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fevereiro 26, 2011

As Maçanetas

Sabe quando se está dormindo tão, tão fundo que se tem a impressão inconsciente de se estar submersa? Pois lá estava eu, num túnel escuro de sono, afundada no breu. Uma caverna dentro da minha própria cabeça. Quando bem lá no fundo, pelos meus ouvidos, ouvi um barulho. Distante. Foi de repente, como se fosse um estalar. Cléc-cléc. Um movimento mecânico. Me virei, pesada, para o outro lado, mas algo continuava em movimento, não muito longe de mim. Eu podia sentir ali, por ali, mesmo que não prestasse atenção.

Outro ruído.

Começou a me puxar, indo no sentido contrário do túnel, me tirando do escuro, do sono profundo. Inconscientemente, passei a mão no rosto e virei-o mais para o lado, afundando-me contra o encosto azul marinho. A textura do sofá contra a minha pele parecia rude, mas era gostosa, confortável. Então, veio mais algum barulho, de leve. Alguém disse, eu acho, disse alguma coisa. Sem muita vontade de ser ouvido, falou baixo. E aí, de novo, mais um estalar.

Cléc-cléc. Recuperei a consciência no segundo deles. Abri os olhos e ainda estava no sofá. O cômodo, todavia, estava bem mais escuro do que quando adormeci. As paredes estavam bem escuras, em tons de cinza e marinho, imóveis e silenciosas. Que horas são? Me mexi com preguiça para o lado, tirando o celular do bolso com certo esforço e acendi o visor por um instante. 3:59. Dormi demais... que merda.

Coloquei o telefone no chão, próximo às chaves. Continuava com sono, meu corpo parecia ter sido atropelado por um caminhão. O efeito Augusta. Me ajeitei para a esquerda, virando os braços e encarando mais uma vez o encosto, me peparando para dormir de novo. Só que aí ouvi mais um barulho, um pouco mais ao longe. Deixei os olhos abertos de novo, não resisti. A luz da cozinha estava acesa, agora, notei. E a porta encostada, refletindo apenas uma fresta, um feixe de luz, no teto da sala. Suspirei, incomodada por ter sido acordada, meio sonolenta. As minhas pálpebras pareciam pesar a todo custo para baixo.

De repente, a luminosidade aumentou, cutucando os meus olhos cansados. Ao abri-los, notei que a fresta estava bem maior do que antes. A porta, calculei. Uma movimentação (quase) silenciosa acontecia frente a ela, no corredor. Tentei segurar a respiração por alguns segundos, a fim de ouvir o que diziam, mas não escutava nada além de passos que pareciam não sair do lugar. A sala estava mais silenciosa do que o comum para uma sexta-feira à noite. Talvez tenha chovido, supus e senti um vento mais friozinho entrar pela janela, encostando nos meus braços. Isso explicaria a ausência de bêbados, mendigos e baladeiros pelas calçadas da Frei Caneca, certamente.

_Mas eu qu... – ouvi alguém sussurrar, do nada; o Fer talvez.

Não consegui entender a frase toda. Não sabia quem estava com ele, mas estavam conversando. Por favor, meu, a Mia não... por favor, por favor. Meu coração acelerou, esquisito. Seguiam falando alguma coisa, frente à cozinha, eu não conseguia acompanhar. Estava baixo demais. Pareciam sussurrar, se moviam às vezes. Prendi a respiração novamente, em silêncio no sofá, tentando não ser notada ali.

_Não, deixa aí... Amanhã voc... – a outra pessoa cochichou.
_Vai estragar se eu deixar aí!
_Tá, vai l... – observei, no teto, a porta se moveu e escutei alguém mexendo na geladeira.

Aí nenhum ruído, por um instante.

_Ô... você quer o resto da Coca aqui? – ouvi, agora claramente, num tom bem mais alto, o Fer perguntar, aparentemente de dentro da cozinha.
_Não... – aí ela respondeu, merda, era mesmo a Mia – ...o que você tá fazendo aí?! Vem logo!

Poucos segundos depois, mais alguns passos, ouvi o interruptor clicar e todo o cômodo ficou novamente escuro, apagado.

_Eu tava guardando lá, meu... – ouvi-o dizer, não tão baixo, cochichando – ...você largou em cima da pia.
_Shhh...!

A essa altura, eu não estava mais – conscientemente – segurando a minha respiração; mas já não respirava. Os passos se seguiram, um atrás do outro, tentando não fazer barulho, pelo corredor. E, do nada, um pequeno estrondo. O idiota trombou na porta do quarto, babaca. Ele devia estar bêbado, tal possibilidade só piorava tudo. Ambos riram, se contendo, claro; e eu ouvi o som vir de longe, bem baixinho. Escutei, então, a maçaneta se abrir e fechar novamente, no fim do corredor. Aí todo o som sumiu do apartamento. Completamente.

Fiquei sozinha na sala e, por um segundo, não me mexi – eu não conseguia. Parada, as costas contra o sofá e os olhos silenciosos no teto, inquieta. Respirei fundo. Então, me levantei. Sentei no escuro e acendi um cigarro, sem pensar. Deixei o maço e o isqueiro em cima da mesa de centro e olhei para a televisão apagada. Eu simplesmente não sabia o que fazer.

Game over

Idiooota, eu me pendurava no galão de água, sofrendo com a minha própria estupidez. Sozinha na cozinha do estúdio, um fracasso em plena sexta-feira de manhã, mas como eu sou idiota, cara. Olhei o ambiente em volta, completamente enjoada. Não me sentia tão mal assim há, provavelmente, anos – e olha que eu me esforçava, bastante. Acontece que o meu “estou pilhada pra caralho” retardado de duas horas atrás havia se transformado, como já era de se esperar, em uma bad fenomenal e toda a minha disposição de merda havia ido para o espaço. Virada há dois dias, o meu estado atual era deplorável. Que idéia mais ridícula, mano, eu me condenava, odiando cada neurônio cego dentro da minha cabeça oca, presa no trabalho e com o expediente todo ainda por vir.

Quinto copo de água. O café estava me embrulhando o estômago e agravando a minha dor aguda de cabeça, fora de cogitação. Tudo se misturava na minha barriga, sentia cada gota de líquido ingerido naquela manhã e na noite anterior rodando dentro de mim, como numa máquina de lavar roupas, e a cada volta me dava uma vontade desgraçada de vomitar. Peguei o celular, na esperança de já terem se passado ao menos cinco minutos. Mas, como se já não me sentisse mal o suficiente, toda maldita vez que olhava para o visor, lembrava das chamadas não-atendidas da Marina e me sentia uma insignificante de merda.

Enfiei a testa na lateral do galão de água, apertando-a contra aquele plástico azul para ver se eu conseguia sumir do planeta. Nada. Então, abri os olhos e o movimento denso da água me deu ânsia, de novo. Que bosta. Eu sabia – sabia! – que a bad ia passar. Uma hora ou outra, aquele sentimento autodestrutivo de eu-não-faço-porra-nenhuma-decente-com-a-minha-vida ia desaparecer. E ser substituído, em seguida, por uma forma qualquer de anestesia mental, ou seja, pela mesmice do cotidiano.

Contudo – e eu tinha uma certeza terrível disso –, a droga do enjôo e aquela fraqueza insuportável não iam me abandonar tão cedo. Ahh, não, não... Eu ia me sentir um lixo pelo resto do dia e, pior, seria obrigada a manter os meus olhos abertos durante cada minuto de merda das próximas horas. Mas eu sou uma imbecil mesmo, eu enchi o sexto copo d’água e tive vontade de chorar, por que diabos eu apareci nessa porra?! Argh. Minha cabeça apertava-se, doendo dentro de si, e minhas pernas imploravam para que eu parasse de forçá-las em pé no chão. É, como eu disse, estado deplorável.

