- »

dezembro 08, 2012

I've exposed your lies

“…baby, the underneath’s no big surprise”
(Muse)
 
_Você vem, Bo?
_Não, não, vão vocês.
 
Pisquei rapidamente para a Clara e ela se virou para acompanhar a Ju do lado de fora, aproveitando a pausa para fumar um enquanto a Thaís trocava a agulha da máquina. Fiquei largada no sofá e minha amiga começou a procurar as tintas e as agulhas de preenchimento na gaveta duma bancada baixa. Já tinha terminado todo o contorno.
 
Àquela altura, já fazia umas duas horas desde que a Mia tinha ligado e eu não tinha checado meu celular desde então – apesar de tê-lo sentido vibrar mais algumas vezes. Temporariamente sozinha naquele sofá, tirei-o do bolso e vi mais uma chamada não atendida, junto com três mensagens não lidas da Mia. Era estranho. Ela nunca me ligava. Preocupada, abri minha caixa de entrada e li um “ME ATENDEEE” em caixa alta, seguido de “PFVRRRR CADE VCCC? PRECISO TE PERGUNTAR UMA COISA KKKK”. E sequer pretendia responder, sabia que a Clara estava logo ali, do lado de fora, mas aí li o terceiro SMS – “É URGENTE! A gnt ja fez rebuceteio???”.
 
Quê?!
 
Comecei a rir na mesma hora. E me afundei no sofá, sem conseguir me conter, digitando de volta: “ESSA eh sua pergunta importante?? rs”. O rádio tocava Muse ao fundo e, nem trinta segundos depois, chegou a resposta – “sim!!! :x pq?? vc ja fez???”. “C sabe do q vc ta falando?”, achei graça. “Ñ! kkkk to no bar aqui na rua debaixo do Mackenzie e uma sapata q estuda cmg tava falando q mandou ver no rebuceteio e eu fiquei curiosa kkkk”. Passei a mão no rosto, me divertindo. “Acho q vc ta achando q eh outra coisa, Mia, rs”, enviei e me pus a digitar a explicação. Antes que terminasse a mensagem, no entanto, chegou mais um SMS – “ñ eh sexo?? ela falou q foi dormir na casa duma mina la..”.
 
Estava quase gargalhando sozinha no sofá. Essa é a melhor conversa que já tive na vida, pensei. E expliquei, “eh uma gíria sapatao pra qdo vc pega alguem q sua ex ou sua amiga ja pegou”. “Ah, tipo talarico?”, a Mia pareceu decepcionada. “Ñ, ñ, talarico eh mais na maldade e o rebuceteio eh..inevitavel. pq a cena lesbica eh um ovo e td mundo ja se pegou rs, ñ tem como fugir, uma hr c acaba participando”. Passei a mão cara, tirando o meu cabelo bagunçado dos olhos para ler sua mensagem seguinte – “e c ja participou??”. “Ah, ja :P td mundo ja”. “Com qm?”. “Ah meu, sei la.. eu peguei a jessica, q pegou a thais, q pegou a le cmg, q hj pega a jessica tb e q ja pegou a marina, q eh minha ex, q ja pegou a clara... por ai vai, rs”, descrevi rindo.
 
_Com quem cê tá falando? – a Thaís questionou, do outro lado da sala.
 
Ergui os olhos e vi a minha amiga ali, me encarando de volta, como quem suspeita de algo, enquanto separava na bancada as cores que ia usar na tatuagem.
 
_Não, nada... – desconversei – ...c-com ninguém.
_Sei – retrucou – O mesmo “ninguém”?
_...
_Cê tá falando com a Mia, não tá?
 
Respirei fundo, sem responder à bronca gratuita, enfiando o celular de volta no bolso. E a Thaís observou os meus movimentos, também quieta. Quê, meu?!, me incomodei, se tem alguma coisa pra falar, fala logo. Ela se esticou para alcançar uma cerveja sobre a bancada e, então, continuou.
 
_Olha, eu não vou me meter... – resmungou, abrindo a latinha entre as pernas, com os antebraços apoiados nos joelhos, e aí olhou pela janela para ver se as garotas continuavam fumando – ...mas a Clara é uma puta mina da hora.
_Eu sei, porra, n...
_E eu pensaria bem antes de foder as coisas com ela... – me interrompeu, com certa seriedade – ...ainda mais se for com alguém que já te deixou tão na merda.
_Não é assim, meu.
_Então, como é? – deu um gole, indisposta com a minha desonestidade – Porque até onde eu sei, ela ainda namora seu amigo.
_Mano, a gente só tava trocando mensagem...
_Tá bom, então – se irritou.
_Qual é, Thaís?!
_Velho, só não quero ver você quebrando a cara de novo por essa mina... só isso. E eu sei que você ama a Clara, que não quer magoar ela...
_E-eu... – hesitei, sem saber o que responder direito, e aí esfreguei a mão no rosto – ...eu, eu sei. E eu não quero mesmo, porra, é só que... – me angustiei – ...inferno. Eu gosto dela, Thá. Eu... e-eu ainda gosto dela pra caralho e, e eu não sei o que fazer...
 
