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julho 20, 2010

Boa vizinhança

Tem vezes em que a gente escolhe pisar na jaca – ir lá e meter o pé bem de propósito. E essa começava a se tornar uma delas. Num impulso, tirei o celular do bolso mais uma vez. Num misto de amargura e orgulho. Que se foda. Só queria sair de perto daquele apartamento e ocupar a cabeça com qualquer coisa que não fosse a presença do Fer. Ou a ausência da Mia. Onde cê se meteu?, observei a tela por um instante, sentindo uma rejeição incômoda, sem entender onde diabos eu tinha errado.
 
Tudo o que me passava pela cabeça, depois de nos despedir, era quando a veria de novo. E quanto mais horas se passavam sem qualquer sinal dela, que aparentemente não podia pegar a porra do telefone e digitar cinco ou seis palavras, inferno, mais eu me sentia insignificante. Sem saber, de repente, o que fazer com tudo o que aconteceu entre nós. Caralho. Meu coração doeu, incorrespondido. Encarando obsessivamente aquela caixa de mensagem vazia. Como você consegue, Mia? Passar a noite comigo e ir encontrar ele assim?, senti uma angústia apertar minha garganta. Voltar para os braços dele enquanto a sua pele ainda tem as marcas das minhas mãos? De todas as horas que passamos contra os tacos de madeira no chão do seu quarto? O gosto da minha boca na sua? Como se nada?!
 
E sim, parte de mim queria me vingar. Eu só não sabia ao certo qual – se era a autodestrutiva ou a que desesperadamente tentava me preservar. Que se dane. Fechei a caixa de mensagens, numa decisão amarga, e comecei a rodar a minha lista de contatos. O problema é que eu estava sem um puto e isso reduzia consideravelmente as minhas possibilidades. Passei nome por nome, sentada na calçada em frente ao prédio. Que situação. Por mais que eu estivesse magoada, outro lado de mim não queria cometer os mesmos erros do passado. Não podia mais atropelar os sentimentos dos outros como fiz com a Roberta. Ou com a Dani. E achar alguém que não fosse uma completa má escolha naquela lista não era assim tão fácil. Sem contar a famigerada e gigantesca chance de desligarem bem na minha cara.
 
Não. Não. Não. Não. Definitivamente não. Não. Não. Não. Talvez.
 
Foi quando os meus olhos pararam sobre a Thaís, uma amiga que morava a poucos quarteirões dali e que eu não via desde a última festa do apartamento. Ela morava perto dum boteco de sinuca na Peixoto Gomide. E não – nós nunca tínhamos ficado. Apesar de às vezes, sim, darmos em cima uma da outra. Sempre meio que na brincadeira. A Thaís gostava de flertar com todo mundo e eu nunca sabia se ela estava levando a sério. Então fazia o mesmo. E os nossos rolês geralmente acabavam com as duas tropeçando de bêbadas numa sarjeta ou pegando outras pessoas, era descomplicado.
 
Quatro toques do telefone e ela atendeu, como se tivesse acabado de acordar.
 
_Fala, sapatão... – achei graça, rindo da sua voz de sono – ...que cê tá fazendo?
_Velho, nem sei... Tava capotada aqui no sofá.
_Não quer ir jogar umas aí embaixo?
_Opa – ela riu – Agora?
_Já tô na calçada, mano. A hora que cê quiser.
_Vamos.
 
Ótimo. Levantei na mesma hora, já me sentindo automaticamente melhor. E antes de devolver o celular ao bolso, sem pensar, digitei um “qria te ver, meu...” para a Mia.

julho 19, 2010

Déjà-vu

Subi uma calça pelas pernas, o All-Star sujo nos pés e fui para a rua sem um puto. É, o Fer tem razão. Eu já quase não morava naquele apartamento. E não que não fosse rata de calçada antes, acostumada a entrar e já logo sair, mas nunca com a frequência com que andava acontecendo nos últimos tempos. Bati a porta de raiva. De mim mesma ou do Fer – que diferença faz. De um jeito ou de outro, era sempre eu que acabava plantada na sarjeta, fumando cigarro atrás de cigarro, sem saber onde meter a minha confusão. Enquanto a Mia e o Fer seguiam suas vidas normalmente.
 
