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maio 24, 2013

Le Rendez-Vous

_Você não vai voltar pra lá, não, ô?! Tá todo mundo te xingando já lá embaixo... – a Lê deu-me bronca pelo sumiço, que agora já passava de uma hora – ...e oi, você não lembra de mim, né. Eu sou a amiga que essa vaca está tentando esconder junto com as outras.
_E com MOTIVO, não é, Letícia?
_Ih. Motivo nenhum, hein... – me contradisse, assegurando o seu bom-mocismo. Aham, tá bom.
_Lembro, sim... – a Mia riu – ...vamos para lá, então.

Péssima ideia. Mas acompanhamos a Lê até o andar de baixo, onde as garotas nos esperavam, curiosas pela Mia. Ou melhor prestes a me fazer arrepender daquela decisão. Nos sentamos na pequena varanda, junto a elas; as caixas de som tocavam um Johnny Cash qualquer. Todas nos olharam, mudas. Incertas de por onde começar a puxar assunto. E a Mia as cumprimentou um tanto distraída, sentando ao meu lado em seu shorts jeans rasgado. As tatuagens à mostra nas pernas. Uma nada sóbria Camila fez então o primeiro comentário – “e você tão juntas ou o quê?”, disparou, assim sutil.

_Cá, menos... – pedi.
_Pois é – a Lê logo se intrometeu, dando uma de desentendida –. Você não tava com um cara na Sarajevo?!
_LETÍCIA! Caralho.

A olhei, realmente irritada. E a Mia achou graça.

_Tudo bem... – disse, nada constrangida – Era eu, sim.
_Mas você ainda tá com ele? – a Camila continuou, de propósito; no fundo, eu sabia que todas elas preferiam a Clara à  minha-dor-constante com a Mia e isto transparecia.
_Você é hétero, então?! – a Ana sugeriu, colocando um copo na mesa.
_Na boa, você não precisa responder. Elas estão sendo idiotas.
_Não tem problema... – a Mia riu – ...tá tudo bem, mesmo. E é, na verdade, ainda estou com ele. Oficialmente, pelo menos. Mas o nosso namoro meio que está acabando...

Está?

_Sei – a Lê retrucou, incrédula.
_Acho ótimo – a Marina comentou então, um pouco mais distante e abraçada à advogada –. Ela gosta muito de você, sabe?
_Ok. É isto. Já chega!

Me levantei, nem cinco minutos depois de termos nos sentado. “Acabou a graça”. Puxei a Mia pela mão, fazendo com que viesse comigo – “vocês não sabem ficar quietas, porra, que saco!”. “O que foi que eu fiz?”, a Marina sorriu, claramente se divertindo, “é tudo verdade, Mia. Gosta mesmo”. Eu quis matá-la naquele mesmo instante, argh. A Mia ria. “Ótimo. Sabe, vocês são um bando de crianças. Na boa. Não dá. Eu vou pra lá!”, resmunguei, constrangida pela ceninha delas. Todas me zombaram então, é óbvio, em um coro – “ooooooooohhh” –, achando graça. Empurrei a Mia escada acima.

_Desculpa. Sério mesmo. Elas são muito babacas.
_Não achei ruim... – a Mia riu, agora de volta comigo ao mesmo canto no terraço – achei engraçado, mas só, foi tranqüilo.
_Engraçado?! –balancei a cabeça, puxando o maço do bolso.

Tirei o segundo cigarro da noite, entre os dedos. E me apoiei numa das muretas que davam para a rua, ali embaixo, tragando. A Mia ajeitou uns fios soltos da sua trança, colocando-os atrás da orelha com certa delicadeza – havia uma brisa morna e leve no ar. Quis perguntar-lhe algo, mas hesitei. Tive medo da resposta. O contorno da sua boca parecia atrair os meus olhos – e os de algumas outras ali, no Flamingo –; aquela garota era um fenômeno. Fascinante. A observei por algum tempo, então disse:

_Você falou mesmo sério, aquela hora? – tentei ser simpática – Ou só estava querendo impressionar as meninas?!
_Em que hora?
_Lá embaixo. Sobre o seu namoro e o Fer.
_E o que você acha? – ela me olhou, roubando o cigarro das minhas mãos.
_Não sei. Você não disse nada sobre isso a semana toda...
_Bom, eu estou aqui. Não estou?
_...

