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novembro 24, 2012

Ensemble rime avec désordre

_Não quero?
 
A encarei de volta. E a Mia deixou as suas mãos escorregarem de leve pelo sofá, se aproximando casualmente de mim.
 
_Acho que não... – provocou.
_Sei.
_Liga pro Gui, vai... – sugeriu baixinho, sorrindo – ...cancela.
_Não posso, Mia.
_Claro que pode.
_Não posso.
_Pode, sim.
_Não vou fazer isso, meu...
_Hum – deu de ombros e brincou – Se quiser, eu faço pra você...
 
E eu achei graça. “Se aquieta aí, vai”, resmunguei, ainda determinada em terminar meu jantar e dar o fora dali. Continuei comendo e a Mia se reajeitou no sofá, um tantinho mais perto de mim. Depois mais um tanto. Foi se aproximando até arrancar um sorriso inconformado de mim. “Mano”, a encarei de volta, “dá pra parar?”. Ela riu. E eu passei a mão no rosto, tentando manter a sanidade, me virando para continuar comendo. Mas aí, claro, a Mia chegou mais perto ainda. E meus olhos encontraram os seus, desta vez em silêncio.
 
Cacete.
 
Comecei a ficar tensa. E as suas mãos ardilosas tiraram o prato do meu colo, o largando na mesinha de centro e o substituiu com as suas pernas, as colocando sobre as minhas – cada vez mais descobertas naquela camiseta desgraçada, puta merda. Fiz um movimento para pegar de volta o prato, me curvando na direção da mesa – mas suspirei na metade do caminho, bloqueada pelas suas pernas. Não posso comer agora? É assim? Comecei a rir de novo. E a Mia arqueou a sobrancelha, testando até quando eu toleraria.
 
Encostei de novo contra o sofá e, sem pensar, pousei as mãos em seus tornozelos. Ela reparou nos meus dedos ali, acidentalmente sobre a sua pele tatuada, e sorriu. Com o cantinho da boca. A minha lasanha esfriava à distância. Maldição. A Mia se reacomodou mais uma vez, chegando mais perto ainda de mim. Aí se espichou, alcançando o meu celular, que estava largado do outro lado do meu quadril sobre o sofá.
 
_Que cê tá fazendo? – questionei, vendo-a mexer sorrateiramente nas teclas.
_Avisando que cê não vai...
_Ah, tá! – ri, esticando a mão para que me desse o telefone – Vai, Mia, pode parar de graça...
_Não se preocupa... – ela sorriu, digitando com a tela virada para si para que eu não visse – ...tá tudo sob controle.
_Mia...
_Relaxa, ninguém vai perceber. Tô escrevendo igual a você!
 
Ah! Essa eu quero ver, me diverti, apoiando a nuca no encosto do sofá. E estiquei mais enfaticamente a mão para que me entregasse a droga do celular. Ela mandou que eu esperasse, sinalizando que já estava terminando. “Cê não vai mandar isso”, a adverti, com uma das mãos ainda sobre suas pernas, “me dá o telefone, vai, Mia”. E ela suspirou, finalmente me entregando o aparelho.
 
_Que absurdo! – a encarei com desprezo, assim que li – Eu não falo assim!
_Claro que fala! Como não? Olha aí... – apontou para a mensagem, ainda aberta nas minhas mãos, rindo dos meus modismos – ...“foi mal”, “mano”, “uma parada aí”.
 
Balancei a cabeça, indignada. Besta. A Mia sorriu e então deitou levemente o corpo para trás, se apoiando sobre os cotovelos no sofá. Encarei as minhas mãos em sua perna, ao lado da pantera old school que ela tinha na canela. Uns centímetros de pele acima, vinha uma flor preta e então um escorpião; as pernas atravessadas sobre o meu colo e a cabeça caída para trás, à toa. Seus joelhos ostentavam uns hematomas roxos feios, já meio esverdeados, que só então eu reparei.
 
_E esse machucado todo, meu, o que aconteceu?
 
