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março 08, 2013

O caso do acaso

Algo de nostálgico transpirava por aquelas prateleiras empoeiradas de madeira – conforme os meus dedos deslizavam, indecisos, pela capa do Benedetti. Um gosto secreto, meio de amor. E eis um sentimento perigoso para se deixar corpo adentro, para se permitir que te invada a mente assim. Mas lá estava – a vontade irracional de pagar por aquelas linhas, de levá-las comigo. Para a garota que me confundia o coração.
 
Estar na Argentina, de certa forma, também me confundia. Não posso seriamente estar pensando na Mia, olhei para o livro, agora com desgosto. Não. Os arredores se esforçavam em subtrair das letras o cheiro dela, sumindo sorrateiros com os seus olhos castanhos da minha mente. Eu tô aqui, não lá. Não preciso disso, porra – repetia na minha cabeça como um mantra, me convencendo. Tenho que aprender a deixar toda essa confusão pra trás.
 
Respirei fundo. E espiei mais uma vez sobre a prateleira, a Clara caminhava lentamente de volta, distraída pelos títulos da pequena livraria de sapatonas. – encarei o livro do escritor uruguaio em minhas mãos, decidida a deixá-lo na mesma cesta onde o tinha encontrado. E o fiz. Não vou foder minha cabeça, me convenci, indo em direção à Clara, esse fim de semana é nosso, porra.
 
_Olha o que eu achei! – ela segurou um Quino na minha frente, toda feliz.
 
A capa amarelada indicava ser antigo, eu sorri.
 
_Perfeito.
_E você, viu alguma coisa?
_Não.
 
Meio que sim, argh. Caminhar até o caixa da livraria foi uma tarefa exaustiva, um tanto difícil de realizar sem dar bandeira. Agora nunca mais vou encontrar a merda do poema, me angustiei. Parte de mim ainda queria levá-lo. E com certo nervosismo, eu dedilhava a mão direita sobre o balcão. Ruidosamente. Devia ter tirado uma foto da página – será que posso fazer isso aqui?, eu divagava mentalmente. A Clara me cutucou, repetindo em português o preço que a velhinha caminhoneira tinha dito, num espanhol enrolado. Puxei a minha carteira do bolso, com uns pesos trocados horas antes. Por que eu sequer tô cogitando isso?! Não vou levar o livro, caralho, sem chance, me dissuadi. Só o Quino e pronto.
 
A senhora agora contava o meu troco, demoradamente. Tinha o cabelo grisalho, cortado bem curtinho, e uma tatuagem velha no antebraço com as linhas já vazadas. Não vai fazer falta, insisti na minha cabeça, não é como se a Mia estivesse esperando presente nenhum. É. É? Pois talvez por isso mesmo eu devesse levar, digladiei comigo mesma. Argh. Peguei a alça da sacola, já com o livro pago dentro, e nos despedimos da sapatão argentina.
 
Já estava escuro do lado de fora, na rua. A Clara parou em frente à porta da livraria para acender um cigarro. “Você quer?”, ofereceu um Marlboro aceso. E eu aceitei. Não. A Mia definitivamente não precisa de um livro, resmunguei para mim mesma, de poema nenhum. Tinha deixado São Paulo com ela ainda meio brava. ‘Me desculpa’, sei. Devolvi o cigarro para a Clara. E afinal, por que ela se incomoda tanto? Se eu vou viajar ou não... Ela tem o Fer, sempre teve, porra. E tá, admito – às vezes, eu pensava coisas estranhas.
 
Fomos andando pela calçada, juntas. Mas meus pensamentos seguiam acelerados. Começava a ficar rabugenta. A verdade era que eu queria dar aquele livro para a Mia. Fazer caso do acaso. Numa ânsia que me tomava a cada passo em que nos distanciávamos da esquina da livraria. Qual é o meu problema? Eu tô mesmo tão apaixonada que não consigo ficar um dia sem pensar na porra do nome dela? Aparentemente tô, né – revirei os olhos. Inferno. Senti, de repente, como se traísse a Clara em pensamento. Mas, se amo a Mia assim, q-que merda eu tô fazendo aqui?, me irritei comigo mesma.
 
Aquilo era ridículo. Chega. É só um poema, cacete. E o meu coração interveio, rapidamente, mas já dei todo resto, não é? Posso muito bem dar um poema também. Num impulso, como quem arranca um band-aid sem rodeios, pedi para que a Clara me esperasse e corri meia quadra de volta para comprar a droga livro. “É para a Marina”, menti ao retornar, abaixando a cabeça, já arrependida.

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