Nisso, ouvimos a porta abrir. E a Clara entrou junto com a Ju, rindo, interrompendo imediatamente as palavras que saíam da minha boca.

dezembro 07, 2012

Encontro às cegas

_Escuta... – a Thaís perguntou, do nada – Cê ainda tá com a Clara?
_Do que cê tá falando, mano?!
 
Estranhei, equilibrando o celular contra o ombro, enquanto assinava um orçamento e tentava despachar toda papelada que ainda tinha que entregar antes de ir embora naquela terça. Minha amiga parecia estar na rua, pelo som do outro lado da linha, e eu podia ouvir alguém rindo ao seu lado.
 
_Não é... – respondeu, tentando segurar o riso – ...é só que tava indo comprar comida agora e encontrei uma mina aqui, que comentou de você. E mano... Na moral, puta gata!
_Quê?!
_Pensei em apresentar vocês hoje, sabe, se cê tiver solteira... Ela morava na Argentina, sabe, fala espanhol, trabalha numa loja de música aqui perto e tem cabelo comprido, assim, um undercut... – foi listando, fazendo graça – ...uma tatuagem na linha do ombro.
_Sei... – comecei a rir.
_Ouvi dizer que ela gosta dumas trouxas igual você.
_Vai se foder...
_É sério, velho, acabou de me falar aqui que num resiste a uma sapatão ruim de sinuca.
_Olha, Thaís, cê nem vem cuspir no prato que comeu! – eu ri, revirando os olhos, e assinei mais uns papéis sem nem ver direito – Mas, agora sério, onde cês tão? Saio daqui uns quinze, vinte minutos, se pá...
_Tamo voltando pro estúdio, vou tatuar a Ju hoje. Cola lá!
_Bora.
 
Desliguei o telefone ainda rindo. A amizade da Thaís com a Clara era fundamentada quase exclusivamente em me zombar, a cada oportunidade que surgia. Trouxas. Me apressei para terminar o que faltava de trabalho e saí da produtora pouco antes das sete. A semana mal tinha começado e eu já estava cansada. Pelo menos agora, com o Du dividindo o apartamento comigo, já não precisava mais me forçar a tanta hora extra. Subi a rua até o metrô e fui em direção a Pinheiros para o meu date misterioso.
 
Quando cheguei no estúdio, uns quarenta minutos depois da ligação, a minha amiga estava debruçada sobre a sua namorada, tentando acertar um decalque nas suas costas. Ao lado delas, com as mãos apoiadas na maca, a Clara se inclinava para acompanhar o processo de perto. Numa regata branca que roubou de mim uns meses antes porque ficava larga e confortável no seu corpo, seu cabelo preso numa trança sobre o seu ombro, revelando uma tatuagem que tinha na nuca.
 
Fechei a porta atrás de mim e a Clara se virou, sorrindo ao me ver. Sorri de volta, caminhando até onde elas estavam. O estúdio tinha paredes pretas com desenhos e decalques colados por todo lado, um sofá grande e umas espadas de São Jorge em vasos pelos cantos. Todos os outros tatuadores já tinham ido embora, só restavam as três ali. A Thaís levantou brevemente a cabeça para me cumprimentar, enquanto fazia uns retoques de caneta no decalque, e a Ju ergueu a mão, sem poder se mover muito.  
 
_Hum... – me aproximei da Clara, fazendo graça – ...então é você que eu ia conhecer hoje?
_É – ela colocou os braços em volta do meu pescoço – Mas não sei, ouvi um papo aí que cê namora...
_Eu?! Não... – balancei a cabeça, na maior cara de pau – ...cê tá me confundindo.
_Ah, tô?
 
Ela riu e eu deslizei as mãos até suas coxas, a erguendo no meu colo num só movimento. E nos beijamos, ainda rindo, conforme ela cruzava as pernas ao redor do meu corpo. “Olha, se eu soubesse que cê era gata assim...”, cochichei, com a boca a centímetros da sua.  “Hum”, a Clara se divertia, me instigando, “me diz o que cê ia fazer”. A Thaís revirou os olhos ao longe, gritando na nossa direção:
 
_PODE PARAR. SEM BAIXARIA AQUI DENTRO, VOCÊS DUAS!
 