Abaixei a cabeça. Isto não responde nada, pensei inquieta, em silêncio, observando o movimento na calçada. A Mia se apoiou também na mureta, parada ao meu lado. E então murmurou, agora mais séria, sem voltar o rosto à minha direção.

_Já está na minha cabeça faz um tempo. É só que... não é fácil e, sei lá. Mas eu sei que eu preciso falar com ele, eu vou falar, já decidi. Argh! – trombou com a lateral do corpo em mim, frustrada – Você me prometeu que a gente não ia falar de bad hoje, meu.  
_Eu não prometi nada disto! – ri, indignada.
_Não é justo. Prometeu, sim. Você tá cheia de frescura, velho! Tá sendo um saco conversar com você esta semana... Já chega. Chega desse assunto.
_Tá bom... – achei graça.

A Mia forçou o corpo sobre a mureta, olhando mais adiante no movimento que vinha da Augusta. Me ignorando. E o silêncio permitiu que os sons das mesas – casais e outros grupos de meninas –, atrás de nós, chegassem aos nossos ouvidos. Balancei o corpo na sua direção, empurrando-lhe de volta com o ombro. E ela riu, eu também. O som das caixas no andar de baixo ressoava sem muita força, competindo com o terraço. Chérie chérie j'en rêve la nuit. As melodias insólitas do Manu Chao se misturavam com as conversas paralelas. Sentia o meu humor instantaneamente melhor; animada. Podia dançar com ela a noite toda, ali mesmo.

_Quantas garotas – sussurrei-lhe então –, me diz, você já beijou em público? – aproximei os lábios do seu pescoço e mordi a pontinha da sua orelha; a Mia se contorceu. E eu sorri.

maio 23, 2013

No terraço

_Difícil, hein... – ela sorriu para mim, em intimidade.

Eu desviava de um último grupo de pessoas para conseguir chegar até onde a Mia estava, ali perto do bar e entre as transeuntes moderninhas. A minha mão a segurou inconscientemente pela lateral do pescoço, entrelaçando os meus dedos no cabelo em sua nuca, num beijo sem comedimento no seu rosto. A minha pele parecia procurar a dela – acho que é o risco que se corre quando acostuma-se a tocar alguém assim, como nós perigosamente o fizemos nas semanas que se antecederam ao Flamingo. Repetidas vezes, na minha cama e nas paredes do apartamento.

_E aí? Demorou, pô. Estava perto mesmo ou tava em Higienópolis, querendo me ver? – brinquei, com uma autoconfiança metida.
_Ai, besta. Estava do outro lado da Bela Cintra, na casa de uma amiga.

Revirou então os olhos para mim e a minha descrença e eu franzi as sobrancelhas – “aham!” –, fingindo acreditar. Nós rimos. Ela estava bonita, tinha os cabelos presos numa trança lateral longa e com alguns fios soltos.

_E você já tinha vindo aqui?
_Acho que não.  Ei, aquela ali não é a sua ex? – a Mia olhou sobre o meu ombro e eu me virei, encontrando a Marina a metros de nós, fofocando com as outras na varanda; todas elas olhavam em nossa direção, sem sequer disfarçar o "assunto".
_É... – infelizmente, murmurei.

E as fuzilei com a força da mente. O que diabos vocês pensam que estão fazendo, mano?! Peguei a Mia pela mão e a “convidei” a conhecer o andar de cima, bem longe delas, onde um terraço se abria para o céu paulistano. Entre pequenas mesas e luzinhas penduradas nas muretas. A área externa estava tomada de gente. Mas logo encontramos um cinzeiro e um canto, em pé frente a um dos parapeitos de concreto. “Adorei o lugar, meu...”, a Mia disse e eu sorri, acendendo um cigarro. A noite estava morna e agradável. Eu a observava impulsivamente. Em partes, era um tanto estranho estar com ela em um bar sapatão – e assim, tão em público. A Mia roubou o filtro das minhas mãos e o tragou, lentamente, conforme um garçom se aproximava.

