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janeiro 25, 2013

I'm not afraid to die


Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name
Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name
Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name
Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name

(Lord Huron)

janeiro 24, 2013

Of all the strangers

Foi que eu precisava. As suas más intenções, as suas palavras desmedidas junto aos meus pensamentos sujos, soltos pela cama. Tinha um efeito incendiário em mim, a voz da Mia, sussurrando baixarias, desgraçada. Perdia o fôlego. Os seus lábios, o seu corpo todo, pareciam contornar as letras que saíam da sua boca. Me tirando do sério. Por que você, meu deus, entre todas as garotas?, me torturava, agora ofegante, com o rosto amassado contra o travesseiro e sozinha. À mercê dela. E assim que terminamos a que se dava a ligação, veio um silêncio sorrateiro. Ouvi-a respirar do outro lado da linha. O meu corpo todo ainda pulsava, inebriado, bêbado e cansado, recuperando a sanidade.
 
Sorri. Por um breve momento, achando certa graça. E suspirei, isso foi bom. Logo, porém, o escuro do quarto pareceu crescer. Para cima de mim. Espalhei meus braços e pernas no colchão vazio, sem dificuldade – tomada por uma densidade alcóolica, a endorfina vibrando no meu corpo. Com o telefone ainda no ouvido e a presença sóbria da Mia do outro lado. E... e não sei por que porra não desliguei.
 
Aqueles. Aqueles segundos que se seguiam era quando ficava perigoso. Ali, me dando conta de que ela, e-ela não estava lá. Aqueles eram os segundos que, em outra realidade, seriam preenchidos pelas pontas dos seus dedos, deslizando suavemente pela minha pele, nuns abraços, nuns carinhos despreocupados. Como deveria ser. Cada segundo gritava agora pelo seu corpo no meu.
 
_N-não é... – a minha boca soltou então, sem pensar direito – ...s-suficiente.
_O quê?
 
A Mia soou confusa, como se não tivesse ouvido.
 
_E-eu...
 
Pausei então. Minha linha de pensamento se engasgava em si, bêbada. E eu suspirei, afundando o rosto no travesseiro. Merda. Deixei o celular de lado por um instante – a parte sã que me restava sabia que eu não queria ter aquela conversa. Tinham agravantes demais. Não conseguia, todavia, evitar senão me sentir incompleta. Deitada, ali. A minha cabeça rodando, o formigamento silencioso nas extremidades. As minhas veias ainda latejavam. E me veio à cabeça algo que alguma garota, acho que a Dani, me disse anos antes – de que existia uma expressão para orgasmos, em francês, la petite mort. Era como eu me sentia agora. Depois de uma pequena morte. Aquele breve momento em que você perde o ar, a consciência, se perde inteira. E eu, e-eu não, puta merda, não queria mais me sentir sozinha assim quando voltava à vida.
 
_Você... – murmurei, uma angústia no peito – ...v-você devia tá aqui, Mia.
 
Os meus pulmões sentiam todo peso da bebida. Sabia que o Fer ainda estava capotado na sala, mas não conseguia evitar, havia seriedade na minha voz. E a Mia notou, respirando fundo do outro lado da linha. Tinha meus olhos apertados em consternação, o coração complicado. Me escuta, garota. Porque não quero mais foder, entende, te ver ou te escutar, sempre pela metade, eu quero estar com você, inferno, por inteiro. Eu te quero aqui, eu e você. E pela primeira vez, em muito tempo, me permiti pensar tão apaixonadamente dela – embriagada até os ossos, exausta. Eu sabia o que queria, mas não sabia como.
 
_E-eu... – a Mia respondeu, baixinho, e eu soube imediatamente que os seus olhos também estavam fechados – ...também queria tá aí.
_N-não, você, v-você não tá entendendo... – hesitei.
_Estou, sim.

janeiro 14, 2013

Mono

_Aguenta aí, velho... – o Fer pediu, se curvando sobre um canteiro – ...vou gorfar.
 
E não demorou dois segundos para que vomitasse ruidosamente. Bem em frente ao prédio. Comecei a rir dos seus modos e o porteiro nos encarou como se o nosso legado ali fosse o pior de todos os moradores. Não sei nem como aconteceu, mas em algum momento perdemos a noção das horas e da quantidade de garrafas de cerveja. Ao ponto que nossas vitórias deixaram de sequer ser computadas. Seguimos jogando até ficar de noite e o bar ser invadido pelo movimento caótico de sábado na Augusta.
 
E foi aí que a minha carteira se esvaziou desenfreadamente.
 
Uma garrafa levou à outra e todo o dinheiro se foi. Os nossos cigarros também – primeiro o meu maço, depois o dele. E então decidimos ir para outro boteco, mais abaixo na Augusta, largando nossas companhias de mesa para comprar maços novos. Chegando lá, onde a princípio nem íamos “ficar muito”, decidimos mudar de cerveja para rum. O que é sempre um mau sinal quando se trata de mim e do Fernando.
 
Estávamos enchendo a cara desde as duas da tarde. E , o problema de beber por horas espaçadas assim é que ficamos com aquela impressão de que estamos distribuindo o álcool com certa moderação. Mas é claro que a gente não estava. Eu menos ainda, numa ressaca acumulada da noite anterior. Algumas doses depois, sem saber bem quantas, voltamos cambaleando para o apê. Escorados um no outro, numa demonstração bêbada de afeto. Como eu te amo, moleque – pensei, trançando as pernas Frei Caneca acima. E o Fer segurou meu braço, enquanto vomitava no jardim de frente do nosso prédio.
 
É. Muita classe.
 