Passei os dedos sobre sua pele, carinhosamente. Ela sorriu.
 
_Ah. Foi a gente, aquele dia lá.
_A gente?!
_É...
 
Tirou as pernas de cima das minhas e se curvou para pegar o meu maço sobre a mesa, acendendo um cigarro sem pressa. Aí soprou a fumaça para o lado, concluindo na maior naturalidade, “...quando cê me comeu contra o sofá”.

novembro 23, 2012

[ ENCONTRO 2012 ]



3 ANOS DE BLOG!
...e a gente, claro, vai comemorar no BOTECO!

Encontro oficial de leitoras, escritora e sapatonas que quiserem vir. Em homenagem ao primeiro encontro, vai ser de novo no Ibotirama, bar de esquina conhecidíssimo da Augusta. No dia 8 de dezembro (sábado), teoricamente às 17h – mas está rolando uma enquete lá no Facebook, vão lá votar, rs.

Confirmem participação no evento no Facebook.

Meninas que não são de SP: tá rolando oferta de sofás lá no grupo do F.M., vejam se descolam uma vaga comigo ou com as outras paulistanas. Tragam os fígados preparados e os All Stars nº 44, deixem a decência em casa. Vai ser lindo.

Veeeeeeeenham!

novembro 15, 2012

“You met Mia yet?”

(Pulp Fiction)
 
Girei a maçaneta. E com suas mãos apoiadas no batente de madeira, lá estavam eles – os meus incontáveis meses de erro consciente. Batendo à porta, literalmente. A Mia sorriu para mim, num camisetão preto do Misfits que ela cortou as mangas para transformar em regata, meio vestido. Sem perceber a inconveniência da sua presença ali naquele instante, as pernas de fora e o coturno surrado nos pés, enquanto minha lasanha queimava no forno e eu metia a carteira no bolso de trás da calça, pronta para sair.
 
_O que... – ri, surpresa – ...cê tá fazendo aqui?
_Tô atrapalhando?
_Não. É que, ahm...
_Bom, cê disse que eu podia vir te visitar quando eu quisesse... – ela arqueou as sobrancelhas e os meus olhos se perderam por um segundo no seu sorriso, indefesos – ...não?
 
Droga.
 
Eu tinha mesmo dito. Dias antes, alcoolizada como um gambá e sem um pingo de autopreservação, no chão daquela sala, tagarelando sobre o quanto “claro” que ela “podia aparecer” quando bem entendesse. Mas que inferno, causei aquilo a mim mesma. Comecei a pensar em como me livrar daquela cilada. Tinha passado a semana inteira com a Clara e queria fazer as coisas direito – mas também sabia o que meu coração sentiu naquela madrugada com a Mia e não confiava inteiramente em mim mesma para ficar sozinha de novo assim com ela. Cacete.
 
_Na real, e-eu... – passei a mão na nuca e a olhei, parada ali espontaneamente, na porta do meu apartamento – ...tava pra sair, ia... só jantar ant...
_Ah, tudo bem... – ela piscou na minha direção e foi entrando – Te faço companhia!
 
Merda. Merda, merda, repeti para mim mesma. E empurrei a porta de volta, fechando a maçaneta atrás de mim, enquanto a Mia caminhava sala adentro. Isso não tá acontecendo. Largou a mochila sobre o sofá, como se viesse de algum outro lugar, e foi em direção à cozinha. Assim que a segui, o meu celular apitou em cima da mesa. Chequei a mensagem no visor – “é o Gui”, murmurei, “preciso me apressar”. Larguei o telefone de novo e fui até o fogão, abrindo a porta do forno.
 
_Hum, então cê tava mesmo de saída... – a Mia fez graça, sondando.
_Ainda tô, Mia.
 
Agachei na frente do forno para checar a lasanha. Ela me observou a alguns metros dela, e sorriu. Podia senti-la no cômodo, mesmo sem olhar para trás – a forma como se movia milimetricamente por cima do meu ombro. E caía a minha ficha agora de que, sem o Fernando no apartamento, as minhas desculpas para fugir se tornavam escassas. Fechei a porta do forno e coloquei a travessa quente sobre uma das bocas do fogão, erguendo-me do chão. A Mia ainda me observava, apoiada contra a mesa da cozinha. Perguntei se tinha fome e ela disse que já tinha comido na casa da Michelle.
 
