- »

outubro 18, 2012

Ainda bem, ainda bem

Não subi até que a Marina chegasse. Esperei em frente ao prédio e sinalizei para o porteiro abrir a porta da garagem quando o carro dela se aproximou, a acompanhando até a antiga vaga do Fer. Naquela noite, conversamos por horas, a maior parte do tempo sobre o que ela estava vivendo com a Vivian. Tinha passado o fim de semana na casa dela e chegou na minha sem conseguir parar de sorrir. Vê-la tão bem assim me fazia feliz, me distraía dos meus fantasmas. “Cê tem que trazer ela aqui um dia”, murmurei, checando as horas no visor do celular, “pra eu conhecer”. Ela acenou com a cabeça e eu sorri, largando o telefone sobre a mesinha de cabeceira, deitando ao seu lado na cama.
 
Então a minha mente divagou. Podia sentir a ausência silenciosa do Fer ecoar pelo apartamento vazio. Minutos antes eu tinha levantado para pegar um copo d’água na cozinha. E o simples ato de ir até lá sozinha me induziu a uma bad incômoda, estúpida. Agora as mãos da minha ex abraçavam a minha barriga – e eu tentava empurrar a culpa que crescia dentro de mim.
 
_Foi... estranho, Má... – suspirei, afundada no travesseiro – ...deixar o Fer na casa dos pais dele hoje, vir pra cá...
_Eu imagino.
_Toda nossa vida, meu... – tentei falar e senti a tristeza escapar entre as palavras, escalando garganta acima contra meus esforços – ...toda lembrança que eu tenho, aqui ou de quando a gente morava em Santo Amaro, qualquer merda que fiz na minha vida, velho, ele tava sempre comigo. No quarto do lado ou na rua debaixo. E agora eu tenho que pegar uma porra de um ônibus que leva quarenta minutos para ver o Fer. O Fer, mano! É bizarro.
_Ei. Mas cês ainda vão se ver, linda... – ela me olhou e sorriu, apoiando a cabeça no meu ombro – Vai ser estranho agora, hoje, amanhã, mas logo cê vai se sentir melhor. E vocês vão se acostumar, sabe, até conseguirem mudar isso, achar algo que funcione melhor.
_É. Sei lá...
 
Eu gostava de ouvi-la falar. A Marina tinha o seu jeito calmo, paciente de me escutar e aconselhar. Apertando os braços ao meu redor como se pudesse carregar parte da dor. A tristeza, todavia, perdurava em meus pulmões, na minha voz.
 
_E-eu... eu podia ter feito tanta coisa diferente. Mas, não sei, e-eu... – os olhos do Fer naquela tarde voltaram ao fundo dos meus e eu me senti minha garganta apertar – ...eu só fiz merda. Merda atrás de merda. Eu fui a pior amiga que ele poderia ter. E, e não é justo que ele tenha que passar por essa porra, que seja ele quem tem que sair, ele tava tão triste, inferno, e eu não sabia o que fazer, como ajudar, sabe, e-eu é que devia tá me fodendo...
_Flor, não fala assim! – me repreendeu – Eu sei o quanto você ama o Fer e o quanto você tentou nesses últimos meses, como você ficou do lado dele. É uma situação complicada.
_É. Mas...
 
Ia retrucar e me calei, me sentindo culpada demais.
 
_“Mas” o quê?
_Nada.
_Linda? – a Marina insistiu, notando algo estranho – O que aconteceu?!
_Nada. Não quero falar sobre isso.
_Flor, não faz isso. Não guarda as coisas. Conversa comigo – pediu.
_E-eu... – respirei fundo, sentindo o peso devastador de cada palavra que estava prestes a confessar – ...f-fiquei com a Mia de novo, ontem.
_Com a Mia? ONTEM???
 
A Marina se levantou, sentando ao meu lado no colchão, como se não conseguisse processar aquela informação deitada. E aí me encarou, seus olhos me fuzilando, descrente. Inferno. “Foi sem pensar”, murmurei, na mesma hora. Quis afundar no colchão, sumir. Sem saber o que dizer, a Marina me pediu os óculos e eu os alcancei na mesa de cabeceira, lhe entregando. Os colocou, num suspiro desgostoso, como se precisasse olhar direito na minha cara de pau – e eu usei toda força que tinha dentro em mim para não virar o rosto, para encará-la de volta. Porque precisava ver a decepção nos seus olhos, enfrentar a verdade sobre mim mesma.
 
E lá estava ela, refletida.
 
_Na boa, eu não sei como você consegue. Ser assim, fazer essas coisas.
 
As suas palavras me atravessaram duramente. A ausência de surpresa na sua voz.
 
_Foi um erro.
_Foi?
_Claro que foi! A, a Mia que veio pra cima, meu... – me justifiquei, já sabendo que estava errada – ...e e-eu... eu gosto dela, porra, você sabe que, que eu... não sei. Não sei! Eu. Não. Sei. Tá? A, a gente tinha bebido e... – passei a mão no rosto, frustrada – ...não foi planejado, a g-gente... Argh!
_E a Clara?
_Não é assim, Má, isso não muda nada. Ontem foi, f-foi um erro... – garanti – ...eu tô com a Clá.
_Hum. Foi o que você disse da última vez, não foi?
 
Merda, tá.
 
_Foi. Mas, m-mas eu tô mesmo apaixonada pela Clara, a gent...
_E você não acha que ela tem direito de saber? – a Marina me interrompeu, sem paciência – Hein?!
_Acho. Mas é que e-ela, ela não entenderia... – senti o meu coração doer com a possibilidade de perdê-la – ...quer dizer, ela... diz que sim, mas eu sei que não. Nem a pau. Não a Mia. E eu não quero foder as coisas entre a gente. Não por uma noite, não por isso. E-eu sei o que parece, mas você tem que acreditar, Má. Eu amo mesmo a Clá, é com ela que eu quero ficar. É só que... – balancei a cabeça, confusa – ...às vezes, com a Mia, e-eu... não sei, eu não consigo evitar. Eu amei ela por, por tanto tempo e, e me fode demais a cabeça.
_Tudo bem. Mas não acho que a escolha seja só sua. Se eu estivesse no lugar da Clara, do Fer, eu ia querer saber, você não?
_Não é sempre tão simples assim.
_Céus...
_E-eu sei. Eu sei, tá? – me irritei comigo mesma – Nem eu suporto as coisas que eu tô dizendo. Mas eu não sei o que fazer, Marina!
_Escuta, vamos deixar uma coisa clara, não é um erro se continua acontecendo – sua voz ficou séria – E você precisa ser muito honesta consigo mesma sobre o que realmente foi e como você quer tratar as pessoas com quem você se importa. Se esforçar um pouco mais, sabe, não ser tão egoísta.
_Uau – deixei escapar um riso, ofendida – Valeu.
_Você sabe que é verdade. Eu não tô tentando ser escrota, flor, mas se você pensa que não tem problema só porque ninguém viu, se você acha que tudo bem sair por aí fazendo suas vontades contando que seja em segre...
_Eu não disse isso, Marina – a cortei.  
_Ótimo. Porque eu me recuso a aceitar que você queira ser essa pessoa de novo. As coisas mudaram, flor. Você tá num relacionamento. E não é porque você e a Mia se livraram uma vez, que tudo bem sair se pegando quando dá na telha. Você tem que tentar se lembrar, sabe, de como se sente depois, de como isso te destruiu, de como quase acabou com a sua amizade, de como afetou o relacionamento deles. É isso o que você quer para você e a Clara? Porque não dá para você continuar assim aí, querendo ter as duas coisas... – argumentou – ...ou alguém vai se machucar.
 
