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abril 21, 2012

“Don't want nobody to follow me...

...except maybe you.” (Ani DiFranco)


O silêncio entre nós agora já não era mais constrangedor. Era uma quietude sincera, tranquila. Todas as nossas palavras – as minhas, no caso – haviam sido gastas na última meia hora. Não havia muito mais o que dizer. As cartas todas na mesa. Restara um sentimento de compreensão mútua no ar, de carinho ou respeito, algo assim; talvez fosse apenas a exaustão daquele clima tenso, uma hora havíamos de ter gastado toda a nossa seriedade neurônios.

O relógio da cozinha, chique e bem-equipada, da família da Mia ressoava na parede conforme terminávamos as nossas bebidas. Ela, um copo gelado de Coca-Cola com algumas poucas pedras de gelo e eu, uma lata de cerveja que ela me oferecera. A qual eu tomava sentada sobre o balcão, o mesmo das últimas duas vezes que fui àquele apartamento, pensei. Memórias bobas, agora distantes; eu tentava me concentrar, pára com isto, por que entrar nessas? Respirei. Afinal, de que me adiantavam nostalgias àquela altura? Era tudo, de repente, tão diferente. Tirei as mãos da superfície do balcão, ignorando a sensação/saudade, e tomei outro gole, me distraindo.

_Você tem algum problema com cadeiras? – ela falou baixo, deixando escapar um riso breve.
_Não, é tipo um bloqueio... com a opção mais comum, sei lá... – sugeri, rindo, sem falar sério – Nada, eu só gosto de balcões.
_Balcões, pias... – foi listando, apoiada na direção oposta e contra a geladeira, desatenta.

É, pensei e abaixei a cabeça, evitando olhá-la de novo. Um sentimento estranho me tomou. Aquele momento desconfortável em que se sabe demais uma sobre o jeito da outra, por observação de meses a fio. Suspirei. A Mia ficou em silêncio em seguida, desviando também o olhar de mim e do caminho que a conversa tomara, mesmo que por acidente. Merda, preciso falar alguma coisa, porra, respirei fundo, ou isto vai tomar proporções maiores do que teria sentido tomar. As minhas mãos inquietas de novo contra a superfície fria do balcão – não conseguia formular frase nenhuma, porém; nem um som sequer saía da minha boca e o silêncio então cresceu. A Mia se moveu, colocando o copo na pia.

_Você quer mais uma? – perguntou, agora por mera educação.
_Não, eu... já vou indo, mas valeu.

Preciso ir. Eu e ela nos olhamos mais uma vez, ainda em silêncio, e eu desci da pia num salto sem muita força de vontade. A tranquilidade conquistada nos minutos antes já havia desaparecido. Vai embora logo, repeti para mim mesma. Não queria prolongar o desconforto que restara. Por mais filha da putagem que fosse, todavia, me era difícil de repente deixar aquele apartamento. Deixar tudo o que fora nosso. Perto do fim, os pensamentos se tornam mais drásticos, apocalípticos. Caminhamos até a porta juntas e ela a abriu, apoiando-se na madeira aberta. Encostei contra a parede oposta. Olhei-a por um instante e abaixei a cabeça, mais uma vez. Enrolava, nitidamente, mas sem premeditar.  

_Você... – murmurei, subitamente confusa; e aí ergui novamente o queixo na sua direção – ...você acabou não me dizendo o que, o que sentia.
_Ah, eu achei que não fazia mais sentido, né... – respondeu, cruzando os braços um tanto introspectiva, e sorriu – ...você sabe, depois de tudo o que você disse lá no quarto e o que nós... – nossos olhares se cruzaram mais uma vez – ...concordamos.