Nós a ignoramos. Os meus pés encontraram intuitivamente o caminho até o sofá no centro do estúdio, caindo junto com a Clara sobre as almofadas. E a Thaís começou a resmungar alto. A gente riu, se agarrando quase de propósito. Subi em cima da Clara e a apertei pela cintura, nuns beijos com gosto. “TEM CÂMERA AQUI DENTRO!”, minha amiga insistia, nos xingando. E a gente fez que não escutava. Entre um beijo e outro, senti o meu celular vibrar. Tirei ele do bolso, ainda entre as pernas da Clara, e olhei rapidamente no visor. Merda. Era a Mia ligando. Recusei a chamada, num reflexo rápido.
 
E guardei o telefone no bolso.

dezembro 06, 2012

Bons começos

Morar com o Du foi estranho nos primeiros dias. Aquilo era diferente de todas as vezes em que eu e o Fer cedemos o nosso sofá a algum amigo temporariamente sem teto – brigado com a namorada ou desistente de qualquer perspectiva de vida, o que fosse. Aquilo parecia mais permanente. E o meu cérebro precisava dum tempo para o associar à luz acesa quando entrava no apartamento. Na primeira noite em que voltei do trabalho, tomei um susto quando trombei com ele no meio da sala.
 
Já o Du, por sua vez, precisou de alguns dias para se acostumar com a minha aversão a calças, ou roupas em geral. Éramos dois estranhos num ninho, dividindo panelas e cômodos. Não demorou muito para que o Du conhecesse a outra garota que frequentava o meu quarto. A Clara veio no domingo e ele a cumprimentou com um sorriso no rosto, na sala, me olhando fixo em seguida. Eu sei o que cê tá pensando, o encarei de volta, mas juro que não é assim. E implorei com os olhos para que ele não comentasse nada. O Du apenas riu. No dia seguinte, quando nos encontramos sozinhos na cozinha, ele não me perguntou nada.
 
E tá – era para ter parado por aí.
 
Mas aí a Mia reapareceu na terça. Numa passada rápida por lá, antes de encontrar o Fer em Santo Amaro, sob o pretexto de me deixar a camiseta que emprestou no sábado. E a gente acabou se comendo contra a parede do quarto, de leve. A Clara veio na quinta e então ficou até sábado. Pouco antes dela ir para trabalhar, o Du saiu do quarto acompanhado dum cara que deve ter arranjado na Gambiarra. Nos trombamos no corredor. Ele olhou para mim e eu não sabia onde enfiar a minha cara de pau.
 
E sabe, eu bem queria poder culpar outra pessoa pelo que eu estava fazendo. Pelos meus erros, a minha calhordice. Mas a verdade é que não tinha nenhuma justificativa. Nenhuma porra de alívio moral. Nada. Era egoísta – e eu sabia. Sabia toda vez que procurava a Mia e sabia, semana atrás de semana, a cada vez que não contava para a Clara. Ou para o Fer. Era egoísta, sim, mas o egoísmo agora era outro. Não como outras vezes em que traí outras namoradas, anos antes, numa arrogância adolescente e entediada. Desta vez, não. Desta vez, o que eu queria era tempo.
 
Esse era o meu egoísmo.
 
E sequer era para ter durado tanto, eu é que perdi o controle. Passou um mês. Depois outro. E eu continuei, me metendo cada vez mais naquele buraco, com a lama até o pescoço e sem conseguir parar de cavar. Até chegar ao ponto em que falava com a Mia todo maldito dia, me deixando apaixonar de novo, mas sem conseguir imaginar a minha vida sem a Clara. Cacete. O meu coração estava uma bagunça. E eu enrolava, covardemente, sabendo que uma hora o buraco ia começar a desbarrancar.

dezembro 04, 2012

Leves

Ainda rindo, a Mia balançou a cabeça e disse que precisava ir ao banheiro, fugindo da perguntando. “Isso é um não?” – o Du achou graça, nos observando juntas no corredor.
 
_Isso é um “bem que ela gostaria” – a Mia zombou.
_Vai se foder!
 
