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março 15, 2010

Oh no, not you

“Onde vc foi? Ñ vamos sair? =(”, a Mia me escreveu às 22:46. A quilômetros de distância dela, li a mensagem no meu celular e fiquei encarando a tela por um tempo, parada, me sentindo sem saída. Não sabia o que responder.
 
Droga, suspirei, o que eu faço agora?

março 14, 2010

Direto ao assunto

O interfone tocou e fui deixada sozinha no apartamento por alguns instantes. Tinha insistido mil vezes que não queria pizza, estava completamente sem grana depois do mercado, mas a Marina me ignorou. E pediu mesmo assim. Antes do entregador chegar, detalhei toda a minha situação com a Mia e o Fer, sendo interrompida pelo interfone quando já estava na discussão do quarto. A Marina voltou com uma pizza quentinha em mãos e eu levei dois pratos para a sala, sentando ao seu lado no sofá para comer.
 
_Cê precisa terminar com ela – a Marina anunciou, do nada.
 
Quase engasguei.
 
_O quê? Não! – discordei – Por que diabos eu faria isso??
_Não sei, linda, sinto que cê vai acabar se enfiando cada vez mais numa confusão de mentiras e traições e constrangimentos na sua própria casa e, e não é fácil, flor. Eu sei o que falei da outra vez, mas cê não pode continuar nisso assim, cê já tá muito envolvida.
_Tá louca, Marina?
_Não quero que você se machuque...
_Mas ficar longe dela também vai me machucar! – ri de nervoso, sem graça – E e-eu, eu não consigo, Má! Eu tentei. Juro! Tentei de tudo pra ficar longe da Mia, por meses, mas não dá! Ela tá lá o tempo todo, porra, eu vejo ela quase todos os dias, a mina não sai daquela droga de apartamento!!
_Tá, mas...
_Não, me escuta – argumentei – E-eu... eu nunca me senti assim antes, meu. A Mia... Ela não é só uma garota que eu quero comer e nunca mais ver, e-ela... ela me fode a cabeça! Cê não tá entendendo! Eu passo a porra do dia sonhando acordada, eu nunca fiquei assim! E e-eu, eu sei que a gente ia dar certo juntas. Eu sei! Eu sinto em cada célula do meu corpo. E eu realmente acho que ela também sente o mesmo, ela só tem medo, e-ela não sabe como... e-eu, eu tô completamente apaixonada, Má.
_Bom, então você precisa falar com o Fer, flor.
_Não, isso não é uma opção.
_Ou um, ou outro.
_Não, não... – passei as mãos no rosto, angustiada – ...tem que ter outro jeito.
_Gata, escuta o que eu tô te falando – a Marina me alertou – Você vai se dar muito mal nessa história. O Fer não vai te perdoar. A bomba vai explodir inteira em cima de você.
_Mano, m-mas... e-ele, ELE TAVA TRAINDO ELA!
_E daí, ELA TAMBÉM TAVA!
_É, s-só que...
_Só que o quê?! – me interrompeu – Flor, você não sabe como são as coisas entre eles. E uma coisa é o Fer trair com uma mina nada a ver, outra é ele descobrir que você tá pegando a namorada dele. Não tô dizendo que ele tá certo, mas cê entende que vai dar muito mais errado pro seu lado? Vocês tão se envolvendo muito rápido, meu amor. E eu sei que cê gosta dela e que pode parecer impossível, mas você tem que se afastar enquanto ainda consegue.
_Tá. E-eu, eu sei, mas... Ela quer, Má, cê não tá entendendo, ela me quer. Ela quer ficar comigo. Eu vi na cara dela hoje, mano, no quarto! Porra. Não é como se eu tivesse alimentando uma paixão platônica por uma pessoa que não tá nem aí para mim! E se, s-se você visse ela ontem, mano, o jeito como a gente se encaixou, como ela me beijava, cê não tem noção. Eu, e-eu não vou conseguir mais tirar ela da cabeça, velho. Foi pra valer, Má.
_Pra você, meu amor, porque você vê as coisas assim...
_O que diabos isso quer dizer?
_Quer dizer que cê já se apaixonou por minas antes, já namorou, levou pra casa dos pais. Cê sabe o que é ser sapatão... – argumentou – A Mia, não. Ela nunca ficou com outra garota, linda. Ela não sabe o que é gostar de mulher. E eu n-não, não sei se ela tem noção do que realmente significa, de tudo que vem junto. Do que ela vai ter que abrir mão. Você acha que ela sabe, porque quer que ela fique com você, mas as coisas te afetam de outro jeito... – suspirou – Não é a mesma coisa, flor. Como cê pode ter certeza de que ela sente o mesmo que você? Como cê sabe que não é só porque, sei lá, p-porque é diferente? Proibido? – comecei a balançar a cabeça, a ouvindo, negando tudo o que ela dizia – Olha... escuta. Pra mim, pra você, o que uma mulher faz do nosso lado tem um significado muito mais forte. Nós damos sentido a cada gesto. Eu só não quero que você quebre a car...
_Marina, eu não tô tendo um delírio – rebati, a cortando – Ela gosta de mim!
_Eu não tô dizendo que não, só... só q-que talvez... – hesitou – ...talvez não seja tudo isso na cabeça dela. Não como é pra você, entende? Não sei se a Mia tem plena consciência do que faz com você, flor. Nem se ela tá pronta para encarar isso. Ela namora!
 
