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setembro 15, 2010

As boas intenções mal-interpretadas

Rodamos aleatoriamente pelos corredores da locadora, entre as fileiras intermináveis de DVDs, rindo. A Mia ia na frente, naquele moletom tão grande que sequer parecia ter uns shorts ali embaixo, pegando as piores comédias românticas da prateleira e tirando sarro dos títulos terrivelmente machistas. “Namorada de aluguel”, “Tudo para ficar com ele”, “Procura-se uma noiva”, “As namoradas do papai” – para cada um, uma revirada de olho. Eu ria junto.   
 
Nos divertíamos meio à toa pela loja. E só quando chegamos na seção de desenhos animados, foi que a Mia notou a sua camiseta na minha mão. “Essa aí é a minha?”, perguntou e eu confirmei com a cabeça. Se cê soubesse o problema que esse maldito pedaço de pano me causou ontem, pensei e ri da minha própria desgraça. Ela sorriu e continuou andando, a alguns passos na minha frente. Notei que um dos rasgos da sua meia-calça circulava quase certinho – num acaso charmoso – um pequeno escravelho que ela tinha tatuado atrás do joelho.
 
_E esse CD aí, o que é?! – a Mia olhou rapidamente para trás, na direção da minha mão, indo para o corredor seguinte.
_É seu presente...
_Hum. Então quer dizer que tem mesmo um presente?!
_Tem... – peguei um dos encartes para olhar, logo colocando-o de volta – ...por quê?
_Ah, sei lá... – ela sorriu, por cima da prateleira que nos separava – ...quando eu li a mensagem, eu pensei q-que... o presente era, tipo, você.
 
O meu rosto se iluminou involuntariamente.
 
_Bom, não precisa falar duas vezes... Eu jogo isso fora e problema resolvido! – fiz graça, erguendo o CD, como se fosse largá-lo no chão.
_Nããão! Eu quero ele! – ela contestou na mesma hora, se debruçando sobre a prateleira, tentando pegá-lo da minha mão.
_Não, não, não, não... – me desvencilhei, escondendo-o atrás de mim – ...eu gostei mais da sua ideia.
_Não foi minha ideia! – a Mia deu a volta até a fileira que eu estava – Achei que você tivesse pensado isso. Para!
_Eu?! – forcei um tom de indignada, enquanto ela tentava puxar meu braço de trás das costas pra alcançar o CD – Cê que pensa besteira aí e depois vem jogar pra cima de mim... Eu não falei nada disso! Eu disse que tinha um presente. Pre-sen-te.
_É, mas eu achei que era só uma... – continuou – ...uma desculpa pra... p-pra...
_...pra ver você? – eu ri mais ainda, resistindo aos esforços dela – Tá se achando, hein?!
_Mano... Você que se acha, pra começo de conversa!
_Não o suficiente para me oferecer como presente de aniversário... Isso, assim, só na sua cabeça!
_Besta! – ela riu, desistindo, e cruzou os braços – Deixa eu ver, vai?
_Não.
_Por favor!
_Não, meu, cê vê na sua casa... – balancei a cabeça – Vem. Vamos escolher um filme!
 
A Mia resmungou, contrariada, e eu coloquei meu braço sobre os seus ombros, dando-lhe um beijo na bochecha. E então, sem combinar, fomos juntas para a seção de terror. Eu amava isso na gente. O jeito como gostávamos das mesmas coisas, numas coincidências que me faziam sorrir. O Fer não era desses – volta e meia a gente gastava horas, às vezes uma tarde inteira para convencê-lo a assistir filme de terror com a gente, já sabendo que provavelmente ele ia vazar no meio. Ele até topava serial killer, zumbi, assassinos mascarados – mas não os de espírito. Esses não. Ao primeiro sinal de possessão ou qualquer coisa paranormal, ele levantava e ia fazer outra coisa. E é, talvez fosse justamente essa a nossa intenção.
 
Agora que estávamos sozinhas ali, escolhendo só para nós, todavia, a tarefa não era tão fácil – considerando o quanto nós duas gostávamos do gênero, não sobrava lá muita coisa que já não tivesse sido vista. Lá pelo oitavo filme que puxamos da prateleira, sem sucesso, decidimos que a melhor estratégia era rever um clássico.
 
