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dezembro 12, 2012

Pinheiros

Merda. Merda, merda, enfiei minhas coisas no bolso e saí para a rua, em direção ao ponto de táxi, já atrasada. A gravação tinha ido até tarde e eu precisava chegar no Largo da Batata em quinze minutos. Ia com a Clara na festa de uma amiga dela – uma tal de Natali que não conhecia. Peguei um táxi até Pinheiros e assim que desci, acendi um cigarro só para ter o que fazer com as mãos. A Clara ainda não estava lá. Argh. Mantive os olhos abertos, checando os bolsos com certa paranoia, enquanto tragava. Tinha sido assaltada a poucas quadras dali, uns anos antes, e sem qualquer motivo racional minha cabeça achava que ia acontecer de novo toda vez que estava nas redondezas.
 
_Cê não vinha a pé? – estranhei, assim que vi a Clara descer de um táxi também.
_Vinha. Mas, ah... – suspirou, ajeitando os ombros sob o meu braço – ...já tava tarde, achei melhor vir assim!
 
Abraçou o meu corpo e eu lhe dei um beijo rápido na testa, conforme andávamos para a rua da sua amiga. E é. É verdade que, no caminho até lá, hesitei sobre o que diabos estava fazendo com a minha vida, sobre os meus sentimentos. E o quanto era realmente capaz de lidar com aquela, ahm, situação. Ver a Mia sempre me bagunçava a cabeça, mas falar com a Marina mais cedo também me fez cair em mim. No caso, espatifada, bem no meio do meu caos emocional. E talvez aquele não fosse o melhor estado de espírito para me meter numa festa barulhenta na Sumidouro, não é?
 
Mas que se foda, virei dois shots de tequila assim que passamos pela porta e decidi que não – não ia me deixar levar pela minha própria confusão. Tão rápido a minha garganta parou de queimar, todavia, dose atrás de dose, logo percebi que talvez eu não estivesse tão no controle assim.

dezembro 11, 2012

Pacaembu

O problema é que, ao mesmo tempo, a Mia também não facilitava.
 
Quase cinco da tarde e lá estava eu, me desgastando numa gravação sem fim no estádio do Pacaembu, discutindo com uns quatro incompetentes ao mesmo tempo, quando ela me mandou mensagem. Estressada, peguei o celular entre um argumento e outro e olhei para o visor rapidamente – “ñ ta na hr dum cigarro?”, o SMS dizia. Como se lesse a minha mente. Horas antes, na minha última pausa, a Mia tinha me ligado e nós ficamos conversando por um tempo. Eu a diverti com as minhas reclamações sobre o buffet contratado pra gravação, que interpretou o meu “precisa ter opção vegetariana” como “que tal picar uma salada murcha de alface com meia rúcula”. Por que diabos não fazem uma porra dum macarrão? 
 
_Ô! – assobiei e chamei uma das minhas colegas, a uns metros dali, antes de me virar para a roda de pessoas que ainda discutiam – Gente, ó, resolve com ela aqui. Preciso dar uns 5!
 
Larguei a bucha na mão de outra assistente e fui em direção à saída, já procurando o número da Mia nas ligações recentes. Bati o maço desajeitadamente na perna, puxando um cigarro com a boca, conforme discava e atravessava o portão de entrada. E foi quando dei de cara com a Mia.
 
_O que... – sorri, na mesma hora, tirando o filtro da boca – ...o-o que cê tá fazendo aqui?
 
Ela sorriu de volta. De chinelo e vestida numa roupa de quem só saiu pra dar uma volta no bairro e que, puta merda, me dava uma vontade desgraçada de estar em casa com ela, vendo TV e dando uns beijos à toa no sofá, sabe? Meu corpo quase a podia sentir aninhada em mim. E como se pudesse me ouvir, ela aproximou e tirou a franja da minha cara, segurando o riso. Em uma das suas mãos, notei um saco pardo desses de padaria.
 
_Bom, eu tava com saudade. E né, imaginei que cê devia tá morrendo de fome, depois do fiasco mais cedo, então trouxe um lanche...
_Cê...
 
Deixei escapar mais um sorriso, sentindo meu coração encher.
 
_...cê não existe, meu.
 
