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março 11, 2010

911

_Onde cê tá?
_“Oi” pra você também, sua mal-educada...
_Desculpa, oi! – consertei rapidamente – Onde cê tá?
_O que tá acontecendo?
_Eu fiz merda, Má. Fiz merda mesmo, das grandes.
_Xiiii...
_Onde cê tá, meu?
_Na casa da Bia.
_Quem é Bia?
_Uma menina.
_Que menina?! – me incomodei.
_Não muda de assunto, intrometida. Me conta, o que cê fez dessa vez?
_Não posso falar pelo telefone, vem me encontrar. Que horas cê sai daí?
_Não, hoje não dá...
_Marina, por favor.
_Ah, nem vem! – ela riu – Eu quase nunca tenho tempo livre e eu já tinha combinado...
_Meu, é sério. Eu preciso muito falar com você!
_Ei! Escuta... – me deu bronca – Você não é a única pessoa na minha vida, sabia?
_Mas você é a única que presta na minha. Por favor, por favor... Por favor...
_Meu deus, isso é absurdo. Não.
_Por favoooooooooooor!
_Isso só pode ter mina no meio. Só pode! – eu podia quase vê-la revirar os olhos do outro lado da linha – Qual a chance? Não sei nem se eu quero saber o que aconteceu. Cê se mete em cada uma e depois ainda sobra pra mim!
_Eu não sei o que fazer, Má. De verdade. Vem me encontrar? Por favor. Eu tô precisando muito de você, meu...
_De mim? Cê tá uns anos atrasada, gracinha.
_Para! – ri – Pô, Má. Sem brincadeira, meu, preciso mesmo de você...
_Sei.
_E da sua infinita sabedoria, vai... – implorei – Por favor!
_Você é inacreditável...
_Onde cê está? Fala que eu vou aí te encontrar.
_Não, não – ela suspirou – Deixa que eu vou aí.

março 10, 2010

Fervendo

_Comeu?
 
Me perguntou e colocou as duas mãos no batente da porta, agindo estranho. Não entendi a hostilidade. Me certifiquei rapidamente com os olhos de que a Mia não estava ali e só então respondi:
 
_Não.
_E por que não? – ele retrucou, soando bem mais irritado do que a situação justificava – Não tava aí fazendo um puta drama de que tava com fome?! De que não tinha porra nenhuma pra comer? Hein?! Que a gente precisava ir lá comprar as merdas pra casa?!?
_Perdi a fome, Fernando – fechei a cara.
 
E ele me olhou, desconfiado, como se não acreditasse no que eu estava falando. Fechou a porta atrás de si, entrando no quarto com certa agressividade. Dei alguns passos para trás, o encarando de volta. Qual é o seu problema agora?
 
_O que cê falou pra ela? – ele se aproximou, tentando evitar que sua voz atravessasse a parede.
_Nada!
_Então por que cê está assim?
_Assim como?!
_Não se faz de idiota! Tem alguma coisa rolando! – ele disse, puto, tentando não subir o tom de voz – A Mia tá toda constrangida lá na cozinha, cês duas tão agindo estranho, porra. Qual é?!
_Eu não falei nada!
_Do que cês tavam falando quando eu cheguei?
_Não interessa – retruquei, sem me intimidar.
_O CACETE QUE NÃO!
_Fernando, eu não contei porra nenhuma. Não tinha nada a ver com você!
_Então é só uma coincidência do caralho, né?
_Ah, velho. Não me enche! – revirei os olhos, antes de sussurrar irritada – O que cê acha que eu ganho contando? Antes de qualquer coisa cê é meu amigo, caralho. Cê acha que eu vou te dedurar? Pra Mia?? Cê tá paranoico, porra! Vai sair me acusando??
 
Ele me olhou, sem resposta – pelo menos nisso eu estava sendo sincera. O que me dava bastante confiança. Passado um tempo em silêncio, ele pediu desculpa pela acusação e se acalmou. Rolo dos infernos, aquilo estava indo longe demais. O Fer saiu do quarto e eu continuei parada ali, ainda pior do que estava antes. Preciso sair daqui. Terminei a minha cerveja em dois goles enormes e vesti uma jaqueta para dar o fora.
 
