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julho 29, 2010

2:44

De repente, acordei. Num susto.
 
O quarto estava inteiro em silêncio. Estranho. Tirei o lençol amontoado de cima de mim, olhei em volta e o cômodo continuava escuro, apesar da janela aberta. Ainda não é dia, concluí. E eu não estava atrasada para porra nenhuma. Não havia nada, portanto, nada ali que me indicasse um bom motivo para a interrupção do meu sono. Nada, a não ser...
 
Espera.
 
Espiei debaixo da cama e vi o meu celular com a tela acesa, largado no chão. Mensagem nova, pensei, o barulho deve ter me acordado. Tal teoria até que fazia sentido, considerando a lógica da coisa, mas o contato de terceiros para comigo em plena madrugada de segunda-feira me parecia extremamente improvável. Mesmo que já fosse terça, tecnicamente. Que seja. Me espichei para alcançar o meu fiel companheiro antes que a luz dele se apagasse e eu passasse uns possíveis cinco minutos tentando tateá-lo no chão em meio ao breu.
 
Deitei de novo na cama e olhei para a tela, sem poder antecipar o que encontraria. Como é?, arregalei os olhos. E li novamente: “ñ consigo dormir, eh meu aniversario... ñ sei oq tá acontecendo cmg. com a gnt.” – a Mia me enviou, às 2:44. Caralho. Respirei fundo. O que mais eu poderia fazer senão respirar e engolir aquele soco no estômago em silêncio? Àquela hora da madrugada, eu não conseguia. Não conseguia lidar com aquela mensagem e menos ainda com o “a gente” ao final. A gente quem, Mia?, soltei o ar pouco a pouco, com todo o tempo que ela me ignorou ainda engasgado na minha garganta. E então retornei à tela inicial do celular, eram 2:46. Passei as mãos no rosto, agoniada.
 
E agora?
 
Por mais que eu quisesse deixar para lá aquele rolo todo e voltar a enfiar o meu rosto no travesseiro, eu não conseguia. Ela tá acordada. E eu sabia. Sabia e a imaginava, contra a minha vontade, enquanto o meu sono se esvaía. Com a certeza de que, em algum lugar de Higienópolis, deitada em sua cama, num quarto igualmente escuro, a Mia esperava por uma resposta minha. Qualquer coisa que lhe devolvesse o sono. Mas por que eu faria isso?, pensei. E rancorosa, desisti de digitar uma resposta.
 
Por que responderia, agora, se quando bem queria ela me tratava como... c-como... “como um nada”, eu queria concluir, mas a memória de quinta me impediu. Veio o show e o carro e o quarto, a forma como ela me beijava e sorria, afundando o rosto no meu pescoço – e eu sabia que não tinha sentido aquilo sozinha. Eu, e-eu não sou um nada, tentei me convencer, sem muitas certezas para me apegar. O meu coração se revirava no escuro.
 
Essa era uma situação difícil. Para mim e para ela. E eu sabia disso, afinal, a gente estava atolada na mesma lama. Empatia era o mínimo que eu poderia ter. Mas aí tinha o sábado, não é, uma lembrança desagradável. E para ajudar, tinha também o Fer – tanto para mim, quanto para ela – deitado no quarto ao lado, desavisado de todo o contexto. E o resultado, após minutos de indecisão, é que eu simplesmente não conseguia responder.
 
Nem dormir.

julho 28, 2010

Então, passou

O resto daquela noite e o dia seguinte e a noite inteira daquele domingo. Passaram. Indiferentes, sem nada. Nada dela. E eu, se é que eu estava lá, me mantive num estado deliberado de inconsciência. Aí veio segunda. E o trabalho também passou – como um nada na minha vida. Depois casa, jantar, TV, chuveiro, internet, cama e a segunda-feira já tinha acabado também. Incrível como uma pessoa pode te fazer tão bem numa noite e, dias depois, te transformar num vegetal só por cruzar a porra do seu pensamento. Pois é. Já se iam meses daquela merda instável – e não, eu não tinha me acostumado ainda.

#FAIL

Duas derrotas depois e eu perdi o ânimo de jogar. Sapatão de merda. E aí desandou – o excesso de bebida e a falta recorrente de dinheiro começaram a ter o efeito contrário em mim. Droga. Toda distração momentânea daquele rolê escapava por entre meus dedos, o barulho no bar parecia aumentar com as horas, as cervejas não paravam mais de vir e a minha cabeça já rodava de um jeito desagradável. E o que é pior, o meu coração começava a ficar sóbrio.
 