Respirei fundo e apaguei o cigarro no cinzeiro, a escutando falar a contragosto, enquanto encarava o chão. Eu odiava aquilo. Odiava seus argumentos, a sua preocupação. Não queria ouvir – porque mesmo com toda a razão e os sinais evidentes e todo o maldito bom senso indicando que a Marina, provavelmente, estava certa... algo dentro de mim ainda discordava.

março 13, 2010

Enrolando

Uma vez que o sofá ficou livre de todas as intermináveis peças de roupa, me acomodei e coloquei um dos pés em cima da mesa nova. A Marina me reprovou com o olhar – tava com saudade? Ri. E ela balançou a cabeça. Perguntou então se eu não queria alguma coisa para beber. Pedi cerveja e ela disse que só tinha chá verde. Eca. Resolvi me contentar com um baseado e a boa companhia. A Marina foi até a cozinha buscar um copo do líquido-gelado-zen-intomável e sentou ao meu lado na volta, dobrando os joelhos perto do corpo, com os pés descalços em cima do sofá.
 
_Não me lembro de você assim quando a gente saía.
_Assim como?
_Assim de vestido, toda bonitinha aí... – fiz graça.
_Cê tá querendo dizer que eu era um horror antes, é isso? – riu.
_Cala a boca. Cê sempre foi gata, Marina, não quis dizer isso!
_Olha, eu não tenho tanta certeza do que cê quis dizer... – ela brincou, tomando um gole do chá.
_Não é, Má, só tô falando q-que... sei lá, meu, cê tá diferente – expliquei – E cê parece feliz. Acho que essa tal de Bia aí tá te fazendo bem...
_É, acho que sim...
_Hummmm, então a Bia é mesmo a sua nova namorada – concluí – E não só “uma menina” aí?
_Para. A gente não tá namorando ainda...
_Ainda?
_Ai, como você é chata... Meu deeeus.
_Desculpa. Parei.
_Besta.
_Hum... – hesitei, tomada pela estranheza de estar naquela sala de novo – Mas e e-eu...?
_Você...?
_Eu te fiz feliz? Por um tempo, pelo menos?
_A gente não precisa falar disso.
_Não do fim, Má. Tô falando... do resto.
_Fez – ela respondeu – Mas é diferente, cê foi minha primeira.
_Que tem?
_Tem que é difícil separar o nosso relacionamento d-desse, sei lá, desse momento na minha vida. Acaba meio tudo junto, aquela época, você, o processo de me entender, não sei, como terminou.
_...e-eu fui uma idiota, né?
_É, foi – ela riu.
 