Olhei rapidamente para o celular, como num reflexo involuntário, e revirei os olhos com desgosto. Ela não vai te escrever, sua idiota. Coloquei aquela droga de novo no bolso, frustrada. E tornei a tragar o meu cigarro. Argh. Eu odiava essa dependência doentia. Era a única coisa que eu simplesmente não conseguia suportar nos meus apaixonamentos – esse atrelamento estúpido da minha porra de existência a uma mulher.
 
No caso, à Mia.
 
...à Mia e às memórias daquela quinta à noite. Rodando, de novo e de novo, na minha cabeça. O bar, as ruas do Itaim, o carro na volta, o elevador, o quarto, nossas roupas no chão, ela embaixo de mim, as suas pernas, o seu gosto, as suas mãos, eu embaixo dela, do lado, entrelaçadas, os lençóis bagunçados de manhã, a tranca da porta, as risadas, as conversas preguiçosas, o sorriso dela no café da manhã, o ônibus lotado, o beijo escondido e aquele sentimento que não me largava, tudo. Cada droga de segundo do lado dela. E agora a desgraçada não me escrevia, não falava nada há horas. Mais de 24 horas. Desde que voltou para a sua realidade heterossexual de merda, para aquele namoro. Inferno, Mia, por que você não pega a porra do celular e me responde, caralho?
 
Sentia cada lembrança amargurar dentro de mim, conforme soltava a fumaça pela boca. Argh. Aquilo estava acabando comigo. Eu precisava achar um jeito de me distrair até o fim de semana acabar – o problema é que eu notavelmente não sabia me distrair de outra forma que não envolvesse álcool ou sacanagem. E naquele momento, eu não tinha um puto no bolso. Então, vejam bem, que opção eu tinha?
 
É. Hora de acordar, São Paulo.

julho 16, 2010

Birra

_Nossa, “mãe”, fiz alguma coisa errada?! – ele começou a rir – Que cara é essa, meu?
_Nada... – voltei ao meu prato, irritada – Foi só uma pergunta, Fernando.
_“Fernando”?
_“Fer”, tá, que diferença faz?
_Mano, que bicho te mordeu...? – ele riu.
_Não enche! – respondi sua provocação, rancorosa, e enfiei o macarrão na boca, tentando sair dali.
_Ihhh... que foi? – zombou minha irritação – Comeu e não gostou?
 
Olha, pelo contrário.
 
_E-eu tô... tô... – eu me preparei para mentir, descaradamente, na tentativa de deixar as coisas melhores – ...com uns problemas aí. Deixa quieto, não tô bem hoje.
_Quer conversar, meu?
_Não, de boa.
_Beleza... – ele pegou na minha mão, como se me apoiasse silenciosamente, e aquilo simplesmente acabou comigo.
 
Escondi o olhar e a minha própria vergonha no maldito prato de macarrão, odiando toda aquela situação. Odiando o Fer por sabe-se-lá o que tinha feito com a Mia na noite anterior e odiando a mim mesma, acima de tudo. Afinal, ele podia não ser o melhor namorado do mundo, mas valia mil vezes mais do que eu como amigo. Merda. Eu tossi, rapidamente – estava comendo apressada demais e aquilo começava a não me fazer bem.
 
_Então, meu... – ele retomou, mudando de assunto numa tentativa de acabar com o climão – ...ontem fomos na festa do Vini. A Mia tava vendo umas poscas lá, que a mina do Vini comprou e tava mostrando. Ela curtiu pra caralho. Pensei em dar umas para ela de aniversário... Que cê acha? Sabe qual é?
_Hum...
 
A primeira menção à Mia embrulhou meu estômago na mesma hora.
 
_Foda só que é caro – suspirou – Preciso ver quanto tenho de grana ainda. Manja qual caneta que é, né?
 
Acenei que “sim” com a cabeça, sem dizer nada, sentindo uma contradição violenta de emoções dentro de mim e me segurando para não levantar e ir almoçar em outro lugar.
 
