Acordei na tarde seguinte com o sol atravessando a janela aberta, aterrissando
direto na minha cara e já me queimando de tão quente. A primeira coisa que
avistei ao abrir os olhos foi o cinzeiro sobre a mesinha de cabeceira – as incontáveis
bitucas apagadas pela metade no surto da noite anterior. Não sei quanto tempo
se passou naquele quarto vazio depois que desligamos, um cigarro atrás do outro,
até que eu conseguisse fechar os meus olhos. Mas foi bastante.
Levantei com certa dificuldade, a minha cabeça e o meu corpo doíam
ao menor movimento, como dobradiças enferrujadas. Exaustas. Argh. Meti nas pernas a primeira cueca que
achei na gaveta e fui até a cozinha. Com umas olheiras tremendas, o cabelo
detonado. O Fer estava sentado frente à mesa, sem camisa, como se nunca tivesse
deixado aquele apartamento. Me bateu uma puta nostalgia ao vê-lo ali.
_Bom dia, ressaca!
– ele riu, ao me ver passar pela porta, destruída.
_Argh. Bom dia.
_Ô, não sabia se você ou o maluco aí tinham comprado... – comentou, comendo uma tigela de sucrilhos com leite – ...mas peguei, tem problema?
_Não. De boa. O Du mal come aí, velho, só fuma uns o dia inteiro.
_Nossa, mas... – hesitou – ...isso não faz sentido.
Estranhou e eu ri, concordando.
_É. Não mesmo.
Me juntei a ele, puxando uma cadeira. E comemos o café-da-manhã,
conversando à toa, como se ele ainda morasse ali. O Fer fazia sentido naquela
cozinha. Senti saudades de passar tempo com ele assim. Por mais contraditório que
fosse, a sua presença fazia com que eu não pensasse na Mia. E pelo resto da
tarde, nos sentamos no sofá e assistimos qualquer merda na TV juntos, bolando
um baseado e fumando até escurecer do lado de fora – evitando ao máximo voltar
para a casa dos pais naquele fim de domingo.
Quando, enfim, ele foi, eu restei. Sentada na sala, cercada de
latas vazias de cerveja, vendo a reprise de algum reality show muito ruim na MTV. O Du chegou cerca de meia hora,
quarenta minutos depois. Tinha dois pedaços da pizza que pedi com o Fer mais
cedo e um resto de baseado sobre a mesa de centro. Ele sentou ao meu lado no
sofá, passando o olhar pelas evidências de que mais alguém estivera ali.
_A Clara veio aí?
_Não. Tava com o Fer... – disse, afundada contra o encosto – Cê já comeu? Se quiser, pode pegar aí.
O Du se esticou sobre a mesa, alcançando um dos pedaços com a mão.
_E você, tava onde?
_Dormi na casa dum boy aí.
_Hum...
_Escuta, q-qual... – se virou pra mim enquanto mastigava, curioso – ...qual o seu lance com a Clara e a Mia?
_Ah, mano... – resmunguei, indisposta – ...hoje não é um bom dia pro cê me fazer essa pergunta.
_Desculpa – o Du riu – É que sempre vejo elas aí e fico na dúvida, elas sabem uma da outra?
_Cê tá querendo me foder a vida, né? – o empurrei pro lado, rabugenta, e ele achou graça – A essa hora dum domingo, porra, vindo com essas perguntas cretinas...
_Então “não”?
_A Mia sabe.
_Hum. Cê namora a Clara, é isso?
_É. E a... – hesitei – ...a Mia namora o, o Fer.
O Du balançou a cabeça – “puta merda”, se divertiu com a minha
falta de vergonha na cara. E aí afundou no sofá, que parecia nos engolir, num
cansaço misturado com marofa e a noite abafada, assistindo reality na
TV. Ele estava com uma bermuda jeans, mais curta do que outros caras
normalmente usariam, e tinha uma chave-de-fenda acima do joelho – suas tatuagens
aleatórias me faziam sorrir.
_Cê acredita que alguém pode realmente... – perguntei, olhando meio
distraída para a TV, sem saber ao certo se falava de mim ou da Mia – ...amar
duas pessoas ao mesmo tempo?
_Não sei. Depende do que você considera “amar”...
_Acho que é se sentir esmagado o tempo todo, seu coração... – respondi e agora, sim, falava de mim – ...seu corpo. De cima para baixo, sabe, como se o céu te empurrasse pra dentro de você.
_Olha, não acho que dá para amar duas pessoas assim, com essa intensidade – disse e me observou, ao seu lado – Por quê? Cê tá nessas?
_Eu não sei, e-eu... – passei a mão no rosto, respirando fundo – ...só sei q-que tô prometendo uma coisa pra uma, pedindo o contrário pra outra, tá me fodendo a cabeça e eu, não sei, e-eu não aguento mais.
_Argh. Bom dia.
_Ô, não sabia se você ou o maluco aí tinham comprado... – comentou, comendo uma tigela de sucrilhos com leite – ...mas peguei, tem problema?
_Não. De boa. O Du mal come aí, velho, só fuma uns o dia inteiro.
_Nossa, mas... – hesitou – ...isso não faz sentido.
_Não. Tava com o Fer... – disse, afundada contra o encosto – Cê já comeu? Se quiser, pode pegar aí.
_Dormi na casa dum boy aí.
_Hum...
_Escuta, q-qual... – se virou pra mim enquanto mastigava, curioso – ...qual o seu lance com a Clara e a Mia?
_Ah, mano... – resmunguei, indisposta – ...hoje não é um bom dia pro cê me fazer essa pergunta.
_Desculpa – o Du riu – É que sempre vejo elas aí e fico na dúvida, elas sabem uma da outra?
_Cê tá querendo me foder a vida, né? – o empurrei pro lado, rabugenta, e ele achou graça – A essa hora dum domingo, porra, vindo com essas perguntas cretinas...
_Então “não”?
_A Mia sabe.
_Hum. Cê namora a Clara, é isso?
_É. E a... – hesitei – ...a Mia namora o, o Fer.
_Não sei. Depende do que você considera “amar”...
_Acho que é se sentir esmagado o tempo todo, seu coração... – respondi e agora, sim, falava de mim – ...seu corpo. De cima para baixo, sabe, como se o céu te empurrasse pra dentro de você.
_Olha, não acho que dá para amar duas pessoas assim, com essa intensidade – disse e me observou, ao seu lado – Por quê? Cê tá nessas?
_Eu não sei, e-eu... – passei a mão no rosto, respirando fundo – ...só sei q-que tô prometendo uma coisa pra uma, pedindo o contrário pra outra, tá me fodendo a cabeça e eu, não sei, e-eu não aguento mais.
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