- »

março 25, 2013

3 Bit Blues

A madrugada se desenrolou complicada, numas brigas e reconciliações regadas a álcool. Nos perdoamos contra a parede suja do banheiro. E nos desentendemos na saída, numa calçada cheia de garotas e moleques de uns 20 anos, que não entendiam uma palavra do que dizíamos. Durou dez minutos. Fizemos as pazes no táxi de volta. A sua mão entrou na minha calça, no escuro do banco de trás. Ainda assim, a Clara se deprimiu ao chegar no quarto, fumando um baseado que descolara com um dos amigos. Estava silencioso demais e ela entrou numa brisa errada, numa paranoia embriagada, numa dessas crises de ansiedade – me culpando, falando irracionalidades induzidas por toda a bebida e a bad trip.
 
_Não, não, vem – eu sussurrava, a segurando em meus braços.
 
Sentia-a se desvencilhar e a Clara levantava da cama, em um desespero alcoolizado de fazer algo. “Senta aqui, vai”, eu tentava argumentar. Lutando contra o sono e a minha própria bebedeira. Sequer sabíamos por que discutíamos – não se tratava mais da Mia. A Clara sequer se lembrava mais do ocorrido. Se agitava. Por outros motivos, mais abstratos. Eram frustrações, pequenos instantes transformados em angústias, desacordos; amplificados pelos arredores e as substâncias em nossas veias, desproporcionalmente. E cada curva que a madrugava dava parecia assumir uma forma completamente nova, nuns dimorfismos carregados. O sol já quase nascia e ainda estávamos alucinadas, acordadas em plenas 6 da manhã naquele quarto claustrofóbico.
 
_Vem pra cama, linda.
_Eu não m-me, me sinto bem – choramingava, ofegante, curvada em pé contra a parede.
_Cê tá bêbada, vai, vem. Cê vai se sentir melhor amanhã! Eu prometo.
_Eu n-não... quero.
_Não quer o quê? – eu perguntava, sentada no colchão; os meus olhos quase fechando de tão pesados.
_Me sentir melhor, eu... e-eu não quero.
_Não fala assim, Bi. Vamos.
_...
_Bi... – me levantei também e a abracei pelas costas – ...vamos, vai. Não faz assim.
_E O QUE VOCÊ SABE?! – se irritou, me empurrando.
_Clara...
_VOCÊ NÃO SABE DE NADA! DE NADA, PORRA!
_Clara, para... – ela se agitava e eu a segurava ainda mais forte, tentando fazer com que se acalmasse – ...eu tô aqui, vamos lá. Não começa com isso de novo.
_TÁ TUDO ERRADO. TUDO. EU SOU UMA ESTÚPIDA!
_Não é. E não é assim. Vamos, vai... cê tem que deixar a brisa passar, meu. Cê já sabe como funciona, linda, vai passar. É só a gente dormir... vai ficar tudo bem.
_Eu n... e-eu não quero, Bo. Eu não posso. EU NÃO QUERO FICAR AQUI! ME TIRA DESSE QUARTO! POR FAVOR! Eu não consigo ficar aqui...
_Consegue, sim. Vem. Deita comigo, a gente conversa até o sono chegar.
_EU NÃO QUERO! Eu não q... – começou a chorar, bêbada.
_Não pensa nisso, linda. Tá tudo bem, vem.
_...
 
Um instante de silêncio se seguiu. E eu lhe tirei aos poucos a blusa, os shorts, os largando no chão. Aí a coloquei debaixo do lençol, com todo cuidado que a minha falta de sobriedade permitia. E deitei ao seu lado, virada na sua direção. Minha mão entrelaçada na sua. “Você me acha louca?”, ela indagou num cochichar baixinho, constrangida. “Nem um pouco”, garanti. E me pus a contar todos os meus surtos de outras madrugadas, pela Augusta afora em São Paulo. A Clara esboçou um sorriso. 
 
Se divertia com as minhas histórias, com o mais podre de mim. Porres homéricos, brigas alucinadas. Horas e horas de autopiedade na cozinha vazia, entornando um copo de rum atrás do outro. Contei da vez em que impedi que a Dani tomasse remédios demais, depois de uma madrugada bêbada, completamente deprimida e fora de si. A Clara segurou o meu rosto, com carinho. E em seguida, descrevi a noite em que eu mesma misturei mais do que devia, alguns anos antes. Tive a certeza de que ia morrer, gritei e chorei incansavelmente; o Fernando ficou horas acordado ao meu lado, no chão do apartamento.
 
_Sempre passa. E aí cê jura que nunca mais vai beber... fumar, fazer porra nenhuma.
_Até a semana seguinte... – ela sorriu, por um instante.
_É.
 
O clima agora estava mais calmo, mais sóbrio – em todos os sentidos. O seu nariz tocava desavisadamente a ponta do meu. Numa lentidão cansada. Um milímetro mais para cá. E outro milímetro para lá, num deslizar bobo. Nuns vai-e-véns inconscientes. Sonolentos. Aquelas nossas conversas e o toque da sua pele me faziam sentir em casa. Havia uma cumplicidade genuína entre nós, um ser e falar absolutamente livre de julgamentos. De certa forma, o relacionamento que tinha com a Clara era o mais sincero que eu já tinha tido. De outras formas, não. Sabia que aquele era meu mundo – ali, com ela. E havia conforto em saber disso. Na certeza de que nos encaixávamos. Movi o meu corpo mais para frente e a encontrei adiante, num beijo instintivo. Num desencadear assim, exaustas.
 
(...)
 
Dormimos entrelaçadas. E o dia amanheceu sobre os nossos olhos fechados, iluminando nossos corpos desacordados. Aquelas eram as nossas últimas horas juntas em Buenos Aires. E elas atravessaram o nosso sono, caladas, como quem não quer perturbar a quietude recentemente conquistada. Gargantas arranhadas, olheiras secas, a ressaca. Mas acordamos, inevitavelmente – com o celular da Clara tocando aos gritos quando já eram quase 16h.
 
A minha cabeça doía. Os meus músculos pareciam ter sido esmagados por um caminhão. E a Clara aparentava se incomodar com um torcicolo – provavelmente por ter dormido com o pescoço desajeitado sobre o meu braço. Deslizava a mão pela própria nuca e apertava os olhos em desconforto. Já em pé, eu a observava a alguns metros de onde estava sentada na cama, admirando-a. Eu te amo, garota. Senti um impulso apaixonado de beijá-la – a sua pele. Mas a Clara estava quieta.
 
_Quanto tempo temos?
 
