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agosto 31, 2010

Pupilas dilatadas

Foi como ficar sóbria, instantaneamente.

Às vezes, mergulhos muito profundos em si mesmo são perigosos. Entorpecentes demais também. O problema é que quando sua brisa te tira tanto de si mesma, sua mente é obrigada a te puxar de volta à força. É como quando você recebe a pior notícia da sua vida em meio a uma bebedeira enlouquecedora: o mundo automaticamente pára de girar e você recupera a razão. Mas aí segue a dor de cabeça, é claro. Porque trancos mentais tão bruscos assim não devem ser tão simples, imagino, anatomicamente falando. A sua percepção da realidade entra em colapso, de repente, o que em resumo não deve ser nada saudável.

O que antecedeu, no entanto, o que provocou a tal submersão perigosa, foram as cores. E não se deixem enganar pela pressuposta inocência das mesmas. Não quando se tem drogas demais na cabeça e álcool em excesso no sangue – aí as cores adquirem malícia, entendem, perdem a sua passividade. E começou com os pés descalços da Mia. Seus pés e sua pele branquinha – e, tá, eu sei... sei que branco não constitui exatamente uma cor só, mas que se dane! –, foi assim que começou. Com a pele dela, preservada pelo cinza dos céus paulistanos, contra o azul-marinho do sofá da sala.

E então continuou, descendo pelas suas pernas, encostadas suavemente entre si, até os tons castanhos da madeira no piso. Contrastando com sua palidez e ironicamente o calor que emanava do seu corpo. E aí veio a sua calcinha, que era preta, intensamente preta, e as cerejinhas vermelhas desenhadas em toda a parte da frente. Observei deslumbrada, estava chapada demais. Era como caminhar uma madrugada tranqüila, como numa véspera de Natal, quando pequenos pontos rubros de luz iluminam as ruas e as árvores escuras à noite. Era bonito de ver, realmente bonito, me encantava.

Meus olhos continuaram subindo, lentamente, admirando logo em seguida o trechinho descoberto da sua nova tatuagem. As linhas pretas e o amarelo dos Narcisos, na lateral do seu corpo, flamejantes. E, então, vinha o preto desbotado de uma camiseta velha de dormir – provavelmente emprestada do Fer. É, sem graça. No entanto, poucos palmos acima a ressurgia o branco da sua pele, iluminando-a novamente diante dos meus olhos apaixonados atentos, misturando-se com o castanho dos fios de cabelo que caíam ao longo do seu pescoço...e o castanho envernizado do chão, onde eles deitavam esparramados.

Me deu uma vontade... incoerente... de mergulhar ali, de correr meus dedos pelos fios, graciosamente, de tocar sua pele. Encostar, sabe. É que, não sei, estava assim tão perto, tão bonito. E me vinha aquela paz, aquela lentidão, de olhá-la por horas e não querer sair mais dali. Apenas contemplar, acompanhar seu comportamento delicado, conforme suas bochechas começavam a rosear, em tons serenos, e a sua boca me tentava por acidente, sem consciência.

Levantei a mão até o meu rosto, em um movimento lento, e corri a ponta dos meus dedos sem pressa pelos meus lábios. Eu, também, me movia pausadamente; pouco a pouco, junto com o mundo, que demorava a passar. 420 horas por minuto, hm. Sentir o calor das minhas mãos na minha pele me acalmava, mas não resolvia o problema. Não era a sensação que meu corpo buscava, ali às cegas, era apenas um reflexo automático. O calor que eu queria, pelo qual eu de fato ansiava, estava a alguns centímetros de castanho, de piso frio, dali – encostada sinuosamente no decorrer da madeira.

Foi quando, então, o escuro dos meus olhos encontrou o amendoado dos dela, que eram permeados por raios finíssimos de um preto lindo, tão lindo. E eles estavam me olhando de volta. Me olhando atentos. Desde quando...? Sua mão moveu-se cuidadosamente na direção do meu rosto, tirando a franja bagunçada de cima dele, e eu senti sua respiração pesar dentre a ínfima distância entre nós duas. Aos poucos, meu coração acelerou. O sangue corria intensamente pelas minhas veias, eu podia senti-lo, era como se o mundo inteiro formigasse ao meu redor e ansiedade não parecia mais mera emoção, era real. Tão palpável quanto a garota na minha frente.