Passei na cozinha para pegar um pacote de bolachas já que, ao contrário do que aleguei, sim, eu estava morrendo de fome. O Fer estava começando a cozinhar algo no fogão. E a Mia esperava sentada, em cima da pia. Ela me olhou durante o tempo todo em que estive no cômodo. Sem cuidado algum para que o Fer não percebesse – cê perdeu a cabeça? –, mas ele seguiu virado para o fogão e felizmente não viu. Os olhos dela me seguiam. Cada segundo dentro daquele apartamento aumentava o meu constrangimento.
 
Bati a porta, sem me despedir de nenhum dos dois, e desci até a rua. Já estava escuro, mas ainda não era tarde o suficiente. O agito habitual das viados e baladeiros da Augusta ainda não tinha ganhado peso para uma noite de sábado. Subi a Frei Caneca sem saber direito para onde ir. A cada passo tentava me livrar do peso na consciência pelo que eu fiz com a Mia e pelo que vi o Fer fazer. Pelos segredos que eu não queria guardar. Queria fugir da minha própria vida. Precisava respirar um pouco, descansar de tudo aquilo. Desgraça. Estava quase chegando na Avenida Paulista quando o meu celular tocou. Era a Roberta.
 
Não, isso não. Ignorei e continuei subindo a rua, guardando o telefone de novo no bolso da calça. Eu precisava de alguém neutro. Alguém que não fosse piorar o caos que eu sentia por dentro. A minha cabeça estava a mil e eu só queria escapar daquela confusão por uma hora, duas. Mas não tinha ideia de como, estava completamente perdida. 
 
A Marina, concluí na última quadra. Eu preciso da Marina.

março 09, 2010

"Pode vir quente, que eu estou..."

Assim que entrou em casa, o Fer cruzou o corredor e nos viu ali, dando bandeira. Paradas em frente à porta do meu quarto. Ele nos encarou. A Mia foi cumprimentá-lo – com um beijo, argh – e eu fiquei observando-os de longe, me limitando à minha insignificância. Por trás da Mia, a Fer ainda me observava. Triângulozinho de merda, eu revirei os olhos e encostei na parede, olhando para o chão, na tentativa de ignorar a cena toda.
 
O casalzinho feliz começou a conversar, num tom introspectivo. Me excluindo. E eu resolvi dar início ao consumo das cervejas, antes que aquela situação me sufocasse ainda mais. Passei pelos dois, me virando contra a parede do corredor. A Mia me olhava com um nítido pesar na consciência. Essa noite vai ser longa, pensei, já me conformando com o lento decorrer das próximas horas. Entrei na cozinha e peguei a primeira de muitas cervejas que pretendia enfiar goela abaixo.
 
Voltei para o meu quarto. E o casal “ternura” ficou lá, no sofá da sala, se amando. Inferno. De alguma forma, meu quarto agora parecia pequeno demais para os meus pensamentos. Era como se as paredes não fossem capazes de suportar todo tráfego mental e emocional, num surto autodepreciativo. Dá para enrolar cem baseados com todo esse papel de trouxa que tô fazendo, puta merda. A situação me causava claustrofobia. Mas eu não conseguia sair – indisposta a cruzar com a Mia pelo apartamento. Sem outra opção, acendi um cigarro e me sentei na frente do computador.
 
Liguei o MSN entre um gole resignado e outro – e fui surpreendida com várias mensagens antigas da Roberta. Àquela altura do campeonato, já havia esquecido da noite de quinta. Merda. Por um momento, me ocupar com outra pessoa me pareceu uma boa ideia. Não, chega. Preciso aprender a não fazer mais isso, me contive. Não queria realmente submeter a Roberta ou qualquer outra garota que fosse à minha confusão – não de novo. Não era justo. Já basta eu aqui, me fodendo. Nisso, em meio à disputa entre a minha falta de caráter e de opção, alguém bateu na porta. Eu não sabia o que era pior: o Fer ou a Mia. Respirei fundo, indisposta. E fui descobrir, sem curiosidade alguma de ver quem estava do outro lado e por quê.
 