E o dia levou uma eternidade excruciante para passar. Cada olhada no relógio me indicava o quão longe eu ainda estava da reta final – e eu lidei com isso da pior maneira possível, evidentemente. Quando, enfim, o ponteiro alcançou as 18 horas, arrastei-me da cadeira onde eu me encontrava até a recepção do estúdio com um entusiasmo nada aparente e pus-me a caminho de casa. Sentia-me como uma zumbi.

Pensei em ligar para a Marina, retornar-lhe as ligações da noite anterior, mas não tinha a mínima vontade de fazer qualquer esforço mental. Ela perguntaria o que eu queria na tarde de quinta, eu teria que contar da Mia e do Fer, ia ser um porre. Sem contar que ela vai falar daquela Bia, certeza, e de como elas estão bem agora e como reataram o namoro e que o sexo foi ótimo e que elas vão casar e ter filhinhos e uma casinha no campo e serem felizes para sempre..., reclamei para mim mesma sentada no metrô, ...e eu não quero ter que ouvir essa merda, não mesmo. Saí da estação da Consolação mais rabugenta do que nunca.

Fumei um último cigarro, enquanto caminhava, tomada por um sono violento. A Frei Caneca nunca me pareceu tão longa e inclinada quanto naquele momento. Passo por passo, com um certo esforço, eu procurava não tropeçar em mim mesma. Não seria má idéia, sei lá, de repente ir rolando até lá embaixo. Mano, eu andava cheia das idéias idiotas. Tirei o lenço do pescoço – aquilo estava me sufocando, uff! –, sentindo um alívio em ter o vento correndo na minha pele. Agora não havia nenhum colega de trabalho engraçadinho para me encher o saco. Lembrei da loira, do nada, por um instante. Devia ter perguntado o nome dela na saída..., pensei, sem fazer muito sentido comigo mesma, e joguei o cigarro na sarjeta. Sabia que tinha perguntado, aliás. Só me esqueci.

Virei a maçaneta; meu, chegar inteira era quase um triunfo. Dei dois ou três passos para frente e capotei de qualquer jeito no sofá da sala. De cara afundada naquele azul marinho, delicioso. Larguei as chaves no chão e minha mão permaneceu pendurada ali mesmo. Aquele foi o último som que ouvi antes de cair em sono profundo, o do meu chaveiro dos Rolling Stones contra o nosso piso de madeira. Depois disso, toneladas e toneladas de ar – ou seja lá o que fosse – pareciam me pressionar, agradavelmente; me afundar naquele tecido grosso. Apaguei. E apaguei mesmo: nenhum sonho, nenhuma ajeitada no corpo ou retirada do cabelo sobre a cara. Blackout instantâneo.

fevereiro 23, 2011

7:42

Fechei a porta da frente e senti a luz da manhã refletir limitada pela sala. Minha mão continuava firme na maçaneta, respirei fundo, a caminhada de volta tinha me deixado levemente mais sóbria, menos dispersa. Parecia não estar no meu apartamento há dias, conforme me virei para o interior dele. Tudo continuava igual, em seu lugar, com um sentimento estático de voltei-de-viagem. Tudo, isto é, menos aqueles lençóis no sofá. E um colchão, fiquei parada, por alguns segundos. Olhei para a sala bagunçada, sem entender. Quem diabos dormiu aí?, pensei.

A minha cabeça rodou, toda tonta – embebida, já meio afogada, em inúmeras doses de álcool; Coca-Cola; e o que restava de substâncias ilícitas em mim. A terceira ou quarta vez já, desde que saira da casa do moleque da Outs, inferno. Contei até três, respirando. E só aí comecei a andar, serntindo-me ligeiramente melhor. Passei pelo centro da sala, absolutamente distraída, e me deu uma vontade imensa de me jogar naquele sofá, assistir desenho animado a manhã toda, não ir trabalhar. Entrei na cozinha, mera inércia, frustrada com meu futuro naquela sexta.

_Bom dia... – disse, sem querer ser notada, certa de que estava com a maior cara de acabada.
_Mano, você está chegando só agora?! – o Fer riu, a uns metros de mim, encostado na pia.

Sorri amarelo, olhando-o de volta e deixando as minhas chaves lentamente na mesa de jantar. O barulho do metal contra a superfície pareceu ecoar. A minha cozinha estava – por incrível que pareça – cheia de homens, o que não era nada comum naquela casa. Estranhei, argh, de certa forma aquilo me incomodava. Não o fato em si, digo, estava acostumada a estar entre os moleques. Contudo, todo aquele excesso de testosterona logo pela manhã não era lá uma coisa agradável.

Sentado à mesa do café, de costas para mim, o Marcos comia o que me parecia ser um pão com presunto – e não se deu ao trabalho de virar para me cumprimentar, ignorando minha proximidade. Já mais ao longe, o Rafael passava todo branquelo, sem camiseta, com a barba por fazer e me deu um “alô” com a cabeça antes de entregar um cigarro do seu maço para o Fer.

_Vieram só vocês ontem? – perguntei, prendendo o cabelo num coque improvisado, sem muito interesse.
_Não... o outro Rafa também tava aí, o Benatti.
_E o Igor – o Fer continuou, em frente à pia, acendendo o isqueiro –, mas eles foram embora ontem. E você, tava onde até essa hora?
_Ah, meu, sei lá, na casa de um maluco aí... amigo do cara que o Gui tá pegando, lá do Vegas, é aqui perto. Eles tão lá ainda, mas eu vim pra casa. Preciso trampar, mano... – suspirei, meio sentindo nas costas o peso daquela noite inteira, sentando do lado oposto da mesa – mas tinha uma galera lá. Foi legal.
_E você vai virada pro estúdio, meu?!
_Vou, tô pilhada pra caralho... é de boa.
_E esse chupão aí, hein, não saiu ainda?! – o Fer riu, me olhando, e se aproximou, passando a mão em cima da marca que a Mia deixou, no meu pescoço, dias atrás.
_Sai, sai... não enche! – tirei a mão dele, virando o rosto pro outro lado.
_Porra, tem mais um?!?! – ele começou a rir mais ainda ao notar.

Espera, me assustei.

_Qual? Mais um?? Onde?? – perguntei, aflita.
_Aqui, mano, desse lado – ele colocou minha mão em cima, no meu pescoço, e começou a tirar comigo – tá mandando bem, hein... é um por dia agora?

Loira filha-da-puta, a memória voltou à minha mente. Nós duas lá na kitnet do cara – afundei o rosto em minhas mãos, com os braços apoiados na mesa. Não estava acreditando naquilo. Não, não é possível que eu não tenha percebido... Ou, bom, na verdade... era bem possível. Uma semana inteira andando de lenço e cabelo solto, agora, até me livrar das marcas. Dos dois lados. Eu mereço mesmo... mas que inferno! Escorri as mãos para baixo, tirando-as do rosto, e olhei para frente. Em meio à toda minha agonia, dei de cara com o Marcos, me observando.

_Vocês foram no Vegas, é isso? – o Fer perguntou e eu acenei com a cabeça, voltando a prestar atenção no que se passava ao meu redor.
_E foi bom?
_Opa...
_O que era lá ontem? – o Rafa se meteu, puxando assunto, e eu estiquei o braço para que ele me oferecesse o cigarro dele.
_Hmm, era... sei lá... “mega-putaria-night” – soltei a fumaça e ri, devolvendo o cigarro – não, brincadeira. Sei lá o que era, só fui porque um cara lá que meu amigo tá pegando ia tocar. Mas acabou sendo meio isso mesmo – ri, de novo – dancei pra caralho, meu, foi bom.
_Se divertiu, então... – o Marcos comentou, do nada, do outro lado da mesa, com uma certa antipatia, me encarando.