E a mistura de tonalidades e sensações, sensações vivas e deslumbrantes, coloridas, ou o excesso delas, me arrancaram todo o resto de consciência que eu possuía. Me sacaram de mim, me tiraram do sério, sumiram com a minha razão. E aí me impulsionaram, sem qualquer pensamento coerente, na sua direção. A meio centímetro, a altura do “prestes”, e ela me olhava de volta, completamente submissa às minhas intenções, hipnotizada pelo mesmo tipo de sentimento que me dominava naquele momento.

Era aquilo. E aquilo era quase um beijo, envolto em castanhos ondulados e vermelhos cintilantes, brancos macios, rosas lentos e pretos amendoados... e por pouco não o foi. Realmente pouco – a ponto de eu sentir o movimento oscilante do seu colo empurrar as partículas de ar contra o meu, conforme ela respirava ansiosa, à mercê da iminência. Involuntariamente, a minha boca se encheu de gosto, de vontade, de uma cobiça difícil de amenizar.

Porém, de repente, meus olhos recuperaram a velocidade. O pequeno círculo, ao centro, se estreitou por um instante e todo o foco entrou de uma só vez na minha cabeça. Quase brutal, de tão súbito, se considerarmos o quão a par eu me encontrava da minha própria situação. Tomada por uma inércia entorpecente, desavisada de qualquer perigo, inconsciente dos meus próprios atos, a meio centímetro da Mia e a menos de um metro do Fer.

Pára, porra, o que diabos você está fazendo?!?!

agosto 27, 2010

Fritando, fritando

“You come lookin’ at me / Like I’ve got to set you free / I can’t free nobody / She’s a woman / You know what I mean”, o radio gritava na nossa sala. Eu já havia perdido a noção do tempo há... há... quantas horas mesmo?! Há... Ah, que se dane.  Enquanto isso os meus pés brincavam descalços com os da Mia, lado a lado, e nós ríamos entretidas – ambos pares apoiados sobre o sofá, enquanto nós três encarávamos o teto. Deitados no chão, em fileira, eu e ela e depois o Fer, no tapete da sala de estar. “You better listen, listen to me / She’s gonna set you free”.

_Yeah, yeahhhhhh... – eu cantei de repente, empolgada, junto com a música. Os dois começaram a rir imediatamente de mim. Eu, por outro lado, estava chapada demais para me importar.

Ah, até que não é tão ruim assim... Estamos aqui... de boa... Todo mundo de boa... Ouvindo Wolf... Wolf, ahm... Wolfwoman... Não, mano... Não, não, não...“Woman” é a música, sua idiota... Wolf... Mother! Wolfmother!... É isso... É... A do cara estranho... Muito estranho... Ai, aquele cabelo... Credo... Não... Não dá, não dá... Não, espera, o que eu estava pensando antes?... De boa, é. Isso. Todo mundo de boa... Porra, o pé da Mia é bonitinho, né?... Vem cáá... Ai, não, faz cócegas, sai pra lá... Saiii... Sai!... Pronto. (...) essa luz é amarela demais, mano... Amarela demais... A gente devia trocar essa lâmpada, dói o olho... Se bem que... Eu nem ando ficando aqui... Tipo... Pra quê trocar?... Não, né, sacanagem... Tem o Fer... Regras de convivência... É necessário... Um pouquinho de compaixão nesse coração, garota... Hm, “compaixão”... Com... pai... xão... Espera, “compaixão”?... O que diabos eu estou falando, porra?... Nada a ver, mano... “Compaixão” não é a palavra certa... “Compaixão” quer dizer... Cara, “compaixão” é uma palavra?!... Com... pai... xão... “Compaixão”... Estranho... Aff... Eu tô chapada demais... Eu preciso parar de... Eita, aquilo é uma formiga na almofada?... Uma formiga?? Aqui??... Enfim, eu preciso... Eu preciso parar de fumar... Preciso parar de fumar, porra... Não, o problema foi que... É, eu não devia ter misturado... Foi o rum... O rum não me caiu bem... Ahh, é, aquilo é uma formiga... E, hmm, acho que a culpa foi daquele velho maldito... Boteco sujo de merda... Foi ele, certeza... filho da puta... Espera, onde a formiga vai?... Não, aí não... Formiga... Formiiiga... Você vai cair, mano, volta... Pro outro lado, pro outro lado... Não... Nããão... Aff, cala a boca, mano, ela não te escuta... Eu tô chapada. Sério. Chega de viajar.  Ai, mas... Aiii... Não... Formiga... Formiiiiga... Formiguiiinha... Aí não... Me escuta, porra!... espera, eu disse isso em voz alta?!... Hm, não... Acho que não... Ô formiga, caralho, volta pra cá!... Aí não... Não!... A almofada... vai acabar... Formiga... Formiiiiiga... Espera... Não, formigas não caem... Ou caem?