Me larguei sentada numa cadeira qualquer, mergulhada nuns pensamentos errados. E então, fiz o que não deveria – peguei o celular na mão e o segurei ali. Como se fosse tocar a qualquer momento, numa insistência bêbada e burra. Inconscientemente desejando que a mensagem daquela tarde não fosse a última. Que ela mudaria de ideia e me escreveria, que me salvaria de mim mesma. A Mia. Ah, a Mia. Eu nunca deveria ter me esforçado tanto para não pensar nela. Não por tanto tempo. O tiro começava agora a sair pela culatra e a desgraçada voltava violentamente para o meu peito. Como se nunca o tivesse deixado.
 
E de fato, não tinha.
 
Inferno. Me ajeitei contra o encosto, desconfortável. Então larguei o celular na mesa à minha frente e meti as mãos nos bolsos da calça, me afundando naquela cadeira de plástico. Encarava o telefone fixamente, sentindo a cerveja se misturar com a lembrança ainda viva de duas noites antes, dos nossos beijos e de como eu a amava, como a queria, e não a tinha, embriagando os meus sentimentos mais amargos. E o resultado é que eu tive que sair dali. Não podia mais ficar. Não assim – emburrada e calada em um canto, contemplando obsessivamente a ausência da Mia no meu telefone na minha vida. Não. Insisti até não dar mesmo para aguentar, aí inventei qualquer desculpa para a minha amiga – que a esta altura já estava pegando a caminhão do chinelo – e me coloquei a caminho de casa.
 
Como deixei chegar a esse ponto, porra, pensei, enquanto acendia um cigarro, irritada. Me revoltava a saudade que eu sentia de estar com ela, a solidão que me tomava de repente, conforme soltava a fumaça no ar e atravessava a rua em direção à Frei Caneca. Droga. Então tentava me lembrar do que a Marina costumava dizer, que “ninguém sabe o que tá fazendo, todo mundo tá na mesma merda”, mas aquilo não me fazia sentir melhor.
 
Passei em frente à banca próxima ao meu prédio e, em poucos minutos, já estava de volta em casa – de onde eu sequer deveria ter saído. Atravessei pela sala, pelo corredor e entrei no quarto. E não, não havia ninguém ali. De novo. Sábado à noite, concluí a contragosto. Eu já havia aprendido a lógica, mas parte de mim não queria se lembrar. Deixei a carteira e o maço em cima da cama e fui para o banheiro, numa tentativa de esfriar os ânimos.
 
Eu não devia ter falado nada, me arrependia, enquanto arrancava a camiseta do corpo e a largava no chão, não devia ter mandado porra de mensagem nenhuma. Argh. Me sentia uma idiota. Uma porra duma idiota. Como se tivesse me exposto à toa, dizendo que queria vê-la, o quanto tinha gostado, perguntando se estava com ele, quando o seu silêncio na sexta e naquela manhã já tinha sido claro o suficiente. Por que eu não fiquei quieta? Pelo menos eu ia me poupar de... Argh. Tirei o celular do bolso da calça e o abri, num impulso, olhando para a mensagem da Mia mais uma vez. Caralho. E se ela se arrependeu?
 
Não. Coloquei o telefone de lado. Chega. Eu não posso entrar nessas. Tirei a calça e entrei no chuveiro frio, determinada a não remoer mais os meus sentimentos. E por uns minutos, deixei a água escorrer na minha nuca para amenizar a dor de cabeça e aquele peso nos meus ombros. Saí do banho me sentindo melhor e desliguei o telefone, indo para o quarto me trocar. De camiseta-de-ficar-em-casa dos Stooges e banho tomado, por fim, tentei me forçar a dormir para acabar logo com aquele dia de merda.
 
Uma hora, tem que passar.

julho 26, 2010

Pequena trégua

“Rapidinho”. Eram nove e meia e nós continuávamos enfurnadas no mesmo snooker bar sujo de horas antes, cercadas de outras sapatas e umas sapateens com idade suficiente para estarem no ensino fundamental – e que provavelmente se sentiam mais em casa ali, no meio das caminhoneiras, do que frente aos olhares de julgamento dos seus pais. Eu amava aquela imundice dyke paulistana, os tão estimados botecos de sinuca da Augusta. De certa forma porque, em algum momento, anos e anos antes de sair do armário, aquele também tinha sido o meu “lar” fora de casa.
 
Como um verdadeiro rei em meio às sapatonas, o Bruce tinha se acomodado debaixo de uma das mesas e ia ganhando sobras de comida a cada 5 minutos. Cada vez de uma mão diferente, em segredo, enquanto ele abanava o rabo. O meu dinheiro já tinha acabado completamente. Àquela altura, eu sobrevivia no rolê por benfeitoria, às custas das cervejas e aperitivos alheios – mas, para dizer bem a verdade, ninguém mais sabia quem tinha comprado o quê. Tudo era socializado.
 
