerei, sem precisar de muito incentivo para quebrar regra. Olhei para a travessa, coberta com uma calda grossa de chocolate, daquelas visivelmente deliciosas, e aí, claro, me estiquei para pegar o que chamei de “tá, vai, só um pedacinho”. O Fer riu.
 
_Pô, ficou gostoso mesmo... – comentei, de boca cheia, surpresa que a Mia tivesse de fato acertado uma receita – Mandou bem, hein!
 
Mas ela não sorriu, nem agradeceu. Apenas me olhou. E num raciocínio não muito complexo, concluí que ainda me ressentia pela noite do Vegas. Fala sério, me enfadei, aposto que nem são tão amigas. Me reacomodei no sofá, preparada para matar o tempo ali mesmo. Não tinha nada para fazer até mais tarde, quando ia pegar a última sessão do cinema com a Patti. Na TV, estava passando um filme qualquer do Stallone.
 
A noite começava a escurecer de fato e a perder aquele calor todo das horas anteriores, tornando-se ligeiramente mais agradável. Ainda assim, o ar entrava abafado pela janela aberta. Quis poder arrancar as calças, que me incomodavam desde que entrei em casa, mas a presença da Mia me inibia. Ela mesma estava sem blusa, com um sutiã preto e shorts jeans, fumando um baseado. O Fer também estava sem camiseta numa bermuda velha.
 
Só eu aqui com esse pano todo, argh.
 
Com preguiça de me mover até o quarto para me trocar, tentei compensar com a cerveja gelada. Mandei uma mensagem para a Patti entre um gole e outro, submersa entre as almofadas, e combinamos de nos encontrar em frente à bilheteria – umas quadras para cima. Depois de acertar os pormenores, larguei o celular e fiquei assistindo o filme. Mas a minha cabeça logo se encheu de outros pensamentos. Irremediavelmente.
 
_Ei... – o Fer me cutucou com as costas da mão – ...que cê tá brisando aí, meu?
_Nada, pensando só... – tomei mais um gole – ...sei lá, rolou uma parada hoje.
_O quê?
_Ah, nada demais, encontrei uma... – suspirei, meio desconfortável – ...u-uma mina aí, não sei se cê lembra dela? A Clara.
 
Assim que o seu nome saiu da minha boca, os olhos da Mia se voltaram a mim. Na mesma hora. Num descuido que ela logo percebeu, abaixando a cabeça rapidamente para acobertar e fingindo não prestar atenção. O Fer riu – me zombando que, sim, como poderia esquecer depois de todo o escândalo que eu fiz, enfatizou, no dia que peguei a Clara com outra no Vegas e saí chutando tudo pela sala. “Essa”, confirmei. E ele desembestou a falar sobre a festa que deu para “curar a minha fossa” – a mesma em que eu me tranquei no banheiro com a Mia, nuns amassos. A primeira vez que nos pegamos pra valer.
 
Mas, é, desse detalhe ele não lembrava sabia.

dezembro 27, 2011

Björk

Me puxou pela mão, entre as pessoas, e sorriu. Os arredores da Calixto estavam no caos de sempre dos sábados. A olhei, surpresa, sem saber direito como reagir, e tirei o cigarro da boca. O segurei para baixo por um momento, com o filtro entre o polegar e o indicador. A Clara me cumprimentou como se o tempo não tivesse passado. Estava com o cabelo preso em um grande coque improvisado sobre a cabeça, numa regata preta sem sutiã. Daquele seu jeito desencanado. E bonita – as pintinhas no rosto e os olhos levemente puxados, com seus ares de boliviana-argentina.
 
_Nossa, o que cê tá fazendo pra esses lados? – ela sorriu com o acaso.
_E-eu tô com umas amigas aí... – fiz um gesto com a cabeça e a mão que segurava o cigarro, apontando a direção em que a Lê e a Thaís foram – ...a gente t-tava...
_Cês vieram pra feirinha?!
 
Ela me interrompeu, interessada. E apoiou suavemente a mão na curva entre o seu ombro e o seu pescoço, num gesto sutil, daqueles que a tornavam realmente sexy, filha-da-mãe. O calor, aquela gente ao redor e a situação toda começaram a me incomodar – mas, por qualquer motivo imbecil, não caí fora na mesma hora.
 
_N-não, eu... e-eu vim tatuar lá no, n-no... sabe, aqui embaixo depois da Schaumann. O que vo... – me atrapalhei um pouco – ...o que v-você tá... – ela me olhava, tentando entender o que eu estava dizendo de forma pouco articulada, aí eu lembrei – ...ah, é! Você... v-você trabalha aqui, não é?!
_Sim – riu.
 
E foi só então que me toquei de que estava a um quarteirão da loja onde ela trampava, onde a viera buscar uma vez. Então tudo me voltou de uma só vez, as memórias da Clara, o que vivemos, o jeito brusco como terminou, de repente, caindo a ficha da situação em que me encontrava naquele instante. Senti um embrulho no estômago.
 