Que inferno, pensei, virando a maçaneta.
 
Era o Fer – com cara de poucos amigos.

março 08, 2010

Portas destrancadas

_O que cê quer?
 
Perguntei ao abrir a porta.
 
_Por que você tá assim? – a Mia me olhava de volta, chateada.
_Por que diabos cê tá aqui?!
_Porque eu quero falar com você.
_Não no quarto. No apartamento, Mia!
 
Ela me encarou por algum tempo, segurando a resposta no fundo da boca.
 
_O Fê... – suspirou – ...é m-meu namorado.
 
Ouvi-a justificar, quase cochichando, sem confiança alguma. Seus olhos me observavam, respirou fundo. Mas você não é mais namorada dele, pensei. E fui tomada por um sentimento violento, de repente. Uma vontade de estar com ela me subiu pela espinha e eu simplesmente a puxei na minha direção. Entrelacei os meus dedos no seu cabelo, a beijando. Ou é?
 
A Mia me encostou contra o batente de madeira e me beijou de volta, num impulso.
 
Merda. Não.
 
Não posso – a afastei, confusa.
 
_Olha, eu não tô pedindo nada de você – retruquei – Mas é foda. Então também não espere nada de mim.
_O que cê quer que eu faça?
_Eu não tenho a resposta, Mia.
_Eu não posso simplesmente t-terminar com ele... – ela sussurrou – Não posso, n-não... dá pra pôr um fim em tudo, do nada, só porque...
_“Só porque” o quê? – rebati, engolindo o orgulho.
_Você não entende, e-eu... eu precisava vir. Não dava pra eu dizer não! Não dava. Ele ia... i-ia perceber que alguma coisa não tava certa.
_Porque não tá mesmo, Mia! – argumentei, com raiva.
 
E me arrependi logo em seguida por levantar a voz. Cruzei os braços e encostei na porta, olhando para o chão. Ficamos caladas. Ela me olhava, inquieta, ansiando por qualquer movimento meu. Mas não fiz nada. Eu tô entrando na porra da boca do lobo, receei, sem conseguir voltar atrás. Então, num gesto inesperado, a Mia segurou na minha mão. Subi o olhar até o dela e ela sorriu. Ah, garota. Meu coração se inquietou. Encarei-a de volta e, por um instante, parecemos ser só nós de novo.
 
_Acho que isso quer dizer que não vamos sair hoje, né? – ela riu.
_Vamos fazer o que você quiser – respondi, como se não pudesse evitar.
_Eu quero ficar com você – ela disse.
_Então é isso que vamos fazer.

Sobrecarga

Voltamos do supermercado 80 reais mais pobres cada. Com comida suficiente para quase um mês, considerando que nos alimentávamos terrivelmente mal. Bastava uns pacotes de macarrão e pizza congelada. Os engradados de cerveja davam para o fim de semana – ou talvez só para aquela noite, dependendo da nossa disposição. O Fer deixou todas as compras comigo e enquanto eu chutava, digo, carregava cuidadosamente todas as sacolas elevador adentro, ele deu um pulo na boca da Paim para arranjar o estoque da semana.
 
Cheguei no nosso andar, atolada de sacolas, empurrando um dos engradados com o pé. Completamente sobrecarregada. Por que fui insistir pra irmos no mercado?, resmunguei mentalmente, atribuindo a culpa a mim mesma. Virei o corredor com certo esforço, destruindo as compras pelo chão, e dei de cara com a Mia. Parada ali, em frente à porta do nosso apartamento. É claro, respirei fundo, com quem mais essas merdas iam acontecer?
 
_Oi – ela disse, enquanto eu equilibrava as compras e tentava virar a chave na porta.
_Oi, Mia...
 
Respondi, indiferente.
 