Depois de cinco ou seis rodadas de cerveja, me encontrava levemente bêbada entre umas amigas da Thaís que trombamos ao acaso ali, em meio às garrafas e cinzeiros e tacos, bebendo e falando mais do que deveria. Fiz amizade com uma delas, que me humilhava na sinuca pela segunda vez no dia, depois do fiasco daquela tarde, e acabei perdendo quatro das cinco vezes que jogamos. O meu orgulho já estava no chão. Reuni o pouco que restava e fui atrás da Thaís para pedir patrocínio. Na maior cara de pau. Afinal, quem perdia providenciava também a ficha para o jogo seguinte.
 
Minha amiga estava sentada numa das mesas de trás, ao lado do Bruce e a poucos metros de mim, flertando com uma caminhão dessas de chinelo, camisa aberta e regata por baixo. Um clássico. Tive a impressão de que já a tinha visto algumas vezes ali pela Frei Caneca. E quando me aproximei, a Thaís começou a rir, me olhando como se pudesse prever o motivo da minha visita àquelas bandas.
 
_O que cê quer agora? – ela achou graça e eu coloquei os braços ao seu redor, prestes a implorar – Hein, desgraça?!
_Pô, vê mais uma ficha para mim...
_Cê não tem vergonha na cara mesmo, não é, não? – ela se divertia comigo – VELHO, CÊ TÁ PERDENDO UMA ATRÁS DA OUTRA!
_AH, MEU! OLHA QUEM VOCÊ ME APRESENTA, MANO! ESSA CRETINA PARECE PROFISSIONAL, NUM ERRA UMA, PORRA! – resmunguei, bêbada – Vai. Por favor... Por favorzinho! Eu preciso ganhar minha dignidade de volta, cara.
_Tá, tá... – ela riu e tirou alguns trocados do bolso – ...mas vê se ganha uma pelo menos, caralho!
 
Agora vai.

julho 23, 2010

Marasmo

Ergui os braços sobre a cabeça, me espreguiçando, e em seguida os soltei sobre o colchão – cada músculo do meu corpo estava exausto. E relaxado. Podia facilmente dormir por algumas horas. Virei o rosto e observei a Thaís, que se esticava para fora da cama como se procurasse algo no chão. Então voltou com um dichavador e um pacote de seda na mão. E imediatamente repensei o meu desejo para aquele fim de sábado – fumar um, cochilar e aí comer uma pizza quando acordar, é, é isso.
 
Alheia aos meus planos, sentada mais acima no colchão, a Thaís desfazia a ponta que acendemos juntas em frente ao boteco umas horas antes. Misturou o resto com um pouco mais de erva no dichavador, depois fechou e começou a girar. Suas mãos eram inteiras tatuadas – uma mariposa old school na direita e um pardal na esquerda, além duns desenhos menores rabiscados nos dedos. Tinha os dois braços fechados, as costas, a lateral do pescoço e parte das pernas, onde os traços se misturavam com seus pelos. Caralho – a admirei, imersa no momento. Nunca a tinha visto assim. Então virei o corpo na sua direção, deslizando os dedos instintivamente pelos seus pelos, enquanto ela dichavava, a lambendo perna acima. Bem lentamente. Subindo pelo seu joelho, sua coxa, sentindo a sua pele arrepiar contra a minha língua. 
 
_Meu... – ela riu – ...acho que preciso dar um tempo, cara. 
 
Argh. Joguei o corpo de volta no colchão e revirei os olhos para ela, rindo.
 
_Arregona.
_Velho, sou nada, cê que é muito intensa... – resmungou – Sossega aí.
 
A Thaís balançou a cabeça, achando graça, enquanto abria o dichavador e virava toda a maconha numa seda. Bolou habilidosamente entre os dedos e lambeu a beirada, apertando o baseado. Então o acendeu.
 
_Mano... – comentei, observando ela tragar – ...cê não sente que a melhor parte do sexo é quando cê num aguenta mais e mesmo assim continua?
_Hum – soltou a fumaça e sorriu, me passando o baseado – Pode ser.
_Sabe quando cê pensa “num dá mais” e aí dá?
_Sei – ela riu, enquanto eu dava um pega – Mas eu ainda preciso dar uns 10...
 
Passou a mão no cabelo curtinho e a esticou em seguida, para pegar o baseado de volta. Notei o seu olhar percorrer o meu corpo discretamente. E então sorriu, balançando mais uma vez a cabeça.
 
_Velho, isso é muito doido...
_O quê? – perguntei, soltando a fumaça para cima.
_Isso. Eu e você, aqui.
_Né?
_Se alguém me perguntasse hoje de manhã como ia ser minha tarde... – achou graça – ...eu nunca ia ter adivinhado.
_Pois é... – me espreguicei mais uma vez – Mas, por outro lado, sei lá, eu meio que sempre soube que ia acontecer um dia. Cê não?
_Pode crer.
_Rolava uma curiosidade.
_Mano, muito fogo no rabo. Eu e você – ela riu – Era só questão de tempo...
 