_A gente podia levar um de vampiro, né... – a Mia murmurou, deslizando os dedos pelos DVDs enquanto lia rapidamente os títulos – Cê já me falou seu favorito?
_Não sei – tentei lembrar.
_Qual que é?
_Depende. Cê quer a resposta decente ou a sincera?
_A sincera – a Mia riu.
_Tá, mas não pode julgar...
_Não vou, prometo.
_“Fome de viver”.
_Que raios de filme é esse, meu?!
_Ah, aquele péssimo do Bowie...
_Do Bowie?! – estranhou.
_É... – me surpreendi – Espera, CÊ NUNCA VIU ESSE FILME?!?
_Não... – ela riu, de novo.
_Puta merda. Não. A gente TEM que assistir! – comecei a caçar freneticamente nas prateleiras – É um puta clássico gótico dos anos 80, mano, o visual cafona, o Bauhaus, o Bowie. Caralho, eu não acredito que cê nunca viu!
_Nossa, não, nem nunca ouvir falar...
_Como assim?! – eu ri, indignada – Meu, não, para, eu passei a adolescência inteira assistindo esse filme só pra ver a Catherine Deneuve pegando a Susan Sarandon. 
_Hum... – achou graça – Entendi tudo agora.
_Olha, você tá rindo aí porque cê não sabe o que é crescer sapatão vendo só hétero na TV e, de repente, assistir uma cena daquelas. E fora que né, eu já tinha ali uma queda razoável pela Susan Sarandon desde “Thelma & Louise”...
_Quem não tinha, não é?
 
Ela sorriu e eu finalmente encontrei o DVD da prateleira, pegando-o na mesma hora, animada.
 
_Aqui. Achei!

setembro 13, 2010

Ventando

Joguei o cigarro ainda aceso na sarjeta, soltando o último lance de fumaça em direção ao céu cinzento. Eram duas e meia da tarde. Meti a mão no bolso da calça e pus-me a andar novamente. Devia ter trazido um casaco, me arrependi por um instante, enquanto caminhava contra o vento com os braços de fora, numa calçada fria de bairro nobre.
 
A casa da Mia ficava na pior localização possível. Se fosse umas quadras mais para lá do que pra cá, dava para ir de metrô. Se fosse umas mais pra cá do que para lá, dava para ir a pé – mediante a uma certa disposição minha e, claro, aquela colaboração climática. Mas não, não, tinha que ser bem ali, no único ponto que requer manobra em Higienópolis. Pra lá do Samaritano. Daqueles cantos que só se chega de carro, sabe, bem coisa de rico.
 
_Ela disse que vai descer... – o porteiro me avisou, simpático, e me deixou esperar do lado de lá do portão.
 
Entrei e mantive uma das mãos no bolso, numa tentativa frustrada de me manter minimamente aquecida, enquanto olhava os canteiros de flores da entrada do edifício. Sem prestar realmente muita atenção. Na minha outra mão, estava a blusa da Mia, devidamente dobrada, e um CD. O meu cabelo provavelmente se encontrava naquele estado “atraente” pós-ventania e sei-lá-quantas quadras andadas desde o ponto, mas eu estava com frio demais nos dedos para me importar. Deixa pra lá, pensei. E quando dei por mim, a Mia já estava atravessando o pátio de entrada do prédio em seus coturnos surrados. Sorri na mesma hora.
 
_Cê não tá congelando, meu?! – ela riu, num moletom preto que era pelo menos dois tamanhos maiores do que ela e com uma meia-calça preta rasgada por baixo, acidentalmente punk.
_Eu?!
_É, aí toda “verão” com essa blusa. Cê não tá com frio?!
_Pra caralho... – eu ri e ela achou graça, revirando os olhos para minhas escolhas questionáveis de roupa.
_Tá. Então desencana, acho que é melhor a gente subir...
_Desencana do quê?
_Ia falar para a gente passar na locadora, preciso devolver uns filmes e também queria comprar cigarro, mas você tá toda descoberta aí, meu. Vamos lá pra cima e eu faço isso depois...
 _Não, mano, nada a ver... Vamos lá, eu vou com você, de boa.
_Certeza?!
_Claro. Demorou...
 
Eu sorri. E ela fez um sinal para o porteiro para que ele liberasse a porta da frente. A tranca estalou e o portão rangeu ao puxarmos a grade, soando mais cansado do que velho na cabine. A Mia saiu primeiro e eu a segui, indo logo atrás. Na rua, andamos lado a lado e o seu braço se enroscou no meu, me envolvendo naquele tecido fofo e quentinho, confortável contra a minha pele gelada. A locadora não era longe, mas o vento estava impetuoso.
 
Foi só quando paramos no meio-fio para atravessar que eu a olhei com atenção, conforme os seus olhos se distraíam com o movimento dos carros, na direção oposta à minha. E notei o quão linda estava era. O meu coração acelerou, enquanto tudo ao redor parecia mais lento. O vento fazia com que os fios do seu cabelo esbarrassem contra o seu rosto. Aí se prendiam à sua boca entreaberta, sutilmente, até mudarem novamente de posição ou voarem para o outro lado, como se dançassem no ar. Caralho. Observei-a, encantada, pelo que me pareceu uma eternidade.
 
_Vem! Vem! – a Mia me apressou de repente e riu, desenroscando rapidamente o seu braço do meu assim que o trânsito parou, e me puxando pela mão para cruzarmos – Vem!
 
