E até àquela altura eu estava perdendo. O jantar com os amigos foi
um desastre – atravessada, a Clara fez questão de falar espanhol a noite toda e
deve ter dado a entender que eu estava de castigo, ou algo assim, porque
todo mundo naquela mesa me olhava com desprezo. Ou talvez fosse só a
hospitalidade portenha. Vai saber. Os amigos eram um casal de caras já na
casa dos 30 e uma sapatão um pouco mais nova, além do dono da casa – o Ignacio.
Tagarelavam animados entre si. O único momento em que falaram comigo foi para
perguntar se eu ia beber algo, quando o garçom estava à beira da mesa.
E sim – comecei a me encher de álcool.
Essa noite vai ser longa, resmunguei para mim mesma, virando uma
dose de pisco. Que opção eu tinha? Dali fomos para uma balada e só
piorou. Durante a primeira hora, a Clara sumiu na pista com os amigos, enquanto
eu abraçava o bar e fazia amizade com o garçom. Segundo ele, brasileiro era o
que não faltava em Buenos Aires. Eu já estava na terceira dose, quando a Clara e
os amigos encostaram ao meu lado na bancada, completamente suados, pedindo algo
para tomar. Os drinks chegaram rápido. E sem parecer sincera, a Clara me
perguntou se eu queria me juntar a eles na pista – eu declinei. Podia ver os
seus olhos revoltados com a minha resposta, ainda que soubesse que ela não me
queria lá de fato, “tá bom”.
Sabia que estava piorando as coisas, mas não conseguia simplesmente
ir dançar e fingir que ela não tinha me ignorado por horas. Sequer me virei
para ver onde estavam indo quando decidiram voltar para a pista. Que se fodam, que se foda a Argentina toda. Fingi que a culpa não
era minha. E pelos minutos seguintes, comecei a virar tequilas. Já tinha
passado da meia-noite e o meu aniversário de 25 já começava errado. Então decidi
perder o juízo de vez, descontei no meu fígado. O que nunca dá muito certo,
não é? Nem quarenta minutos depois e eu era amiga de um grupo de chilenos
que encontrei perdidos por ali, completamente torta. O meu espanhol estava mais
fluente do que nunca. Apoiava-me num deles para contar uma história que agora
sequer lembro qual era, enquanto eles gritavam de volta e riam, entretidos. Simpáticos.
Decidi, então, que não gostava de argentinos e que eles, os chilenos, eram
simplesmente mais legais.
Minhas pernas já estavam trançando quando decidi que era hora de
resolver a situação com a Clara. E entrar na pista foi uma experiência
alucinada e confusa. O som estava alto, as pessoas completamente molhadas,
tinha espuma de sabão para todo lado e as luzes mudavam freneticamente de cor.
Eu estava embriagada. Realmente
embriagada. Prestes a piorar ainda mais a situação. Via os corpos dos
outros passarem por mim, tomada por uma vontade irracional de empurrá-los para
longe. Entre aquele caos de espuma e gente com a roupa ensopada, vi um dos
amigos da Clara ao longe. Comecei a ir em sua direção, cambaleando e sem
enxergar direito; as pessoas gritavam umas com as outras, à minha volta, rindo.
Estavam todos lá quando cheguei e a Clara dançava, encharcada, atracada com
outra garota.
Filha da
mãe.
Fiquei furiosa. Ela me viu, a cinco passos de onde estavam, e eu virei
as costas na mesma hora. Saí em disparada, sem vontade de ouvir uma palavra que
tivesse para me dizer. Um dos amigos dela veio atrás de mim, a Clara sequer se deu
ao trabalho. Comecei a mandar o cara calar a boca, conforme ele gritava
qualquer coisa na minha direção – parecia tentar explicar a situação por ela, mas
eu não queria ouvir. Comecei a perder o controle. Debati os braços, me soltando
dele, e segui andando – mas ele insistiu, grudado à lateral do meu rosto, como
um parasita, berrando no meu ouvido.
Voltei para o bar e pedi um whisky. O cara seguia falando “no
pasa nada”, se repetindo, e eu o mandava à merda. Virei a dose assim que
chegou. E já pedi logo outra. O argentino me segurou o braço, falando um “ê, ê” cauteloso, como se me pedisse para
ir devagar, implorando para que eu fosse lá resolver direito. Não preciso
resolver porra nenhuma. Virei o outro copo inteiro. E na décima resposta
estourada minha, ele deu de ombros e voltou para a pista, deixando de se
importar.