_Vamos pedir alguma coisa?! O que você está bebendo?
_Não comecei ainda. Tomei uma cerveja só.
_Nossa... – pareceu surpresa, para um sábado à noite.
_Ahh, é que a Marina tá aí. E aí ela fica me regulando, tive que “comer antes” – eu ri, como se repetisse as suas exatas palavras para mim –, mas de boa. Vamos começar agora...
_Espera. Vocês terminaram quando mesmo? – a Mia me zoou – Achei que você já fosse dona das suas bolas de novo.
_Idiota. Eu posso beber se quiser, tá. Eu só não vejo motivo pra causar estresse, ela fica toda preocupada comigo...
_Sei.
_E ninguém aqui precisa de bola, não, viu... – me aproximei dela, lhe garantindo.

Estou vendo”, ela me observou de volta, rindo. E então pedimos. A primeira dose acabou seguida logo por uma segunda. Dois runs. E eu a acusei então de tentar me embebedar, o que me rendeu uma resposta tentadora – e sensualíssima – dela. Que sussurrou, num canto do Flamingo: “Eu gosto quando você perde o limite comigo”. E aí deu de ombros, voltando a tragar, apoiada na mureta do terraço: “Pelo menos assim você esquecia essa babaquice de ‘só amigas’ por uma noite”. É. Talvez. Por enquanto, todavia, eu permanecia em controle absoluto das minhas ações e opiniões – e não ia liberar um beijo sequer enquanto ela estivesse namorando o Fernando. 

Convencia-me disto. Ainda que, tudo o que eu queria agora era a porra de um beijo dela, puta que pariu. Mas a noite se desenrolava divertida, não obstante. E descontraída. Com sutis investidas minhas e irresistíveis insinuações dela. Eu a entretia agora com minhas habilidades, fazendo descrições detalhadas de cada relacionamento lésbico que se manifestava naquele terraço – observando os casais e garantindo que a Mia risse dos estereótipos visíveis envolvidos nos namoros entre meninas. Como as que se apaixonam por si mesma; a machinho dominante; as que se tornam uma à outra, vestindo a exata mesma roupa; os relacionamentos abertos da Augusta, modernos; e as ciumentas, fechando a cara para cada garota que passava ao lado da sua. 

Já lá pelas tantas da conversa, agora dividindo uma cerveja comigo, a Mia me perguntou: “E qual destes, então, é você?”. De repente. E eu não pude evitar senão sorrir, antes de lhe responder. “Depende de quem é a sortuda...” – a olhei direto nos olhos. Sugerindo sutilmente que se voluntariasse como exemplo. E ela me encarou por alguns segundos. Balançou a cabeça então, rindo, e mudou de assunto: “enfim...”. Eu fiquei sem jeito por um instante. E me senti exposta, como se o meu coração inflasse doído. Engole essa. Mas antes que a Mia indecisa de sempre me puxasse de volta para a realidade, a Lê surgiu ao final da escada.

maio 15, 2013

Last day of magic, where are you?

Instantes depois, a Marina surgiu na porta do apartamento para avisar que tinham ligado da portaria. O Fer desceria logo em seguida – para tirar o carro e voltar a Santo Amaro. Graças ao meu descontrole emocional, eu estava agora em maus lençóis. Pior do que começara. Tinha que lidar com um amigo ultracompreensivo pelos próximos dias, tentando compensar o mau que não havia me causado para começo de conversa. Como eu consigo me pôr numa destas? A atenção dispensada comigo pelo Fernando me fez sentir ainda pior quanto ao rolo todo com a Mia.

Ela, por sua vez, sumiu. Por algum tempo, pelo menos. Duas manhãs após a ida dele ao apê, enviei um SMS para ela do trabalho. Estava descansando ao lado do galão de água – que eu e o estagiário, com muito esforço, fracassamos em colocar na máquina sem encharcar o resto do cômodo –, quando então decidi lhe escrever os meus anseios. Algo breve como: “O Fer foi lá anteontem. Me senti mto mal, a gnt precisa resolver essa merda...”. Toda a minha delicadeza foi, claro, ignorada. Três ou quatro dias depois e ela ressurgiu, de repente. Me ligando. Eu estava no supermercado, aquele do shopping Frei Caneca, junto com o Du, fazendo as compras para a casa.

