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fevereiro 19, 2013

O telefone sem fio

Eu soube minutos depois, quando me preparava para sair para uma locação. “Vc vai pra argentina com a clara???”, a Mia me mandou por SMS e eu suspirei, lendo a mensagem de canto de olho enquanto finalizava a papelada da gravação. Saí para a rua uns vinte minutos depois, ainda sem ter respondido. E aí outra mensagem chegou, já nos primeiros passos que dei na calçada – “valeu hein, c ñ vai nem me responder??”.
 
Merda.
 
Puxei o maço do bolso, desconcertada, e acendi um cigarro na busca de um pouco de coragem. Aí disquei o seu número, conforme cruzava a Manoel da Nóbrega. Dei uma tragada, ouvindo o telefone tocar do outro lado da linha. Qual é, garota, eu sei que você tá perto do celular. Mas ela só atendeu na segunda vez que liguei, uns cinco toques depois.
 
_Fala.
 
Parei a alguns metros da entrada do metrô, sem querer perder o sinal. E apoiei a mão livre no vidro do lado de fora da estação Brigadeiro. “Mia” – falei meio desajeitada, com o cigarro ainda na boca. “Fala”, repetiu, nitidamente irritada. Suspirei. Soltei a mão do vidro, me virando para encostar a lateral do corpo ali, e tirei o filtro dos lábios.
 
_É só uma viagem, Mia.
_Não é “só uma viagem” – me interrompeu, ríspida.
_Cara, nã... – respirei fundo – ...não faz assim.
_...
_Mia.
_Foda-se. Foda-se! Eu não ligo, pode ir viajar com a merda da Clara, fica à vontade!
_Para com isso, meu. Eu... e-eu nem sei por que cê tá brava, eu sequer planejei a porra da viagem! Não tava sabendo de nada, descobri hoje. Não é como se...
_Você não me deve uma explicação – me cortou, de novo.
_Linda, por favor.
_Não, quer saber?! DEVE, SIM! – aumentou o tom de voz, mudando de ideia de repente – COMO VOCÊ VAI ENTRAR NUMA PORRA DUM AVIÃO COM ELA, COM TUDO O QUE TÁ ACONTECENDO ENTRE A GENTE?? FALA SÉRIO, MANO, NÃO SEI O QUE CÊ ACHA QUE TÁ FAZENDO!
_Como “O QUE EU ACHO QUE TÔ FAZENDO”? É SÓ UMA PORRA DE UMA VIAGEM! – me irritei – NINGUÉM TÁ CASANDO, CACETE, EU VOU E EU VOLTO! É SÓ ISSO!
_AH! É ISSO QUE VOCÊ ACHA QUE É?! “SÓ” ISSO??
_E O QUE TEM DEMAIS?! – retruquei e aí respirei fundo, tentando me acalmar – Mia, escuta, ela me deu de presente a parada, meu. Eu vou fazer o quê?! DIZER NÃO?!
_Não. Não, não, você tá certa mesmo... – disse, com ironia – ...vai lá. Se diverte!
 
Àquela altura, eu sequer sabia por que estava brigando, passando as mãos compulsivamente no rosto, esfregando os olhos em agonia. Dando vexame na frente da estação do metrô, com o celular no ouvido e com o cigarro entre os dedos. Traguei mais uma vez, nervosa, soltando a fumaça em seguida. E aí tentei argumentar, com paciência:
 
_Eu não tô fazendo de propósito, Mia.
_...
_Não faz isso comigo, vai...
_EU QUE TÔ FAZENDO?? – ela se ofendeu – EU???  
_Mano, eu ganhei as passagens! Não foi planejado! Fiquei sabendo hoje de manhã, meu... E eu quero ir, Mia. Eu quero. Eu nunca fui, cara!
_E VOCÊ NÃO SE SENTE MAL, ENTÃO? – me provocou, perdendo a mão de novo – É ISSO? CÊ VAI MESMO VIAJAR COM A PORRA DA CLARA ENQUANTO ME COME DIA SIM, DIA NÃO?! VOCÊ NÃO SE SENTE NEM UM POUCO CULPADA??
_CLARO QUE ME SINTO CULPADA, MIA! CLARO! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO? – comecei a me irritar de verdade, brigando de volta – MAS EU AMO A CLARA, PORRA. E SIM, EU QUERO VIAJAR COM ELA! QUERO! CÊ QUER MESMO ENTRAR NESSAS? PORQUE SE QUER FALAR DO MEU RELACIONAMENTO, A GENTE PODE FALAR DO SEU TAMBÉM, INFERNO!
_Cê é muito cara de pau, puta merda.
_“Eu”, né? – retruquei, irônica – “Eu”.
 
Traguei duas últimas vezes – a segunda um tanto mais demorada –, já terminando o cigarro. E aí joguei a bituca na calçada, pisando na ponta ainda acesa, sem paciência. As pessoas passavam atrás de mim na rua e entre nós seguia o silêncio. Aquela conversa me tirou do sério. Cacete. Meti a mão no bolso, procurando pelo meu bilhete. Precisava chegar logo na locação, tinha mil coisas para fazer, ainda mais se ia pedir para sair mais cedo no dia seguinte, mas não queria desligar sem antes me resolver com a Mia.
 