_Sei lá, é só uma ideia... – murmurou e então me olhou – Você vai, né?
_Vou onde?
_No aniversário.
_Não sei – abaixei a cabeça, me resumindo à minha insignificância – Não tô sabendo de nada.
_Hum... – ele desviou o olhar para o lado, como se pensasse em outra coisa, mas depois voltou ao papo de elevador – Foi legal ontem... tava maior galera lá.
_É? – murmurei, sem muito interesse.
_Não te chamaram, meu?
_Chamaram. Acho que sim... Eu é que esqueci, sei lá. O Vini me mandou um lance no Facebook semana passada, mas eu nem vi... Não me toquei que era ontem.
_A Mia me perguntou se cê não ia... – meu interior se contorceu de novo – ...os caras também, a Bruna...
_Perguntou? – retruquei, interessada no interesse da Mia.
_Perguntou o quê?
_Se eu ia?!
_Quem?
_Não... – caí em mim – ...nada, esquece.
_Mano, espera... você pegou a Bruna?? – o Fer riu.
_O quê?! Não!!
_Não entendi, então...
_Não entendeu o quê?!
_Do que você tava falando.
_Do que você tá falando?? – eu forcei um tom de indignada – E meu, por que cê sempre acha que eu peguei as minas que a gente conhece, mano?!
_Não, só presumi... – ele riu, mais uma vez – Achei que cê tava aí curiosa dela ter perguntado sobre você.
_Pois presumiu errado.
_Tá, é só que... – o Fer continuou de gracinha e aquilo me irritou de verdade – Cê sabe, né...
_Não, não sei.
_Vai, concorda comigo que era no mínimo “possível”.
_Eu?! – olhei para ele, puta – E a Bruna? Eu e a Bruna?! Tá.
_O que? É possível!
_Vai se foder, meu.
_O que foi?! – ele riu.
_Ela sequer pega mina, porra... O que tem a ver??
_Ah! Como se isso impedisse! – ele tornou a rir.
_Olha... Eu não peguei ninguém, Fernando.
 
Me levantei bruscamente e tirei o meu prato da mesa, colocando-o de qualquer jeito na pia.
 
_Êê... Tá difícil hoje, hein? – ele se encheu – Não dá nem pra brincar, meu!
_Tá, tá mesmo.
 
Resmunguei e saí.

julho 13, 2010

Saturday, wait

Abri os olhos lentamente, ainda cansada apesar das horas mal dormidas, e o meu primeiro pensamento foi ela. Mia. Rolei o meu corpo na cama, aos poucos, me enroscando confusamente no lençol, na tentativa de chegar até a beirada e recuperar meu celular em algum lugar. Me estiquei ali, mas estava exausta. Meu corpo pesava mais do que o normal na cama, talvez por todo aquele trânsito mental, e eu não conseguia, de jeito nenhum, nem por decreto, achar a porra do celular no meio daquela bagunça. Foda-se, desisto. Larguei as roupas e tralhas que tirei do chão. Não tá aqui essa merda.
 
Deitei novamente, com as costas contra o colchão, empurrando os lençóis de qualquer jeito com as pernas para me desfazer daquele nó no qual eu havia me enfiado. Só aquilo já foi suficiente para me cansar ainda mais – estava acabada. Me esparramei na cama e cruzei as mãos atrás da cabeça, por debaixo do travesseiro. Nisso, olhei para o outro lado e vi o meu celular caído ali, preso entre a parede e o colchão. Aí está você, desgraçado.
 
Resgatei-o do vão da cama e olhei para a tela, na esperança de encontrar uma mensagem dela, mas não tinha mensagem alguma. Abri a caixa de entrada e... nada. Havia, porém, uma na de saída. Merda. Cliquei, sem realmente querer ver o que estava ali, consciente de que se tratava de um lapso irrefletido do meu desespero na noite anterior, quando provavelmente me encontrava entre o sono e o “acordada”. E seja lá o que fosse, o que digitei naquela droga de telefone, era burrada na certa.
 
E é, era.
 
Mal li a pergunta contida no SMS e já larguei o celular fora da cama, com raiva de mim mesma. É óbvio que ela estava com ele, sua imbecil. Com quem mais ela poderia estar?, eu apertei as mãos contra o rosto, indignada com a obviedade da minha pergunta. Aquilo foi extremamente desnecessário. A Mia não só não respondeu como, pior, eu declarei com todas as letras o meu descontrole. Argh. Afundei no travesseiro, me odiando. E levei algum tempo para me recompor, eu sou uma idiota.
 