Oportunidade de beijo perdida, droga.

setembro 10, 2010

Expectativa

Passei as horas seguintes sentada em frente ao PC. Tomada por uma energia repentina, numas ideias erradas apaixonadas. Àquela altura a Mia estava em alguma aula tediosa de arquitetura no Mackenzie e isso me dava tempo para fazer as coisas da única forma que eu sabia – isto é, compulsivamente. Lá pelas dez, quando enfim terminei, procurei o celular em meio à bagunça da mesa.
 
“Ontem ñ te dei seu presente, oq vc vai fazer dps da aula? ;)”, digitei e aí esperei a resposta, ainda com os pés sobre a mesa.

setembro 09, 2010

Ócio criativo

Mas não veio. Sei disso não porque me lembro, mas porque quando o frio me acordou e amanheceu do lado de fora, a Mia não estava lá. Não tinha ninguém ali comigo. Minha cama estava vazia – como sempre. Sozinha entre os lençóis, a minha memória custava a recordar como eu havia chegado da porta até ali. Deve ter sido a bebida, pensei, ao abrir os olhos e sentir um enjoo horrível, afundada no meu próprio cabelo com cheiro de cigarro. O meu braço despencava do colchão, descoberto, e a minha cabeça parecia pesar mais do que o normal contra o travesseiro.
 
Ressaca.
 
Argh. Tinha preguiça até de me mexer – o restante da cama não estava tão quente quanto o pedaço onde eu estava deitada e isso me tirava toda a coragem de sair dali. Despertar um músculo sequer parecia um esforço desnecessário. Ô manhãzinha ingrata, resmunguei mentalmente, azeda. Mas, ainda assim, me estiquei. Empurrei o corpo levemente para cima, apoiada no braço direito, e usei o outro para alcançar a coberta amassada ao pé da cama. A colcha estava gelada de tanto tempo jogada ali, às traças, mas só de cobrir aquele tanto de pele exposta – de quem dormiu equivocadamente só de cueca e com a janela aberta –, ah, já me deixou bem mais confortável. Me aconcheguei e fechei o olho por um instante.
 
Daí reabri, de repente.
 
Tive a impressão de que o “instante” – que era para ter durado dez segundos – tinha sido bem mais do que aquilo. Merda. Chutei as cobertas para baixo novamente, pulando apressada da cama. Argh, eu odiava levantar assim tão bruscamente, ainda mais de ressaca e com a cabeça doendo. Saí do meio dos lençóis e corri para pegar meu celular no bolso da jaqueta, ainda largada no chão perto da porta. Bosta, xinguei para mim mesma ao ver as horas, bosta, bosta. Apoiei a testa contra a madeira do batente, apertando meus olhos fechados, devia ter saído vinte minutos antes para trabalhar e não estava sequer vestida. Que ótimo.
 
Arrastei-me lentamente até o corredor, abrindo a porta, e fiquei parada por um tempo, observando o silêncio no apartamento. Então atravessei até o banheiro e escovei os dentes para tirar aquele gosto da boca. Ignorando o meu atraso, entrei no chuveiro e liguei a água, fui me deixando tomar por aquele estado contemplativo melancólico de quarta-feira-de-manhã. A água escorria pela minha cabeça e eu me afundava em mim mesma – num cansaço desanimado. Aquela lentidão sem fim. Ao sair, me enxuguei e andei pelo apartamento com o cabelo molhado, pingando pelo chão conforme eu andava.
 
Cheguei na cozinha e parei por alguns segundos em frente à geladeira. Até me decidir pelo ovo – cura-ressaca infalível. Torrada, ovo mexido e uma fatia de queijo por cima. Anos de eficiência. O frio arrepiava o meu corpo descoberto. Lá fora, o dia estava cinza – feio e escuro e bem paulistano. Ainda assim, eu me recusava a acender qualquer luz na casa e a interferir no meu mau-humor. Tinha dias em que se precisa afundar na fossa lama. Peguei meu prato e levei-o para o quarto, sem qualquer senso de urgência. Deixei-o em cima da cama, enquanto me enfiava em um moletom-quentinho-de-dormir.
 
E decidi, não vou pro trampo.
 
A desculpa até que colaria, considerando o quanto eu supostamente já não me sentia bem no dia anterior. Então liguei e avisei. Que se dane. Coloquei uma meia no pé e subi na cama para terminar de comer. E aí... aí... Bom, aí o dia ficou livre, não é. Droga. Eu tinha horas – horas e horas e horas – desocupadas pela frente e nem um maldito plano do que fazer senão me recordar de que continuava sozinha naquela porra de quarto. Um fracasso amoroso ambulante. E deprimida. Para ajudar, a blusa da Mia continuava junto ao resto das outras coisas largadas no chão. Ali, paradinha, só me incomodando. Que inferno. Tentei ignorar aquele pedaço de pano, enquanto ele me lembrava cruelmente com quem eu não havia dormido naquela noite, e pus-me a pensar no que fazer com o meu dia.
 