Passei a mão no rosto, meio sem acreditar que ela estava mesmo ali. E de repente, me senti a garota mais feliz de toda São Paulo – ou sei lá, do Pacaembu. Enquanto os carros começavam a se engarrafar nas ruas ao redor de nós e a luz do sol ia ganhando um tom alaranjado. Puxei a Mia pela mão e fomos até a lateral do estádio, sentando num canto escondido, onde comi meu burguer vegano e fumamos um juntas.
 
Foram os melhores vinte minutos da semana inteira.

dezembro 10, 2012

0800-LESBOFOFOCA

_CÊ TÁ SAINDO COM A MIA DE NOVO?!! É sério isso?!?!
_Bom dia pra você também, ô educada! – resmunguei para a Marina, ao telefone.
 
Mal tinha pisado pra fora do chuveiro, plenas oito da manhã, com a água ainda pingando das minhas pernas e a minha ex-namorada já gritava comigo do outro lado da linha. Três dias depois da minha ida ao estúdio.
 
_Mas espera... – apoiei o telefone na pia e coloquei a chamada no viva-voz – Quem te falou que tô saindo com a Mia?
_Ah, então, É VERDADE?!?
_Você falou com a Thaís, meu?
_Não, não, ela falou com a Lê e a Lê me contou!
_Hum, sei. E foi divertido pra vocês? – resmunguei – Se meter na minha vida assim?!
_Ai, flor, a gente tá preocupada.
_Marina, não é como se...
_Meu, você não falou no começo do ano que “agora” TAVA COM A CLARA? – me interrompeu, a indignação vibrando na sua voz – COMO ASSIM VOCÊ TÁ SAINDO COM A MIA?? E POR QUE CÊ NÃO ME CONTOU??
_PORQUE SABIA QUE CÊ IA REAGIR ASSIM!
_Sinceramente... – ouvi ela respirar fundo – ...não sei nem o que falar pra você, de verdade. Cansei. Cansei de tentar entender você e essa menina!
isso, então? – reclamei, me enxugando com a toalha – Cê me ligou três vezes enquanto eu tava no banho pra me dar bronca?!
_Não! E-eu...
_Não?
_...eu já ia ligar para conversar de outra coisa, mas aí a Lê me mandou mensagem e eu até esqueci o que ia perguntar, meu, e-eu... – argumentou – ...eu não acredito que você não me falou!
_Tá, tá. Mas o que cê ia perguntar?
 
Peguei o telefone, já seca, e fui até o quarto. Aí vesti a primeira cueca preta que encontrei, enquanto escutava a Marina na linha.
 
_Era sobre o Fer. Ontem, meu chefe na redação comentou que o cara de T.I. da revista vai sair, perguntou se eu não conhecia alguém. Aí pensei em indicar o Fer! Ele já conseguiu alguma coisa?
_Que eu saiba, não... – disse, colocando uma regata também preta – ...vou mandar mensagem pra ele. Mas, porra, ia ser incrível!
_Ia? Não sei... – desdenhou – ...não sei o que você quer da sua vida agora, né, já que você tá COMENDO A NAMORADA DELE DE NOVO!
_Ai, Marina. Dá pra parar?!? – revirei os olhos, irritada – E olha, nem vem, que eu sei que o que realmente tá te incomodando não sou eu, não é a Mia, não é meu relacionamento com a Clara. É eu não ter te contado!
_Não é verdade! – contestou.
_É, SIM!
_Não, agora sério, linda, cê tem certeza do tá fazendo?
_Não, Má! Não tenho! Não tenho certeza de porra nenhuma – respondi, numa sinceridade exaltada – Mas eu também não sei que merda fazer, então...
_Mas você ama a Clara?
_Cê sabe que sim.
_E a Mia?
_...
_Você ama a Mia?
_E-eu...
_Céus. Cê tá apaixonada por ela, de novo, não tá?
_E-eu... – hesitei – ...eu preciso ir, Má. Tô atrasada pro trampo. Escuta, depois a gente se fala melhor, pode ser?
_Flor. Flor! – ela contestou antes que eu desligasse – Olha, cê não pode continuar com isso...
_Depois a gente conversa, tá? Beijo!
 