Quando me levantei, vasculhei o armário atrás de uma blusa larga e confortável. Apanhei meu maço no bolso da calça do dia anterior, largada no chão, mas desencanei de vesti-la. Já está feito, que se dane, tentei esquecer aquela mensagem vergonhosa e saí para a cozinha, rodando o isqueiro em mãos. Peguei uma panela e coloquei água para ferver. Miojo – a solução rápida para os meus problemas. Não comia nada desde o almoço no trabalho. Estava faminta.
 
_Ah, você tá aí... – ouvi a voz do Fer, a alguns metros atrás de mim, enquanto eu me espichava para pegar o pacote na prateleira.
 
Bosta, apertei os olhos. Não queria acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Respondi com um resmungo qualquer, sem me virar, e tentei focar na minha pseudo-refeição. Pretendia ignorar a presença dele o máximo que pudesse e evitar qualquer contato visual. No entanto, ouvi o Fer arrastando uma das cadeiras e imediatamente desejei que não o fizesse...
 
Pois fez.
 
_Pô, parece que faz mó cara que não te vejo... – o Fer fez graça, sendo simpático – Cê ainda mora nesse apartamento?
_É, né... sei lá, a gente se desencontrou, eu acho – respondi, encarando com insistência a panela, o fogão ou qualquer coisa que não fosse o meu colega de anos cuja namorada eu, deixa pra lá.
_E o show lá que cê ia? Foi bom?
_Aham.
_Você foi com quem mesmo? O Gabriel?
_É...
_No Itaim?
_Hmm-hum...
_E ontem, saiu? – ele continuou, como se não tivesse nada melhor para fazer a não ser sentar ali e me assistir cozinhando.
_Encontrei a Marina depois do trampo.
_Ahhh... a Mariiina... Pô, anda vendo bastante ela, hein? Dormindo lá, saindo juntas... – ele riu, animado com a primeira informação não-onomatopéica que eu lhe dava – Tá rolando um flashback aí?
_Não. Sei lá... – murmurei indiferente, sem querer prolongar a conversa.
 
E aí, lamentavelmente, percebi o problema da minha escolha de refeição. Aquela porra ficava pronta em três malditos minutos – o que me levava diretamente à mesa onde o meu amigo se encontrava. Droga. Escorri a água e levei o máximo de tempo que pude para espalhar o pó vermelho do pacotinho pelos fios tortos de macarrão. Peguei um garfo na gaveta à minha frente, apanhei o prato e sentei grosseiramente na mesa, ainda sem conseguir olhá-lo.
 
_Cê tá bem, meu? – o Fer estranhou.
 
Não respondi. Apenas acenei que com a cabeça, enquanto enrolava uma porção no meu garfo. E o Fer pareceu desistir de conversar, por um momento me senti aliviada. Mas ele continuava lá. Ele e a sua presença indesejada. E junto com ambos, aquela porra de silêncio. De repente, todos os questionamentos da noite anterior começaram a me assombrar, involuntariamente subindo pela minha espinha, e eu suspirei fundo na tentativa de me livrar daquele ciúme. O que só o piorou, claro. Talvez fosse a proximidade – física – na qual eu me encontrava do Fer, sem saber por onde ele esteve ou com quem. Ou talvez fosse só o silêncio crescente entre nós, não sei. Mas sei que, de repente, eu parei. Larguei o talher de qualquer jeito no prato e apoiei os braços prontamente na mesa.
 
_E você? – o encarei – Saiu ontem?!

julho 12, 2010

It's just the price I pay

...

It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss...
It was only a kiss...

Now I'm falling asleep
And she's calling a cab
While he's having a smoke
And she's taking a drag

Now they're going to bed
And my stomach is sick
And it's all in my head
But she's touching his chest now
He takes off her dress now

Let me go
'Cause I just can't look
It's killing me
And taking control

Jealousy.

(The Killers)

julho 09, 2010

Subjetividade

Atravessei o corredor em silêncio – a cabeça a mil.
 
Por favor, não esteja acordado, não esteja acordado, não esteja acordado, por favor, não sai do quarto, não vem falar comigo, por favor, fica aí, não sai, não, não esteja acordado, não esteja acordado, não esteja acordado, por favor, não esteja acordado. Olhei rapidamente no relógio do banheiro e aquela desgraça marcava 21:42. Merda. Ele não vai tá dormindo a essa hora, nem a pau. Inferno. Acelerei o passo pelo corredor e fechei a porta do quarto atrás de mim, o mais rápido que pude.
 