Eu ri. Tá engraçadinha, é? E ela entrou no banheiro. Me virei para terminar de empurrar o maldito colchão com o Du. Não dormi o suficiente pra estar carregando isso, resmunguei mentalmente. Meu novo colega de apartamento se pôs, então, a organizar as suas coisas no antigo quarto do Fer e eu voltei sozinha para o corredor. Podia ouvir a água correndo na pia do banheiro. Caminhei até a porta entreaberta e espiei a Mia ali dentro, enquanto ela molhava o rosto – as pernas de fora numa camiseta minha que sempre disse que ia roubar, com a capa do “Power Never Die” do The Comes e uns furos de traça de tão velha.  
 
_Que foi? – a Mia perguntou, ao me notar pelo reflexo do espelho.
_Nada, só que... – sorri – ...cê fica bem assim.

dezembro 02, 2012

Uns não-relacionamentos

O som do meu celular me perturbou os ouvidos. Abri os olhos, sentindo minha cabeça pulsar pelas horas não dormidas. Uma das pernas da Mia estava entrelaçada na minha e os lençóis emaranhados entre nós, desconfortáveis, retorcidos contra a minha pele. O telefone ainda gritava e a Mia se moveu ao meu lado, inconsciente, afundando-se em meio aos seus próprios cabelos bagunçados no travesseiro que dividíamos. Demorei alguns segundos para me situar, o barulho também me incomodava.
 
Quem diabos tá lig...?
 
Sonolenta, olhei para o relógio e o visor marcava 8:03. Foi aí que caiu a ficha. Puta merda! O Du, caralho, saltei e tropecei para fora do colchão, desnorteada. Aparentemente a gente tinha dormido invertidas na cama, com o travesseiro jogado onde deveriam ficar os pés e os lençóis soltos. Meu cérebro não estava entendendo nada. Droga. O telefone seguia se esgoelando. Droga, droga. Alcancei-o na mesa de cabeceira:
 
_Alô, alô! – atendi, atrapalhada – Pronto. Oi. Desculpa!
_Bom dia... – o Du riu – Escuta, tô aqui embaixo. Tava tentando o interfone, mas ninguém aten...
_E-eu, eu sei, desculpa. É que fui dormir tarde ontem e, e capotei, não escutei, meu. Foi mal! Pode subir, eu... – esfreguei a mão no rosto, ainda desorientada, atropelando as minhas palavras – ...e-eu vou ligar na portaria pra te liberar, peraí!
 
Desliguei num suspiro, ainda azucrinada. Já estava quase largando o moleque com toda a mudança no meio da calçada da Frei Caneca. Grande primeira impressão, hein. Tirei o cabelo bagunçado da cara, tentando me concentrar. Tá, o que era mesmo que eu precisava fazer? Respirei fundo, confusa. Interfonar para a portaria, me lembrei, é isso. Ainda sem uma roupa no corpo, fui até a cozinha e liberei a entrada do “Eduardo”. Sabe-se-lá quanto tempo o coitado já estava esperando lá embaixo. Então abri a geladeira e dei um gole ou dois na garrafa de água, sentindo a minha boca seca. O dia estava ensolarado. Voltei para o quarto e vesti a primeira boxer que peguei na gaveta. A Mia seguia desmaiada na cama e eu senti uma vontade desgraçada de me afundar com ela ali e não fazer mais nada naquela manhã. Argh, não. Preciso botar uma roupa.
 
Coloquei uma camiseta larga, me resignando a admirar a Mia à distância. Aí a campainha tocou. O Du. Saí do quarto e atravessei a sala para abrir a porta. O coitado estava soterrado em malas e sacos amarrados uns nos outros. O cumprimentei, achando graça na desorganização, e ajudei a carregar tudo até o quarto do Fer. Meti as mesmas calças do dia anterior, largadas em frente ao sofá, e calcei um chinelo perto da porta para ajudar a pegar o que faltava no carro do amigo dele. Descemos com o elevador. E o tal amigo me estranhou – descabelada e sem sutiã naquela camiseta branca, em plena luz do dia. São peitos, cara, supera. Tiramos tudo que deu do carro. E antes que o amigo fosse embora, o Du se curvou sobre a janela aberta e o agradeceu com um beijo.
 
_E aí... – perguntei, me espremendo com ele e todas as tralhas no elevador – ...é seu namorado?
_Quem? O Caio?! – estranhou – Não.
_Não?!
_Bom... – o Du riu – ...não exatamente.
 
E aí eu entendi.
 
_Hum... – a porta do elevador abriu e empurramos o colchão e todo resto para o corredor – Então ele é o cara com carro?
_É. Mais ou menos isso...
 