Perguntei e logo me abaixei para arrumar a mochila no chão, agachada de costas para o colchão. Minhas roupas estavam largadas ao redor. E como não ouvi resposta nos segundos seguintes, me virei para ela.
 
_Clara?
_... – os seus olhos não me encontraram, cabisbaixa, encarando as próprias mãos; e então murmurou – ...a-alguma vez você já mentiu para mim?
_O quê? – eu ri, sem entender a pergunta.
_Mentiu? – insistiu.
 
Respirei fundo. Soltando as roupas sobre a mochila.
 
_Por que isso, meu? – me angustiei – Por que cê quer...
_O que... – me interrompeu – ...o que tem entre você e a Mia?

março 19, 2013

Então é guerra

E até àquela altura eu estava perdendo. O jantar com os amigos foi um desastre – atravessada, a Clara fez questão de falar espanhol a noite toda e deve ter dado a entender que eu estava de castigo, ou algo assim, porque todo mundo naquela mesa me olhava com desprezo. Ou talvez fosse só a hospitalidade portenha. Vai saber. Os amigos eram um casal de caras já na casa dos 30 e uma sapatão um pouco mais nova, além do dono da casa – o Ignacio. Tagarelavam animados entre si. O único momento em que falaram comigo foi para perguntar se eu ia beber algo, quando o garçom estava à beira da mesa.
 
E sim – comecei a me encher de álcool.
 
Essa noite vai ser longa, resmunguei para mim mesma, virando uma dose de pisco. Que opção eu tinha? Dali fomos para uma balada e só piorou. Durante a primeira hora, a Clara sumiu na pista com os amigos, enquanto eu abraçava o bar e fazia amizade com o garçom. Segundo ele, brasileiro era o que não faltava em Buenos Aires. Eu já estava na terceira dose, quando a Clara e os amigos encostaram ao meu lado na bancada, completamente suados, pedindo algo para tomar. Os drinks chegaram rápido. E sem parecer sincera, a Clara me perguntou se eu queria me juntar a eles na pista – eu declinei. Podia ver os seus olhos revoltados com a minha resposta, ainda que soubesse que ela não me queria lá de fato, “tá bom”.
 
Sabia que estava piorando as coisas, mas não conseguia simplesmente ir dançar e fingir que ela não tinha me ignorado por horas. Sequer me virei para ver onde estavam indo quando decidiram voltar para a pista. Que se fodam, que se foda a Argentina toda. Fingi que a culpa não era minha. E pelos minutos seguintes, comecei a virar tequilas. Já tinha passado da meia-noite e o meu aniversário de 25 já começava errado. Então decidi perder o juízo de vez, descontei no meu fígado. O que nunca dá muito certo, não é? Nem quarenta minutos depois e eu era amiga de um grupo de chilenos que encontrei perdidos por ali, completamente torta. O meu espanhol estava mais fluente do que nunca. Apoiava-me num deles para contar uma história que agora sequer lembro qual era, enquanto eles gritavam de volta e riam, entretidos. Simpáticos. Decidi, então, que não gostava de argentinos e que eles, os chilenos, eram simplesmente mais legais.
 
Minhas pernas já estavam trançando quando decidi que era hora de resolver a situação com a Clara. E entrar na pista foi uma experiência alucinada e confusa. O som estava alto, as pessoas completamente molhadas, tinha espuma de sabão para todo lado e as luzes mudavam freneticamente de cor. Eu estava embriagada. Realmente embriagada. Prestes a piorar ainda mais a situação. Via os corpos dos outros passarem por mim, tomada por uma vontade irracional de empurrá-los para longe. Entre aquele caos de espuma e gente com a roupa ensopada, vi um dos amigos da Clara ao longe. Comecei a ir em sua direção, cambaleando e sem enxergar direito; as pessoas gritavam umas com as outras, à minha volta, rindo. Estavam todos lá quando cheguei e a Clara dançava, encharcada, atracada com outra garota.
 
Filha da mãe.
 
Fiquei furiosa. Ela me viu, a cinco passos de onde estavam, e eu virei as costas na mesma hora. Saí em disparada, sem vontade de ouvir uma palavra que tivesse para me dizer. Um dos amigos dela veio atrás de mim, a Clara sequer se deu ao trabalho. Comecei a mandar o cara calar a boca, conforme ele gritava qualquer coisa na minha direção – parecia tentar explicar a situação por ela, mas eu não queria ouvir. Comecei a perder o controle. Debati os braços, me soltando dele, e segui andando – mas ele insistiu, grudado à lateral do meu rosto, como um parasita, berrando no meu ouvido.
 
Voltei para o bar e pedi um whisky. O cara seguia falando “no pasa nada”, se repetindo, e eu o mandava à merda. Virei a dose assim que chegou. E já pedi logo outra. O argentino me segurou o braço, falando um “ê, ê” cauteloso, como se me pedisse para ir devagar, implorando para que eu fosse lá resolver direito. Não preciso resolver porra nenhuma. Virei o outro copo inteiro. E na décima resposta estourada minha, ele deu de ombros e voltou para a pista, deixando de se importar.
 
Inferno. Empurrei a droga do copo adiante na bancada e me virei também, voltando para onde eles estavam. Quando revi a Clara, a garota estava ao seu lado, ambas com espuma até quase a cintura. Os amigos também, todos ali, em pé, comovidos pela nossa ceninha de uns minutos antes. A Clara me encarou, ressentida, como se tivesse vontade de fazer pior. Marchei na sua direção e a puxei para fora da rodinha de amigos, demos dois passos adiante. Mas aí ela se recusou a ir – se soltou de mim, com raiva, como quem quer sair de perto. Peguei na sua mão de novo e ela me empurrou. Começou a andar no sentido oposto, de volta, completamente embriagada.
 
_CÊ NÃO VAI FALAR COMIGO, PORRA? – gritei, competindo com o som alto.
 
Foi o suficiente para a Clara se virar na minha direção, mandando eu ir me foder. Em alto e bom som. E do nada, a situação toda explodiu. A tal garota se aproximou. Um dos amigos entrou no meio de nós duas e nós começamos a discutir. Virei para a Clara, gritando na sua direção – “SÉRIO? CÊ VAI MANDAR EU ME FODER? É ASSIM QUE A GENTE VAI RESOLVER AS COISAS?!?”. “NÃO QUERO FALAR COM VOCÊ AGORA!”, ela berrava. “AGORA?”, me irritei, “FAZ TRÊS, QUATRO HORAS QUE CÊ NÃO FALA COMIGO!”. Fiz um gesto para o cara me largar, me irritando com as suas mãos em mim. O Ignacio saiu detrás do balcão do bar, me empurrando, querendo que eu me afastasse da sua amiga. Empurrei ele de volta. A garota com quem a Clara tava dançando começou a falar qualquer coisa a dez centímetros da minha cara. “MANDA ELA CALAR A BOCA!”, gritei para a Clara. E o barraco foi ganhando proporções gigantes, saindo do controle.
 