Nos olhamos por um instante e a Thaís me empurrou de leve, fazendo graça. Me sentia bem de poder falar com ela sobre o nosso pequeno delito. Sentei na beirada da cama e alcancei meu maço no bolso da calça, que estava amassada num canto do colchão. Coloquei um dos cigarros na boca e olhei para a janela – o apartamento dela ficava no terceiro andar dum predinho baixo da Peixoto Gomide.
 
Me levantei e senti o olhar da Thaís me acompanhar pelo quarto. Abri o vidro, me apoiando no parapeito sem uma roupa sequer no corpo, enquanto os sons de São Paulo invadiam o cômodo. A juventude porralouca paulistana já começava a lotar a rua – e qualquer um que olhasse para cima da calçada facilmente veria os meus peitos ali. Mas que se dane. Acendi o cigarro e pus-me a observar o movimento naquele começo de noite gelado. Passei a mão no meu cabelo bagunçado, tirando-o da cara meio de qualquer jeito. E senti o vento arrepiar toda a minha pele.
 
De repente, ao fundo, ouvi a Thaís murmurar algo.
 
_Cê falou alguma coisa? – apoiei as costas contra a janela, me virando para dentro por um instante.
_Falei... – ela riu – ...eu perguntei... – repetiu, colocando o braço atrás da cabeça – ...quando que cê vai me deixar tatuar essa sua pele aí.
 
Com os seus olhos em mim, o comentário soava mais como um xaveco. E me fez sorrir.
 
_Olha, quando cê quiser, eu também topo...
_É? – ela sorriu de volta, como se falássemos de outra coisa – Tá faltando uns rabiscos meus aí.
_Tá. Tá sobrando muito espaço... – eu ri.
_Meu... Eu não ia dizer nada, mas tá mesmo, velho – mudou o tom, me zombando – Tá vergonhoso isso aí. Porra! Já num basta o vexame que cê é na sinuca, nem para compensar em tatuagem...
_Ah! Vai se foder, mano!
_Quê?!
_Num ouvi ninguém reclamando uma hora atrás.
 
Arqueei as sobrancelhas e a Thaís deu de ombros, debochada, como se tivesse razão. Revirei os olhos e me virei outra vez para fumar na janela, achando graça, apoiando o corpo contra o parapeito. O barulho do lado de fora intensificava junto com a aglomeração que se formava na Peixoto. E assim que coloquei o cigarro na boca, em meio às buzinas e gritos bêbados da rua, tive a impressão de escutar algo também do lado de dentro.
 
_O quê? – encarei o quarto mais uma vez, para ouvir direito.
_Que foi?
_Achei que cê tinha falado alguma coisa...
_Não – ela riu – É o Bruce que tá fazendo escândalo na porta.
 
O Bruce era um vira-lata misturado com boxer, já velho e meio cego, que a Thaís tinha adotado um ou dois anos antes. Era o amor da vida dela e o cachorro mais boa praça de toda Baixo Augusta. E que agora arranhava o vão da porta do quarto, choramingando, como se a sua vida dependesse de um passeio para mijar nos postes da vizinhança. Traguei mais uma vez, soltando a fumaça rapidamente para o lado de fora, e caminhei até a beirada da cama.
 
_Vamos dar um rolê com ele – falei, esticando a mão e oferecendo o cigarro para a Thaís.
_Agora?
_É – peguei a cueca no chão e vesti, rindo – A gente desce rapidinho.
_Bora então.

julho 20, 2010

Timing

Dali para o apartamento dela, que não ficava a cem passos do boteco, levamos dois minutos. Da porta até eu colocar minhas mãos nela foram menos de dois segundos. E nos dois milésimos seguintes, a sua boca já estava na minha – com gosto de cerveja e baseado, de sábado à tarde na rua Augusta. O meu corpo pressionava a Thaís contra a parede. Mas aquele primeiro beijo foi estranho. E não só pelo mero estranhamento de ficar com uma amiga, era... não sei.
 
O que há com você, porra, me indignei comigo mesma. Faz direito.
 
Forcei os olhos, fechados, e me obriguei a ignorar o incômodo por me pôr naquela situação. Tudo fluiu bem até aqui, pra quê estragar agora? Não queria pensar na Mia. Queria fazer o que bem entendesse, beijar quem me desse vontade. Como ela também fazia. Mas, de repente, não era assim que eu me sentia. E foi difícil, como nunca antes. Uma vez que começamos era como se eu não precisasse mais pensar – da minha boca à ponta dos meus dedos, tudo se convertia em sacanagem. Naturalmente. Mas segurar alguém com o coração em outra é mais complicado do que pode parecer. E aquela rodada em especial foi bastante difícil.
 
Mas enfim, foi.
 