Diabo. Vê-la sorrir, por mais acidental que fosse, me quebrava as pernas de tal forma – e elas pareciam mesmo se recusar a sair dali. É a Mia, porra! Toda a minha segurança no que me preparara tanto para dizer, no que fora em sua casa só para fazer, perdeu a força. Estar ali, já tão na linha da porta. E o que foi, hein, que concordamos mesmo? A sua boca respirava, entreaberta, a meio metro de mim. O seu corpo, a sua pele morna. Por um instante, os meus olhos se fixaram nela, hesitantes. Tão óbvios que ela percebeu. Respirei fundo; olhando-a.

E observava-me de volta, apoiada contra a porta; as mãos escondidas atrás do corpo sutilmente. Como se esperasse – um movimento, um gesto meu, qualquer coisa bastaria. E eu o quis – toda a nossa história até aquele momento, todas as dificuldades, as falhas minhas, aquela falta de atitude dela, tudo o que conversamos na meia hora anterior passou quase que invisível pela minha mente. De repente, irrelevante. Por um milésimo de segundo. Ah, como o quis. Estava deixando tudo para trás e de forma tão consciente. Me odiava, em partes, por isto. E ela me olhava, tentando em vão me entender.  

_É... é melhor eu... – hesitei, virando o corpo na direção do corredor – ...eu, eu ir.
_É. É melhor...
_É. Certo.

Fui, sem olhar mais. “Se cuida”, ela disse então, carinhosamente, antes de fechar a porta. Por que diabos as garotas sempre dizem para eu me "cuidar" ao invés de se despedir de vez?! Como quem se preocupa, como quem continua ali e não como quem de fato te quer fora do radar. Argh! Andei até o elevador, sentindo o meu coração ser subitamente atropelado pelas minhas emoções. Nada daquilo. Eu parecia não ter planejado nada daquilo, como se não o quisesse. Quando foi que decidi por isto?! 

Um a um, comecei a descer os andares dentro do elevador. Um desespero fora de controle tomava conta de mim, a maldita da imprevisibilidade do futuro. De quando a veria de novo, de como tudo seria dali em diante. Eu devia tê-la beijado mais uma vez, só mais uma vez. Passei a mão na cabeça, agoniada. Me irritava, descontando em gestos impulsivos. A minha respiração me sufocava progressivamente, merda. Aquela era a Mia. A Mia! A única coisa na porra da minha vida, na droga do meu coração, por anos! Anos! Mas que... caralho!

Deixei o elevador me sentindo uma idiota. O que eu estou fazendo?! Não queria voltar atrás; com todas as minhas forças, não queria. Inferno. Imagens de quando a Mia fora minha, o seu sorriso, a sua boca, me enchiam a cabeça violentamente, contra a minha vontade, porém. E assim que passei pelo portão de entrada, pisando na rua e alcançando um cigarro no maço, me bateu um arrependimento quase estabanado, uma vontade de retirar cada uma das minhas palavras. Eu não posso fazer isto, eu não consigo. Tirei o cigarro da boca, voltando cinco passos apressada até a guarita e pedi que interfonasse de novo, eu precisava subir. 

O guarda entrou. Não. Merda!

Eu não podia fazer aquilo. Não era justo com a Mia, comigo, com a porra da Clara. Puta que pariu, mas que inferno. O meu corpo parecia relutar, brigando com a minha racionalidade, fixado na ideia de tê-la de novo. Por um breve momento que fosse. Só um beijo... Caralho, não. Não! Um beijo e eu mudava a porra do rumo da minha vida de novo. De volta para o domínio dela, à mercê da sua atenção. Da sua indecisão, da sua vida com o Fer no quarto ao lado. Não. Não dá, não mais. Dei um passo para trás. Eles ainda estão juntos e eu... não, não mais.

_Ela disse que a senhora pode subir... – o porteiro ressurgiu, me avisando.
_Não, não. Deixa...

33 comentários:

Ma disse...

Chorandinho mais uma vez ahahahahahahahahahah
Durante a leitura meio que quis ir pro final do post pra saber o que ia acontecer! HAHAHAHAHA desesperada, tão acelerada quanto ela. PQP :(

Aaaaaaaaaaaaaai por que iiiiiisso? :{
hahahahahahahah Foi tão... Awnnn o comecinho na cozinhaaa, porrrrr quêêê? Mundo cruel! :(


1bj!