Então, tentei me acalmar. Abaixando a cabeça para falar:
 
_Linda, por favor. Você sabe que não é de propósito... – repeti, suspirando – ...não tô tentando te machucar.
_Eu não disse que tá me machucando, não é isso...
 
De repente, me diverti, eis que surge o orgulho.
 
_...eu só não sabia que, q-que você ia. Foi inesperado. isso.
_Tá – ri quieta, achando graça.

fevereiro 11, 2013

Vinho & alfajores

_Não, mãe... mãe, escuta... – interrompi seu monólogo que já durava uns bons minutos, fumando um cigarro em frente à produtora com o celular colado no ouvido – Preciso falar com vocês. Escuta, eu vou tá fora no fim de semana.
_Como “fora”? Fora de onde?
_De São Paulo.
_Pra onde você vai? Você não vem mais no domingo?
_Não. Eu e a Clara, a gente... v-vai viajar. Desculpa não ter avisado, é que foi surpresa, só fiquei sabendo agora.
_Mas viajar pra onde? Eu já combinei com a sua avó, a gente encomendou o bolo, seu pai chamou a família inteira pra vir. Vocês não podem ir no outro?
_Não dá – e naquele instante, dei graças aos céus que a Clara me tinha dado a desculpa perfeita para não ir àquela reunião sem sentido de almoço com a minha família, tragando o cigarro já quase acabado na calçada suja da Brigadeiro – As passagens já tão compradas, mãe. Mas eu passo aí durante a semana e a gente janta ou faz alguma outra coisa, sei lá.
_Eu não acredito nisso! – bufou do outro lado da linha e então se recuperou, perguntando pela terceira vez o que eu estava evitando responder – Mas, finalmente, cês vão pra onde?
_A gente... vai p... p-pra Argentina.
_O QUÊ?!
_É. Buenos Aires – murmurei, já de olhos fechados, à espera do surto.
_VOCÊ PERDEU A CABEÇA?! NÃO!! VOCÊ NÃO VAI VOAR PRA FORA DO PAÍS, MINHA FILHA, SEM NEM SE PROGRAMAR DIREITO, ONDE ESSA MENINA VAI TE ENFIAR??? NEM PENSAR! VOCÊ LÁ TEM DINHEIRO PRA ISSO?!?
_Mãe...
_VOCÊ NUNCA SUBIU NUM AVIÃO NA SUA VIDA! ESSAS COISAS TÊM QUE SER PENSADAS ANTES, NÃO É SIMPLESMENTE PEGAR E IR, É OUTRO PAÍS! E SE ACONTECE ALGUMA COISA ENQUANTO VOCÊS TÃO LÁ, FILHA? AS DUAS, SOZINHAS... – ouvi-a afastar-se do telefone e chamar aos berros pelo meu pai, inconformada.
_Mãe... mãe! Calma.
_Me passa o telefone da Clara.
_Cê não vai falar com a Clara, sossega o facho! – eu ri, revirando os olhos – Não tem nada demais, meu. A Clá já foi um bilhão de vezes, todos os amigos dela são de lá! Olha, vai ficar tudo bem, a gente vai amanhã direto do trampo e volta no domingo. Vou fazer uma mochila hoje à noite...
_Ah, não sei. Não sei, não. Vê lá onde você vai se meter, hein, minha filha...
_Relaxa, mãe. Escuta... – soltei a fumaça e joguei a bituca adiante na calçada – ...preciso entrar aqui na produtora.
_Tá. Me liga hoje à noite, quero saber melhor dessa história...
_Tá, tá. Vou lá, tá? Beijo.
_Não vai aprontar você, hein?
_Não vou, meu – ri.
 
Ouvi sua voz diminuir, já afastando o celular do ouvido. E desliguei o telefone, entrando na produtora. Aí mandei uma mensagem para a Marina e então para o Fer – que, como todo ano, tinha ignorado meus pedidos e organizado uma comemoração com nossos amigos no fim de semana. A Clara me contara que foi convidada uns dias antes e ficou na dúvida se comentava sobre a viagem com ele, com receio de estragar a surpresa. Sendo justa, o Fernando era meio maria-do-bairro – tinha amigos demais e uma certa tendência à fofoca. Ele me respondeu quase imediatamente depois do meu SMS, rindo e admitindo a culpa pela festa. Eu sabia.
 
Antes de eu sequer chegar na minha mesa, o meu celular começou a vibrar com várias mensagens da minha ex também. “Ñ acredito q vc vai viajar!! alias q VCS vao viajar JUNTAS! Q LINDO!!!”, ela me escreveu de volta, empolgada, emendando um SMS que dizia “assim, achei uma afronta? achei. pq vc ñ mexia essa bunda pra ir nem na padaria cmg, sabe. c eh uma ridícula. To mto feliz por vc, mas vc é uma ridícula, rs”, meio em tom de revolta, meio brincando, e depois um “ai, mas BUENOS AIRES, flor! Nossa, ñ acredito!! vai ser demais, vc vai amar”. E por fim, completou com um: “boa viagemmmm pra vcs! :)” e eu ri sozinha daquele escândalo todo.
 
