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abril 13, 2013

3 Songs – pt. 1

“What makes you think we can fuck
Just because you put your tongue in my mouth
And you twisted my titties, baby?”
(The Trucks)
 
_VAI LÁ, PORRA! – o Fer gritava e ria.
 
Era a quarta vez que a garota olhava para mim. De cabeça raspada, butch e tatuada; estava com as amigas a uns metros adiante na pista. Já o meu amigo seguia apoiado sobre o meu ombro, estourando os meus tímpanos. O Benatti e a Lê o apoiavam, ao redor de mim, insistindo para que eu fosse até ela. A garota olhou mais uma vez e eles me cutucaram, quase grosseiros, enquanto eu desviava o olhar para o quinto copo da noite. Odeio aniversários. O Fernando praticamente fechava negócio por mímica com a desconhecida. E eu tinha que puxá-lo de volta, conforme se erguia na ponta dos pés para vê-la sobre a multidão.
 
_VELHO, LARGA DE SER RIDÍCULA! VAI PEGAR A PORRA DA MINA!!
_NÃO, CARALHO! – resmunguei – NÃO QUERO!
_POR QUÊ? POR CAUSA DA CLARA? – o Fer achou ruim, me empurrando na direção dela – SÓ VAI LOGO!
_É, MANO! – o Benatti completou – A GENTE ATRAVESSOU A CIDADE PRA VIR NUMA BALADA QUE DESSE PRA CÊ PEGAR ALGUÉM...
_VAI LÁ, DIABO! – a Lê riu – VAI TE FAZER BEM!!
 
Olhei rapidamente para a Mia, que observava tudo quieta, um pouco mais atrás dos três idiotas. E fiquei em silêncio. O Fernando fez mais uma tentativa de me arrastar pro outro lado da pista. E eu puxei o meu braço, me desvencilhando. “Vou encher o copo”, anunciei então e virei as costas para eles... e para a garota.
 
Assim que saí do galpão da The Week, tirei o celular do bolso. E tentei ligar mais uma vez para a Clara, na área próxima à piscina. Nada. O lugar estava lotado, as pessoas se moviam num caos bem viado. Minhas pernas já começavam a trançar. Voltei até o bar externo. E redisquei mais uma vez, conforme o barman me enchia uma dose de rum. Cancelei a chamada, sem resposta – inferno.
 
_Então, me diz... – a Mia encostou ao meu lado no balcão, do nada, e acendeu um cigarro – ...é impressão ou cê tá mesmo me evitando?
_Eu não tô te evitando – coloquei o celular de volta no bolso.
_Não?
 
Apoiou os cotovelos na bancada, com a cabeça sutilmente inclinada. E sorriu. Estava com um vestido de alcinha que eu gostava, os fios castanhos caindo sobre os ombros, escorregando pelas flores tatuadas nas suas costas. Pôs-se a me observar – os meus dedos ao redor do copo, os meus pulsos, os meus braços. Quase flertando abertamente. E eu senti uma falta visceral da sua pele.
 
_E o que acontece...
_Hum?!
_...que cê tá toda solta aí... – ela respirou fundo, fazendo graça – ...e recusando mina na balada?
_O que isso quer dizer, Mia?! – respondi, sem paciência.
_Nada. Só nunca te vejo “comportada” assim...
_Vê, sim. Vê, sim, Mia! – me irritei com o comentário, já um pouco alterada – Cê já me viu fazer isso um milhão de vezes! Eu consigo contar na mão as garotas que peguei na sua frente E VOCÊ SABE!
_Nossa, desculpa – ela brincou, sem se abalar pelo meu mau-humor – Não tá mais aqui quem falou. Cê é muito comportada, sim!
_O quê?! Cê acha que porque eu fiquei com você, eu traía a Clara com todo mundo??
_Não, meu. Não tô tentando te irritar, eu tava só...
_Olha, na boa, não sei por que tá todo mundo agindo como se eu fosse comer a primeira porra de menina que passar na minha frente! Não faz uma semana!
_Calma. Eu só acho que cê tinha que tentar se divertir... – sorriu – É seu aniversário. Tamo aqui pra isso, não?
_Com outra garota?!? Me divertir com quem, Mia?
_Comigo.
_Eu não posso fazer isso. Não aqui, não assim – balancei a cabeça e tomei o último gole da minha bebida, séria – Cê veio com o Fer, caralho. Não comigo.
_Isso é problema meu... – ela deu mais um trago, me encarando com certa irreverência – ...não seu.
_Escuta, a gente precisa parar de fazer isso – me angustiei.
_Hum. Mas e o seu presente, como faço para entregar?
 
De repente, senti o meu bolso vibrar.
 
_Que foi? – a Mia notou a minha expressão mudar, já alcançando o telefone no bolso, e reajeitou o seu corpo – É a Clar...?
 
Saí andando antes que ela terminasse a frase, com o telefone em mãos. Numa ansiedade de abrir logo a mensagem. E então li, caminhando, conforme as palavras deferiam socos no meu estômago – “Para de me ligar. Para de me mandar msg. Eu ñ qro q vc me procure nunca mais”.
 
Não.
 
Me tornei violenta, irracional. Perdi a cabeça. Trombei em dezenas de pessoas no caminho para o banheiro – em partes por estar bêbada, noutras por sequer olhar direito para frente, as atropelando enquanto relia a mensagem duas, três, quinze vezes. E assim que cheguei na fila, comecei a ligar para a Clara, compulsivamente. Desrespeitando o que me pedia, num comportamento deplorável, desesperada, fora de controle. Sentia a ansiedade esmagar meus pulmões.
 
ATENDE, POR FAVOR. ATENDE!
 