Tá. Sentada aqui sozinha não vai rolar, levantei e liguei o computador. Meti o som no último volume, claro, na esperança de que aquilo ocupasse o cômodo vazio. A primeira música aleatória tocava enquanto eu rodava a minha playlist atrás de algo que combinasse com o meu humor. Sabe-se-lá quantos GBs de obsessão musical em pastas e subpastas, arquivos baixados ilegalmente ao longo dos anos, centenas de nomes pequenininhos correndo pela tela. E aí, como quem não estava procurando, achei a música que eu havia perdido. É. A mesma da noite anterior. Coloquei os pés cruzados em cima da mesa e deliberadamente pus “Oh You Pretty Things” para tocar, me sentindo vingada.
 
Foi então que me veio uma ideia – e de repente, o mau-humor sumiu. 

setembro 05, 2010

Perdendo melodias

Apoiei a lateral do meu All Star direito na borda do esquerdo. Aí deslizei o pé para cima, enquanto empurrava a borracha para baixo, e fui tirando-o – como se tropeçasse na minha própria lentidão emaconhada. Pisei de meia no chão e, em seguida, fiz o mesmo com o tênis direito. Mal havia entrado no quarto. A minha mão continuava na maçaneta, segurando desajeitadamente o meu corpo embriagado.
 
Diferente da sala, o meu quarto estava em silêncio. Me virei no escuro, ainda brisando, e desabotoei a calça nuns gestos pesados. Qualquer movimento parecia me cansar, dada a lentidão com a qual o tempo se passava na minha cabeça. A minha mente estava vazia. Me ocupava somente em terminar aquele lento despir e ir para a cama – mesmo que eu não estivesse, de fato, com o sono que há pouco havia declarado. Comecei a descer a calça pelas minhas pernas, me apoiando contra a porta, e a larguei no chão, empurrando-a com o pé para o lado.
 
Não, não tinha sono. Não de verdade. Aquilo era rotina, era automático. Deslizei o zíper da minha jaqueta para baixo, vagarosamente, até abri-la por completo. E aí deixei cair um dos lados, descobrindo o ombro esquerdo, para depois terminar de tirá-la pelo direito. Preguiça de andar até o armário, pensei, e também a soltei no chão. Então subi meus dedos pelas minhas coxas, sentindo-os ligeiramente gelados contra a minha pele, até encontrar a borda da blusa. Escorreguei o tecido corpo acima, passando pelo meu umbigo, o top e aí a minha cabeça, bagunçando ainda mais o meu cabelo.
 
E foi então que reparei.
 
A camiseta não era minha.
 
A ideia precisou de alguns segundos, parada ali a encarando, para enfim ser processada. É dela, me inquietei. Era dela e estava ali, estava em mim o tempo todo, e eu tinha esquecido. Agora não sabia o que fazer com ela.
 
Então fiz o que não devia – deixei os meus dedos se afundarem no tecido. Deixei. Deixei a minha pele correr contra o algodão e a puxei para perto de mim. A Mia. A blusa. E é, era idiota. Eu sabia disso, ou devia saber, mas não estava em condições de refletir sobre qualquer uma das minhas ações. Simplesmente continuei, dando trela para o meu próprio romantismo tonto, e irresponsável, agindo como uma adolescente ao invés de largar aquele pano no chão junto ao resto. Com o rosto enfiado no tecido – sentindo o cheiro dela.
 
Inferno.
 
Sentei no chão e apoiei as costas contra a porta, ainda no escuro. Por que eu faço isso comigo mesma? Tinha chegado no ponto mais baixo que poderia chegar, segurando aqueles três palmos de pano amassados contra o peito. Apegada à lembrança. Não estava realmente aborrecida, não estava pensando em nada, aliás. Mas as minhas mãos pareciam sentir o jeito da Mia no tecido, o seu toque. Queria você aqui comigo, garota. E foi aí que me veio uma, uma “coisa”, sabe? Por dentro. Talvez fosse o horário, não sei, talvez fosse só meu coração – ou o tanto de bebida que eu havia bebido e o tanto de fumaça que eu havia fumado. Ou talvez fosse tudo junto e misturado. Sei lá. Mas o que ficou não era um sentimento ruim. Era estranho. Uma coisa meio conto-de-fadas, uma prepotência quase infantil. De que uma hora ela vinha. De que uma hora a porta abria. E quase que por mágica, a Mia ainda mudava de ideia. Aparecia lá e passava a noite comigo. Não com ele, mas comigo.
 
É. Talvez, pensei sem entender, talvez ela venha.

setembro 04, 2010

Crack in the sky

Pisquei e olhei de novo para frente. A Mia. A Mia continuava lá, exatamente onde eu a havia deixado, nem um milímetro sequer fora do lugar. Ali, irracionalmente disponível para mim – e ah, continuava linda. Tão linda. Mas eu já tinha piscado e isso eu não podia mais desfazer. Não se desfaz consciência, não dá. Uma vez que a realidade volta, assim, em nuances bem menos admiráveis de cor, diante dos seus olhos, quem é que consegue voltar a sonhar com a porra do arco-íris?
 