Suspirei. E fiquei um tempo parada ali – com as mãos para trás, ainda segurando na maçaneta, e as costas apoiadas na madeira. A salvo. É. Era covarde, talvez até exagerado, mas eu não conseguia encará-lo ainda. Não o meu melhor amigo. Não depois do que eu fiz. Olhei para frente e notei que todas as minhas coisas continuavam ali, no escuro. Exatamente do jeito que eu as havia deixado, espalhadas pelo quarto, imóveis. Nada fora do lugar, nada diferente. Nem um ruído sequer.
 
Espera. Fácil demais.
 
Senti a minha respiração acelerar aos poucos no peito, como se algo estivesse errado – nada naquele apartamento se movia. Nada além de mim, tropeçando no meu próprio nervosismo. Nada. Ninguém. Claro, é sexta! E no mesmo instante em que a ideia cruzou a minha mente, o meu coração disparou. Sexta à noite. Sexta-feira, puta que pariu. Me virei na mesma hora, abrindo novamente a porta. E enfiei a cabeça para fora – não tinha ninguém no corredor, nem um barulho sequer. Ele não estava lá.
 
Fechei a porta de novo. Droga, droga. E fiquei quieta por mais algum tempo, sem acender a luz, em pé no quarto vazio. O meu coração estava prestes a sair pela boca. Merda. Tornei a virar a maçaneta e saí para o corredor, incomodada. Andei até o final, onde estava a porta do quarto do Fer, fechada. Abri e... nada. Então voltei o corredor inteiro até a cozinha. Acendi a luz e vi, não tinha ninguém. Na sala, a mesma coisa. No banheiro, na lavanderia, cômodo por cômodo... Inferno. Não havia ninguém ali.
 
Sentei na poltrona da sala, inquieta, e acendi uma ponta de baseado que estava largada no cinzeiro. Ele não tá aqui, me pus a pensar, torturando a mim mesma de um jeito realmente estúpido enquanto tragava, lógico que ele não tá. O que diabos ele estaria fazendo em casa numa sexta à noite? Como eu sou idiota, porra. Uma idiota. Ele... e-ele tá com ela. Eu sei que tá.
 
Caralho.
 
Argh. Respirei fundo, encarando a mesa – mas logo sucumbi mais uma vez ao nervosismo das minhas mãos. As meti contra o rosto, deslizando-as na cara, agoniada. E imediatamente a minha imaginação foi tomada por uma avalanche de pressuposições, pensamentos insuportáveis, supondo obsessivamente tudo o que ele poderia estar fazendo naquele exato momento com, c-com a Mia. Com a minha Mia. A garota com quem eu tinha passado a melhor noite da minha vida. A garota que eu amava, porra, mas que inferno.
 
Ergui novamente a cabeça e lá estavam eles – todos os nossos móveis e vinis e tralhas e todas as coisas que eram nossas. O nosso apartamento. Vazio. E aquela dúvida me provocando a cada maldito canto inabitado. Ele é meu amigo. É meu amigo, eu reforçava para mim mesma, e quem está errada sou eu, tentando combater qualquer ressentimento que pudesse surgir ao imaginar o Fernando passando a noite com, c-com as suas mãos na, na minha, na droga da, da Mia. Puta que pariu.
 
Aí, sim, comecei a surtar.
 
De tal forma que só o ato de permanecer sentada requeria um esforço tremendo. A ponta já queimava o meu dedo de tão pequena, mas eu fumava compulsivamente. Preciso fazer alguma coisa. Ele, ele não pode simplesmente... Não. Hoje não, porra. Não depois que eu... Caralho. Caralho, não! Eu tenho que fazer alguma coisa. Qualquer coisa, inferno. Mas por mais que eu me esforçasse, nenhuma ideia saía de mim. Sequer conseguia terminar um pensamento só que fosse, tomada por um ciúme que eu não reconhecia, consumida por um desejo irracional de impedir que os dois passassem a noite juntos.
 