Tocou até cair na caixa postal por quatro vezes antes que uma das cabines fosse liberada. E eu me tranquei ali, nervosa. Aí lhe enviei uma enxurrada de SMS, recados de voz, tudo. Ela não me atendia. Sentia que a perdia, agora pra valer. E não sabia que porra fazer. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Isso é culpa minha. Minha. Minha, cacete, como eu sou burra! Aí tornava a discar – atende, atende, atende, atende, atende, por favor, atende – e me angustiava com o telefone mudo. Entre os toques ruidosos, vez atrás de outra.
 
Até que, de repente, ouvi a sua voz:
 
_O que você quer?

abril 09, 2013

Esquenta

Minha honrada decisão durou dois dias. Nem isso. E com a chegada da minha festa, que o Fer tinha adiado para o fim de semana seguinte à viagem e agora insistia em manter, todas as minhas promessas de ser uma pessoa melhor e dar espaço à Clara foram rapidamente diluídas em três copos de whisky, seguidos de doses colossais de desespero, com o coração destruído e a dignidade no chão, instantes antes de embarcar para uma balada do outro lado da cidade.
 
O Du terminava de se arrumar no quarto e eu o aguardava pacientemente na cozinha – isto é, virando uma dose atrás de outra e grudada àquele celular como se minha vida dependesse disso. Patética. Começava a me tornar deliberadamente inconveniente. E a Clara se mantinha em silêncio, me ignorando como fizera a semana toda. Os meus SMS iam se tornando cada vez mais apelativos – indo de “sdds :(” a “ME ATENDE, PFVR!! EU SO QRO FALAR COM VC!!! TO SENTINDO TANTO SUA FALTA, CARALHO, EU TAVA ERRADA!! EU SEI QUE TAVA, BI!! PFVR! FALA CMG!!”, em menos de quarenta minutos.
 
É. Minha fossa estava oficialmente fora de controle.
 
_Pronto! – o Du surgiu de repente, num jeans claro e regata preta, encostado na porta que dava para o corredor – Vamos?
_Vamos, só espe... – eu terminava de digitar um último SMS para a Clara – ...ra. Tá! Vamos.
 
“To indo na gambiarra da the week”, dizia a mensagem, “qro mto te ver, pfvr. vms conversar. eu qro ir com vc, bi. COM VC!!”. E a notificação de recebimento chegou antes mesmo de entrarmos no elevador. Saber que ela tinha lido minhas mensagens e ainda não respondia me matava. Um amigo do Du veio nos buscar e estava nos aguardando, estacionado na antiga vaga do Fer na garagem. Ela agora era alugada por um cidadão do terceiro andar, que não ficava em São Paulo nos finais de semana.
 
Saímos em direção à Barra Funda. E tão logo deixamos a garagem do prédio, o meu celular vibrou. Apressei-me para ver o que era, um tanto embriagada e iludida de que talvez pudesse ser a Clara. Mas era a Mia – “Ei. ta animada? ;-) senti sua falta essa semana”. Apaguei a mensagem, num impulso amargo. Não contra a Mia, mas contra mim mesma – a minha má índole. E tão logo me arrependi de tê-lo feito. Argh. A verdade é que eu também sentia falta dela – mas não tinha certeza se queria passar a festa que o meu melhor amigo planejou assim, escondida com a sua namorada em algum canto. E por mais que o meu corpo inteiro ansiasse por curar a fossa em suas mãos, nos seus beijos, eu não conseguia. Simplesmente não conseguia.

abril 06, 2013

Que falta desgraçada

 



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
...dela.

abril 05, 2013

Meio-fio

_Cê tem um novo admirador...
 
Comentei ao sair com o Fer para tomar um ar em frente ao prédio – o apartamento estava um forno.
 
_É só o que me faltava – ele achou graça, acendendo um cigarro – Se bem que, né... eu devia mesmo aparecer na casa do velho com um namorado, ver se ele me deserda de vez.
_Bom, tá fácil. Já tem voluntário... – arqueei a sobrancelha e roubei o cigarro das suas mãos, dando um trago também – ...mas acho que o Du faz mais a linha só-quero-te-comer.
_Não, mano, para. Tô de boa.
 
Retirou a brincadeira na mesma hora. E eu comecei a rir – o tesão platônico do Du pelo Fer me divertia. E distraía da minha vida. Nos sentamos no meio-fio, já levemente bêbados depois de tanta cerveja, e eu traguei mais uma vez o cigarro roubado, passando-o de volta para o Fer.
 
_Mas e aí, meu... – olhei para ele – ...falando em namoro, acabei nem perguntando... Como tão as coisas entre você e a Mia? Cês andavam se desentendendo...
_Ah, mano...  sei lá... – balançou a cabeça – ...esse fim de semana até que foi suave. Mas mesmo quando tamo de boa, estar em Santo Amaro fode tudo. É uma merda não ter grana pra sair e ter que ficar se vendo na casa dos pais dela, dos meus...
_Nossa, sim. Não dá nem pra fumar um!
_É, então. Foda. Mas vamos ver, né... O cara lá do trampo da Marina me ligou, vou lá essa semana. Quem sabe rola mesmo e aí eu volto pra cá te atazanar...
_Por favor! Preciso de pelo menos uma notícia boa na minha vida...
 
Assim que falei aquelas palavras, todavia, o meu coração afundou. Estranho como os seus pensamentos se voltam contra você quando se está triste, não? Peguei o cigarro das suas mãos, dando mais um trago, enquanto meu peito se dividia entre querer morar com meu amigo de novo e um medo desgraçado de perder o que tinha com a Mia quando ele não estava no apartamento. A intimidade que construímos nos últimos três, quatro meses. Argh. Como posso sequer pensar isso?, me repreendi. Escrota do caralho.
 