Anônimo disse...

Agora o bicho vai pegar !ou melhor a Fm hahaha.eita tou dividida pq nao gosto de voltar atras,sou orgulhosa.Mas a fm é mestra em ser contraditoria.

beijjjjj dona Melissa.
ps:sinto que teremos uma abstinencia profunda apos esse post ;).

Anônimo disse...

porra, melissa! nao precisa ser tão homeopática assim, né? logo nessa parte??? mas vai, toma aqui um comentariozinho pra encher seu egoooo e ver se vc se apressa a postar logo o próximo! hahahaha.

adoro qnd vc descreve essas angústias da protagonista. dá pra sentir direitinho. mas cara, nem adianta tentar despistar com esse final de "nao, deixa" aí. é a FM, ela é o ser mais umpulsivo do mundo, ela vai subir!

aguardo o proximo. ;)

( the girl fucking Mia ) disse...

Nããão, não terão! Já escrevi metade do próximo, antes mesmo de começar este... vai entender, rs ;)

Anônimo disse...

Tá brincando né?! Como você para numa parte como essa??!! Ah FM sobe lá e come logo a Mia de vez! Hehehehe... Chega de sofrimento né! Tudo tão perfeito na cozinha e na porta e a FM teeeem que sair :@ bocó...

Bia disse...

Maybe - Kelly Clarkson, pra esse post aí!S2 Mt, mt bom, Mel! Parabéns!

Anônimo disse...

Nada como começar o dia com post novo....Olha, haja passiflora. Escritora quer matar leitores do coração... Love it! JT.

Anônimo disse...

Aquele momento em que vc ja elogio tanto que até Falta palavras de tão bom!... já falei mas vale falar de novo o jeito de escrever é perfeito! Quanto a história ... meu Deus tanto de um lado quanto do outro... até eu que sou a racionalidade em pessoa ja teria agarrado!....kkkkkkkkkk.... pelo amor ! ...kkkkkkk...

Anônimo disse...

FILHA DA PUTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA SOBE ESSA PORRA LOGO! AAAAAAAAAAAAARRGH

o'hana sanvés disse...

meeeeeeeeeeeeeeeu, como assim??? mas que tentação do caralho hein? ptz. mas sei lá pensando por um lado positivo foi bom ela não subir... acho que se ela subir e acontecer alguma coisa vai dar alguma merda... ou não... sei lá. SÓ SEI QUE EU QUERO O PROXIMO LOGO MEEEL! ><

Anônimo disse...

VOOOOOOOOOOOOOOOOOLTA FM!

#TeamMia

Anônimo disse...

"Don't want nobody to follow me...except maybe you"
quem sabe desta vez a Mia não toma uma atitude e segue a FM,neh?

Ianca' disse...

Fiquei tão nervosa nesse post, tão apressada, tão tensa, que li palavras soltas dos parágrafos mais abaixo ainda não lidos, vez ou outra, só pra ver se aconteceria o que eu desejara, que aflição. FAZ A MIA FALAR, MEL!
Cara, o clima paira entre elas tão naturalmente, owww destinooo, faz as coisas acontecerem pq já tá na hora!

Ótimo post, Mel D:
Preciso/necessito de outro.

Mila D. disse...

É tudo tão humano, na FM.
Ao mesmo tempo que ela tem certeza de que acabou, que mudou, ela revive tudo em pensamento e já nao tem tanta certeza.
É como nos relacionamentos da vida real. Mesmo quando sofremos e queremos parar, largar, vendo todas as evidências de um insucesso... Pagamos pra ver.

Anônimo disse...

Quanto sofrimento nos últimos parágrafos :(

Anônimo disse...

