“You’ve
been cheated, you’ve been messed around”, uma rádio qualquer gritava na nossa
sala. Eu já havia perdido a noção do tempo há... há... Quantas horas mesmo?! Há... Ah,
que se dane. Enquanto isso os meus
pés brincavam descalços com os da Mia, lado a lado, e nós ríamos entretidas. Ambos
os pares apoiados sobre o sofá, enquanto nós três encarávamos o teto. Deitados
no chão em fileira – eu e ela e depois o Fer – no tapete da sala. “You’ve been looking for heaven, but hell is
all…”.
_...that yooooou foooooound! – cantei junto com a música,
empolgada, e os dois começaram a rir imediatamente de mim; eu estava chapada
demais para me importar.
Ah, até
que não é tão ruim assim... Viu só... Estamos aqui... de boa... Todo mundo de
boa... Ouvindo Mitch... Mitch, ahm... Mitch Malfoy... Não, mano. Não, não,
não...“Malfoy” é o bruxo, sua idiota... Mal... M-mal... Malloy! Mitch Malloy!...
É isso... É... Aquele do clipe cafona... Muito cafona... E aquela mina dançando...
Cruzes... Não... Não dá, não dá... Não, espera, o que eu tava pensando
antes?... De boa, é. Isso. Todo mundo de boa. Porra, o pé da Mia é bonitinho,
né?... Vem cáá... Ai, não, faz cócegas, sai pra lá... Saiii... Sai!... Pronto...
Mano, essa luz é amarela demais... Demais... A gente devia trocar, dói o
olho... Se bem que... Nem ando ficando aqui, meu... Tipo... Pra quê trocar?...
Não, né, sacanagem... Tem o Fer... Regras de convivência... É necessário... Um
pouquinho de compaixão nesse coração... Hum, compaixão... Com... pai... xão...
Espera, “compaixão”?... O que diabos eu tô falando, porra?... Nada a ver,
mano... “Compaixão” não é a palavra certa... “Compaixão” quer dizer... Cara,
“compaixão” é uma palavra?!... Com... pai... xão... “Compaixão”... Estranho... “Xão”...
Xão?!... Aff... Eu tô chapada demais... Eu preciso parar de... Eita, aquilo é
uma formiga?... Uma formiga, mano?! Aqui??... Enfim, eu preciso... Eu preciso parar
de fumar... Preciso parar de fumar, porra... Não, n-não, o problema foi que...
É, eu não devia ter misturado... Foi o rum... O rum não me caiu bem... Foi a
terceira dose... Ahh, é, aquilo é uma formiga... Mano, não... A culpa é do velho
do boteco... Foi ele, certeza... Tava amargo o cara... Foi mau olhado... Filho
da puta... Espera, onde a formiga vai?... Não, aí não... Formiga...
Formiiiga... Cê vai cair, mano, volta... Pro outro lado, pro outro lado...
Não... Nããão... Aff, cala a boca, mano, ela não te escuta... É um bicho... Eu
tô chapada, puta merda... Chega... Vou ficar sóbria... Ai, mas... Aí não... Nãão...
Formiga... Formiiiiga... Formiguiiinha... Aí não... Aí não... Me escuta,
porra!... Eu disse isso em voz alta?!... Hum, não... Acho que não... E lá vai a
formiga... Ô, caralho, volta pra cá!... Aí não... Não!... A almofada... vai
acabar... Formiga... Formiiiiiga... Espera... Não, que que eu tô pensando?... Formigas
não caem... Ou caem?
_Gente... f-formigas caem?
_Quê?! – ouvi o Fer perguntar, deitado do outro lado da Mia.
_Tipo, se uma formiga está andando em cima de uma coisa e aí ela
vira de ponta cabeça... ela cai?
_O que vira de ponta cabeça? – a Mia indagou – A coisa ou a
formiga? Porque acho que depende.
_Não, a formiga. A coisa fica igual, mas... tipo, por baixo.
_Não cai – o Fer concluiu.
_Não cai?! Como não cai? – perguntei, com um enorme interesse
repentino no assunto – Não rola, sei lá, tipo, a força da... d-da gravidade?
_Não cai, meu... Nunca viu formiga descendo na parede?
_Não, mas isso é na vertical... Ela tá falando se ficar
completamente de ponta cabeça... – a Mia interrompeu – ...eu acho que cai, meu.
_Que cai, amor?! Nada a ver! Elas têm, tipo, super patas!
_“Super patas”?! – a Mia olhou para o Fer e os dois começaram a gargalhar.
_Não...
_É, porra. Tô falando! Tipo os sapos, meu... – ele explicava,
fazendo mímicas com a mão, e nós duas observávamos atentas – Tem aquele, aquele
negócio redondo na ponta e elas ficam grudadas... Que nem uma colinha.
_Sapos não têm isso, só as rãs... – eu me meti a inteligente.
_Claro que os sapos têm!
_Sapo não anda no teto, mano. Só na parede!
_Mas é o mesmo princípio!
_Cala a boca, meu, claro que não... – a Mia contestou – Formigas
têm patas finas!
_Ah! E como cê sabe, ô esperta?! Já viu uma num telescópio, por
acaso?
_Não! – retrucou – Cê já viu?!
_Microscópio, gente... – eu participei, modestamente.
_Não vi, porra, mas eu sei que é assim...
_Você “sabe”? Como você sabe? Hein?! – a Mia o provocava – Há
quanto tempo cê sequer vê uma formiga, meu?!
_Ah, não tanto tempo... É que tá frio, né, aí elas somem!
_É... – concordei, mais ou menos, sem entender direito.
_Nossa! Como era aquela história, meu?! – a Mia gritou, do nada,
me chamando pela mão – Lembra? Da formiga e a... a...
_Cigarra! – quase gritei junto e a olhei, deitada ao meu lado – A
cigarra, não era?
_Era! – a Mia se animou e começou a rir comigo, achando uma graça
imensurável na situação – É. A formiga e a cigarra, isso.
_Pode crer... – o Fer disse, do outro lado – ...a cigarra cantava,
não era, e a formiga fazia todo o trampo e aí a outra vinha pedir comida pra ela
no final, puta moral fascistinha.
_É, é...
_Nossa, cara, eu acho que nunca vi uma cigarra real.
_Nem eu.
_Espera, espera. Tô confusa. O que eu tinha perguntado antes?