Subimos e ele capotou de qualquer jeito no sofá. Segui até o meu quarto no maior silêncio que conseguia. E descoordenadamente tirei minhas calças, me livrando daquele jeans todo. Entre tropeços, fui até o banheiro com uma camiseta velha e o celular em mãos. E só quando larguei tudo na pia é que notei mais uma mensagem da Mia. Não tinha checado o telefone desde que a respondi dizendo que não podia. “Hum, q pena...”, mandou de volta, inconclusiva, horas antes. Sorri e tirei a blusa, depois a boxer, num lapso de consciência, sem nem perceber direito o que estava fazendo. Aí me meti no chuveiro para curar a embriaguez. Sem muito sucesso.
 
Conforme a água descia pela minha nuca, deslizando pelo meu cabelo e as minhas costas molhadas, todavia, a minha cabeça foi tomada pela Mia. Meio bêbada, irracional. A imaginando naquela noite – esperando a minha resposta, a forma como movia os lábios ao me escrever. Sentada sobre a sua cama, no seu quarto. Ou na sala? No balcão da cozinha. Da sua, da minha. Tinha ambas as minhas mãos na parede, inclinada sob o chuveiro, com uma saudade imensa dela no meu corpo. Assim, de repente. Por que diabos não fui?, me arrependi, já fechando a torneira. Desliguei a água e saí do box, ainda consideravelmente bêbada. E peguei o celular antes mesmo de me enxugar, a respondendo – “qpena pq?”.
 
Me sequei de qualquer jeito com a toalha e vesti a camiseta velha, chutando minhas roupas sujas para debaixo da pia. Com certa dificuldade em me mover com precisão. Voltei para o quarto tateando no breu e me esparramei na cama, num conforto de deitar ali, sem roupa nenhuma me apertando. Nisso, o meu celular se acendeu na mesa de cabeceira. Ela tá acordada, pensei na mesma hora. E estiquei a mão, alcançando o telefone – o seu nome estava lá.
 
“Ta bebada? Kk ;)”. Podia senti-la sorrir em todas as ramificações nervosas da minha pele, nos meus pelos. Como uma brisa. Sentada em seu quarto em Higienópolis, enquanto eu encarava a tela deitada no meu. No escuro, sentindo sua falta do meu lado. “Ñ inteerssa”, respondi, numa dislexia alcóolica. “Ta, sim kkkk” – o meu celular vibrou novamente. Ri ao ler e digitei de volta – “oq cv t áa fzendo ai?”. Acomodei as costas num travesseiro meio atravessado, erguido contra a cabeceira da cama. Fala que tá pensando em mim, garota.
 
Mas a resposta não veio de imediato.
 
O silêncio no apartamento tornava os arredores ainda mais lentos. E eu observava fixamente o celular nas minhas mãos. Até que a tela se acendeu – “eu? nada, nada, so imaginando...”, disse. E imaginando o quê?, li, conforme a minha mente disparava. Eu, ah, eu, sim, pensava nela. Nas formas como a sua cintura se encaixava nos meus dedos, sabe? O jeito como sua barriga se dobrava sobre mim, imaginando-a de todas as formas mais magníficas, e sujas. Imaginava – seu contorcer, o seu gosto. Cacete. Numa vontade desgraçada de que viesse dormir comigo naquela noite. E me torturava sem conseguir parar de pensar na sua boca, no seu cheiro, no seu jeito. Inebriada pelo álcool e um tanto confusa nas sensações, misturando a realidade com as memórias dela. Os seus movimentos, os lençóis bagunçados. O som dela respirando no meu pescoço, subindo no meu ouvido, o som de quando ia perdendo o fôlego, se descontrolando, puta merda. Os sons de quando gozava na minha boca. Nos meus dedos, nas minhas pernas. Quase podia sentir a tensão das suas coxas contra as minhas. Me arranhando as costas, me mordendo inteira. Os meus pensamentos começaram a se sobrepor. Os toques, seus beijos na minha mão antes de dormir, num carinho quase adormecido, a sonolência, esse estar juntas, os recomeços lentos, os orgasmos, nossas manhãs no apartamento, cigarros divididos e baseados bolados, os seus olhos vermelhos, pequenininhos quando ela ria, chapadas a tarde inteira, à toa, numas conversas gostosas, numas não-conversas também, as nossas línguas uma na outra, suas pernas sobre a pia da cozinha e o seu olhar quando a Marina veio – “as melhores”, ela repetia na minha mente, arqueando as sobrancelhas para mim. E aí vinha o piso frio contra nossos corpos, o seu apartamento e as luzes da Sarajevo, o frio na calçada da Augusta, ao seu lado; o calor e os meus dedos dentro dela, meus lábios nos seus – a umidade, o sal que eu lambia da sua pele, nosso suor se misturando, nuns movimentos lentos, molhados. A minha pulsação começou a aumentar, já me contorcendo naquela porra daquela cama. Imaginando-a, perdendo a cabeça, me pedindo para que fosse mais forte. Nos fodendo, a comendo contra o sofá. Contra a parede, contra o seu colchão. À exaustão, vez atrás de outra. Sem conseguir nos largar, desgraça. E imaginava a sua mão onde estava a minha, naquele quarto escuro, entre as minhas coxas.
 
Como se eu tivesse levado tempo demais para responder, chegou mais uma mensagem da Mia. Tirei a mão do meio das minhas pernas e a abri, já sem fôlego – “...oq vc podia ta fazendo cmg, se tivesse aqui”. Ah, pra puta que pariu! Quis morder o travesseiro com suas reticências, agora completas, subindo pelas paredes de vontade dela. A sentia em mim, fisicamente, e me retorcia com o respirar quente dela entre as minhas pernas, afundando em cada uma das sensações irreais que me sucediam. E demorava-me, solta na cama, extasiada e bêbada; com a porta do quarto fechada. Em todo o meu corpo, o sangue parecia correr bruto. Peguei o celular de novo, num impulso, e disquei o seu número, os meus dedos ininterruptos até ouvir a Mia atender, do outro lado da linha, pouco me fodendo para o quão baixo era aquilo.
 