_ESCUTA! – puxei a Clara pela mão mais uma vez, encostando a boca do seu ouvido – A GENTE NÃO PRECISA FAZER ISSO AQUI! SE CÊ QUER FICAR BRAVA COMIGO, FICA BRAVA COMIGO! QUER PEGAR A PORRA DA MINA, PEGA! – argumentei, bêbada – EU VOU FICAR LÁ FORA. E QUANDO CÊ TERMINAR, EU VOU TÁ TE ESPERANDO. FAZ O QUE QUISER, VELHO.
_É?? – me ameaçou – POIS EU DEVIA FAZER MESMO!!
_QUAL É O SEU PROBLEMA, CARALHO?! É A MIA?? UMA FRASE QUE EU TE FALEI?!? É ISSO??
_NÃO. NÃO É A PORRA DA MIA. É VOCÊ! VOCÊ!!
_ENTÃO FICA BRAVA COMIGO, CACETE! FALA! – berrei na direção dela, com os olhos já marejados, sentindo que tinha fodido tudo de vez – FALA QUE EU SOU UMA IDIOTA! EU SOU, EU SOU MESMO! UMA PORRA DUMA IDIOTA! MAS EU NÃO TAVA TENTANDO TE MAGOAR, SÓ QUERIA PODER CONVERSAR, INFERNO! POR FAVOR, NÃO ME IGNORA! SÓ FALA, PORRA! ME XINGA! FAZ QUALQUER COISA! – esfreguei a mão no rosto, fora de mim – EU AMO VOCÊ, DESGRAÇA!
_AH, AMA? O QUE ISSO QUER DIZER?!? – apontou o dedo na minha cara, nervosa – QUE VOCÊ VAI VIR ATÉ AQUI COMIGO PARA FALAR SOBRE A PORRA DA MIA? PRA FICAR PENSANDO NELA??!?
_CLARA, CARALHO, EU SÓ...
_VOCÊ O QUÊ? – me interrompeu, pistola – HEIN, VOCÊ O QUÊ?? PORQUE SE VOCÊ ACHA QUE PODE FAZER AS COISAS ASSIM, QUE EU VOU FICAR PARADA ESCUTANDO, CÊ TÁ MUITO ENGANADA!
_NA BOA, FAZ A MERDA QUE CÊ QUISER, CLÁ... QUE SE FODA!
 
Saí andando, puta da vida. E dez minutos depois, a gente estava se comendo no banheiro.

março 14, 2013

Littorina littorea

_Vou daqui a pouco – murmurei.
 
Estava acabando de guardar ambos os livros na minha mochila – o que a Clara pegou para mim e o que eu peguei para a Mia, num movimento que me fazia sentir mais culpada do que provavelmente parecia para quem via. Ela entrou no chuveiro sem mim.
 
Minutos antes quando entramos na casa, cruzamos com o amigo da Clara pela primeira vez desde que nos hospedamos ali. Era uma bicha franzina, afeminada, o tipo de cara que seria meu amigo na Augusta. Nos convidou para ir jantar com uns amigos e depois ir para balada onde ele trabalhava, disse que conseguia nos colocar para dentro de graça. Ótimo, pensei, já que gastei o que não tinha com tatuagem e esse maldito livro.
 
O plano era só tomar um banho rápido e sair. Mas conforme a Clara ligava o chuveiro, larguei o meu corpo no colchão e fiquei afundada ali por um tempo, com a cabeça ainda cheia, me atormentando com como diabos eu tinha deixado a situação chegar naquele ponto. O peso se arrastava dentro do meu peito. Argh. O que eu tô fazendo?!, deslizei as mãos pelo rosto, atordoada. Não conseguia entender como uma porra de um poema podia me desestruturar assim. E como a Mia, a 2.000 quilômetros de distância, ainda conseguia estragar a minha viagem com a Clara.
 
Mas conseguia, desgraça.
 
O meu coração estava pesado – e não era de agora. Angustiada, me peguei de repente pensando no porquê de a Mia ter surtado tanto com a viagem. Em como andavam as coisas entre nós, o que invariavelmente me levou a questionar o que ela sentia por mim – um pensamento que nunca foi muito fácil de desenrolar. Sentia dar voltas dentro do meu peito, me emaranhando, puta que pariu. E a real é que eu queria, queria estar lá, queria estar com a Clara, porra, estar por inteiro, queria aquela viagem. Mas não importava quão longe eu ia, nem se saía da droga do país, eu não conseguia fugir de como me sentia. Me sentia chegar ao limite daquela confusão, exausta.
 
_E essa brisa aí, hum? – a Clara riu, saindo do banho e me olhando ali – ¿Qué pasa?
 
Estava encostada contra o batente da porta, o que dividia o quarto do banheirinho. Nuns shorts desses soltinhos de linho, num tom queimado bonito, e com o cabelo molhado pingando sobre a sua barriga. “Nada”, sorri amarelo de volta. Ela andou até a cama, deitando ao meu lado. Tinha um caramujinho minúsculo de menos de um centímetro tatuado sobre as costelas, na altura dos seios. Que de tão pequeno me dava vontade de tocar na sua pele, toda vez que o avistava, quase para testar se não era uma pintinha.
 
_Não é “nada”, Bo...
_Ah, tô, sei lá... – respondi então, escorregando o polegar sobre as pequenas linhas.
_Hum...?
_Foi um dia esquisito.
_Esquisito, por quê? – deitou com a cabeça virada para o meu lado – Achei que cê tava gostando daqui...
_Eu tô. Lógico que tô, meu. Só... – murmurei e quis, por um segundo, poder lhe contar, poder conversar sobre tudo com ela – ...fiquei meio, não sei. Pensando, sabe?
_“Pensando”?
_É. Na... – meu coração afundou – ...Mia.
 
Merda. Tão logo pronunciei o seu nome, a Clara se levantou bruscamente. “Vamos”, resmungou. Antes que pudesse me explicar. Não disse mais nada, não brigou comigo, simplesmente ficou em pé e vestiu uma regata preta, com uma pressa quase forçada.
 