Era apenas uma questão de tempo agora para que a Mia ficasse sabendo – o que eu queria postergar o máximo que pudesse. Mas sabia que o Fer ia acabar contando, a não ser que eu especificamente pedisse para que não o fizesse. E eu obviamente não podia dar tanta bandeira assim. Melhor contar eu mesma, decidi. O problema é que, logo que me respondeu e antes que eu pudesse sequer terminar a minha lista de tarefas do dia, o Fer ligou para meia São Paulo avisando sobre o cancelamento da festa.
 
E a linha inevitavelmente cruzou Higienópolis.

fevereiro 04, 2013

Yo la tengo

E então, eu li.
 
_Não posso aceitar isto, Bi.
 
Levantei o corpo, séria. E sentei-me no colchão com ela ainda no colo.
 
_Deixa de ser besta, claro que pode!
_Não. Não posso, porra. É muito!
_Mano, não é muito... – a Clara riu.
_Cê ganha menos do que eu, Clá, tá louca? Como cê vai pagar por isso trabalhando naquela loja? – me preocupei com os olhos nela e o papel dobrado em mãos, sentindo meu coração acelerar.
_Relaxa, eu peguei a mais barata. Faz um mês que tá pago! E não paguei a minha, tô indo com as milhas dos meus pais.
_Ainda assim, linda! É muita coisa!
_Não é. Vamos ficar na casa dum amigo! É só um fim de semana, vai...
_Mas, meu...
_Não é muita coisa, Bo – ela segurou o meu rosto e riu – Eu sei que parece, mas é porque você nunca foi. Cara, eu cresci indo pra lá nas férias... e sério, não tem nada demais!
_Clara... – eu ri, meio nervosa – ...tem, sim.
_Não tem. Para! Só aceita a merda do presente logo!
_...
_Eu quero ir, Bo – me deu um beijo rápido, sorrindo – Eu quero ir com você.
 
Observei-a por um instante, com a absoluta consciência de que aquilo que “não era nada” para ela também era possivelmente a maior de todas as coisas que eu já tinha feito com alguma garota. E normalmente, eu seria a primeira a pegar minhas tralhas e cair na estrada ao seu lado – eu amava aquele seu jeito. Mas a Clara já tinha ido até Machu Picchu de carona, fugido para o Uruguai só para ficar com uma mina e eu adorava escutar as suas aventuras porraloucas por noites inteiras, com suas mãos nas minhas e nossas pernas entrelaçadas no sofá da sala – mas eu nunca tinha saído do estado de São Paulo. Do estado, caralho! É claro que ela achava normal.
 
O meu estômago foi até a boca.

fevereiro 01, 2013

Impressões

Terminar com a Mia, ou a Clara, estava fora de questão – amava as duas demais para isso, esse era o problema. E seguia então arrastando a situação perigosamente, implorando para que ainda tivesse mais uma semana. E outra, antes de dar merda. E assim os dias foram passando nos arredores da Frei Caneca, entre gravações cansativas na produtora e mensagens trocadas, fodas contra a parede, conchinhas, os mesmos erros emocionais, até o dia em que fui acordada aos pulos pela Clara.
 
Era uma quinta-feira de manhã e ela literalmente pulou em cima da minha barriga, com tudo, enquanto eu ainda dormia – passando uma perna de cada lado do meu corpo. Argh. Abri os olhos, num puta susto, e a vi só de camisetão, num trapo velho meu, toda animada às fucking 7 da madrugada. Mas que diabos de bicho te picou?, fiz uma careta, desnorteada, esfregando o rosto com o antebraço. Tinha passado a noite comigo no apartamento e agora se jogava empolgada sobre o meu corpo ainda razoavelmente desacordado.
 
Senti a sua mão me tirar o antebraço da cara e a olhei, atordoada. Eu não tinha um vestígio sequer de roupa sobre o meu corpo e percebia agora, com frio, que ela tinha empurrado o lençol para o pé da cama. Devooolve, tateei a mão pelo colchão, fazendo manha. E a Clara riu, indiferente a todo o meu sofrimento magistralmente expresso naqueles poucos segundos de interação matinal. Meu deus, respirei fundo, que sono.
 
_Bom... – ela tirou de trás das costas um pedaço de papel dobrado ao meio, numa das suas mãos – ...feliz aniversário, Bo!
 
Ergui parte do corpo, apoiando os cotovelos no colchão. Espera.
 
_Cê sabe que é só no domingo, não? – ri.
_Sei, besta. Mas isso precisa ser hoje!
 