A interrompi, às pressas. Era difícil falar sobre os meus sentimentos assim, em voz alta. Se sequer tinha contado para a Marina – a Marina! – o que estava fazendo com a Mia nos últimos meses, que dirá confessar o que sentia por ela. Ou pela Clara. E todo o rolo emocional em que vinha me metendo deliberadamente. Não. Não dá. Parte de mim sabia que o primeiro sinal de que as coisas andam realmente mal é quando se começa a ocultar informação dos seus amigos – e era exatamente isso que eu estava fazendo. Evitava comentar porque, no fundo, não queria ouvir o que tinham a dizer, sabia o quanto ia me destruir por dentro.
 
Argh.

dezembro 08, 2012

I've exposed your lies

“…baby, the underneath’s no big surprise”
(Muse)
 
_Você vem, Bo?
_Não, não, vão vocês.
 
Pisquei rapidamente para a Clara e ela se virou para acompanhar a Ju do lado de fora, aproveitando a pausa para fumar um enquanto a Thaís trocava a agulha da máquina. Fiquei largada no sofá e minha amiga começou a procurar as tintas e as agulhas de preenchimento na gaveta duma bancada baixa. Já tinha terminado todo o contorno.
 
Àquela altura, já fazia umas duas horas desde que a Mia tinha ligado e eu não tinha checado meu celular desde então – apesar de tê-lo sentido vibrar mais algumas vezes. Temporariamente sozinha naquele sofá, tirei-o do bolso e vi mais uma chamada não atendida, junto com três mensagens não lidas da Mia. Era estranho. Ela nunca me ligava. Preocupada, abri minha caixa de entrada e li um “ME ATENDEEE” em caixa alta, seguido de “PFVRRRR CADE VCCC? PRECISO TE PERGUNTAR UMA COISA KKKK”. E sequer pretendia responder, sabia que a Clara estava logo ali, do lado de fora, mas aí li o terceiro SMS – “É URGENTE! A gnt ja fez rebuceteio???”.
 
Quê?!
 
Comecei a rir na mesma hora. E me afundei no sofá, sem conseguir me conter, digitando de volta: “ESSA eh sua pergunta importante?? rs”. O rádio tocava Muse ao fundo e, nem trinta segundos depois, chegou a resposta – “sim!!! :x pq?? vc ja fez???”. “C sabe do q vc ta falando?”, achei graça. “Ñ! kkkk to no bar aqui na rua debaixo do Mackenzie e uma sapata q estuda cmg tava falando q mandou ver no rebuceteio e eu fiquei curiosa kkkk”. Passei a mão no rosto, me divertindo. “Acho q vc ta achando q eh outra coisa, Mia, rs”, enviei e me pus a digitar a explicação. Antes que terminasse a mensagem, no entanto, chegou mais um SMS – “ñ eh sexo?? ela falou q foi dormir na casa duma mina la..”.
 
Estava quase gargalhando sozinha no sofá. Essa é a melhor conversa que já tive na vida, pensei. E expliquei, “eh uma gíria sapatao pra qdo vc pega alguem q sua ex ou sua amiga ja pegou”. “Ah, tipo talarico?”, a Mia pareceu decepcionada. “Ñ, ñ, talarico eh mais na maldade e o rebuceteio eh..inevitavel. pq a cena lesbica eh um ovo e td mundo ja se pegou rs, ñ tem como fugir, uma hr c acaba participando”. Passei a mão cara, tirando o meu cabelo bagunçado dos olhos para ler sua mensagem seguinte – “e c ja participou??”. “Ah, ja :P td mundo ja”. “Com qm?”. “Ah meu, sei la.. eu peguei a jessica, q pegou a thais, q pegou a le cmg, q hj pega a jessica tb e q ja pegou a marina, q eh minha ex, q ja pegou a clara... por ai vai, rs”, descrevi rindo.
 
_Com quem cê tá falando? – a Thaís questionou, do outro lado da sala.
 
Ergui os olhos e vi a minha amiga ali, me encarando de volta, como quem suspeita de algo, enquanto separava na bancada as cores que ia usar na tatuagem.
 
_Não, nada... – desconversei – ...c-com ninguém.
_Sei – retrucou – O mesmo “ninguém”?
_...
_Cê tá falando com a Mia, não tá?
 
Respirei fundo, sem responder à bronca gratuita, enfiando o celular de volta no bolso. E a Thaís observou os meus movimentos, também quieta. Quê, meu?!, me incomodei, se tem alguma coisa pra falar, fala logo. Ela se esticou para alcançar uma cerveja sobre a bancada e, então, continuou.
 