Suspirei, virando o rosto, os meus olhos inchados.
 
_E-eu... – hesitei – ...tô com a Clara.
_Espero que saiba o que vai fazer, flor.

outubro 11, 2012

O ninho

_Foi mal, demorei? – murmurei ao entrar no carro, o som do pisca-alerta tiquetaqueando no painel.
_Não, de boa...
 
Bati a porta e o Fer abaixou o freio de mão, saindo de novo com o carro. Meu estômago ainda formigando silenciosamente. Não demoramos muito para atravessar a cidade, era domingo e o trânsito paulistano deu uma trégua. Não levamos mais do que vinte minutos para chegar em Santo Amaro. O que não impediu, claro, que o pai do meu amigo nos recepcionasse com um comentário desagradável já de cara.
 
_Você disse que vinha na hora do almoço, Fernando – ele resmungou, abrindo o portão – São três e meia, sua mãe ficou esperando. Se já vai começar assim, a gente vai ter um problema...
 
O Fer não respondeu. Apenas bufou em silêncio do meu lado, sem que o velho ouvisse, conforme a gente tirava as amarras do colchão. O carro estava estacionado diretamente em frente à casa dos pais dele, numa rua calma do bairro. Descarregamos tudo em menos de meia hora e as pilhas de caixas se acumularam do lado de dentro.
 
Era estranho estar de volta ao antigo quarto do Fer, anos depois do fim do colégio. Ficamos parados, por alguns instantes, naquele cômodo vazio. Sem dizer nada. As caixas aglomeradas num canto, o sentimento de abandono no resto do quarto. O Fernando passou a mão na parte de trás da cabeça, escorregando os dedos entre os fios raspados. Visivelmente inquieto. Perguntei se queria ajuda para montar a estrutura da cama, sem querer deixá-lo sozinho, e ele topou – como quem não tem nada melhor para ocupar a cabeça.
 
Começamos a separar as vigas no chão, agachados. E o clima pesou. Era triste estar, estarmos ali depois de tanto tempo, de tudo. Olhei para cima, na direção dele, assim que começamos a montar o estrado. A ressaca enfraquecia os meus braços, encaixando peça a peça de madeira com certa dificuldade. Ele me ajudava, no lado oposto, sua expressão séria. O desgosto engasgado do peito. E eu quis desesperadamente o ter de volta no apartamento – nenhum de nós queria estar ali.
 
Arrumamos a estrutura da cama, trazendo o colchão para o quarto, sem dizer uma palavra. E ao final, sentamos para fumar um cigarro contra a parede. Esticamos as pernas no chão. Ele tirou o tênis, empurrando um pé noutro, e ficou apenas de meia. As primeiras tragadas foram ainda em silêncio. Eu observava o rodapé e o piso escuro de madeira, aquele espaço que encolhera com os anos, numa nostalgia desconfortável.
 
Aquele era o quarto onde ouvimos CDs de punk trasheira durante toda a nossa adolescência, onde fumamos maconha escondido tantas vezes. E onde falei para ele, pela primeira vez, que curtia minas. Moleque, com as pernas cruzadas e a cabeça baixa na minha frente, ele murmurou um – “pra valer?”. E eu disse que não sabia, que não tinha pensado direito a respeito. Muito tempo antes de fazer qualquer coisa a respeito. Agora, em outra realidade, com outras cabeças por completo sobre nossos ombros, dividíamos um cigarro sem falar o que tanto ele, quanto eu, queríamos de fato dizer um para o outro.
 
_V-vai ser estranho... – hesitei para começar, num sussurro relutante – ...sem v-você lá.
 
Eu falava baixo, quase para dentro. E o Fer me ouvia sem desviar o rosto do chão. Apertou os dedos ao redor do cigarro, apoiando o polegar entre os olhos. Respirando fundo, tentando engolir a tempestade que trovoava dentro dele. Nós dois éramos, provavelmente, as duas piores pessoas no mundo quando se tratava de expressar nossos sentimentos. Eu nunca dizia o quanto o amava, o quanto todos aqueles anos morando juntos me mudaram. Todo peso dele na minha vida. Você, porra, você mudou tudo. Você é o meu melhor amigo. E não o ter mais por perto todos os dias, de repente, me deixava insegura, me devastava mais do que eu era capaz de sequer entender naquele momento. Ainda assim, eu insisti:
 
_Eu sei... q-que a gente andou brigando esses tempos, que eu me afastei às vezes... – relutei em dizer, consciente de que o móvito por trás de todas as vezes que nos distanciamos nos últimos dois anos fora a Mia – ...mas, sei lá... e-eu... eu vou sentir sua falta... acho que não sei mais viver sem você no quarto do lado ou na rua debaixo, eu...
_Mano... – ele se reajeitou contra a parede e deu um trago, soltando a fumaça pro lado – ...não começa com essas bichices, velho, já... – os seus olhos marejaram, desconfortável– ...já t-tô na merda pra caralho, meu. Se logo você for...
_Hum, diz... – o empurrei com a lateral do corpo e forcei um sorriso, mudando o clima da conversa – ...cê vai chorar?
_É, vai brincando... – ele riu também, com os olhos vermelhos.
 
E eu enxuguei os meus. Porra.
 
Uma dor aguda torceu na minha garganta. Eu sabia que voltar para a casa dos pais, em especial o convívio com o velho, não eram fáceis para o Fer engolir àquela altura. Metendo o orgulho goela abaixo, na metade dos seus vinte anos. E conforme eu me despedia dele, já na porta, a certeza de que aquilo não era tão mais fácil para mim se concretizou, como um peso que há semanas eu vinha evitando, reprimindo dentro de mim, a cada passo que eu dava em direção ao ponto de ônibus. Numa vontade angustiada de não voltar para o apê sem ele.
 