Precisa? E a Clara me entregou a folha de sulfite, curvando-se para me dar um beijo conforme eu pegava o meu presente dobrado entre seus dedos. Um tanto relutante. Eu tinha aversão a aniversários. Fosse pelo meu azar recorrente na data ou por toda interação social a que me via obrigada, atendendo o telefone a cada cinco minutos para agradecer parentes que eu não via há anos pelo simples fato de existir um dia a mais do que o anterior – não via motivo para comemorar. A não ser que fosse o dos outros.
 
Mas lá estava a Clara, plantada sobre a minha pessoa, assim que levantou, com um sorriso sincero no rosto – aguardando a minha reação. Isso eu podia apreciar. Presentes, presença. Ela. Era o que fazia sentido naquele circo todo. Então sorri de volta, achando certa graça na sua ansiedade, e abri o papel na expectativa de encontrar um cartão rabiscado naquela mesma manhã ou algo assim.
 
_O que é isso? – perguntei, sem entender, vendo um monte de informação impressa em espanhol.
_Lê aí.

janeiro 27, 2013

Outras mortes

Acordei na tarde seguinte com o sol atravessando a janela aberta, aterrissando direto na minha cara e já me queimando de tão quente. A primeira coisa que avistei ao abrir os olhos foi o cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira – as incontáveis bitucas apagadas pela metade no surto da noite anterior. Não sei quanto tempo se passou naquele quarto vazio depois que desligamos, um cigarro atrás do outro, até que eu conseguisse fechar os meus olhos. Mas foi bastante.
 
Levantei com certa dificuldade, a minha cabeça e o meu corpo doíam ao menor movimento, como dobradiças enferrujadas. Exaustas. Argh. Meti nas pernas a primeira cueca que achei na gaveta e fui até a cozinha. Com umas olheiras tremendas, o cabelo detonado. O Fer estava sentado frente à mesa, sem camisa, como se nunca tivesse deixado aquele apartamento. Me bateu uma puta nostalgia ao vê-lo ali.
 
_Bom dia, ressaca! – ele riu, ao me ver passar pela porta, destruída.
_Argh. Bom dia.
_Ô, não sabia se você ou o maluco aí tinham comprado... – comentou, comendo uma tigela de sucrilhos com leite – ...mas peguei, tem problema?
_Não. De boa. O Du mal come aí, velho, só fuma uns o dia inteiro.
_Nossa, mas... – hesitou – ...isso não faz sentido.
 
Estranhou e eu ri, concordando.
 
_É. Não mesmo.
 
Me juntei a ele, puxando uma cadeira. E comemos o café-da-manhã, conversando à toa, como se ele ainda morasse ali. O Fer fazia sentido naquela cozinha. Senti saudades de passar tempo com ele assim. Por mais contraditório que fosse, a sua presença fazia com que eu não pensasse na Mia. E pelo resto da tarde, nos sentamos no sofá e assistimos qualquer merda na TV juntos, bolando um baseado e fumando até escurecer do lado de fora – evitando ao máximo voltar para a casa dos pais naquele fim de domingo.
 
Quando, enfim, ele foi, eu restei. Sentada na sala, cercada de latas vazias de cerveja, vendo a reprise de algum reality show muito ruim na MTV. O Du chegou cerca de meia hora, quarenta minutos depois. Tinha dois pedaços da pizza que pedi com o Fer mais cedo e um resto de baseado sobre a mesa de centro. Ele sentou ao meu lado no sofá, passando o olhar pelas evidências de que mais alguém estivera ali.
 
_A Clara veio aí?
_Não. Tava com o Fer... – disse, afundada contra o encosto – Cê já comeu? Se quiser, pode pegar aí.
 
O Du se esticou sobre a mesa, alcançando um dos pedaços com a mão.
 
_E você, tava onde?
_Dormi na casa dum boy aí.
_Hum...
_Escuta, q-qual... – se virou pra mim enquanto mastigava, curioso – ...qual o seu lance com a Clara e a Mia?
_Ah, mano... – resmunguei, indisposta – ...hoje não é um bom dia pro cê me fazer essa pergunta.
_Desculpa – o Du riu – É que sempre vejo elas aí e fico na dúvida, elas sabem uma da outra?
_Cê tá querendo me foder a vida, né? – o empurrei pro lado, rabugenta, e ele achou graça – A essa hora dum domingo, porra, vindo com essas perguntas cretinas...
_Então “não”?
_A Mia sabe.
_Hum. Cê namora a Clara, é isso?
_É. E a... – hesitei – ...a Mia namora o, o Fer. 
 
O Du balançou a cabeça – “puta merda”, se divertiu com a minha falta de vergonha na cara. E aí afundou no sofá, que parecia nos engolir, num cansaço misturado com marofa e a noite abafada, assistindo reality na TV. Ele estava com uma bermuda jeans, mais curta do que outros caras normalmente usariam, e tinha uma chave-de-fenda acima do joelho – suas tatuagens aleatórias me faziam sorrir.
 