Abaixei a cabeça, constrangida.
 
_Eu era uma trouxa, cê sabe, né? – a olhei carinhosamente, com a ponta acesa na outra mão – Eu me arrependo pra caralho, Má.
_É. Eu sei – ela sorriu, segurando a minha mão – Talvez a gente devesse ter sido amigas desde o começo.
_Acho que ia dar mais certo mesmo... – concordei e aí arqueei as sobrancelhas – ...quer dizer, amigas com uns “benefícios”.
_Não. Sem benefícios para você.

março 12, 2010

Nostalgia

_É a Mia, não é? – a Marina me perguntou, assim que entrei no seu carro.
_É.
 
Ela revirou os olhos, respirando fundo. E saiu com o carro, dando seta para entrar na avenida. Logo caímos em um leve congestionamento na saída para a Rebouças. A Marina colocou um CD da Tulipa Ruiz para tocar baixinho e eu agradeci pelo resgate. Ela morava nos labirintos íngremes da Lapa, relativamente perto de onde eu trabalhava na Vila Madalena, num apartamento arrumadinho que dividia com a sua irmã e duas tartarugas d’água resgatadas – a Bette e a Tina.
 
Eu não ia lá há séculos, literalmente desde que terminamos. E isso já fazia anos. Normalmente nos víamos em algum restaurante perto do meu trabalho ou do dela. Começou quando ainda era recente, na época em que era melhor nos encontrarmos em lugares públicos e longe de possíveis camas nas quais pudéssemos esbarrar e acabar caindo acidentalmente. Mas com o tempo, virou o nosso lance. Chegamos no apê em pouco menos de meia hora. Continuava o mesmo, exceto por uns quadros e uma mesinha nova no centro da sala. A Marina acendeu as luzes e deixou as chaves em cima da tal mesa.
 
Só então pude vê-la direito – estava diferente.
 
A Má era uma dessas nerds que quando era criança aprendeu a tocar todo tipo de instrumento, de flauta a violão a piano, gostava de jogo de tabuleiro e fazia ioga, essas paradas namastê. Eu culpava a proximidade com a Vila Madalena. Ultimamente a via sempre de legging ou com suas roupas de jornalista esquerdista – era a única repórter negra na redação onde trabalhava, entre paredes impregnadas de testosterona em excesso. Observei-a enquanto liberava o sofá, tirando algumas roupas jogadas ali em cima, denunciando sua indecisão antes de sair. Usava agora um vestido soltinho e lentes ao invés dos óculos, notei, certeza que tava num encontro.
 
_Cê tá bonita, Má.
_Olha, nem começa... – ela riu, tirando a última blusa de cima de uma almofada.
_Ihh, que foi? Eu, hein. Não fiz nada!
_Sei... sei bem como você é quando tá com problema com alguma mina.
_Nossa! Não posso fazer um comentáriozinho inofensivo?
_Nenhum comentário seu é inofensivo.
 
Ela riu e me olhou, bancando a engraçadinha.