_Hum – ri e alcancei um prato no armário sobre minha cabeça – Aquela que me adora?
_Essa.
_E você contou... – a olhei de relance, colocando um pedaço no prato – ...que vinha aqui?
 
A Mia sorriu, arqueando as sobrancelhas com os braços cruzados em frente ao corpo. Isso é um sim ou um não?, achei graça. Caminhei até a geladeira para pegar uma garrafa de Coca. E quando virei de novo, a Mia ainda não tinha respondido, encarando os próprios pés para não pensar a respeito. Comecei a rir e pensei na Marina, na bronca que tomei. “Entendi”, disse para ela, balançando a cabeça antes de irmos para sala. Nos sentamos no sofá, numa cumplicidade de quem nunca realmente se afastou. E eu comecei a comer.
 
Por trás de toda aquela conversa jogada fora, uma garfada atrás da outra, a real é que a sua presença me inquietava. Era estranho. Tê-la sentada ao meu lado, ali, tão abertamente no meu apartamento, em plena sexta-feira à noite. E como alguém que ainda sente coçar a perna que perdeu, sentia que a qualquer momento o Fer ia entrar naquela sala e nos flagrar. Ainda que o seu quarto estivesse vazio e todas as suas coisas tivessem sido levadas, em toda a sua impossibilidade, ainda era difícil me sentir totalmente confortável com a Mia ali.
 
E não é como se estivesse fazendo qualquer coisa errada – estava só comendo meu humilde ranguinho enquanto a Mia comentava, revoltada, sobre uns colegas de classe que viraram discípulos dum professor babaca no Mackenzie. Eu ria da sua indignação. Nada acontecia. Literalmente. Nada mesmo. O problema, com nós duas, é que estava sempre lá. Algo. Nas entrelinhas. Eu simplesmente não podia baixar a guarda.
 
E foi aí que ela moveu as pernas.
 
As ergueu em frente ao corpo, com os coturnos sobre o sofá, abraçando os joelhos. E num reflexo, o meu olhar escapou para o lado, notando aquele pouco pano todo. O tecido da camiseta escorregou pelas suas coxas e, juro, que não tinha porra de shorts nenhum por debaixo. Céus. Me arrependi imediatamente de tê-la deixado entrar. O meu descuido durou um segundo. Nem isso. Mas os olhos da Mia cruzaram com os meus, conforme eu desviava rapidamente o olhar de volta para o meu prato. E ela sorriu, interrompendo o que estava dizendo.
 
_Hum... – se divertiu – ...tô achando que você não quer sair, não.

novembro 13, 2012

Sumiço

“E ai, sapatao?? ta viva??”, o Gui me mandou na sexta, depois de eu não desgrudar da Clara por dias, apaixonadas e obsessivas, engolidas em nosso mundinho, como se precisássemos compensar todo tempo longe. Tinha acabado de responder um SMS do Du, confirmando a sua mudança no dia seguinte, quando recebi a mensagem do meu amigo lá pelas seis e pouco. Estava a caminho do metrô na saída do trabalho e digitei, achando graça – “bora fazer qqr coisa hj? avisa qdo tiver livre”.
 
Não me respondeu de imediato. Mas, duas estações e algumas quadras depois, cheguei em casa já sem intenção de ficar muito. Tomei um banho rápido e coloquei um pedaço de lasanha no forno para tapar o estômago. Depois voltei para o quarto para me trocar. Seja qual for a ocasião, melhor ficar pronta. Já estava terminando de fechar o cinto, por cima dum jeans e uma camiseta branca, quando a campainha tocou.
 
Mas que...?
 

novembro 11, 2012

[ CONTEÚDO EXCLUSIVO ]

AVISO: O próximo post, “Sucia”, foi escrito exclusivamente para o livro do Fucking Mia e não está disponível aqui.   
 