_Cê acredita que alguém pode realmente... – perguntei, olhando meio distraída para a TV, sem saber ao certo se falava de mim ou da Mia – ...amar duas pessoas ao mesmo tempo?
_Não sei. Depende do que você considera “amar”...
_Acho que é se sentir esmagado o tempo todo, seu coração... – respondi e agora, sim, falava de mim – ...seu corpo. De cima para baixo, sabe, como se o céu te empurrasse pra dentro de você.
_Olha, não acho que dá para amar duas pessoas assim, com essa intensidade – disse e me observou, ao seu lado – Por quê? Cê tá nessas?
_Eu não sei, e-eu... – passei a mão no rosto, respirando fundo – ...só sei q-que tô prometendo uma coisa pra uma, pedindo o contrário pra outra, tá me fodendo a cabeça e eu, não sei, e-eu não aguento mais.

janeiro 25, 2013

I'm not afraid to die


Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name
Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name
Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name
Now that I've seen your face I'm haunted by the letters of your name

(Lord Huron)

janeiro 24, 2013

Of all the strangers

Foi que eu precisava. As suas más intenções, as suas palavras desmedidas junto aos meus pensamentos sujos, soltos pela cama. Tinha um efeito incendiário em mim, a voz da Mia, sussurrando baixarias, desgraçada. Perdia o fôlego. Os seus lábios, o seu corpo todo, pareciam contornar as letras que saíam da sua boca. Me tirando do sério. Por que você, meu deus, entre todas as garotas?, me torturava, agora ofegante, com o rosto amassado contra o travesseiro e sozinha. À mercê dela. E assim que terminamos a que se dava a ligação, veio um silêncio sorrateiro. Ouvi-a respirar do outro lado da linha. O meu corpo todo ainda pulsava, inebriado, bêbado e cansado, recuperando a sanidade.
 
Sorri. Por um breve momento, achando certa graça. E suspirei, isso foi bom. Logo, porém, o escuro do quarto pareceu crescer. Para cima de mim. Espalhei meus braços e pernas no colchão vazio, sem dificuldade – tomada por uma densidade alcóolica, a endorfina vibrando no meu corpo. Com o telefone ainda no ouvido e a presença sóbria da Mia do outro lado. E... e não sei por que porra não desliguei.
 
Aqueles. Aqueles segundos que se seguiam era quando ficava perigoso. Ali, me dando conta de que ela, e-ela não estava lá. Aqueles eram os segundos que, em outra realidade, seriam preenchidos pelas pontas dos seus dedos, deslizando suavemente pela minha pele, nuns abraços, nuns carinhos despreocupados. Como deveria ser. Cada segundo gritava agora pelo seu corpo no meu.
 
_N-não é... – a minha boca soltou então, sem pensar direito – ...s-suficiente.
_O quê?
 
A Mia soou confusa, como se não tivesse ouvido.
 
_E-eu...
 
Pausei então. Minha linha de pensamento se engasgava em si, bêbada. E eu suspirei, afundando o rosto no travesseiro. Merda. Deixei o celular de lado por um instante – a parte sã que me restava sabia que eu não queria ter aquela conversa. Tinham agravantes demais. Não conseguia, todavia, evitar senão me sentir incompleta. Deitada, ali. A minha cabeça rodando, o formigamento silencioso nas extremidades. As minhas veias ainda latejavam. E me veio à cabeça algo que alguma garota, acho que a Dani, me disse anos antes – de que existia uma expressão para orgasmos, em francês, la petite mort. Era como eu me sentia agora. Depois de uma pequena morte. Aquele breve momento em que você perde o ar, a consciência, se perde inteira. E eu, e-eu não, puta merda, não queria mais me sentir sozinha assim quando voltava à vida.
 
_Você... – murmurei, uma angústia no peito – ...v-você devia tá aqui, Mia.
 
Os meus pulmões sentiam todo peso da bebida. Sabia que o Fer ainda estava capotado na sala, mas não conseguia evitar, havia seriedade na minha voz. E a Mia notou, respirando fundo do outro lado da linha. Tinha meus olhos apertados em consternação, o coração complicado. Me escuta, garota. Porque não quero mais foder, entende, te ver ou te escutar, sempre pela metade, eu quero estar com você, inferno, por inteiro. Eu te quero aqui, eu e você. E pela primeira vez, em muito tempo, me permiti pensar tão apaixonadamente dela – embriagada até os ossos, exausta. Eu sabia o que queria, mas não sabia como.
 
_E-eu... – a Mia respondeu, baixinho, e eu soube imediatamente que os seus olhos também estavam fechados – ...também queria tá aí.
_N-não, você, v-você não tá entendendo... – hesitei.
_Estou, sim.

janeiro 14, 2013

Mono

_Aguenta aí, velho... – o Fer pediu, se curvando sobre um canteiro – ...vou gorfar.
 
E não demorou dois segundos para que vomitasse ruidosamente. Bem em frente ao prédio. Comecei a rir dos seus modos e o porteiro nos encarou como se o nosso legado ali fosse o pior de todos os moradores. Não sei nem como aconteceu, mas em algum momento perdemos a noção das horas e da quantidade de garrafas de cerveja. Ao ponto que nossas vitórias deixaram de sequer ser computadas. Seguimos jogando até ficar de noite e o bar ser invadido pelo movimento caótico de sábado na Augusta.
 