_Gente... formigas caem?
_Quê, mano? – ouvi o Fer perguntar, do outro lado da Mia.
_Tipo, se uma formiga está andando em cima de uma coisa e aí ela vira de ponta cabeça... ela cai?
_O que vira de ponta cabeça? – a Mia indagou – a coisa ou a formiga? Porque acho que depende.
_Não, a formiga. A coisa fica igual, mas... tipo, por baixo.
_Não cai – o Fer concluiu.
_Não cai? Como não cai? Não rola, sei lá, a força da gravidade? – perguntei, com um enorme interesse repentino no assunto.
_Não cai, meu... Nunca viu formiga descendo na parede?
_Não, mas isso é na vertical... Ela tá falando se ficar completamente de ponta cabeça... – a Mia interrompeu – ...eu acho que cai, meu.
_Que cai, amor?! Nada a ver! Elas têm, tipo, super patas!
_“Super patas”?? – ela olhou para ele e os dois começaram a rir.
_É, tipo os sapos, meu... Tem aquele negócio redondo na ponta e elas ficam grudadas... – ele explicava, fazendo mímicas com a mão, e nós duas observávamos atentas.
_Sapos não têm isso, só as rãs... – eu supus.
_Claro que os sapos têm!
_Sapo não anda no teto, só rã! Ou pererecas.
_Mas é o mesmo princípio.
_Cala a boca, mano, claro que não... Formigas têm patas finas! – a Mia contestou.
_Ah! Como você sabe, espertinha?! Já viu uma num telescópio, por um acaso?
_Não! Você já viu?? – ela retrucou.
_Microscópio, gente... – eu participei, modestamente.
_Não vi, mas eu sei que é assim.
_Você “sabe”? Como você sabe? Hm?! Há quanto tempo você sequer vê uma formiga, meu?
_Ah, não tanto tempo... é que tá frio, aí elas somem.
_É... – concordei, mais ou menos, sem entender direito.
_Nossa! Como era aquela história, meu?! – a Mia gritou, do nada, me chamando pela mão – lembra? Da formiga e a...
_Cigarra! A cigarra, não era? – eu a olhei, deitada ao seu lado.
_Era! “A Formiga e a Cigarra” – a Mia se animou e começou a rir junto comigo, achando uma graça imensurável na situação.
_Isso. Pode crer... – o Fer disse, do outro lado – ...a cigarra cantava, não era, e a formiga fazia todo o trampo e aí a outra vinha mendigar pra ela no final.
_É, é...
_Espera, espera. Eu tô confusa. O que eu tinha perguntado antes?

Chapada

...pra caralho.


Por que diabos “unzinhos” nunca são, de fato, um só?!

agosto 26, 2010

Ralo abaixo

Mais uma, pensei ao enxergar o fundo do copo recém-posto sobre a bancada e fiz um gesto para o atendente, sem pensar suficiente a respeito. Aquela já era a minha quarta dose e o tempo insistia em passar devagar. Cruelmente devagar. Não queria dar bandeira junto com a Mia, mas chegar bêbada em casa naquelas circunstâncias também não era a melhor das idéias. Infelizmente, eu não tinha outra idéia de como passar a porra do tempo. Olha em que ponto você chegou..., eu me indignava comigo mesma, enquanto observava em pé o movimento deprimente do boteco, com a diagonal do corpo apoiada no balcão.

Levantei o olhar e o relógio na parede marcava vinte para as dez. Mais uma e eu caio fora. Um velho rabugento com a barba por fazer enchia o meu copo – tomado de uma certa má vontade – com o que seria a saidera de rum da noite. A Mia já estava no apartamento com o Fer há quase uma hora agora. Eu sabia que ia precisar me controlar uma vez que chegasse lá em cima e, ciente de que a situação em si freqüentemente tirava toda a racionalidade em mim contida, eu sabia também que precisava parar de beber.  