_M-me conta... – me adiantei, ofegante, prestes a explodir com o mero som da sua voz – ...me conta, porra... o que eu podia tá fazendo.

janeiro 10, 2013

Deslizes

Saí na calçada da Augusta, acendendo um dos últimos cigarros do meu maço. Conforme soltei a fumaça pro lado, checando o celular, me dei conta de uma mensagem da Mia que não tinha visto – “vai ta sozinha hj?”. O ar na rua estava abafado. Dei mais um trago e digitei de volta, “ñ, desci com o fer pra augusta.. acho q vms pro apto dps”. Aí pausei por um instante, com os olhos na mensagem, apoiada contra a parede imunda do lado de fora do boteco.
 
Me sentia estranha falando com a Mia depois da madrugada com a Clara. Entre isso e o fato de que o Fer provavelmente ia dormir em casa, recusar devia ter sido fácil – mas não foi. Nunca era. Não aprendera a lidar com o interesse da Mia. E a verdade é que eu gostava, gostava de cada palavra sua que encontrava caminho até a minha caixa de entrada, me convidando para ficar com ela, aparecendo de surpresa na porta do meu trabalho, me beijando entre um pega e outro dum baseado, descendo dum táxi às duas da manhã em frente ao prédio, num vai-dar-merda impagável. Podia me enganar o quanto quisesse, e não só a mim, mas bastava seu nome aparecer na tela que meu coração acelerava.
 
Argh
 
Enviei a mensagem. Dane-se. A real é que não tinha como encontrá-la, pelo menos não naquela noite. E a última coisa que me passava pela cabeça era dispensar o Fer para ir ficar com a sua namorada – ainda que o canalha do meu amigo estivesse levantando do seu banco para ir dar uma volta com a nossa companheira de mesa em um canto do bar. Fora do meu campo de minha visão, isto é. Cê nunca superou, hein, dei mais um trago, achando certa graça na cena, a bronca que tomou quando te peguei com a Júlia em casa.
 
Me divertia a discrição do Fer de quem come quieto, observando de longe, de fora do bar. E não me importava se ele dava uns beijos em qualquer garota, de tempos em tempos. Ainda mais agora, depois de tanto tempo e águas passadas, quem era eu para achar ruim? Não conseguia sequer dar conta ou entender a complexidade dos meus relacionamentos, dos meus sentimentos, que dirá os dos outros. Mas me divertia.
 
Soltei a fumaça para baixo, num último trago, e apaguei o cigarro na parede do bar. Aí entrei de novo. As mesas de sinuca ficavam ao fundo, numa espécie de porãozinho aberto a uns 5 degraus do piso de entrada. Desci as escadas e peguei meu copo, que já estava formando uma poça na lateral da mesa. E fiquei trocando ideia com o tal do Max – enquanto o Fernando beijava a amiga dele contra a parede, segurando a lateral do pescoço dela com as mãos tatuadas, no corredor escuro que ia pros banheiros.
 
Dei uma olhada e virei de costas para eles, começando outra partida com o cara. Fingindo que não tinha visto.
 
_Vamos lá, mais uma...

janeiro 08, 2013

Os ratos de boteco

_Ô, arrasa-coração! – cantei no ouvido do Fer, o zombando.
 
Ele riu do comentário e me contrariou com a cabeça, antes de eu encaçapar a próxima ímpar. Só mais três na mesa contra seis pares. Nem cinco da tarde no relógio. Me debrucei sobre a beirada da mesa de sinuca, escada abaixo num boteco da Augusta. Nem uma hora antes, fizemos amizade com um viado barbudo e sua amiga hétero – estavam esperando ao lado da nossa mesa para revezar partidas e, em algum momento, os convidamos para se juntar a nós.
 
Agora, tinham ido buscar mais cerveja no bar. Nós ficamos.
 
_Nada a ver, mano – o Fer cruzou os braços, achando graça nos meus comentários, e se curvou para checar as pernas da garota escada acima na fila.
_Meu, vai por mim...
_Nem.
_Escuta o que eu tô te dizendo, cara... – o alertei e ele se divertiu, me ouvindo falar, depois de uns bons copos de cerveja – ...essa aí tá querendo.
_Não tá, meu.
_Tá bom, então. Fica vendo...
 
Dei de ombros, com o taco ainda em mãos e me afastei da mesa. Ele sabia. Deu mais uma olhada nas pernas da garota escada acima. Usava uns shorts curtos e uma dessas rasteirinhas, como se tivesse na praia; tinha os dois braços fechados de tatuagem old school. Ela e o amigo já perdiam pela segunda vez para nós, naquele clima bom de sábado à tarde na Augusta, tagarelando sem parar e se enchendo de cerveja com a gente.
 
_Uai. Cadê?! – o boy se espantou ao voltar do balcão, com mais uma garrafa na mão – Cês acertaram mais uma?
_Três a seis – o Fer respondeu.
_Ahm. Mas, assim... – a menina chegou logo atrás, fazendo graça e encarando o meu amigo – Três mesmo ou cês encaçaparam uma com a mão aí, enquanto a gente tava fora?
_Três, porra! – ele riu – Vou mentir?
_Hum, sei não, acho melhor a gente mudar essas duplas aí. Num confio em vocês dois juntos...
_Ah, é? E vamos mudar pra o quê?
_Eu e você... – ela piscou pro Fer, na maior cara de pau – ...contra eles.
_Não. Não ia dar certo isso aí, não...
 