E no fim, restei eu – ao lado da minha amiga na cama, sem roupa ou paz alguma de espírito. É. Eu já devia ter aprendido, passei a mão no rosto, frustrada com o fracasso absoluto daquilo. Numa tentativa desesperada de assumir o controle dos meus sentimentos, como se pudesse consertar o presente com os métodos do passado. Aquele era o fim do poço. Sentei no colchão, colocando os pés descalços no chão frio. E senti o peso do ar deixando os meus pulmões – amargamente.
 
Pronto. Você já veio, já fez o que tinha que fazer. Tentou e não deu certo, agora pega suas coisas e vai embora. Me levantei, sem pensar, e peguei o celular para ver as horas. A Thaís continuava deitada, falando desavisada sobre qualquer coisa, quando de repente vi uma resposta tardia da Mia na tela. Não a havia notado ali. À primeira impressão, a economia de palavras me empurrou de volta para a cama. Já o “desculpa” seguido de um “não” e, um pouco depois, do “Fer” me tirou a boxer na mesma hora.
 
E dessa vez, não foi nada difícil.

Botequinho

Sentei naquele snooker bar sujo, contando os poucos trocados que eu tinha no bolso. R$ 2,47. Isso só me garantia 4 fichas – talvez 5, se eu chorasse um pouco para o cara do caixa. Enfiei as moedas de volta no bolso da calça. E logo em seguida, avistei a minha amiga atravessando a rua. Numa regata branca e jeans largos, o boné virado para trás – puta merda, tava gata.
 
A Thaís era a única tatuadora num estúdio cheio de macho em Pinheiros. Era uma dessas butch gordas com uns braços fortes e um sorriso que te desgraçam a cabeça. Para piorar, recentemente ela tinha tatuado a lateral do pescoço. Cacete. Entrou no bar com aquela cara de quem tinha caído do sofá dez minutos antes. Parou no balcão antes de me cumprimentar e pediu uma garrafa de Brahma gelada, que o cara entregou para ela junto com dois copos americanos. Então veio até onde eu estava sentada.
 
_E aí, sapatão!
_E aí... – a Thaís sorriu, colocando a cerveja na mesa e puxando uma cadeira.
_Te acordei, meu?
_Não, tranquilo... Precisava sair daquele sofá, foi bom que cê ligou.
_Porra, saudade, faz tempo que a gente num se vê. Acho que desde a festa, não?
_Nossa... – arregalou os olhos e começou a rir, passando a mão na cara – Que que foi aquela sua festa, mano. Não sei nem como cheguei em casa naquele dia...
_Hum. Eu sei bem como cê chegou em casa... – pisquei na sua direção, a provocando.
_Cala a boca.
_Quê? – eu ri – Eu lembro.
_Fica quieta que cê tava caída do lado do sofá com a porra da Aninha em cima de você, velho. Cê não viu merda nenhuma!
_Ah, então não era você saindo pela porta com a sua ex do lado?!
_Filha da puta...
 
Ela riu, balançando a cabeça, e se esticou para frente para colocar cerveja nos nossos copos.
 
_Vem. Vamos beber, vai!
 
Brindamos e tomei um gole, achando graça na cara de pau da minha amiga. Ela ria também e me contava os desdobramentos daquela noite. Assim que terminamos o primeiro copo, levantei para comprar as fichas no bar. O boteco era um clássico trash paulistano – com uma estufa de salgados de origem duvidosa, um banheiro imundo com porta sanfonada e uma estátua de São Jorge empoeirada ao lado dumas laranjas e uns conhaques na prateleira atrás do balcão. Me sentia em casa. Peguei quatro fichas e ocupamos uma das mesas de sinuca, apoiando os nossos copos na beirada. 
 
Jogar contra a Thaís era má ideia. Toda santa vez. Não gostava nem de pensar na quantidade de dinheiro que eu já tinha perdido para ela ao longo dos anos, apostando cerveja atrás de cerveja em mesas exatamente como aquela. Não que eu fosse ruim, isto é, eu até que me garantia contra os bêbados da Augusta – mas não uma sapatão de respeito daquelas. E ela fazia questão de me provocar a toda maldita jogada que eu errava. É. Para depois ir lá e encaçapar três seguidas como se nada fosse.
 
Inferno.
 
Numa dessas, a bola branca aterrizou a poucos centímetros de uma das minhas. Praticamente na reta da caçapa. Tomei um gole da minha cerveja e coloquei o copo para o lado, me inclinando sobre a mesa. Era para ser fácil. Mas a Thaís ficou parada ali, me assistindo mirar, com os braços cruzados naquela regata e – cacete. Ergui o olhar na sua direção por um segundo e ela sorriu para mim. Como se por um breve instante soubéssemos o que se passava na cabeça uma da outra. E quando voltei a minha atenção para a bola, agora já levemente desconcertada, acertei o taco muito para a esquerda. Maldição. A branca pegou de raspão na outra bola, que bateu na quina da porra da caçapa e eu errei feio.
 