Se é que estão juntos, me contive de repente, num lapso de sanidade. O Fer pode estar em qualquer lugar, eu é que preciso me controlar, porra. Tá. Talvez eu devesse ligar só pra... Não. Mano, não. Para. Para! É possível que ele nem esteja com ela e aí eu vou pagar de louca. Não, nem pensar. Não posso. Mas... m-mas onde mais ele estaria? Ele só pode estar com ela. Só pode. Filho da mãe. Esse, e-esse desgraçado, juro, se ele tiver comendo a Mia agora..., senti o meu ar faltar. Apoiei mais uma vez o rosto nas mãos, sem conseguir respirar direito, agoniada.
 
Não.
 
Não!
 
Não, porra. A, a Mia não faria isso... Não depois que nós duas... Não, ela, e-ela não conseguiria. Não faz nem 24 horas. Ou... Conseguiria? Meu coração acelerava, incapaz de tirar a imagem da minha cabeça. Tirei o celular do bolso e olhei rapidamente para o visor – ainda nenhuma mensagem dela. O fato da Mia não ter me respondido o dia todo só piorava a situação. Onde você se meteu? Suspirei, torturada. É claro que conseguiria. Ela, ela é a porra da namorada dele, sua idiota. O que mais ela vai fazer numa sexta à noite? É isso que eles fazem. O tempo todo, inferno. Enchem a cara e trepam e dormem e acordam e trepam de novo. A essa altura, o Fer já deve tá..., me recusei a sequer pensar nas possibilidades fisiológicas daquela merda, ...não.
 
Chega.
 
Eu precisava me controlar. Eu vou tomar um banho e ir para a cama, pensei. Preciso dormir, já chega. Não vou pensar mais nisso. Vou esquecer esse drama todo e dormir. É. É isso. Esse é o plano. Me levantei, apagando o último milímetro de ponta restante na mesa – decidida a só lidar com aquilo no dia seguinte. Mas, m-mas e se ela passar o fim de semana com ele?, a minha mente disparou antes mesmo de eu chegar no corredor, e se eles...? Argh.

julho 08, 2010

Saída de incêndio

32... 33... 34... 35... 36... 37... Cheguei ao 38º degrau da escada do meu prédio, sem saber direito porque eu havia decidido subir por ali ao invés do elevador. Não via um travesseiro direito há dois longos dias e o cansaço me fazia arrastar os pés entre os degraus. Isso é patético. Exausta e meio atordoada, me sentei no degrau de número 39 e coloquei os pés no 38, apoiando os antebraços sobre as minhas pernas. Olhei para a parede em frente a mim e a situação toda me incomodou.
 
O que diabos eu tô fazendo?, afundei o rosto nas mãos.
 
Argh. Não tinha nada ali – só eu e as minhas ideias brilhantes. Inferno, me irritei comigo mesma, enquanto olhava para as paredes sujas e descascadas que cercavam as escadas. Ainda faltavam muito mais do que os 30-e-poucos degraus iniciais. Quis me levantar na mesma hora, num impulso de sair daquele buraco em que me meti, mas alguma coisa me segurava ali.
 
Fernando.
 
E a muitos-e-não-sei-quantos degraus da porta do nosso apartamento, de repente, eu perdi a coragem. Caralho. Enfiei a cabeça mais uma vez entre as mãos, sozinha naquela área abandonada do prédio. É. Eu estava enrolando – e no fundo, eu sabia. A demora para sair do bar, a conversa fiada com a garota do caixa, minhas últimas palavras em excesso no carro da Marina e a contagem lenta dos meus passos enquanto subia escada acima. Tudo até então, evitando a porra daquele apartamento e a realidade para a qual eu não queria voltar tão cedo.
 
Mordia o dedo de leve, sem perceber a ansiedade que gritava em mim, fazendo um esforço mental enorme para esquecer tudo aquilo. Respirei fundo. E encarei mais uma vez a merda da parede à minha frente – cinza, velha e feia. Que se foda, pensei para mim mesma, batendo as mãos nos joelhos, e levantei. Vamos acabar de vez com isso. Terminei de subir os degraus e entrei no corredor do meu andar. Podia ouvir os meus passos ecoarem no escuro, junto com o barulho da porta corta-fogo que se fechava atrás de mim. Tirei a chave do bolso com certo nervosismo. E repeti para mim mesma em pensamento – não dá pala, porra.
 
E antes que pudesse perceber, já estava atravessando a nossa sala de estar com pressa.

julho 07, 2010

Duas horas depois...

Tá. E que tal agora?

julho 05, 2010

Happy Hour

_Já posso dizer?
 