_O porteiro me deixou subir, mas cheguei aqui e cês não tavam. O Fê... – me olhou, desconfortável, como se o nome dele fosse proibido de repente – ...n-não foi com você?
_Como cê pode ver... – falei, ainda tentando virar a chave – ...a gente foi no mercado. Mas o Fer quis passar lá na Paim, já, já ele deve chegar...
_Cê quer ajuda aí? – me perguntou, como se eu estivesse prestes a derrubar todas as sacolas.
_Não.
 
Respondi e, enfim, consegui virar a porra chave.
 
_Só traz o engradado, por favor – pedi, entrando no apartamento.
 
Fui direto para a cozinha e deixei todas as sacolas sobre a mesa. A presença da Mia ali me irritava. Alojamos todas as compras em seu devido lugar, a começar pelas de geladeira. Ela tentou iniciar a conversa várias vezes, mas eu cortava todas as suas iniciativas. Não tô afim dessa merda. A verdade é que eu não queria falar com ela. Não depois de passarmos uma noite daquela juntas e ela ter a cara de pau de aparecer na casa do namorado, no instante seguinte, como se nada tivesse acontecido. Vai se foder, na moral. Terminei tudo numa velocidade impressionante, disposta a sair logo dali.
 
E aí me fechei no quarto.
 
A Mia ficou sozinha na cozinha, por um tempo – mas não demorou muito, claro, até vir bater na minha porta. Por favor, só vai embora. Eu não queria atender, não queria abrir a droga da porta. Segurei a maçaneta com uma das mãos, relutante, mas sabia que não tinha escolha – eu já tinha a deixado entrar, antes mesmo dela sequer bater.

março 05, 2010

Les Misérables

Atravessei a cozinha cantarolando. Com Lou Reed nos fones de ouvido e meias no pé, indo atrás de alguma coisa para comer. O meu humor estava fantástico – já o meu estômago nem tanto. Reclamando ruidosamente a cada maldita prateleira vazia. Não tem comida nessa casa, cacete?! Sem desistir, fui até a geladeira e fiquei alguns minutos encarando a escassez total de alimentos daquele apartamento. “You’re a slick little girl... Oh, you’re such a slick little girl”, eu dançava, com as minhas pernas já parcialmente congeladas em frente à geladeira inútil.
 
_FEEEEEER! – berrei, ainda de fone, o que deve ter me feito soar ainda mais escandalosa – Não tem porra nenhuma para comer, vamos no mercado??
 
Nenhuma resposta. Continuei com a música nos ouvidos e pus-me a beber um copo de água da torneira da pia, dane-se, já que não tínhamos um líquido sequer naquela casa. “Now, we’re coming out!”, eu cantava, distraída, “out of our closets, out on the streets, yeah, we’re coming out!”. Alguns instantes depois, eu pude escutar o som distante do Fer gritando o meu nome. Repetidamente. Olhei para a porta e ele estava apoiado no batente, esperando eu me virar na sua direção para possibilitar uma conversa.
 
_D-desculpa. Não te ouvi... – disse, tirando os fones do ouvido, com um sorriso amarelo.
_Ah, jura? – ele riu – Mas, e aí, fala... O que cê quer?
_Não tem comida.
_Claro que tem! Comi hoje cedo aí com a Júlia. Tinha um resto de sucrilhos e... err, bom, o leite acabou.
_Não tem mais nada, meu! Precisamos ir lá comprar.
_Agora não dá, meu... – retrucou – ...a Mia tá vindo aí.
 
Oi?
 
_A Mia tá vindo pra cá? No apê?! – perguntei, tentando não soar totalmente surpresa e decepcionada – Agora??
_Tá, eu liguei para ela... – estranhou – Por quê?
_Não, por nada... É só q-que... Ela tinha comentado... Digo, o-ontem... – me enrolei – Q-que talvez ela fosse... f-fosse sair hoje, m-mais tarde... À noite, não sei, não lembro.
_É, ela disse que ia sair mesmo. Mas falei para ela passar aqui pra comer...
_E comer o quê, meu? – argumentei, como se pudesse impedir sua vinda – Não tem comida!
_Ah, sei lá, a gente pode pedir alguma coisa...
_Com que grana, Fer?! A gente só come delivery a porra da semana inteira! – resmunguei – Vamos comigo no supermercado, vai, antes que feche o shopping da Frei.
_Ah, velho... Puta preguiça de sair agora!
_Por favor! Vai, pelo menos para comprar umas cervejas e um pouco de macarrão, meu. Senão fica difícil...
_Tá... – se deu por vencido – Mas vamos logo, que daqui a pouco a Mia chega aí.

março 03, 2010

Não é por mal...