O livro do Fucking Mia está sendo preparado com muito carinho, em comemoração aos 10 anos de blog. O novo conteúdo está sendo escrito desde meados da pandemia e a ideia é lançar em breve! ♥ 
 
Se você quer ser avisada(o) sobre o lançamento do livro, deixe seu e-mail aqui:
 
 

novembro 10, 2012

Círculos

A quase uma hora e meia do fim do meu expediente no dia seguinte, eu já tinha lido a mensagem da Mia 354 vezes. Aproximadamente. E não sabia o que diabos fazer com o nó no meu estômago, toda vez, toda maldita vez que lia aquelas letras. “Chegamos em sp!”, lá pelas 16:20 uma mensagem da Clara piscou no meu celular, me puxando de volta para a realidade. Não tinha notícias dela desde sábado. E num instante, a coisa toda mudou. Me levantei da cadeira e sorri, já digitando – “onde vc ta? qro te ver”.
 
Numa pressa quase afobada, antes que ela me respondesse, caminhei até a sala da minha chefe para pedir para sair mais cedo. Inventei qualquer desculpa. E minutos depois, com a devida permissão, vazei. Por algum motivo, saber que a Clara estava de volta na cidade me fazia sentir como se tudo fosse ficar bem. Tentei não pensar muito nas minhas motivações, descendo a escada para pegar o metrô. E antes das cinco, já estava chegando em casa. Acendi um cigarro em frente ao meu prédio, sentada no meio fio, a esperando. Vem logo, meus olhos acompanhavam o trânsito, meus dedos ansiosos tamborilando contra o concreto.
 
Demorou uns minutos. Mas assim que vi ela descer do táxi do outro lado da rua, com uma mochilona nas costas e o cabelo preso num coque improvisado sobre a cabeça, com uns ares de quem tinha passado os últimos dez dias na estrada, sorrindo ao me ver, eu já tinha esquecido quem era a porra da Mia. Ansiosa para dar o primeiro beijo do ano na Clara. Que saudade desgraçada que eu tava, fiquei em pé, na mesma hora. E ela pulou no meu colo, me abraçando empolgada; o meu pé cedeu, meio tropeçando no meio fio. Caímos as duas juntas para trás – ela em cima de mim, rindo – e nos beijamos ali mesmo, esparramadas na calçada, conforme as pessoas passavam nos olhando feio.
 
De lá para o apartamento, foi um minuto. Nos agarrando no elevador. No corredor e porta adentro. Então a Clara atravessou a sala vazia, indo direto para a geladeira para tomar algo. Volta aqui. Fui atrás dela na cozinha e a vi tomando uma garrafa de suco direto no gargalo, nuns goles exagerados. Me aproximei, achando graça daquela sua sede toda. E peguei a garrafa para tomar um pouco também – “vai, me conta como foi sua viagem”.
 
_Nossa! – ela sorriu, limpando a boca com as costas da mão – É tão lindo lá, Bo! A gente tem que ir um dia...   
_Vamos, vamos.
 
A Clara deu dois passos para trás e pulou sentada em cima da pia, me puxando para perto dela. Encaixada entre as suas pernas, eu a beijei mais uma vez. E a minha linha de pensamento se perdeu, aos poucos, na sua língua. No jeito como nos movíamos juntas. Obcecada com a maneira como as minhas mãos se moldavam às suas coxas, à sua pele. “Puta merda”, sussurrei para ela, entre um beijo e outro, “como eu senti sua falta”. E como se reagissem às minhas palavras, os seus dedos foram logo abrindo a minha calça. Mas assim que tentei o mesmo, ela me segurou pelo punho.
 
_Meu... – ela riu – ...não dá, acabei de ficar menstruada.
_Eu não dou a mínima.

novembro 04, 2012

A porta aberta dos perigos

“Na verdade continuo
Sob a mesma condição
Distraindo a verdade
Enganando o coração”

(Pato Fu)

novembro 01, 2012

¡Oh my corazon!