Andava particularmente difícil lidar comigo mesma. Por mais que tentasse manter a minha cabeça no lugar, a minha mente tinha um jeito sorrateiro de tirar as coisas de contexto, de ir me envolvendo numas brisas estúpidas. E eu não conseguia fugir. De repente, conversando ali, sentados na calçada da Frei Caneca, me sentia como a razão para tudo o que tinha dado de errado na vida do meu amigo recentemente – do seu relacionamento com a Mia ao seu retorno à casa dos pais. Assim como também era culpada pelo meu término com a Clara, por machucar a garota que eu amava. A culpa é minha. Minha. Me torturava por dentro, naqueles breves segundos, inferno. Soltei a fumaça para o lado, abaixando a cabeça.
 
_Ei... – o Fer notou e presumiu – ...calma, meu. Ela vai voltar.
_Fer, não, e-ela... – suspirei e os meus olhos doeram, cacete – ...ela é esperta demais para voltar para mim. Ela tá certa. Cê não tá ligado o quanto eu fodi as coisas.
_Ela seria uma idiota de não voltar...
 
Colocou o braço sobre meus ombros, me abraçando, numa tentativa de me consolar. Mas no fundo, eu sabia – sabia que a Clara não tinha que aguentar nenhuma das minhas merdas. E sabia que já estava decidido no segundo em que subimos naquele avião. No fundo, talvez até o Fernando soubesse disso. Mas me beijou a testa, com carinho, chateado em ver meu coração partir.
 
Conversamos até tarde naquela noite. E quando me deitei, lá pelas tantas da madrugada, tive o impulso de religar o celular. De importuná-la. De ligar e ligar e ligar de novo, e de novo, até que me atendesse, de obrigá-la a lidar com a falta absurda que eu sentia dela, por mais injusto que fosse. Não sabia o que fazer com aquele buraco no meu peito. Na minha vida, caralho. Mas por algum motivo não o fiz – me dando conta de quem eu estava me tornando e quem eu não queria ser.
 
Eu precisava deixar a Clara em paz. Deixar que me esquecesse.
 
É. É isso.

abril 04, 2013

Moleques

_Parei já, alguém quer?
 
O Fer ofereceu da poltrona e, quando nenhum de nós se manifestou, se curvou para apagar o baseado sobre a mesa de centro. O Du arrancou os sapatos meio de qualquer jeito, visivelmente bêbado. Notei que os seus olhos se demoraram alguns segundos nas tatuagens no corpo do Fer – sentado a uns metros de nós, sem camiseta. Achei certa graça. Meu melhor amigo tinha a mania de passar a mão na parte de trás da cabeça, alisando os fios cortados na máquina, e agora ganhava um espectador. O Du o observava sem muito filtro, chapado, afundado ao meu lado no sofá. Sem perceber a atenção, o Fer reuniu as latinhas vazias sobre a mesa e levantou para buscar mais uma na cozinha.
 
Na primeira oportunidade que teve, o Du disse:
 
_Pô, gato esse seu amigo aí... – falou em tom baixo, largado contra o braço do sofá – ...num tinha reparado da outra vez que ele veio.
 
Acenei com a cabeça. E ao longe, ouvi o som das latas sendo jogadas no lixo e a geladeira se abrindo em seguida.
 
_Um cara desses... – meu roomie prosseguiu, bêbado – ...sem chance dele dar a bunda, né?
 
E pela primeira vez em dias, eu gargalhei.

abril 02, 2013

A fossa

Peguei mais uma cerveja na geladeira. E disquei o seu número – “por favor”, murmurei, com os olhos já inchados de tanto chorar. Fui até a área de serviço, tentando não fazer barulho conforme me escondia. Ouvi o telefone chamar, sem resposta. Era a minha quarta ligação em menos de duas horas. Atende, atende. A latinha suava entre meus dedos e o calor que assolava São Paulo naquela noite se esparramava janela adentro. Contra meu ouvido, os toques ecoavam ignorados. Vai, porra, atende.
 
Escutei o meu nome na cozinha e a ligação caiu mais uma vez.
 
_Caralho... – chutei um balde entulhado de produtos de limpeza no chão, apoiada nas beiradas do tanque com o celular e a cerveja em cada mão.
 
O Fernando abriu a porta atrás de mim.
 
_Mano, cê tá se escondendo?!  
_Não – retruquei, grossa.
_Para, porra... – relou na minha mão e eu saí da área de serviço, trombando no seu ombro – ...para de ligar pra ela!
 
Continuei em direção ao corredor, sem responder. Larguei a latinha sobre a mesa da sala e enfiei a cara numa almofada, me jogando no sofá. O Fer veio em seguida. Sentou na poltrona, me observando ter um ataque, e riu. Então ordenou que eu entregasse o celular. “Não” – respondi, rancorosa. E me sentei, tornando a discar o número da Clara. Ninguém atendia. O Fer se levantou, dando dois passos até mim, e tirou o aparelho do meu ouvido, “chega”. Desligou o telefone ao sentar-se de volta na poltrona e o meteu no bolso da bermuda, encerrando o assunto.
 
_Me dá, Fer. Eu não vou ligar.
_Vai, sim.
_Me dá a merda do telefone!
_Não, cara... – ele riu, de novo – Quê que cê vai conseguir com isso? Faz dias que você tá perseguindo a mina e ela num dá sinal de vida, meu... a única coisa que vai sair disso é briga.
_Dane-se! Talvez eu queira que ela brigue comigo!
_Mais?!
 
O Fer balançou a cabeça, indignado.
 
Aí puxou a camiseta por cima da nuca, a tirando. E tornou a encostar na poltrona, largando a blusa no chão e acendendo um baseado.
 