Até que, finalmente, a Mia deu sinal de vida: mandou uma mensagem.
 
Mas não para o Fernando, cujo celular – assim como o seu dono, esquecido pela namorada – ficou ao meu lado o tempo todo na sala. O seu telefone não vibrou uma só vez. Nenhuma. O recado era para mim. E só para mim. Nele, a Mia me perguntava simples e direta quais eram os meus planos para aquela noite. Sem beijo e nem sorrisinho – só a pergunta e uma possível segunda intenção.
 
Vou sair com vc”, respondi.
 
Com certa arrogância. E esperei a sua resposta. Olhei para o Fer naquele meio tempo, sentado ali ao meu lado, me fazendo arrepender brevemente. O que eu estou fazendo? Passei o dia me sentindo mal, pensei. Segundos depois, porém, a tela do meu celular piscou com uma confirmação e um sorriso dela – e eu simplesmente esqueci de me sentir culpada.
 
Passo ai as 23h ;)”, digitei e mandei.

março 02, 2010

Os pilantras

_Não sei o que me deu – o Fer reclamou, arrependido – Burrice, só pode!
_Relaxa, meu... O que cê vai fazer? Agora já foi, né?!
_Eu sabia, sabia que tava fazendo merda. Devia ter ignorado, velho. Ela me mandou mensagem ontem e e-eu... Caguei tudo! Burro do caralho. Agora a Jú vai ficar aí cheia de nhé-nhé-nhé para cima de mim, me enchendo o saco e a Mia... Puta merda, vai ser um inferno! – passou a mão no rosto, nervoso – Eu sou um idiota, mano.
_Calma, Fer, também não é o fim do mundo. Foi uma vez. Logo passa... Só não vai dar uma de honesto agora e ir lá contar, meu, a Mia ia ficar arrasada – me estiquei até a ponta do sofá e alcancei o meu maço, tirando um cigarro e o isqueiro lá de dentro – Juro. Eu te arrebento.
_Cê tá doida?! Óbvio que eu não vou contar!
_Acho bom mesmo...
_Mas, porra... Se esse negócio vazar...
_Não vai vazar.
_É, mas se...
_Não vai, cacete!
 
O interrompi, garantindo.
 
_Argh, sei lá. É foda. Vou ter que prestar atenção no que eu falo daqui para frente – ele roubou o cigarro da minha mão e deu um trago – Acho que a Jú não vai fazer nada, né?
_Olha... Daquela ali eu não duvido bosta nenhuma.
 
O Fer arqueou a sobrancelha, rindo. Nós dois sabíamos como tinha sido o relacionamento deles na adolescência – e não foi coisa boa. Ficamos em silêncio por um tempo. Ainda me sentia sonolenta, afundada no sofá fumando.
 
_As suas minas não ficam sabendo, não? – o Fer me observou, curioso.
_Quem? – estranhei, sem entender – Sabendo do quê?
_Como “do quê”?! – riu – Nunca vi ninguém ir e vir de uma para outra que nem você e suas amigas, mano... Sapatão num sossega, velho. Elas não ficam sabendo, não? A Rô? A Aninha? Porque, porra, não é possível!
_Ah, sei lá... Às vezes dá ruim – dei de ombros e fiz graça, piscando – Mas todas acabam voltando para mim.
_Ah! Tá bom! Vai nessa...
 
Ele começou a rir. Era a maior besteira que eu já tinha falado e ele sabia.
 