Eu, não. Sabia que as consequências seriam terríveis. Isto é, caso eu continuasse na direção que estava indo – a dela. Aquela parada brusca me rendeu uma dor de cabeça instantânea. Num susto, me movi automaticamente para trás. Que perigo. Mano, que perigo, repeti para mim mesma, conforme recuava. Inconformada com como me deixei chegar tão perto, caralho. Aqueles dois ou três minutos de inconsequência podiam ter se transformado numa verdadeira catástrofe – ah, se podiam. Arqueei a sobrancelha, sem muita coragem, espiando rapidamente por detrás da Mia, para checar o quanto o Fer havia visto de tudo aquilo – que não foi muito, tudo bem, mas que podia ter sido o suficiente.
 
Nada.
 
Seus olhos estavam dispersos, em outra direção que não a nossa, vagando pelo teto, imersos nos versos que saíam da caixa de som – “oh you, pretty things, don’t you know you’re driving your mamas and papas insane?”, o Bowie cantava. Observei-o deitado a poucos-centímetros-de-Mia de mim, com o pensamento longe. Eu, por outro lado, me encontrava mais ali do que em qualquer outro momento daquelas duas horas ou sabe-se-lá há quanto tempo já estávamos largados ali fumando. Provavelmente mais.
 
Deitei com as costas novamente no chão e subi meus olhos para o mesmo teto que o meu melhor amigo contemplava tão distraidamente. Aí suspirei. Entre nós, a garota que bagunçava todo o cômodo. Escutei por um instante o som que tocava na sala – “what are we coming to? No room for me, no fun for you”. Argh. Eu odiava ter que perder boas músicas.
 
_Eu... e-eu acho que... – disse, interrompendo a brisa na sala, olhando sem querer para a Mia ao passo que me levantava ao lado deles – ...acho q-que vou pro quarto.
_Quê? Agora?! – o Fer me encarou, sem entender – Mas cê adora essa música!
 
Pois é. E advinha o que mais eu adoro.
 
Respirei fundo. A Mia se ajeitava ao lado dele, ainda meio fora de órbita, esticando os braços acima da cabeça, paralelos ao chão, num espreguiçar lento.
 
_Acho que não bateu muito legal, sei lá, meu... – justifiquei, já em pé – Tô cansada também.
 
Tentava não olhar tanto na direção da Mia, mas àquela altura já não tinha muito controle sobre os meus olhos – ou o meu coração. O Fer me desejou boa noite, estranhando. Me virei para juntar as minhas coisas, que ficaram largadas no sofá. E só então percebi o quão fora de mim eu ainda estava. Preciso parar com essas merdas, pensei. Em vão. “Em vão” porque, no fundo, eu gostava daquelas merdas e sabia que não ia desencanar tão cedo delas. A questão é que... o problema – o problema mesmo – sempre está muito mais no seu estado de espírito do que nas substâncias que correm pelas suas veias. E o meu estado de espírito atual não era dos melhores.
 
Que seja. Terminei de enfiar nos bolsos da jaqueta todas as minhas chaves e o celular e o restante que ainda estava espalhado sobre o sofá. Peguei meu lenço com a mão e resmunguei qualquer coisa ao cambalear, sem muita estabilidade, fazendo meia-volta em direção ao quarto. Mal conseguia andar direito. Conforme atravessava o corredor, ouvi a voz do Bowie diminuindo... progressivamente... até desaparecer por completo com o fechar da minha porta.
 
Droga, pensei, segurando a maçaneta, eu realmente gostava dessa música.

agosto 31, 2010

Pupilas dilatadas

Foi como ficar sóbria, instantaneamente. Às vezes, mergulhos muito profundos em si são perigosos. E o problema é que quando sua brisa te tira tanto de si mesma, sua mente é obrigada a te puxar de volta – à força. É como quando você recebe a pior notícia da sua vida em meio a uma bebedeira: o mundo automaticamente para de girar e você recupera a razão. Mas aí vem a dor de cabeça. Porque trancos mentais tão bruscos assim não devem ser tão simples, imagino, anatomicamente falando. A sua percepção da realidade entra em colapso de repente, o que não deve ser nada saudável.
 
Mas a culpa mesmo foi das cores.
 