E foi aí que a minha carteira se esvaziou desenfreadamente.
 
Uma garrafa levou à outra e todo o dinheiro se foi. Os nossos cigarros também – primeiro o meu maço, depois o dele. E então decidimos ir para outro boteco, mais abaixo na Augusta, largando nossas companhias de mesa para comprar maços novos. Chegando lá, onde a princípio nem íamos “ficar muito”, decidimos mudar de cerveja para rum. O que é sempre um mau sinal quando se trata de mim e do Fernando.
 
Estávamos enchendo a cara desde as duas da tarde. E , o problema de beber por horas espaçadas assim é que ficamos com aquela impressão de que estamos distribuindo o álcool com certa moderação. Mas é claro que a gente não estava. Eu menos ainda, numa ressaca acumulada da noite anterior. Algumas doses depois, sem saber bem quantas, voltamos cambaleando para o apê. Escorados um no outro, numa demonstração bêbada de afeto. Como eu te amo, moleque – pensei, trançando as pernas Frei Caneca acima. E o Fer segurou meu braço, enquanto vomitava no jardim de frente do nosso prédio.
 
É. Muita classe.
 
Subimos e ele capotou de qualquer jeito no sofá. Segui até o meu quarto no maior silêncio que conseguia. E descoordenadamente tirei minhas calças, me livrando daquele jeans todo. Entre tropeços, fui até o banheiro com uma camiseta velha e o celular em mãos. E só quando larguei tudo na pia é que notei mais uma mensagem da Mia. Não tinha checado o telefone desde que a respondi dizendo que não podia. “Hum, q pena...”, mandou de volta, inconclusiva, horas antes. Sorri e tirei a blusa, depois a boxer, num lapso de consciência, sem nem perceber direito o que estava fazendo. Aí me meti no chuveiro para curar a embriaguez. Sem muito sucesso.
 
Conforme a água descia pela minha nuca, deslizando pelo meu cabelo e as minhas costas molhadas, todavia, a minha cabeça foi tomada pela Mia. Meio bêbada, irracional. A imaginando naquela noite – esperando a minha resposta, a forma como movia os lábios ao me escrever. Sentada sobre a sua cama, no seu quarto. Ou na sala? No balcão da cozinha. Da sua, da minha. Tinha ambas as minhas mãos na parede, inclinada sob o chuveiro, com uma saudade imensa dela no meu corpo. Assim, de repente. Por que diabos não fui?, me arrependi, já fechando a torneira. Desliguei a água e saí do box, ainda consideravelmente bêbada. E peguei o celular antes mesmo de me enxugar, a respondendo – “qpena pq?”.
 
Me sequei de qualquer jeito com a toalha e vesti a camiseta velha, chutando minhas roupas sujas para debaixo da pia. Com certa dificuldade em me mover com precisão. Voltei para o quarto tateando no breu e me esparramei na cama, num conforto de deitar ali, sem roupa nenhuma me apertando. Nisso, o meu celular se acendeu na mesa de cabeceira. Ela tá acordada, pensei na mesma hora. E estiquei a mão, alcançando o telefone – o seu nome estava lá.
 
“Ta bebada? Kk ;)”. Podia senti-la sorrir em todas as ramificações nervosas da minha pele, nos meus pelos. Como uma brisa. Sentada em seu quarto em Higienópolis, enquanto eu encarava a tela deitada no meu. No escuro, sentindo sua falta do meu lado. “Ñ inteerssa”, respondi, numa dislexia alcóolica. “Ta, sim kkkk” – o meu celular vibrou novamente. Ri ao ler e digitei de volta – “oq cv t áa fzendo ai?”. Acomodei as costas num travesseiro meio atravessado, erguido contra a cabeceira da cama. Fala que tá pensando em mim, garota.
 
Mas a resposta não veio de imediato.
 
