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abril 21, 2012

Don't want nobody to follow me...

O silêncio entre nós agora já não era mais constrangedor. Era uma quietude sincera. Tranquila. Todas as nossas palavras – as minhas, pelo menos – foram gastas e não havia muito mais o que dizer. Restou no ar uma compreensão mútua, um respeito carinhoso. Ou talvez fosse apenas exaustão depois de tanta tensão daquelas últimas semanas, não sei. O relógio da cozinha ressoava na parede, conforme eu terminava o copo d’água que a Mia me ofereceu antes de eu ir.
 
Sentada sobre o balcão, minhas pernas se suspendiam na beirada no ar. A 20 centímetros de onde nos beijamos meses antes e os dedos da Mia deslizaram às escondidas no meu jeans enquanto sua mãe a chamava. Não, afastei aquelas memórias bobas, distantes, pra quê entrar nessas, meu? Respirei fundo, de que me adiantavam nostalgias àquela altura? Era tudo, de repente, tão diferente. Tirei as mãos da superfície do balcão, ignorando a sensação saudade repentina. E tomei outro gole do meu copo.
 
_Me diz... – a Mia me observou, deixando escapar um breve riso – Cê tem algum problema com cadeiras?
_Olha... – achei graça – Não sei. Podia até mentir, dizer que é rebeldia, mas acho que eu só gosto de balcões mesmo.
_Balcões, mesas... – listou, desatenta, apoiada contra a geladeira – ...pias.
 
É. Isso, sorri e abaixei a cabeça. Um sentimento estranho me cutucou, desconfortável com a observação, com como deixava escapar o quanto sabíamos uma da outra, dos nossos jeitos. Respirei fundo. A Mia também ficou em silêncio, desviando o olhar de mim. Merda, preciso falar alguma coisa, as minhas mãos dedilharam ansiosamente o vidro do copo, ou isso vai tomar proporções maiores. Deixei o copo sobre o balcão e apoiei as minhas mãos, inquietas, contra a superfície fria – mas não consegui formular uma frase sequer.
 
A Mia se moveu, como se também não soubesse o que fazer consigo, colocando o próprio copo na pia.
 
_Você quer mais? – perguntou agora por mera educação.
_Não, eu... – hesitei – ...acho que já v-vou indo.
 
Eu e ela nos olhamos, mais uma vez. E eu... senti em todo lugar. Preciso sair daqui, logo. Desci da pia num salto e a tranquilidade conquistada minutos antes desapareceu. Só vai, cacete, repeti para mim mesma. Não queria prolongar o desconforto – mas, de repente, era difícil deixar aquele apartamento. Deixar tudo o que fora nosso. Perto do fim, não sei, os pensamentos se tornam apocalípticos. Como se não fosse mais vê-la, como se aquela conversa tornasse tudo tão definitivo e, no segundo em que passasse pela porta, já não seríamos mais as mesmas. Inferno. Engoli seco, tentando afastar a sensação.
 
Caminhamos até a porta e a Mia a abriu, apoiando-se na madeira. Encostei contra o batente oposto e a observei, por um instante, na minha frente. Eu enrolava, nitidamente. Droga – abaixei a cabeça, mais uma vez.
 
_V-você... – murmurei, subitamente confusa, e aí ergui o queixo novamente na sua direção – ...você acabou não me dizendo o, o que queria dizer no outro dia, como v-você vem se sentindo...
_É, sei lá, achei que já não fazia mais sentido... – sorriu meio à toa, falando baixinho, e cruzou os braços em frente ao corpo – ...você sabe, d-depois de tudo o que você disse lá no quarto e o que a gente... combinou.
 
Nossos olhares não se soltavam. Diabo. Vê-la sorrir, ali, me quebrava as pernas de tal forma que, q-que elas realmente pareciam se recusar a sair. É a Mia. A Mia, porra! Toda a minha segurança naquilo, no que eu disse, no que fora até a sua casa só para fazer, do nada, perdia a força. Ali, já na linha final, na porta. O que foi mesmo, hein, que combinamos?, me perdi na sua boca entreaberta, a meio metro de mim. E por um segundo, longo demais, os meus olhos se fixaram nela, hesitantes. Tão óbvios, inferno, que a Mia percebeu.
 
Respirei fundo. E ela me observou de volta, reajeitando o corpo suavemente contra a porta. Como se mostrasse que não ia a lugar nenhum. Tinha as mãos escondidas atrás do corpo, sutilmente, à espera – de um movimento, um gesto meu. Qualquer um bastaria. E eu quis. Toda a nossa história até aquele momento, tudo o que enfrentamos, as dificuldades, as falhas, dela e minhas, tudo o que conversamos naquela tarde sumiu da minha mente. Por um milésimo de segundo, eu quis. Como quis. Estava deixando tudo para trás de forma tão consciente e me odiava por isso, em partes. A Mia me olhava ainda.
 
_É... é-é melhor eu... – hesitei, virando o corpo para o corredor, quase com urgência – ...eu ir.
_É... melhor.
_É. Certo.
 
Dei um passo. E antes que conseguisse dar o segundo, a Mia disse um “se cuida”. Eu odiava aquilo. Por que diabos falar isso, assim? Como quem se preocupa, como quem continua ali, sabe, não como quem realmente diz adeus – me tirava do sério. Argh. Me fazia querer ficar, essa era a verdade. Mas andei até o elevador, me forçando a ignorar as emoções que atropelavam o meu coração. As portas abriram. E um a um, os andares foram passando dentro do elevador. Quando foi que decidi por isso?, um desespero tomava conta de mim, quanto mais descia. Devia ter a beijado mais uma vez, passei a mão no rosto, em agonia. Só uma vez. Ia descontando em mim mesma, em gestos impulsivos. A minha respiração me sufocava, inferno. Era a Mia. A minha Mia, caralho! A garota que eu amei por tanto tempo, a única que já tinha importava na porra da minha vida, na droga do meu coração. Mas que... que merda!
 
Deixei o elevador me sentindo uma idiota. Não queria voltar atrás – com todas as minhas forças, não queria. O que eu tô fazendo?! Inferno. Inferno. Inferno. O sentimento, o mesmo sentimento de quando a Mia era minha, o gosto da sua boca, o jeito como me segurava, como me beijava, me enchiam a cabeça violentamente. Contra a minha vontade. Sem saber quando a veria de novo, como tudo seria dali em diante. Assim que passei pelo portão na entrada do prédio, alcançando um cigarro no maço, me bateu o arrependimento, uma vontade quase estabanada de retirar cada uma das minhas palavras. Não vou conseguir, tirei o cigarro da boca, voltando cinco passos até a guarita, apressada, e pedi que interfonasse de novo, eu precisava subir. 
 