_Faz tempo, não faz? – ela percebeu.
_Faz. Olha, e-eu preciso ir, minhas amigas já tão lá na frente... – disse rapidamente, dando sinais com o corpo de que ia vazar – ...eu, a, a gente... tem que voltar lá pro estúdio, então...
 
O meu desconforto cresceu, merda. A sua presença me bagunçava. Não consegui sorrir, mas por algum motivo tentei ser educada – depois de algum tempo, acho, certas coisas perdem a importância. E os erros dela desapareceram por um momento.
 
_Tá... – a Clara sorriu e encostou uma das mãos no meu braço – ...a gente se fala, espero.
 
Murmurei um “aham”, concordando com a cabeça, e coloquei o cigarro de volta entre os lábios – teria dito qualquer só para sair logo dali. Me virei para descer e a Clara ficou me observando ainda, a menos de um metro na mesma calçada. Não dei bola, ou tentei. Desci a rua até encontrar a Lê e a Thaís, já do outro lado da feira e me apressando, perguntando quem diabos era aquela.
 
_Ah, uma garota aí...
 
Não sabia por que me sentia tão estranha. A Lê insistiu mais um pouco, curiosa, e eu mudei de assunto – preferia não falar a respeito. Voltamos ao estúdio, onde eu ficaria pelas próximas horas, vendo a Lê pagar pelo tanto que me zombou. Sã e salva.

dezembro 26, 2011

Pain lovers

Já tinha esquecido o quanto aquilo puta merda filha-da-puta do caralho doía. Argh. Minha costela ia se rasgando pouco a pouco. E a açougueira da Thaís ainda achava graça no meu sofrimento, me chamando de “dramática” durante o processo todo. Meu cu – aquele era o pior lugar para se tatuar. A pele na costela é fininha e o osso por debaixo aumenta a sensibilidade, atravessando seu corpo inteiro, é o equivalente moderno à tortura medieval. Nenhuma outra minha tinha doído tanto. Juro. Quase desisti quando acabou o contorno, mas a Thaís logo emendou o preenchimento e eu decidi encarar.
 
_PUTA QUE PARIU! – a xinguei – CÊ TÁ PESANDO A MÃO, CARALHO, NÃO É POSSÍVEL!
_Para de reclamar, mano! – a Thaís ria, debochando – Nem dói tudo isso...
_AH, NÃO! IMAGINA, SUAVE!!
_Pois merece, ninguém mandou atrasar... – a Lê me zombou também – ...agora aguenta!
_TOMAR NO CU, LETÍCIA, EU ATRASEI 20 MINUTOS, PORRA!
_Mano, na boa... – reclamou – QUE MERDA cê tava fazendo que cê não consegue chegar às 10:30 NUM SÁBADO?!
_QUE CÊ ACHA QUE EU TAVA FAZENDO?!
 
Resmunguei, tentando engolir a dor.
 
_Tava piranhando por aí, essa desgraça... – a Thaís riu, mergulhando a agulha na tinta antes de continuar – ...tava ou num tava, cachorra?
_TAVA... – travei os dentes, sentindo a maquininha cortar a minha costela – ...TAVA, CARALHO!
_Hummm, com quem?
_A-aquela, aquela mina lá do Vegas... – suei frio – ...PUTA MERDA, MANO!
_E valeu a pena, pelo menos?! – a Lê continuou, ignorando minha dor.
_Foi legal...
_Ih. Num senti firmeza...
_Não é, foi bom. É só que a mina... – respirei fundo, suportando a agonia que tomava o meu torso inteiro – ...a mina, n-não sei. Foi a primeira vez dela com mulher, sabe?
_Sei – a Lê riu – Então cê fez o serviço todo e agora tá subindo pelas paredes? É isso?
_Cala a boca, mano.
_Uai. Achei que já tava acostumada... – a Thaís fez graça – ...depois de todo o rolo lá com a Mia.
_Velho, não. A Mia... – me segurei, sem querer entrar no mérito do quanto a Mia, cacete, me desgraçava a cabeça, de como a gente fodia sem qualquer inibição – ...a, a Mia e-era diferente.
_Vixi. Deu uma saudadezinha? – a Lê provocou.
_Claro que não, mano.
_Ó! – a Thaís alertou – Vou continuar aqui. Para de se mexer!
 
Assim que a agulha recomeçou, senti a dor reverberar pelos meus ossos como se dilacerasse meu peito por dentro. Ô inferno. Mais dez minutos daquela tortura e eu tava prestes a matar a Thaís. Que dor desgraçada, mano. Quando enfim terminou, ela limpou todo o sangue da minha pele e a sujeira de tinta preta e vermelha ao redor. Me levantei para ver no espelho. Do caralho, sorri recompensada, como se tivesse vencido uma maratona.
 
Foda-se a dor – aquilo sempre valia a pena.
 