O Fer ficou sem jeito. E se virou para a mesa, matando mais duas logo em seguida. O outro cara se revoltou, resmungando um “cês tão de brincadeira” sonoro e largando o taco de lado, como se desistisse. Eu ria do outro lado da mesa. O Fer sentou numa cadeira de boteco, com as pernas abertas. E a mina se aproximou, se metendo entre os joelhos dele, esbarrando as coxas no seu jeans enquanto conversavam. Virei mais da cerveja gelada no meu copo, observando ela dar em cima do meu amigo.
 
_Vai... – tentava o convencer – ...vamos jogar uma eu e você, pô.
_Não... – ele riu, abaixando a cabeça, meio deixando ela fazer graça pra cima dele – Se quer mudar as duplas, vai ser minas contra caras. Melhor.
_Hum. Mas não quero jogar com a sua amiga...
_Epa. Alguma coisa contra? – fingi estar ofendida, me intrometendo de longe – Homofobia isso aí, hein?
_Nossa, até você?! – a garota me olhou, assustada – Caralho, meu, não existe mais hétero na Augusta!
_Na Augusta?! – o Fer deu um gole na cerveja, se divertindo – Mano, nunca existiu...
_Vamos dominar o mundo... – ameacei.
_Vixi. Tô vendo que vai sobrar pra gente, hein, repovoar a Terra... – ela brincou, cutucando o Fernando, e ele ficou imediatamente sem graça, erguendo os olhos na minha direção atrás de ajuda, enquanto eu me divertia.
 
Vai, eu ri, quem é que tava certa agora.
 
_Não, meu – ele esfregou a nuca, sentindo apertar toda a corda que deu – Acho que a minha namorada não ia gostar, não.
 
Tinha lá o seu charme cafajeste, o Fer. Com aqueles ares de cachorro dele – de quem tá negando, mas não muito. A garota se abaixou e cochichou algo em seu ouvido, colocando uma das mãos sobre a sua perna. E o Fernando ouviu, quieto, como quem não tem nada a perder, mas logo balançou a cabeça para ela e sorriu, declinando. Não escutei o que era. E nem me importava àquela altura, cogitando ir até o lado de fora para fumar.

janeiro 03, 2013

Luto breve

_E aí, meu? – o Fer riu, assim que me viu chegar – Resolvi dar uma passada pra ver a cara do panaca que tá morando com você...
_Cala a boca.
 
Puxei-o pela mão e nos abraçamos forte, sorrindo. Fazia umas semanas que a gente não se via – a última vez foi numa sexta, quando o sequestrei em Santo Amaro para fumar um na rua de trás. Fiquei feliz de trombar com ele ali. Filho da mãe, que saudade. Sugeri que a gente subisse, falando para ele se comportar perto o Du. O Fer riu e acenou com a cabeça, me oferecendo um trago antes de jogar a bituca fora. Aceitei e ele pegou a mochila que estava no chão, encostada contra a grade do prédio. Dei um trago e apaguei o resto do cigarro num poste, soltando a fumaça para o lado. Aí subimos.
 
Abri a porta do nosso apartamento, indo adiante do Fer, e ele largou a mochila de qualquer jeito na sala, perto da entrada. Aquela ainda era a sua casa. Seguimos até a cozinha e logo esbarramos no meu novo roomie. Sentado sobre a mesa, o Du dividia uma cerveja com outro cara, ambos sem camisa, naquele calor desgraçado. Apresentei o Fer e ele cumprimentou o Du com um breve aperto de mão.
 
_Esse é o meu amigo que morava aqui e esse é o Du – os introduzi, aí olhei para o date dele – E você, sei lá, não sei quem você é...
 
O cara riu e me falou seu nome, que eu esqueci nos três segundos seguintes. Peguei uma garrafa de água na geladeira, ainda cansada da caminhada, e tratei de tirar logo o Fernando dali – antes que fizesse algum comentário engraçadinho pro Du. Nos largamos sentados no sofá da sala. E o Fer deu uma olhada ao redor, estranhando o vazio deixado pelos seus vinis e a sua vitrola, que antes ocupavam uma parede inteira.
 
_Mas e aí, que cê tá fazendo por esses lados? – perguntei, enquanto descalçava os tênis.
_Vim numa entrevista aí na Haddock.
_Nossa, mas num sábado?
_Ah, o velho que arranjou... É um conhecido dele. Fui encontrar ele numa padaria, cedo pra caralho. O cara me aparece com roupa de correr no Ibira, com um daqueles relógio que mede batimento cardíaco no pulso, saca...
_Credo.
_É. Esse tipo de mano – riu, afundado contra o encosto – Deve ser puta trampo de engravatado. Mas paga, né. Sei lá, vamos ver... Falei com a Má também, ela disse que vai passar meu currículo pro chefe na segunda.
_Vai dar certo, Fer. Algum desses vai rolar!
_Tomara. Num vejo a hora de sair daquela casa, mano. Tá foda de aguentar – esfregou a mão na cara – E você, tava onde agora de manhã?
_Dormi lá na Clá, a gente foi numa festa em Pinheiros ontem...
_Boa?
 
Ô, arqueei as sobrancelhas, irônica.
 