Virei a dose – aquela era, de fato, a última. Paguei o cara no caixa com as notas amassadas que tirei do meu jeans e me dirigi à saída com o maço de cigarros na mão, pretendendo enrolar mais alguns minutos antes de entrar no prédio. Quando, finalmente, me encontrei virando a chave na porta de casa, meu celular indicava o par de minutos restantes para completar dez horas.

A primeira fresta aberta entre a minha mão na maçaneta e o batente, revelou o som alto vindo da sala. Milésima multa, eu previ, conforme terminava de empurrar a porta apartamento adentro. O Fer estava sentado no sofá, debruçado para a frente, como se mexesse em algo na mesinha de centro. Ele me viu assim que entrei e acenou, sem me dar muita importância. A Mia, ao seu lado, me olhou rapidamente e logo tornou a encarar o chão. Ok. Até aqui, tudo bem, reforcei positivamente, enquanto me punha a atravessar a sala, esperando não ser muito notada.

_Falou parabéns? – o Fer me chamou, poucos passos antes de eu chegar no corredor – ...é aniversário dela... – olhei para trás e ele sorriu para mim, de mãos dadas com a Mia.

Pois é, né... eu sei.

_Hm, parabéns – eu andei até o sofá e a Mia se levantou brevemente para um abraço automático de despista.
_Quer fumar com a gente? – o Fer sugeriu, soando realmente amigável, e só então reparei o beck que ele segurava na sua mão – acabei de fazer!
_Não, tô de boa – respondi, querendo sair o quanto antes dali.
_É aniversário da Mia, meu... sério que você vai ir dormir?! – ele riu – fica aí um pouquinho, mano... fiz agorinha, já tá pronto, é só acender.
_Não, valeu... – disse, me virando para retomar o caminho.
_Ela tá cansada, amor... deixa pra lá, não precisa – a Mia cochichou do lado dele.
_É, e eu não tô muito afim...
_Ah, meu... qual é?! Você anda muito fresca! – ele reclamou e riu, de novo – nunca fez mais nada com a gente! Pô, fuma aí... só um, vai... para comemorar.

O argumento até que não era ruim. Aliás, era melhor que o meu, se não contarmos a verdadeira justificativa por trás do meu sono incomum às 22h da madrugada. Eu odiava mentir para ele. Olhei nos olhos do meu melhor amigo, ali, sendo todo simpático comigo e me detestei por andar tão cretina com ele nos últimos dias. Por um instante, então, sua sugestão não me pareceu tão má idéia – e isso certamente envolve motivos maiores, digo, de alto teor alcoólico. Mas, ah... que mal poderia fazer? Argh, merda. Observei-o novamente e suspirei, dando-me por vencida.

_Tá.

agosto 22, 2010

Bonnie & Clyde

Ficamos em silêncio. E o tempo se esticou, transformando segundos no que pareciam ser minutos ou horas inteiras. Nenhuma de nós dizia nada, cada qual no seu canto de antes. Sem mover um passo sequer. E o vento continuava, se esforçando para judiar mais ainda de nós, porém agora sendo categoricamente ignorado. O frio havia perdido sua importância na situação, perdido para o desconforto evidente. Dois segundos de conversa do lado de fora e todo o clima foi por água abaixo. Droga. O pior é que eu sequer podia alegar surpresa.

Lógico, mano. Lógico. O que você achava que ela ia fazer? É aniversário dela, porra. Claro que ela vai dormir lá, mano. Claro que ela vai ver ele. Como eu sou idiota, caralho... eu devia ter previsto essa. A minha vontade naquele mesmo segundo era de subir no primeiro ônibus que passasse, independentemente do destino, e ir para o mais longe que eu conseguisse do quarto que ficava ao lado do meu. Sumir, naquela noite. E por pouco – realmente pouco –, não ergui o queixo e o fiz.

No entanto, repetidas vezes, as palavras da Marina continuavam ecoando na minha cabeça. E a expressão no rosto da Mia, naquele momento, não era de orgulho. Pelo contrário. Aquilo, não sei bem porque, me fragilizou. Então a observei cuidadosamente, encolhida no seu moletom, com as mãos protegendo os braços como podiam do frio, e pouco tempo depois os seus olhos me encontraram. Ela tinha um certo pesar, uma seriedade culposa no olhar. Aí, enfim, eu entendi.