_Posso ir te ver?
_Como assim? Você quer conversar? – perguntei distraída, me curvando sobre a seção de enlatados.
_Não. Não quero conversar. A gente não pode deixar isto de lado um pouco?! Eu só quero te ver, porra.
_Mia, eu... – suspirei, olhando na direção do Du, que fez a sua melhor cara de “mais um drama sapatão”; o afugentei com uma lata de milho que segurava em mãos – ...olha, eu também quero, eu tô louca te ver. Mas eu realmente acho que a gente devia esperar, sabe. Decidir as coisas antes...

Os créditos pelo meu recém adquirido discurso (“maduro”) eram todos da Marina. Na noite de sábado, ainda no apê, ela me disse exatamente – palavra por palavra – o que eu devia falar caso sentisse vontade de ver a Mia. E naquele instante, eu sentia. Puta merda. Ela desligou pouco depois, me garantindo que entendia, mas soou rancorosa com a minha firmeza no assunto. Parte de mim se contorcia, eu a queria aproveitar antes que se decidisse de vez pelo Fernando. Vê-la todos os dias, que se dane, confusa e sem tomar qualquer decisão; como sempre fora. Deixar passar. Fazia quase uma semana que eu não a via – nem ela e nem mais ninguém. Gastara minhas noites no Skype com o Fer, tagarelando com o coração ainda doído, ou praticando arremesso de amendoim na sala com o Du. Enchemos um sofá e o chão inteiro antes de acertarmos a boca um do outro.

Mas não cedi. E tão logo já era sábado novamente. Me encontrei com as meninas no Clube Flamingo, umas quadras acima na Augusta. Vieram a Lê e a Marina, inclusas no pacote; a Ana, a Flavinha, a Ju e também a Camila, que chegou um pouco mais tarde.  A última vez que as vira eu estava com a Clara, na casa da Lê e da Ana. E tive certo receio de ter que me explicar, agora sem ela – mas logo notei que a Marina já se encarregara daquilo. Não disseram nada. Apenas me olharam com aquela expressão de “sinto muito, cara!” ao me ver entrar. Foi bem pouco confortável. Podia ouvir, entalado, nos lábios da Lê – “como você foi deixar aquela garota escapar?”. Argh. Pensar na Clara ainda me machucava.

Estavam ali sentadas, na varanda do segundo andar do Flamingo. O clima moderninho e levemente sapatão do bar se traduzia na clientela ao nosso redor. Assim que pedi um dos famosos hambúrgueres da casa, a Marina se aproximou do meu ouvido e me confidenciou, por cima do ombro – “a Vivian falou que vem!”. Ela queria que a bola da vez nos conhecesse. Ficava explicada, agora, toda a atenção que a minha ex dera ao seu celular nos primeiros vinte minutos em que ficamos ali. Isto mudava tudo. Não que eu tivesse ciúmes da Marina em si, eu achava ótimo que ela estivesse transando e amando e o que fosse com outras mulheres. Eu tinha um problema era com o seu coração desprotegido, isto sim. E vê-la gostar de alguém não era fácil para mim. Eu ficava automaticamente na defensiva.

A garota chegou nem meia hora depois e logo me ajeitei na cadeira:

_Oi – ela disse, com seus ares de advogada, meio careta como a Marina era –, tudo bem? – sorriu; tinha os cabelos claros e castanhos, quase na altura dos ombros.
_Prazer – a cumprimentei no rosto.

O inquérito todo durou cinco minutos. E rapidamente as garotas acharam algo novo sobre que fofocar. A Marina se encasulou num canto a meio metro de mim, com a Vivian, e de lá não saiu mais. Trocavam cochichos, o tempo todo, e se beijaram numa ou noutra ocasião. Então o meu bolso vibrou. Tirei o celular para fora e era uma mensagem da Mia: “Vc tá no apto?”. “Não”. E ela logo retornou: “Mas tá perto da Augusta?”. Não ousei responder. Cutuquei a Marina com o pé, que agora se entretia mais adiante com a atual companheira de idas e vindas amorosas, e  ela me olhou. “A Mia está me chamando”, anunciei meio hesitante.