E aí a batalha começou.

março 08, 2013

O caso do acaso

Algo de nostálgico transpirava por aquelas prateleiras empoeiradas de madeira – conforme os meus dedos deslizavam, indecisos, pela capa do Benedetti. Um gosto secreto, meio de amor. E eis um sentimento perigoso para se deixar corpo adentro, para se permitir que te invada a mente assim. Mas lá estava – a vontade irracional de pagar por aquelas linhas, de levá-las comigo. Para a garota que me confundia o coração.
 
Estar na Argentina, de certa forma, também me confundia. Não posso seriamente estar pensando na Mia, olhei para o livro, agora com desgosto. Não. Os arredores se esforçavam em subtrair das letras o cheiro dela, sumindo sorrateiros com os seus olhos castanhos da minha mente. Eu tô aqui, não lá. Não preciso disso, porra – repetia na minha cabeça como um mantra, me convencendo. Tenho que aprender a deixar toda essa confusão pra trás.
 
Respirei fundo. E espiei mais uma vez sobre a prateleira, a Clara caminhava lentamente de volta, distraída pelos títulos da pequena livraria de sapatonas. – encarei o livro do escritor uruguaio em minhas mãos, decidida a deixá-lo na mesma cesta onde o tinha encontrado. E o fiz. Não vou foder minha cabeça, me convenci, indo em direção à Clara, esse fim de semana é nosso, porra.
 
_Olha o que eu achei! – ela segurou um Quino na minha frente, toda feliz.
 
A capa amarelada indicava ser antigo, eu sorri.
 
_Perfeito.
_E você, viu alguma coisa?
_Não.
 
Meio que sim, argh. Caminhar até o caixa da livraria foi uma tarefa exaustiva, um tanto difícil de realizar sem dar bandeira. Agora nunca mais vou encontrar a merda do poema, me angustiei. Parte de mim ainda queria levá-lo. E com certo nervosismo, eu dedilhava a mão direita sobre o balcão. Ruidosamente. Devia ter tirado uma foto da página – será que posso fazer isso aqui?, eu divagava mentalmente. A Clara me cutucou, repetindo em português o preço que a velhinha caminhoneira tinha dito, num espanhol enrolado. Puxei a minha carteira do bolso, com uns pesos trocados horas antes. Por que eu sequer tô cogitando isso?! Não vou levar o livro, caralho, sem chance, me dissuadi. Só o Quino e pronto.
 
A senhora agora contava o meu troco, demoradamente. Tinha o cabelo grisalho, cortado bem curtinho, e uma tatuagem velha no antebraço com as linhas já vazadas. Não vai fazer falta, insisti na minha cabeça, não é como se a Mia estivesse esperando presente nenhum. É. É? Pois talvez por isso mesmo eu devesse levar, digladiei comigo mesma. Argh. Peguei a alça da sacola, já com o livro pago dentro, e nos despedimos da sapatão argentina.
 
Já estava escuro do lado de fora, na rua. A Clara parou em frente à porta da livraria para acender um cigarro. “Você quer?”, ofereceu um Marlboro aceso. E eu aceitei. Não. A Mia definitivamente não precisa de um livro, resmunguei para mim mesma, de poema nenhum. Tinha deixado São Paulo com ela ainda meio brava. ‘Me desculpa’, sei. Devolvi o cigarro para a Clara. E afinal, por que ela se incomoda tanto? Se eu vou viajar ou não... Ela tem o Fer, sempre teve, porra. E tá, admito – às vezes, eu pensava coisas estranhas.
 
Fomos andando pela calçada, juntas. Mas meus pensamentos seguiam acelerados. Começava a ficar rabugenta. A verdade era que eu queria dar aquele livro para a Mia. Fazer caso do acaso. Numa ânsia que me tomava a cada passo em que nos distanciávamos da esquina da livraria. Qual é o meu problema? Eu tô mesmo tão apaixonada que não consigo ficar um dia sem pensar na porra do nome dela? Aparentemente tô, né – revirei os olhos. Inferno. Senti, de repente, como se traísse a Clara em pensamento. Mas, se amo a Mia assim, q-que merda eu tô fazendo aqui?, me irritei comigo mesma.
 
Aquilo era ridículo. Chega. É só um poema, cacete. E o meu coração interveio, rapidamente, mas já dei todo resto, não é? Posso muito bem dar um poema também. Num impulso, como quem arranca um band-aid sem rodeios, pedi para que a Clara me esperasse e corri meia quadra de volta para comprar a droga livro. “É para a Marina”, menti ao retornar, abaixando a cabeça, já arrependida.

março 06, 2013

Corazón coraza

Na manhã seguinte, senti doer cada músculo do meu corpo – num lento despertar dos sentidos. Minha cabeça era devorada. Por que diabos inventei de tomar tanto vinho? Ao contrário dos destilados, com porre de vinho eu não tava acostumada. Me destruía completamente. Para piorar, sentia minhas pernas fracas de toda a atividade na madrugada anterior, a pele calejada de hematomas e mordidas nas costas, no pescoço, roxos nas pernas e marcas do lenço torcido nos pulsos – de quando a Clara resolveu se vingar.
 
A sensação geral era tinha sido atropelada por um caminhão. Tô ficando velha, lamentei, passando as mãos no rosto sentada à beira da cama. Caralho. Me bateu uma crise um dia antes de fazer 25. Uns outonos antes, pensei, teria levantado só com uma ressaca leve e ido contabilizar as marcas no espelho, achando graça. Olhei para o lado, para a Clara adormecida ali. É. Mas uns outonos antes, sorri, eu não tinha você. E virei para frente, colocando o rosto entre as mãos novamente. Essa garota vai me matar.
 
Me enchia o peito duma felicidade boba viver as coisas ao seu lado. Juntei forças para me levantar. E fui até a mochila largada no canto do quarto, pegando uma boxer qualquer e a vestindo, após um banho rápido naquele chuveiro gelado cujo aquecedor não consegui fazer funcionar. Então coloquei o único jeans que tinha levado e uma regata branca. E deixei o quarto, à surdina. Saí na rua, andando algumas quadras até encontrar o que parecia ser um café.
 
Gesticulei. Fiz mímica. Gastei o todo meu espanhol fajuto para comprar un café de la mañana. E a atendente riu – repetindo qualquer outra palavra algumas vezes até eu finalmente entender que estávamos falando da mesma coisa. Comprei o que deu com uns pesos que a Clara tinha, apontando o que pareciam ser uns sanduíches e pegando dois cafés para viagem. Fiz o que pude para garantir que não tivesse carne nos lanches, mas saí sem muita certeza de que a garota realmente tinha me entendido. O bairro era ainda mais bonito durante o dia. Voltei observando as ruas, tentando não me perder. A Clara ainda estava dormindo quando cheguei, vinte minutos depois.
 