_PUTA MERDA! – a Thaís gritou e começou a rir – Que vergonha! Que vergonha pra nossa classe, mano...
_Cala a boca!
_Velho, na boa, cê tem sorte de ser gata assim, porque cê joga mal pra caralho...
_Ah, vai se foder!!
_COMO CÊ ERRA UMA BOLA DESSAS??
_PEGOU ERRADO NA BRANCA, CARALHO, IA ENTRAR!
_Ia... – ela zombou, rindo da minha cara – ...ia, sim. Tá bom.
_Cala a boca, mano! – eu ri também e a empurrei pro lado, a Thaís se divertia – Babaca.
_Sério. Como cê consegue se chamar de sapatão?
_Fácil. Porque... – fiz graça – ...o que importa, eu faço direito.
 
Ela arqueou as sobrancelhas como se dissesse “é?” e balançou a cabeça, rindo. Era gostoso flertar com a Thaís. Em algum lugar, nós nos entendíamos – testando os limites quando nos dava na telha e falando merda, sem nenhuma pretensão de necessariamente fazer algo a respeito. Encostei contra a parede. E ela me olhou ali, tomando mais um gole da cerveja, antes de se virar para me humilhar jogar.
 
De repente, existia uma tensão entre nós.
 
Foi como se aquele breve momento desencadeasse segundas intenções em tudo o que dizíamos. Ou fazíamos. Nos esbarrando entre as jogadas, esvaziando os copos, enchendo-os de novo e sorrindo, encarando uma à outra, sem dizer muito de fato. Havia certa arrogância na forma como a Thaís sabia que eu não conseguia tirar os olhos dela. Dobrando aquele braço forte, tatuado, para trás e deslizando o taco entre os dedos da outra mão – e olha, eu gostava.
 
Quando matamos a segunda garrafa de Brahma, saímos na calçada para fumar. A Thaís puxou o maço do bolso de trás da calça e pegou um cigarro, colocando-o atrás da orelha. Logo abaixo do boné, com um sorriso no canto da boca, como se fizesse charme. Depois resgatou uma ponta no fundo do maço, acendendo-a com o meu isqueiro. Demos dois tragos cada e ela logo apagou, guardando o baseado antes que alguém reclamasse. Não eram nem quatro da tarde ainda.
 
_Mas e aí... – a Thaís subiu o olhar na minha direção, tirando o cigarro da orelha e o colocando na boca – ...qual o lance com a Aninha, cês voltaram?
_Não, meu...
_Não?
_Foi só aquele dia lá da festa... – eu ri e ela tragou, me passando o cigarro em seguida – Depois até trombei com ela no Glória, num outro dia aí, mas não rolou nada.
_Hum. Por que não? Cê tá pegando alguém?
_Ah... – hesitei, sem saber como diabos responder a pergunta – ...é complicado.
_Complicado como?
_Ah, mano... – suspirei e a Thaís achou graça – Uma mina aí, curto ela pra caralho. Mas ela... e-ela namora. E uma hora me quer, na outra não. Esses dias a gente saiu, dormimos juntas e depois ela não falou mais comigo, tá me ignorando agora. Não sei o que pensar. Sei lá, é foda...
_Nossa.
_É... – arqueei as sobrancelhas e ri, tragando demoradamente.
_Velho, não dá, por isso que não tenho paciência pra me envolver com ninguém agora.
_Né? – soltei a fumaça por um espaço pequeno entre os lábios, passando o cigarro de volta para ela – Queria que as coisas pudessem ser mais simples, meu.
_Pode crer.
_Às vezes, cê... – disse e olhei descaradamente para a sua boca, conforme ela colocava o filtro entre os lábios – ...cê não acha que seria melhor simplesmente, sei lá, transar com suas amigas? Sabe, só... foder e se divertir, ficar de boa?
 
A Thaís segurou o riso e me olhou de volta, enquanto tragava, quase como se me desafiasse.
 
_Ué, vamos então.

Boa vizinhança

Tem vezes em que a gente escolhe pisar na jaca – ir lá e meter o pé bem de propósito. E essa começava a se tornar uma delas. Num impulso, tirei o celular do bolso mais uma vez. Num misto de amargura e orgulho. Que se foda. Só queria sair de perto daquele apartamento e ocupar a cabeça com qualquer coisa que não fosse a presença do Fer. Ou a ausência da Mia. Onde cê se meteu?, observei a tela por um instante, sentindo uma rejeição incômoda, sem entender onde diabos eu tinha errado.
 