_Fala o que eu te falei pra falar naquele dia...
_Quê?! – a Vivian riu da frase, sentada ao seu lado.
_Eu já disse tudo aquilo...

A Marina me lançou um olhar materno – “então, já sabe, né?”. Argh. Respondi o SMS, perguntando por que ela queria saber. E a Mia disse que estava à toa na rua ao lado, sozinha. “Sem nada para fazer...”. À toa, sei, num sábado à noite – arqueei as sobrancelhas. Ninguém sai sozinho assim, não para vir à Augusta. Muito ardilosamente, aquele pedaço de mau caminho tentava me corromper – e para ser sincera não precisava muito mais do que isto. “Onde vc ta, fala vai?”. “E como vai o namoro?”. “Deixa de ser besta! Fala!”. “Ñ, porra!”.

A minha insistência a fez calar por algum tempo e me vi, de repente, sozinha – a Marina “ocupada”; Flávia e Ju iniciando uma DR na porta; a Lê e a Ana em sua dinâmica própria, falando asneiras; e a Camila concentrada no seu lanche, um hot dog gigantesco –. Fiquei olhando para a tela do celular e esperando, ali. Nada. Minutos se passaram até que eu escrevi: “cara, vc é cruel...”. “Eu??”, ela logo retornou, ressurgindo das cinzas. “Me diz, pra q mexer com quem ta quieto?”. “Rs rss, é q tava pensando em vc...”. “Sei”. “Ce nunca acredita, ne?”. “Ñ, rs”. “Me conta onde vc ta, vai. Eu vou ate ai :)”. Podia sentir o nome do bar já formigar nos meus dedos, querendo lhe falar. Droga. Cutuquei mais uma vez o pé da Marina.

_Mááá – choraminguei, como se lhe pedisse permissão –, ela quer vir aqui, meu.
_Flor, cê sabe que não é uma boa.
_Mas eu quero ver ela, porra...

A Marina deu então com as mãos para cima, abdicando-se da responsabilidade dos meus atos. “Tá”, respondi para a Mia, ansiosa, “mas sério a gnt ñ pode ficar!!”. “Prometo”. “É SÉRIO!!”. “Ok”. “Msm. Vc precisa resolver as coisas antes com o Fer, meu...”. “Tá, kct!”. “Só vou fzr isto pq mto qro te ver, mto”. “s2 Qto ta pra entrar ai?”. “20 consuma”. “Ok”. “Mas ñ tô de brincadeira, Mia. Somos só amigas hj”. “Fala logo”. “Affe, olha lá, hein...”. “Eu vou te matar. FALA!”. “E qro conversar com vc tb, saber oq vc pensou esta semana...”. “Sem bad hj, na boa”. “Mia, ñ é isto, vc sabe...”. “Zzzzzzzzz... deu até sono!”. “Eu to falando mto sério!!”. “Velho... PQP”. “Que?”. “Me lembra de te dar uns tapas qdo chegar ai? FALA LOGO ONDE CE TA!!”. “Ta, ta. Tô no Flamingo”. “Aleluia, hein. Chego ai em 10!”.

Em quinze minutos – e não dez –, ela surgia da escada do bar. Em um shorts jeans meio rasgado e irrecusável.

maio 07, 2013

Lucille jamais me compreenderia

“Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de uma estrela cadente para outra até desistir. Assim é a noite, e é isso o que ela faz com você, eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão''. 
 Jack Kerouac

O assunto – claro – nos encontrou. Estávamos distraídas agora, discutindo as idas e vindas da Marina com a tal advogada Vivian, de quem ela parecia realmente estar gostando nas últimas semanas, quando bateram na porta. Lá estava ele, sem convite ou aviso – o Fer. Eu havia ficado largada no sofá, lidando ali com a minha própria ressaca, enquanto a Marina se levantara para abrir. “E aí?!”. A sua voz me fez pular imediatamente no sofá. Ele sorriu ao vê-la, a cumprimentando – “por que não foi ontem?”. Disse já entrando, largando a chave do carro na mesa ao lado da porta.

_Foi... muito em cima da hora – a Marina ficou sem reação por um instante, me olhando por detrás com as pupilas arregaladas –. É que eu... eu fui pra São Caetano com a minha irmã, na formatura de uma amiga.
_Hum. E você, hein?! – o Fer me encarou no sofá, pouco amigável – Como tá aí, palhaça?!