_Ah, me poupa, Fernando... Você só tá bravinho aí porque quer fazer merda e não aguenta! – provoquei – Agora tá todo preocupado se a namorada vai descobrir...
_Desculpa aê, Rainha do Vacilo... – me zombou.
_Cala a boca, babaca! – dei um soco no seu braço, rindo – Mas, vai, agora falando sério: por que diabos cê foi comer essa mina? A Júlia já tava até com poeira de tanto tempo que cês terminaram. Que raios deu na sua cabeça pra ir mexer nesse rolo, meu?
_Ah, meu... sei lá, é que... faz, o quê? Um ano que eu tô aí com a Mia e... tipo, é só a Mia, tá ligado? O tempo inteiro – nossa, eu te odeio – Daí eu vi a Júlia lá no Marcos e ela tava toda, sei lá, mano, ficou dando mole. E, porra... Não sei, eu não pensei muito na hora! Só queria fazer uma graça. Dar corda para ver onde chegava – ele esfregou o rosto, angustiado – Mas, quando eu fui ver, já tinha feito a merda, meu.
_Sei. E valeu a pena, pelo menos?
_Não – ele riu, dando um trago – Foi um lixo.
_Mano, como você é idiota.
_É – apertou os olhos e me devolveu o cigarro – Mas, e aí? Foi legal lá ontem? O que vocês fizeram?
_Ah, nada. A gente viu as lutas e bebeu, ficou conversando...
_Nossa, a Mia sumiu, porra... Deve ter sido bom o negócio, não?
 
Ah, você não faz ideia.

Enfim

Assistir televisão de fim de semana é suicídio intelectual. Sábado à tarde e nada passando. Não importava quantas vezes eu mudasse de canal. O tédio tava me irritando profundamente, quase mais do que a presença daquela imbecil no meu apartamento – a tal da Júlia estava na cozinha, terminando de tomar café com o Fernando. Coloquei na MTV e abandonei o controle ao meu lado, enquanto tentava dormir ao som de qualquer lixo musical. 
 
Minutos ou horas depois, não sei bem, ouvi a porta abrir e acordei. Olhei para cima e o Fer estava em pé, com uma expressão desconfortável, despedindo-se da idiota no batente. Ela me encarou por um instante, a metros de mim, ainda raiva pela minha grosseria mais cedo. Já vai tarde, pensei e deitei a cabeça de novo no sofá. Eles se beijaram, pelo que pude ouvir, mas não consegui distinguir de olhos fechados se foi significativo ou não. A porta se fechou.
 
Só nós dois novamente. Constrangedor.
 
O Fer sentou do meu lado, a alguns centímetros dos meus pés, e suspirou. Abri os olhos e o encarei por um tempo. Senti dó, por algum motivo totalmente incompreensível e desconhecido a mim, mas senti. Acho que eu o entendia, de certa forma. Esse tipo de inconsequência era algo que eu podia entender. E afinal, nós éramos amigos – há mais tempo do que eu podia me lembrar. Parte de mim queria protegê-lo do problema que ele criou.
 
_Eu fiz merda, não fiz? – me olhou então, ciente da besteira que tinha cometido.
_É, fez.

março 01, 2010

O pau oco

_Eu quero falar com você.
 
Passei entre o Fernando e a idiota da sua ex, trombando nos dois da forma mais grosseira possível. Entrei no meu quarto e esperei que ele viesse atrás. Alguns segundos depois, o meu amigo apareceu, já estressado pela minha ceninha. Bateu a porta atrás de si, pronto para a discussão barulhenta que eu estava prestes a começar. Mas aí eu olhei para ele e... e não consegui. Travei. Estava possessa, como poucas vezes fiquei, mas não conseguia emitir um ruído sequer. Inferno.
 
_O que foi, PORRA? – o Fer me encarou, impaciente – NÃO VAI FALAR?!
 
Cruzei os braços e olhei para o chão, mordendo a boca de raiva. Não. Era incapaz de articular uma porra de uma palavra. Aquilo me destruiu por dentro, numa culpa desgraçada. Eu sou uma puta de uma hipócrita, a realidade me doeu. O silêncio foi crescendo e a cada segundo que se passava eu sentia o descontentamento do Fernando piorar. O ar ficou pesado, insuportável. E eu não conseguia dizer porcaria nenhuma.
 