O guarda entrou e... não. Merda!
 
Não. Não podia fazer aquilo. Não era justo com a Mia, comigo, com a porra da Clara. Com o Fernando. Puta que pariu, mas que droga. O meu corpo parecia brigar com o meu coração, fixado na ideia de tê-la de novo. Por um breve momento que fosse. Um beijo. Só um beijo. Caralho, não. Não! Um beijo e eu mudava o rumo da minha vida de novo. De volta para as bordas do namoro dela, para as migalhas da sua vida com o Fer no quarto ao lado. Não. Não dá. Dei um passo para trás. Eles ainda estão juntos e eu...
 
_Ela disse que a senhora pode subir... – o porteiro ressurgiu, me avisando.
_Não... – relutei – ...deixa.

abril 19, 2012

Entre quatro paredes

Paradas ali, em constante contemplação de nós duas, aquelas paredes. Intermitentemente. Os livros, as estantes, os papéis com pequenos desenhos rabiscados sobre a escrivaninha, me observavam agora – como se eu nunca tivesse deixado aquele cômodo. O quarto da Mia continuava o mesmo que meses antes, quando nos tatuamos madrugada afora, os seus braços ao redor de mim, inventando histórias até que ela pegasse no sono, os nossos beijos, cambaleando porta adentro mais bêbadas do que qualquer pessoa que deixou o bar no Itaim naquela noite, meses antes, dormindo juntas pela primeira vez, nos afundando no seu guarda-roupa entreaberto, suas mãos agarradas na madeira, cruzando todas as linhas.
 
É. O quarto era o mesmo, nós não.
 
Assim que passei pela porta, decidida a fazer aquilo direito, me voltaram a contragosto. Os beijos e as horas passadas juntas em segredo, a sua mão entrelaçada à minha no escuro, enquanto todas as suas amigas dormiam nos colchões ao lado e a nossa respiração acelerava, nos denunciando. O que aconteceu no meio do caminho, garota? Eu a olhava, agora, ali, tão diferente. Os cabelos presos para trás, opacos, os seus olhos tristes. E um sentimento de culpa brotou em mim, incômodo. Tudo no seu corpo deixava claro o quanto não me queria ali. Havia algo de desconfortável nela com a minha presença no seu quarto. Deixou de ser natural – e talvez a culpa fosse minha. Ou dela, já não sabia dizer a essa altura.
 
_E então? – me encarou brevemente, num moletom escuro.
 
Soava cansada, a nossa discussão ainda ecoava no fundo da sua voz. Afundou-se contra a parede, sentada no colchão – suas pernas estavam cruzadas sobre o edredom, a quase um metro de mim. E evitava me olhar nos olhos, como quem não quer ouvir o que eu tinha para falar. Como quem espera o pior. Nós merecíamos mais, pensei, a vendo agora tão distante.
 
_E-eu... – respirei fundo – ...eu queria me desculpar, Mia.
_E por o quê... – murmurou, como se eu lhe devesse mais de uma dessas – ...exatamente?
_Pelas coisas que eu te disse, por como eu disse. Não era pra ter sido daquele jeito.
_Eu acho que nós duas nos arrependemos... – cedeu um pouco, mantendo os braços ainda cruzados.
_Olha, eu... e-eu nunca quis te magoar, nem agir assim... acho que e-eu, eu tava machucada também... com raiva, ciúmes, não sei, e-eu...
_Você me odeia.
_Não. N-ão... – lamentei e sentei na cama, num suspiro – ...a verdade é que... pelo contrário, eu, e-eu fui completamente apaixonada por você, por tanto tempo, Mia. E isso sempre foi muito confuso. Ainda é. V-você pode achar que foi tudo culpa minha, que foi sacanagem, mas eu nunca tive no controle, eu não conseguia... evitar, sabe? Eu... e-eu não queria gostar assim de você, não queria te pôr nessa situação, foder minha amizade com o Fer. Mas eu... t-te amava, porra, e... o que eu queria que você entendesse é q-que... quando... – respirei fundo, me forçando a dizer de uma vez todas as palavras que eu ensaiei na minha cabeça a caminho da sua casa – ...quando vocês terminaram, no ano passado, eu queria tentar. Eu queria tanto. Eu achava que a gente podia ficar juntas. E foi tão difícil ser ignorada daquele jeito, mano, você me cortou completamente. Você não deu a mínima. Sabe, e-eu não tinha pretensão de que você gostasse o mesmo tanto de mim de volta, mas... Isso?! Numa semana a gente tava se vendo loucamente e na seguinte, nada. Foi como se eu não existisse. E... nossa, isso me destruiu. Eu não conseguia entender! Eu te disse como me sentia, que te amava, e você...
_E-eu não sabia o que pensar, eu... – ela se chateou, me interrompendo por um instante – ...eu, não sei, e-eu sentia que você tava me afastando, n-na... naquela semana, antes de tudo acontecer. E aí você me aparece daquele jeito...
_De que jeito?
_Como se, s-se tivesse pegado meio mundo! O que diabos você queria que eu pensasse?? E-eu...
_Mia, não aconteceu. Eu te falei que não aconteceu – a cortei.
 
Sem saber se sequer importava mais àquela altura.
 
_Por que você não... – suspirou – ...n-não me disse nada disso, antes? Enquanto a gente tava...
 
Vai, fala, a encarei. “Juntas”, fala. Mas as suas pálpebras se abaixaram, olhando para suas mãos sobre o colchão sem conseguir.
 
_Então, você não sabia? – a questionei – Você realmente não sabia, Mia?
_...
 
Vamos lá. Não posso ter essa conversa sozinha, garota.
 
_Escuta... Cê tem que entender que, q-que eu também estava lutando contra aquilo na época e você, v-você tinha o Fer, porra... E-eu... – engoli seco – ...eu podia perder vocês dois, entende? Mas você não sabe, n-não faz ideia de como eu me odiei depois... – abaixei a cabeça também – ...por, p-por não ter te dito antes. Por ter te levado a, talvez, achar que era só por diversão. Porque não era! Nunca... – a olhei, de novo, sincera – ...foi isso. Eu queria você. Eu te amei antes de fazer qualquer coisa a respeito, muito antes.
 
Os seus olhos se encheram de lágrimas, marejando. 
 