Que foi?! Tem alguma coisa pra falar, babaca?, me irritei.

_E vocês, fizeram o quê?! – perguntei para os outros dois, ignorando-o, tentando sem sucesso não olhá-lo de volta; o clima estava desagradável entre nós.
_Ficamos jogando aí... – o Fer disse e riu – ...o Benatti quase destruiu o Xbox, ficou puto uma hora. Queria sair chutando tudo. Muito mau-perdedor, mano.
_Aquele é retardado... – o Rafa riu junto.
_Ô, e seu celular tocou várias vezes ontem aí, viu... fica aí tocando o bordel e depois larga essa porra em casa, mano, quase joguei pela janela! – eu te matava, Fernando. - enfiei ele embaixo do seu travesseiro e soquei roupa em cima, fechei a porta, tá lá ainda. Depois você vê...
_Não, vou lá ver agora, preciso ir também... – me levantei, indo em direção à porta, mais curiosa em descobrir quem diabos me ligou tanto do que em trocar de roupa para sair.

fevereiro 18, 2011

Sexta-feira, baby!

“A small Jean Genie snuck off to the city
Strung out on lasers and slash back blazers
Ate all your razors while pulling the waiters
Talking ‘bout Monroe and walking on Snow White
New York’s a go-go and everything tastes nice”

(by David Bowie)

After party II

O apartamento do cara era um quarto-sala bagunçado com uma cozinha até que razoável e um banheiro apertado. Nada excepcional. Entramos no escuro, pisando em tudo sem prestar atenção, e alguém acendeu uns abajures que ficavam no canto, iluminando bem mal os arredores. O cômodo estava uma zona, mas de um jeito cool. Nos sentamos todos no chão, encostados nas paredes e sofá-camas, ao redor de uma mesinha de centro. Cada um cheirou um pouco de cocaína que o cara tinha – ou alguns de nós, pelo menos –, coisa que eu não fazia há uns dois anos, no mínimo... e o que, aliás, me preocupou por um segundo, mas como nunca dei muita bola pra esse tipo de droga e já estava bêbada demais para concluir o meu pensamento, acabei não ligando e embarcando junto. Ninguém queria ir dormir; no fundo, era só isso. Na primeira oportunidade que teve, o Gui logo se trancou no banheiro com o DJ, que era amigo do dono da casa, e eu me lembrei com desgosto da bunda, argh. Aí me engajei numa conversa animada com um dos caras do casal restante, amigos da loira, que surgiram no fim da noite para nos acompanhar.

Depois disso, perdi completamente a noção da hora. Parecia estar ali há horas, discutindo entusiasmada sobre o ramo da fotografia e da moda em São Paulo; brisando com o cara, que tinha uns 25 anos, no máximo, e acabara de sair da faculdade. O céu começava a clarear. A tal garota se acomodou no meu ombro; ela tinha alargadores pequenos, pretinhos, e o cabelo quase tão claro quanto o meu, na altura dos ombros. Passou a mão pela minha barriga algumas vezes, encostada em mim, ao meu lado – e eu sequer notei, distraída –; aí colocou-a por baixo da minha camiseta, lentamente, deslizando a palma por cima do meu umbigo, de um lado pro outro do abdômem, numa linha horizontal. Não disse nada, achei gostoso até; um frio de amanhecer entrava pela janela larga do apartamento e a mão dela era morna, sei lá, me pareceu confortável.

Segui conversando, empolgada; o assunto não acabava nunca. O namorado do cara estava fritando, sozinho na sua, deitado ao lado no chão. O dono da casa, por sua vez, estava preparando qualquer merda na cozinha, sei lá eu – achei que fosse um narguile, a princípio, vi de relance, mas depois senti cheiro de comida. Não olhei bem. Pouco me interessava, aliás. Estava absolutamente focada em tagarelar sobre a minha área para o cara, me sentia excepcionalmente confiante; e ele ouvia tudo, parecia interessadíssimo. Antes que pudesse perceber, a garota já estava com o rosto afundado no meu pescoço, brisando, oi?, e começou a me dar beijos de leve. Bem de leve, mas constantes.

Continuei falando. Falando e falando, sem fim, o papo estava realmente bom. Não parecia ter importância, digo, todo o resto. Mas aí ela insistiu, me beijando ainda no pescoço, e só no pescoço, mas cada vez com mais intensidade, me apertando a cintura por baixo da blusa. Não estava me dando conta, sei lá, fui deixando. E a conversa continuou. Continuou e continuou até que, uma hora, não sei bem quando, de repente, não estávamos mais conversando. Ou estávamos? Não sei, só sei que parei de falar em algum momento. Não percebi que parei, só parei. Sentia-a no meu pescoço, agora com mais vontade, perdi a consciência das coisas.

A sua mão contra a minha pele, na minha cintura, foi me envolvendo, aos poucos. A sua língua subia e depois descia, mexia-se sinuosamente entre os seus lábios, encostados na curva do meu pescoço, e foi me dando arrepios. Um atrás do outro, puta que pariu. Continuou, foi continuando; se empurrando pra cima de mim. Não sei o que o cara estava fazendo a essa altura, talvez falando com o namorado ou esperando, parado ali, que eu lhe respondesse alguma pergunta que sobrou no ar. Não faço idéia. Talvez ele mesmo tivesse parado de falar comigo. Foda-se, não sei mesmo. Entrei na minha própria cabeça por um instante, imersa nos beijos da garota, enquanto olhava para lugar algum em particular. Durou dez segundos – ou dez minutos, talvez. Comecei a sentir o perigo... Até que ela começou a me dar mordidas, entre um beijo molhado e outro, de um jeito realmente excitante. Senti minha respiração pesar. Por um momento, fechei os olhos e me deixei levar, quase virando para beijá-la de vez, enroscando os dedos no seu cabelo sem pensar direito.

_Não, vai... pára aí, loirinha... – murmurei, meio hesitante, sem muita convicção no que estava dizendo para ela.

Parte de mim queria continuar, por mais que eu não quisesse arranjar pra minha cabeça – e não queria mesmo –, só que já estava invariavelmente na dela. Ainda assim, por um segundo, um mínimo segundo, eu hesitei. Cara, não, não faz isso... Eu sabia que ia me arrepender, e muito; preferia evitar o desgaste da ressaca moral no dia seguinte. Já tinha muito rolando na minha vida, naquele momento, muito mais do que eu conseguia processar; e a última coisa que eu precisava era de mais um peso na consciência. Toda a minha razão sabia disso.

Mas ela tinha me ignorado, como se não tivesse me ouvido; e continuava no meu pescoço, seguia me beijando, insistindo – agora com uma lentidão... intensa, ô inferno. Respirei fundo, ainda com uma vontade desgraçada, e aí puxei a cabeça para o lado de forma bem sutil, quase envergonhada. Ela me olhou e eu justifiquei, meio sem prestar atenção, disse que não estava no clima. Olhei de volta para ela, com certo esforço, e então, ela pareceu entender, aí sossegou. Coloquei o meu braço atravessado por cima dos seus ombros, atrás da sua cabeça, mais uma vez, e ela encostou o rosto em mim. Eu não sentia sono algum. Virei e vi o céu já quase azul na janela; achei-o bonito, diferente. O cara do casal me encarou, contente, cruzamos olhares no meio da sala e eu sorri pra ele.

_Olha aí, meu, já é de manhã – comentei, meio orgulhosa; fazia tempo que não via o sol nascer, sentia falta de baladas assim, das intermináveis – e eu, eu vou trabalhar daqui a pouco.