E não se deixem enganar pela pressuposta inocência das mesmas. Não quando se tem drogas demais na cabeça e álcool em excesso no sangue – aí as cores adquirem malícia, entendem, perdem a sua passividade. Foram elas que provocaram a tal submersão perigosa. Começou com os pés descalços da Mia. Os seus pés pálidos de anos sem tomar sol em São Paulo. E tá, eu sei, sei que isso não constitui exatamente uma cor só, mas que se dane. Foi assim que começou. Com a pele dela, esvaziada de cor pelo cinza dos céus paulistanos, contra o azul-marinho do sofá da nossa sala. E continuou, descendo pelas suas pernas. Encostadas suavemente entre si, até os tons castanhos da madeira no piso, frio pra caralho, contrastando ironicamente com o calor que emanava do seu corpo. Espalhava pelas suas coxas. Ia desviando dos desenhos tatuados e descendo. Até a sua calcinha preta, intensamente preta, e as cerejinhas vermelhas desenhadas em toda a parte da frente. Observei deslumbrada, chapada demais. Era como caminhar numa madrugada tranquila, dessas de verão, no interior de São Paulo, quando pequenos pontos de luz iluminam as ruas e as árvores escuras à noite. Era bonito de ver, realmente bonito. E aí os meus olhos continuaram subindo, lentamente, admirando o trechinho descoberto da sua nova tatuagem. As linhas pretas e o amarelo dos narcisos na lateral do seu corpo. Por debaixo do plástico, a fita suja de tinta preta, de sangue vermelho. E então vinha o cinza desbotado do seu moletom velho até que, palmos acima, ressurgia a sua pele, iluminada pela luz quente e amarela da sala, cada poro diante dos meus olhos, apaixonados atentos, misturando-se com o castanho dos fios de cabelo que caíam ao longo do seu pescoço e o castanho envernizado do chão da sala, se esparramando. E de repente, me deu uma vontade incoerente de mergulhar ali, de correr meus dedos pelos fios, de tocar sua pele. Encostar nela, sabe?
 
É que estava assim tão perto, tão bonito. Que me vinha aquela paz, aquela lentidão, num impulso de olhá-la por horas e não sair mais dali. Apenas contemplar cada centímetro, cada fio, acompanhar os menores dos seus gestos, se movendo desatenta ao meu lado, nuns tons serenos e num respirar lento, chapado, absolutamente magnífica. Levantei a mão até o meu rosto, em um movimento igualmente lento, denso, corri a ponta dos meus dedos pelos meus lábios. Sem pressa. Eu – também – me movia pausadamente; pouco a pouco, junto com o mundo, que demorava a passar. 420 horas por minuto, é. De certa forma, sentir o calor das minhas mãos na minha boca me acalmava, mas não resolvia o problema. Não era a sensação que meu corpo buscava ali, às cegas. Apenas um reflexo automático. O calor que eu queria, pelo qual eu, de fato, ansiava, estava a alguns centímetros de castanho, de piso gelado de mim – sem intenção, a sua boca me tentava por acidente.
 
Foi quando, então, o escuro dos meus olhos encontrou o amendoado dos dela, permeados por raios finíssimos de um preto lindo, tão lindo. E eles me olhavam de volta. Atentamente. Desde quando? Eu não sabia. A sua mão se moveu cuidadosamente na direção do meu rosto, tirando a franja bagunçada de cima dele, e eu senti a sua respiração pesar dentre a ínfima distância entre nós duas. Aos poucos, meu coração acelerou. O sangue corria intensamente pelas minhas veias, eu podia sentir, como se o mundo inteiro formigasse ao meu redor e a vontade não fosse mais mera emoção – era real. Era quente e vermelha. Tão palpável quanto a garota na minha frente.
 
Foi aí que a mistura de tonalidades e sensações, sensações vivas e deslumbrantes, coloridas, ou o excesso delas, me arrancaram o resto de consciência que eu pouco possuía, me sacaram de mim, me roubaram a razão. E impulsionaram, sem qualquer pensamento coerente, a mim na sua direção. A meio centímetro dela, quase lá. Completamente envolta nas minhas intenções, a Mia me olhava de volta, hipnotizada pelo mesmo sentimento. Era aquilo. E aquilo era quase um beijo, envolto em castanhos ondulados e vermelhos cintilantes, cinzas macios e pretos amendoados. E por pouco não foi. O beijo. Realmente pouco – a ponto de eu sentir o movimento oscilante do seu colo empurrar as partículas de ar contra o meu, conforme ela respirava, ansiosa. Á mercê daquela iminência. Involuntariamente minha boca se encheu de gosto, de água, de vontade dela.
 
De repente, porém, os meus olhos recuperaram a velocidade normal.
 
O pequeno círculo, ao centro, se estreitou por um instante e toda a realidade entrou de uma só vez na minha cabeça. Quase brutal de tão súbito. Eu estava tomada por uma inércia entorpecente, desavisada de qualquer perigo e inconsciente dos meus próprios atos. A meio centímetro da Mia e a menos de um metro do Fer.
 
Para, porra. Para.
 
O que diabos eu tô fazendo?

agosto 27, 2010

Fritando, fritando

“You’ve been cheated, you’ve been messed around”, uma rádio qualquer gritava na nossa sala. Eu já havia perdido a noção do tempo há... há... Quantas horas mesmo?! Há... Ah, que se dane. Enquanto isso os meus pés brincavam descalços com os da Mia, lado a lado, e nós ríamos entretidas. Ambos os pares apoiados sobre o sofá, enquanto nós três encarávamos o teto. Deitados no chão em fileira – eu e ela e depois o Fer – no tapete da sala. “You’ve been looking for heaven, but hell is all…”.
 