_E agora você não ama mais, é isso? – me encarou, como se a magoasse deliberadamente – É isso que você veio me dizer?
_E-eu... – minha voz entalou no fundo da garganta – ...eu vim dizer q-que... – me atrapalhei – ...que, não sei, q-que a gente não pode continuar assim. Se machucando, metendo os pés pelas mãos, sabe? Olha, a, a real é que não importa como eu me sinto, como você se sente, de todo jeito não acho que o que a gente tava fazendo era bom. Pra ninguém! – tentei argumentar racionalmente, sentindo o meu coração sair pela boca – Mia... e-eu sofri tanto, porra, tanto... para lidar com os meus sentimentos por você, com as nossas idas e vindas, com a minha desonestidade com o Fer, caralho, e quando terminou... acabou comigo. E-eu não conseguia superar, eu fiquei muito mal, e, e eu acho que você não tem ideia da dimensão do buraco que eu cavei, do quanto eu me destruí. Porque você não tava lá pra ver. Mas e-eu preciso te dizer, para você entender p-porque agora eu não c-consigo... não mais... – passei a mão sobre a boca, expirando forçadamente pelo nariz – ...sabe, os olhares, sua mensagem de madrugada, as nossas brigas... eu não consigo, Mia, e-eu não posso voltar por esse caminho. E eu sei que não é fácil para você também, agora eu sei, e... inferno... – franzi as sobrancelhas – ...cê num sabe como me mata te ouvir falar, sabe, como você falou no telefone no outro dia... e-eu... eu nunca quis te magoar assim, porra, e-eu... – o meu coração doeu, silenciosamente – ...eu não quero mais te ver passar por isso. Eu não quero mais passar por isso! V-você, você tá com o Fer, você ainda tá com ele, sabe, e eu, e-eu quero tá com a Clara. Eu quero fazer dar certo, meu.  
_Hum, cê tem um jeito estranho de demonstrar isso... – murmurou, contrariada pelo nosso erro na parede do banheiro três dias antes.
 
Mais alguma coisa, porra?!
 
_Não faz isso, meu... não fala assim, v-voc... – abaixei a cabeça, frustrada, e então tornei a olhá-la – ...você sabe como é difícil pra mim? Te dizer essas coisas, olhar para você aí? Mas eu... e-eu tô tentando ser sincera, caralho, e-eu acho que a gente precisa conversar direito. E eu sei que eu faço as coisas sem pensar, que eu posso ser uma completa idiota às vezes. Mas eu quero fazer as coisas direito dessa vez! Mano, eu tô tentando aqui, sabe, tô mesmo. Eu quero ficar bem com você! Não quero ficar brigando, porra... – o meu peito se esmagava por dentro, vendo-a na minha frente – ...você, você é importante pra caralho pra mim.
 
A Mia deu um meio sorriso, melancólica, quase como se só quisesse me agradar. E os seus olhos fugiam dos meus, como se eu dissesse a coisa errada. Como se não quisesse me perdoar por aquilo – pelo sexo de madrugada, pelo que tivemos meses antes e o que nos machucou –, mas, sim, pelo que veio em seguida, pelas decisões que eu tentava tão responsavelmente tomar agora. A conversa não tomava o rumo antecipado.  
 
_V-você é importante pra mim também... – ela disse, ainda assim – ...e e-eu, eu entendo. Entendo mesmo... – respirou fundo, olhando para o lado por um instante, e só depois voltou o olhar a mim – ...cê tem razão.

abril 13, 2012

Armistice

_Com a Mia?! – a Thaís arqueou as sobrancelhas, irônica – Não. 
_Por quê? – o Gui logo tentou se inteirar – Que rolou com a Mia?
_E-ela... quer dizer, a gente meio que se pegou depois da sua estreia na quinta e, não sei, eu fiz merda, meu... – expliquei – ...acabou mal e, e ela ficou chateada, tentou conversar co...
_Não! – a Thaís interrompeu – Ela não “tentou conversar”, a amiga dela ligou pra te dar esporro. Foi ISSO que aconteceu! Como se cês tivessem na porra da quinta série!!
_Eita. Sério?
_É. Mas... n-não sei, ela... – respirei fundo – ...ela tava mal mesmo no telefone, Tha. Eu nunca vi ela chorar assim. E e-eu, sei lá, eu tava puta da cara, não escutei direito... não sei, e-eu... fui uma babaca. E, e eu gosto dela, apesar de tudo. Porra, fui apaixonada pela mina mó tempo, mano! É foda agora ouvir a Mia fal... – pausei – ...enfim, não sei. Só sei que não quero tratar ela assim. Não me sinto bem.
_Velho, para. Para! – me deu bronca – Nem entra nessas, cara. A Mia precisa assumir a responsa pelas decisões dela, não dá pra querer tudo. Fica aí falando que tá mal? A mina NAMORA seu amigo! Vai se foder! Se ela tá tão na merda assim por você, por que ela continua com ele?! – se revoltou – Porra. É muito fácil assim, né, caralho!
_Tá, mas... – hesitei – ...não sei.
_Cara, larga mão. Essa mina só te faz mal! Cê tem que ficar com quem te faz bem, mano. Com a Clara. Foda-se a Mia!
_É, amiga... – o Gui comentou – ...eu também acho. Mas se cê tá preocupada com como foi a conversa de vocês, por que cê não liga pra Mia? Tenta falar com ela numa boa, sabe, sem barraco. Só para pôr um ponto final. E aí cê pode seguir sua vida com a Clara... – aconselhou – Acho que vocês duas precisam disso, meu.
 
Respirei fundo. E desliguei a água do chuveiro – ainda sem saber como me sentia com tudo aquilo. Fui até a caixa de força e religuei a energia para testarmos a nova resistência. Talvez devesse mesmo falar com a Mia, refleti, mas não sei como. Não tinha muita certeza se não acabaria piorando ainda mais a situação, ao mesmo tempo que não via outra solução para parar com aquelas brigas. Argh. Assim que a água aqueceu, o Guilherme nos agradeceu e rapidamente expulsou da sua quitinete, indo tomar banho para ver o boy dele.
 
O relógio do meu celular já marcava uma da tarde. Aproveitei a vizinhança pra levar a Thaís num restaurante de lámen que eu conhecia ali perto. Assim que pedimos, o meu estômago roncou – a gente não tinha sequer tomado café naquela manhã. A Thaís tagarelava sem parar, qualquer besteira sobre o aquário que tinha em frente à nossa mesa, mas a minha cabeça estava tão cheia que eu mal a ouvia. Aquela era a primeira vez em muito tempo que eu estava num relacionamento que me fazia tão feliz assim. Só agora me dava conta do quanto, de fato, gostava da Clara. E da nossa sintonia, do seu jeito descomplicado. De como me acalmava e inquietava ao mesmo tempo, de como a gente funcionava tão bem juntas.
 