março 11, 2010

911

_Onde cê tá?
_“Oi” pra você também, sua mal-educada...
_Desculpa, oi! – consertei rapidamente – Onde cê tá?
_O que tá acontecendo?
_Eu fiz merda, Má. Fiz merda mesmo, das grandes.
_Xiiii...
_Onde cê tá, meu?
_Na casa da Bia.
_Quem é Bia?
_Uma menina.
_Que menina?! – me incomodei.
_Não muda de assunto, intrometida. Me conta, o que cê fez dessa vez?
_Não posso falar pelo telefone, vem me encontrar. Que horas cê sai daí?
_Não, hoje não dá...
_Marina, por favor.
_Ah, nem vem! – ela riu – Eu quase nunca tenho tempo livre e eu já tinha combinado...
_Meu, é sério. Eu preciso muito falar com você!
_Ei! Escuta... – me deu bronca – Você não é a única pessoa na minha vida, sabia?
_Mas você é a única que presta na minha. Por favor, por favor... Por favor...
_Meu deus, isso é absurdo. Não.
_Por favoooooooooooor!
_Isso só pode ter mina no meio. Só pode! – eu podia quase vê-la revirar os olhos do outro lado da linha – Qual a chance? Não sei nem se eu quero saber o que aconteceu. Cê se mete em cada uma e depois ainda sobra pra mim!
_Eu não sei o que fazer, Má. De verdade. Vem me encontrar? Por favor. Eu tô precisando muito de você, meu...
_De mim? Cê tá uns anos atrasada, gracinha.
_Para! – ri – Pô, Má. Sem brincadeira, meu, preciso mesmo de você...
_Sei.
_E da sua infinita sabedoria, vai... – implorei – Por favor!
_Você é inacreditável...
_Onde cê está? Fala que eu vou aí te encontrar.
_Não, não – ela suspirou – Deixa que eu vou aí.

março 10, 2010

Fervendo

_Comeu?
 
Me perguntou e colocou as duas mãos no batente da porta, agindo estranho. Não entendi a hostilidade. Me certifiquei rapidamente com os olhos de que a Mia não estava ali e só então respondi:
 
_Não.
_E por que não? – ele retrucou, soando bem mais irritado do que a situação justificava – Não tava aí fazendo um puta drama de que tava com fome?! De que não tinha porra nenhuma pra comer? Hein?! Que a gente precisava ir lá comprar as merdas pra casa?!?
_Perdi a fome, Fernando – fechei a cara.
 
E ele me olhou, desconfiado, como se não acreditasse no que eu estava falando. Fechou a porta atrás de si, entrando no quarto com certa agressividade. Dei alguns passos para trás, o encarando de volta. Qual é o seu problema agora?
 
_O que cê falou pra ela? – ele se aproximou, tentando evitar que sua voz atravessasse a parede.
_Nada!
_Então por que cê está assim?
_Assim como?!
_Não se faz de idiota! Tem alguma coisa rolando! – ele disse, puto, tentando não subir o tom de voz – A Mia tá toda constrangida lá na cozinha, cês duas tão agindo estranho, porra. Qual é?!
_Eu não falei nada!
_Do que cês tavam falando quando eu cheguei?
_Não interessa – retruquei, sem me intimidar.
_O CACETE QUE NÃO!
_Fernando, eu não contei porra nenhuma. Não tinha nada a ver com você!
_Então é só uma coincidência do caralho, né?
_Ah, velho. Não me enche! – revirei os olhos, antes de sussurrar irritada – O que cê acha que eu ganho contando? Antes de qualquer coisa cê é meu amigo, caralho. Cê acha que eu vou te dedurar? Pra Mia?? Cê tá paranoico, porra! Vai sair me acusando??
 
Ele me olhou, sem resposta – pelo menos nisso eu estava sendo sincera. O que me dava bastante confiança. Passado um tempo em silêncio, ele pediu desculpa pela acusação e se acalmou. Rolo dos infernos, aquilo estava indo longe demais. O Fer saiu do quarto e eu continuei parada ali, ainda pior do que estava antes. Preciso sair daqui. Terminei a minha cerveja em dois goles enormes e vesti uma jaqueta para dar o fora.
 
Passei na cozinha para pegar um pacote de bolachas já que, ao contrário do que aleguei, sim, eu estava morrendo de fome. O Fer estava começando a cozinhar algo no fogão. E a Mia esperava sentada, em cima da pia. Ela me olhou durante o tempo todo em que estive no cômodo. Sem cuidado algum para que o Fer não percebesse – cê perdeu a cabeça? –, mas ele seguiu virado para o fogão e felizmente não viu. Os olhos dela me seguiam. Cada segundo dentro daquele apartamento aumentava o meu constrangimento.
 