Segurei então o zíper da minha jaqueta com a mão direita, descendo-o, enquanto minha outra mão se esticava no ar na direção da Mia, que me olhava, agora curiosa. Ela se moveu lentamente, se aproximando de mim, e eu a puxei delicadamente pela mão, sem me desencostar da parede. Continuei a encarando, o tempo e nossos gestos se moviam devagar.

Quando o seu corpo já estava perto o suficiente, encontrei o seu rosto com a mão que anteriormente abrira meu casaco, e a olhei por um instante. Corri meus dedos pela lateral da sua face e sorri para ela. Ela sorriu de volta, como que por mero reflexo. Aí trouxe-a para ainda mais próximo ainda de mim, segurei-a com ambas as mãos e, de um jeito quase sem querer, nos beijamos.

Simultaneamente, desci minhas mãos e coloquei cada um dos lados da minha jaqueta ao redor da Mia, sobre seus braços, a protegendo do frio. Senti suas mãos ainda geladas me abraçando de volta, percorrendo a lateral do meu corpo, entrando naquele calor entre a blusa e a jaqueta. Quando seus braços já se apoiavam na minha cintura, o beijo terminou e nossos lábios se separaram suavemente. Seu rosto, então, se afastou dois mínimos centímetros do meu. Ela me olhou de perto... e suspirou.

É, a Marina estava certa.

Então...

_Você quer falar de outra coisa, não é? – eu perguntei, achando graça no sofrimento dela em me confessar as circunstâncias que permearam o nosso primeiro beijo.
_Nossa, por favor... – ela começou a rir, aliviada.

Olhei para ela e balancei a cabeça, rindo. Concordei. Aí me levantei rapidamente, curvando o corpo por cima da mesa até o outro lado e lhe dei um beijo na bochecha. Me sentei de novo e nós rimos, mais uma vez, ao cruzar nossos olhares. Aquilo me bastava; só aquilo e eu já me sentia mil vezes melhor, mais leve, descomplicada. Além disso, àquela altura, a nossa comida já havia tido tempo de esfriar consideravelmente.

Aos poucos, tornamos a intercalar garfos e colheres com sorrisos e aquele bla-bla-bla extasiado, bobo, gostoso. Meia hora depois e estávamos as duas, na maior cara de pau, implorando tentando convencer o garçom a nos oferecer gratuitamente a sobremesa pela qual nos recusávamos a pagar R$ 14,90 – apesar de, neste caso, com base nas minhas memoráveis experiências anteriores, eu secretamente concordar com a justificativa custo-benefício que ele tentava nos prestar.

Após o nosso inevitável fracasso, pagamos a conta e saímos para fumar – idéia minha, claro – na porta do estabelecimento. O frio havia piorado exponencialmente com o tempo, como era de se esperar, e a Mia pulava na minha frente, reclamando num tom bem-humorado sobre como o vento incomodava sua tatuagem nova. Eu ria, entre uma tragada e outra, achando graça no drama.

_Ôôô coitada, hein... – eu fazia careta para ela, sendo irônica.
_Cala a boca, meu... Essa porra corta! Arde muito, meu! – ela choramingava, exagerando, e depois ria também – não, é sério.
_Sei... – eu ria e colocava o cigarro na boca, olhando para ela.
_Vai à merda! – ela empurrou meu ombro para trás, inutilmente, uma vez que eu me encontrava encostada na parede, observando-a saltitar na minha frente bem no meio da calçada – vai, termina logo aí e vamos embora.
_Mano, é pior andar contra o vento... relaxa, a gente já vai. Você também não acabou aí ainda.
_É, mas são sei lá quantas quadras até a casa de vocês, né... a gente podia já ir agilizando o sofrimento que nos aguarda.
_Espera, você vai para o apê?! Mas o... – me contive, na mesma hora, caindo na real e me arrependendo de ter aberto o bico.
_É, eu... eu... – ela me olhou, conforme as palavras saíam sem muita confiança da sua boca, e lamentou – ...eu prometi. Tinha dito pro Fer que ia passar lá hoje, ele queria comemorar comigo... e aí como o estúdio... era...