E eu sabia – sabia que se fosse ficar de vez com ela, eu precisava fazer aquilo direito. Então fiz o que nem eu, nem a Mia conseguimos fazer em todo aquele tempo. Peguei o celular e saí para a rua, acendendo um cigarro, enquanto discava para ela. Os toques se estenderam, consecutivos, ressoando no meu ouvido – atenta a cada um deles. Atende, vai. Por um instante, achei mesmo que não o fosse fazer. Mas então ouvi a sua voz surgir do outro lado da linha.
 
_Por que você tá me ligando, meu?
 
Ela suspirou e pude senti-la amargurada comigo, exausta.
 
_A gente precisa conversar... – respondi e a Mia se manteve quieta, do outro lado – ...direito. Posso passar aí hoje, depois do almoço? Eu não quero mais brigar, Mia.

abril 11, 2012

Os placebos

Graças a deus, nunca tive cara de heterossexual nessa vida. Cresci com os moleques da rua cantando “Maria-sapatão” para mim antes mesmo de eu saber o que era uma lésbica. E desde os meus onze ou doze, quando minha mãe deixou de ter qualquer controle sobre o que eu vestia, já andava por aí como a pequena caminhãozinha do bairro. As únicas pessoas que me olhavam e achavam que algum dia eu ia me casar com um “bom moço”, em absoluta negação, eram as vovós crentes que cruzavam comigo na padaria lá pelos meus dezesseis, alheias à minha bermuda grunge até o joelho e o boné pra trás. Sempre colecionei olhares por todo lugar que eu ia, já estava acostumada – aprendi a ter orgulho e a amar quem eu era, a gostar da subversão.
 
Mas, olha, não tava preparada para a experiência social de pegar o ônibus com a Thaís, naquela manhã de domingo. Eu e ela, juntas, segurando uma porra duma caixa de ferramentas ainda por cima, atingíamos outros níveis de caminhoneirice em público. Era o dobro de olhares. Uma mulher duns 40 anos ficou nos encarando tanto, mas tanto, sentada nuns assentos mais adiante, que comecei a provocar a Thaís – “ela tá te querendo, ó”, a empurrei com o corpo. “Cala a boca”. “Velho, ela não para de olhar pra cá”, eu ria e murmurava, “ou me quer, ou quer você”.
 
A gente se divertia, a observando de volta. E como ela não desviava o rosto, claro, começamos a fazer de propósito – enrolando as mangas da camiseta para mostrar as tatuagens, flexionando os braços para nos espreguiçar, exibindo os nossos pelos e sorrindo. Quando chegou o nosso ponto, entre a Sé e a Liberdade, passamos bem ao lado da dita cuja e eu ainda dei uma piscadinha na sua direção, fazendo graça.
 
Descemos aos risos. E subimos a rua até o prédio do Guilherme, que ficava numa travessa da Conselheiro Furtado. Assim que chegamos no apartamento, nos deparamos com um chuveiro velho já quase caindo aos pedaços, todo empoeirado.
 
_Ah, mano. Puta merda, Gui! – reclamei – Cê não podia ter dado uma limpadinha, pelo menos?
_Eu não, vai que tomo choque! Nunca nem mexi nesse treco!
_Nota-se... – a Thaís riu.
 
Abrimos o chuveiro e eu desci para comprar a resistência numa loja dessas multicoisas, a três quarteirões dali, enquanto a Thaís instalava a prateleira do lado da cama do meu amigo. Chequei meu celular de novo, quando já estava voltando, e sem sinal da Clara. Que merda. Entrei no apartamento. A Thaís tagarelava no banheiro, sentada sobre o tampo da privada na sua bermuda de moletom, argumentando pro Gui sobre como a revolução tinha que ser autossuficiente. 
 
_A gente, as sapa e os viado, temos que saber fazer tudo sozinhos, cara... – defendeu, acendendo um cigarro – ...não dá para depender dos outros.
 
Eu sorri e roubei o cigarro dela, subindo na escada para colocar a nova resistência.
 
_Falando nisso... – murmurei, com o filtro na boca – ...como tá a mecânica lá?
_Velho, fiquei até quatro da manhã ontem trocando ideia com ela... – a Thaís passou a mão no rosto – ...se essa mina num tiver afim, mano, na boa. Não sei nem o que pensar!
_Ela tá afim, sim, meu! Vai rolar!
_Espera – o Gui se meteu – Cê tá na dúvida se uma mina que ficou falando com você A MADRUGADA TODA quer te pegar ou não?!
_Ah, mano, eu acho que ela quer... – hesitou – ...mas é que a gente só fica falando de tatuagem, porra!
_Velho, a mina trabalha quase dez quarteirões do estúdio e entra TODO DIA lá pra trocar ideia com você, Thaís! – argumentei, já fechando o chuveiro – Ela quer te pegar, sim.
_E se ela já deu o telefone dela, gata... – o Gui piscou – ...é porque quer dar uns beijos.
_Num foi exatamente ela que deu, fui eu que pedi, né?
_Eu não sei por que cê tá tão insegura, velho... – desci da escada e devolvi o cigarro – ...a mina obviamente te quer!
_Ah, sei lá. É só que... – deu um trago, insegura – ...eu tô realmente afim, mano. Não sei por quê! Fazia tempo que num me interessava assim por alguém, meu. E aí, sei lá, eu fico meio trouxa...
_Thaís, meu, vai dar certo. Nem esquenta!
 
Sorri para ela e abri o chuveiro, deixando a água correr. O Gui insistiu, interessado na fofoca, perguntando como foi que a tal garota tinha começado a ir ao estúdio para ver a Thaís – naquele chove-num-molha delas que já durava quase um mês. E nesse meio tempo, a minha cabeça se distraiu. Vagando sem rumo, os meus pensamentos voltaram para a Clara, para a lembrança do beijo na porta do seu apartamento, numa vontade de ver ela e de saber se a gente estava bem. Me diz que não te assustei, garota. E então, num erro recorrente demais, pensei também na Mia. Nas coisas que tentara me dizer e em como a briga saíra de controle na sexta, nas suas lágrimas do outro lado da linha. E em como eu não queria que fosse assim entre nós, inferno. Por uns segundos fiquei ali, pensativa, segurando a chave de fenda no ar, enquanto encarava a água caindo.
 