Bati a porta, sem me despedir de nenhum dos dois, e desci até a rua. Já estava escuro, mas ainda não era tarde o suficiente. O agito habitual das viados e baladeiros da Augusta ainda não tinha ganhado peso para uma noite de sábado. Subi a Frei Caneca sem saber direito para onde ir. A cada passo tentava me livrar do peso na consciência pelo que eu fiz com a Mia e pelo que vi o Fer fazer. Pelos segredos que eu não queria guardar. Queria fugir da minha própria vida. Precisava respirar um pouco, descansar de tudo aquilo. Desgraça. Estava quase chegando na Avenida Paulista quando o meu celular tocou. Era a Roberta.
 
Não, isso não. Ignorei e continuei subindo a rua, guardando o telefone de novo no bolso da calça. Eu precisava de alguém neutro. Alguém que não fosse piorar o caos que eu sentia por dentro. A minha cabeça estava a mil e eu só queria escapar daquela confusão por uma hora, duas. Mas não tinha ideia de como, estava completamente perdida. 
 
A Marina, concluí na última quadra. Eu preciso da Marina.

março 09, 2010

"Pode vir quente, que eu estou..."

Assim que entrou em casa, o Fer cruzou o corredor e nos viu ali, dando bandeira. Paradas em frente à porta do meu quarto. Ele nos encarou. A Mia foi cumprimentá-lo – com um beijo, argh – e eu fiquei observando-os de longe, me limitando à minha insignificância. Por trás da Mia, a Fer ainda me observava. Triângulozinho de merda, eu revirei os olhos e encostei na parede, olhando para o chão, na tentativa de ignorar a cena toda.
 
O casalzinho feliz começou a conversar, num tom introspectivo. Me excluindo. E eu resolvi dar início ao consumo das cervejas, antes que aquela situação me sufocasse ainda mais. Passei pelos dois, me virando contra a parede do corredor. A Mia me olhava com um nítido pesar na consciência. Essa noite vai ser longa, pensei, já me conformando com o lento decorrer das próximas horas. Entrei na cozinha e peguei a primeira de muitas cervejas que pretendia enfiar goela abaixo.
 
Voltei para o meu quarto. E o casal “ternura” ficou lá, no sofá da sala, se amando. Inferno. De alguma forma, meu quarto agora parecia pequeno demais para os meus pensamentos. Era como se as paredes não fossem capazes de suportar todo tráfego mental e emocional, num surto autodepreciativo. Dá para enrolar cem baseados com todo esse papel de trouxa que tô fazendo, puta merda. A situação me causava claustrofobia. Mas eu não conseguia sair – indisposta a cruzar com a Mia pelo apartamento. Sem outra opção, acendi um cigarro e me sentei na frente do computador.
 
Liguei o MSN entre um gole resignado e outro – e fui surpreendida com várias mensagens antigas da Roberta. Àquela altura do campeonato, já havia esquecido da noite de quinta. Merda. Por um momento, me ocupar com outra pessoa me pareceu uma boa ideia. Não, chega. Preciso aprender a não fazer mais isso, me contive. Não queria realmente submeter a Roberta ou qualquer outra garota que fosse à minha confusão – não de novo. Não era justo. Já basta eu aqui, me fodendo. Nisso, em meio à disputa entre a minha falta de caráter e de opção, alguém bateu na porta. Eu não sabia o que era pior: o Fer ou a Mia. Respirei fundo, indisposta. E fui descobrir, sem curiosidade alguma de ver quem estava do outro lado e por quê.
 
Que inferno, pensei, virando a maçaneta.
 
Era o Fer – com cara de poucos amigos.

março 08, 2010

Portas destrancadas

_O que cê quer?
 
Perguntei ao abrir a porta.
 
_Por que você tá assim? – a Mia me olhava de volta, chateada.
_Por que diabos cê tá aqui?!
_Porque eu quero falar com você.
_Não no quarto. No apartamento, Mia!
 
Ela me encarou por algum tempo, segurando a resposta no fundo da boca.
 