A Marina mordeu a boca, contendo certa felicidade, e eu a encarei de volta sem entender, apoiada no balcão.
 
_Dizer o quê?
_Que... “Eu te disse”?! – ela sorriu, satisfeita.
_Disse o quê? – eu me repeti, sem saber a que ela se referia.
_Como o quê? O que eu te disse quando você começou com essa história toda?!
_Não sei... O que cê disse?
_Meu, alguma coisa do que eu falo entra nessa sua cabeça? – ela riu – Quando a gente foi almoçar aquele dia, boba, que você me contou da Mia... o que eu te disse? Não falei que ela estava saindo do armário? Pois olha aí.
_É, espertinha... Mas você também me disse, uns dias atrás, que ela não me amava. Não é? Que as mulheeeres e as héééteros sentem as coisas de forma diferente e o caralho a quatro e que eu tava me enganando e blá blá blá... – revirei os olhos, nitidamente irritando a Marina – ...não foi o que cê disse? Hein, ô Einstein?!
 
Eu ri, arqueando a sobrancelha de volta para ela. E a Marina deu de ombros, como se aquilo não tivesse importância – como se não diminuísse a porcentagem de acertos dos seus palpites sobre minha vida amorosa.
 
_Disse... – retrucou – Mas eu tava certa para começo de conversa. E outra, você não sabe se a Mia te ama!
_Se não ama, vai amar...
_Jesus – riu – Cê é tão arrogante que chega a ser ingenuidade.
_Mas é que, Má, foi muito bom. Tão, tão bom... – esfreguei as mãos no rosto, suspirando – ...cê não tá entendendo! Não é possível que a Mia não tenha sentido o mesmo que eu, puta merda, só pelo jeito que ela me... – interrompi a frase, lembrando de cada vez que a Mia se meteu no meio das minhas pernas – ...sabe, as coisas que a gente fez, o jeito. Porra, não é possível! 
_É. Assim, no mínimo, é sugestivo... – a Marina sorriu – ...e olha, até tive lá minhas dúvidas, achei que talvez pudesse ser só curiosidade, mas realmente parece ter sido bem intenso... 
_Nossa, e como. Acho que nunca tive uma primeira vez tão intensa com alguém, Má, não assim... – respondi – Parecia que encaixava, sabe? O beijo encaixava, as nossas pernas, puta que pariu, as baixarias, a falta de vergonha na cara, tudo. Eu nunca imaginei que pudesse ser assim. Que a Mia fosse ser assim. Não sei, foi foda.
_Ai... – ela segurou a minha mão – Mas eu me preocupo, linda. Não quero que você se enrole mais ainda nessa confusão.
_Olha, depois dessa noite, a Mia por me enrolar onde ela quiser.
_Sei... – a Marina riu.
_Sério. Eu casava com essa mina amanhã. Amanhã! – fiz graça – E meu, cê pode escrever aí, a gente ainda vai ficar juntas. Eu sei que vamos.
_Ah, é? E seu amigo Fernando já foi informado sobre isso?
 
Engoli seco.
 
_Porra... Não precisava dessa, né, Má.
_O quê? Você esqueceu com quem cê mora? Hum?! – ela arqueou a sobrancelha enquanto dava mais um gole, já no fim do seu gim tônica – Com quem ele dorme quase toda noite?
_Não, não esqueci – a fuzilei com os olhos – Mas hoje, só hoje, eu queria aproveitar e ficar feliz pelo que aconteceu sem ter que pensar nessa merda toda – continuei – Só por um dia. Pode ser? Cê deixa?
_Deixo, deixo...
_Já não basta eu ter que lidar com essa droga todo santo dia...
_Eu sei. Desculpa, linda – ela sorriu, soando genuinamente arrependida.
 
Mostrei a língua rapidamente para ela, fazendo graça, e me virei para pedir uma água ao cara do bar. Ainda de ressaca. E tá – no fundo eu sabia que, em algum momento, ia ter que sair do meu estado bobo-alegre depois do encontro e encarar a realidade da qual a minha ex-namorada tão inapropriadamente me relembrara. Só que, não, não agora.

julho 04, 2010

Procrastinando

Rodei o cigarro entre os dedos, levantando-o bem na frente do meu rosto, e encarei as cinzas acumuladas por cima da brasa. Último do expediente. Aproximei-o da boca, sentada no degrau da saída do estúdio, e assoprei na direção da ponta, fazendo com que as cinzas voassem mais adiante na calçada.
 