_Velho... – soltou a fumaça espessa no ar, me encarando – ...para. Cê não é assim, na boa.
_Foda-se. Eu preciso fazer alguma coisa! Qualquer coisa! Eu prefiro que ela atenda essa porra desse telefone e me xingue, que grite comigo, do que eu não ter nem chance de falar, caralho, de explicar q-que eu... porra, que eu sinto uma falta desgraçada dela!! Fer, eu, e-eu tô enlouquecendo!
_Calma, ela vai voltar... Cê tem que dar um tempo para ela, mano.
_Não. Não a Clara... – neguei e ele roubou um gole da minha cerveja, com calor – ...ela não vai me esperar. Já deve ter uma porra duma fila de mina pra curar ela de mim, cacete. Eu não posso, não posso deixar ela me esquecer. Porque eu sei que ela vai, mano! Ela não vai vir rastejando de volta, não a Clara.
_Meu, cê tá viajando, o que cês tinham não é descartável assim. Ela ama você.
_Não, Fer... Eu fodi tudo, fodi mesmo. Ela tá puta.
_Ela te levou para a Argentina, porra! Cê que não tá vendo o quanto essa mina gosta de você...
 
Balancei a cabeça, não sei se a Argentina melhora ou piora as coisas. Tomei mais um gole da minha cerveja, pensando se devia fumar também. Queria me afogar em más escolhas. Meu coração estava dilacerado. Não conseguia acreditar que tinha fodido tudo com a garota que eu amava. Sentia-me vazia sem ela do meu lado, sem seu cheiro em mim, sem os seus SMS apitando no meu celular o dia todo. Parecia que faltava algo, alguém para dividir a minha vida, a porra de existência naquele buraco de cidade. São Paulo tornava-se ainda mais cinza.
 
Argh.
 
Já era quarta-feira. E eu me deixava amargurar com o passar dos dias, a ausência dela parecia gritar dentro de mim. Eu tinha feito tudo, tudo errado. Chorei por três noites seguidas, consolada pela Marina, que dormiu comigo desde o domingo em que desembarquei no aeroporto até aquela quarta de manhã. A cada pausa que fazia no trabalho, cada segundo que tinha livre, eu mandava mensagem, ligava e checava a tela do meu celular compulsivamente. E nada.
 
Mais cedo naquela noite, o Fer me encontrou na saída da produtora, provavelmente depois de receber uma mensagem preocupada da minha ex. Contei tudo que tinha acontecido. Ou quase. Ele não entendia como eu podia ter mencionado o nome de outra garota em meio à nossa viagem em Buenos Aires. No caso, o da namorada dele – cujas mensagens eu vinha ignorando a semana toda. Eu sabia que o Fer já tinha contado para ela e que a Mia só estava preocupada, tentando me apoiar. Mas não estava com coração cabeça para lidar com o motivo personificado do meu término com a Clara. Não agora. Inferno.
 
_Pelo menos deixa ligada essa merda, meu! – me inquietei no sofá – Vai que ela responde...
_Não vou ligar, cacete. Esquece!
_Fernand... – interrompi meu próprio resmungo, nervosa.
 
Ele me observava, inabalado. E me vi obrigada a ceder – não estava desesperada o bastante para ir, de fato, até lá e tirar o celular à força do bolso dele. De repente, ouvimos a porta da frente abrir. Era o Du. Chegando de algum happy hour, com cheiro de bar. O Fer se virou para ver quem entrava, estendendo-lhe a mão por cima do encosto da poltrona.
 
_E aí, velho? Beleza? – ambos se cumprimentaram e o Du largou uma sacola da Livraria da Vila sobre a mesinha à minha frente.
_Que cês tão fazendo aí?
 
Perguntou ao sentar na ponta oposta do sofá, largado a meu lado. Revirou então os olhos e riu, de bom humor, assim que o Fernando explicou – “curando a fossa dessa aí”.

março 31, 2013

Puerta de embarque 6

Ela estava em pé à minha frente, em silêncio. Entregou a sua passagem e eu a minha, em seguida. Andei uns metros atrás dela. Estávamos sentadas no par de cadeiras 14 C-D. Tinha a bota sobre os jeans, uma jaqueta por cima. Observou a janela durante a viagem toda. Recusou a bebida. Continuava quieta, o rosto encostado no vidro frio. “Fala comigo”, toquei a sua mão. Quarenta minutos haviam se passado. Ela cruzou os seus braços e não disse uma palavra, o voo todo até São Paulo.
 
...
But it was not your fault but mine
And it was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn't I, my dear? Didn’t I?
(Mumford & Sons)

março 30, 2013

Derradeiro

Ah, ainda estamos discutindo, pensei. E enfiei tudo de qualquer jeito na mochila, incomodada – não com a pergunta em si, mas com o fato de ainda não ter me livrado dela. Dezenove horas depois do seu nome ter acidentalmente escorregado pela minha boca, a Mia continuava ali. Entre nós. Inferno.
 
_Clara... – virei mais uma vez para ela, vendo-a vestir uma camiseta meio de qualquer jeito – ...não começa isso de novo, por favor.
_“Não começa” o quê?
_Por que cê faz isso, mano? Por que entra nessas... – murmurei, a um metro de onde ela estava – ...cê só vai se deprimir mais, entrar num ciclo d...
_E por que eu vou me deprimir?! – me encarou, séria.
 
Tinha uma tristeza escondida no fundo dos olhos, como se soubesse a resposta que eu tanto segurava atrás dos meus dentes. Me arrependi do que tinha implicado.
 
_Não... n-não é isso... – abaixei a cabeça.
 
E ela repetiu, agora mais firme:
 
_O que tem entre você e a Mia?
_...
_Só fala.
_Nada.
_“Nada”?
_É. Nada! Não tem nada que cê precise saber! – me ergui do chão.
_Não. Não assim!
_“Não assim” como? – levantei a voz.
 
E ela ficou em pé também, se aproximando de mim sem paciência.
 