Inferno. Empurrei a droga do copo adiante na bancada e me virei também, voltando para onde eles estavam. Quando revi a Clara, a garota estava ao seu lado, ambas com espuma até quase a cintura. Os amigos também, todos ali, em pé, comovidos pela nossa ceninha de uns minutos antes. A Clara me encarou, ressentida, como se tivesse vontade de fazer pior. Marchei na sua direção e a puxei para fora da rodinha de amigos, demos dois passos adiante. Mas aí ela se recusou a ir – se soltou de mim, com raiva, como quem quer sair de perto. Peguei na sua mão de novo e ela me empurrou. Começou a andar no sentido oposto, de volta, completamente embriagada.
_CÊ NÃO VAI FALAR COMIGO, PORRA? – gritei, competindo com o som
alto.
Foi o suficiente para a Clara se virar na minha direção, mandando eu
ir me foder. Em alto e bom som. E do nada, a situação toda explodiu. A tal garota
se aproximou. Um dos amigos entrou no meio de nós duas e nós começamos a
discutir. Virei para a Clara, gritando na sua direção – “SÉRIO? CÊ VAI MANDAR
EU ME FODER? É ASSIM QUE A GENTE VAI RESOLVER AS COISAS?!?”. “NÃO QUERO FALAR
COM VOCÊ AGORA!”, ela berrava. “AGORA?”, me irritei, “FAZ TRÊS, QUATRO HORAS
QUE CÊ NÃO FALA COMIGO!”. Fiz um gesto para o cara me largar, me irritando com
as suas mãos em mim. O Ignacio saiu detrás do balcão do bar, me empurrando,
querendo que eu me afastasse da sua amiga. Empurrei ele de volta. A garota com
quem a Clara tava dançando começou a falar qualquer coisa a dez centímetros da
minha cara. “MANDA ELA CALAR A BOCA!”, gritei para a Clara. E o barraco foi
ganhando proporções gigantes, saindo do controle.
_ESCUTA! – puxei a Clara pela mão mais uma vez, encostando a boca do
seu ouvido – A GENTE NÃO PRECISA FAZER ISSO AQUI! SE CÊ QUER FICAR BRAVA
COMIGO, FICA BRAVA COMIGO! QUER PEGAR A PORRA DA MINA, PEGA! – argumentei,
bêbada – EU VOU FICAR LÁ FORA. E QUANDO CÊ TERMINAR, EU VOU TÁ TE ESPERANDO. FAZ
O QUE QUISER, VELHO.
_É?? – me ameaçou – POIS EU DEVIA FAZER MESMO!!
_QUAL É O SEU PROBLEMA, CARALHO?! É A MIA?? UMA FRASE QUE EU TE FALEI?!? É ISSO??
_NÃO. NÃO É A PORRA DA MIA. É VOCÊ! VOCÊ!!
_ENTÃO FICA BRAVA COMIGO, CACETE! FALA! – berrei na direção dela, com os olhos já marejados, sentindo que tinha fodido tudo de vez – FALA QUE EU SOU UMA IDIOTA! EU SOU, EU SOU MESMO! UMA PORRA DUMA IDIOTA! MAS EU NÃO TAVA TENTANDO TE MAGOAR, SÓ QUERIA PODER CONVERSAR, INFERNO! POR FAVOR, NÃO ME IGNORA! SÓ FALA, PORRA! ME XINGA! FAZ QUALQUER COISA! – esfreguei a mão no rosto, fora de mim – EU AMO VOCÊ, DESGRAÇA!
_AH, AMA? O QUE ISSO QUER DIZER?!? – apontou o dedo na minha cara, nervosa – QUE VOCÊ VAI VIR ATÉ AQUI COMIGO PARA FALAR SOBRE A PORRA DA MIA? PRA FICAR PENSANDO NELA??!?
_CLARA, CARALHO, EU SÓ...
_VOCÊ O QUÊ? – me interrompeu, pistola – HEIN, VOCÊ O QUÊ?? PORQUE SE VOCÊ ACHA QUE PODE FAZER AS COISAS ASSIM, QUE EU VOU FICAR PARADA ESCUTANDO, CÊ TÁ MUITO ENGANADA!
_NA BOA, FAZ A MERDA QUE CÊ QUISER, CLÁ... QUE SE FODA!
Saí andando, puta da vida. E dez minutos depois, a gente estava se
comendo no banheiro.
Inferno. Empurrei a droga do copo adiante na bancada e me virei também, voltando para onde eles estavam. Quando revi a Clara, a garota estava ao seu lado, ambas com espuma até quase a cintura. Os amigos também, todos ali, em pé, comovidos pela nossa ceninha de uns minutos antes. A Clara me encarou, ressentida, como se tivesse vontade de fazer pior. Marchei na sua direção e a puxei para fora da rodinha de amigos, demos dois passos adiante. Mas aí ela se recusou a ir – se soltou de mim, com raiva, como quem quer sair de perto. Peguei na sua mão de novo e ela me empurrou. Começou a andar no sentido oposto, de volta, completamente embriagada.