_Olha, eu não vou me meter... – resmungou, abrindo a latinha entre as pernas, com os antebraços apoiados nos joelhos, e aí olhou pela janela para ver se as garotas continuavam fumando – ...mas a Clara é uma puta mina da hora.
_Eu sei, porra, n...
_E eu pensaria bem antes de foder as coisas com ela... – me interrompeu, com certa seriedade – ...ainda mais se for com alguém que já te deixou tão na merda.
_Não é assim, meu.
_Então, como é? – deu um gole, indisposta com a minha desonestidade – Porque até onde eu sei, ela ainda namora seu amigo.
_Mano, a gente só tava trocando mensagem...
_Tá bom, então – se irritou.
_Qual é, Thaís?!
_Velho, só não quero ver você quebrando a cara de novo por essa mina... só isso. E eu sei que você ama a Clara, que não quer magoar ela...
_E-eu... – hesitei, sem saber o que responder direito, e aí esfreguei a mão no rosto – ...eu, eu sei. E eu não quero mesmo, porra, é só que... – me angustiei – ...inferno. Eu gosto dela, Thá. Eu... e-eu ainda gosto dela pra caralho e, e eu não sei o que fazer...
 
Nisso, ouvimos a porta abrir. E a Clara entrou junto com a Ju, rindo, interrompendo imediatamente as palavras que saíam da minha boca.

dezembro 07, 2012

Encontro às cegas

_Escuta... – a Thaís perguntou, do nada – Cê ainda tá com a Clara?
_Do que cê tá falando, mano?!
 
Estranhei, equilibrando o celular contra o ombro, enquanto assinava um orçamento e tentava despachar toda papelada que ainda tinha que entregar antes de ir embora naquela terça. Minha amiga parecia estar na rua, pelo som do outro lado da linha, e eu podia ouvir alguém rindo ao seu lado.
 
_Não é... – respondeu, tentando segurar o riso – ...é só que tava indo comprar comida agora e encontrei uma mina aqui, que comentou de você. E mano... Na moral, puta gata!
_Quê?!
_Pensei em apresentar vocês hoje, sabe, se cê tiver solteira... Ela morava na Argentina, sabe, fala espanhol, trabalha numa loja de música aqui perto e tem cabelo comprido, assim, um undercut... – foi listando, fazendo graça – ...uma tatuagem na linha do ombro.
_Sei... – comecei a rir.
_Ouvi dizer que ela gosta dumas trouxas igual você.
_Vai se foder...
_É sério, velho, acabou de me falar aqui que num resiste a uma sapatão ruim de sinuca.
_Olha, Thaís, cê nem vem cuspir no prato que comeu! – eu ri, revirando os olhos, e assinei mais uns papéis sem nem ver direito – Mas, agora sério, onde cês tão? Saio daqui uns quinze, vinte minutos, se pá...
_Tamo voltando pro estúdio, vou tatuar a Ju hoje. Cola lá!
_Bora.
 
Desliguei o telefone ainda rindo. A amizade da Thaís com a Clara era fundamentada quase exclusivamente em me zombar, a cada oportunidade que surgia. Trouxas. Me apressei para terminar o que faltava de trabalho e saí da produtora pouco antes das sete. A semana mal tinha começado e eu já estava cansada. Pelo menos agora, com o Du dividindo o apartamento comigo, já não precisava mais me forçar a tanta hora extra. Subi a rua até o metrô e fui em direção a Pinheiros para o meu date misterioso.
 
Quando cheguei no estúdio, uns quarenta minutos depois da ligação, a minha amiga estava debruçada sobre a sua namorada, tentando acertar um decalque nas suas costas. Ao lado delas, com as mãos apoiadas na maca, a Clara se inclinava para acompanhar o processo de perto. Numa regata branca que roubou de mim uns meses antes porque ficava larga e confortável no seu corpo, seu cabelo preso numa trança sobre o seu ombro, revelando uma tatuagem que tinha na nuca.
 
Fechei a porta atrás de mim e a Clara se virou, sorrindo ao me ver. Sorri de volta, caminhando até onde elas estavam. O estúdio tinha paredes pretas com desenhos e decalques colados por todo lado, um sofá grande e umas espadas de São Jorge em vasos pelos cantos. Todos os outros tatuadores já tinham ido embora, só restavam as três ali. A Thaís levantou brevemente a cabeça para me cumprimentar, enquanto fazia uns retoques de caneta no decalque, e a Ju ergueu a mão, sem poder se mover muito.  
 