_Quê?! Tava zoado?
_Não, a festa foi boa. Eu é que... q-que fiz merda.
_Ê, pilantra! – deu um tapa atrás da minha cabeça – Fala aí, que cê fez?
_Ah. Nem foi uma merda tão grande, é só que... – murmurei, sem muito orgulho do meu comportamento na noite anterior – ...eu meio que... dei em cima de, de outra mina lá. Quer dizer, deixei ela dar em cima de mim. E a Clara não gostou muito.
_“Não gostou muito”? – se divertiu com o eufemismo.
_Ah, velho... nem me dei conta do que tava fazendo! A gente tinha bebido pra caralho e ela quis brigar na saída, meu, aí acabei discutindo de volta e foi uma bosta. Ela foi embora, eu fui atrás... não queria me deixar subir no prédio. Na boa, puta rolo!
_Mas cê também, hein?!
_Eu?! Foi culpa sua! – resmunguei – Fica aí me mandando mensagem falando que tá com saudade, porra! Nem ia falar com a mina lá ontem, ela que puxou assunto quando viu seu nome no meu celular...
_Ah, é. Foi “culpa minha”, sim – ele riu ainda mais, passando a mão na nuca – Nossa, mas ontem foi foda. Também tive mó noite de merda. Cheguei em casa louco pra falar com você, mano. É estranho demais morar com os velhos, na puta que pariu, meu, não tem com quem trocar ideia...
_Mas, espera... Noite de merda, por quê?
_Ah, sei lá. A Mia começou com aquelas paradas de novo. Já faz um tempo já. Tá chata, acha tudo o que eu faço ruim, não sei explicar – talvez eu saiba – Ficou implicando com cada coisa que saía da minha boca ontem, mano, me enchendo o saco. Aí não queria ir dormir lá em casa... sei lá, meu. Não ando com paciência pra essas merdas dela...
 
Fiquei quieta. Sabia a minha participação naquilo – mas desviei o olhar do Fer e não disse nada, alcançando o meu maço na mesa. O pior é que todo desinteresse da Mia por ele, numa filha-da-putice sem tamanho, balançava as promessas que fiz para a Clara na madrugada anterior. Qual é o meu problema?, me frustrei com meus próprios sentimentos confusos.
 
_Mas, e aí... – ele se reajeitou no sofá, ao meu lado, mudando de assunto – E o aniversário, já sabe o que vai fazer?
_Não... – abaixei a cabeça, colocando um cigarro na boca.
_Ah, pode parar! Se cê não fizer nada esse ano, eu vou organizar e cê não vai poder dar um piu! Te obrigo a aparecer, mano. Cê nunca quer fazer nada, porra...
_Por um motivo...
_Ou motivo nenhum.
_Fernando, todo ano essa discussão? Eu não gosto de aniversário, só me fodo – insisti – Nem vem com ideia.
_Qual é! Cê vai fazer vinte e cinco, cacete!
_E daí?!
_Cara, você não tem escolha... – ele riu.
 
Ah, pronto.

janeiro 01, 2013

Trégua

_Volta aquiiii... – pedi, amassando o rosto na cintura da Clara – ...vem.
_Tenho que sair em quinze minutos, Bo... – ela riu e afundou as mãos no meu cabelo, num carinho distraído.
_Mas cê já foi sábado passado, mano, não é justo. Ninguém pode ir pra você hoje?
 
Ela sorriu, balançando a cabeça. A luminosidade no quarto machucava os meus olhos, numa ressaca desgraçada. Desci a boca pela sua pele macia. Touch me, yeah. Até meus lábios esbarrarem na linha da sua calcinha, retorcida na lateral do seu corpo. Make me feel like I am breathing. O seu quadril, as suas coxas, iam me chamando. Feel like I am human, again. Estiquei o meu corpo na beirada do colchão, beijando suas pernas enquanto ela se olhava no espelho – em pé ao lado da cama, arrumando o cabelo.
 
Meu amor por aquela garota matava um pedacinho de mim. A parte que amava a Mia, é. Me desviava de quem eu era. E quem era mesmo? Quando estava com a Clara, nada disso me importava. Só ela. Caminhou até seu armário, saindo do alcance das minhas mãos – que penderam no ar, abandonadas. Afundei no cheiro dela no travesseiro, a escutando se mover pelo cômodo enquanto se preparava para sair. Minutos depois, apesar dos meus esforços românticos, segurando a Luna no ar e fingindo que falava, convencendo a dona a faltar no trabalho, a Clara não ficou.
 
E aí eu também tive que ir, não é mesmo? O problema é que eu não tinha um puto na carteira e só me lembrei disso quando cheguei na porta do metrô, contando moedinha na frente da cobradora como se os vinte centavos que faltavam para a passagem fossem aparecer milagrosamente no balcão. Inferno. Subi as escadas de novo e resolvi encarar a caminhada de meia hora até a Augusta – uma tarefa ingrata sob aquele sol e de ressaca. Argh. Cada passo era um arrependimento pelos excessos da noite anterior. Mas assim que me aproximei do meu quarteirão, depois de andar mais de três quilômetros, avistei um rosto conhecido do outro lado da rua e abri um sorriso.
 
Sentado em frente ao prédio, fumando um cigarro, estava o traste do Fer.

dezembro 23, 2012

Interfone

_Clara!
 
Me curvei na direção do viva-voz, desesperada.
 
_O que cê tá fazendo aqui, meu?
_Só me escuta, por favor! Por favor, Bi...
 
A ouvi suspirar. E me senti como nos meses finais do meu relacionamento com a Marina – implorando para que me aceitasse de volta, errada, terrivelmente errada, era assim que me sentia. E como era frustrante ser a porra do denominador comum.
 