After party I

Uma bunda. A última maldita coisa que eu gostaria de ver passar diante dos meus olhos ao final de uma noite que parecia ter durado pra sempre na pista de dança – e que agora prosseguia, interminável, na calçada suja da Augusta – era uma bunda. E não digo uma bunda bonitinha, afeminada. Não, não, senhoras e senhores. Digo uma bunda realmente bunda, bunda mesmo, do tipo branca e de homem. Com pêlos ao redor, argh... mano, ah, mano, mano, não dá!

E só de pensar – ai, meu senhor! – que o meu infeliz amigo ia, de fato, por livre e espontânea vontade, sem a menor sombra de dúvida, passar o resto daquela noite desfrutando prazerosamente daquela peça lastimável que agora desfilava descoberta e embriagada metros abaixo da saída da balada... Ai, que depressão. Era nessas horas que me batia, independente do tanto de álcool já ingerido, uma convicção tremenda de que o que eu gostava mesmo era de mulher. Mulheres, cara, mulheres e as suas bundas maravilhosas..., eu divagava passivamente, caindo de bêbada, enquanto o assistia ali, semi-nu na minha frente.

_O que diabos você está fazendo, sua bicha doida?!  

Ouvi gritarem, pouco mais acima, e do nada vi o Gui passar correndo rua abaixo, bem na minha frente; escandalizado, rindo aos montes, e indo com pressa em direção ao seu pseudo-affair exibicionista. Eu estava parada, fumando sozinha na minha, após longas horas suando numa balada lotada sem tocar em um cigarro sequer, apoiada contra um muro do lado de fora. Sagrada nicotina. Já passavam das cinco da manhã e eu mal me agüentava em pé, bêbada como nunca, tentando não fazer xixi nas calças de tanto rir do pobre Gui, que agora puxava o jeans do outro pra cima, refutando os seus argumentos de que ele era um livre-cidadão e que tinha direito sobre o seu corpo. Os dois tagarelavam de forma memorável.

O nosso grupo havia ganhado novos integrantes. Um outro casal – também gay – se agregou à nossa excelente companhia já quase no fim da noite, bem como um amigo estilosinho do DJ, que eu conhecia de vista da Outs. O plano era ir pra casa desse último, que estava nos acelerando a cada dois minutos, aliás. Todavia, eu mal era capaz de andar, tentando não escorregar para o chão enquanto perdia o fôlego num ataque de riso involuntário causado pelo Gui e as calças abaixadas do seu homem da vez. Mano, não dá, eu vou cair..., pensei já agachada, me apoiando contra o muro para não tombar mais. Eu vou cair, eu vou cair, eu vou cair..., olhei então para o cigarro aceso na minha mão, na dúvida se o largava e me segurava ou se eu... puta merda, é agora, eu vou cair mesmo.

_Vem, sua bêbada. Eu te ajudo... – a loira, que até então estava ocupada conversando com o casal, ambos amigos dela, apareceu rindo na minha frente, oferecendo as suas mãos para eu segurar.

Estou salva. Meti o cigarro na boca – como não pensei nisso antes? – e dei-lhe as minhas mãos, me levantando pouco antes de encostar no chão imundo da Augusta. Ufa. Agora em pé, abracei-a por cima dos ombros com o braço direito e terminei de tragar, tirando o filtro dos lábios com a mão esquerda. Eu estava andando mais torto do que um gambá, claro, mas agarrada numa mina bonitinha, então que se dane. Descemos a rua, apoiadas uma na outra, não muito mais sóbrias do que o restante. O Gui voltou empolgado até nós, passos acima, tagarelando qualquer besteira, e me abraçou do outro lado. Aí, sim, começamos a andar torto mesmo. Disse que a casa do cara não era longe, que já tinha ido lá e que era logo ali, na próxima esquina, e eu achei graça – estava rindo de qualquer merda que me dissessem, não é, àquela altura. E aí ele me deu um beijo, num gesto de carinho.

_Ah! Então... ele pode? – a garota contestou na mesma hora, injustiçada.
_Meu bem... Eu posso tudo! Tudo!

O Gui pulou para a nossa frente, repetindo mais algumas vezes a palavra “tudo”, de um jeito bem fresco, e eu continuei rindo, sem querer discutir. A loira – que tinha um nome, com certeza, e deve ter me falado-o em algum momento, mas eu esqueci... – nos olhava indignada. O Gui deu risada, não estava ligando muito, e aí seguiu para frente, descendo a Augusta nitidamente aos trancos, todo tonto de tequila, até esbarrar no seu affair e grudar nele com um abraço apertado.

_Você é... é... – ela ainda se revoltava, bêbada – ...sapatão!
_Hum.
_É! Não é?!
_Sim... – eu ri.
_Então, porra! Você, você não pode beijar ele!
_Ah, meu, pelamor. Aquilo não foi nem um beijo!
_Sei... – ela me olhou, toda mal-intencionada – ...se é assim... – ela sorriu, sugerindo – ...não quer me dar um não-beijo, então?
_Não é a mesma coisa – eu ri – se eu dou um beijo no Gui, é... é... sei lá, “gay”. Bicha. Não significa porra nenhuma! Você, você é uma mina, né meu... Se a gente se beijar já é... tipo... já significa alguma coisa.
_Hmm... – ela saiu debaixo do meu braço, me pegando pela mão, e achou graça – ...mas e se não significar nada? Nem pra mim, nem pra você? Hein, e se for só de bobeira?

Não fala, porra... Não fala essas coisas pra mim, garota...

_Tá. Mas isso é... é o que todas dizem, né, no começo. Até que, de repente, começa a significar. E aí fode a minha vida... – argumentei, dando o último trago, antes de jogar a bituca no chão.
_Cara, você não vale nada mesmo, hein? – ela riu.
_E você vale, hun?
_Escuta... – ela me parou na rua e eu já comecei a rir, prevendo os próximos segundos de conversa; ficou na minha frente, apoiou os braços em cima dos meus ombros, fez questão de me olhar nos olhos e eu coloquei as mãos na sua cintura, meio sem pensar, dando-lhe atenção – ...olha, eu prometo, prometo... – fez graça, sendo irônica – ...prometo mesmo, que não vou me apaixonar por você. Tá bom? 
_... – a observei; realmente tentada, de repente.
_Um beijo, vai. Só um.
_Não... eu... – passei a mão no rosto, me livrando daquela vontade imprestável repentina, e suspirei – eu tô... é... é complicado – lamentei.
_Credo, hein. O rolo é pior do que eu imaginava! – ela riu e me olhou, como se simpatizasse com a minha nítida tensão emocional – meu... – ela achou graça – não sei nem se eu quero saber...
_Não... você não ia querer saber, vai por mim.

Ri também, de novo, achando graça na minha própria desgraça, e dei uns passos mais pra frente. Ela seguiu caminho junto comigo, ainda de mãos dadas nas minhas. Fui brincar e coloquei-a nas minhas costas, já quase no prédio do cara, para ela descer a rua montada com as pernas ao lado do meu quadril e os braços ao redor do meu pescoço, clássica idéia de quem se acha maior do que realmente é. Força eu até tinha, só que eu estava bêbada demais. E aí nós quase caímos, óbvio. Rindo até não poder mais, sem poder evitar, enquanto os outros nos olhavam como se fôssemos loucas e o Gui gritava qualquer coisa na nossa direção. Os vizinhos deviam nos odiar, tenho certeza, acordando para ir trabalhar. Mas que se dane.

fevereiro 16, 2011

"Electro Gang Bang!"

(M.O.N.T.A.G.E.)