Nãoooooooooooooo, não pode continuar assim. Quase tive um infarto lendo, parecia minha vó gritando com a TV, eu mandando a FM voltar lá e beijar a Mia. Aii meu coração é fraco, não faz isso.

Amanda disse...

Melissa, como tu fazes isso, héin? Eu odiava a Mia e de repente tô completamente apaixonada, tô até quase esquecendo a Marina.
Por mais que as coisas com a Clara sejam ótimas e calmas, não adianta... É pacífico demais justamente pela falta de sentimentos. Não adianta a FM tentar negar esse furacão que ela sente pela Mia. Ela PRECISA ouvir o que a Mia sempre sentiu, porque eu também preciso. Bota essa mulher pra correr atrás da FM na rua, puxar pelo braço e tacar um beijo e levar pra cama, porque tá na hora.
Tô esperando pelo próximo. Corre , que eu sou exigente hahahahaha

Parabéns, parabéns. Tu és demais!

@carolcastr disse...

OMG!!
Sobe FM, pohaaaaaaa!
Não mata a gente do coração!!

Anônimo disse...

Anem mel, vc escreve bem demais, revivi todos os momentos e sentimentos com a FM agora! :))

Mia, corre atrás dela logoo!!!

Juliana Nadu disse...

sobe............................


mt foda! >.< era td o que eu imaginava... =D

Pathy disse...

Não é possivel que a Mia vá ficar calada sempre, porra Mel, faça essa mina falar meu! =/
E tomara que a FM suba, pq eu subiria, na verdade não desceria sem ter dado o "último" beijo.. não teria mesmo! HEHEHEHEH

TekaSak disse...

SOOOOOOOOBEEEEEE!!!!!!

Bruna disse...

Aaaaaahhhh... sobe logo!!!

Gabi disse...

gente, q agonia!!! ai meu coração!

sobe logo, FM! ou desce logo, Mia, e vai atrás dela! tanto faz, desde q elas fiquem juntas...

Anônimo disse...

meu deeeus, é a Mia! Sobe looooogo!

Julliana disse...

Sooobe logo FM , a Mia está te esperando ;

bru disse...

se ela subir vai dar merda, e se ela não subir também vai dar merda. na dúvida eu ficaria na merda, mas com um beijo da mia.

c' disse...

ah mel qe confusao mental cara. FM foi muito forte em nao ter agarrado ela na cozinha e nem na porta. Eu no lugar dela nao teria conseguido. Mas nao teria conseguido msm. Pelo menos um ultimo beijo né. Mas e a mia gente, qe nunca fala nada? Como assim " eu achei qe ja nao importava mais"? Claro qe importa, óbvio qe importa. Todas qerem saber oq vc sentiu e sente de verdade pela fm minha filha, pelamor né. Num guento com a Mia nao. Mas e agora mel, oq acontece? ela sobe? nao sobe? Como assim vc parou logo nessa parte? Apesar de eu qerer muito qe a FM suba, e qe tudo aconteça, eu penso se ela subir e tudo rolar ela vai ficar nas mãos da Mia de novo. Ai complica. Mel, nao nos mate do coraçao, posta logo por favor. ps: odeio comentar por esse cel pq ele nao comeca novo paragrafo. Ai fica tudo junto e meio sem sentido. uó.

Anônimo disse...

Não fogeee, FM!!!
Sobe lá e dá um puta abraço pelo menos!
Mel, mos matando desde sempre...

Anônimo disse...

kd mia? sua hs meu........corre lah na fm.....
meeeeeeel vc eh terrivel......como pd uma historia tao perfeita?????????
bjbjbj

Gabriele disse...

putz senti a nostalgia daqui,ao som de Beat Your Heart Out e tudo

Anônimo disse...

Tá ficando previsivel demais, ela não sobe pega um metro tem sempre um pentelho p ela distrair e discrever e bla bla bla bla

Anônimo disse...

FM, sobe, pelo amor!!
Deixa o pau quebrar, menina.