_...that yooooou foooooound! – cantei junto com a música, empolgada, e os dois começaram a rir imediatamente de mim; eu estava chapada demais para me importar.
 
Ah, até que não é tão ruim assim... Viu só... Estamos aqui... de boa... Todo mundo de boa... Ouvindo Mitch... Mitch, ahm... Mitch Malfoy... Não, mano. Não, não, não...“Malfoy” é o bruxo, sua idiota... Mal... M-mal... Malloy! Mitch Malloy!... É isso... É... Aquele do clipe cafona... Muito cafona... E aquela mina dançando... Cruzes... Não... Não dá, não dá... Não, espera, o que eu tava pensando antes?... De boa, é. Isso. Todo mundo de boa. Porra, o pé da Mia é bonitinho, né?... Vem cáá... Ai, não, faz cócegas, sai pra lá... Saiii... Sai!... Pronto... Mano, essa luz é amarela demais... Demais... A gente devia trocar, dói o olho... Se bem que... Nem ando ficando aqui, meu... Tipo... Pra quê trocar?... Não, né, sacanagem... Tem o Fer... Regras de convivência... É necessário... Um pouquinho de compaixão nesse coração... Hum, compaixão... Com... pai... xão... Espera, “compaixão”?... O que diabos eu tô falando, porra?... Nada a ver, mano... “Compaixão” não é a palavra certa... “Compaixão” quer dizer... Cara, “compaixão” é uma palavra?!... Com... pai... xão... “Compaixão”... Estranho... “Xão”... Xão?!... Aff... Eu tô chapada demais... Eu preciso parar de... Eita, aquilo é uma formiga?... Uma formiga, mano?! Aqui??... Enfim, eu preciso... Eu preciso parar de fumar... Preciso parar de fumar, porra... Não, n-não, o problema foi que... É, eu não devia ter misturado... Foi o rum... O rum não me caiu bem... Foi a terceira dose... Ahh, é, aquilo é uma formiga... Mano, não... A culpa é do velho do boteco... Foi ele, certeza... Tava amargo o cara... Foi mau olhado... Filho da puta... Espera, onde a formiga vai?... Não, aí não... Formiga... Formiiiga... Cê vai cair, mano, volta... Pro outro lado, pro outro lado... Não... Nããão... Aff, cala a boca, mano, ela não te escuta... É um bicho... Eu tô chapada, puta merda... Chega... Vou ficar sóbria... Ai, mas... Aí não... Nãão... Formiga... Formiiiiga... Formiguiiinha... Aí não... Aí não... Me escuta, porra!... Eu disse isso em voz alta?!... Hum, não... Acho que não... E lá vai a formiga... Ô, caralho, volta pra cá!... Aí não... Não!... A almofada... vai acabar... Formiga... Formiiiiiga... Espera... Não, que que eu tô pensando?... Formigas não caem... Ou caem?
 
_Gente... f-formigas caem?
_Quê?! – ouvi o Fer perguntar, deitado do outro lado da Mia.
_Tipo, se uma formiga está andando em cima de uma coisa e aí ela vira de ponta cabeça... ela cai?
_O que vira de ponta cabeça? – a Mia indagou – A coisa ou a formiga? Porque acho que depende.
_Não, a formiga. A coisa fica igual, mas... tipo, por baixo.
_Não cai – o Fer concluiu.
_Não cai?! Como não cai? – perguntei, com um enorme interesse repentino no assunto – Não rola, sei lá, tipo, a força da... d-da gravidade?
_Não cai, meu... Nunca viu formiga descendo na parede?
_Não, mas isso é na vertical... Ela tá falando se ficar completamente de ponta cabeça... – a Mia interrompeu – ...eu acho que cai, meu.
_Que cai, amor?! Nada a ver! Elas têm, tipo, super patas!
_“Super patas”?! – a Mia olhou para o Fer e os dois começaram a gargalhar.
_Não...
_É, porra. Tô falando! Tipo os sapos, meu... – ele explicava, fazendo mímicas com a mão, e nós duas observávamos atentas – Tem aquele, aquele negócio redondo na ponta e elas ficam grudadas... Que nem uma colinha.
_Sapos não têm isso, só as rãs... – eu me meti a inteligente.
_Claro que os sapos têm!
_Sapo não anda no teto, mano. Só na parede!
_Mas é o mesmo princípio!
_Cala a boca, meu, claro que não... – a Mia contestou – Formigas têm patas finas!
_Ah! E como cê sabe, ô esperta?! Já viu uma num telescópio, por acaso?
_Não! – retrucou – Cê já viu?!
_Microscópio, gente... – eu participei, modestamente.
_Não vi, porra, mas eu sei que é assim...
_Você “sabe”? Como você sabe? Hein?! – a Mia o provocava – Há quanto tempo cê sequer vê uma formiga, meu?!
_Ah, não tanto tempo... É que tá frio, né, aí elas somem!
_É... – concordei, mais ou menos, sem entender direito.
_Nossa! Como era aquela história, meu?! – a Mia gritou, do nada, me chamando pela mão – Lembra? Da formiga e a... a...
_Cigarra! – quase gritei junto e a olhei, deitada ao meu lado – A cigarra, não era?
_Era! – a Mia se animou e começou a rir comigo, achando uma graça imensurável na situação – É. A formiga e a cigarra, isso.
_Pode crer... – o Fer disse, do outro lado – ...a cigarra cantava, não era, e a formiga fazia todo o trampo e aí a outra vinha pedir comida pra ela no final, puta moral fascistinha.
_É, é...
_Nossa, cara, eu acho que nunca vi uma cigarra real.
_Nem eu.
_Espera, espera. Tô confusa. O que eu tinha perguntado antes?