_É?? – me ameaçou – POIS EU DEVIA FAZER MESMO!!
_QUAL É O SEU PROBLEMA, CARALHO?! É A MIA?? UMA FRASE QUE EU TE FALEI?!? É ISSO??
_NÃO. NÃO É A PORRA DA MIA. É VOCÊ! VOCÊ!!
_ENTÃO FICA BRAVA COMIGO, CACETE! FALA! – berrei na direção dela, com os olhos já marejados, sentindo que tinha fodido tudo de vez – FALA QUE EU SOU UMA IDIOTA! EU SOU, EU SOU MESMO! UMA PORRA DUMA IDIOTA! MAS EU NÃO TAVA TENTANDO TE MAGOAR, SÓ QUERIA PODER CONVERSAR, INFERNO! POR FAVOR, NÃO ME IGNORA! SÓ FALA, PORRA! ME XINGA! FAZ QUALQUER COISA! – esfreguei a mão no rosto, fora de mim – EU AMO VOCÊ, DESGRAÇA!
_AH, AMA? O QUE ISSO QUER DIZER?!? – apontou o dedo na minha cara, nervosa – QUE VOCÊ VAI VIR ATÉ AQUI COMIGO PARA FALAR SOBRE A PORRA DA MIA? PRA FICAR PENSANDO NELA??!?
_CLARA, CARALHO, EU SÓ...
_VOCÊ O QUÊ? – me interrompeu, pistola – HEIN, VOCÊ O QUÊ?? PORQUE SE VOCÊ ACHA QUE PODE FAZER AS COISAS ASSIM, QUE EU VOU FICAR PARADA ESCUTANDO, CÊ TÁ MUITO ENGANADA!
_NA BOA, FAZ A MERDA QUE CÊ QUISER, CLÁ... QUE SE FODA!
26 comentários:
Esse final foi para matar.
Mel me fez passar um nervoso tremendo. Aconteceu coisa semelhante comigo no final de semana rs
Jamais um final foi tão direto! hahahaha...
Cara, a FM mita! HAHAHAHA
"E dez minutos depois, eu a estava comendo no banheiro."
ahuahahahuahaha.. gente bêbada <3
Não tem post mais "a cara da FM" do que esse HAUHAUHAUAHUAH :3
Lindoooooo
nada melhor do que depois de uma discussao fazer as pazes eheheh mesmo tando as 2 bebadas :)
Argh, esse post me deu mal estar hehehe. O clima, a ceninha, o que foi dito...
veeeeeeei como assim????
hahaahahaha, eu amo essas duas.
<3
gente bêbada <3 (+1)
hdaisudhiausda
Eu tbm não desperdiçaria a Argentina. HAHAHAHAH
Sexooo uuuuu ♪♪♪
aaain *---* nao acreditooo!! essa FM é tao eu cara, nao aguento estar com outra sem pensar na minha MIA, mais quando sinto que estou perdendo a minha CLARa eu me sinto um lixo --' a FM tem que ficar com quem faz ela bem isso sim *---* by: GCC
Nunca usei este meme com tanta propriedade: Boy, that escalated quickly! E agora não dá nem para ter ideia do que pode acontecer quando elas ficarem sóbrias. Ansiosíssima!
Confesso que: acho um tesão a fm se batendo e gritando, louca. Eu dava fácil no banheiro tbm kkkkk Nmrei uma mina assim e sei la.. S2 s2
Gente descontrolada <333
FINAL FODA <3
PQP... muitooo foda... essa é a FM!!
Vlw Mel!! *_*
(ANA CURI)
Não, esse barraco foi típico :p
Mas entao, acho mtas atitudes da FM tããão desnecessárias ><
E não entendo esse jeito dela de fazer as merdas, se culpar e depois ficar td bem.
Sei lá...
ah... comentei tudo no grupo, droga! hahahahahaha :)
Eitaaaaa!!
Briga de gente bêbada é phoda kkkkkk
Mas também quero ver no que vai dar quando estiverem sóbrias...
hahhahahaahha ahhhhhhhhhhh atttéeee que enfim uma ação meldels!!!
Mel quero detalhes dos acontecimentos do banheiro!! shaushahsausha
Não precisa detalhar nada do que ocorreu no banheiro... apenas acabem logo com essa viagem.. Sinto saudades da Mia... já chega desse "amor louco", quero romantismo...
Volta pra MIA <3
A Clara é fraca kkkkkk
gente bêbada <3
Adoro esse casal! Tava sentindo falta da FM porra louca. Quero mais!!
Eeeeeeeeeita, a cara da FM, buuuut volta logo pra SP!!!
Antes tarde do que nunca!
Tinha que dividir com vcs a minha angustia!
Senti tudo o q a Clara sentiu... nossa q raiva, meeeeo!!!
Postar um comentário