_Vem, porra... – a Clara sussurrava no meu ouvido.
Já vai. Minha
cabeça rodava. Três horas antes eu não conhecia ninguém naquela festa e agora
me entrosava com meia dúzia de sapatonas, em meio àquele caos ensurdecedor. Os
risos exagerados e as trombadas inertes, o ritmo frenético, numa inconsciência
alcóolica. Com avidez, as mãos da Clara me puxavam pela lateral da regata. E eu
tinha os meus dedos entremetidos na parte mais cheia das suas coxas, a sentindo
me apertar, enquanto a minha atenção se voltava toda para a conversa.
As outras nos observavam conforme eu tagarelava, uma babaquice
atrás da outra, como se em duas realidades concomitantes – ali, entre seis,
sete pessoas desconhecidas e sendo agarrada na lateral. A Clara subia pelo meu
pescoço, a música no ambiente aumentava progressivamente e o calor me fazia
suar cada dose de tequila que eu virava. Uma atrás da outra, elas continuavam
vindo. As perguntas também. Sequer sabia mais o que estava metendo garganta
abaixo. Ou narina acima. A
Clara me pedia para desacelerar e eu ignorava. Aí ouvia as garotas gritarem, aos risos, entre si, perdendo
trechos inteiros da conversa, meio atordoada. A decência tinha abandonado aquele
apartamento há pelo menos duas horas. Minha namorada se atracava em mim, com os
lábios esfomeados e as pernas inquietas. Ia me tirando do sério, se contorcendo
no meu colo – mas eu continuava falando e falando e falando, fora de mim.
_O câncer de São Paulo são essas porras desses alternativos de
merda, cara! Com dinheiro e um bando de piadinhas internas com os seus coleguinhas
de agência, vai se foder! Se acham originais pra caralho... – senti meu coração
disparar, conforme vomitava um resmungo atrás do outro e as outras riam – ...me
dá asco, mano. Asco! Acharem que a Augusta agora é isso, rolêzinho de
publicitário hétero, e as baladas aí cobrando setenta na porta, porra.
_Ah, não. Meu! Na agência que eu trampo é uma galera muito sussa... – uma das garotas rebateu.
_Mano... – pisquei na sua direção, a provocando – Silêncio aí,
vai! Ninguém te chamou pra defender sua classe!
_Silêncio você! – ela riu.
Aham, ela era exatamente o tipo de pessoa a quem
eu me referia, bêbada de vodka com suco de morango num vestido de 400 conto da Antix e meia tatuagem em linha fina no antebraço, dessas
roubadas do Tumblr.
_São todos uns merdas, cara... sem exceção... – a
interrompi e abaixei a cabeça, no segundo seguinte, sentindo minha pele
esquentar de dentro pra fora – ...mano, que porra, tá muito quente aqui.
Droga. Começava a
sentir a combinação me tirar a consciência. O coração acelerado, o ego
disparado. Fazia mais de um ano que eu não pegava tão pesado assim. Inferno. A Clara me persuadia, grudada
no meu pescoço, com a mão metida por debaixo da minha regata, enquanto eu
falava. E as minhas palavras se atropelavam, perdiam-se confusas, nuns lapsos
de puta-merda-essa-garota-sabe-o-que-tá-fazendo
antes que eu retomasse a minha linha de raciocínio e conseguisse voltar ao
que estava dizendo. E o que era mesmo? Uma das garotas me respondia, empolgada,
na ponta de um sofá do outro lado. Eu não calava a boca. Sequer sabia o que
estava dizendo mais, resmungando da gentrificação da Augusta, do aluguel
subindo, entre casos intermináveis, entre um cigarro e outro aceso, fazendo
graça com a minha boca suja e rindo das histórias das outras sapatonas, interagindo
meio irracionalmente, assim, sem nos
conhecer direito.
Os dedos da Clara subiam impacientes, se afundando na lateral do
meu corpo. Prestes a me deixar uma marca. Me beijava a nuca. E então deslizava
pelo meu rosto, interrompendo meus lábios com os seus. O que eu...?, me perdi na sua língua, de repente, sem nem chance de
pensar a respeito. Foi aí que perdi mesmo a noção do que estava
acontecendo. Afundei em seu gosto pelo que me pareceram minutos infindáveis
naquela poltrona. O que..., a beijava de volta, caralho. Sentia como se a gente fosse
se comer ali mesmo. E tinha a minha regata tirada em meio a desconhecidas naquela
sala lotada, as luzes apagadas, a agarrando naquela poltrona. Sentada no meu
colo, a Clara se pressionava contra o meu jeans, os meus peitos. E não entendia
como sequer saber como tínhamos começado aquilo. Cacete.
Alguém passou por trás da poltrona e nos deu um tapa na cabeça. A
Clara ergueu o dedo do meio, sem ver quem era, me beijando, incansável. Eu a
mordia entre seus beijos, sem dar a mínima para o que acontecia além do alcance
das minhas mãos. Erguendo seu vestido
até a sua cintura. A segunda pessoa passou, nos provocando, e a Clara
revirou os olhos – desmontou do meu colo, de uma só vez, e me puxou pelo
passador do cinto através da sala. Até o corredor. Aí nos enfiamos às agressões
no quarto da tal da Natali. E transamos na cama da garota, sobre a
colcha, contra o armário, sabe-se lá,
só restavam flashes na minha memória e hematomas pelo meu corpo. Nuns estranhos
espasmos de consciência.
Quarenta, cinquenta minutos depois, não sei, saímos de lá descabeladas
e amarrotadas. E cruzamos caminho com a anfitriã, que nitidamente já não ia com
a minha cara. Ela segurou a Clara pelo braço. “Você quer me explicar o q...”,
ouvi apenas o começo da frase emputecida, conforme seguia adiante para me
sentar no sofá. Com os peitos ainda de fora, sentindo a minha cabeça doer. Não sabia
direito o que fazer com as mãos, as pernas. Soltei o corpo todo contra o
encosto, afundando-me ali, minha cabeça rodando. Não tinha comido nada o dia
inteiro além de meia salada no set e o hambúrguer que a Mia me levou às
5 da tarde. Talvez não tenha sido a melhor estratégia, é, encher o cu de
pó e bebida na minha condição, mas... sabe quando cê tá na merda e começa a
implorar pra dar um ruim tão grande que te tire do lugar? Pois é.
Peguei o celular em mãos, com certa dificuldade. Eram 2:13. O
visor marcava os números numa luz forte que me incomodava os olhos, junto com uma
mensagem não lida do Fernando. A gente tinha trocado ideia umas horas antes,
quando eu tava no táxi, sobre o lance da Marina. Mas eu não tinha visto nada
depois disso. Abri o SMS – “mas sdds,
mano. Me liga de vz em qdo, porra!”.
_Hum... – ouvi ao meu lado – ...quem é essa “Fer” aí?
_Hein?! – ergui a cabeça sem entender e notei uma das garotas que estava
na roda antes, com uma camisa quase transparente e um black – Como é?
_Eu perguntei... “quem é “Fer”?
_Por... – estranhei a pergunta, ainda chapada; aí a observei por
um instante, a forma como me olhava e, caralho, preciso parar isso por aqui – ...que?
_Curiosidade. De saber quem ganhou esse sorriso aí...