_EM CÓDIGO, PORRA! ASSIM! Ou você acha que eu sou idiota? – me encarou, segura do que dizia – Que já não ouvi isso antes? Que já não falei isso antes? “Nada que precise saber” não responde a minha pergunta! Não responde nada! E cada segundo que você demora pra responder direito só me machuca mais, você sabe disso.
_Por que cê tá surtando, Clara, caralho?! – passei as mãos no rosto, inquieta – Por que agora, porra? De novo?! Por q...
_QUE DIFERENÇA FAZ?! – me interrompeu, aos gritos – PARA DE DAR VOLTA!!
_EU SÓ MENCIONEI O NOME DELA!
_ESSA NÃO FOI A MINHA PERGUNTA!
 
Ela me encarou, com os olhos subitamente marejados. E eu fiquei em silêncio. Droga. Por alguns instantes, tudo o que se ouvia era a nossa respiração – a dela estava ofegante. Parecia ter pensado naquilo por mais tempo do que demonstrava. Talvez aqueles meses todos, não sei. Sentei na beirada da cama, angustiada. Isso não tá acontecendo, repeti na minha cabeça, tentando fugir da gravidade da situação em que nos encontrávamos. A Clara continuava em pé, com os braços agora cruzados.
 
_Você dormiu com ela, não dormiu?
_Dormi – respondi num impulso sincero, sem olhar para ela.
_Quando?
 
Ouvi a sua voz, então, ganhar peso, perdendo contidamente o fôlego. E me arrependi na mesma hora.
 
_...
_Fala.
_Não intere... – suspirei.
_Não me diz o que interessa. Interessa!
_NÃO! NÃO INTERESSA! QUE DIFERENÇA FAZ, CLARA?! – levantei da cama, aflita – NENHUMA! EU TÔ AQUI, NÃO TÔ? EU TÔ COM VOCÊ. COM VOCÊ, PORRA! – lhe implorava, tocando seu braço – Eu vim. Eu vim, mano, ATÉ AQUI! EU TÔ AQUI! Vim, não vim? Como eu tenho vindo, cacete, todos esses meses! TODOS ELES! DO SEU LADO. SEU! Você acha que eu não gosto de você?! Que eu não te amo?!? QUE CARALHO IMPORTA A MIA?! O que a gente construiu não tem nada a ver com isso! Eu vi uma merda de um livro ontem e me lembrei dela e foi só isso, porra. SÓ ISSO! O que eu tenho com você é completamente diferente! Não tem nada a ver com essa, essa porcaria toda! É o que eu QUERO ter! Você entende isso? ENTENDE?! QUE UMA VEZ NA VIDA, EU SEI O QUE EU QUERO?!? E QUE O QUE EU QUERO É VOCÊ??
_NÃO! NÃO! – ela gritou e as lágrimas passaram a escorrer pelo seu rosto – EU NÃO QUERO OUVIR ISSO!
_LINDA, NÃO CH... POR FAVOR! MERDA! – chutei o colchão, desajeitando-o fora da cama, com raiva de mim mesma; e então abaixei a minha voz, segurando o seu rosto perto do meu, desesperada – Não chora. Por favor, não chora. Não chora... – me angustiei, beijando as suas lágrimas – ...Bi, não faz isso. Por favor. Eu...
_VOCÊ É UMA COVARDE!! COMO? COMO CÊ TEM A CARA DE PAU DE VIR AQUI?!
_Linda... – os seus olhos, encharcados, pareciam diluir toda a minha existência; era a primeira vez que a via assim, que a deixava assim, e todo o drama da noite anterior parecia ainda pesar em nossas palavras, desgastadas, exaustas; senti o meu coração apertar como nunca antes – ...por favor, não faz isso.
_EU SABIA. NO SEGUNDO EM QUE EU TE PERGUNTEI, EU SABIA!! E... e você, VOCÊ... VOCÊ TEM A CARA DE PAU DE MENTIR! PRA MIM! PRA MIM!!! EU, PORRA! ME DIZ, QUANDO? QUANDO EU TE DEI MOTIVO PRA ME TRATAR ASSIM??
_Não fala assim...
_VOCÊ PODIA TER ME CONTADO, TODOS ESSE TEMPO! – me interrompeu, ofendida – UMA A UMA, CACETE, EU TE DEI TODAS AS OPORTUNIDADES DO MUNDO PRA ME CONTAR NUMA BOA!! EU NUNCA TE PRESSIONEI COM ISSO! NUNCA! E VOCÊ ME FAZ DE IDIOTA, PORRA, VEM ATÉ AQUI COMIGO! VOCÊ, V-VOCÊ NÃO TÁ NEM AÍ!! VOCÊ É A PESSOA MAIS EGOÍSTA QUE EU CONHEÇO!! VOCÊ ME DEIXOU GOSTAR DE VOCÊ, ME DEIXOU MUDAR TUDO! TUDO O QUE EU PENSAVA, TUDO O QUE EU QUERIA PRA MIM! TUDO! ME DEIXOU ENTRAR NESSA MERDA DESSE RELACIONAMENTO COM, C-COM VOCÊ E... E, E NÃO ABRIU A BOCA! TODO ESSE TEMPO!!
_NÃO TINHA O QUE CONTAR!! O QUE EU IA FALAR, CARALHO?!? NÃO TINHA O QUE CONTAR AT...
_“ATÉ”? ATÉ??? É ISSO QUE CÊ IA FALAR? – ela me cortou, aos berros – ISSO FOI... AGORA????? – ela começou a me empurrar para longe dela e as suas lágrimas se tornaram raivosas – SUA FILHA DA PUTA! SUA... CANALHA!
 
Merda.
 
_Q-quando... – hesitou – ...QUANDO FOI A ÚLTIMA VEZ?!
_Clara, eu nã...
_VOCÊ, v-você... você comeu ela essa semana, não comeu? – ela me encarou, como se a ficha caísse – COMEU, NÃO COMEU?!?
_Por favor, não faz isso...
_FILHA DA PUTA!! SUA FILHA DA PUTA!!
 