Despertou ao me ouvir entrar. E sorriu ao abrir os olhos, me vendo parada ali, com dois cafés na mão. “Vou ficar mal-acostumada assim”, murmurou. Comemos em cima do colchão e ela se divertiu, implorando para eu repetir como tinha pedido tudo aquilo no café. Achando graça ao me escutar balbuciar aquele espanhol ruim. E em menos de meia hora, estávamos saindo pela porta. Tínhamos muito para ver – de uma estranha flor de metal a um palácio não tão rosa, o jardim botânico, coisas assim.
 
Andamos o dia inteiro. Os meus favoritos foram os murais de artistas de rua, as lojas de vinil e a estátua da Mafalda, ao lado da qual sentei e pedi pela primeira vez na viagem toda que a Clara tirasse uma foto. Almoçamos no mercado em San Telmo e, como já beirava as 16, tomamos mais vinho. “Estamos na Argentina”, justificamos o tempo todo, que se dane. Aí pedi para a Clara me levar em algum estúdio de tatuagem – queria um rabisquinho internacional. Entramos numa das lojas em Bond Street e pedi pra Clara escrever “33” num papel. O tatuei nas costas da mão, em homenagem ao vinho, em cima do pulso marcado daquela madrugada.
 
Nem uma hora depois, movida pelo meu entusiasmo com a Pequena Notável mais cedo, a Clara me arrastou até uma livraria alternativa do bairro, com pilhas caóticas de livros empoeirados por toda parte e administrada por um casal de caminhoneiras. Animal. Absolutamente todos os lugares que a Clara me levava me empolgavam, numa vontade de ver, de viver tudo que podia ali.
 
_Eu gostava de vir aqui... – me contou, baixinho, cumprimentando de longe uma das sapatas – ...quando era nova, com uns 11, 12 anos. E minha mãe, em negação, achando que eu era hétero.
 
Olhei para ela, achando graça. Aí peguei um livro que estava numa grande cesta de palha no chão, em promoção. Parecia bem de sebo, com as bordas detonadas. Era uma antologia de poesias. A Clara seguia adiante, buscando pelas prateleiras mais ao fundo para ver se me achava um Quino original, em espanhol. Folheei as páginas com certo interesse em ver o quanto daquilo eu conseguia entender. Inicialmente, os poemas eram curtos e simples. Me pareciam o tipo de coisa que a Marina ia gostar de ler. Pensei em levá-lo de presente para ela. Até que, na página 79, meus olhos se perderam nas linhas de um dos poemas.
 
Diziam:
 
“Porque eres mía
Porque no eres mía
Porque te miro y muero y peor que muero
Si no te miro amor, si no te miro
 
Porque tú siempre existes dondequiera
Pero existes mejor donde te quiero
Porque tu boca es sangre y tienes frío
Tengo que amarte amor, tengo que amarte
Aunque esta herida duela como dos
Aunque te busque y no te encuentre
Y aunque la noche pase y yo te tenga
Y no”
 
Fechei o livro. Rapidamente. E o meu coração acelerou, não sei bem por quê. Olhei por cima das prateleiras, para a Clara ao longe. Pensei em devolvê-lo ao cesto – mas parte de mim, agora, queria mesmo levar. Cacete.
 
Eu relutei, subitamente apegada àquelas páginas.

fevereiro 28, 2013

Latitud 33

Coloquei o meu braço sobre os ombros da Clara, abraçando-a enquanto caminhava ao seu lado. As ruas de Palermo eram encantadoras à noite. Andamos de volta até a esquina onde deveríamos ter virado inicialmente, uma ruela de pequenas casas com paredes coloridas chamada Pasaje Santa Rosa. A Clara tagarelava o tempo todo e eu a ouvia, rindo – observando os contornos de grafitti se fundirem às trepadeiras unha-de-gato que cobriam as construções antigas.
 
_Espera um segundo – me pediu.
 
E entrou numa lojinha meio dessas de conveniência, de repente, me deixando na rua por um instante. Acendi um dos cigarros do maço e me sentei no meio-fio, observando os meus pés sobre os paralelepípedos no chão. A umidade do ar de Buenos Aires entrava fria nos meus pulmões. Fazia tempo que não me sentia tão plena, tão feliz. Pouco depois, a Clara voltou com duas garrafas de vinho nas mãos. Mais álcool?, achei graça, ainda embriagada de todas as Quilmes e doses de pisco que tomamos no bar. Sentou ao meu lado na calçada e colocou uma dentro da minha mochila, a outra na sua.
 
_Precisamos de vinho – justificou e eu arqueei as sobrancelhas na sua direção, achando exagero.
_Olha, não sei se...
_Estamos em Buenos Aires – argumentou, muito séria, com um lenço verde-escuro ao redor do pescoço – Acredite, precisamos de vinho.
 
Comecei a rir, colocando o cigarro de volta na boca. Tá bem. Ficamos em pé novamente e continuamos até a casa do amigo dela, um sobrado cor mostarda a algumas quadras dali. A Clara pegou a chave, que estava escondida atrás de um ladrilho solto, e entramos. O nosso quarto parecia menor que o meu em São Paulo, tinha uma cama de casal e um banheirinho meio claustrofóbico – mas, de alguma forma, não sei, era perfeito.
 
Largamos nossas mochilas no chão. E a Clara tirou uma foto minha, conforme eu abria o zíper da frente, agachada, à procura da garrafa de tinto. Ao contrário de mim, que andava por aí com o mesmo telefone velho há anos, o dela tinha uma câmera decente e já acumulava umas cinquenta fotos inúteis minhas desde que saímos do Brasil. “Para, meu”, eu abaixei a cabeça, com vergonha. E a Clara revirou os olhos – “pode reclamar o quanto quiser, vou continuar tirando foto”. Com o vinho numa mão, tirei o celular da dela e o larguei em cima da mochila no chão – “sei”.
 
Aí a beijei, demoradamente.
 
Abrimos o vinho com um saca-rolhas que ela roubou da cozinha do amigo. Larguei a rolha sobre a mesinha de cabeceira, ainda enfiada no saca-rolhas, e tomei um gole direto da garrafa. Cacete, é bom mesmo. Então a beijei, de novo, com uma vontade embriagada. Bebi outro gole. Mais um beijo, outro gole. Nossos beijos se tornaram amassos e logo tornaram-se muitos. Comecei a tirar a blusa dela, os meus tênis, entre goles e mais goles, escorrendo pelo nosso queixo, nosso pescoço, tirando o lenço dela, nos agarrando, nuns movimentos cada vez mais desinibidos pelo álcool.
 