_Vai para casa, tá tudo bem, Bo. Tá mesmo, s-só... – a Clara murmurou no interfone, soando indisposta – ...só vai pra casa. A gente se fala amanhã, meu.
_Não! Eu não posso, Bi, eu não consigo, não vou deixar as coisas assim com você. Não vou! Por favor!
_...
_Linda, por favor.
_Vai pra casa, meu. Cê devia ter pensado nisso antes de sair fazendo merda...
_Eu sei! Eu sei, Clara, porra. Mas eu, e-eu não tava pensando... Não mesmo! E-eu não sei que porra eu tava fazendo! – levantei a voz, discutindo ali em pé com o interfone, sozinha no escuro em frente ao seu prédio.
_Mano, cê... c-cê tá transformando isso numa puta cena, meu. Eu não quero isso.
_Só abre a porta, Clá. Conversa comigo. Vamos resolver. Eu sei que não tenho direito nenhum de te pedir nada, que eu não mereço nenhuma chance de, d-de me explicar... – as palavras saíam da minha boca, irracionais – ...e eu sei que eu, e-eu sou uma babaca, toda vez, mas... caralho, eu... e-eu amo você. Eu amo você demais, porra. E eu nunca fui tão feliz assim. Você, cara, v-você é a única coisa que importa na minha vida. Eu não sei o que diabos eu tava fazendo! Eu juro que não sei! Eu, e-eu tava muito louca, Bi, cê tem que acreditar em mim, eu não tava pensando! Eu não quis... – hesitei – ...por favor. Só conversa comigo. Eu, e-eu não quis te desrespeitar, eu sequer queria ficar com a porra da garota, tô pouco me fodendo pra qualquer mina naquela festa, eu amo você. Você! E-eu só tava muito, muito chapada e, e eu não tinha ideia do que tava falando com ela, com ninguém, do que tava fazendo. E... e eu sei que não é justo você ter que engolir as minhas merdas, sabe, lidar com as, as coisas que eu faço sem pensar, eu sei. Eu sei disso, Bi. Me desculpa...
_Não faz isso... – respirou fundo, me interrompendo.
_Me deixa subir, vai, por favor. A, a gente tava bêbada, Clá. Eu, você, sabe... e e-eu não quero ter que me desculpar mais uma, dez, cem vezes pelas coisas que eu faço. Eu vou tentar, cara. Eu prometo! Eu... – abaixei a cabeça, encarando o chão e começando a chorar, bêbada, com uma angústia entalada na garganta – ...e-eu não sei o que acontece comigo, eu... sabe, pareço me desligar das coisas, não penso na hora. Não penso em nada! Não é por mal, não sei, eu só... s-só sei que nunca quis te fazer mais passar por isso, por nada disso. Eu te amo tanto. E eu não posso te perder, n-não, porra, não quero deixar as coisas como tão, n-não quero conversar amanhã. Eu quero resolver, linda. Não me manda pra casa, cara, por favor. Me deixa consertar...
_...
_Bi, por favor. Por favor, me deixa subir.
_...
_Por favor, por favor... – murmurei, repetidamente.
 
E alguns segundos depois, do nada, escutei a porta de entrada destravar.
 
Tirei as mãos da parede no mesmo instante e empurrei a maçaneta, abrindo a porta corredor adentro. Aí subi as escadas num só pique, batendo de leve na porta da Clara. Minha cabeça ainda girava, ainda mais depois de todos aqueles degraus. Escutei-a virar a chave e mal abriu a porta, eu me apressei para entrar, levando as mãos ao seu rosto e a beijando. Como se não nos víssemos há uma eternidade, como se pudesse mostrar o quanto a amava com um só beijo.
 
Me senti uma babaca. Mais completa, sim, ao seu lado, mas uma babaca. Cacete. Desejando que pudesse voltar atrás em todas as merdas que fiz e enxugando as minhas lágrimas, embriagada, lhe prometendo com sinceridade, entre um beijo e outro, “eu te amo tanto, cê é minha pessoa nesse mundo, porra”.
 
E ela era.

As discordâncias

_Eu vou pra casa – a Clara murmurou, virada para a rua vazia.
 
Numa integridade a que eu era incapaz com aquele tanto de álcool correndo dentro de mim. A luz acesa sobre um táxi que se aproximava, à distância, a fez dar alguns passos na direção da rua e sinalizar. “Não” – me adiantei. Não podia deixar que fosse embora sem resolver aquilo. E eu sabia que ela iria. Sem sequer olhar para trás. “Não vai, meu, por favor”, pedi então, com o rabo entre as pernas. Numa angústia irracional ao vê-la sentar no banco de trás daquele táxi. Ainda que soubesse que não tinha direito de pedir coisa alguma.
 
_Bi – insisti, mesmo assim – Por favor.
_Tá tudo bem. Vai pra casa, cura a ressaca, sabe? Fica sóbria... – me respondeu, com a mão já na porta – Amanhã a gente se fala.
_Clara, n...
 
Bateu a porta antes que eu terminasse e o táxi começou a andar. Merda. Merda! Tudo o que eu conseguia pensar era só não, não, não – observando o carro se afastar. Impotente e arrependida. Presa a um final que eu não tinha escolhido para aquela noite, para a gente, ainda que o tivesse provocado. E é. Talvez se eu não estivesse tão fora de mim, como estava naquele momento, talvez eu não tivesse respondido daquele jeito. Talvez não tivesse sido tão estúpida. Talvez. Talvez se nós tivéssemos deixado pra conversar no dia seguinte, com menos álcool fodendo nossa cabeça, os ânimos, tudo não passasse de uma brincadeira, de uma bronca aos risos – como tantas vezes aconteceu entre nós. E talvez se eu não tivesse metido a porra do meu nariz na primeira carreira que me botaram na frente, talvez eu sequer me achasse no direito de ter sentado ali, que nem uma idiota, que nem uma puta duma idiota, do lado de outra garota.
 
A raiva começou a me dominar.
 
Imbecil. Sou uma porra duma imbecil. Esfreguei as mãos no rosto numa tentativa vã de trazer qualquer sanidade para a minha cabeça. Ainda chapada e sozinha naquela rua escura, em plena madrugada em São Paulo, que porra tá acontecendo. A tontura e o ritmo acelerado com que o sangue corria nas minhas veias começavam a me irritar. A situação toda me revirava o estômago. Caralho. E lá estava eu, fodendo tudo com a única garota com quem eu devia me importar.
 