Me xingou. E voltou a chorar, sentando na beira da cama desarrumada. Tive asco de mim mesma. “Uma pergunta...”, murmurou entre seus soluços, “...você não consegue me responder uma pergunta, cacete”. Foi como assistir todas as expectativas dela para aquele fim de semana irem por água abaixo. Graças à minha boca grande. Ao meu ego imenso, à minha idiotice. À minha incapacidade de ser sincera e feliz com a única porra de garota com quem eu deveria me importar. Eu sou uma estúpida mesmo, senti minha garganta fechar, eu não mereço nada do que tive com você, puta merda. Me ajoelhei em frente a ela, com os olhos cheios de lágrimas. E toquei nas suas pernas, quase implorando.
 
_Por favor, me perdoa – beijei os seus joelhos descobertos, envergonhada – Por favor, Clá. Eu não... e-eu não sei o, o que eu faço, eu não sei. Eu sou uma idiota. Por favor. Por favor, meu. Eu, e-eu preciso de você. É egoísta e estúpido, mas eu preciso. Eu quero você na minha vida, por favor, eu te quero comigo. Não m... – encostei a face molhada na sua pele, onde as suas pernas se juntavam – Não me deixa. Por favor, me perdoa.
_Tira a mão de mim.
_Clara...
_Escuta aqui. Nós vamos subir naquele avião... – continuou firme, como se se protegesse da minha pele, da minha existência ali ao seu lado – ...e no segundo em que a gente chegar em São Paulo, eu não quero mais te ver. Você vai sumir da minha frente.
_Clara, por favor. Não faz isso. A gente tá cansada, linda, nós duas falamos cois...
_Não! VOCÊ FALOU! Você, não eu. Agora assume a consequência.

março 25, 2013

3 Bit Blues

A madrugada se desenrolou complicada, numas brigas e reconciliações regadas a álcool. Nos perdoamos contra a parede suja do banheiro. E nos desentendemos na saída, numa calçada cheia de garotas e moleques de uns 20 anos, que não entendiam uma palavra do que dizíamos. Durou dez minutos. Fizemos as pazes no táxi de volta. A sua mão entrou na minha calça, no escuro do banco de trás. Ainda assim, a Clara se deprimiu ao chegar no quarto, fumando um baseado que descolara com um dos amigos. Estava silencioso demais e ela entrou numa brisa errada, numa paranoia embriagada, numa dessas crises de ansiedade – me culpando, falando irracionalidades induzidas por toda a bebida e a bad trip.
 
_Não, não, vem – eu sussurrava, a segurando em meus braços.
 
Sentia-a se desvencilhar e a Clara levantava da cama, em um desespero alcoolizado de fazer algo. “Senta aqui, vai”, eu tentava argumentar. Lutando contra o sono e a minha própria bebedeira. Sequer sabíamos por que discutíamos – não se tratava mais da Mia. A Clara sequer se lembrava mais do ocorrido. Se agitava. Por outros motivos, mais abstratos. Eram frustrações, pequenos instantes transformados em angústias, desacordos; amplificados pelos arredores e as substâncias em nossas veias, desproporcionalmente. E cada curva que a madrugava dava parecia assumir uma forma completamente nova, nuns dimorfismos carregados. O sol já quase nascia e ainda estávamos alucinadas, acordadas em plenas 6 da manhã naquele quarto claustrofóbico.
 
_Vem pra cama, linda.
_Eu não m-me, me sinto bem – choramingava, ofegante, curvada em pé contra a parede.
_Cê tá bêbada, vai, vem. Cê vai se sentir melhor amanhã! Eu prometo.
_Eu n-não... quero.
_Não quer o quê? – eu perguntava, sentada no colchão; os meus olhos quase fechando de tão pesados.
_Me sentir melhor, eu... e-eu não quero.
_Não fala assim, Bi. Vamos.
_...
_Bi... – me levantei também e a abracei pelas costas – ...vamos, vai. Não faz assim.
_E O QUE VOCÊ SABE?! – se irritou, me empurrando.
_Clara...
_VOCÊ NÃO SABE DE NADA! DE NADA, PORRA!
_Clara, para... – ela se agitava e eu a segurava ainda mais forte, tentando fazer com que se acalmasse – ...eu tô aqui, vamos lá. Não começa com isso de novo.
_TÁ TUDO ERRADO. TUDO. EU SOU UMA ESTÚPIDA!
_Não é. E não é assim. Vamos, vai... cê tem que deixar a brisa passar, meu. Cê já sabe como funciona, linda, vai passar. É só a gente dormir... vai ficar tudo bem.
_Eu n... e-eu não quero, Bo. Eu não posso. EU NÃO QUERO FICAR AQUI! ME TIRA DESSE QUARTO! POR FAVOR! Eu não consigo ficar aqui...
_Consegue, sim. Vem. Deita comigo, a gente conversa até o sono chegar.
_EU NÃO QUERO! Eu não q... – começou a chorar, bêbada.
_Não pensa nisso, linda. Tá tudo bem, vem.
_...
 
Um instante de silêncio se seguiu. E eu lhe tirei aos poucos a blusa, os shorts, os largando no chão. Aí a coloquei debaixo do lençol, com todo cuidado que a minha falta de sobriedade permitia. E deitei ao seu lado, virada na sua direção. Minha mão entrelaçada na sua. “Você me acha louca?”, ela indagou num cochichar baixinho, constrangida. “Nem um pouco”, garanti. E me pus a contar todos os meus surtos de outras madrugadas, pela Augusta afora em São Paulo. A Clara esboçou um sorriso. 
 
Se divertia com as minhas histórias, com o mais podre de mim. Porres homéricos, brigas alucinadas. Horas e horas de autopiedade na cozinha vazia, entornando um copo de rum atrás do outro. Contei da vez em que impedi que a Dani tomasse remédios demais, depois de uma madrugada bêbada, completamente deprimida e fora de si. A Clara segurou o meu rosto, com carinho. E em seguida, descrevi a noite em que eu mesma misturei mais do que devia, alguns anos antes. Tive a certeza de que ia morrer, gritei e chorei incansavelmente; o Fernando ficou horas acordado ao meu lado, no chão do apartamento.
 