Me plastifiquei inteira. E agora, era a vez da Lê de sofrer nas mãos da nossa amiga. Como já eram quase duas da tarde, saímos para “almoçar” antes. Tínhamos menos de meia hora, o que mal me dava tempo de passar na Calixto para olhar as câmeras na feirinha. O sol estava de rachar – subimos a Teodoro e pegamos qualquer coisa para comer na esquina, seguindo direto para a feira lotada. Me entretive por algum tempo na barraca de um maluco cheio das polaroids, mas, como toda vez que eu ia na Calixto, percebi que não tinha dinheiro para pagar nem um quinto do que pediam por cada antiguidade ali.
 
Subimos um pouco mais na Teodoro, passando pelas infinitas lojas de novos designers e instrumentos, até a ruazinha da Choque Cultural, onde trabalhava uma amiga da Thaís. Batemos papo por algum tempo, entretidas, e logo já era hora de voltar. Me empenhei em acender um cigarro conforme descemos a rua de novo, no meio daquela gente toda, um tanto distraída – e foi quando dei de cara com a Clara.

dezembro 23, 2011

Mancadas clássicas

_Hum... – murmurei, enfiada no travesseiro – ...que horas são?
 
Tinha apagado. A Patti estava em pé, apoiada na janela com um cigarro na mão. E nua, desinibida, como se aquela madrugada a tivesse libertado de si mesma. Observei uma faixa de sol iluminar a âncora tatuada em sua coxa, me espreguiçando por cima do travesseiro. Repeti então a pergunta e ela sorriu de volta para mim, arqueando as costas para olhar o relógio da parede.
 
_Dez e vinte.
_N-não! TÁ BRINCANDO?! – dei um pulo na mesma hora, alcançando a boxer no chão – ...merda, merda... – a vesti rapidamente e comecei a procurar pelas minhas roupas – ...mil vezes merda!
_O que foi? – a Patti se assustou – Cê tem que ir??
_Eu vou tatuar, tá marcado pras 10 e meia... – coloquei o jeans, sem abotoar, e fui calçando de qualquer jeito os meus All Stars – ...que merda, puta que pariu. Minhas amigas vão me matar!
_Calma, eu te levo! Onde é? É perto?
_Não, não, meu. Fica aí! Não precisa se vestir, sair correndo... – coloquei a minha camiseta amarrotada, fechando as calças em seguida – ...deixa que eu me viro. Vai dar tempo!
 
Ah, mas não vai.
 
Beijei-a rapidamente, num selinho apressado. E corri escada abaixo para pegar o primeiro táxi que aparecesse. Burra. Como eu sou burra, cacete. Na minha cabeça já podia ouvir a Lê me xingando de todos os nomes possíveis. Eu era uma mulher morta. Morta. Droga! Não vai dar. Olhei meu celular, já no banco de trás de um táxi, enquanto passava as direções do caminho, e só então me dei conta da minha grosseria. Inferno. Fechei os olhos, apertando-os em arrependimento, conforme o taxista descia a Arcoverde. Primeira noite da garota com uma mina e eu largo ela lá, correndo, qual é o meu problema?
 
Por um segundo, temi que a Patti pensasse mal de todas as lésbicas do mundo – e pior, ficasse com um pé atrás comigo. É difícil representar sua classe quando se é tão... tão eu. Abri um SMS e digitei às pressas: “Dsclp sair correndo assim... eh q minha amiga vai me matar msm!! Posso compensar mais tarde? <3”. Assim que enviei, olhei para frente pela janela e notei a porra do trânsito em que estávamos presos. Um pouco mais abaixo, a Arcoverde estava completamente parada por causa da feirinha na Calixto. Dez pras onze em pleno sábado, revirei os olhos, me sentindo uma tonta, é óbvio que vai tá tudo parado.
 
_Deixa, amigo... vou a pé daqui! – toquei no ombro do motorista, já tirando o dinheiro da carteira – Quanto deu?
 
Bati a porta do táxi, descendo a rua entre os carros com pressa. Já tinha subido na calçada quando a Patti me respondeu – “relaxa, vms sim! :), ufa. Segui descendo e digitando, atrapalhada, dividindo minha atenção entre a rua esburacada e o visor do celular. Perguntei o que ela queria fazer e, para o infortuno dos meus extintos anos de estudante, ela escolheu ir num cinema de shopping. Ê programinha de hétero, hein? Achei graça, mas não discuti. Aceitaria qualquer coisa que ela falasse.
 
Atravessei a Henrique Schaumann com certa impaciência – o semáforo da avenida não fechava nunca, caralho –, a poucas quadras do estúdio onde a Thaís trabalhava. Tinha em mãos o primeiro cigarro do dia, já pela metade. Sabia que teria que entrar direto assim que chegasse e me preocupava o meu estômago vazio. Andei mais duas quadras e logo avistei a Lê, parada em frente ao estúdio. Estava apoiada contra um poste, de óculos escuros e bermuda, daquelas bem sapatão, porque decidiu de última hora que tatuaria a panturrilha. Fumava impacientemente, com cara de quem ia mesmo me matar. Atravessei a rua e me aproximei, já receosa com a bronca.
 
_Mano, tomar no cu você e essa merda da sua pontualidade, cara! – a Lê tirou os óculos e jogou o cigarro na calçada, me segurando pelo braço como uma criança e arrastando para dentro do estúdio.