Desci até o ponto duas ruas adiante, me sentindo estranha. Terrivelmente sozinha. Maldição, passei as mãos no rosto e acendi outro cigarro. Eram talvez sete, oito da noite e Santo Amaro estava deserta. Senti uma necessidade desesperada de estar com alguém. Mas a Clara estava a quilômetros de São Paulo e eu não podia ligar para a Mia, num senso distorcido de respeito pelo Fer. Incapaz de encarar o que eu tinha feito, quem me tornei. Então digitei o número da única outra pessoa que consegui pensar. E ela logo atendeu, a sua voz preocupada do outro lado da linha ao me ouvir chorar.
 
_O que aconteceu, flor?! – a Marina se alarmou.
_Dorme comigo hoje?

outubro 06, 2012

Maldade

...com o meu coração, é.
 
Inclinei o corpo na direção da Mia, a segurando pela cintura, num beijo descomedido. Sequer pensei. Em pé no hall de entrada do seu prédio. Colada à tua boca, a minha desordem – o meu vasto querer. O incompossível se fazendo ordem*. E toda vez que a sua boca juntava com a minha era como se tentassem compensar todos os beijos que não demos naqueles meses todos. Sabe como? Com uma saudade intensidade que me fodia a cabeça. Tão logo nos atracamos ali, todavia, a Mia se desvencilhou das minhas mãos, com o celular na sua.
 
_Obrigada... – ela deu um passo para trás, encerrando aquilo tão rápido quanto o começou, e sorriu – ...por “trazer”.
 
Comecei a rir.
 
_Cê tá tirando com a minha cara, né...
 
Encarei-a. Porra, garota. E ela arqueou as sobrancelhas, satisfeita, cruel, enquanto me deixava de mãos abanando. Meus olhos desesperados, um fogo dentro de mim. Você, v-você chega em mim, desse jeito, e, e vai embora? É assim?! A Mia me olhou, confiante, como se respondesse à pergunta na minha cabeça, menosprezando a minha angústia, voltando lentamente de costas para o elevador. Eu me diverti, tá certo então.
 
_Te vejo essa semana? – sugeri, rindo.
 
E ela deu de ombros.
 
Filha da puta.
 
 
 


*Do Desejo, por Hilda Hilst

outubro 02, 2012

Prorrogação

_A GENTE SAI EM MEIA HORA! – o Fer gritou, avisando, ao passo em que eu arrastava os pés pelo corredor.
 
Se eu estiver viva, né, segui para o meu quarto e me joguei na cama, derrotada. Por que diabos bebi tanto?! Exaurida e sem energia, os meus órgãos internos pareciam ter implodido. Não restava um ainda funcional. Os acontecimentos da noite anterior permaneciam levemente nebulosos e eu tentava não pensar muito a respeito, para não me enfiar em uma... argh. Tão logo tentei evitar, o pensamento me invadiu a cabeça.
 
Mia.
 
Virei o corpo, ainda deitada e apoiando apenas a nuca contra a cabeceira, desconfortavelmente. Peguei um cigarro que restava fora do maço, na mesa ao lado da cama, e o acendi – sentindo a espiral de culpa disparar. Meu corpo doía. Onde eu tava com a cabeça? Dei um trago, deixando a fumaça sair dos meus pulmões. Me lembrando de cada baixaria que fizemos no chão da sala. À luz do dia, eu me sentia suja. E burra. Vou mesmo me meter nessa merda de novo, foder tudo com a Clara?, traguei mais uma vez, com os olhos perdidos na parede à frente, pra quê? Pra e-essa garota me desgraçar a cabeça de madrugada e depois ir dormir com ele, porra?
 
Mas – ah, a Mia. Seu gosto, seu jeito. Nós duas juntas.
 
Aquilo, meu coração hesitou, aquilo foi diferente.  
 
Senti dificuldade de respirar. Não. Não vou fazer isso agora, não posso. A noite anterior não precisava significar nada, não de imediato. Que se dane. Agora não é o momento. Eu estava de mau humor, de ressaca, me agarrando à esperança de que aquele sentimento vazio ia passar. Minha cabeça latejava de dor. Me levantei, apanhando as primeiras roupas que vi no armário, com o cigarro ainda pendurado na boca, e decidi tomar um banho rápido antes de sairmos.
 
Me tranquei no banheiro e deixei a água correr pela minha cabeça por alguns minutos, levando parte da ansiedade. Quando saí, já mais desperta, dei de cara com a Mia na cozinha. Sentada na pia, numa camiseta larga do Fernando e os cabelos desalinhados. Ela sorriu ao me dar bom dia. E eu tentei não agir de maneira diferente, sorrindo brevemente e logo me dirigindo até a geladeira – tomando cinco litros do primeiro líquido gelado que encontrei. Coloquei a caixa de suco de volta na prateleira e alcancei metade de uma maçã que não tinha comido no dia anterior. Aí me sentei na mesa, ao lado do Fer, ainda sentindo o meu corpo se contorcer por dentro.
 
_Eu passei café... – a Mia comentou, os pés descalços balançando em frente ao armário da pia – ...se quiser.
_Mano, não... – o Fer alertou – ...não pega.
_Tá ruim assim?
_Velho, pior chá cafeinado que cê vai tomar na vida... – ele zombou e notei a xícara semicheia à sua frente – ...na boa, não tá dando.
_Muito agradecido você, hein! – a Mia se fez de ofendida, arremessando um pano de prato na direção dele – FAZ SEU PRÓPRIO CAFÉ DA PRÓXIMA VEZ ENTÃO, MACHO!
_Ah, cê vai me desculpar, amor... – ele pegou o pano antes que acertasse sua cara, rindo – ...geralmente dá pra engolir, mas hoje tá ruim demais.
_Cala a boca!
 
Me diverti assistindo os dois discutirem. E o clima, aos poucos, se tornou bom entre nós. Nós três. Uns minutos depois, nos levantamos e eu ajudei o Fer a carregar as caixas que faltavam até o seu carro. Enquanto descíamos de elevador, me juntei às provocações dele sobre as habilidades completamente inexistentes da Mia na cozinha. “Que falta faz crescer tendo que passar a própria manteiga no pão de manhã”, a gente zombava sua infância privilegiada em Higienópolis e ela se indignava, falando que não era assim. “Tá bom, amor”, o Fer segurou o riso, “mas fala a verdade, com quantos anos cê fez seu primeiro arroz?”. Ela revirou os olhos e riu, mandando a gente se foder.
 
_Sabe, o meu irmão é chefe de cozinha! – argumentou.  
_Mas isso é porque rico ou num sabe cozinhar ou tem que transformar em profissão – tirei sarro – Não tem meio termo.
_Eu sei cozinhar.
_Amor... – o Fer tocou suavemente o seu braço com um olhar de “seja sincera”.
_Quê?! Você gosta do meu bolo de chocolate!
_Eu gosto de qualquer coisa depois de fumar um.
 