_O Fê... – suspirou – ...é m-meu namorado.
 
Ouvi-a justificar, quase cochichando, sem confiança alguma. Seus olhos me observavam, respirou fundo. Mas você não é mais namorada dele, pensei. E fui tomada por um sentimento violento, de repente. Uma vontade de estar com ela me subiu pela espinha e eu simplesmente a puxei na minha direção. Entrelacei os meus dedos no seu cabelo, a beijando. Ou é?
 
A Mia me encostou contra o batente de madeira e me beijou de volta, num impulso.
 
Merda. Não.
 
Não posso – a afastei, confusa.
 
_Olha, eu não tô pedindo nada de você – retruquei – Mas é foda. Então também não espere nada de mim.
_O que cê quer que eu faça?
_Eu não tenho a resposta, Mia.
_Eu não posso simplesmente t-terminar com ele... – ela sussurrou – Não posso, n-não... dá pra pôr um fim em tudo, do nada, só porque...
_“Só porque” o quê? – rebati, engolindo o orgulho.
_Você não entende, e-eu... eu precisava vir. Não dava pra eu dizer não! Não dava. Ele ia... i-ia perceber que alguma coisa não tava certa.
_Porque não tá mesmo, Mia! – argumentei, com raiva.
 
E me arrependi logo em seguida por levantar a voz. Cruzei os braços e encostei na porta, olhando para o chão. Ficamos caladas. Ela me olhava, inquieta, ansiando por qualquer movimento meu. Mas não fiz nada. Eu tô entrando na porra da boca do lobo, receei, sem conseguir voltar atrás. Então, num gesto inesperado, a Mia segurou na minha mão. Subi o olhar até o dela e ela sorriu. Ah, garota. Meu coração se inquietou. Encarei-a de volta e, por um instante, parecemos ser só nós de novo.
 
_Acho que isso quer dizer que não vamos sair hoje, né? – ela riu.
_Vamos fazer o que você quiser – respondi, como se não pudesse evitar.
_Eu quero ficar com você – ela disse.
_Então é isso que vamos fazer.

Sobrecarga

Voltamos do supermercado 80 reais mais pobres cada. Com comida suficiente para quase um mês, considerando que nos alimentávamos terrivelmente mal. Bastava uns pacotes de macarrão e pizza congelada. Os engradados de cerveja davam para o fim de semana – ou talvez só para aquela noite, dependendo da nossa disposição. O Fer deixou todas as compras comigo e enquanto eu chutava, digo, carregava cuidadosamente todas as sacolas elevador adentro, ele deu um pulo na boca da Paim para arranjar o estoque da semana.
 
Cheguei no nosso andar, atolada de sacolas, empurrando um dos engradados com o pé. Completamente sobrecarregada. Por que fui insistir pra irmos no mercado?, resmunguei mentalmente, atribuindo a culpa a mim mesma. Virei o corredor com certo esforço, destruindo as compras pelo chão, e dei de cara com a Mia. Parada ali, em frente à porta do nosso apartamento. É claro, respirei fundo, com quem mais essas merdas iam acontecer?
 
_Oi – ela disse, enquanto eu equilibrava as compras e tentava virar a chave na porta.
_Oi, Mia...
 
Respondi, indiferente.
 
_O porteiro me deixou subir, mas cheguei aqui e cês não tavam. O Fê... – me olhou, desconfortável, como se o nome dele fosse proibido de repente – ...n-não foi com você?
_Como cê pode ver... – falei, ainda tentando virar a chave – ...a gente foi no mercado. Mas o Fer quis passar lá na Paim, já, já ele deve chegar...
_Cê quer ajuda aí? – me perguntou, como se eu estivesse prestes a derrubar todas as sacolas.
_Não.
 
Respondi e, enfim, consegui virar a porra chave.
 
_Só traz o engradado, por favor – pedi, entrando no apartamento.
 