Sim – eu estava enrolando, descaradamente.
 
Até poder pegar minhas tralhas e cair fora. Já eram quase seis da tarde, o horário em que oficialmente seria declarado o fim de semana, então eu fumava lentamente. Sem pressa. Meus colegas de trabalho iam e vinham com seus próprios maços e eu continuava sempre lá, ignorando propositalmente as minhas obrigações. Garanti que a brasa só atingisse o filtro quando o meu celular já indicava os últimos cinco minutos de labuta daquela sexta. Perfeito. Me levantei, jogando a bituca para o lado, próximo de onde a parede do estúdio encontrava com a calçada. E voltei para pegar minhas coisas na sala de edição.
 
As piadinhas sobre a minha noite não-dormida já haviam cessado há algum tempo, graças ao desgaste e desânimo que a rotina de trabalho impunha aos meus colegas. Mas não a mim – eu tava imune a qualquer bad naquela sexta. Peguei o celular, checando rapidamente se a Mia já tinha respondido alguma das minhas mensagens – o que não havia acontecido ainda –, e disquei para a Marina enquanto me dirigia mais uma vez à porta.
 
_Tô aqui já – ela me respondeu, com o barulho de outras pessoas de fundo – Onde cê tá?
_Saindo do trampo, já tô indo.
 
A distância até o bar onde combinamos de nos encontrar era pequena o suficiente para eu ir andando, caso a minha pessoa contasse com um pouco de boa vontade e disposição. No entanto, a ansiedade de dividir com alguém tudo o que aconteceu comigo nas últimas 24 horas – fosse para a Marina ou qualquer outra pessoa capaz de guardar segredo – me impulsionou a subir no primeiro táxi que passou livre pela Heitor Penteado. E em menos de cinco minutos, eu estava no bar.
 
_Vai... – a Marina riu, ao me ver chegando no balcão – ...me conta.
_Quê?!
_Olha a sua cara, meu!
_O que foi?? – perguntei, estranhando o tom de acusação antes mesmo de ganhar um ‘oi’ – Que que eu fiz?
_O quê, né? – ela devolveu a pergunta, achando graça.
_Ih. Não entendi...
 
Balancei a cabeça e dei de ombros, sentando no banco ao lado dela. A Marina já tinha um copo de gim tônica na sua frente e a blusa desabotoada até onde batia o seu cabelo. Estava com o seu visual clássico de “jornalista de esquerda”, como eu costumava chamar na época em que namorávamos – uma camisa branca de linho com mangas dobradas até metade do braço, uma trança de lado e uma calça ferrugem de cintura alta. E aquela cara de quem sabe mais do que você está contando.
 
_Ah, tá. Você me liga espontaneamente – enfatizou – numa sexta-feira, me chamando pra sair, diz que não pode esperar, faz todo esse suspense; daí vem aqui e me aparece com esse sorriso de quem aprontou... Sinceramente, né?
 
Até tu, Marina?
 
_Porra, não sei qual é a de todo mundo comigo hoje.
_Já pensou em talvez, assim, quem sabe, tirar esse sorriso de idiota do rosto? – ela riu.
_Nossa... Credo! Parece que eu sou a pessoa mais rabugenta do mundo, mano...
_E não é?
 
Ela retrucou, me zombando.
 
_Vai se foder.
_Tá vendo, ô pequeno poço de alegria?
_Eu sou uma pessoa feliz pra caralho, meu. De onde cês tiram o contrário?
_A começar que cê disse “vocês”, não é, no plural... O que indica que eu não sou a única que acha isso. Talvez você devesse rever seu conceito de “feliz”.
_Cara, claro que não. Eu tô sempre de boa! Eu praticamente sou a definição de felicidade.
_Não, não. Você é que nem aquele cachorrinho do desenho animado... Como era o nome dele? O que olha com cara de cu e diz “eu estou feliz”? – ela riu, de novo – Sabe?
_Eu não pareço um cachorro, Marina... – resmunguei.
_Tá, tá... – ela balançou a cabeça, rindo, e me olhou – Mas, afinal, vai contar ou não?