Saímos do elevador com a Mia esbravejando que nunca mais ia pisar numa cozinha. “Graças aos céus”, o Fernando ergueu as mãos e ela o encheu de tapas, aos risos. “Eu cozinho pra você, amor”, ele tentou reparar, a abraçando forçadamente, “você não quer um cara romântico?”. A beijou enquanto ela ainda o empurrava, os dois rindo. E então o beijo virou beijo de verdade. E eu virei pro outro lado, em direção ao carro.
 
Vinte minutos depois, colocamos a última caixa no chão sujo da garagem. Empilhada sobre as outras que já tínhamos levado. Estava tudo lá. Cinco anos e meio de apartamento dividido em algumas caixas. Parecia agora tão pouco. Demos início então a um balé confuso, na tentativa logística de ocupar todo o espaço disponível no carro, fazendo pilhas de caixas de papelão caberem no banco de trás e no porta-malas. Ao final da árdua tarefa, o reles automóvel do Fer mais parecia uma carreta – com um fio passando, nada discreto, pelas janelas para segurar o colchão sobre o teto, embrulhado em sacos de lixo colados com fita.
 
Sentei no banco da frente, cumprindo meu papel de caminhão-amiga, cuja presença seria necessária para ajudar a descarregar e montar tudo na casa dos pais dele. Já estava prestes a fechar a porta, quando a Mia deu dois passos e me impediu. Parada do lado do carro, com os braços tatuados apoiados na janela, como se esperasse algo de mim. Você só pode tá brincando, não é?, olhei para o Fer, na mesma hora.
 
_Qual é, a casa dela é aqui do lado! – ele argumentou – É rapidinho!
 
E eu suspirei, abrindo o resto da porta para que ela se sentasse no meu colo. Que situação. Era o cúmulo – nós duas nos amassando ali com o Fernando bem do lado. Eu quero morrer. Depois de toda sacanagem daquela madrugada, não era tarefa fácil não parecer me sentir culpada. Não com as suas pernas sobre as minhas. Como diabos isso continua acontecendo? Desviei os olhos e mantive as mãos bem longe da Mia durante todo o percurso, ignorando seu pescoço assim, a meio centímetro da minha cara, até chegarmos em Higienópolis e ela finalmente sair do carro.
 
Ufa.
 
Podendo voltar a respirar com naturalidade, me acomodei confortavelmente no banco e o Fernando baixou mais uma vez o freio de mão. Começamos a atravessar a Avenida Angélica quando, de repente, senti a lateral do meu banco vibrar. “Panic!” – gritou a voz da Chitose, a vocalista do The Comes, seguida duma guitarra rapidinha e mais um “Panic!”. Aquele era o toque da Mia. Droga. Alcancei o celular, que tinha caído no vão da porta, e o atendi, conforme o Fernando já fazia o caminho de volta. “Mia?”. “Ai, que bom! Tá no carro!”, ela disse, aliviada, do outro lado da linha, “tava com medo de ter deixado no apê”. “Êê trouxa”, eu ri, “tamo indo levar aí”.
 
Em menos de cinco minutos, paramos de novo em frente ao seu prédio. “Vai lá!”, o Fer falou, estacionando o carro sem desligar o motor. Abri a porta e dei uma corrida até a portaria, apontando o celular em mãos para que abrissem. E abriram, para minha surpresa. A Mia avisou. Atravessei o jardim que ocupava o recuo do prédio num só fôlego e subi os três, quatro degraus que davam no hall de entrada. A Mia já estava lá, com o mesmo camisetão e o maldito shorts da noite anterior, chinelo no pé. Sorriu ao me ver. Veio na minha direção, com a mão esticada para pegar o telefone, mas assim que o alcançou me puxou num rápido movimento.
 
Colocou os braços ao redor do meu pescoço e me beijou.

outubro 01, 2012

OST 5 ♥

Saiu a quinta trilha sonora do blog! Clique nas músicas abaixo para ver onde elas aparecem na história ou clique aqui para ouvir a trilha completa no Spotify.
 

setembro 28, 2012

And...

“When I awoke
I was alone, this 
Bird had flown”
(The Beatles)
 
A voz do Fernando invadiu os meus ouvidos. Estava apagada, deitada de qualquer jeito no sofá da sala – a coluna torta. Acordei com as suas mãos me sacodindo o cotovelo, erguido sobre o rosto para bloquear a luminosidade da janela. Movi o meu braço direito, o que cobria os olhos, alguns centímetros para baixo, abrindo as pálpebras com indisposição e encontrei o Fer ali, em pé do outro lado do encosto do sofá, me encarando. A minha cabeça doeu violentamente. Puta merda, me contorci e ele riu da minha careta. O meu corpo parecia pesar uma tonelada, afundado contra o estofado, a ressaca sugando as minhas veias secas.
 
_Que cê tá fazendo aí, mano?! – o Fer questionou, rindo – E por que cê tá sem roupa, porra?
 
Ahn?, o ouvi, desorientada. Senti a minha camiseta amassada contra a minha mão esquerda e notei, então, que o meu braço a segurava sobre a minha barriga. Minhas calças estavam puxadas só até metade das minhas pernas. O qu...?, o meu cérebro se embaralhou, encharcado em rum e THC, o-o que aconteceu ontem? Cada pensamento doía, argh, e tudo o que me vinha à cabeça eram os orgasmos da Mia naquele chão, a sua boca contra a minha, o movimento molhado entre os meus dedos. Inferno. As mãos do Fernando pairavam a menos de vinte centímetros de mim, apoiado com os antebraços no alto do encosto, me observando dali de cima.
 
_Na moral, essa é a melhor memória que eu podia ter... – zombou – ...no meu último dia.
 
Revirei os olhos para ele, ofendida. Mas a verdade é que era até que bem apropriado, eu ali, de ressaca e sem ideia de como fui parar naquela situação. Sem dignidade. É. Resume bem a nossa experiência nesse apartamento. Esfreguei uma das mãos contra o rosto, tentando me livrar da enxaqueca, e me sentei, vestindo a camiseta de novo.
 
_Sério, velho... O que diabos cê tava fazendo?! – ele achava graça da minha cara descabelada e eu só queria que ele falasse baixo, sentindo a minha cabeça doer a cada palavra que entrava pelos meus ouvidos.
_N-não sei... – murmurei, ainda confusa – ...fiquei com calor à noite, acho. Não lembro.
 
Levantei como um cão rabugento. Ele se divertiu ainda mais. Começou a juntar os poucos vinis que restavam no chão, determinado a terminar de empacotar aquelas caixas todas, enquanto eu subia as calças pelas pernas.
 