Eu  o observei atônita, ainda sem reflexo à sua presença.

_Vai pegar meu casaco lá, vai. Parei na vaga errada lá embaixo, não posso ficar.
_Aconteceu alguma coisa? – a Marina logo interveio, conforme eu me levantava para ir na direção do quarto, atordoada, ainda sem falar nada.

Inferno, inferno. A minha cabeça começou a martelar imediatamente, eu entrava no corredor. Abri a porta do meu quarto e observei os lençóis ainda desarrumados. Desde a minha trepada com a Mia. Puta merda. O meu estômago parecia apodrecer dentro de mim, sentia uma vontade repulsiva de vomitar a mim mesma. Eu sabia que ela o havia deixado para me encontrar naquela manhã. Caminhei até o armário num impulso e peguei a droga do casaco, emprestado na saída da Gambiarra. A minha mão hesitou antes de abrir novamente a porta que dava no corredor. Parte de mim queria morrer.

_Sabe, Má, ela é foda... – ele conversava com a Marina, em tom baixo, quando me aproximei da sala.
_Aqui.

Lhe entreguei o casaco e ele checou imediatamente os bolsos, ao pegá-lo das minhas mãos,  atrás do seu RG. Estava ali. Era isto, logo pensei. “Preciso ir nessa”, declarou então sem esperar muito e a Marina o abraçou para se despedir, dizendo em seu ouvido que falaria comigo. Provavelmente sobre a quantidade de álcool e desrespeito que eu despejara na pista da The Week naquela madrugada. O Fer olhou para mim em seguida, como se esperasse algo. Uma desculpa, talvez. Por uma briga da qual eu sequer lembrava. Murmurei um agradecimento tímido por ter passado lá, sem conseguir encará-lo direito. E ele foi em direção ao lado de fora.

 _Fer! – o chamei antes que chegasse à porta, argh – Espera, quero falar com você.
_Preciso ir, vou chamando o elevador. Beleza?

Assim que me pus à frente para segui-lo, a Marina me segurou pela mão e cochichou prontamente – ele já não estava mais no apartamento –. “Não fala nada agora, não me inventa de falar qualquer coisa”. Eu a olhei, um pouco relutante.

_Você não pensou isto direito. Espera a Mia te responder, não me vai dar uma das suas de abrir a boca e se arrepender depois. Você não vai saber lidar com isto agora – disse séria na minha direção.
_Eu não vou falar. Eu só – passei a mão na cabeça, confusa –, não sei.
_Está tudo bem – ela me acalmou, ainda sussurrando –, tá. Vai lá!

Saí no corredor e o Fernando me esperava encostado contra a parede, à frente do elevador.  Nuns jeans largos, com uma camiseta velha do Jethro Tull. A mão segurando o casaco. A sua Hannya, tatuada no braço, estava virada para o meu lado. Argh. Não importava os vinte e tantos anos, ele ainda parecia um moleque – o meu moleque. E eu sequer sabia a merda que havíamos discutido na madrugada anterior, os dois bêbados. Tive receio de saber.

_Você está bravo comigo? – murmurei ao me aproximar, cruzando os braços e encostando ao seu lado.
_Não tô bravo. Mas você também é foda, né, velho...
_Eu... tava louca da cabeça, Fer; fiquei muito chapada.
_Tá, e daí?! Eu também tava – começou a me dar bronca, aumentando o tom –; eu também bebo, porra. Eu também perco a noção e saio, quebro tudo. Mas eu não parto pra cima de você, cacete!
_Desculpa, eu nã... – suspirei, já me detestando; argh – ...o que eu disse, afinal?
_Ah! Me mandou à merda, mandou todo mundo à merda. Disse pra eu te deixar em paz quando a gente tava tentando te levar pra fora, cê já tava completamente fora de si... – reclamou, irritado comigo –. Ficou falando que era “fácil” eu falar, que eu tinha a droga a minha vida e do meu namoro; que eu não sabia o que você tava passando. Meu, todo mundo entendeu que você tava chateada, porra, que era por causa da Clara e o caralho – abaixei a cabeça, me arrependendo mais a cada palavra que ele dizia –; só que você desconta em quem tá tentando ajudar, velho, não dá! Eu já tive que escutar de você antes; a Marina também já passou por isto, sabe. Você tem umas, cara, que é foda aguentar. Foda mesmo.