O silêncio no apartamento tornava os arredores ainda mais lentos. E eu observava fixamente o celular nas minhas mãos. Até que a tela se acendeu – “eu? nada, nada, so imaginando...”, disse. E imaginando o quê?, li, conforme a minha mente disparava. Eu, ah, eu, sim, pensava nela. Nas formas como a sua cintura se encaixava nos meus dedos, sabe? O jeito como sua barriga se dobrava sobre mim, imaginando-a de todas as formas mais magníficas, e sujas. Imaginava – seu contorcer, o seu gosto. Cacete. Numa vontade desgraçada de que viesse dormir comigo naquela noite. E me torturava sem conseguir parar de pensar na sua boca, no seu cheiro, no seu jeito. Inebriada pelo álcool e um tanto confusa nas sensações, misturando a realidade com as memórias dela. Os seus movimentos, os lençóis bagunçados. O som dela respirando no meu pescoço, subindo no meu ouvido, o som de quando ia perdendo o fôlego, se descontrolando, puta merda. Os sons de quando gozava na minha boca. Nos meus dedos, nas minhas pernas. Quase podia sentir a tensão das suas coxas contra as minhas. Me arranhando as costas, me mordendo inteira. Os meus pensamentos começaram a se sobrepor. Os toques, seus beijos na minha mão antes de dormir, num carinho quase adormecido, a sonolência, esse estar juntas, os recomeços lentos, os orgasmos, nossas manhãs no apartamento, cigarros divididos e baseados bolados, os seus olhos vermelhos, pequenininhos quando ela ria, chapadas a tarde inteira, à toa, numas conversas gostosas, numas não-conversas também, as nossas línguas uma na outra, suas pernas sobre a pia da cozinha e o seu olhar quando a Marina veio – “as melhores”, ela repetia na minha mente, arqueando as sobrancelhas para mim. E aí vinha o piso frio contra nossos corpos, o seu apartamento e as luzes da Sarajevo, o frio na calçada da Augusta, ao seu lado; o calor e os meus dedos dentro dela, meus lábios nos seus – a umidade, o sal que eu lambia da sua pele, nosso suor se misturando, nuns movimentos lentos, molhados. A minha pulsação começou a aumentar, já me contorcendo naquela porra daquela cama. Imaginando-a, perdendo a cabeça, me pedindo para que fosse mais forte. Nos fodendo, a comendo contra o sofá. Contra a parede, contra o seu colchão. À exaustão, vez atrás de outra. Sem conseguir nos largar, desgraça. E imaginava a sua mão onde estava a minha, naquele quarto escuro, entre as minhas coxas.
 
Como se eu tivesse levado tempo demais para responder, chegou mais uma mensagem da Mia. Tirei a mão do meio das minhas pernas e a abri, já sem fôlego – “...oq vc podia ta fazendo cmg, se tivesse aqui”. Ah, pra puta que pariu! Quis morder o travesseiro com suas reticências, agora completas, subindo pelas paredes de vontade dela. A sentia em mim, fisicamente, e me retorcia com o respirar quente dela entre as minhas pernas, afundando em cada uma das sensações irreais que me sucediam. E demorava-me, solta na cama, extasiada e bêbada; com a porta do quarto fechada. Em todo o meu corpo, o sangue parecia correr bruto. Peguei o celular de novo, num impulso, e disquei o seu número, os meus dedos ininterruptos até ouvir a Mia atender, do outro lado da linha, pouco me fodendo para o quão baixo era aquilo.
 
_M-me conta... – me adiantei, ofegante, prestes a explodir com o mero som da sua voz – ...me conta, porra... o que eu podia tá fazendo.

janeiro 10, 2013

Deslizes

Saí na calçada da Augusta, acendendo um dos últimos cigarros do meu maço. Conforme soltei a fumaça pro lado, checando o celular, me dei conta de uma mensagem da Mia que não tinha visto – “vai ta sozinha hj?”. O ar na rua estava abafado. Dei mais um trago e digitei de volta, “ñ, desci com o fer pra augusta.. acho q vms pro apto dps”. Aí pausei por um instante, com os olhos na mensagem, apoiada contra a parede imunda do lado de fora do boteco.
 
Me sentia estranha falando com a Mia depois da madrugada com a Clara. Entre isso e o fato de que o Fer provavelmente ia dormir em casa, recusar devia ter sido fácil – mas não foi. Nunca era. Não aprendera a lidar com o interesse da Mia. E a verdade é que eu gostava, gostava de cada palavra sua que encontrava caminho até a minha caixa de entrada, me convidando para ficar com ela, aparecendo de surpresa na porta do meu trabalho, me beijando entre um pega e outro dum baseado, descendo dum táxi às duas da manhã em frente ao prédio, num vai-dar-merda impagável. Podia me enganar o quanto quisesse, e não só a mim, mas bastava seu nome aparecer na tela que meu coração acelerava.
 
Argh
 
Enviei a mensagem. Dane-se. A real é que não tinha como encontrá-la, pelo menos não naquela noite. E a última coisa que me passava pela cabeça era dispensar o Fer para ir ficar com a sua namorada – ainda que o canalha do meu amigo estivesse levantando do seu banco para ir dar uma volta com a nossa companheira de mesa em um canto do bar. Fora do meu campo de minha visão, isto é. Cê nunca superou, hein, dei mais um trago, achando certa graça na cena, a bronca que tomou quando te peguei com a Júlia em casa.
 
Me divertia a discrição do Fer de quem come quieto, observando de longe, de fora do bar. E não me importava se ele dava uns beijos em qualquer garota, de tempos em tempos. Ainda mais agora, depois de tanto tempo e águas passadas, quem era eu para achar ruim? Não conseguia sequer dar conta ou entender a complexidade dos meus relacionamentos, dos meus sentimentos, que dirá os dos outros. Mas me divertia.
 
