_Cala a boca.
_Vim numa entrevista aí na Haddock.
_Nossa, mas num sábado?
_Ah, o velho que arranjou... É um conhecido dele. Fui encontrar ele numa padaria, cedo pra caralho. O cara me aparece com roupa de correr no Ibira, com um daqueles relógio que mede batimento cardíaco no pulso, saca...
_Credo.
_É. Esse tipo de mano – riu, afundado contra o encosto – Deve ser puta trampo de engravatado. Mas paga, né. Sei lá, vamos ver... Falei com a Má também, ela disse que vai passar meu currículo pro chefe na segunda.
_Vai dar certo, Fer. Algum desses vai rolar!
_Tomara. Num vejo a hora de sair daquela casa, mano. Tá foda de aguentar – esfregou a mão na cara – E você, tava onde agora de manhã?
_Dormi lá na Clá, a gente foi numa festa em Pinheiros ontem...
_Boa?
_Não, a festa foi boa. Eu é que... q-que fiz merda.
_Ê, pilantra! – deu um tapa atrás da minha cabeça – Fala aí, que cê fez?
_Ah. Nem foi uma merda tão grande, é só que... – murmurei, sem muito orgulho do meu comportamento na noite anterior – ...eu meio que... dei em cima de, de outra mina lá. Quer dizer, deixei ela dar em cima de mim. E a Clara não gostou muito.
_“Não gostou muito”? – se divertiu com o eufemismo.
_Ah, velho... nem me dei conta do que tava fazendo! A gente tinha bebido pra caralho e ela quis brigar na saída, meu, aí acabei discutindo de volta e foi uma bosta. Ela foi embora, eu fui atrás... não queria me deixar subir no prédio. Na boa, puta rolo!
_Mas cê também, hein?!
_Eu?! Foi culpa sua! – resmunguei – Fica aí me mandando mensagem falando que tá com saudade, porra! Nem ia falar com a mina lá ontem, ela que puxou assunto quando viu seu nome no meu celular...
_Ah, é. Foi “culpa minha”, sim – ele riu ainda mais, passando a mão na nuca – Nossa, mas ontem foi foda. Também tive mó noite de merda. Cheguei em casa louco pra falar com você, mano. É estranho demais morar com os velhos, na puta que pariu, meu, não tem com quem trocar ideia...
_Mas, espera... Noite de merda, por quê?
_Ah, sei lá. A Mia começou com aquelas paradas de novo. Já faz um tempo já. Tá chata, acha tudo o que eu faço ruim, não sei explicar – talvez eu saiba – Ficou implicando com cada coisa que saía da minha boca ontem, mano, me enchendo o saco. Aí não queria ir dormir lá em casa... sei lá, meu. Não ando com paciência pra essas merdas dela...
_Não... – abaixei a cabeça, colocando um cigarro na boca.
_Ah, pode parar! Se cê não fizer nada esse ano, eu vou organizar e cê não vai poder dar um piu! Te obrigo a aparecer, mano. Cê nunca quer fazer nada, porra...
_Por um motivo...
_Ou motivo nenhum.
_Fernando, todo ano essa discussão? Eu não gosto de aniversário, só me fodo – insisti – Nem vem com ideia.
_Qual é! Cê vai fazer vinte e cinco, cacete!
_E daí?!
_Cara, você não tem escolha... – ele riu.