Senti vontade de destruir alguma coisa, de cometer qualquer atrocidade. Ir arranjar briga, chutar a boca do primeiro que aparecesse; de encher ainda mais a cara até vomitar as minhas entranhas e cada grama daquilo que me intoxicava em algum banheiro sujo de boteco; qualquer porra que me fizesse esquecer o desespero que eu estava sentindo. Num impulso idiota, de gritar, não sei, de explodir. Mas não o fiz – num impasse desgraçado, que me rasgava por dentro –, pois sabia que minha cabeça exagerava e sentia uma necessidade irracional de ter bom senso, de ser melhor para a Clara. De repente, dei-me conta do quanto precisava dela. E meu coração apertou.
 
Coloquei um cigarro entre os lábios e sentei no meio-fio, sentindo meus pensamentos me machucarem, se revirando dentro da minha cabeça. Burra, burra. O que eu tô fazendo, porra? Agindo feito uma idiota a noite toda, todos aqueles meses, inferno, como quem procura desesperadamente por um motivo, qualquer motivo, escrota, mas sem conseguir lidar com as consequências quando a merda finalmente acontece, e é claro que ia dar merda, caralho, o que eu tava pensando, vendo a Clara se magoar e me arrependendo no mesmo segundo, com um medo desgraçado de a perder, puta que pariu.
 
Não posso deixar as coisas assim, pensei, angustiada por tudo o que eu desperdiçava. Alcancei, então, a carteira no bolso e contei o dinheiro que tinha ali. Não dava nem nove reais. Foda-se, decidi, ando pra casa depois. Me levantei e fui até o ponto de táxi na esquina com a Teodoro, ainda sentindo minha cabeça rodar. O motorista tinha um bigode grosso e uma corrente de ouro dessas bem de bicheiro no pescoço. Me levou até o prédio da Clara, a umas boas quadras dali. Ao final da corrida, me restavam menos de dois reais em míseras moedas.
 
Andei até o interruptor do seu apartamento. E toquei. Por favor, por favor, esteja acordada. Esperei pelo que me pareceu uma eternidade, sem resposta. Suspirei. E toquei de novo, segurando o botão pressionado por mais tempo agora. Nada. Atende, por favor. Respirei fundo, com ambas as mãos apoiadas na parede do seu prédio. Aí toquei uma terceira vez – encarando, bêbada e ansiosa, o viva-voz abaixo dos botões com os números dos apartamentos. Esperando por qualquer sinal. Qual é, Clara, me atende, por favor. Os segundos se prolongavam vazios em frente ao seu prédio, num silêncio desconfortável.
 
Dane-se. Peguei então o celular e tentei ligar para ela – mas a chamada foi direto para a caixa postal. Maldição. Quis jogar o telefone longe. Caralho. Tornei a enfrentar a merda do interfone. Chamei o seu número, pela quarta vez. Nenhuma resposta. Nada. Apoiei a testa contra a parede, sentindo como se estivesse ali há horas, agora pressionando o botão continuamente. Ouvia o zunir da campainha, incessante, e o imaginava cortar o silêncio do seu apartamento. Vez ou outra, deixava o dedo subir alguns milímetros e tornava a pressionar o botão, propositalmente irritante. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende. Atende, cacete.
 
Até que, enfim, escutei o ‘cléc’ do interfone sendo tirado do gancho do outro lado.

dezembro 20, 2012

All babes are wolves

_Vamos embora!
_O... o que... – a encarei, confusa – ...o que cê tá fazendo, porra?!
_Não me faz de idiota... – a voz da Clara seguiu firme – Veste a roupa e vem!
_Não, mano! Claro que não! – retruquei, bêbada, como se tivesse sido injustamente acusada – Eu tô conversando e vou continuar conversando!
_Escuta aqui, se eu passar por aquela porta sozinha... – apontou a entrada, me ameaçando – ...você pode esquecer o meu número, o meu endereço, você pode me esquecer. Cê tá me entendendo?!?
_Mas, gata... – a mina se pronunciou, em minha defesa – A gente só tava convers...
_VOCÊ CALA A BOCA, MARÍLIA! – a Clara a interrompeu, irritada com a intromissão – EU E VOCÊ NÃO SOMOS AMIGAS! E eu não sou obrigada a escutar o que você tem pra dizer. A minha conversa é com ela! Não com você!
_Mas, Bi... – tentei acalmar os ânimos – ...a gente não tava fazendo nada. A, a gente só tava conversando numa boa, meu. Ela me perguntou da tatuagem e eu di...
_Ótimo! Bom pra você! Já se divertiu! Agora a sua cara de pau tem cinco minutos pra me encontrar lá embaixo – descruzou os braços, pronta para ir, com o vestido ainda amassado – Cinco minutos, Bo, ou eu vou embora! E se você não estiver na frente daquele elevador, não precisa nem se dar ao trabalho de vir se desculpar depois...
_Clara, e-eu... – tentei apelar, mas ela já tinha virado as costas.
 
Merda.
 
Levantei numa afobação súbita e comecei a procurar a droga da minha regata, com os movimentos atrapalhados por toda a bebida. A minha cabeça não funcionava, não direito. Comecei a me irritar, cadê essa merda?! Me debrucei para ver debaixo dos móveis, ajoelhada naquele chão imundo, e encontrei minha blusa amarrotada no pé empoeirado do sofá. Argh, alcancei o tecido com a mão, ficando novamente em pé e vestindo a regata suja às pressas. Não sabia quanto tempo tinha perdido procurando. Me meti entre as convidadas da festa, sem me despedir da tal Marília, que observava tudo ainda sentada, e fechei a porta atrás de mim, num estrondo. Aí chamei o elevador, agitada. Apoiei as mãos na parede, pouco acima do interruptor, sentindo meu estômago revirar de ansiedade. Por que porra eu saí de casa hoje?, me angustiei. Entrei e apertei o térreo.
 