_Ela tá te... – o Gui se debruçava bêbado sobre mim, rindo, tentando falar no meu ouvido, ambos fervendo na pista lotada, e eu ignorava-o, dançando inebriadíssima – não, sério... olha, olha... – ele continuava, se divertindo.
_Pára de...
_O quê?! – ele ria mais ainda, já fora de si, sem entender porra nenhuma do que vinha da minha boca ao lado daqueles amplificadores imensos.
_Pára de apontar pra mina, cacete! – gritei, abaixando o seu dedo, acidentalmente empurrando o meu corpo contra o seu, e comecei a ter um ataque de riso, com o rosto colado no dele, ambos consideravelmente alcoolizados.
_...mas ela tá! – ele prosseguia, insistindo, e eu ria tanto que meu estômago doía.

Cara, eu realmente me divertia com o Gui. Bichinha surtada linda, irresistível. Toda maldita vez, porra. Cambaleando entre um passo de dança e outro, completamente chapados e nos abraçando ao som de Joan Jett, a cada dez segundos, na tentativa de não cair no meio daquele monte de gente no Vegas. Ele me puxava com força pela cintura, todo indecente; e eu sacudia a cabeça de um lado para o outro, num orgasmo rock n’ roll violento, acompanhando a letra subversiva de Do You Wanna Touch Me; nós ríamos; ele escorregava pelo meu corpo e rebolávamos até o chão, quase caindo no piso sujo da balada.

Puta clima, a cabeça pegando fogo. Ninguém entendia quando, aí, o pseudo-affair dele, um DJ de quase trinta anos gatíssimo, resolvia se juntar a nós e os dois se pegavam indecorosamente. Comigo logo ali, ao lado, sobrando entre braços fortes e beijos másculos de língua, sendo que dez segundos antes qualquer um ao redor juraria ser eu a peguete da vez. Sozinha, agora, na minha na pista. Eu gostava de foder com a opinião alheia, de agarrar os meus amigos gays a noite toda e depois ir lá mostrar algum canto escuro da balada para uma garota qualquer. Ahh, eu adorava. E o Gui não era diferente.

_Eei... posso dançar com você? – ouvi, sentindo uma mão em mim.

Estava viajando, o rosto suado para cima e os olhos fechados, alucinando no setlist que saía das caixas altíssimas de som, tanto que sequer notei-a aparecer na minha frente. Desci o queixo já atrasada e encarei-a, ainda meio fora de mim. Loira. Eram sempre as loiras que eu dispensava, sempre. Categoricamente. E essa ainda era a mesma que o Gui me apontou, a tal garota que me queria, segundo ele, minutos antes. Ah, é claro. A interessadinha. E sem querer, mas completamente alcoolizada, olhei para a cara dela e comecei a rir de novo.

_O que foi? – perguntou algumas vezes e aí eu ria ainda mais, apoiando a cabeça no seu ombro; sem entender nada, ela começou a achar graça na minha reação – o que foi, meu?!
_Nada... – tentei recuperar o fôlego, um tempo depois, ainda rindo – ...nada. Pode.

Coloquei minhas mãos na sua cintura, ela ainda me olhava intrigada, e puxei-a mais para perto. O set mudara para qualquer electro moderninho. Aos poucos, os nossos quadris acertaram o ritmo um do outro. Só vinte minutos depois, o meu amigo soltou enfim da boca do DJ para respirar e o seu encontro da noite virou-se para enfrentar a multidão até seja-lá-onde-ele-ia. Ao juntar-se a nós duas, as pernas da garota já estavam metidas no meio das minhas, os meus braços inteiros ao redor dela e nós três, bêbados, perdendo a linha em conjunto nas batidas do Vegas. Sentia o ar entrando quente e abafado nos meus pulmões. Qual é a das baladas e a ausência completa de ventilação, mano?!, pensei, meio revoltada e embriagada. De certa forma, aquelas partículas úmidas entre os nossos corpos tornavam a pista de dança bem mais interessante, mais intensa até. Dava um calor desgraçado.

_Meu, vou pegar alguma coisa pra beber... Não tá dando...  – avisei, ofegante, no ouvido do Gui.
_Ô... Quer que eu dou um perdido na mina? – sugeriu, me conhecendo, antes que eu me virasse.
_Não, não... de boa.
_Vai pegar?
_Claro que não! – olhei para ele, sem entender.

Cortei caminho pelo meio das pessoas que lotavam – para uma quinta-feira, digo, o que era impressionante – o espaço mínimo do Vegas e me apoiei contra o bar, pedindo uma dose de vodka e uma Coca-Cola. O Gui apareceu pouco tempo depois ao meu lado, me olhando esquisito, como se tivesse algo para falar; seguido passos atrás pela loira da pista, meio de gaiato na história, e cada um deles encostou no balcão em um lado oposto de mim – ela, na direita; ele, à esquerda. Pediram ambos uma tequila, achando graça na escolha, e eu recebi a minha dose, virando-a sem esperá-los. Abri a minha latinha em seguida, ansiosa por qualquer coisa gelada, e o Gui seguiu me olhando. Aí grudou no meu ouvido enquanto eu sentia o refrigerante descer pela minha garganta.

_Dá pra você – argumentou, bravo – esquecer essa filha-da-puta? Hein?! Só por uma noite?
_... – tirei a lata da boca e fuzilei-o com os olhos, em silêncio.
_O quê?! Não quer ouvir?!?
_Ela não é filha-da...
_ Do que vocês estão falando? – a garota se intrometeu.

fevereiro 14, 2011

Foda-se.

Que venha o Vegas e a dor de cabeça!
.

Impertinência

O silêncio do outro lado da linha me fazia arrepender-me, mentalmente, de sequer ter ligado. O que eu estou fazendo, meu deus? Minha mão apertava o celular, meus olhos se fechavam e meus ouvidos escutavam, ao longe, o impasse na garganta da Mia. Nenhuma palavra. Ela hesitava em me responder a mais simples das perguntas. Como se qualquer coisa entre nós fosse simples... Minha ironia invadia meus pensamentos.

_Eu só liguei... – cochichei, interrompendo o silêncio, encarando o maço vazio entre meus dedos – ...porque queria saber como você estava. E pra te dizer que, sei lá, que aquele dia foi...
_Eu sei.
_Não, eu não sei se você sabe de verdade.
_Não vamos falar disso agora... – ela suspirou.
_Você não está bem, meu.
_Eu não disse isso.
_Mas também não disse nada, porra.
_É porque eu... eu não sei, não sei mesmo. Eu não sei.
_Não sabe se está bem ou não?!
_Não. Quer... quer dizer, sim.  
_Meu, Mia, por favor... não faz isso. Me fala, conversa comigo, não me deixa sem saber o que tá se passando pela sua cabeça.
_Não tem nada passando pela minha cabeça, meu...
_Ah, não?! Então, nós estamos bem?
_“Nós”?

E aí o som sumiu de mim, garganta abaixo; senti-o escorrendo para dentro do meu estômago, revirando-o, enquanto eu permanecia subitamente machucada, muda. Como assim?! Nós, oras, a ausência de voz me secava a boca e a minha cabeça foi a mil, acelerando o meu coração. Nós duas, porra. Por quê? Disse alguma coisa errada?! Nós duas, esses meses todos, caralho. Ou não somos “nós”?! Não temos nada?! Tive vontade de desligar o telefone. Mandá-la à merda. Tirar de mim todo aquele stress emocional ridículo pelo qual eu passara nos últimos dois dias. Surtar, sei lá, ser realmente grossa de repente. Mas, não, respirei fundo. Eu sabia que estava mais suscetível do que o normal.