_Ei! – a Thaís estalou os dedos, me despertando – Tudo certo aí?!
 
Balancei a cabeça, confusa, como se realmente acordasse. E ela riu.
 
_Tá... – murmurei, mas aí olhei para meus amigos, me sentindo estranha – ...v-vocês, meu, cês acham que eu fui muito babaca com a Mia?

abril 10, 2012

S.O.S. Sapatão

Dois dias depois, comecei a me perguntar se tinha feito merda.
 
A Clara não me respondia desde a minha ida-surpresa ao seu apartamento, o que agora me fazia cogitar se a minha declaração desajeitada a tinha assustado. Inferno, olhei para a tela do celular pela sexta ou sétima vez naquela manhã de domingo, sem qualquer resposta. Por que diabos eu fui até lá?, me frustrei, largando o celular ao meu lado.
 
Estava deitada no sofá da Thaís, onde passei a noite depois de alguns baseados e um filme terrível que assistimos na TV. Talvez ela só precise de um pouco de espaço, pensei, enquanto minha cara era lambida pelo Bruce. Nosso relacionamento era diferente de todos os que eu já tinha tido, sabia que a Clara gostava de certas liberdades tanto quanto eu. E eu amava aquele seu jeito desencanado, de quem sequer gosta de dar nome aos bois, zombando dos apaixonamentos alheios, enquanto a gente mesma não conseguia se largar. Nuns afetos que eram ao mesmo tempo livres e absolutamente compulsivos.
 
A gente se entendia. E isso, claro, tornava ainda mais difícil não receber qualquer notícia sua depois que eu fui até a casa dela só para dizer que “gostava mesmo” dela. Digo – isso e o peso na consciência que eu estava sentindo pela discussão com a Mia. Pelo que aconteceu no banheiro do apartamento. Argh. Quando meu celular finalmente apitou, para a minha decepção, era apenas o Gui. “C ta em casa?? preciso duma caminhao, urgente!”, dizia o SMS dele. Li e achei graça, já digitando de volta – “to umas quadras pra cima, fala ai”. Então veio a explicação: “queimou meu chuveiro kkkk”.
 
Fala sério.
 
“Ta me zoando q vc ñ sabe trocar resistencia, guilherme??”, comecei a rir. “q?? ñ me julgaaa! pfvrzin, vou ver o bofe.. preciso tomar banho!!”. “e ele ñ pode fazer pra vc? ja testa o chuveiro com ele dps... ;)”. “ñ confio em macho fazendo isso, QRO MINHA SAPATAO!!”. “rs daqui a pouco to ai!”. “c tem furadeira? Podia ja me ajudar a por a estante tb, neh?”. “ñ, mas to na casa da thais...”, digitei, enquanto levantava do sofá, “vou ver se ela tem”. Caminhei até o quarto da minha amiga, que dormia só de cueca preta e regata num colchão no chão, e bati na porta aberta.
 
_Bora levantar... – falei alto, a acordando – ...temos que resgatar um viado lá no Centro!

março 25, 2012

Nove-décimos

Escorreguei o tênis de leve para a esquerda, alinhando a borda do meu All Star à sombra do assento que eu ocupava. O metrô corria silencioso. A próxima parada seria a primeira de duas curtas estações que separavam a produtora das redondezas do meu apartamento. Num vagão, eu e mais umas doze pessoas dividíamos os bancos disponíveis. 21:03. Passei a mão no rosto e apoiei novamente no encosto, estou saindo tarde demais do trampo, todo dia.
 
Fazia horas que tentava apagar a conversa com a Mia da minha cabeça. Em vão. As portas se abriram e os passageiros do Trianon-MASP entraram. Apoiei os antebraços brevemente sobre as coxas, curvada para a frente, e em seguida tornei a encostar contra o banco. Estava inquieta. Inferno. Soltei o ar e olhei para frente – uma garota estava sentada fileiras adiante, numa das cadeiras. Tinha os olhos castanhos e uma das laterais da cabeça raspada, alargadores grandes pretos, como muitas que andavam na Augusta de sexta à noite. A observei por algum tempo, sem qualquer intenção, e então abaixei a cabeça. Para de pensar na Mia, porra. Tornei a olhar para as sombras no chão, ajeitando os meus tênis paralelamente.
 
“Próxima estação, Consolação”, o autofalante anunciou. As pessoas começaram a se aglomerar nas portas, mudando a distribuição do vagão. A garota também se levantou. Poucos instantes depois, do lado de fora e bem-iluminada, surgiu a plataforma que eu frequentava diariamente. Os novos passageiros esperavam em pé atrás da linha amarela. Parada brusca, portas abertas. O movimento intenso durou por alguns segundos. E logo as portas se fecharam novamente.
 
Por algum motivo, eu não desci.
 
Restavam menos pessoas no vagão agora. Desde que a Mia e eu resolvemos falar sinceridades uma para a outra, naquelas últimas semanas todas, nossas dores pareciam acumuladas de tal forma dentro de nós que cada conversa era uma catarse. E uma catástrofe. Ainda tinha, dava-me conta, um décimo incontestável dela preso no meu peito. Me sentia estranha, não sei. Saltei na estação Sumaré, como se aquele fosse meu destino o tempo todo. Do lado de fora, o céu ameaçava com nuvens de chuva. Desci a rua, sem saber bem o porquê, me dirigindo até o prédio da Clara. Mal toquei o interfone e ela atendeu, me deixando subir. Abriu a porta com os cabelos soltos sobre os ombros, estava realmente bonita.
 
_O q-que cê tá fazendo aqui?
 
Me perguntou, levemente desconfiada.
 
_Não sei. E-eu... – esfreguei as mãos no rosto, só então percebendo a tamanha idiotice em aparecer ali sem avisar – ...n-não sei mesmo, desculpa.
_Tá tudo bem. Eu ia jantar com uma amiga – riu – Cê quer entrar?
_Não, meu, eu... já vou.
 
Isso, me detestei, parada em frente à sua porta, agora que a Clara vai pensar que eu sou louca mesmo. Me arrependi. De ter ido, de não ficar. Mas, espera... que amiga?! A encarei e ela me olhou de volta, sem entender meu comportamento. A minha atitude. Sou uma desregulada mesmo, pensei, ali, brotando no seu apartamento e ainda com ciúmes de uma amiga cuja existência eu sequer tinha conhecimento até dois segundos antes. O que eu tô fazendo, cacete?! Fiz que ia embora, mas no segundo seguinte mudei de ideia. E voltei, a pressionando contra o batente. Num beijo demorado.
 