Só de calcinha, a Clara se sentou na cama na minha frente, abrindo o meu jeans. E as pernas. Dei mais um gole, ainda em pé, a encarando ali. E então lhe entreguei a garrafa, tirando a minha camiseta enquanto ela também bebia do gargalo. Subi em cima do seu corpo, beijando cada centímetro da sua pele. Apanhei a garrafa para outro gole. E me curvei para beijá-la, perigando manchar toda a cama com vinho. Suas pernas me apertaram, agarradas ao redor do meu corpo. Nos beijando numa fome violenta.
 
Alcancei o lenço mais adiante no colchão. E escorreguei o tecido pelo decorrer dos seus braços, conforme os erguia sobre a sua cabeça. Até os seus pulsos. Então os envolvi – uma mão, depois a outra –, a prendendo contra a armação da cama. Dei um pouco do vinho na sua boca. E nos beijamos de novo, mais forte. Fui arrancando sua calcinha e derramando tinto sobre as suas pernas, bebendo direto da sua pele. Lambendo a dobra no alto das suas coxas, sentindo-a se contorcer. Então virava mais e o líquido escorria pelas laterais do seu corpo, pela sua cintura. Ia consumindo cada gota nela, sujando toda a cama. A Clara se contorcia, tensionando o tecido. O nó apertava os seus pulsos, marcando a pele ao redor.
 
Ah – comer a Clara em Buenos Aires ia levar horas. E eu queria que ela prestasse atenção em cada segundo. 

fevereiro 25, 2013

Como te extraño, Clara

Segurei o meu fôlego. Há vinte e sete horas que esperava por qualquer oportunidade que fosse para soltá-lo. Mas não deu – primeiro eram as mochilas e então os documentos ou os meus pais, as pessoas me ligando, o banco, os extratos, os cálculos, as mil anotações e os horários antecipados no trabalho, era tudo. Eram todas essas coisas e tempo nenhum para respirar. Cacete.
 
Ainda segurava o fôlego e o nosso voo já chegava ao fim. O alto-falante avisou que o pouso seria em poucos minutos. E o meu estômago se revirou. Merda, merda. Eu estava consideravelmente bêbada – meti goela abaixo todo álcool em que consegui colocar as minhas mãos, sem levantar suspeita nas aeromoças de que estava exagerando, naquelas piores duas horas e meia da minha vida. Fingia com muito esforço para a Clara que não notasse que eu estava com tanto medo. De estar a dez quilômetros do chão, puta merda. Minha dignidade se desmanchava no desespero de sair logo daquela aeronave, odiando cada segundo daquela descida que não acabava nunca.
 
Argh.
 
A Clara fazia como se não percebesse, apenas segurando a minha mão e ocasionalmente rindo – e o meu estômago se contorceu por completo nos últimos segundos antes de tocarmos o solo. Sequer dei-me conta de que chegava em outro país. Tudo o que queria era me enfiar em um meio confiável de transporte. Digo, um meio conhecido de transporte. Saímos pelo corredor e observei as vidraças do aeroporto, a noite escura do lado de fora. Passamos reto pela esteira de malas, já que nossas mochilas tinham ido conosco no avião. Era um pouco estranho ouvir as pessoas falando em outra língua nos anúncios do saguão e ao redor de nós.
 
Fui atrás da Clara, sem ideia do que fazer em seguida. Arranjamos passagens de ônibus para o centro – outra viagem de quase uma hora – e de lá, pegamos um táxi até a Plaza Serrana. Observei as ruas durante o percurso, admirada. Ainda não me ocorria o quão longe eu estava de São Paulo, apenas me parecia um outro lado realmente descolado do universo. Descemos lá pelas onze, com as mochilas ainda nas costas, em frente a uma calçada cheia de mesas, onde argentinos barulhentos bebiam num certo caos ordenado. Era surreal.
 
Logo soube, eu vou me apaixonar insanamente por essa cidade. Meu deus.
 
Só então comecei a sentir um formigamento, dando-me conta de onde estava, e com quem. A Clara me puxou para dentro de um bar, meio boêmio e alternativo, com as paredes sujas e garotas com mullets ou cabelos presos sobre a cabeça, meio desarrumados. Tomamos a nossa primeira dose sem nem ter visto coisa alguma de Buenos Aires. “Amanhã vamos ter tempo”, a Clara riu e nos pediu mais duas cervejas portenhas, direto no balcão. Tudo o que saía da sua boca para os atendentes me confundia, rápido demais para que eu acompanhasse, numa associação fajuta com o português.
 
Eu ainda segurava o fôlego.
 
Bebemos alguns copos. E ela falava, animada, me ensinando diferentes expressões para dizer “sapatão” por toda a América Latina – chonga, tortillera, torta, camiona, lencha, machorra, fleta, arepera, marimacho, pata, lela, maricona, cachapera, bollo, bollera, tijetera, lechuga e até waffle, a lista não acabava nunca. E por algum motivo, que achei realmente maravilhoso, metade das traduções tinham a ver com comida.
 
_É que nosotras, sabe, las lesbianas da América Latina... – a Clara fez graça, piscando para mim – ...nos gusta comer.
_Ah, é?
 
Puxei ela na minha direção, rindo, num beijo com gosto de Quilmes. As pessoas ao nosso redor tinham ares de intelectuais, meio artistas incompreendidos, sabe, desses que ouvem coisas como Bonobo. A Clara fazia sentido ali. Notei logo nos primeiros minutos, com os olhos admirados voltados para ela, enquanto ela puxava assunto com três caminhoneiras na mesa ao lado. Explicou que eu não falava espanhol, mas uma delas tentou falar comigo mesmo assim, me perguntando qualquer coisa num ritmo bastante lento e eu olhei para a Clara, meio sem jeito – me ajuda, implorei com os olhos.
 
A Argentina parecia me tornar mais comedida. Menos cara de pau.
 
Ficamos até a uma. Uma-e-alguma-coisa. As garotas nos chamaram pra uma balada a algumas quadras dali e a Clara me perguntou se eu queria ir, respondi que não – preferia ir conhecer o colchão da casa em que íamos ficar. Nunca tinha transado fora do país e estava louca pra levar ela pra cama. “Te ensino todas as sacanagens que sei em espanhol”, a Clara sussurrou, me puxando pela jaqueta, assim que nossas novas amigas foram na outra direção.
 