_Devia ter tirado uma foto... – fez graça, com um disco do Alton Ellis na mão.
 
Ah, vá. Engraçadinho.

setembro 26, 2012

Isn't it good?

Antes, quando falei sobre trens, vejam bem, a questão... é que uma vez que saem dos trilhos, trens requerem um esforço descomunal para serem novamente encarrilhados – e nós, bom, nós não tínhamos isso.
 
A sua boca deixou a minha; e os nossos corpos penderam no ar, soltos contra o chão. Envoltas em demasia de rum. Os seus lábios percorreram a lateral do meu rosto, arrastando-se pescoço abaixo – e voltaram para os meus. Prensadas uma contra a outra, naquele piso de madeira, de maneira estúpida. Numa irracionalidade, em meio à sala. Mas isso, isso era diferente. Os beijos, as mãos. A forma como nos conduzíamos, bêbadas. Numa avidez lúcida. E plena, não sei bem. A forma como os seus dedos entravam em mim, como eu a segurava perto. Isso era eu e era ela, nós duas; éramos nós, ali, conscientes do que fazíamos – e fazendo-o, juntas. Não eram banheiros ou áreas de serviço, não eram desafios ou agressões emocionais; acidentes de percurso. Não. Isso, isso era diferente. Isso éramos nós, inteiras.
 
E puta que pariu.
 
Em um só movimento, tirei a minha camiseta e pressionei o meu corpo contra o da Mia. E a sua mão subiu tensionada pelas minhas costas, pelas minhas tatuagens; a outra ainda metida no meu jeans. Se movendo com a arrogância de quem sabia o que estava fazendo, de quem já tinha me amado antes. Os seus beijos deixavam a minha boca, mais uma vez, e eu sentia os seus lábios tocarem os meus ombros, lambendo o decorrer da minha clavícula, afundando no meu peito, mordendo cada traço marcado na minha costela. As suas mãos deslizavam por mim, me molhando. E era como voltar doze, treze meses antes – ao chão do seu apartamento. Mas não. Isso, isso era diferente. E sentir ela tão próxima assim, de novo, me tirou do sério.
 
O meu coração apertou. Percebi todas as minhas emoções tomarem conta de mim e subirem, de uma só vez, pela minha garganta. Me esmagando. Numa vontade repentina e idiota de chorar. Vulnerável no chão daquela sala, o meu corpo aberto e entregue a ela. À Mia. Crescia como um som ensurdecedor dentro de mim, enquanto todo o cômodo restava em silêncio. Eu o traía, eu sabia, de novo. E me traía. Traía a Clara também, traía tudo o que construíra, traía todas minhas decisões nos últimos meses. O álcool me destruía a sanidade. Traía tudo, argh. A minha independência emocional, o meu bem-estar. Traía as escolhas que fiz a tão duras penas. Mas o pior, o horrível – o deplorável – é que eu gostava. Puta que pariu, como gostava. Gostava. De sentir cada grama do peso dela em mim. Toda a extensão do seu corpo e da minha agonia. Porque, inferno, era o que eu conhecia. Era o que eu queria, o meu lar. Como?! Como eu posso gostar, porra?!
 
Os seus beijos, intensos e em transe, no entanto, acalmavam o aperto em minha garganta. E eu me via envolta num oceano de águas familiares, submersa nela, naquele momento. Naquele mesmo instante. Embriagada, não sei. Pelo seu cheiro, pelo seu jeito. Parte de mim me condenava, sim; mas a outra não dava a mínima – puxando-a pela cintura e a colocando no meu colo, sem hesitar. Sua boca me arrancava a razão, conforme as suas mãos arrancavam a própria blusa do corpo. Mais um beijo. E outro. E não, não era cauteloso tirar as roupas ali, mas o fazíamos mesmo assim, deliberadamente, e que se dane. Desajeitadamente, tentava descer as minhas calças por debaixo das suas pernas. E a Mia ria. Eu achava graça também – numa naturalidade de interromper a nós mesmas, nos divertindo como se o tempo não tivesse passado. Como você linda, garota, cacete.
 
Os meus pés empurraram e chutaram os All Star de si, o mais longe possível. E eu sorri para ela. Nos olhávamos, em sincronia. As maçãs do seu rosto contornavam suavemente a margem sob seus olhos, os seus cílios. E o calor da sua pele me engolia. Fechei as minhas pálpebras e tirei o seu cabelo da frente dos ombros, colocando-o para trás. Beijei, pouco a pouco, o vão na base do seu pescoço, a linha do seu colo. E podia sentir a sua pele mover-se sob os meus lábios, pendendo a cabeça para trás. Minha língua percorrendo o trecho sensível da sua garganta, os meus beijos se tornando mais famintos.
 
Agora que te tenho de novo, garota, não te deixo mais ir, o meu coração protestou.
 
Ela se contorcia contra meu corpo – me comendo, numa sacanagem crua, e os meus beijos iam perdendo o fôlego contra a sua pele, minha respiração cada vez mais acelerada. Deitei o seu corpo sobre o piso de taco, arrancando de uma só vez os malditos shorts e a sua calcinha. Minha boca consumindo os seus contornos, o seu gosto. O seu suor, cada nuance dela na minha língua. Cravando os dedos nas suas cerejeiras, nos narcisos. Encaixei as nossas pernas, com certa grosseria, e apoiei um dos joelhos ao lado da sua coxa – subindo em cima da Mia num movimento contínuo e arrogante. Ela me segurou com ambas as mãos, cada uma de um lado do meu rosto, sorrindo, e me beijou, conforme eu me pressionava contra ela. E é – àquela altura, eu sequer mais via os trilhos do trem.

setembro 21, 2012

O inverso

O som agora estava mais baixo. E o cômodo parecia tomado pela imobilidade da madrugada. Seguíamos, porém, no mesmo ritmo – rindo e embriagadas. Eu e a Mia conversávamos lado a lado no chão. Entrincheiradas frente ao sofá, que dava de costas para a porta do quarto do Fer. Ao final do corredor. Em suas mãos, a Mia enfileirava os vinis numa ordem particular, que eu não prestei bem atenção, sentada sobre os próprios pés enquanto falava e eu a escutava, rindo às vezes. Tinha a minha cabeça apoiada no assento do sofá e os olhos distraídos pelo teto branco, completamente chapada, falando uma asneira atrás da outra. Nos divertíamos, não sei explicar. Fechei os olhos em lassidão.
 
_Não queria que essa noite acabasse... – ela disse.
 