_Hum... – me aproximei da Clara, fazendo graça – ...então é você que eu ia conhecer hoje?
_É – ela colocou os braços em volta do meu pescoço – Mas não sei, ouvi um papo aí que cê namora...
_Eu?! Não... – balancei a cabeça, na maior cara de pau – ...cê tá me confundindo.
_Ah, tô?
 
Ela riu e eu deslizei as mãos até suas coxas, a erguendo no meu colo num só movimento. E nos beijamos, ainda rindo, conforme ela cruzava as pernas ao redor do meu corpo. “Olha, se eu soubesse que cê era gata assim...”, cochichei, com a boca a centímetros da sua.  “Hum”, a Clara se divertia, me instigando, “me diz o que cê ia fazer”. A Thaís revirou os olhos ao longe, gritando na nossa direção:
 
_PODE PARAR. SEM BAIXARIA AQUI DENTRO, VOCÊS DUAS!
 
Nós a ignoramos. Os meus pés encontraram intuitivamente o caminho até o sofá no centro do estúdio, caindo junto com a Clara sobre as almofadas. E a Thaís começou a resmungar alto. A gente riu, se agarrando quase de propósito. Subi em cima da Clara e a apertei pela cintura, nuns beijos com gosto. “TEM CÂMERA AQUI DENTRO!”, minha amiga insistia, nos xingando. E a gente fez que não escutava. Entre um beijo e outro, senti o meu celular vibrar. Tirei ele do bolso, ainda entre as pernas da Clara, e olhei rapidamente no visor. Merda. Era a Mia ligando. Recusei a chamada, num reflexo rápido.
 
E guardei o telefone no bolso.

dezembro 06, 2012

Bons começos

Morar com o Du foi estranho nos primeiros dias. Aquilo era diferente de todas as vezes em que eu e o Fer cedemos o nosso sofá a algum amigo temporariamente sem teto – brigado com a namorada ou desistente de qualquer perspectiva de vida, o que fosse. Aquilo parecia mais permanente. E o meu cérebro precisava dum tempo para o associar à luz acesa quando entrava no apartamento. Na primeira noite em que voltei do trabalho, tomei um susto quando trombei com ele no meio da sala.
 
Já o Du, por sua vez, precisou de alguns dias para se acostumar com a minha aversão a calças, ou roupas em geral. Éramos dois estranhos num ninho, dividindo panelas e cômodos. Não demorou muito para que o Du conhecesse a outra garota que frequentava o meu quarto. A Clara veio no domingo e ele a cumprimentou com um sorriso no rosto, na sala, me olhando fixo em seguida. Eu sei o que cê tá pensando, o encarei de volta, mas juro que não é assim. E implorei com os olhos para que ele não comentasse nada. O Du apenas riu. No dia seguinte, quando nos encontramos sozinhos na cozinha, ele não me perguntou nada.
 
E tá – era para ter parado por aí.
 
Mas aí a Mia reapareceu na terça. Numa passada rápida por lá, antes de encontrar o Fer em Santo Amaro, sob o pretexto de me deixar a camiseta que emprestou no sábado. E a gente acabou se comendo contra a parede do quarto, de leve. A Clara veio na quinta e então ficou até sábado. Pouco antes dela ir para trabalhar, o Du saiu do quarto acompanhado dum cara que deve ter arranjado na Gambiarra. Nos trombamos no corredor. Ele olhou para mim e eu não sabia onde enfiar a minha cara de pau.
 
E sabe, eu bem queria poder culpar outra pessoa pelo que eu estava fazendo. Pelos meus erros, a minha calhordice. Mas a verdade é que não tinha nenhuma justificativa. Nenhuma porra de alívio moral. Nada. Era egoísta – e eu sabia. Sabia toda vez que procurava a Mia e sabia, semana atrás de semana, a cada vez que não contava para a Clara. Ou para o Fer. Era egoísta, sim, mas o egoísmo agora era outro. Não como outras vezes em que traí outras namoradas, anos antes, numa arrogância adolescente e entediada. Desta vez, não. Desta vez, o que eu queria era tempo.
 
Esse era o meu egoísmo.
 