Acabamos capotando. A Marina ficou com o lado da parede, descalça e ainda em seu vestido – apesar de eu ter oferecido uma camiseta minha. Um dos meus braços caía para fora do colchão, o meu rosto esmagado contra a mesa de cabeceira. Fazia talvez uns quatro, cinco anos que eu não dividia uma cama com a Marina. Nem se me esforçasse conseguia lembrar da última vez que dormimos juntas antes do fim do namoro. Nas poucas vezes em que fiquei na sua casa desde então, sempre deitei no sofá. Mas o conforto do seu braço ao redor de mim, agora, era o mesmo. Seus dedos apoiados na minha barriga, os seus pés descobertos contra os meus de meia. Me dava uma nostalgia boa – não amorosa ou nada assim, só conhecida.
 
A Marina era a minha âncora no mundo, não sei explicar.
 
Apaguei por algumas horas ao seu lado. A verdade é que talvez não teria conseguido fechar os olhos sem ela ali. Mas, então, o meu celular tocou. Estava a poucos centímetros da minha cabeça, fazendo a mesinha de cabeceira vibrar contra a minha cara, o que me despertou. Abri os olhos e senti a Marina se reacomodar ao meu lado – num reflexo inconsciente, soltou as mãos da minha cintura e se virou para o outro lado. Ergui a tela diante do meu rosto e tentei ler, sonolenta, vendo um SMS desfocado da Mia ali. Pisquei algumas vezes até conseguir enxergar melhor.
 
“Pqp”. Só essas três letras. Sem entender, digitei de volta – “pqp oq?”. E contrariando minhas próprias palavras, apenas horas depois de saírem da minha boca, o meu coração acelerou no peito quando a tela se acendeu de novo.
 
“vc <3”.

outubro 18, 2012

Ainda bem, ainda bem

Não subi até que a Marina chegasse. Esperei em frente ao prédio e sinalizei para o porteiro abrir a porta da garagem quando o carro dela se aproximou, a acompanhando até a antiga vaga do Fer. Naquela noite, conversamos por horas, a maior parte do tempo sobre o que ela estava vivendo com a Vivian. Tinha passado o fim de semana na casa dela e chegou na minha sem conseguir parar de sorrir. Vê-la tão bem assim me fazia feliz, me distraía dos meus fantasmas. “Cê tem que trazer ela aqui um dia”, murmurei, checando as horas no visor do celular, “pra eu conhecer”. Ela acenou com a cabeça e eu sorri, largando o telefone sobre a mesinha de cabeceira, deitando ao seu lado na cama.
 
Então a minha mente divagou. Podia sentir a ausência silenciosa do Fer ecoar pelo apartamento vazio. Minutos antes eu tinha levantado para pegar um copo d’água na cozinha. E o simples ato de ir até lá sozinha me induziu a uma bad incômoda, estúpida. Agora as mãos da minha ex abraçavam a minha barriga – e eu tentava empurrar a culpa que crescia dentro de mim.
 
_Foi... estranho, Má... – suspirei, afundada no travesseiro – ...deixar o Fer na casa dos pais dele hoje, vir pra cá...
_Eu imagino.
_Toda nossa vida, meu... – tentei falar e senti a tristeza escapar entre as palavras, escalando garganta acima contra meus esforços – ...toda lembrança que eu tenho, aqui ou de quando a gente morava em Santo Amaro, qualquer merda que fiz na minha vida, velho, ele tava sempre comigo. No quarto do lado ou na rua debaixo. E agora eu tenho que pegar uma porra de um ônibus que leva quarenta minutos para ver o Fer. O Fer, mano! É bizarro.
_Ei. Mas cês ainda vão se ver, linda... – ela me olhou e sorriu, apoiando a cabeça no meu ombro – Vai ser estranho agora, hoje, amanhã, mas logo cê vai se sentir melhor. E vocês vão se acostumar, sabe, até conseguirem mudar isso, achar algo que funcione melhor.
_É. Sei lá...
 