Soltei a fumaça para baixo, num último trago, e apaguei o cigarro na parede do bar. Aí entrei de novo. As mesas de sinuca ficavam ao fundo, numa espécie de porãozinho aberto a uns 5 degraus do piso de entrada. Desci as escadas e peguei meu copo, que já estava formando uma poça na lateral da mesa. E fiquei trocando ideia com o tal do Max – enquanto o Fernando beijava a amiga dele contra a parede, segurando a lateral do pescoço dela com as mãos tatuadas, no corredor escuro que ia pros banheiros.
 
Dei uma olhada e virei de costas para eles, começando outra partida com o cara. Fingindo que não tinha visto.
 
_Vamos lá, mais uma...

janeiro 08, 2013

Os ratos de boteco

_Ô, arrasa-coração! – cantei no ouvido do Fer, o zombando.
 
Ele riu do comentário e me contrariou com a cabeça, antes de eu encaçapar a próxima ímpar. Só mais três na mesa contra seis pares. Nem cinco da tarde no relógio. Me debrucei sobre a beirada da mesa de sinuca, escada abaixo num boteco da Augusta. Nem uma hora antes, fizemos amizade com um viado barbudo e sua amiga hétero – estavam esperando ao lado da nossa mesa para revezar partidas e, em algum momento, os convidamos para se juntar a nós.
 
Agora, tinham ido buscar mais cerveja no bar. Nós ficamos.
 
_Nada a ver, mano – o Fer cruzou os braços, achando graça nos meus comentários, e se curvou para checar as pernas da garota escada acima na fila.
_Meu, vai por mim...
_Nem.
_Escuta o que eu tô te dizendo, cara... – o alertei e ele se divertiu, me ouvindo falar, depois de uns bons copos de cerveja – ...essa aí tá querendo.
_Não tá, meu.
_Tá bom, então. Fica vendo...
 
Dei de ombros, com o taco ainda em mãos e me afastei da mesa. Ele sabia. Deu mais uma olhada nas pernas da garota escada acima. Usava uns shorts curtos e uma dessas rasteirinhas, como se tivesse na praia; tinha os dois braços fechados de tatuagem old school. Ela e o amigo já perdiam pela segunda vez para nós, naquele clima bom de sábado à tarde na Augusta, tagarelando sem parar e se enchendo de cerveja com a gente.
 
_Uai. Cadê?! – o boy se espantou ao voltar do balcão, com mais uma garrafa na mão – Cês acertaram mais uma?
_Três a seis – o Fer respondeu.
_Ahm. Mas, assim... – a menina chegou logo atrás, fazendo graça e encarando o meu amigo – Três mesmo ou cês encaçaparam uma com a mão aí, enquanto a gente tava fora?
_Três, porra! – ele riu – Vou mentir?
_Hum, sei não, acho melhor a gente mudar essas duplas aí. Num confio em vocês dois juntos...
_Ah, é? E vamos mudar pra o quê?
_Eu e você... – ela piscou pro Fer, na maior cara de pau – ...contra eles.
_Não. Não ia dar certo isso aí, não...
 
O Fer ficou sem jeito. E se virou para a mesa, matando mais duas logo em seguida. O outro cara se revoltou, resmungando um “cês tão de brincadeira” sonoro e largando o taco de lado, como se desistisse. Eu ria do outro lado da mesa. O Fer sentou numa cadeira de boteco, com as pernas abertas. E a mina se aproximou, se metendo entre os joelhos dele, esbarrando as coxas no seu jeans enquanto conversavam. Virei mais da cerveja gelada no meu copo, observando ela dar em cima do meu amigo.
 
_Vai... – tentava o convencer – ...vamos jogar uma eu e você, pô.
_Não... – ele riu, abaixando a cabeça, meio deixando ela fazer graça pra cima dele – Se quer mudar as duplas, vai ser minas contra caras. Melhor.
_Hum. Mas não quero jogar com a sua amiga...
_Epa. Alguma coisa contra? – fingi estar ofendida, me intrometendo de longe – Homofobia isso aí, hein?
_Nossa, até você?! – a garota me olhou, assustada – Caralho, meu, não existe mais hétero na Augusta!
_Na Augusta?! – o Fer deu um gole na cerveja, se divertindo – Mano, nunca existiu...
_Vamos dominar o mundo... – ameacei.
_Vixi. Tô vendo que vai sobrar pra gente, hein, repovoar a Terra... – ela brincou, cutucando o Fernando, e ele ficou imediatamente sem graça, erguendo os olhos na minha direção atrás de ajuda, enquanto eu me divertia.
 
Vai, eu ri, quem é que tava certa agora.
 
_Não, meu – ele esfregou a nuca, sentindo apertar toda a corda que deu – Acho que a minha namorada não ia gostar, não.
 
Tinha lá o seu charme cafajeste, o Fer. Com aqueles ares de cachorro dele – de quem tá negando, mas não muito. A garota se abaixou e cochichou algo em seu ouvido, colocando uma das mãos sobre a sua perna. E o Fernando ouviu, quieto, como quem não tem nada a perder, mas logo balançou a cabeça para ela e sorriu, declinando. Não escutei o que era. E nem me importava àquela altura, cogitando ir até o lado de fora para fumar.