Tudo o que me passava pela cabeça, depois de nos despedir, era quando a veria de novo. E quanto mais horas se passavam sem qualquer sinal dela, que aparentemente não podia pegar a porra do telefone e digitar cinco ou seis palavras, inferno, mais eu me sentia insignificante. Sem saber, de repente, o que fazer com tudo o que aconteceu entre nós. Caralho. Meu coração doeu, incorrespondido. Encarando obsessivamente aquela caixa de mensagem vazia. Como você consegue, Mia? Passar a noite comigo e ir encontrar ele assim?, senti uma angústia apertar minha garganta. Voltar para os braços dele enquanto a sua pele ainda tem as marcas das minhas mãos? De todas as horas que passamos contra os tacos de madeira no chão do seu quarto? O gosto da minha boca na sua? Como se nada?!
 
E sim, parte de mim queria me vingar. Eu só não sabia ao certo qual – se era a autodestrutiva ou a que desesperadamente tentava me preservar. Que se dane. Fechei a caixa de mensagens, numa decisão amarga, e comecei a rodar a minha lista de contatos. O problema é que eu estava sem um puto e isso reduzia consideravelmente as minhas possibilidades. Passei nome por nome, sentada na calçada em frente ao prédio. Que situação. Por mais que eu estivesse magoada, outro lado de mim não queria cometer os mesmos erros do passado. Não podia mais atropelar os sentimentos dos outros como fiz com a Roberta. Ou com a Dani. E achar alguém que não fosse uma completa má escolha naquela lista não era assim tão fácil. Sem contar a famigerada e gigantesca chance de desligarem bem na minha cara.
 
Não. Não. Não. Não. Definitivamente não. Não. Não. Não. Talvez.
 
Foi quando os meus olhos pararam sobre a Thaís, uma amiga que morava a poucos quarteirões dali e que eu não via desde a última festa do apartamento. Ela morava perto dum boteco de sinuca na Peixoto Gomide. E não – nós nunca tínhamos ficado. Apesar de às vezes, sim, darmos em cima uma da outra. Sempre meio que na brincadeira. A Thaís gostava de flertar com todo mundo e eu nunca sabia se ela estava levando a sério. Então fazia o mesmo. E os nossos rolês geralmente acabavam com as duas tropeçando de bêbadas numa sarjeta ou pegando outras pessoas, era descomplicado.
 
Quatro toques do telefone e ela atendeu, como se tivesse acabado de acordar.
 
_Fala, sapatão... – achei graça, rindo da sua voz de sono – ...que cê tá fazendo?
_Velho, nem sei... Tava capotada aqui no sofá.
_Não quer ir jogar umas aí embaixo?
_Opa – ela riu – Agora?
_Já tô na calçada, mano. A hora que cê quiser.
_Vamos.
 
Ótimo. Levantei na mesma hora, já me sentindo automaticamente melhor. E antes de devolver o celular ao bolso, sem pensar, digitei um “qria te ver, meu...” para a Mia.

julho 19, 2010

Déjà-vu

Subi uma calça pelas pernas, o All-Star sujo nos pés e fui para a rua sem um puto. É, o Fer tem razão. Eu já quase não morava naquele apartamento. E não que não fosse rata de calçada antes, acostumada a entrar e já logo sair, mas nunca com a frequência com que andava acontecendo nos últimos tempos. Bati a porta de raiva. De mim mesma ou do Fer – que diferença faz. De um jeito ou de outro, era sempre eu que acabava plantada na sarjeta, fumando cigarro atrás de cigarro, sem saber onde meter a minha confusão. Enquanto a Mia e o Fer seguiam suas vidas normalmente.
 
Olhei rapidamente para o celular, como num reflexo involuntário, e revirei os olhos com desgosto. Ela não vai te escrever, sua idiota. Coloquei aquela droga de novo no bolso, frustrada. E tornei a tragar o meu cigarro. Argh. Eu odiava essa dependência doentia. Era a única coisa que eu simplesmente não conseguia suportar nos meus apaixonamentos – esse atrelamento estúpido da minha porra de existência a uma mulher.
 
No caso, à Mia.
 
...à Mia e às memórias daquela quinta à noite. Rodando, de novo e de novo, na minha cabeça. O bar, as ruas do Itaim, o carro na volta, o elevador, o quarto, nossas roupas no chão, ela embaixo de mim, as suas pernas, o seu gosto, as suas mãos, eu embaixo dela, do lado, entrelaçadas, os lençóis bagunçados de manhã, a tranca da porta, as risadas, as conversas preguiçosas, o sorriso dela no café da manhã, o ônibus lotado, o beijo escondido e aquele sentimento que não me largava, tudo. Cada droga de segundo do lado dela. E agora a desgraçada não me escrevia, não falava nada há horas. Mais de 24 horas. Desde que voltou para a sua realidade heterossexual de merda, para aquele namoro. Inferno, Mia, por que você não pega a porra do celular e me responde, caralho?
 