Começamos a andar pela calçada. A casa do amigo dela ficava a poucas quadras e estava vazia – ele era barman, à noite. Chegando na primeira esquina, no entanto, a Clara me puxou pela mão e fez atravessar noutra direção. “Vem cá”, sorriu, “quero te mostrar uma coisa rapidinho”. O ar estava úmido. As ruas eram iluminadas com charme e preenchidas por fileiras de árvores, o que deixava o ambiente ainda mais frio. A Clara se adiantou alguns passos e tive que correr para alcançá-la.
 
_TÁ LOUCA??! – a abracei, num apego bêbado – Me larga aqui e eu não volto pra casa nunca mais, meu. Não sei falar nem o nome da rua que estamos!
 
Ela riu e parou em frente a outro bar, erguendo os braços abertos sobre a cabeça.
 
_Aqui, olha! – anunciou, empolgada.
_Mano, cê quer beber mais?!
_Não, não – riu – O nome do bar!
_Como t...
_Como te extraño, Clara – ela corrigiu, enquanto eu lia o letreiro numa pronúncia desajeitada – Quer dizer “como sinto sua falta, Clara”.
_Esse é o nome do bar??
_É – sorriu, acendendo um cigarro do maço que compramos na saída do aeroporto – Fiz uma festa aqui, uma vez. Eu brinco que é o “meu” bar em Buenos Aires.
_Porra... – sorri, numa felicidade boba de conhecer todos os cantos da cidade que ela amava – ...que animal.
 
Deu dois passos na minha direção, me oferecendo o cigarro aceso. E me olhou nos olhos com uma desinibição natural, me assistindo dar um trago com todas as suas más intenções. Quis beijá-la na mesma hora – mas só sorri, com as mãos ao redor da sua cintura, fascinada pela forma como era capaz de olhar tão dentro de mim.
 
_Quer dizer, então... – falei baixinho, chegando perto da sua boca – ...que cê nem foi ainda e eu já tenho que sentir a sua falta?
_“Ainda”? – ela riu.
_Nunca.

fevereiro 21, 2013

01 nova mensagem

Me dsclp, ñ qria brigar... fiquei meio atravessada :( qria te ver no seu aniversario, meu, mas tb entendo. me perdoa?” – li a mensagem da Mia no meio do set, enquanto falava com uma das assistentes de produção no rádio, me perdendo por um segundo no que estava dizendo. Não queria ir viajar com aquela discussão idiota na garganta. Sorri.

fevereiro 19, 2013

O telefone sem fio

Eu soube minutos depois, quando me preparava para sair para uma locação. “Vc vai pra argentina com a clara???”, a Mia me mandou por SMS e eu suspirei, lendo a mensagem de canto de olho enquanto finalizava a papelada da gravação. Saí para a rua uns vinte minutos depois, ainda sem ter respondido. E aí outra mensagem chegou, já nos primeiros passos que dei na calçada – “valeu hein, c ñ vai nem me responder??”.
 
Merda.
 
Puxei o maço do bolso, desconcertada, e acendi um cigarro na busca de um pouco de coragem. Aí disquei o seu número, conforme cruzava a Manoel da Nóbrega. Dei uma tragada, ouvindo o telefone tocar do outro lado da linha. Qual é, garota, eu sei que você tá perto do celular. Mas ela só atendeu na segunda vez que liguei, uns cinco toques depois.
 
_Fala.
 
Parei a alguns metros da entrada do metrô, sem querer perder o sinal. E apoiei a mão livre no vidro do lado de fora da estação Brigadeiro. “Mia” – falei meio desajeitada, com o cigarro ainda na boca. “Fala”, repetiu, nitidamente irritada. Suspirei. Soltei a mão do vidro, me virando para encostar a lateral do corpo ali, e tirei o filtro dos lábios.
 
_É só uma viagem, Mia.
_Não é “só uma viagem” – me interrompeu, ríspida.
_Cara, nã... – respirei fundo – ...não faz assim.
_...
_Mia.
_Foda-se. Foda-se! Eu não ligo, pode ir viajar com a merda da Clara, fica à vontade!
_Para com isso, meu. Eu... e-eu nem sei por que cê tá brava, eu sequer planejei a porra da viagem! Não tava sabendo de nada, descobri hoje. Não é como se...
_Você não me deve uma explicação – me cortou, de novo.
_Linda, por favor.
_Não, quer saber?! DEVE, SIM! – aumentou o tom de voz, mudando de ideia de repente – COMO VOCÊ VAI ENTRAR NUMA PORRA DUM AVIÃO COM ELA, COM TUDO O QUE TÁ ACONTECENDO ENTRE A GENTE?? FALA SÉRIO, MANO, NÃO SEI O QUE CÊ ACHA QUE TÁ FAZENDO!
_Como “O QUE EU ACHO QUE TÔ FAZENDO”? É SÓ UMA PORRA DE UMA VIAGEM! – me irritei – NINGUÉM TÁ CASANDO, CACETE, EU VOU E EU VOLTO! É SÓ ISSO!
_AH! É ISSO QUE VOCÊ ACHA QUE É?! “SÓ” ISSO??
_E O QUE TEM DEMAIS?! – retruquei e aí respirei fundo, tentando me acalmar – Mia, escuta, ela me deu de presente a parada, meu. Eu vou fazer o quê?! DIZER NÃO?!
_Não. Não, não, você tá certa mesmo... – disse, com ironia – ...vai lá. Se diverte!
 
Àquela altura, eu sequer sabia por que estava brigando, passando as mãos compulsivamente no rosto, esfregando os olhos em agonia. Dando vexame na frente da estação do metrô, com o celular no ouvido e com o cigarro entre os dedos. Traguei mais uma vez, nervosa, soltando a fumaça em seguida. E aí tentei argumentar, com paciência:
 
_Eu não tô fazendo de propósito, Mia.
_...
_Não faz isso comigo, vai...
_EU QUE TÔ FAZENDO?? – ela se ofendeu – EU???  
_Mano, eu ganhei as passagens! Não foi planejado! Fiquei sabendo hoje de manhã, meu... E eu quero ir, Mia. Eu quero. Eu nunca fui, cara!
_E VOCÊ NÃO SE SENTE MAL, ENTÃO? – me provocou, perdendo a mão de novo – É ISSO? CÊ VAI MESMO VIAJAR COM A PORRA DA CLARA ENQUANTO ME COME DIA SIM, DIA NÃO?! VOCÊ NÃO SE SENTE NEM UM POUCO CULPADA??
_CLARO QUE ME SINTO CULPADA, MIA! CLARO! COMO VOCÊ ACHA QUE EU ME SINTO? – comecei a me irritar de verdade, brigando de volta – MAS EU AMO A CLARA, PORRA. E SIM, EU QUERO VIAJAR COM ELA! QUERO! CÊ QUER MESMO ENTRAR NESSAS? PORQUE SE QUER FALAR DO MEU RELACIONAMENTO, A GENTE PODE FALAR DO SEU TAMBÉM, INFERNO!
_Cê é muito cara de pau, puta merda.
_“Eu”, né? – retruquei, irônica – “Eu”.
 