Nisto, o elevador chegou. E eu não consegui falar nada, irritada comigo mesma. Acrescida à culpa que sentia pela conversa com a Mia. Eles provavelmente haviam discutido naquela manhã, antes dela vir – e eu sabia. “Está aí já. Escuta, tá de boa, sabe...”, ele disse, meio querendo sair logo, “mas preciso ir”. Tinha gente esperando dentro do elevador. O Fernando foi naquela direção, sem se despedir de mim. E senti vontade de voltar a chorar, o meu peito estava destroçado desde aquela tarde. Pedi então que esperasse – e ele viu os meus olhos marejados. Merda. Deixou ir o elevador.

_Ei... – mudou imediatamente de atitude, assustado.
_Me desculpa, Fer, me desculpa. Por favor – pressionei a cabeça contra o seu peito, arrasada, lhe implorando –. Eu, eu não queria ter feito nada disto. Eu sou uma idiota! Eu tava fora de mim. Por favor, me perdoa.
_Ei, calma. O que acontece... – ele me abraçou, um tanto preocupado, e riu – ...não precisa chorar. Tá tudo bem, sua bicha. Não foi nada. Quantas vezes eu já num fiquei mais louco que o Batman também e fiz um monte de merda?! Relaxa. Acontece.
_Não tá. Não tá tudo bem – choraminguei – Não tá, eu... – ergui então o rosto, esfregando a mão contra a cara; e o olhei, desesperada com a situação – ...o que eu vou fazer, Fer? Sério, que merda eu vou fazer?!

A esta altura, a pergunta claramente não era quanto à bebida ou a minha atitude estúpida toda vez que bebia. Era o que diabos eu ia fazer com a minha vida. O que eu ia fazer com ele, o que ia fazer com a Mia. As minhas entranhas se dilaceravam, indecisas, em aflição. E ele me olhou, levemente surpreso. Arrependido por achar ter sido ele a causar aquilo. Eu não tô uma dentro, não é possível, pensei, ao abraçá-lo então. Ele me segurou de volta – como se eu fosse uma criança, desamparada.  

_Escuta, ei, a culpa foi minha. Eu não devia ter falado nada, foi mal... – ele me disse e se desvencilhou dos meus braços, me segurando o rosto –. Tá tudo bem, está mesmo.

Nuances marinas

Ela colocou um copo de suco gelado à minha frente, sobre um porta-copos roubado de um dos bares da Augusta.

_O que é isto? – resmunguei e a Marina franziu as sobrancelhas, já impaciente – Eu falei cerveja!
_Dá uma trégua, vai. Não custa nada! Até onde eu sei, você quase se matou de porre ontem.
_Eu estou bem, Má...
_Ah, nota-se! – ela riu da minha cara; naquele momento eu era uma visão bem pouco agradável, afundada no sofá com olheiras imensas, madeixas descabeladas e um rosto inchado de tanto chorar nos últimos quarenta e tantos minutos; é, super bem”.

Você não é minha mãe, pensei em protesto, é ou não é, Marina? E alcancei o copo de suco na mesa de centro, a muito contragosto. Gastara quase a última hora inteira relatando os acontecimentos dramáticos do fim de semana em Buenos Aires e da madrugada anterior, seguidos pela conversa com a Mia aquela tarde. O processo incluiu uns bons vinte minutos de desespero quanto ao que seria da minha amizade com o Fernando. E agora eu me recompunha, aos poucos. A Marina voltava da cozinha do meu apartamento em um vestido azul-marinho solto, tinha uma faixa vinho delicadamente amarrada na cintura. Sentou-se na poltrona mais adiante.