Assim que nossas bocas se separaram, a Clara sorriu.
 
_Ei – me disse, baixinho – Tá tudo bem?
 
E eu senti uma melancolia tomar conta de mim.
 
_E-eu... – suspirei – ...não sei.
_Bo?
_Sabe, eu... e-eu gosto mesmo de você... – confessei e ela me olhou um tanto contente, um tanto confusa com a declaração inesperada – ...gosto pra caralho, Bi, e eu, s-sei lá, eu não sou muito boa nisso. Mas... achei que cê devia saber.

março 22, 2012

O que me importa

...o seu carinho agora,
se é muito tarde para amar você
(Marisa Monte)
 
_Eu... e-eu não quis, merda! – a Mia se arrependeu, do outro lado da linha – Escuta, eu, e-eu acho que a gente tem que... se encontrar... conversar, não sei...
_Mano, eu não tenho mais nada pra falar com você.
_Não faz isso! – implorou – Eu não quis dizer nada disso! Não era pra, não era pra nada disso ter nem acontecido. Essa conversa, que... q-que saco! Eu... o-olha, eu... eu queria tanto, tanto só... só conversar direito com você. Eu tô me sentindo... – interrompeu, ofegante e confusa – ...não sei, eu...
_Não, não. É exatamente isso. É exatamente como você disse... sempre foi isso na, na porra da sua cabeça, não foi?! – a minha respiração se atropelava nas palavras e o meu coração apertava ainda mais – O problema sou eu, sempre fui eu. A culpa dessa merda toda é... MINHA! – ri de nervoso – Eu é que sou louca, não é, Mia??! E que fui enxergar o que não tava lá! Eu!! Eu que coloquei ideia na sua cabeça, que te corrompi, que te fiz fazer tudo aquilo e você, v-você não teve nada a ver com isso... NADA, não é?! – o jornaleiro da banca em frente me olhava como se eu fosse uma descontrolada, gritando ao telefone – Fui eu! Que decidi me apaixonar por você e que me coloquei nessa merda de situação. A culpa é minha!! – senti as lágrimas engasgarem na minha garganta, mas as engoli, com raiva – Cara, se... se é isso que você... v-você pensa que... aconteceu... entre a gente, na boa, Mia... vai se foder! VAI SE FODER!!
_Não é isso! Não! – se desesperou – Não é nada disso!! Eu...
_Olha, garota, o que você tá sentindo por mim agora... – a interrompi – ...não é amor... – me convenci, conforme falava aquelas palavras – ...é rejeição. Só isso.
_Não, não é!! Por favor, me escuta... não é isso!! Hoje, eu... e-eu fui lá na... – ela continuou – ...na Mi, porque eu... eu não aguentava mais, eu, e-eu não consigo parar de pensar em você... na gente... te vendo com a Clara, e-eu, não sei, eu só... e-eu só não queria que fosse assim, não qu... – sua voz se misturava com o choro – ...ontem, eu...
_Eu não quero saber, Mia. E não mete a Clara nisso! – ameacei – Porque eu e você não estamos juntas, eu não te devo porra nenhuma. Eu nunca devia ter te tocado, não devia ter nem olhado na sua direção! Ontem menos ainda!! – atravessei a rua de volta, acabando com aquilo – Fica longe de mim. Você e as suas amigas!
_Não! Não era pra... e-eu...
 
E antes que ela pudesse terminar, desliguei o telefone. Numa estupidez incorrigível. Meu coração se afobava, tentando desesperadamente se proteger, se fechando no meu peito. Porque doía, puta merda, como me doía, escutar as suas palavras e percebê-la assim, tão destruída. E eu sabia, sabia o quanto acreditava – nos seus sentimentos e nas coisas que me dizia, agora tão mais claras e mais sinceras. Sabia que havia parte de mim nela e, principalmente, parte dela em mim. Caralho, como eu sabia. Mas sentia, ao mesmo tempo, o meu peito prestes a explodir, numa frustração deslocada. Ouvindo-a falar como se fosse uma vítima do que fomos, e do que nunca conseguimos ser, depois de tudo que vivemos, cacete, como se fora eu quem procurara aquele sofrimento para mim mesma e como se ela pudesse voltar assim, quando bem entendesse, depois do que fez, como se não tivesse me machucado, me rejeitado, sem mudar porra nenhuma na sua vida e esperando que eu fosse parar a minha, arrogante, nem a pau. Tirei o volume das chamadas e entrei de novo na produtora, metendo o celular – e todos os meus problemas – no bolso. Que se foda.

Petulância de uns

_Olha, eu não sei como cê conseguiu o meu número, garota... – respirei fundo, tentando me conter – ...mas cê não tem a menor ideia do qu...
_Tenho! TENHO, SIM! – me interrompeu – SEI MUITO BEM A PALHAÇADA QUE VOCÊ FEZ ONTEM!! A Mia passou a tarde inteira chorando aqui em casa POR SUA CULPA!! Cê tem noção do que tá fazendo ela passar?!
_ O que EU tô fazendo ela passar?!? – tirei o cigarro da boca, já irritada – Cê tá muito louca, mano!
 
A audácia, não conseguia acreditar no que ouvia.
 
_Não vou discutir, não liguei pra isso. Só quero você LONGE da minha amiga! Cê tá entendendo?!?
_Desculpa aí, mas cê acha que pode me ligar pra falar um monte de bosta?! – me revoltei – EU É QUE QUERO A MIA LONGE DE MIM, PORRA!! Tá maluca?!? E outra, a Mia já é grandinha e pode falar por ela mesma!! Se ela tem um problema, ela que fale, você não tem que se meter. Cê não tem A MÍNIMA NOÇÃO do que tá rolando entre a gente!!
_Eu sei O QUE EU VEJO! – pistolou do outro lado – É-é minha amiga chegando todo dia mal na faculdade, é isso que eu vejo, sofrendo e falando sobre você e você e você... E VOCÊ AINDA VAI E FAZ O QUE FEZ ONTEM!! Você... – pausou e eu senti o ódio no seu silêncio – ...meu, v-você...
_Olha aqui, eu...
_Você tá DESTRUINDO ELA! – me cortou – É ISSO QUE CÊ TÁ FAZENDO!!
_Eu não preciso ouvir essa merda.
 