Eu gostava de ouvi-la falar. A Marina tinha o seu jeito calmo, paciente de me escutar e aconselhar. Apertando os braços ao meu redor como se pudesse carregar parte da dor. A tristeza, todavia, perdurava em meus pulmões, na minha voz.
 
_E-eu... eu podia ter feito tanta coisa diferente. Mas, não sei, e-eu... – os olhos do Fer naquela tarde voltaram ao fundo dos meus e eu me senti minha garganta apertar – ...eu só fiz merda. Merda atrás de merda. Eu fui a pior amiga que ele poderia ter. E, e não é justo que ele tenha que passar por essa porra, que seja ele quem tem que sair, ele tava tão triste, inferno, e eu não sabia o que fazer, como ajudar, sabe, e-eu é que devia tá me fodendo...
_Flor, não fala assim! – me repreendeu – Eu sei o quanto você ama o Fer e o quanto você tentou nesses últimos meses, como você ficou do lado dele. É uma situação complicada.
_É. Mas...
 
Ia retrucar e me calei, me sentindo culpada demais.
 
_“Mas” o quê?
_Nada.
_Linda? – a Marina insistiu, notando algo estranho – O que aconteceu?!
_Nada. Não quero falar sobre isso.
_Flor, não faz isso. Não guarda as coisas. Conversa comigo – pediu.
_E-eu... – respirei fundo, sentindo o peso devastador de cada palavra que estava prestes a confessar – ...f-fiquei com a Mia de novo, ontem.
_Com a Mia? ONTEM???
 
A Marina se levantou, sentando ao meu lado no colchão, como se não conseguisse processar aquela informação deitada. E aí me encarou, seus olhos me fuzilando, descrente. Inferno. “Foi sem pensar”, murmurei, na mesma hora. Quis afundar no colchão, sumir. Sem saber o que dizer, a Marina me pediu os óculos e eu os alcancei na mesa de cabeceira, lhe entregando. Os colocou, num suspiro desgostoso, como se precisasse olhar direito na minha cara de pau – e eu usei toda força que tinha dentro em mim para não virar o rosto, para encará-la de volta. Porque precisava ver a decepção nos seus olhos, enfrentar a verdade sobre mim mesma.
 
E lá estava ela, refletida.
 
_Na boa, eu não sei como você consegue. Ser assim, fazer essas coisas.
 
As suas palavras me atravessaram duramente. A ausência de surpresa na sua voz.
 
_Foi um erro.
_Foi?
_Claro que foi! A, a Mia que veio pra cima, meu... – me justifiquei, já sabendo que estava errada – ...e e-eu... eu gosto dela, porra, você sabe que, que eu... não sei. Não sei! Eu. Não. Sei. Tá? A, a gente tinha bebido e... – passei a mão no rosto, frustrada – ...não foi planejado, a g-gente... Argh!
_E a Clara?
_Não é assim, Má, isso não muda nada. Ontem foi, f-foi um erro... – garanti – ...eu tô com a Clá.
_Hum. Foi o que você disse da última vez, não foi?
 
Merda, tá.
 