E sequer era para ter durado tanto, eu é que perdi o controle. Passou um mês. Depois outro. E eu continuei, me metendo cada vez mais naquele buraco, com a lama até o pescoço e sem conseguir parar de cavar. Até chegar ao ponto em que falava com a Mia todo maldito dia, me deixando apaixonar de novo, mas sem conseguir imaginar a minha vida sem a Clara. Cacete. O meu coração estava uma bagunça. E eu enrolava, covardemente, sabendo que uma hora o buraco ia começar a desbarrancar.

dezembro 04, 2012

Leves

Ainda rindo, a Mia balançou a cabeça e disse que precisava ir ao banheiro, fugindo da perguntando. “Isso é um não?” – o Du achou graça, nos observando juntas no corredor.
 
_Isso é um “bem que ela gostaria” – a Mia zombou.
_Vai se foder!
 
Eu ri. Tá engraçadinha, é? E ela entrou no banheiro. Me virei para terminar de empurrar o maldito colchão com o Du. Não dormi o suficiente pra estar carregando isso, resmunguei mentalmente. Meu novo colega de apartamento se pôs, então, a organizar as suas coisas no antigo quarto do Fer e eu voltei sozinha para o corredor. Podia ouvir a água correndo na pia do banheiro. Caminhei até a porta entreaberta e espiei a Mia ali dentro, enquanto ela molhava o rosto – as pernas de fora numa camiseta minha que sempre disse que ia roubar, com a capa do “Power Never Die” do The Comes e uns furos de traça de tão velha.  
 
_Que foi? – a Mia perguntou, ao me notar pelo reflexo do espelho.
_Nada, só que... – sorri – ...cê fica bem assim.

dezembro 02, 2012

Uns não-relacionamentos

O som do meu celular me perturbou os ouvidos. Abri os olhos, sentindo minha cabeça pulsar pelas horas não dormidas. Uma das pernas da Mia estava entrelaçada na minha e os lençóis emaranhados entre nós, desconfortáveis, retorcidos contra a minha pele. O telefone ainda gritava e a Mia se moveu ao meu lado, inconsciente, afundando-se em meio aos seus próprios cabelos bagunçados no travesseiro que dividíamos. Demorei alguns segundos para me situar, o barulho também me incomodava.
 
Quem diabos tá lig...?
 
Sonolenta, olhei para o relógio e o visor marcava 8:03. Foi aí que caiu a ficha. Puta merda! O Du, caralho, saltei e tropecei para fora do colchão, desnorteada. Aparentemente a gente tinha dormido invertidas na cama, com o travesseiro jogado onde deveriam ficar os pés e os lençóis soltos. Meu cérebro não estava entendendo nada. Droga. O telefone seguia se esgoelando. Droga, droga. Alcancei-o na mesa de cabeceira:
 
_Alô, alô! – atendi, atrapalhada – Pronto. Oi. Desculpa!
_Bom dia... – o Du riu – Escuta, tô aqui embaixo. Tava tentando o interfone, mas ninguém aten...
_E-eu, eu sei, desculpa. É que fui dormir tarde ontem e, e capotei, não escutei, meu. Foi mal! Pode subir, eu... – esfreguei a mão no rosto, ainda desorientada, atropelando as minhas palavras – ...e-eu vou ligar na portaria pra te liberar, peraí!
 
Desliguei num suspiro, ainda azucrinada. Já estava quase largando o moleque com toda a mudança no meio da calçada da Frei Caneca. Grande primeira impressão, hein. Tirei o cabelo bagunçado da cara, tentando me concentrar. Tá, o que era mesmo que eu precisava fazer? Respirei fundo, confusa. Interfonar para a portaria, me lembrei, é isso. Ainda sem uma roupa no corpo, fui até a cozinha e liberei a entrada do “Eduardo”. Sabe-se-lá quanto tempo o coitado já estava esperando lá embaixo. Então abri a geladeira e dei um gole ou dois na garrafa de água, sentindo a minha boca seca. O dia estava ensolarado. Voltei para o quarto e vesti a primeira boxer que peguei na gaveta. A Mia seguia desmaiada na cama e eu senti uma vontade desgraçada de me afundar com ela ali e não fazer mais nada naquela manhã. Argh, não. Preciso botar uma roupa.
 