Ele riu de novo e aquilo me fez gostar do Du – pelo que provavelmente eram os motivos errados. Carregamos o colchão até o apartamento, tentando não fazer barulho enquanto passávamos pelo corredor. Mas aquele diacho insistia em escorregar das minhas mãos e eu dava com o colchão entre os pés, tropeçando a cada dez centímetros. Ô inferno. Meus braços ainda sentindo o baque da noite anterior. Avançamos entre um xingo e outro meu. E quando já estávamos quase dentro do quarto do Fer, a Mia abriu a porta do meu. Nos observando ali no corredor.
 
_Te acordei?
 
Perguntei e ela negou com a cabeça, veio caminhando até mim e me deu um beijo rápido. Tinha os cabelos desarrumados e os pés descalços, com uma camiseta minha. O Du a cumprimentou à distância, nos assistindo do outro lado do colchão.
 
_É sua namorada?
 
Eu ri e eu encarei a Mia, arqueando as sobrancelhas.
 
_E aí, o que eu digo?

novembro 29, 2012

Ininterruptas

O que você tem, garota, que me desgraça a cabeça assim?
 
Não importava se eram meses ou apenas dias de abstinência. Eu ainda sentia a sua falta na minha boca. Nuns estragos à minha pele, à minha sanidade – fodendo contra o sofá, de novo, e na parede do corredor e no chão do meu quarto. O gosto da Mia me contaminava imediatamente, dominava meus sentidos. Eu perdia toda a razão. E não. Não era nada que faltava à Clara – não a procurava na Mia e certamente não buscava a Mia nela. Sabia diferenciar e as duas eram mundos à parte. Não sei explicar. Mas as queria de jeitos diferentes, se é que isso é possível. E empurrava a ressaca moral para o dia seguinte.
 
Me tornando tudo aquilo que não queria.
 
O que não antecipei desta vez, todavia, foram as horas. Todas aquelas horas na madrugada que se seguiu. Os minutos se passaram, contínuos, sem que precisássemos nos separar. Num desenrolar assim, com tempo, para o qual eu não estava preparada. Desde que aquela confusão começou, estávamos sempre nos escondendo – na sua casa, na minha, atrás de portas e em banheiros, pistas escuras. Mas agora não. Agora eu a beijava com toda a liberdade que o apartamento vazio e aquele tempo todo, de repente, nos permitiam. Com calma, com a porta aberta. Por horas, exaustas e sem conseguir realmente parar, subindo do chão para o meu colchão e continuando, com a boca invariavelmente uma na outra.
 
Aquela foi a primeira vez que a Mia passou a noite na minha cama. E não no quarto ao lado. O sol começou a nascer, atravessando a janela do quarto. Os meus dedos deslizavam pela sua pele, denunciando conhecer os seus contornos. E as nossas pálpebras já pesavam, sonolentas; a Mia encostou o seu corpo contra o meu. Quase adormecendo. E eu soube, naquele mesmo instante, que aquilo era um problema. Um baita problema. Sentindo cada centímetro da sua pele morna, abraçada ali comigo, enquanto observava um feixe de luz avançar no teto e o meu coração disparava no meu peito.
 
Aquilo não mudava nada – a Mia ainda estava com o Fer, eu sabia. E eu estava com a Clara. Mas, ainda assim, a segurei perto de mim. Como se por um instante pudesse ser sempre daquele jeito.
 
Foi diferente, não sei. Tê-la ali na minha cama, nos meus braços. No meu quarto. Numa intimidade que nunca tivemos. E isso me fazia querer ficar. Com um medo desgraçado das voltas erradas que o meu coração dava, agora, à beira do precipício, é, mas não a queria soltar. Não conseguia. Apegada à possibilidade do que poderia ser uma vida assim, juntas. Não sei. Não sei, porra. A, a gente sempre estava bêbada demais ou com, c-com tempo de menos para aproveitar momentos assim. E desta vez, não – estava tudo calmo. Sabe como? O suor secava sobre nossa pele e o cômodo era tomado pela brisa das seis da manhã, entrando sorrateiramente pela janela. Já quase fechando os olhos, a Mia ajeitou o rosto no meu ombro e apertou as mãos ao redor do meu corpo.
 