Fui direto para a cozinha e deixei todas as sacolas sobre a mesa. A presença da Mia ali me irritava. Alojamos todas as compras em seu devido lugar, a começar pelas de geladeira. Ela tentou iniciar a conversa várias vezes, mas eu cortava todas as suas iniciativas. Não tô afim dessa merda. A verdade é que eu não queria falar com ela. Não depois de passarmos uma noite daquela juntas e ela ter a cara de pau de aparecer na casa do namorado, no instante seguinte, como se nada tivesse acontecido. Vai se foder, na moral. Terminei tudo numa velocidade impressionante, disposta a sair logo dali.
 
E aí me fechei no quarto.
 
A Mia ficou sozinha na cozinha, por um tempo – mas não demorou muito, claro, até vir bater na minha porta. Por favor, só vai embora. Eu não queria atender, não queria abrir a droga da porta. Segurei a maçaneta com uma das mãos, relutante, mas sabia que não tinha escolha – eu já tinha a deixado entrar, antes mesmo dela sequer bater.

março 05, 2010

Les Misérables

Atravessei a cozinha cantarolando. Com Lou Reed nos fones de ouvido e meias no pé, indo atrás de alguma coisa para comer. O meu humor estava fantástico – já o meu estômago nem tanto. Reclamando ruidosamente a cada maldita prateleira vazia. Não tem comida nessa casa, cacete?! Sem desistir, fui até a geladeira e fiquei alguns minutos encarando a escassez total de alimentos daquele apartamento. “You’re a slick little girl... Oh, you’re such a slick little girl”, eu dançava, com as minhas pernas já parcialmente congeladas em frente à geladeira inútil.
 
_FEEEEEER! – berrei, ainda de fone, o que deve ter me feito soar ainda mais escandalosa – Não tem porra nenhuma para comer, vamos no mercado??
 
Nenhuma resposta. Continuei com a música nos ouvidos e pus-me a beber um copo de água da torneira da pia, dane-se, já que não tínhamos um líquido sequer naquela casa. “Now, we’re coming out!”, eu cantava, distraída, “out of our closets, out on the streets, yeah, we’re coming out!”. Alguns instantes depois, eu pude escutar o som distante do Fer gritando o meu nome. Repetidamente. Olhei para a porta e ele estava apoiado no batente, esperando eu me virar na sua direção para possibilitar uma conversa.
 
_D-desculpa. Não te ouvi... – disse, tirando os fones do ouvido, com um sorriso amarelo.
_Ah, jura? – ele riu – Mas, e aí, fala... O que cê quer?
_Não tem comida.
_Claro que tem! Comi hoje cedo aí com a Júlia. Tinha um resto de sucrilhos e... err, bom, o leite acabou.
_Não tem mais nada, meu! Precisamos ir lá comprar.
_Agora não dá, meu... – retrucou – ...a Mia tá vindo aí.
 
Oi?
 
_A Mia tá vindo pra cá? No apê?! – perguntei, tentando não soar totalmente surpresa e decepcionada – Agora??
_Tá, eu liguei para ela... – estranhou – Por quê?
_Não, por nada... É só q-que... Ela tinha comentado... Digo, o-ontem... – me enrolei – Q-que talvez ela fosse... f-fosse sair hoje, m-mais tarde... À noite, não sei, não lembro.
_É, ela disse que ia sair mesmo. Mas falei para ela passar aqui pra comer...
_E comer o quê, meu? – argumentei, como se pudesse impedir sua vinda – Não tem comida!
_Ah, sei lá, a gente pode pedir alguma coisa...
_Com que grana, Fer?! A gente só come delivery a porra da semana inteira! – resmunguei – Vamos comigo no supermercado, vai, antes que feche o shopping da Frei.
_Ah, velho... Puta preguiça de sair agora!
_Por favor! Vai, pelo menos para comprar umas cervejas e um pouco de macarrão, meu. Senão fica difícil...
_Tá... – se deu por vencido – Mas vamos logo, que daqui a pouco a Mia chega aí.