_E você já pensou no que vai dizer – ela perguntou, tomando um gole da sua limonada –, se ele souber?
_Não – respondi e, tão logo, a ideia me fez contorcer contra o encosto, comecei a balançar a cabeça – Não, não! Nossa, NÃO. Não quero nem pensar nisto!!
_Flor, ele vai acabar sabendo de um jeito ou de outro.
_Não, meu. Ele não pode saber. Não por mim.
_Mas você não disse...? – ela achou graça, sem terminar a frase.
_Não interessa. Isto... – suspirei, colocando os pensamentos no lugar; e então a encarei – ...eu, argh, no fundo não sei se quero mesmo que ele saiba. Eu não sei nem por quê disse aquilo, eu, sei lá! Sabe, Má, eu me arrependi tanto, juro, no segundo em que a Mia saiu por aquela porta. Sério, eu... Eu quase liguei para ela pedindo para esquecer tudo!
_Não, você fez bem, linda. Não pensa assim. Vocês precisam resolver isto, a Mia precisa se resolver com ele, sabe. Este rolo já foi longe demais – ela argumentou com carinho, meio se lamentando por mim –, você só vai se sentir pior se continuar mentindo para ele.  
_Mas eu não vou conseguir contar, cara. Não vou. Como eu posso pedir isto dela, então?!
_Porque é ela quem namora com ele, oras, não você. Não acho que seja você quem tenha que ir lá falar primeiro. Assim, tudo bem, acho até que você tem que estar disposta a conversar e tal; vocês são amigos há muito tempo. Mas se ela resolver ficar com você, é ela quem tem que terminar as coisas. Você não precisa fazer isto por ela.
_O que? Você não acha que a minha traição é umas dez vezes pior, Marina?!
_Não é isto. Eu só acho que depende menos de você, flor. Não está mais na sua mão. Sabe, você já disse para a Mia que queria ficar com ela... – ajeitou os óculos pretinhos, brevemente – ...no fundo, é ela quem precisa se decidir. Não seria nem justo você ir falar com o Fer antes!
_Como se fizesse diferença também... – ri, nervosa – ...tipo, não é como se... a Mia fosse acordar numa bela manhã e resolver ser sapatão de vez, né, do nada. Ela não vai me escolher no fim desta merda toda. Ah, mas não mesmo.
_Não fala assim, linda. Você não sabe disto.
_É a Mia, porra! – o meu estômago embrulhou novamente – Claro que eu sei!
_Ela gosta de você e você sabe. E ela mudou, vocês duas mudaram.
_E daí, Má... – dei de ombros, incrédula – Ela pode gostar o quanto quiser, não muda o fato de que eu sou uma mina. Eu sou o problema, cê entende?! Não sou a merda do Fernando. Ela não pode me levar pra casa dos pais, não pode ir comigo em festa nenhuma das amigas babacas da faculdade dela. Não é só “me escolher”, é escolher uma vida inteira. E eu acho que é coisa demais para ela, velho. Ela só não se deu conta disto ainda.
_Você está menosprezando o que a Mia sente por você. Poxa, não foi ela que te procurou todas estas vezes que vocês se viram? E não era ela copiando o poema que você leu de manhã? Ela se importa com o que você diz.
_Pode ser. Eu sei lá.
_E ela teve tempo, flor – me assegurou, diante da minha relutância –; você acha que ela não pensou nisto tudo? – revirei os olhos, sem botar muita fé, e a Marina se ajeitou na poltrona – Bom, também não é como se a Mia não tivesse nada a ver com o seu universo... – colocou o copo sobre a mesa adiante –; ela é cheia das tatuagens, é toda porra louca igual a você. Não é como se ela frequentasse barzinho na Vila Olímpia e nunca tivesse sequer pisado na Augusta! Ela sabe onde está se metendo.
_Tá. E você viu a casa dos pais dela?! Não. Então, você não sabe do que eu estou falando.
_Eu vi, sim. Eu te levei lá uma vez, esqueceu?
_Ah! E você acha então que vai ser tranquilo? Com aqueles pais? Que ela vai simplesmente chegar e falar “então, é o seguinte – tô com uma mina agora”? E que vai ser de boa?!
_Uma coisa de cada vez, flor. Primeiro o Fer – ela riu.
_Não fala do Fer, por favor. Me embrulha o estômago.
_Linda, você não sabe o que vai acontecer...
_Não, não. Chega. Eu não quero pensar nisto. Vamos mudar de assunto!