_Sempre passa. E aí cê jura que nunca mais vai beber... fumar, fazer porra nenhuma.
_Até a semana seguinte... – ela sorriu, por um instante.
_É.
 
O clima agora estava mais calmo, mais sóbrio – em todos os sentidos. O seu nariz tocava desavisadamente a ponta do meu. Numa lentidão cansada. Um milímetro mais para cá. E outro milímetro para lá, num deslizar bobo. Nuns vai-e-véns inconscientes. Sonolentos. Aquelas nossas conversas e o toque da sua pele me faziam sentir em casa. Havia uma cumplicidade genuína entre nós, um ser e falar absolutamente livre de julgamentos. De certa forma, o relacionamento que tinha com a Clara era o mais sincero que eu já tinha tido. De outras formas, não. Sabia que aquele era meu mundo – ali, com ela. E havia conforto em saber disso. Na certeza de que nos encaixávamos. Movi o meu corpo mais para frente e a encontrei adiante, num beijo instintivo. Num desencadear assim, exaustas.
 
(...)
 
Dormimos entrelaçadas. E o dia amanheceu sobre os nossos olhos fechados, iluminando nossos corpos desacordados. Aquelas eram as nossas últimas horas juntas em Buenos Aires. E elas atravessaram o nosso sono, caladas, como quem não quer perturbar a quietude recentemente conquistada. Gargantas arranhadas, olheiras secas, a ressaca. Mas acordamos, inevitavelmente – com o celular da Clara tocando aos gritos quando já eram quase 16h.
 
A minha cabeça doía. Os meus músculos pareciam ter sido esmagados por um caminhão. E a Clara aparentava se incomodar com um torcicolo – provavelmente por ter dormido com o pescoço desajeitado sobre o meu braço. Deslizava a mão pela própria nuca e apertava os olhos em desconforto. Já em pé, eu a observava a alguns metros de onde estava sentada na cama, admirando-a. Eu te amo, garota. Senti um impulso apaixonado de beijá-la – a sua pele. Mas a Clara estava quieta.
 
_Quanto tempo temos?
 
Perguntei e logo me abaixei para arrumar a mochila no chão, agachada de costas para o colchão. Minhas roupas estavam largadas ao redor. E como não ouvi resposta nos segundos seguintes, me virei para ela.
 
_Clara?
_... – os seus olhos não me encontraram, cabisbaixa, encarando as próprias mãos; e então murmurou – ...a-alguma vez você já mentiu para mim?
_O quê? – eu ri, sem entender a pergunta.
_Mentiu? – insistiu.
 
Respirei fundo. Soltando as roupas sobre a mochila.
 
_Por que isso, meu? – me angustiei – Por que cê quer...
_O que... – me interrompeu – ...o que tem entre você e a Mia?

março 19, 2013

Então é guerra

E até àquela altura eu estava perdendo. O jantar com os amigos foi um desastre – atravessada, a Clara fez questão de falar espanhol a noite toda e deve ter dado a entender que eu estava de castigo, ou algo assim, porque todo mundo naquela mesa me olhava com desprezo. Ou talvez fosse só a hospitalidade portenha. Vai saber. Os amigos eram um casal de caras já na casa dos 30 e uma sapatão um pouco mais nova, além do dono da casa – o Ignacio. Tagarelavam animados entre si. O único momento em que falaram comigo foi para perguntar se eu ia beber algo, quando o garçom estava à beira da mesa.
 
E sim – comecei a me encher de álcool.
 
Essa noite vai ser longa, resmunguei para mim mesma, virando uma dose de pisco. Que opção eu tinha? Dali fomos para uma balada e só piorou. Durante a primeira hora, a Clara sumiu na pista com os amigos, enquanto eu abraçava o bar e fazia amizade com o garçom. Segundo ele, brasileiro era o que não faltava em Buenos Aires. Eu já estava na terceira dose, quando a Clara e os amigos encostaram ao meu lado na bancada, completamente suados, pedindo algo para tomar. Os drinks chegaram rápido. E sem parecer sincera, a Clara me perguntou se eu queria me juntar a eles na pista – eu declinei. Podia ver os seus olhos revoltados com a minha resposta, ainda que soubesse que ela não me queria lá de fato, “tá bom”.
 
Sabia que estava piorando as coisas, mas não conseguia simplesmente ir dançar e fingir que ela não tinha me ignorado por horas. Sequer me virei para ver onde estavam indo quando decidiram voltar para a pista. Que se fodam, que se foda a Argentina toda. Fingi que a culpa não era minha. E pelos minutos seguintes, comecei a virar tequilas. Já tinha passado da meia-noite e o meu aniversário de 25 já começava errado. Então decidi perder o juízo de vez, descontei no meu fígado. O que nunca dá muito certo, não é? Nem quarenta minutos depois e eu era amiga de um grupo de chilenos que encontrei perdidos por ali, completamente torta. O meu espanhol estava mais fluente do que nunca. Apoiava-me num deles para contar uma história que agora sequer lembro qual era, enquanto eles gritavam de volta e riam, entretidos. Simpáticos. Decidi, então, que não gostava de argentinos e que eles, os chilenos, eram simplesmente mais legais.
 
Minhas pernas já estavam trançando quando decidi que era hora de resolver a situação com a Clara. E entrar na pista foi uma experiência alucinada e confusa. O som estava alto, as pessoas completamente molhadas, tinha espuma de sabão para todo lado e as luzes mudavam freneticamente de cor. Eu estava embriagada. Realmente embriagada. Prestes a piorar ainda mais a situação. Via os corpos dos outros passarem por mim, tomada por uma vontade irracional de empurrá-los para longe. Entre aquele caos de espuma e gente com a roupa ensopada, vi um dos amigos da Clara ao longe. Comecei a ir em sua direção, cambaleando e sem enxergar direito; as pessoas gritavam umas com as outras, à minha volta, rindo. Estavam todos lá quando cheguei e a Clara dançava, encharcada, atracada com outra garota.
 