_Hum. Isso é gostoso... – murmurou.
_É...
_Por que a gente...
_Hum?!
_Por que não fizemos... isso... d-da outra vez?
_P-porque... – hesitei, sentindo meu peito apertar, porque você foi dormir com o Fernando naquela noite e eu, e-eu acordei sozinha, Mia, como tantas outras vezes, todas as vezes, pensei, mas sabia que a sua pergunta pouco tinha a ver com aquilo, com a verdade, despida de todas as ramificações racionais que normalmente teria, era mais uma vontade inconsciente de estarmos juntas do que de realmente saber, de ouvir o que já sabia da minha boca, e então me segurei; pois agora que a tinha nos meus braços, a real é que pouco me importava com quem dormíamos quando não estávamos uma com a outra, eu a queria ali, eu e ela, nós nos escolhíamos, de novo e de novo, e, por algum motivo, uma vez na vida, não respondi por impulso, notando as suas pálpebras se fecharem sobre o meu ombro, olhei por cima do travesseiro e o relógio marcava 6:07, preciso acordar em duas horas, puxei a Mia mais para perto e a abracei, com carinho – ...nada, vem. Vamos dormir, linda.

novembro 25, 2012

Vem então, caralho

Esfreguei a mão no rosto, desconcertada. Puta merda, respirei fundo.
 
Então olhei de volta para a Mia. Observando-a colocar aquela sua boca ao redor do cigarro, como se nada fosse. E, caralho. Não queria me deixar levar – não de novo –, mas quase conseguia sentir o seu calor ao redor dos meus dedos, numa lembrança nada silenciosa de dias antes. A sua respiração ofegante contra a mesma porra de sofá onde estávamos sentadas agora, a música se misturando aos gemidos, o som ensurdecedor do meu coração batendo no meu peito. Engoli seco. E senti a temperatura do meu corpo subir – “foi assim, é?”.
 
A Mia sorriu. E aí tirou o filtro da boca, me encarando de volta:
 
_Tinha esquecido como era com você...
 
Senti meu corpo negociar com a minha cabeça, começava a perder o foco. E olha, eu estava indo bem até então, não tinha qualquer intenção de me meter nessa quando abri a porta para aquele inferno de mulher, mas... porra.  
 
_Hum – apoiei a cabeça no encosto e perguntei, curiosa – E como que é comigo?
 
A Mia deixou um sorriso escapar no canto da sua boca. Eu já não conseguia tirar os olhos dela. Coloquei a mão sob minha própria camiseta, a deslizando lentamente pela minha barriga – numa vontade inconsciente de tocar a pele dela. Então a Mia se moveu na minha direção, deslizando os joelhos pelo sofá. Devagar. E eu sabia o que aconteceria a partir daí, inferno, assim como sabia dias antes quando o Fer foi dormir. Mas eu deixei, cacete. Deixei. E com o cigarro anda aceso entre os dedos, ela subiu no meu colo.
 
Se curvou sobre meu rosto, como quem ia me beijar – sem realmente o fazer. Com os antebraços apoiados no encosto atrás da minha cabeça, os seus lábios se entreabriram, me instigando. Filha da mãe. A boca a centímetros da minha, naquele ir e vir delicioso, sabe? Nuns segundos que pareciam só aumentar a expectativa de um beijo entre nós, criando tensão. A meio centímetro de mim, sussurrou no meu ouvido – “você sabe como”.
 
E sem tirar os olhos dela, eu comecei a abrir o meu cinto.

novembro 24, 2012

Ensemble rime avec désordre

_Não quero?
 
A encarei de volta. E a Mia deixou as suas mãos escorregarem de leve pelo sofá, se aproximando casualmente de mim.
 
_Acho que não... – provocou.
_Sei.
_Liga pro Gui, vai... – sugeriu baixinho, sorrindo – ...cancela.
_Não posso, Mia.
_Claro que pode.
_Não posso.
_Pode, sim.
_Não vou fazer isso, meu...
_Hum – deu de ombros e brincou – Se quiser, eu faço pra você...
 
E eu achei graça. “Se aquieta aí, vai”, resmunguei, ainda determinada em terminar meu jantar e dar o fora dali. Continuei comendo e a Mia se reajeitou no sofá, um tantinho mais perto de mim. Depois mais um tanto. Foi se aproximando até arrancar um sorriso inconformado de mim. “Mano”, a encarei de volta, “dá pra parar?”. Ela riu. E eu passei a mão no rosto, tentando manter a sanidade, me virando para continuar comendo. Mas aí, claro, a Mia chegou mais perto ainda. E meus olhos encontraram os seus, desta vez em silêncio.
 
Cacete.
 
Comecei a ficar tensa. E as suas mãos ardilosas tiraram o prato do meu colo, o largando na mesinha de centro e o substituiu com as suas pernas, as colocando sobre as minhas – cada vez mais descobertas naquela camiseta desgraçada, puta merda. Fiz um movimento para pegar de volta o prato, me curvando na direção da mesa – mas suspirei na metade do caminho, bloqueada pelas suas pernas. Não posso comer agora? É assim? Comecei a rir de novo. E a Mia arqueou a sobrancelha, testando até quando eu toleraria.
 