_Escuta... O que você vai fazer hoje? – perguntei.
_...
_Você vai ver ele?
_Não.
_Não?
_Não, os... os meninos vão lá. Aí. Na casa de vocês, quer dizer. E eu... eu ainda não sei o que vou fazer.
_Eu quero te ver.
_Não, eu... eu não sei. Eu acho melhor eu... sei lá, ficar sozinha um tempo. Eu preciso pensar, sabe. Na minha vida, em tudo isso. Não sei se é a melhor coisa você vir aqui e...
_Mas eu não preciso ir aí, meu... a gente... a gente não... não precisa nem... – me enrolei para falar – ...olha, eu só quero te ver. Ver que você tá bem, meu. Eu sei que rolou muita coisa essa semana e na semana passada, que você quer ficar sozinha, mas vamos... vamos só... só sair, meu. Ficar de boa, é sério, sem segundas intenções, nem... nem nada. Eu vou no Vegas hoje com um amigo, aí de repente você podia ir também e, sei lá, a gente só toma umas e dança um pouco, esquece desse rolo todo. Aí amanhã... amanhã você pensa nisso, vê o que quer fazer.
_Amanhã eu vou sair com o Fer, eu...

Fantástico.

_Mia, olha, eu não quero complicar a sua vida – disse, tentando ser o mais sincera e racional possível – eu gosto de estar com você, mesmo que a gente não esteja juntas; gosto mesmo. E eu ia ficar feliz se você fosse hoje, eu... eu ia ficar tranqüila. Queria te ver, só isso. Acho que ia te fazer bem também, sei lá, sair, dançar... Prometo que a gente não...
_Ah, meu... eu não sei. Não sei mesmo.
_Por que não?
_Porque... Não sei se é uma boa idéia e... e eu não tô legal, sabe, não queria ir pra Augusta e nem...
_A gente não precisa ir pra Augusta! Eu desmarco, não tem problema, a gente vai pra outro lugar, meu...
_Não, escuta. Sai com o seu amigo, vai lá hoje, se diverte e, sei lá, a gente se vê no fim de semana, quando eu me resolver direito com o Fer. Eu quero te ver também, eu só preciso de um tempo. É... é muita coisa de uma vez só.
_Eu sei, mas...
_Não esquenta com isso, meu. Sério, tá tudo bem... eu acho.

Ahh... você acha?!

fevereiro 11, 2011

Ostras, ostras

A quinta-feira chegou e eu ainda não havia recebido notícia da Mia. Ou do Fer, por sinal. Aquilo estava acabando comigo. Só não tinha perdido a cabeça de vez, pois sabia que ele havia dormido em casa – e sozinho –, estava acordada quando ele chegou de madrugada. Não tinha conseguido dormir porra nenhuma, claro; fumei um cigarro atrás do outro e, ao ouvi-lo chegar, não me agüentei e abri a porta do quarto para perguntar como havia sido por lá. “Foi bem”, disse, cansado, e foi direto para a cama sem comentar o assunto. Ótimo. Mais uma série de cigarros começados e esmagados no cinzeiro antes do fim.

Nada na internet, nada pra fazer naquela merda de apartamento. E como a minha cabeça inquieta se recusou a pegar no sono, repetidamente, acabei acordando atrasada no dia seguinte. Perdi, então, o meu colega de apê – e o relatório completo do encontro – no café-da-manhã e ainda ganhei uma bronca do meu chefe. Óbvio. Aquela caminhava para ser a pior quinta-feira de todos os tempos. Contando com uma mensagem na madrugada anterior e uma de manhã, a Mia já havia ignorado dois SMS meus perguntando-lhe se estava tudo bem e, agora, eu me sentia uma neurótica descontrolada por tê-los sequer enviado.

Fora isso, a Marina se recusava a dar sinal de vida e a única mensagem recebida no meu celular era do Gui, completamente alheio à situação, lembrando-me do nosso combinado de ir ao Vegas naquela noite. Ao voltar do almoço, sem ter comido meio prato direito, e me deparar com a caixa de mensagens vazia, senti como se fosse a pessoa mais sozinha do mundo. Por que ninguém fala comigo, porra?!, empurrei o celular na mesa do computador, me deixando chatear por aquilo. Que inferno, mano. Estava quase ligando para o Fer para perguntar o que diabos estava acontecendo. Quase.

Atende, Marina, atende..., tentei mais uma vez algumas horas depois, numa insistência desesperada, e nada. Caixa postal. Larguei o telefone na mesa à minha frente, com desgosto, e subi para buscar a minha vigésima xícara de café do dia na cozinha. Aproveitando o rolê dos vícios e maus hábitos, já dei uma passadinha do lado de fora, em frente ao estúdio, e fumei mais um cigarro. Preciso comprar um maço novo..., encarei o box quase vazio nas minhas mãos, ...não posso esquecer, saindo daqui. Aí troquei três palavrinhas com a mina da recepção, acerca de nem-lembro-o-quê, e desci novamente.

Nada ainda no celular. Mas que droga.

O relógio já marcava quatro-e-vinte passadas, quando resolvi ligar de uma vez por todas para a Mia e perguntar o que diabos estava rolando. Não é como se me faltasse cara-de-pau, não é. Só que... Não. Não, meu, eu não posso fazer isso, repensei no mesmo instante, certa de que ela concluiria que eu estava surtando com a história toda. Tá. Mas eu estou surtando, porra. Por um lado, eu sabia que, caso eles estivessem bem novamente, seria o mesmo que sempre foi. Então, pra quê eu precisava confirmar a droga do crime? De uma forma ou de outra, a idéia de ligar para ela me incomodava. A questão é que, na verdade, aquela curiosidade lazarenta me comendo o estômago de fora pra dentro incomodava mais. Bem mais.

_Oi...? Mia?

fevereiro 09, 2011

À labuta...

Responde. Responde. Responde. Eu olhava fixamente para a tela do celular, apoiado na mesinha de provas, mordendo a ponta do meu pobre dedo polegar. Sabia que ela já havia saído da faculdade há horas, tempo suficiente para voltar para casa e almoçar dez vezes junto com a família, se quisesse – o que evidentemente acabava com a brilhante teoria à qual me apeguei a manhã toda de que ela não havia levado o celular para a aula ou deixara-o desligado o tempo todo. Puta que pariu, pensei, por que ela não me responde?! Isso é ridículo. Ridículo. Seguia, ciente da estupidez do meu surto obsessivo – sem, contudo, desviar o olhar do telefone por um segundo sequer.

_Não tem trabalho pra fazer, não? – um dos fotógrafos freelancers tradicionais do estúdio, o Saulo, passou por mim e riu.
_Não – murmurei, sem tirar os olhos da mesa ou a mão da boca.
_Tá fácil essa vida de assistente, hein...
_Não enche... – curvei as sobrancelhas em desaprovação.
_Ô, bravinha... descarrega isso aqui pra mim, vai! – ele jogou um cartão de memória na minha frente na mesa, achando graça no meu azedume.

A contragosto, peguei o card, levantando da cadeira, e coloquei-o para baixar num computador a poucos metros dali. Enquanto fazia-o, curvada em pé ao lado da mesa do PC, o Saulo mexia na sua mochila, agachado no chão. Tinha pouco mais de 30 anos, a cabeça raspada, ares de fotógrafo profissional e usava o mesmo cavanhaque horrível desde que o conhecia. Ia e vinha ao estúdio quase semanalmente, era um semi-fixo.

_O que era lá hoje? – perguntei, enquanto as fotos baixavam.
_Catálogo.
_Que tédio, hein...
_É... – ele riu – ...mas foi de boa.
_“De boa”.
_Já terminou aí?
_Não – olhei pro monitor – foi 76% só. Mas, tipo... alguma vez essas merdas não são fáceis assim?
_Ah, depende... se pegarem uma agência muito ruim. Já aconteceu. Mas hoje era de boa mesmo, foi até rápido. É bom porque às três eu tenho mais um lance agendado... Preciso sair daqui a pouco, aliás.
_Hm, você quer que eu trate pra você?
_Não precisa, o Lucas disse que vai fazer... ele já vai descer aí – falou, se levantando – eu vou tomar uma água, acho. Você vai lá hoje?
_Onde? No happy? Não sei, eu vou ver ainda.
_Nunca vai, hein, metida – comentou – e, ô, seu celular piscou aqui...
_Piscou?! – saí no mesmo segundo em direção à mesa com as provas, ansiosa – e eu fui com vocês não faz nem um mês. Nada a ver, meu. É que não dá pra ir toda semana, né, mano... vocês só escolhem lugar caro, porra.
_Que é? O big boss não anda te pagando em dia? – ouvi-o brincar, ao fundo, sem prestar realmente atenção, conforme lia a resposta tardia da Mia, virada de costas para ele com o celular nas mãos.