Coloquei uma camiseta larga, me resignando a admirar a Mia à distância. Aí a campainha tocou. O Du. Saí do quarto e atravessei a sala para abrir a porta. O coitado estava soterrado em malas e sacos amarrados uns nos outros. O cumprimentei, achando graça na desorganização, e ajudei a carregar tudo até o quarto do Fer. Meti as mesmas calças do dia anterior, largadas em frente ao sofá, e calcei um chinelo perto da porta para ajudar a pegar o que faltava no carro do amigo dele. Descemos com o elevador. E o tal amigo me estranhou – descabelada e sem sutiã naquela camiseta branca, em plena luz do dia. São peitos, cara, supera. Tiramos tudo que deu do carro. E antes que o amigo fosse embora, o Du se curvou sobre a janela aberta e o agradeceu com um beijo.
 
_E aí... – perguntei, me espremendo com ele e todas as tralhas no elevador – ...é seu namorado?
_Quem? O Caio?! – estranhou – Não.
_Não?!
_Bom... – o Du riu – ...não exatamente.
 
E aí eu entendi.
 
_Hum... – a porta do elevador abriu e empurramos o colchão e todo resto para o corredor – Então ele é o cara com carro?
_É. Mais ou menos isso...
 
Ele riu de novo e aquilo me fez gostar do Du – pelo que provavelmente eram os motivos errados. Carregamos o colchão até o apartamento, tentando não fazer barulho enquanto passávamos pelo corredor. Mas aquele diacho insistia em escorregar das minhas mãos e eu dava com o colchão entre os pés, tropeçando a cada dez centímetros. Ô inferno. Meus braços ainda sentindo o baque da noite anterior. Avançamos entre um xingo e outro meu. E quando já estávamos quase dentro do quarto do Fer, a Mia abriu a porta do meu. Nos observando ali no corredor.
 
_Te acordei?
 
Perguntei e ela negou com a cabeça, veio caminhando até mim e me deu um beijo rápido. Tinha os cabelos desarrumados e os pés descalços, com uma camiseta minha. O Du a cumprimentou à distância, nos assistindo do outro lado do colchão.
 
_É sua namorada?
 
Eu ri e eu encarei a Mia, arqueando as sobrancelhas.
 
_E aí, o que eu digo?

novembro 29, 2012

Ininterruptas

O que você tem, garota, que me desgraça a cabeça assim?
 
Não importava se eram meses ou apenas dias de abstinência. Eu ainda sentia a sua falta na minha boca. Nuns estragos à minha pele, à minha sanidade – fodendo contra o sofá, de novo, e na parede do corredor e no chão do meu quarto. O gosto da Mia me contaminava imediatamente, dominava meus sentidos. Eu perdia toda a razão. E não. Não era nada que faltava à Clara – não a procurava na Mia e certamente não buscava a Mia nela. Sabia diferenciar e as duas eram mundos à parte. Não sei explicar. Mas as queria de jeitos diferentes, se é que isso é possível. E empurrava a ressaca moral para o dia seguinte.
 
Me tornando tudo aquilo que não queria.
 
O que não antecipei desta vez, todavia, foram as horas. Todas aquelas horas na madrugada que se seguiu. Os minutos se passaram, contínuos, sem que precisássemos nos separar. Num desenrolar assim, com tempo, para o qual eu não estava preparada. Desde que aquela confusão começou, estávamos sempre nos escondendo – na sua casa, na minha, atrás de portas e em banheiros, pistas escuras. Mas agora não. Agora eu a beijava com toda a liberdade que o apartamento vazio e aquele tempo todo, de repente, nos permitiam. Com calma, com a porta aberta. Por horas, exaustas e sem conseguir realmente parar, subindo do chão para o meu colchão e continuando, com a boca invariavelmente uma na outra.
 
Aquela foi a primeira vez que a Mia passou a noite na minha cama. E não no quarto ao lado. O sol começou a nascer, atravessando a janela do quarto. Os meus dedos deslizavam pela sua pele, denunciando conhecer os seus contornos. E as nossas pálpebras já pesavam, sonolentas; a Mia encostou o seu corpo contra o meu. Quase adormecendo. E eu soube, naquele mesmo instante, que aquilo era um problema. Um baita problema. Sentindo cada centímetro da sua pele morna, abraçada ali comigo, enquanto observava um feixe de luz avançar no teto e o meu coração disparava no meu peito.
 
Aquilo não mudava nada – a Mia ainda estava com o Fer, eu sabia. E eu estava com a Clara. Mas, ainda assim, a segurei perto de mim. Como se por um instante pudesse ser sempre daquele jeito.
 