Chapada

...pra caralho.

Por que diabos “unzinhos” nunca são, de fato, um só?!

agosto 26, 2010

Ralo abaixo

Mais uma, pensei ao enxergar o fundo do copo recém colocado sobre a bancada e fiz um gesto para o atendente, sem pensar suficientemente a respeito. Aquela era a minha segunda dose e o tempo insistia em passar cruelmente devagar. Não queria dar bandeira junto com a Mia, mas chegar bêbada em casa naquelas circunstâncias também não era a melhor das ideias. Infelizmente, eu não tinha outra estratégia para passar a porra do tempo. Olha a que ponto você chegou, me indignava comigo mesma.
 
Observava em pé o movimento deprimente do boteco, com metade do corpo apoiado contra o balcão. Argh. Levantei o olhar e o relógio na parede marcava cinco para a meia noite. Mais uma e eu caio fora, planejei. Um velho rabugento com a barba por fazer enchia o meu copo com o que seria a saideira de rum da noite – com certa má vontade. A Mia estava no apartamento com o Fer há mais de meia hora. Eu sabia que ia precisar me controlar uma vez que chegasse lá em cima e, ciente de que aquela confusão frequentemente me tirava a racionalidade, sabia também que precisava parar de beber.
 
Virei a dose. Aquela seria, de fato, a última. Paguei o cara no caixa com as notas amassadas que tirei do meu jeans e me dirigi à saída com o maço de cigarros na mão, pretendendo enrolar mais alguns minutos na frente do prédio. Quando finalmente virei a chave na porta de casa, o meu celular já marcava quase meia-noite e quinze.
 
A primeira fresta aberta entre a porta e o batente revelou um som alto vindo da sala. Milésima multa, previ, terminando de empurrar a porta apartamento adentro. O Fer estava sentado no sofá, debruçado para a frente, como se mexesse em algo na mesinha de centro. Ele me viu assim que entrei e acenou, sem me dar muita importância. A Mia, ao seu lado, me olhou rapidamente e logo tornou a encarar o chão. Até aqui tudo bem, reforcei positivamente, como um mantra para não dar vexame, enquanto me punha a atravessar a sala, esperando não ser muito notada.
 
_Falou parabéns? – o Fer me chamou, poucos passos antes de eu chegar no corredor.
 
Droga. Olhei para trás como se não tivesse entendido e ele sorriu para mim, colocando a mão na coxa da Mia, que estava só de moletom no sofá.
 
_É aniversário da Mia, pô...
 
Eu sei.
 
_Parabéns – respondi fingida, andando até o sofá, e a Mia se levantou brevemente para um abraço automático, ambas fazendo o melhor que podíamos para não levantar suspeitas.
_Fuma um aí com a gente...
 
O Fer sugeriu e só então reparei o baseado na mão dele, era isso que ele estava fazendo na mesinha.
 
_N-não, não... – murmurei, querendo sair o quanto antes dali – Tô de boa.
_É aniversário da Mia, meu... Sério mesmo que cê vai dormir?! – ele riu – Fica aí um pouco, mano... Bolei agora, é só acender.
_Não, meu, valeu... – resmunguei, me virando para retomar meu caminho.
_Ela tá cansada, amor... – a Mia cochichou do lado dele – ...deixa pra lá, num precisa.
_É, e eu não tô muito afim... sei lá... Já bebi hoje também, vai me zoar.
_Ah, meu... qual é?! Cê anda muito chata! – meu amigo reclamou – Nunca fez mais nada com a gente! Pô, fuma aí... Só um, vai... pra comemorar!
 
O argumento até que não era ruim. Aliás, era melhor que o meu – se não considerarmos a verdadeira justificativa por trás do meu sono incomum às 0h da “madrugada”. Eu odiava mentir para o Fer. Olhei nos olhos do meu melhor amigo, ali, sendo todo propositivo e me detestei por andar tão cretina com ele nos últimos dias. Por um instante, a sua sugestão não me pareceu tão má ideia – ou talvez fosse o teor alcoólico do meu sangue. Mas, ah... que mal poderia fazer?
 
Observei-o novamente e suspirei, dando-me por vencida.
 
_Tá.