Traguei duas últimas vezes – a segunda um tanto mais demorada –, já terminando o cigarro. E aí joguei a bituca na calçada, pisando na ponta ainda acesa, sem paciência. As pessoas passavam atrás de mim na rua e entre nós seguia o silêncio. Aquela conversa me tirou do sério. Cacete. Meti a mão no bolso, procurando pelo meu bilhete. Precisava chegar logo na locação, tinha mil coisas para fazer, ainda mais se ia pedir para sair mais cedo no dia seguinte, mas não queria desligar sem antes me resolver com a Mia.
 
Então, tentei me acalmar. Abaixando a cabeça para falar:
 
_Linda, por favor. Você sabe que não é de propósito... – repeti, suspirando – ...não tô tentando te machucar.
_Eu não disse que tá me machucando, não é isso...
 
De repente, me diverti, eis que surge o orgulho.
 
_...eu só não sabia que, q-que você ia. Foi inesperado. isso.
_Tá – ri quieta, achando graça.

fevereiro 11, 2013

Vinho & alfajores

_Não, mãe... mãe, escuta... – interrompi seu monólogo que já durava uns bons minutos, fumando um cigarro em frente à produtora com o celular colado no ouvido – Preciso falar com vocês. Escuta, eu vou tá fora no fim de semana.
_Como “fora”? Fora de onde?
_De São Paulo.
_Pra onde você vai? Você não vem mais no domingo?
_Não. Eu e a Clara, a gente... v-vai viajar. Desculpa não ter avisado, é que foi surpresa, só fiquei sabendo agora.
_Mas viajar pra onde? Eu já combinei com a sua avó, a gente encomendou o bolo, seu pai chamou a família inteira pra vir. Vocês não podem ir no outro?
_Não dá – e naquele instante, dei graças aos céus que a Clara me tinha dado a desculpa perfeita para não ir àquela reunião sem sentido de almoço com a minha família, tragando o cigarro já quase acabado na calçada suja da Brigadeiro – As passagens já tão compradas, mãe. Mas eu passo aí durante a semana e a gente janta ou faz alguma outra coisa, sei lá.
_Eu não acredito nisso! – bufou do outro lado da linha e então se recuperou, perguntando pela terceira vez o que eu estava evitando responder – Mas, finalmente, cês vão pra onde?
_A gente... vai p... p-pra Argentina.
_O QUÊ?!
_É. Buenos Aires – murmurei, já de olhos fechados, à espera do surto.
_VOCÊ PERDEU A CABEÇA?! NÃO!! VOCÊ NÃO VAI VOAR PRA FORA DO PAÍS, MINHA FILHA, SEM NEM SE PROGRAMAR DIREITO, ONDE ESSA MENINA VAI TE ENFIAR??? NEM PENSAR! VOCÊ LÁ TEM DINHEIRO PRA ISSO?!?
_Mãe...
_VOCÊ NUNCA SUBIU NUM AVIÃO NA SUA VIDA! ESSAS COISAS TÊM QUE SER PENSADAS ANTES, NÃO É SIMPLESMENTE PEGAR E IR, É OUTRO PAÍS! E SE ACONTECE ALGUMA COISA ENQUANTO VOCÊS TÃO LÁ, FILHA? AS DUAS, SOZINHAS... – ouvi-a afastar-se do telefone e chamar aos berros pelo meu pai, inconformada.
_Mãe... mãe! Calma.
_Me passa o telefone da Clara.
_Cê não vai falar com a Clara, sossega o facho! – eu ri, revirando os olhos – Não tem nada demais, meu. A Clá já foi um bilhão de vezes, todos os amigos dela são de lá! Olha, vai ficar tudo bem, a gente vai amanhã direto do trampo e volta no domingo. Vou fazer uma mochila hoje à noite...
_Ah, não sei. Não sei, não. Vê lá onde você vai se meter, hein, minha filha...
_Relaxa, mãe. Escuta... – soltei a fumaça e joguei a bituca adiante na calçada – ...preciso entrar aqui na produtora.
_Tá. Me liga hoje à noite, quero saber melhor dessa história...
_Tá, tá. Vou lá, tá? Beijo.
_Não vai aprontar você, hein?
_Não vou, meu – ri.
 
Ouvi sua voz diminuir, já afastando o celular do ouvido. E desliguei o telefone, entrando na produtora. Aí mandei uma mensagem para a Marina e então para o Fer – que, como todo ano, tinha ignorado meus pedidos e organizado uma comemoração com nossos amigos no fim de semana. A Clara me contara que foi convidada uns dias antes e ficou na dúvida se comentava sobre a viagem com ele, com receio de estragar a surpresa. Sendo justa, o Fernando era meio maria-do-bairro – tinha amigos demais e uma certa tendência à fofoca. Ele me respondeu quase imediatamente depois do meu SMS, rindo e admitindo a culpa pela festa. Eu sabia.
 
Antes de eu sequer chegar na minha mesa, o meu celular começou a vibrar com várias mensagens da minha ex também. “Ñ acredito q vc vai viajar!! alias q VCS vao viajar JUNTAS! Q LINDO!!!”, ela me escreveu de volta, empolgada, emendando um SMS que dizia “assim, achei uma afronta? achei. pq vc ñ mexia essa bunda pra ir nem na padaria cmg, sabe. c eh uma ridícula. To mto feliz por vc, mas vc é uma ridícula, rs”, meio em tom de revolta, meio brincando, e depois um “ai, mas BUENOS AIRES, flor! Nossa, ñ acredito!! vai ser demais, vc vai amar”. E por fim, completou com um: “boa viagemmmm pra vcs! :)” e eu ri sozinha daquele escândalo todo.
 
Era apenas uma questão de tempo agora para que a Mia ficasse sabendo – o que eu queria postergar o máximo que pudesse. Mas sabia que o Fer ia acabar contando, a não ser que eu especificamente pedisse para que não o fizesse. E eu obviamente não podia dar tanta bandeira assim. Melhor contar eu mesma, decidi. O problema é que, logo que me respondeu e antes que eu pudesse sequer terminar a minha lista de tarefas do dia, o Fer ligou para meia São Paulo avisando sobre o cancelamento da festa.
 
E a linha inevitavelmente cruzou Higienópolis.