Encostei de novo contra o sofá e, sem pensar, pousei as mãos em seus tornozelos. Ela reparou nos meus dedos ali, acidentalmente sobre a sua pele tatuada, e sorriu. Com o cantinho da boca. A minha lasanha esfriava à distância. Maldição. A Mia se reacomodou mais uma vez, chegando mais perto ainda de mim. Aí se espichou, alcançando o meu celular, que estava largado do outro lado do meu quadril sobre o sofá.
 
_Que cê tá fazendo? – questionei, vendo-a mexer sorrateiramente nas teclas.
_Avisando que cê não vai...
_Ah, tá! – ri, esticando a mão para que me desse o telefone – Vai, Mia, pode parar de graça...
_Não se preocupa... – ela sorriu, digitando com a tela virada para si para que eu não visse – ...tá tudo sob controle.
_Mia...
_Relaxa, ninguém vai perceber. Tô escrevendo igual a você!
 
Ah! Essa eu quero ver, me diverti, apoiando a nuca no encosto do sofá. E estiquei mais enfaticamente a mão para que me entregasse a droga do celular. Ela mandou que eu esperasse, sinalizando que já estava terminando. “Cê não vai mandar isso”, a adverti, com uma das mãos ainda sobre suas pernas, “me dá o telefone, vai, Mia”. E ela suspirou, finalmente me entregando o aparelho.
 
_Que absurdo! – a encarei com desprezo, assim que li – Eu não falo assim!
_Claro que fala! Como não? Olha aí... – apontou para a mensagem, ainda aberta nas minhas mãos, rindo dos meus modismos – ...“foi mal”, “mano”, “uma parada aí”.
 
Balancei a cabeça, indignada. Besta. A Mia sorriu e então deitou levemente o corpo para trás, se apoiando sobre os cotovelos no sofá. Encarei as minhas mãos em sua perna, ao lado da pantera old school que ela tinha na canela. Uns centímetros de pele acima, vinha uma flor preta e então um escorpião; as pernas atravessadas sobre o meu colo e a cabeça caída para trás, à toa. Seus joelhos ostentavam uns hematomas roxos feios, já meio esverdeados, que só então eu reparei.
 
_E esse machucado todo, meu, o que aconteceu?
 
Passei os dedos sobre sua pele, carinhosamente. Ela sorriu.
 
_Ah. Foi a gente, aquele dia lá.
_A gente?!
_É...
 
Tirou as pernas de cima das minhas e se curvou para pegar o meu maço sobre a mesa, acendendo um cigarro sem pressa. Aí soprou a fumaça para o lado, concluindo na maior naturalidade, “...quando cê me comeu contra o sofá”.

novembro 23, 2012

[ ENCONTRO 2012 ]



3 ANOS DE BLOG!
...e a gente, claro, vai comemorar no BOTECO!

Encontro oficial de leitoras, escritora e sapatonas que quiserem vir. Em homenagem ao primeiro encontro, vai ser de novo no Ibotirama, bar de esquina conhecidíssimo da Augusta. No dia 8 de dezembro (sábado), teoricamente às 17h – mas está rolando uma enquete lá no Facebook, vão lá votar, rs.

Confirmem participação no evento no Facebook.

Meninas que não são de SP: tá rolando oferta de sofás lá no grupo do F.M., vejam se descolam uma vaga comigo ou com as outras paulistanas. Tragam os fígados preparados e os All Stars nº 44, deixem a decência em casa. Vai ser lindo.

Veeeeeeeenham!

novembro 15, 2012

“You met Mia yet?”

(Pulp Fiction)
 
Girei a maçaneta. E com suas mãos apoiadas no batente de madeira, lá estavam eles – os meus incontáveis meses de erro consciente. Batendo à porta, literalmente. A Mia sorriu para mim, num camisetão preto do Misfits que ela cortou as mangas para transformar em regata, meio vestido. Sem perceber a inconveniência da sua presença ali naquele instante, as pernas de fora e o coturno surrado nos pés, enquanto minha lasanha queimava no forno e eu metia a carteira no bolso de trás da calça, pronta para sair.
 
_O que... – ri, surpresa – ...cê tá fazendo aqui?
_Tô atrapalhando?
_Não. É que, ahm...
_Bom, cê disse que eu podia vir te visitar quando eu quisesse... – ela arqueou as sobrancelhas e os meus olhos se perderam por um segundo no seu sorriso, indefesos – ...não?
 
Droga.
 