_Foi. Mas, m-mas eu tô mesmo apaixonada pela Clara, a gent...
_E você não acha que ela tem direito de saber? – a Marina me interrompeu, sem paciência – Hein?!
_Acho. Mas é que e-ela, ela não entenderia... – senti o meu coração doer com a possibilidade de perdê-la – ...quer dizer, ela... diz que sim, mas eu sei que não. Nem a pau. Não a Mia. E eu não quero foder as coisas entre a gente. Não por uma noite, não por isso. E-eu sei o que parece, mas você tem que acreditar, Má. Eu amo mesmo a Clá, é com ela que eu quero ficar. É só que... – balancei a cabeça, confusa – ...às vezes, com a Mia, e-eu... não sei, eu não consigo evitar. Eu amei ela por, por tanto tempo e, e me fode demais a cabeça.
_Tudo bem. Mas não acho que a escolha seja só sua. Se eu estivesse no lugar da Clara, do Fer, eu ia querer saber, você não?
_Não é sempre tão simples assim.
_Céus...
_E-eu sei. Eu sei, tá? – me irritei comigo mesma – Nem eu suporto as coisas que eu tô dizendo. Mas eu não sei o que fazer, Marina!
_Escuta, vamos deixar uma coisa clara, não é um erro se continua acontecendo – sua voz ficou séria – E você precisa ser muito honesta consigo mesma sobre o que realmente foi e como você quer tratar as pessoas com quem você se importa. Se esforçar um pouco mais, sabe, não ser tão egoísta.
_Uau – deixei escapar um riso, ofendida – Valeu.
_Você sabe que é verdade. Eu não tô tentando ser escrota, flor, mas se você pensa que não tem problema só porque ninguém viu, se você acha que tudo bem sair por aí fazendo suas vontades contando que seja em segre...
_Eu não disse isso, Marina – a cortei.  
_Ótimo. Porque eu me recuso a aceitar que você queira ser essa pessoa de novo. As coisas mudaram, flor. Você tá num relacionamento. E não é porque você e a Mia se livraram uma vez, que tudo bem sair se pegando quando dá na telha. Você tem que tentar se lembrar, sabe, de como se sente depois, de como isso te destruiu, de como quase acabou com a sua amizade, de como afetou o relacionamento deles. É isso o que você quer para você e a Clara? Porque não dá para você continuar assim aí, querendo ter as duas coisas... – argumentou – ...ou alguém vai se machucar.
 
Suspirei, virando o rosto, os meus olhos inchados.
 
_E-eu... – hesitei – ...tô com a Clara.
_Espero que saiba o que vai fazer, flor.

outubro 11, 2012

O ninho

_Foi mal, demorei? – murmurei ao entrar no carro, o som do pisca-alerta tiquetaqueando no painel.
_Não, de boa...
 
Bati a porta e o Fer abaixou o freio de mão, saindo de novo com o carro. Meu estômago ainda formigando silenciosamente. Não demoramos muito para atravessar a cidade, era domingo e o trânsito paulistano deu uma trégua. Não levamos mais do que vinte minutos para chegar em Santo Amaro. O que não impediu, claro, que o pai do meu amigo nos recepcionasse com um comentário desagradável já de cara.
 
_Você disse que vinha na hora do almoço, Fernando – ele resmungou, abrindo o portão – São três e meia, sua mãe ficou esperando. Se já vai começar assim, a gente vai ter um problema...
 
O Fer não respondeu. Apenas bufou em silêncio do meu lado, sem que o velho ouvisse, conforme a gente tirava as amarras do colchão. O carro estava estacionado diretamente em frente à casa dos pais dele, numa rua calma do bairro. Descarregamos tudo em menos de meia hora e as pilhas de caixas se acumularam do lado de dentro.
 
Era estranho estar de volta ao antigo quarto do Fer, anos depois do fim do colégio. Ficamos parados, por alguns instantes, naquele cômodo vazio. Sem dizer nada. As caixas aglomeradas num canto, o sentimento de abandono no resto do quarto. O Fernando passou a mão na parte de trás da cabeça, escorregando os dedos entre os fios raspados. Visivelmente inquieto. Perguntei se queria ajuda para montar a estrutura da cama, sem querer deixá-lo sozinho, e ele topou – como quem não tem nada melhor para ocupar a cabeça.
 
Começamos a separar as vigas no chão, agachados. E o clima pesou. Era triste estar, estarmos ali depois de tanto tempo, de tudo. Olhei para cima, na direção dele, assim que começamos a montar o estrado. A ressaca enfraquecia os meus braços, encaixando peça a peça de madeira com certa dificuldade. Ele me ajudava, no lado oposto, sua expressão séria. O desgosto engasgado do peito. E eu quis desesperadamente o ter de volta no apartamento – nenhum de nós queria estar ali.
 