E senti o tecido do sofá franzir de repente, podia notar a sua presença ao meu lado. A minha mente girava; as pálpebras coladas em si, a esmo no escuro. O que eu tô fazendo, meu deus. A Mia seguia falando, um tanto emocionada. As mangas da minha camiseta estavam enroladas sobre os meus ombros e, de repente, o seu braço tocou a minha pele. A minha percepção aguçara – os sons e as sensações eram uma viagem à parte, dentro de uma brisa particularmente boa, largada no chão da sala. Percebi as pontas do cabelo dela moverem-se, sutis, ao meu lado. E a Mia divagava ainda, soando tão bêbada quanto eu.
 
_...não quero que chegue amanhã, meu. Não quero – se chateava – Mano, por quê?! Por que isso tá acontecendo com vocês? Por que o Fê tem que se mudar? Não é justo! Não vai ser a mesma coisa mais, vai ser estranho... vir para a Augusta, sabe, sem vir aqui. O apê é a minha segunda casa. Eu gosto tanto dessas quatro paredes, tanto...
_Mas você não precisa deixar de vir, meu – intervi – Pode me visitar quando quiser, porra. Só passar aí...
 
A real é que eu estava tão preocupada com a saída do Fer que sequer tinha me dado conta de que aquilo também tirava a Mia do meu apartamento.
 
_Ah, é! – a Mia riu, irônica – Porque a Clara vai achar, assim, “lindo”... né?
_A Clara não tem que achar nada, o apartamento é meu.
_Tá. Mas...
_Mia, na boa, vem aí quando quiser.
_Mesmo?
_Lógico, besta... – inclinei a cabeça para o seu lado, abrindo os olhos por um instante, e deixei escapar um sorriso – ...assim... só não vir com esses shorts aí que estamos bem.
 
Ela riu, dando-me um tapa de leve no braço, elogiada. Eu gostava de ver a expressão no seu rosto. Afundou mais ainda o corpo ao lado do meu, encostada contra o sofá com um cigarro apagado em mãos. Completamente fora de si. Deixou que o filtro lhe escapasse por entre os dedos, sem sequer dar-se conta, e ele rolou para o vão entre nós, a interseção onde as nossas pernas estavam se tocando.
 
_E a propósito... – a Mia disse, com um ar meio de entrelinhas – ...como vai... – prosseguiu, deslizando sutilmente a mão no decorrer da própria coxa, de forma que alguns dos seus dedos ficassem sobre o meu jeans, descendo até o cigarro – ...a Clara?
 
A acompanhei com os olhos, sem me mover. Mas os seus dedos continuaram para além do cigarro, como se por casualidade, para o espaço entre os meus joelhos. Isso não pode estar mesmo acontecendo, ri, em silêncio. E virei o rosto para ela, arqueando a sobrancelha.
 
_Me diz você... – respondi – ...”como vai” o Fer?
_Hum. Tem certeza de que quer entrar aí?
_Cê que começou... – achei graça na situação e ela sorriu, imprestável.
_Tá. Do que cê quer falar, então?
 
A sua mão continuava parada nas minhas pernas. E é – talvez tenha sido o rum ou toda a maconha dentro de mim, os shorts de menos nela, não sei, a sua presença inegável, maldita, em qualquer cômodo que ela ocupava, ou a percepção de que tudo o que eu conhecia, tudo a que tinha me acostumado naqueles anos, estava mudando, numa vontade irracional de me segurar ao presente, algo, algo impulsionava a minha falta de filtro, ou talvez fosse a descomplicação incomum daquela noite, daquelas conversas que me remetiam ao primeiro ano de namoro deles, à época em que os meus sentimentos por ela não pesavam tanto, não sei.
 
Mas a verdade é que eu sabia, sabia, aonde aquilo estava indo – e sabia desde o instante em que o Fer levantara para ir dormir, sabia desde o começo. Desde o rum, desde as suas pernas sobre as minhas. E ainda assim não me movia, eu ficava. Irredutível. “Do que você quiser”, respondi. Um tanto inconsequente. Os seus olhos presos aos meus. E então, as pontas dos seus dedos começaram a subir de volta pela parte interna das minhas pernas, suavemente, numa brincadeira perigosa – puta que pariu. As minhas pupilas abandonaram as suas, observando o que as suas mãos faziam.
 
_Bom, e se você... – a Mia sugeriu, quase sussurrando – ...me contasse... – segui atenta – ...o que era na outra semana, aquela mensagem.
_Que mens...? Ah! Ahn-ahn, não. Nem fodendo... – ri, você não espera mesmo que eu te conte em que estava pensando enquanto comia a Clara; a minha voz já arrastada.
_Por que não?! – achou graça, de repente.
_Não. Agora não.
_Ah, me conta, vai...
_Não, meu.
_Por quê?! Você tava... – sugeriu, quase tão lenta quanto os seus dedos sobre as minhas coxas, cujo movimento ela agora também acompanhava com os olhos – ... pensando em mim?
_E se eu tava?!
 
Respondi, a encarando.
 
Estava mesmo. De que adiantava mentir? – a mensagem tinha sido clara quanto a isso. A Mia levantou o olhar e o cruzou com o meu, sorrindo ao notar que eu a observava. O meu coração, embriagado, parou por um instante. Um milésimo. Você não, relutei em pensamento, v-você, puta que pariu, você é linda demais. Um som ritmado de cítara começou ao fundo. A olhava, a uma distância ainda segura. Os meus reflexos lentos, afetados por toda a fumaça, por todo o rum. I once had a girl...”, o Lennon cantou baixinho no rádio, “...or should I say, she once had me?”. E a nostalgia me foi embalando a cada verso de “Norwegian Wood”. Parte da minha consciência dizia-me, sóbria, “não faz isso”. Enquanto todo o restante considerava ignorar o aviso.
 
Os seus dedos seguiam subindo vagarosamente, apenas as pontas, entre as minhas pernas. E eu podia sentir cada movimento.
 
_Não começa, garota... – suspirei, hesitante.
 
Fechei os olhos, por um segundo. E senti as suas mãos, enfim, me tocarem. Não me aguentei. E abri novamente os olhos, observando-a se mover. Os seus dedos me pressionaram, sutilmente. E foram subindo, o calor represando dentro de mim. Lentamente, para cima – a minha respiração começou a pesar, impulsiva, e eu fui ficando realmente desconfortável, sentada ali. Não me movi. Não fiz nada. O meu coração, todavia, acelerava, instável com tudo aquilo, com o que eu poderia cometer se ela não parasse – com cada milímetro que ela continuava e continuava, puta merda.
 
Aproximou-se ainda mais de mim no chão, do meu corpo. A sua boca agora mais perto do que antes. A poucos e irrelevantes centímetros da minha. Meu deus, só, só para. A ponta dos seus dedos atravessou, todavia, a linha da minha calça, deslizando pela minha pele descoberta como num arrepio. Por debaixo da minha camiseta. Subiu pelo centro e veio descendo depois, contornando lentos arabescos imaginários pela lateral do meu corpo, percorrendo então a cintura do meu jeans. A essa altura, eu já estava perdendo a cabeça. Queria empurrá-la contra a primeira parede do apartamento que ela tanto gostava, fazer ecoar o quanto.
 