Eu tinha mesmo dito. Dias antes, alcoolizada como um gambá e sem um pingo de autopreservação, no chão daquela sala, tagarelando sobre o quanto “claro” que ela “podia aparecer” quando bem entendesse. Mas que inferno, causei aquilo a mim mesma. Comecei a pensar em como me livrar daquela cilada. Tinha passado a semana inteira com a Clara e queria fazer as coisas direito – mas também sabia o que meu coração sentiu naquela madrugada com a Mia e não confiava inteiramente em mim mesma para ficar sozinha de novo assim com ela. Cacete.
 
_Na real, e-eu... – passei a mão na nuca e a olhei, parada ali espontaneamente, na porta do meu apartamento – ...tava pra sair, ia... só jantar ant...
_Ah, tudo bem... – ela piscou na minha direção e foi entrando – Te faço companhia!
 
Merda. Merda, merda, repeti para mim mesma. E empurrei a porta de volta, fechando a maçaneta atrás de mim, enquanto a Mia caminhava sala adentro. Isso não tá acontecendo. Largou a mochila sobre o sofá, como se viesse de algum outro lugar, e foi em direção à cozinha. Assim que a segui, o meu celular apitou em cima da mesa. Chequei a mensagem no visor – “é o Gui”, murmurei, “preciso me apressar”. Larguei o telefone de novo e fui até o fogão, abrindo a porta do forno.
 
_Hum, então cê tava mesmo de saída... – a Mia fez graça, sondando.
_Ainda tô, Mia.
 
Agachei na frente do forno para checar a lasanha. Ela me observou a alguns metros dela, e sorriu. Podia senti-la no cômodo, mesmo sem olhar para trás – a forma como se movia milimetricamente por cima do meu ombro. E caía a minha ficha agora de que, sem o Fernando no apartamento, as minhas desculpas para fugir se tornavam escassas. Fechei a porta do forno e coloquei a travessa quente sobre uma das bocas do fogão, erguendo-me do chão. A Mia ainda me observava, apoiada contra a mesa da cozinha. Perguntei se tinha fome e ela disse que já tinha comido na casa da Michelle.
 
_Hum – ri e alcancei um prato no armário sobre minha cabeça – Aquela que me adora?
_Essa.
_E você contou... – a olhei de relance, colocando um pedaço no prato – ...que vinha aqui?
 
A Mia sorriu, arqueando as sobrancelhas com os braços cruzados em frente ao corpo. Isso é um sim ou um não?, achei graça. Caminhei até a geladeira para pegar uma garrafa de Coca. E quando virei de novo, a Mia ainda não tinha respondido, encarando os próprios pés para não pensar a respeito. Comecei a rir e pensei na Marina, na bronca que tomei. “Entendi”, disse para ela, balançando a cabeça antes de irmos para sala. Nos sentamos no sofá, numa cumplicidade de quem nunca realmente se afastou. E eu comecei a comer.
 
Por trás de toda aquela conversa jogada fora, uma garfada atrás da outra, a real é que a sua presença me inquietava. Era estranho. Tê-la sentada ao meu lado, ali, tão abertamente no meu apartamento, em plena sexta-feira à noite. E como alguém que ainda sente coçar a perna que perdeu, sentia que a qualquer momento o Fer ia entrar naquela sala e nos flagrar. Ainda que o seu quarto estivesse vazio e todas as suas coisas tivessem sido levadas, em toda a sua impossibilidade, ainda era difícil me sentir totalmente confortável com a Mia ali.
 
E não é como se estivesse fazendo qualquer coisa errada – estava só comendo meu humilde ranguinho enquanto a Mia comentava, revoltada, sobre uns colegas de classe que viraram discípulos dum professor babaca no Mackenzie. Eu ria da sua indignação. Nada acontecia. Literalmente. Nada mesmo. O problema, com nós duas, é que estava sempre lá. Algo. Nas entrelinhas. Eu simplesmente não podia baixar a guarda.
 
E foi aí que ela moveu as pernas.
 
As ergueu em frente ao corpo, com os coturnos sobre o sofá, abraçando os joelhos. E num reflexo, o meu olhar escapou para o lado, notando aquele pouco pano todo. O tecido da camiseta escorregou pelas suas coxas e, juro, que não tinha porra de shorts nenhum por debaixo. Céus. Me arrependi imediatamente de tê-la deixado entrar. O meu descuido durou um segundo. Nem isso. Mas os olhos da Mia cruzaram com os meus, conforme eu desviava rapidamente o olhar de volta para o meu prato. E ela sorriu, interrompendo o que estava dizendo.
 
_Hum... – se divertiu – ...tô achando que você não quer sair, não.