Perdi a paciência. E desliguei – aquilo tinha ultrapassado todos os limites. Meti o celular no bolso, andando de um lado para o outro na calçada em frente à produtora, fumando o resto do cigarro a muito custo. Aquilo me tirou do sério. Quem a Mia pensa que é?! Eu tô vivendo a porra da minha vida, tô com a Clara, caralho. A garota fica me procurando e eu ainda tenho que ouvir sermão da amiga? Vai se foder!
 
Argh. Tudo. Tudo o que eu já tinha feito com a Mia passou em flashes pela minha cabeça. Como essa idiota sequer sabe qualquer merda sobre nós duas?!, podia sentir a minha respiração acelerar. Com o coração na boca e uma vontade cretina de ligar para a Mia, de despejar no seu ouvido. Mas não, refleti, não vou me afundar nessa merda de novo. Joguei o cigarro fora na sarjeta da Brigadeiro e andei cinco, seis passos de volta até a porta da produtora, decidida a... que se dane.
 
Dei a volta e digitei o número da Mia, atravessando a rua.
 
_Oi... – ela atendeu, hesitante.
_Então, é assim, né... – já fui logo acusando – ...agora cê põe suas amigas PRA ME LIGAR E FALAR BOSTA?! SÉRIO MESMO, MIA?? Cê vai querer jogar ESSE jogo comigo?!
_Eu nã... – pareceu pega de surpresa, se atrapalhando para responder – ...e-eu pedi pra, p-pra Mi não te ligar. E-eu... – a voz rouca a denunciava, como se tivesse, de fato, chorado a tarde toda – ...m-me, me desculpa.
_Como diabos essa mina tem meu telefone, Mia, porra?!?
_Eu nã... eu não... – respirou fundo, soando cansada – ...por favor, v-você precisa fazer isso?
_EU?! E O QUE EU FIZ?! HEIN?? O que é que eu tô fazendo? – me irritei, gesticulando no meio da calçada – Eu tava aqui de boa trabalhando, porra! E aí vem você com essa droga pra cima de mim?! Q-que MERDA você foi falar com essa garota, Mia? Inferno! Por que cê não aproveita e conta pra sua amiguinha que É VOCÊ que fica me procurando?? Hein?! Na frente da porra da Clara, do Fer?!?! – fui descontando nela, indignada – Não sou obrigada, cara!! A ficar ouvindo que cê tá mal, como se fosse eu a errada nessa merda, escutando bosta de uma idiota que não sabe PORRA NENHUMA!!!
_E VOCÊ QUERIA QUE EU FIZESSE O QUÊ?! – a Mia surtou de volta, machucada – EU... E-EU NÃO SABIA MAIS O QUE FAZER! COM QUEM FALAR!! – a sua voz desafinou, perdendo o controle – COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?!?!
_NÃO SEI! NÃO SEI, CARALHO! – briguei de volta – É O GRANDE MISTÉRIO DA PORRA DA HUMANIDADE! PORQUE NÃO FAZ O MENOR SENTIDO, INFERNO!!!
_EU ME SINTO UM LIXO! É ASSIM QUE EU ME SINTO!! – as suas lágrimas voltaram, do outro lado da linha – É ISSO QUE VOCÊ QUER OUVIR?? Eu me sinto um, u-um NADA pra você! E confusa e sozinha e, e presa nesta merda que eu não sei mais nem como começou e... e... e quando eu tento te falar... v-você vai lá... e faz o... o q-que quer comigo, sabe... – suspirou – ...e-eu t...
_MANO, E COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO?! – retruquei, a interrompendo – HEIN?!? JÁ PAROU PRA PENSAR NISSO ALGUMA VEZ, CARALHO?? – o rancor nos cegando – VOCÊ PENSA EM MIM?? EM COMO VAI FODER MINHA CABEÇA TODA VEZ QUE VEM ME PROCURAR?? TODA VEZ QUE DÁ PITIZINHO DE CIÚMES?? PRA DEPOIS IR LÁ PEGAR OUTRA MINA NA MINHA CARA E AÍ VIR ME QUERER, INFERNO, VOCÊ ACHA QUE EU TENHO QUE FICAR AGUENTANDO TUDO??!? VAI À MERDA!!
_Não... n-não precisa ser assim... – retomou o tom baixo, como se engolisse os ânimos, arrependida – ...a gente nã... não precisa... merda! Não precisamos brigar, por favor...
_PRECISAMOS, SIM. PRECISAMOS, MIA! – continuei – E vamos continuar brigando porque você, você parece que NÃO ENTENDE, CARA!! NÃO ENTENDE O QUE EU PASSEI POR VOCÊ!!! O TANTO QUE SOFRI, POR MESES, pra no segundo em que eu fico bem, que eu tô feliz com outra pessoa, você vir E ME ENFIAR DE NOVO NESSA MERDA?? Como você tem... – perdi o controle – CORAGEM de falar isso de mim?! Que EU tô te magoando?? Foi VOCÊ que escolheu ficar com o Fernando, caralho! E agora tem a cara de pau de dizer que tá sofrendo, de ir chorar pra porra da sua amiga... EU SÓ ME FODI!! Eu só quebrei a cara por sua causa!!
_E ISSO TE DÁ DIREITO DE FAZER O QUE QUISER COMIGO?! DE FAZER IGUAL?? – se revoltou, subindo o tom de novo – É ASSIM?! Só porque você se machucou, só porque eu te magoei, você pode ir lá e me, m-me comer na porra do banheiro só pra depois me largar e... E IR DORMIR COM A DROGA DA CLARA?! – chorava, desesperada – PORRA, VOCÊ NEM OLHOU NA MINHA CARA! SAIU ANDANDO E FOI LÁ COMER ELA, INFERNO!! EU TAVA ALI DO LADO!! DO LADO!! VOCÊ ACHA QUE NÃO OUVI VOCÊS?? V-você... meu... como você PÔDE fazer isso??
_AH, TÁ! Por que você nunca fez, né?! Você nunca foi até o meu quarto e depois voltou correndo pros braços do Fer, não é?? – retruquei, gesticulando que nem uma louca no meio da rua – TODO ESSE TEMPO!! TODAS AQUELAS VEZES, PORRA! Que eu tive que sentar lá e engolir, assistir você com ele, todo santo dia, ouvir vocês rindo e trepando e brigando e conversando no quarto ao lado e o caralho a quatro, sem poder falar nada... NADA!! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SENTIA?!?! – gritei, indignada com a sua hipocrisia – Ah, fala sério, Mia, não me vem com essa agora... ISSO você não pode falar!!
_MANO! EU NAMORO O FÊ!! EU SEMPRE NAMOREI, CARALHO! – se ofendeu – Cê faz soar como se EU tivesse procurado tudo isso, como se EU tivesse feito alguma dessas coisas de propósito, ido lá te procurar pra começo de conversa... FOI VOCÊ, PORRA!! VOCÊ FEZ ISSO COM VOCÊ MESMA!!
 