Mas não me movia.
 
Os seus dedos se colocaram acima dos botões da minha calça. O primeiro, num tranco. Não faz isso, inferno. Eu não podia beijá-la ali, como não podia. Eu não devia – mas sentia os seus dedos contornarem o segundo botão, sem qualquer intenção de parar. Tinha os seus olhos fixos nos meus. E eu ainda não deferira um movimento sequer. A sua boca, todavia, desafiava cada gota de autocontrole restante em mim. Completamente passiva às suas intenções como nunca ficara antes, inebriada a cada toque inconsequente seu. A cada decisão das suas mãos. Senti os seus dedos desabotoarem já não tão sutilmente a minha calça. Porra. Lambeu discretamente os lábios e os aproximou, ali, tão perto de mim, a sua boca entreaberta, ansiando por um beijo. O momento começou a me consumir, num fogo egoísta e – que se dane. Me movi para frente e a alcancei.

setembro 17, 2012

Receita pro desastre

A montagem das caixas começava a se tornar um caos. Uma após a outra, cada vez com mais dificuldade. A ideia tinha partido da Mia, que levantou em determinado momento para ir à cozinha e voltou com uma garrafa de rum entre as suas mãos que eu, cada dia mais, tinha certeza de que não prestavam. Nada. Nem um centavo. E se tinha uma coisa que eu e o Fer éramos incapazes de recusar, como os fracos humanos que éramos, era rum gelado – e ela sabia, maldita. Eu podia ver os trilhos prestes a serem descarrilhados, como uma observadora passiva, e não fiz nada a respeito. Pelo contrário. Bebi gole atrás de gole, rindo junto aos dois por horas no chão da sala, em meio aos vinis espalhados.
 
A nossa sorte é que embalamos cuidadosamente a vitrola ainda no início da garrafa. Agora já estávamos na sexta ou sétima leva de vinis. E descontávamos a nossa crescente falta embriagada de coordenação no papelão, que se tornava cada vez mais amassado na lateral torta das caixas. As conversas logo passaram a ocupar todo o nosso tempo, enquanto pouco trabalho era, de fato, feito. Por volta das onze, acendi um baseado, abdicando do meu posto. E ri da desorganização que causamos na sala. Fazia tempo que eu não me divertia assim com o Fer e a Mia. Senti falta disso, admiti para mim mesma – apesar dos pesares, aquelas eram duas das minhas pessoas favoritas no mundo, com quem eu me dava tão bem. E eu não queria que acabasse. Peguei um dos compactos originais de rocksteady do Fer nas mãos para olhar a capa e a Mia me roubou o baseado.
 
_Mas, e aí, afinal... – ela tragou demoradamente – ...quanto tempo vocês já tavam aqui?
_Foram cinco, seis... não! Cinco anos e... seis me... – comecei a calcular em voz alta, confundida pela quantidade de rum que se infiltrava na minha cabeça.
_Oito! Foram oito, meu.
_Não, Fer... OITO meses?! Nem a pau... – balancei a cabeça para ele, com convicção – ...eu tinha quase 19, tenho certeza! Faltam quatro meses pro meu aniversário ainda, não pode ser oito.
_Então foram sete. Seis não pode ser... – argumentou, sério – Mano, seis meses a gente teria que ter mudado em... espera, que mês a gente tá agora?
 
Comecei a rir, largada no chão.
 
_Como cê não sabe em que mês a gente tá?! – gritei com ele – Não faz uma semana que virou o ano, caralho!
 
A Mia começou a rir comigo, sequer entendendo o que se passava naquele momento. O baseado em mãos. Peguei-o de novo e puxei ambiciosa por algum tempo, na intenção de segurar tudo aquilo nos pulmões – mas, claro, comecei a rir mais uma vez e tossi, a fumaça escapou toda. Bateu uma brisa forte quase instantaneamente. O Fer agora ria de mim. E o som na sala seguia barulhento, tão alto que já começava a ser passível de multa. A gente falava cada vez mais alto.  Competindo com os alto falantes, aos berros, numa energia caótica.
 
_Todo dia, eu juro! – apontei o indicador contra o chão, numa assertividade embriagada – Nós saímos TODO DIA quando mudamos pra cá. Mano, não lembro nem O QUE aconteceu no primeiro mês que viemos pra Augusta! É, tipo, um grande borrão!
_Virou o mês e a gente já tava casado com a privada... – o Fer riu, dando duas bolas rápidas – ...essa aqui passava mal no vaso, eu ia ajudar e acabava gorfando no chuveiro, uma beleza.
_Cara, na boa, eu peguei gente que eu não sei o rosto até hoje... – achei graça e a Mia sorriu, nos observando tagarelar – ...se eu vir na rua hoje, juro que não sei dizer.
_Nem eu, porra... – o Fer riu – Não. Espera! Quem eu tava pegando quando a gente mudou?
_Nossa... Cê jura mesmo que cê espera que EU lembre? – comecei a rir do pedido absurdo quando, subitamente, me ocorreu num flash desagradável de memória – MANO! NÃO! Nããããão, ahhh! Você tava com aquela mina insuportável! Puta merda, Fernando. Essa era pior que a Julia, velho. Lembra? A, aquela lá, a que me odiava. Homofóbica do caralho!
_Ah, a Karina... – ele começou a rir, também.
_Nossa... – a Mia entrou de novo na conversa – ...por que te odiava, meu?!
_Ela tinha alguma coisa contra, sei lá. Mano, era só eu CHEGAR no apê, que ela revirava os olhos. Toda vez! E se eu tivesse com alguém, então, ela saía do cômodo. Puta mina idiota. Depois veio dizer pro Fer, não foi, que não achava que cê devia andar com “gente assim”. Muito babaca!
_Credo! – se revoltou, dando um tapa no ombro do Fernando – POR QUÊ cê tava com essa escrota?!
_Ah, sei lá... só tava, meu. A gente nem ficou tanto tempo assim, dei um pé nela depois que ela falou essas paradas aí...
_É. ”Sei lá”, né... – comecei a rir de novo, sabendo a verdade, e me virei para a Mia para fofocar – ...ela tinha, mano, juro...
_Fica quieta! – o Fer se meteu.
_Cara, a garota nã...
_Cala a boca! – me empurrou com o pé, interrompendo de novo.
 