Filha da mãe.
 
Fiquei furiosa. Ela me viu, a cinco passos de onde estavam, e eu virei as costas na mesma hora. Saí em disparada, sem vontade de ouvir uma palavra que tivesse para me dizer. Um dos amigos dela veio atrás de mim, a Clara sequer se deu ao trabalho. Comecei a mandar o cara calar a boca, conforme ele gritava qualquer coisa na minha direção – parecia tentar explicar a situação por ela, mas eu não queria ouvir. Comecei a perder o controle. Debati os braços, me soltando dele, e segui andando – mas ele insistiu, grudado à lateral do meu rosto, como um parasita, berrando no meu ouvido.
 
Voltei para o bar e pedi um whisky. O cara seguia falando “no pasa nada”, se repetindo, e eu o mandava à merda. Virei a dose assim que chegou. E já pedi logo outra. O argentino me segurou o braço, falando um “ê, ê” cauteloso, como se me pedisse para ir devagar, implorando para que eu fosse lá resolver direito. Não preciso resolver porra nenhuma. Virei o outro copo inteiro. E na décima resposta estourada minha, ele deu de ombros e voltou para a pista, deixando de se importar.
 
Inferno. Empurrei a droga do copo adiante na bancada e me virei também, voltando para onde eles estavam. Quando revi a Clara, a garota estava ao seu lado, ambas com espuma até quase a cintura. Os amigos também, todos ali, em pé, comovidos pela nossa ceninha de uns minutos antes. A Clara me encarou, ressentida, como se tivesse vontade de fazer pior. Marchei na sua direção e a puxei para fora da rodinha de amigos, demos dois passos adiante. Mas aí ela se recusou a ir – se soltou de mim, com raiva, como quem quer sair de perto. Peguei na sua mão de novo e ela me empurrou. Começou a andar no sentido oposto, de volta, completamente embriagada.
 
_CÊ NÃO VAI FALAR COMIGO, PORRA? – gritei, competindo com o som alto.
 
Foi o suficiente para a Clara se virar na minha direção, mandando eu ir me foder. Em alto e bom som. E do nada, a situação toda explodiu. A tal garota se aproximou. Um dos amigos entrou no meio de nós duas e nós começamos a discutir. Virei para a Clara, gritando na sua direção – “SÉRIO? CÊ VAI MANDAR EU ME FODER? É ASSIM QUE A GENTE VAI RESOLVER AS COISAS?!?”. “NÃO QUERO FALAR COM VOCÊ AGORA!”, ela berrava. “AGORA?”, me irritei, “FAZ TRÊS, QUATRO HORAS QUE CÊ NÃO FALA COMIGO!”. Fiz um gesto para o cara me largar, me irritando com as suas mãos em mim. O Ignacio saiu detrás do balcão do bar, me empurrando, querendo que eu me afastasse da sua amiga. Empurrei ele de volta. A garota com quem a Clara tava dançando começou a falar qualquer coisa a dez centímetros da minha cara. “MANDA ELA CALAR A BOCA!”, gritei para a Clara. E o barraco foi ganhando proporções gigantes, saindo do controle.
 
_ESCUTA! – puxei a Clara pela mão mais uma vez, encostando a boca do seu ouvido – A GENTE NÃO PRECISA FAZER ISSO AQUI! SE CÊ QUER FICAR BRAVA COMIGO, FICA BRAVA COMIGO! QUER PEGAR A PORRA DA MINA, PEGA! – argumentei, bêbada – EU VOU FICAR LÁ FORA. E QUANDO CÊ TERMINAR, EU VOU TÁ TE ESPERANDO. FAZ O QUE QUISER, VELHO.
_É?? – me ameaçou – POIS EU DEVIA FAZER MESMO!!
_QUAL É O SEU PROBLEMA, CARALHO?! É A MIA?? UMA FRASE QUE EU TE FALEI?!? É ISSO??
_NÃO. NÃO É A PORRA DA MIA. É VOCÊ! VOCÊ!!
_ENTÃO FICA BRAVA COMIGO, CACETE! FALA! – berrei na direção dela, com os olhos já marejados, sentindo que tinha fodido tudo de vez – FALA QUE EU SOU UMA IDIOTA! EU SOU, EU SOU MESMO! UMA PORRA DUMA IDIOTA! MAS EU NÃO TAVA TENTANDO TE MAGOAR, SÓ QUERIA PODER CONVERSAR, INFERNO! POR FAVOR, NÃO ME IGNORA! SÓ FALA, PORRA! ME XINGA! FAZ QUALQUER COISA! – esfreguei a mão no rosto, fora de mim – EU AMO VOCÊ, DESGRAÇA!
_AH, AMA? O QUE ISSO QUER DIZER?!? – apontou o dedo na minha cara, nervosa – QUE VOCÊ VAI VIR ATÉ AQUI COMIGO PARA FALAR SOBRE A PORRA DA MIA? PRA FICAR PENSANDO NELA??!?
_CLARA, CARALHO, EU SÓ...
_VOCÊ O QUÊ? – me interrompeu, pistola – HEIN, VOCÊ O QUÊ?? PORQUE SE VOCÊ ACHA QUE PODE FAZER AS COISAS ASSIM, QUE EU VOU FICAR PARADA ESCUTANDO, CÊ TÁ MUITO ENGANADA!
_NA BOA, FAZ A MERDA QUE CÊ QUISER, CLÁ... QUE SE FODA!
 
Saí andando, puta da vida. E dez minutos depois, a gente estava se comendo no banheiro.