Meu peito apertou. É sério mesmo?!
 
_Ah, Mia... na boa, vai à merda!

março 20, 2012

OST 4 ♥

Saiu a quarta trilha sonora do blog! Clique nas músicas abaixo para ver onde elas aparecem na história ou clique aqui para ouvir a trilha completa no Spotify.
 

15. Anberlin - "Inevitable"
16. La Roux - "Bulletproof"
17. Nine Inch Nails - "Closer"
18. Violent Femmes - "Breakin’ Hearts"
 
*Obrigada especial para Marcella de Oliveira pela arte maravilhosa da capa!

março 16, 2012

(a way of) breakin' hearts

À luz do dia, tudo parecia um pouco menos complicado. A sobriedade ajudava. Acordamos – a Clara e eu – e amassei o rosto na sua pele morna, com as pernas entrelaçadas nas suas, numa preguiça boa, sem qualquer vontade de me levantar da cama. O despertador ainda ecoava no quarto e eu o ignorava. Repetidamente. Achando graça, a Clara se levantou e o desligou, caminhando até o meu armário em seguida. Começou a se trocar para ir trabalhar e eu restei, apagada entre os lençóis.
 
Não vi ela sair. Acordei não-sei-quanto-tempo depois com uma mão no meu braço, me chacoalhando. Ainda estava afundada no colchão, de bruços. Movi os olhos para cima, abrindo-os com certa relutância, e vi o Fernando. O que cê tá fazendo aqui?, estranhei.
 
_Escuta... – ele disse, apressado – ...preciso que cê deposite o aluguel hoje, tá?
 
E você me acordou pra isso?! Post-it pra quê, né?
 
_Aham... – murmurei, sonolenta.
_Tá?! – insistiu – Deixei minha parte em cima da mesa da cozinha, vê lá.
_Tá, tá... – virei o rosto.
 
Não enche.
 
Voltei a dormir, de ressaca e sem ter pregado o olho direito a noite inteira, exausta. E foi assim que, claro, perdi a hora para ir trabalhar. Merda. Levantei no susto, correndo, merda, merda, quarenta minutos depois. Puta que pariu, não acredito nisso. Vesti a primeira roupa que achei limpa no armário e passei na cozinha para pegar a porra do dinheiro do aluguel, metendo-o no bolso da jaqueta. O meu cabelo estava todo amassado, a raiz por fazer. Pulei desajeitadamente até o elevador, descalça, e fui vestindo o tênis enquanto descia até o térreo. A minha chefe vai me matar, inferno.
 
Não tinha atrasado assim desde que começara na produtora. Argh. Quase uma hora depois do meu horário normal, dei as caras e tive que inventar uma desculpa esfarrapada. Ralei do começo ao fim daquela sexta-feira. Sequer saí para almoçar para compensar. E lá pelas 16h, o meu celular tocou. Peguei o meu maço e saí na rua para atender, aproveitando a brecha, já que não tinha feito nem metade das minhas pausas usuais para fumar.
 
_VOCÊ FEZ O QUÊ?!?!?
 
Era a Marina, indignada, certamente depois de ler o meu último SMS.
 
_Calma, calma... – coloquei um cigarro na boca, segurando o telefone contra o ombro.
_CÊ PERDEU QUALQUER NOÇÃO DE LIMITE?! MEU DEUS! – gritou comigo – COMO VOCÊ TRANSA COM A MIA ENQUANTO O FER E A CLARA TÃO NO APARTAMENTO?!? ALIÁS, QUE MERDA DEU NA SUA CABEÇA PARA IR LÁ COMER ESSA MINA DE NOVO???? QUAL É O SEU PROBLEMA??
_Eu sei, eu sei... calma! – ri da sua reação, fazendo o isqueiro pegar – E meu, também não é como se eu tivesse planejado, né, só... sei lá, aconteceu, porra!
_“Aconteceu”?? “ACONTECEU”??? – aumentou novamente o tom de voz e eu me diverti com o escândalo que minha ex fazia – Sabe, imprevistos “acontecem”, chuva em Ubatuba “acontece”, perder o ônibus “acontece”, MAS NÃO SE ENTRA NAS CALÇAS DE NINGUÉM POR ACIDENTE!!
 
Continuei rindo, entre uma tragada e outra.
 
_Na boa... eu não sei nem o que dizer!! – a Marina continuou – Olha as cagadas que você faz, meu. É inacreditável!! Como cê me dá uma dessas???
_Má, escuta... Dessa vez, não me arrependo! – podia sentir os seus olhos revirando do outro lado da linha – É sério. Eu sei que vai soar estranho, mas... a-agora eu sei, manja? Sei que não quero ficar com ela. Não mesmo.
_Ah é, porque ISSO nitidamente prova que cê já superou a Mia...
_Não! Eu sei... – ri – ...eu sei que tenho umas paradas pra resolver dentro de mim. Não tô negando isso. Só que agora, sei lá, eu... e-eu acordei tão bem com a Clá, sabe? E com a Mia, não sei, é tudo tão pesado, sempre. Me faz tão mal. E eu não quero isso, mano.
_AH, PRONTO! Quem te ouve falar assim nem parece que eu já não... – senti o telefone vibrar – ...te falei um milhão de vezes que a...
 
Baixei o celular, olhando rapidamente o visor, com o cigarro entre os dedos.
 
_Linda, desculpa, tenho outra ligação. Já te ligo!
 
A Marina suspirou, interrompida. E eu desliguei, apertando o botão para receber a segunda chamada.
 
_Alô? – coloquei o cigarro de volta na boca.
_Oi. Preciso falar com você.
 
Aquela voz era estranhamente familiar.
 
_Quem tá falando?
_É a Michelle... – quem?, minha cabeça repassou todas as Michelles que eu conhecia – ...amiga da Mia. A gente se conheceu na casa dela, no ano passado.
_Ah, sei.
 
Como diabos essa garota tem meu telefone?
 
_Presta atenção – endureceu a voz – Não sei o que cê acha que tá fazendo, mas você precisa parar com essa merda agora. Cê tá acabando com ela!