Comecei a gargalhar. E a Mia se esticou, naqueles shorts cada vez mais difíceis de ignorar, vinda direto dos infernos para o meu lado, até alcançar o isqueiro largado no chão. Acendeu mais uma vez a brasa já apagada do baseado. O cômodo já enevoado, o contraste com a lâmpada amarela no teto não ajudava muito. A poucos centímetros da TV, o rádio tocava “Oh Babe” no último volume, na versão do Ewan & Jerry com Carib-Beats, e o meu pensamento se fundia meio vago à atmosfera ensurdecedora, perdido entre as palavras que gritávamos uns para os outros e a letra da música ao mesmo tempo, rindo incessantemente.
 
Sentia os meus pensamentos sumirem. Oh babe, watcha gonna do now”, a música seguia, “I’m sick and tired, tired, tired, girl, and I’m worried over you now”. A muito custo e com algumas distrações extras, fechamos mais uma caixa – sobravam agora só poucos discos, espalhados pelo chão. O Fer já começava a sentir o baque daquela maconha toda no cérebro. Bocejando durante a montagem da caixa seguinte, enquanto eu ainda fumava descomedida, empurrando a fumaça seca com o que restava do rum, chegando ao final da garrafa, num comportamento insensato.
 
O trem descarrilhava. Sem que tenha demorado muito, apenas quatro ou cinco músicas depois, o Fer bateu com as mãos nos joelhos e levantou do chão, anunciando que não conseguia mais manter os olhos abertos. “V-vou nessa”, disse. Deu dois passos até a prateleira no centro da sala, abaixando o volume do rádio, e se virou para nós duas – “pode largar o, o, os coisos aí que, deixa que, q-que amanhã de manhã eu termino”, falou em palavras arrastadas, desconexas. E entrou no corredor para ir dormir.

setembro 12, 2012

Pré-Bacardi

_Hum, alguém tá de bom humor... – comentei, ao escutar o Fer entrando aos risos com a Mia no apartamento.
 
Sob risco de ganhar um olhar feio na minha direção. Mas não – ele só riu e passou por trás do sofá, onde eu me esparramava jogando videogame, me dando um tapa atrás da cabeça. Até me reajeitei no lugar, virando a cabeça para os observar, surpreendida pela mudança de atitude do meu amigo. Os dois carregavam caixas de papelão nas mãos, roubadas do mercado, seguindo para o quarto do Fer. Isso só pode ser obra sua, olhei para a Mia, caminhando logo atrás dele e então tornei a encarar a TV.
 
Era o último dia do Fer na casa. Agora resolveu desfazer o bico?, balancei a cabeça, achando graça. Vai entender. Os dois passaram a tarde inteira trancados no quarto, pude ouvir a música alta e os risos vazando por debaixo da porta, enquanto empacotavam o que restava das coisas dele. A maior parte – as roupas, os lençóis, todos os livros – estava acumulada lá dentro, socada no fundo do armário. Enquanto isso, ainda na sala, eu abria a minha terceira cerveja do dia, afundada no sofá e quase desfalecendo de tanto calor.
 
Quando, por fim, a porta do quarto abriu de novo, o sol já começava a se pôr. O som escapou barulhento para o corredor – um "give me champagne when I'm thirsty”, na voz rouca do Muddy Waters, “give me a reefer when I wanna get high". Cantei por um instante. Poucos segundos depois, senti a Mia apoiar os antebraços no encosto ao meu lado, em pé atrás do sofá onde eu estava. Subi os olhos na sua direção.
 
_Acalmou a fera? – comentei e voltei os olhos à TV, sem chegar a pausar o jogo.
_Ah, ele está nervoso... Com a história toda, né, não queria ter que sair... – ela respondeu e passou os pés descalços por cima do encosto, deitando-se ao meu lado e colocando as pernas com naturalidade sobre as minhas – ...mas eu disse que ele precisava aproveitar o tempo que tem aqui e não ficar pensando nisso, se torturando pelos cantos. Não é como se fosse o funeral dele, também.
_É...
 
Respondi, meio sem jeito, pega desprevenida por toda a sua “liberdade” repentina. O que você tá fazendo? Procurei me distrair da audácia das suas pernas, expostas naqueles shorts minúsculos sobre o meu jeans, focando os olhos no jogo que ainda rodava na TV. Mas o incômodo ainda se espalhou, morno, pelas minhas bochechas. Não é nada, me reajeitei levemente no lugar. A tatuagem que fiz nela logo ali, na minha visão periférica, puta merda. Tentei me tranquilizar. Não quer dizer nada. E mesmo assim, a minha cabeça disparava, pensando inevitavelmente na porra do seu namorado no fim do corredor. Não podemos ficar assim. Não com o Fer logo ali, caralho!
 
Apertei o botão embaixo do controle, soltando um casco vermelho na pista. Ou sei lá que porra era. Já na segunda volta no Mario Kart e a minha respiração disparando, sem qualquer relação com o percurso. Sentia as pernas dela pesarem sobre as minhas. Desde quando tá tudo bem... fazer isso, porra?! Com essa intimidade toda?, a questionava em pensamento, sem abrir a boca. E brigava comigo mesma, não devia ter mandado aquela mensagem, não devia ter falado nada, cacete. É culpa minha.
 
Aquilo era ridículo e eu sabia – argh. Um movimento da Mia e lá estava eu, perdendo a minha cabeça no meio da sala. De novo. Quantas vezes mais preciso superar essa merda?, continuei jogando em piloto automático, enquanto convencia a mim mesma de que não significava nada. Que não era uma porra dum problema. Se o Fer vir a gente aqui, ele não vai pensar nada. É normal. As pessoas fazem isso o tempo todo. Não tem nada de errado. O problema tá só na minha cabeça suja. Pisquei forçosamente, na tentativa de afastar a culpa. E por que inferno eu me importo, afinal?, me revoltei, fodam-se as pernas da Mia. As duas! Dane-se. Não dou a mínima, eu tenho a Clara, cacete.
 
As coxas dela, todavia, continuavam ali.
 
_E você...?
_Hum?! Eu, o quê?
_Está... – a Mia questionou, me olhando – ...nervosa com tudo isso?
_E-eu... não sei.
 
Respondi sem ser lá muito sincera. E senti suas coxas escorregarem de leve no meu colo. Estou nervosa com as suas pernas aí, caralho, isso sim. A verdade é que ainda não havia dado à mudança toda consideração que deveria – sabia que quando pensasse a respeito, de fato, ou me visse enfim sozinha no apartamento, ia entrar em parafuso. Então postergava. Não vou pensar nisso agora. Não posso. Voltei a minha concentração ao jogo mais uma vez, já na última volta. E foi quando ouvi o Fer surgir detrás do sofá, vindo do corredor, pedindo que o ajudássemos a empacotar os vinis da sala. Pulei em pé na mesma hora – me livrando o quanto antes daqueles 95 centímetros de evidência pernas.
 
_Cara, acho que vou levar só a vitrola e os discos – ele explicou – Vou deixar os CDs aí, beleza?