Arrumamos a estrutura da cama, trazendo o colchão para o quarto, sem dizer uma palavra. E ao final, sentamos para fumar um cigarro contra a parede. Esticamos as pernas no chão. Ele tirou o tênis, empurrando um pé noutro, e ficou apenas de meia. As primeiras tragadas foram ainda em silêncio. Eu observava o rodapé e o piso escuro de madeira, aquele espaço que encolhera com os anos, numa nostalgia desconfortável.
 
Aquele era o quarto onde ouvimos CDs de punk trasheira durante toda a nossa adolescência, onde fumamos maconha escondido tantas vezes. E onde falei para ele, pela primeira vez, que curtia minas. Moleque, com as pernas cruzadas e a cabeça baixa na minha frente, ele murmurou um – “pra valer?”. E eu disse que não sabia, que não tinha pensado direito a respeito. Muito tempo antes de fazer qualquer coisa a respeito. Agora, em outra realidade, com outras cabeças por completo sobre nossos ombros, dividíamos um cigarro sem falar o que tanto ele, quanto eu, queríamos de fato dizer um para o outro.
 
_V-vai ser estranho... – hesitei para começar, num sussurro relutante – ...sem v-você lá.
 
Eu falava baixo, quase para dentro. E o Fer me ouvia sem desviar o rosto do chão. Apertou os dedos ao redor do cigarro, apoiando o polegar entre os olhos. Respirando fundo, tentando engolir a tempestade que trovoava dentro dele. Nós dois éramos, provavelmente, as duas piores pessoas no mundo quando se tratava de expressar nossos sentimentos. Eu nunca dizia o quanto o amava, o quanto todos aqueles anos morando juntos me mudaram. Todo peso dele na minha vida. Você, porra, você mudou tudo. Você é o meu melhor amigo. E não o ter mais por perto todos os dias, de repente, me deixava insegura, me devastava mais do que eu era capaz de sequer entender naquele momento. Ainda assim, eu insisti:
 
_Eu sei... q-que a gente andou brigando esses tempos, que eu me afastei às vezes... – relutei em dizer, consciente de que o móvito por trás de todas as vezes que nos distanciamos nos últimos dois anos fora a Mia – ...mas, sei lá... e-eu... eu vou sentir sua falta... acho que não sei mais viver sem você no quarto do lado ou na rua debaixo, eu...
_Mano... – ele se reajeitou contra a parede e deu um trago, soltando a fumaça pro lado – ...não começa com essas bichices, velho, já... – os seus olhos marejaram, desconfortável– ...já t-tô na merda pra caralho, meu. Se logo você for...
_Hum, diz... – o empurrei com a lateral do corpo e forcei um sorriso, mudando o clima da conversa – ...cê vai chorar?
_É, vai brincando... – ele riu também, com os olhos vermelhos.
 
E eu enxuguei os meus. Porra.
 
Uma dor aguda torceu na minha garganta. Eu sabia que voltar para a casa dos pais, em especial o convívio com o velho, não eram fáceis para o Fer engolir àquela altura. Metendo o orgulho goela abaixo, na metade dos seus vinte anos. E conforme eu me despedia dele, já na porta, a certeza de que aquilo não era tão mais fácil para mim se concretizou, como um peso que há semanas eu vinha evitando, reprimindo dentro de mim, a cada passo que eu dava em direção ao ponto de ônibus. Numa vontade angustiada de não voltar para o apê sem ele.
 
Desci até o ponto duas ruas adiante, me sentindo estranha. Terrivelmente sozinha. Maldição, passei as mãos no rosto e acendi outro cigarro. Eram talvez sete, oito da noite e Santo Amaro estava deserta. Senti uma necessidade desesperada de estar com alguém. Mas a Clara estava a quilômetros de São Paulo e eu não podia ligar para a Mia, num senso distorcido de respeito pelo Fer. Incapaz de encarar o que eu tinha feito, quem me tornei. Então digitei o número da única outra pessoa que consegui pensar. E ela logo atendeu, a sua voz preocupada do outro lado da linha ao me ouvir chorar.
 
_O que aconteceu, flor?! – a Marina se alarmou.
_Dorme comigo hoje?