E quando a porta abriu, certamente já tinham se passado mais do que cinco minutos. Mas ela ainda estava lá.
 
_Bi, eu... – ia começar a implorar, mas a Clara saiu andando.
 
Tinha um maço de cigarro nas mãos e continuou, sem olhar para trás, indo para o lado de fora. Me ignorando. Volta aqui, quis dizer, mas me contive – ela já estava longe demais e não queria arriscar erguer a minha voz. Corri então para alcançá-la. Inferno. A Clara seguiu como se fosse para a Teodoro, talvez para o ponto de táxi mais adiante. Senti que a corrida me deixou ainda mais embriagada, meio desnorteada. Pedi que me esperasse e ela continuou andando, sem nem me ouvir. Estava uns dois, três metros adiante.
 
_NÃO FAZ ISSO, LINDA! – subi o tom de voz, por fim – POR FAVOR!
 
Então ela se virou. E me encarou, contendo a raiva nos olhos.
 
_Você... v-você é UMA BABACA! – passou as mãos no rosto – Escuta, eu me segurei para não falar lá em cima, pra não fazer escândalo, mas... VOCÊ É! VOCÊ É UMA PUTA DUMA BABACA! EU TAVA ALI DO LADO...
_NÃO! ESPERA LÁ! – comecei a retrucar, insultada, mas a sua voz sobrepôs a minha, ainda mais brava.
_...E VOCÊ NÃO TEVE A DECÊNCIA DE ESCONDER O QUE TAVA FAZENDO! NA FRENTE DE TODO MUNDO, PORRA! VOCÊ FOI COMIGO NAQUELA FESTA!!! COMIGO!!
_MANO! O... – me irritei com o comentário – O QUE DIABOS EU FIZ?!
_SÓ FALTOU VOCÊ COMER AQUELA GAROTA!! NA M...
_COMER?!? COMER???!??! – comecei a rir, embriagada – CLARA, CARALHO, EU SEQUER BEIJEI A MENINA!!! MAL ENCOSTEI UM DEDO NELA!! CÊ NÃO ACHA QUE TÁ EXAGERANDO?!? CACETE!! A GENTE CONVERSOU POR MEIO MINUTO E VOCÊ ME ARRANCA DA FESTA PORQUE ACHA QUE EU TAVA QUASE COMENDO A PORRA DUMA MINA QUE NUNCA VI NA VIDA?!??
_AH, É, PORQUE SEU CRITÉRIO PRA SE METER NO MEIO DAS PERNAS DE ALGUÉM É REALMENTE “QUANTOS ANOS A GENTE JÁ SE CONHECE”, NÃO É??
_AH, NÃO! – balancei o dedo no ar, indignada – NÃO VEM COM IRONIA PRA CIMA DE MIM, NÃO! NÃO VOCÊ! Porque você pode, né, chamar fulana pra ir jantar na sua casa, sair com meio mundo quando quer, se agarrar com uma imbecil na merda do Vegas...
_O Vegas?! O VEGAS?!? – me interrompeu, furiosa – EU SEQUER SABIA QUE VOCÊ TAVA LÁ AQUELE DIA, PORRA!! CÊ VAI JOGAR ISSO NA MINHA CARA QUASE DOIS ANOS DEPOIS DESSA MERDA DESSA HISTÓRIA?! ACORDA!!! VOCÊ TAVA PEGANDO A MIA NA ÉPOCA, CARALHO!! – berrou de volta, alarmando toda a rua da nossa briga alcoolizada – NA BOA, NÃO ENTENDO!! Não sei por que o seu ego tá tão ofendido até agora... VAI À MERDA! ISSO É RIDÍCULO! – sacudiu a cabeça, fumando a dois metros de mim – E eu chamei a mina na minha casa, CHAMEI, SIM! A gente tinha acabado de começar a sair de novo, cacete, isso não é nada. NADA! Você acha que eu tô vendo alguém agora?! Acha que eu vi alguém nesse último ano?!? Você acha que eu TÔ FAZENDO O QUÊ COM VOCÊ, SUA IDIOTA?! TE TRAZENDO PARA CONHECER MINHAS AMIGAS, TE LEVANDO A SÉRIO... VOCÊ!!
_CLARA, A GENTE NÃO FEZ NADA!!
_NÃO INTERESSA!!! EU AMO VOCÊ, CARALHO!! – começou a gritar de novo, magoada – E EU NÃO QUERO VOCÊ DANDO EM CIMA DE OUTRA ASSIM NA MINHA FRENTE!! É PEDIR DEMAIS??!? ENQUANTO TÔ LÁ, TOMANDO ESPORRO DA DONA DA FESTA, SABE?? VOCÊ ACHA QUE TUDO BEM AGIR ASSIM?? FINGIR QUE EU NÃO EXISTO, INFERNO, NA FRENTE DAS MINHAS AMIGAS?!?! VOCÊ SEQUER ENTENDE O DESRESPEITO QUE ISSO É COMIGO?! COM A GENTE?!?!? JÁ IMAGINOU SE EU FAÇO A MESMA COISA NA CASA DA LÊ?? DA THAÍS?? QUAL É O SEU PROBLEMA?!?!
 
Me olhava com uma decepção tão doída que me destruía. Puta merda, nem eu me entendia. C-c-c-c-c-come on, babe. A Clara cruzou os braços, injuriada. I never knew that you needed me. E nós duas ficamos em silêncio, por um instante, naquela sarjeta escura. No que diabos eu tava pensando? Me senti um lixo. I was born on the wrong side. Eu não queria aquilo, eu queria a Clara. Não queria foder tudo. Caralho. E precisava assumir quando estava errada ao invés de me proteger das suas acusações feito uma idiota. The wrong side, the wrong side of everything. Me arrependia violentamente.