Ahh. Se foder, mano... Respirei fundo e olhei de novo para a mensagem, sem acreditar naquilo. Era só o que me faltava, inacreditável. Caminhei, irritada, de volta à mesa do computador, enfiando o celular no bolso, e chequei se as fotos já haviam descarregado. Retirei o cartão de qualquer jeito do leitor e dei-o na mão do Saulo, saindo em direção à escada. Subi, me refugiando na cozinha, e disquei sem sucesso para a Marina. Caixa postal, duas vezes. Inferno. Aí, claro, liguei para a segunda mais inteirada do assunto, a Lê, que atendeu logo em seguida.

_Escuta. Quanto tempo demora pra digitar quatro letras no celular?!
_O que?
_Quatro letras, no celular. Quanto tempo demora, Lê?!
_Ihh... já tá brigando? Que foi que eu fiz, meu?! – ela riu.
_Você, nada. A Mia... – passei a mão no rosto, com raiva, sem conseguir continuar – eu mandei uma mensagem pra Mia faz... – olhei rapidamente no visor e calculei de cabeça – ...faz, meu, mais de seis horas e sabe o que ela me manda de volta?! Quatro letras. Quatro!! Mano, eu vou dar com a cabeça na parede. É sério. Você tem noção? Eu passei a manhã inteira grudada nessa porra desse celular, surtando, e pra quê?! Pra receber quatro... ok, sete, se contar as reticências... mas que se foda... sete dígitos de merda. Sete, mano. Eu vou matar a Mia, tô te falando. Você vai me buscar na droga da DP, cara, eu vou matar ela.
_Não entendi nada, calma. Qual era a mensagem?
_“Eu também”.
_Isso dá mais de quatro letras, sorry...
_Abreviado, né, porra. E ainda por cima foi abreviado!!
_Ok – ela riu – mas ”eu também”, o quê?
_...estou pensando tanto em você.
_E isso não é bom?
_Não! Claro que não! – discuti – cara, ela vai encontrar o Fer hoje, isso... isso é... péssimo! Horrível! Ela tinha que responder... sei lá... “não consigo parar de pensar em ontem à noite”, “eu gosto de você pra caralho” ou algo do tipo. Não simplesmente concordar comigo, tipo, muito, muito vagamente. Isso é uma catástrofe! Sério, uma catástrofe. Lê, eles vão voltar hoje. Eu sei que vão. Eu já tô sentindo tudo acontecer. Vai ser o pior dia da minha vida.
_Voltar? Mas desde quando eles brigaram, mano?
_Ah, eles brigaram. Meu, não tenho tempo pra ficar te explicando tudo, presta atenção. Eles brigaram e eu dormi com a Mia ontem e foi o máximo, sério, o máximo, e agora ela vai ver o Fer e vai ficar toda apaixonadinha e vai estragar tudo. Já está estragando... ela está esquisita, vai por mim.
_Nossa...
_E o que diabos quer dizer “eu tb...”, afinal?! “Eu também e queria te ver de novo”? “Eu também, mas tenho muita coisa pra pensar”? “Eu também e só”?!? “Eu também... e estou pensando em você, no Fer, na torcida do Corinthians...”?!?! Sério, me explica, que merda ela quis dizer com isso?
_Mano... você percebeu que você está tendo um surto, né?
_Não enche, Letícia.
_Quer dizer que ela também está pensando em você!! Cara... relaxa. Ou manda outra mensagem pra ela, sei lá. Como você é complicada, credo. Só tem rolo nessa sua vida aí.
_Olha, sem ofensas, mas você definitivamente não serve como Marina.
_O que?
_Nada. Preciso desligar... mas valeu.
_Tá. Um beijo... – a Lê riu.

fevereiro 03, 2011

Sintaxe complicada

“Eei...”, comecei a escrever no celular e logo me contive. Não queria me intrometer, o assunto era deles; eu não queria surtar com meias palavras ditas num café-da-manhã. Contudo, droga, não podia evitar. O nome da Mia figurava no campo do destinatário. A porra da ansiedade havia me tomado os pensamentos, invadido a minha cabeça, o meu corpo, à força e, para completar, eu não conseguia me livrar daquele enjôo maldito, doentio no estômago. Sentada à beira da cama, toda nua da cintura para baixo, com a mesma regata amassada de dormir – os cabelos soltos, bagunçados, e os olhos no seu nome na tela. Judiando cruelmente dos meus lábios, ansiosa pra porra.

Merda.

Tornei a digitar, sentindo uma necessidade brutal de tomar alguma atitude, agir, fazer qualquer coisa a respeito daquela história toda. Precisava completar a frase, as reticências imploravam por alguma verdade minha. “Eu te amo”. Não. Assim que olhei as palavras finalizadas, as apaguei imediatamente, num impulso covarde e previsível. Inferno. Me sentia exposta, exposta demais; me declarar assim trazia mais incômodo do que eu poderia me sujeitar. Então, hesistante, voltei atrás. Respirei fundo e encarei o meu quarto, as roupas jogadas pelo chão e o samba-canção do Fer, despido ao meu lado, no colchão. Diz alguma coisa, sua imbecil... você precisa dizer alguma coisa. E, naquele momento, qualquer frase pronta serviria.

“Mal posso esperar para te ver de novo”. Não. Ou “gosto tanto de você”. Não, também não é isso. Não era nada disso. Argh, como eu odiava não poder lhe dizer um simples não-quero-que-fique-com-ele. Como queria poder pedir para que ficasse. Que ficasse, afinal, comigo; que pensasse em mim, até o fim daquele dia, e só em mim; que deixasse o resto do mundo para lá, esquecesse de todos os horários marcados e conversas e namorados. Que fosse minha, não de outro, naquela quarta-feira.

Mas pedir, assim, me parecia hipocrisia. Pois é, hipocrisia. Porque antes de nós duas, existiam eles – e eu sempre, sempre soube. Não podia sequer fingir o contrário, já que dormia ao lado da porra da evidência. Desgraça. E os minutos se seguiam, aumentando, no pequeno relógio disposto no canto direito da tela. O Fer já havia deixado o apartamento há algum tempo e eu restava ali, com o interior todo embrulhado em nervosismo, sofrendo por antecipação. Antecipação por uma tarde que sequer acontecera ainda. Eu não entrei nessa sem saber, suspirei, forçando coerência goela abaixo. As minhas mãos podiam, sim, desde o começo, estar amarradas; mas os meus olhos sempre estiveram – inegavelmente – abertos. Eu sabia; e não me cabia agora pedir o contrário dela. Da vida dela.

Exato, então fica quieta. Passei a mão na boca, no queixo; e desci-a pelo pescoço, tentando controlar o meu nervosismo incabido. Todavia, mal me agüentava sentada ali. Impotente, desejando uma mudança qualquer de curso. “Estou pensando tanto em você”, digitei; a mais pura verdade. E quase que num gesto impensado, idiota, eu a enviei. Aí no segundo seguinte, claro, me bateu um desespero irracional, tomada por um arrependimento sem sentido. Merda, o que foi mesmo que eu escrevi?!, tentei lembrar ao observar, piscando na tela, uma mensagem automática. “Envio concluído com sucesso”.