Foi diferente, não sei. Tê-la ali na minha cama, nos meus braços. No meu quarto. Numa intimidade que nunca tivemos. E isso me fazia querer ficar. Com um medo desgraçado das voltas erradas que o meu coração dava, agora, à beira do precipício, é, mas não a queria soltar. Não conseguia. Apegada à possibilidade do que poderia ser uma vida assim, juntas. Não sei. Não sei, porra. A, a gente sempre estava bêbada demais ou com, c-com tempo de menos para aproveitar momentos assim. E desta vez, não – estava tudo calmo. Sabe como? O suor secava sobre nossa pele e o cômodo era tomado pela brisa das seis da manhã, entrando sorrateiramente pela janela. Já quase fechando os olhos, a Mia ajeitou o rosto no meu ombro e apertou as mãos ao redor do meu corpo.
 
_Hum. Isso é gostoso... – murmurou.
_É...
_Por que a gente...
_Hum?!
_Por que não fizemos... isso... d-da outra vez?
_P-porque... – hesitei, sentindo meu peito apertar, porque você foi dormir com o Fernando naquela noite e eu, e-eu acordei sozinha, Mia, como tantas outras vezes, todas as vezes, pensei, mas sabia que a sua pergunta pouco tinha a ver com aquilo, com a verdade, despida de todas as ramificações racionais que normalmente teria, era mais uma vontade inconsciente de estarmos juntas do que de realmente saber, de ouvir o que já sabia da minha boca, e então me segurei; pois agora que a tinha nos meus braços, a real é que pouco me importava com quem dormíamos quando não estávamos uma com a outra, eu a queria ali, eu e ela, nós nos escolhíamos, de novo e de novo, e, por algum motivo, uma vez na vida, não respondi por impulso, notando as suas pálpebras se fecharem sobre o meu ombro, olhei por cima do travesseiro e o relógio marcava 6:07, preciso acordar em duas horas, puxei a Mia mais para perto e a abracei, com carinho – ...nada, vem. Vamos dormir, linda.

novembro 25, 2012

Vem então, caralho

Esfreguei a mão no rosto, desconcertada. Puta merda, respirei fundo.
 
Então olhei de volta para a Mia. Observando-a colocar aquela sua boca ao redor do cigarro, como se nada fosse. E, caralho. Não queria me deixar levar – não de novo –, mas quase conseguia sentir o seu calor ao redor dos meus dedos, numa lembrança nada silenciosa de dias antes. A sua respiração ofegante contra a mesma porra de sofá onde estávamos sentadas agora, a música se misturando aos gemidos, o som ensurdecedor do meu coração batendo no meu peito. Engoli seco. E senti a temperatura do meu corpo subir – “foi assim, é?”.
 
A Mia sorriu. E aí tirou o filtro da boca, me encarando de volta:
 
_Tinha esquecido como era com você...
 
Senti meu corpo negociar com a minha cabeça, começava a perder o foco. E olha, eu estava indo bem até então, não tinha qualquer intenção de me meter nessa quando abri a porta para aquele inferno de mulher, mas... porra.  
 
_Hum – apoiei a cabeça no encosto e perguntei, curiosa – E como que é comigo?
 
A Mia deixou um sorriso escapar no canto da sua boca. Eu já não conseguia tirar os olhos dela. Coloquei a mão sob minha própria camiseta, a deslizando lentamente pela minha barriga – numa vontade inconsciente de tocar a pele dela. Então a Mia se moveu na minha direção, deslizando os joelhos pelo sofá. Devagar. E eu sabia o que aconteceria a partir daí, inferno, assim como sabia dias antes quando o Fer foi dormir. Mas eu deixei, cacete. Deixei. E com o cigarro anda aceso entre os dedos, ela subiu no meu colo.
 
Se curvou sobre meu rosto, como quem ia me beijar – sem realmente o fazer. Com os antebraços apoiados no encosto atrás da minha cabeça, os seus lábios se entreabriram, me instigando. Filha da mãe. A boca a centímetros da minha, naquele ir e vir delicioso, sabe? Nuns segundos que pareciam só aumentar a expectativa de um beijo entre nós, criando tensão. A meio centímetro de mim, sussurrou no meu ouvido – “você sabe como”.
 
E sem tirar os olhos dela, eu comecei a abrir o meu cinto.