_AH! VAI SE FODER, MANO! Na boa, se você tem algum problema, não fica fazendo teatrinho na frente dos outros pra depois não me dizer nada – se irritou e eu o encarei, muda – O QUÊ, PORRA? Hein?! Perdeu a coragem?! FALA LOGO! FALA O QUE VOCÊ QUER FALAR! FALA QUE NÃO GOSTOU, QUE NÃO QUER ELA AQUI. VAI, FALA! – o Fer berrava na minha direção e eu seguia covardemente quieta – Sabe qual é o problema? Não é falta de coragem, não, é FALTA DE MORAL pra falar qualquer merda de mim – podia sentir a vontade de gritar subindo a minha garganta – Porque de todas as pessoas do mundo, TODAS, cê é a que menos tem direito de vir me dar esporro. Pode fazer cara feia aí, pode não gostar, pode reclamar à vontade, que no fundo cê não tem argumento NENHUM e você sabe! Cê faz merda com todas as meninas que cê pega, mano!! – me atacou, como se isso o livrasse da culpa – QUEM CÊ ACHA QUE É PARA ENTRAR AQUI E DAR ESSE CHILIQUE AGORA?! NÃO VEM BANCAR A CHEIA DE MORAL E VIR QUERER "FALAR COMIGO" QUE SOMOS DOIS NESSA PORRA DE VIDA HEDONISTA DO CARALHO!
 
É. Você está certo, Fernando. E aliás, eu peguei a sua mina.
 
Não havia momento melhor para admitir tudo e tirar aquela traição de merda da minha consciência. Mas não, n-não consigo. E-eu não posso fazer isso. Ele ia me odiar como nunca odiou ninguém antes – ele não ia entender. E eu não podia perder o Fernando. A maioria das pessoas que eu conhecia lidava com as suas dores até não aguentar mais e explodir, mas o Fer, não. Ele partia pra cima na primeira pedra atirada contra ele. Eu sabia disso – sabia, porque eu era igual. Nunca processamos porra nenhuma, reagindo sem pensar e piorando tudo, num esforço fenomenal de foder com a porra toda.
 
E era isso que ia acontecer – e era isso que eu queria evitar.
 
_CÊ NÃO VAI FALAR NADA, PORRA? – gritou comigo, após mais algum tempo.
 
E eu olhei nos seus olhos, mantendo a calma:
 
_Eu não preciso falar nada – disse, firme – Você sabe que está errado. E talvez eu não seja a melhor pessoa pra te dar lição de moral mesmo. Aliás, eu sou a pior pessoa e eu sei disso, sei melhor do que você. Mas isso não muda o fato de que você tá errado. Você cagou tudo. Foi burro. A Mia é uma mina maravilhosa e você é um babaca se perder ela para aquela idiota na sala.
 
Podia ver nos seus olhos a ficha caindo.
 
_A, a gente não... – deu para trás, abaixando a voz – ...nós s-só... ficamos conversando e ela a-acabou dormindo aí, não f-foi como se... – tinha os gestos nervosos – Escuta, não comi a mina, tá legal?
_Ah! Fernando... Porra, mano! – reclamei – Qual é? Vai mentir na minha cara?!
_Tá bom! Tá bom! Comi, sim! – admitiu – MAS QUE INFERNO! Eu n-não... Eu não queria que... Não foi planejado, e-eu... MERDA! – sentou na minha cama e passou a mão na cabeça, se arrependendo – Eu tô fodido. Fodido. A Mia vai me matar se ficar sabendo!
_Velho, por que cê foi fazer isso?!
_Sei lá, caralho! Você... v-você não pode falar nada pra ela. Tá me ouvindo? Nada!
 
Mais uma vez, as palavras fugiram da minha boca. Como se eu precisasse de mais um segredo para guardar. Argh. A impotência acabava comigo. Incapaz de sair do caos que eu tinha começado. Virei de costas para o Fer e me apoiei na janela, respirando fundo. Então peguei o maço no bolso, acendendo um cigarro e soprando a fumaça para fora da janela. Mas que droga. Não conseguia acreditar no rolo em que eu tinha me metido.