Entrei, apressada, na caixa de saída e reli a frase. Ok. Aquilo me tranqüilizou, afinal: não havia sido tão ruim assim. Agora chega, respirei fundo mais uma vez e larguei o celular na cama, decidida a ir trabalhar. Levantei, forçando-me à distração cotidiana. Preciso de uma calcinha.

fevereiro 02, 2011

Do lado de lá

Um Mississipi, dois Mississipi, três Mississipi... doze Mississipi, treze Mississipi, quatorze Mississipi, quinze Mississipi... e vira. Um Mississipi, dois Mississipi... quatorze Mississipi, quinze Mississipi... e vira, de novo. Assim eu seguia, milagrosamente em pé antes da hora, no meu ritual rumo ao queijo quente de frigideira perfeito. Mal-vestida num samba-canção honestamente roubado do Fer, com uma regata branca velha e um ótimo humor. É que acordar com tempo suficiente para um café-da-manhã decente é tão raro na minha vida, entendam, que tais ocasiões merecem recompensas à altura. Mesmo que a louça conseqüente não me anime nem um pouco.

Foda-se, eu tenho tempo, sorri e virei novamente o meu futuro lanche-mega-delicioso no fogão. Meus pés, aos poucos, começavam a se incomodar com o piso frio da cozinha e eu pensei que deveria ter ficado de meia. Olhei mais uma vez para o relógio na parede, entre quinze Mississipis e outros quinze do lado oposto, e notei as horas. 7:04. Sequer lembrava quando fora a última vez que eu estava de pé assim tão cedo. Maravilha. As fatias de pão-de-forma já mostravam os primeiros sinais de que iam dourar por fora e o queijo começava a derreter entre elas, me deixando realmente com fome. No meio do processo, ouvi o Fer entrar pela porta que dava no corredor.

_O que você está fazendo aí? – percebi-o se aproximar atrás de mim.
_Pode tirar o olho, hein... é meu café-da-manhã.
_Não falei nada... – ele veio para o meu lado e se apoiou na pia, com os antebraços na quina, roubando um pedaço do queijo que eu deixara fora da geladeira; enrolou uma fatia, olhando sei-lá-por-quê para a minha roupa, e depois comeu um pedaço – ...ô, essa não é minha?
_O quê? A cueca?!
_Acho que é, não é? – perguntou, meio indiferente, mais interessado em terminar o queijo em suas mãos do que em saber a resposta; aí me observou, distraído, conforme eu confirmava.
_É, sim.
_Espera... e isso? – empurrou o meu cabelo para trás, descobrindo o meu pescoço, e riu, sentando-se na pia quase de frente para mim – isso aí não é meu. De quem é, hein?
_Ninguém, babaca.
_O que? Vai dizer que você se queimou aí com a frigideira? – ele riu, pegando mais uma fatia do queijo, largado ao seu lado, e me enchendo de propósito.
_Ai. Sai daqui, vai... – eu o expulsei, ameaçando-o com a espátula suja, sem querer discutir o chupão que a sua namorada me rendeu na noite anterior. E ele achou graça.

Descendo da pia, deu alguns passos atrás de mim, até a geladeira, e tirou um resto de suco da prateleira de baixo. Bebeu-o direto da caixa, enquanto procurava pelo cereal no armário. Já estava arrumado, mais do que o normal para uma manhã de quarta-feira, pronto para ir trabalhar. Com uma calça jeans limpa, barba feita, regata branca e uma camisa preta de manga curta aberta por cima. Estranhei, geralmente ele veste qualquer coisa; mas que seja, voltei para o meu queijo quente. E pronto. Retirei-o, feliz, com a espátula e coloquei-o num prato vazio que aguardava na pia, ao meu lado. Aí peguei uns guardanapos e me sentei com o Fer na mesa, esnobando o seu café-da-manhã comum com o meu lindo sanduíche.

_Acordou cedo por quê?
_Sei lá, caí da cama. Levantei tão de boa hoje, acho que dormi bem. Nem tocou o despertador ainda, acredita, meu? Tava programado pras sete e cinqüenta só. Vai entender... – mordi o primeiro pedaço do meu queijo quente, magnífico, e olhei para o Fer conforme mastigava aquele pão crocante delicioso – e você? Tá todo arrumado aí, hein... Que é?! Foi promovido?
_Promovido a ficar no mesmo cargo por mais dois anos, né, só se for... – revirou os olhos, frustrado com o emprego, sem perspectiva alguma – ...nem, meu. Vou encontrar a Mia hoje, saindo de lá... pra “conversar”.

Ô, merda. Como eu fui me esquecer disso?!

_Hum... boa sorte, eu acho... – tentei soar natural.
_Valeu...
_Vocês... vocês estão bem? – continuei, forçando certa indiferença.
_Ah, acho que sim. Ela me ligou ontem, falou um monte, eu tava no trampo e aí como eu não podia conversar direito, a gente marcou de se ver hoje. Mas ela também não queria vir aqui, começou de novo com essas frescuras, sabe... Ela anda toda estranha com essas coisas, então vamos jantar em algum lugar aí. Sei lá, a Mia é cheia desses chiliques. Mas acho que ela nem tá brava mais, não parecia pelo menos.
_É? O que ela disse?
_Sei lá, falou um monte de coisa. Disse que estava exagerando aquele dia lá, que gosta mesmo de mim. Ficou toda sentimental no telefone. Foi meio do nada, disse que tava com saudades, não entendi porra nenhuma. Não sei mais o que faço com ela, meu...
_Como assim?
_Ah, mano... eu curto ela pra caralho, a gente se dá mó bem. Porra, não entendo essas coisas! Cada vez ela inventa uma, saca? Parece que o problema sou eu.
_Ué. Mas não era só o lance lá da... da festa?
_Era. Ou não é, não sei. A gente sempre discute e resolve as coisas logo depois, isso que eu não entendo! Às vezes, acho que ela só quer uma desculpa pra terminar comigo, manja? Ela... Não sei, ela... fica distante, do nada; não quer fazer nada, não quer vir aí, não quer porra nenhuma comigo – argumentou, incomodado, deixando a colher de lado no prato e se explicando – mas aí depois ela volta toda, sei lá, normal. Diz que me ama, pede desculpas, inventa mil problemas em casa... e nem sei se é assim, saca. Os pais dela são mó de boa. Eu acho que é tudo coisa dela, manja, mas aí, meu, a gente fica bem de novo. Tipo, como se não tivesse acontecido nada, porra nenhuma, tudo lindo e azul no Paraíso. Não sei, é estranho.
_Ah, Fer, mas... todas as meninas são assim, mano.
_Eu sei, só que... só que não era, cara. A Mia não era assim. Juro que não era, ela era muito sossegada. Faz, sei lá, uns meses só que ela tá nessa de...
_De...?
_De, não sei, surtar o tempo todo. Me ama num segundo e, no outro, não quer nem que eu encoste nela, quer ficar sozinha. Antes a gente não conseguia nem tirar as mãos um do outro, porra! E eu curto ela pra cacete. Sabe, eu sei que ela gosta de mim, porque ela... ela demonstra isso, saca, mas... Puta, mano, é foda. Mulher é foda.
_Nem me fale... – arqueei a sobrancelha, encarando a mesa, sem coragem de olhá-lo.
_Cara, vai ser a mesma história de sempre. Você pode ter certeza. Quer apostar quanto que eu vou entrar lá hoje e ela vai querer que eu vá com ela pra casa, vai fingir que nem aconteceu, que nem tava brava. Mano... conheço. Tô falando, meu, aposto o que você quiser.
_Uhum... – empurrei o prato, discretamente.

Um queijo quente, perfeito. Perdi a fome.