Sentia cada lembrança amargurar dentro de mim, conforme soltava a fumaça pela boca. Argh. Aquilo estava acabando comigo. Eu precisava achar um jeito de me distrair até o fim de semana acabar – o problema é que eu notavelmente não sabia me distrair de outra forma que não envolvesse álcool ou sacanagem. E naquele momento, eu não tinha um puto no bolso. Então, vejam bem, que opção eu tinha?
 
É. Hora de acordar, São Paulo.

julho 16, 2010

Birra

_Nossa, “mãe”, fiz alguma coisa errada?! – ele começou a rir – Que cara é essa, meu?
_Nada... – voltei ao meu prato, irritada – Foi só uma pergunta, Fernando.
_“Fernando”?
_“Fer”, tá, que diferença faz?
_Mano, que bicho te mordeu...? – ele riu.
_Não enche! – respondi sua provocação, rancorosa, e enfiei o macarrão na boca, tentando sair dali.
_Ihhh... que foi? – zombou minha irritação – Comeu e não gostou?
 
Olha, pelo contrário.
 
_E-eu tô... tô... – eu me preparei para mentir, descaradamente, na tentativa de deixar as coisas melhores – ...com uns problemas aí. Deixa quieto, não tô bem hoje.
_Quer conversar, meu?
_Não, de boa.
_Beleza... – ele pegou na minha mão, como se me apoiasse silenciosamente, e aquilo simplesmente acabou comigo.
 
Escondi o olhar e a minha própria vergonha no maldito prato de macarrão, odiando toda aquela situação. Odiando o Fer por sabe-se-lá o que tinha feito com a Mia na noite anterior e odiando a mim mesma, acima de tudo. Afinal, ele podia não ser o melhor namorado do mundo, mas valia mil vezes mais do que eu como amigo. Merda. Eu tossi, rapidamente – estava comendo apressada demais e aquilo começava a não me fazer bem.
 
_Então, meu... – ele retomou, mudando de assunto numa tentativa de acabar com o climão – ...ontem fomos na festa do Vini. A Mia tava vendo umas poscas lá, que a mina do Vini comprou e tava mostrando. Ela curtiu pra caralho. Pensei em dar umas para ela de aniversário... Que cê acha? Sabe qual é?
_Hum...
 
A primeira menção à Mia embrulhou meu estômago na mesma hora.
 
_Foda só que é caro – suspirou – Preciso ver quanto tenho de grana ainda. Manja qual caneta que é, né?
 
Acenei que “sim” com a cabeça, sem dizer nada, sentindo uma contradição violenta de emoções dentro de mim e me segurando para não levantar e ir almoçar em outro lugar.
 
_Sei lá, é só uma ideia... – murmurou e então me olhou – Você vai, né?
_Vou onde?
_No aniversário.
_Não sei – abaixei a cabeça, me resumindo à minha insignificância – Não tô sabendo de nada.
_Hum... – ele desviou o olhar para o lado, como se pensasse em outra coisa, mas depois voltou ao papo de elevador – Foi legal ontem... tava maior galera lá.
_É? – murmurei, sem muito interesse.
_Não te chamaram, meu?
_Chamaram. Acho que sim... Eu é que esqueci, sei lá. O Vini me mandou um lance no Facebook semana passada, mas eu nem vi... Não me toquei que era ontem.
_A Mia me perguntou se cê não ia... – meu interior se contorceu de novo – ...os caras também, a Bruna...
_Perguntou? – retruquei, interessada no interesse da Mia.
_Perguntou o quê?
_Se eu ia?!
_Quem?
_Não... – caí em mim – ...nada, esquece.
_Mano, espera... você pegou a Bruna?? – o Fer riu.
_O quê?! Não!!
_Não entendi, então...
_Não entendeu o quê?!
_Do que você tava falando.
_Do que você tá falando?? – eu forcei um tom de indignada – E meu, por que cê sempre acha que eu peguei as minas que a gente conhece, mano?!
_Não, só presumi... – ele riu, mais uma vez – Achei que cê tava aí curiosa dela ter perguntado sobre você.
_Pois presumiu errado.
_Tá, é só que... – o Fer continuou de gracinha e aquilo me irritou de verdade – Cê sabe, né...
_Não, não sei.
_Vai, concorda comigo que era no mínimo “possível”.
_Eu?! – olhei para ele, puta – E a Bruna? Eu e a Bruna?! Tá.
_O que? É possível!
_Vai se foder, meu.
_O que foi?! – ele riu.
_Ela sequer pega mina, porra... O que tem a ver??
_Ah! Como se isso impedisse! – ele tornou a rir.
_Olha... Eu não peguei ninguém, Fernando.
 
Me levantei bruscamente e tirei o meu prato da mesa, colocando-o de qualquer jeito na pia.
 
_Êê... Tá difícil hoje, hein? – ele se encheu – Não dá nem pra brincar, meu!
_Tá, tá mesmo.
 
Resmunguei e saí.