Vi ela se atrapalhar para explicar, letra atrás de letra, nitidamente nervosa com o surgimento repentino do assunto, então forcei um meio-sorriso, fazendo um sinal discreto com a cabeça, como se indicasse que entendia e que não tinha problema. Ela se acalmou, parando aliviada de falar, e eu sorri brevemente. Aí abaixei o olhar até as pedras da calçada, tentando disfarçar como podia, sentindo um aperto horrível no peito. Merda. Respirei fundo, engolindo o incomodo a seco, e coloquei o cigarro de volta na boca.

agosto 21, 2010

Uma pergunta só

Por que você me pergunta o que você já sabe, mano? Não é óbvio? Porra, faz meses (meses!) que a minha vida e a minha cabeça e toda a minha energia giram em torno de você. SÒ você. Você, cada centímetro de você. Você e essa sua... perfeição... irritante. Você, mano. Você e essa merda desse rolo infinito. E agora fica aí, me olhando como se não soubesse, como se fosse novidade. Não, sério, Mia... Você precisa mesmo que eu fale? Mesmo?! Você vai me obrigar a sentar aqui, olhar para a sua cara e dizer, de novo, o que você já percebeu? Caralho. Por que? Por que você faz isso, meu? Narcisos. Narcisos, não é?

Argh, eu odiava, odiava muito, ter que admitir meus sentimentos – principalmente sóbria e vestida, aí era pior ainda.

_Sim – respondi a contragosto, enfim, e encarei-a de volta.

A sua boca entreabriu-se brevemente, como se fosse dizer algo. Porém, logo em seguida, se conteve. Não sei se foi a sinceridade ou os meus olhos que a intimidaram, mas certamente pareceu culpa minha. Droga, pensei, no entanto não conseguia desviar o olhar dela. E permanecemos naquela estática involuntária por alguns segundos, em silêncio, até que eu finalmente criei coragem e lhe devolvi a questão.

 _Não me faz pergunta difícil, meu... – ela murmurou, abaixando os olhos, e encarou o prato como se fugisse de mim. Depois, no entanto, subiu novamente o olhar na altura do meu e me encarou, discretamente melancólica, parecendo incomodada com a própria resposta.

Inferno. Eu detestava aquilo. A imunidade culposa dela a todas as conversas que pudéssemos vir a ter sobre sentimentos e a nossa situação toda. Ela nunca falava nada e eu, por mais que odiasse admitir, era sempre a pateta que acabava soltando um comentário ou outro sobre o quanto gostava dela. E o resultado, deixando o fator da injustiça de lado, era que eu nunca ouvia concretamente dela o que ela pensava de mim...

...a não ser que eu a deixo “estranha”, mas que ela “gosta” de ficar do meu lado, repeti na minha cabeça, como se pudesse ouvi-la dizendo cada uma daquelas palavras. E isso não me ajudava, não no ponto em que eu estava, não pelo tanto que meu coração era dela. Suspirei e a olhei de novo. Não lembrava quando havia sido a última vez em que gostar mesmo de alguém fora tão difícil. Era como andar sobre gelo fino, o tempo todo: parecia que qualquer comentário mais concreto, qualquer sentimento mais pesado, quebraria tudo. E era exaustivo.

_Ok. Mas posso perguntar só uma coisa? – eu insisti, lembrando do que a Marina havia me dito mais cedo naquele dia.
_O que?! – ela me encarou, hesitante, já com medo da pergunta.
_Por que você... – eu engoli seco, por um segundo, e depois a observei de novo – por que você foi no meu quarto aquele dia?
_Que dia?!
_Quando tudo começou, quando eu te beijei. Lá no apartamento. Nós dicutimos na cozinha e você apareceu na minha porta, de madrugada... – os seus olhos tornaram a fugir para as listras que corriam pela toalha da mesa, mas eu continuei a olhando – ...você sabe por que foi lá?
_Eu não... – ela começou a responder, automaticamente, porém por algum motivo interrompeu a justificativa (que certamente terminava com o verbo “saber”) e se calou por um tempo.
_Você...? – retomei.
_O que você quer que eu responda, meu?! – ela pareceu se irritar.
_O que você achar que tem que responder, Mia... mas eu estou esperando que seja a verdade – eu continuei, calmamente, sem me estressar de volta com ela.
_Eu... eu... – a Mia baixou a bola e o olhar, de novo, falando pausadamente enquanto encarava a sua mão mexendo a colher no prato – não conseguia dormir... não sei, eu... estava no quarto... e... – ela largou a colher de repente no prato, passando a mão no rosto, e suspirou – isso não é fácil.

Eu sei... Acredite, eu sei.

_É que você... eu sempre gostei de você – ela continuou, me olhando de relance, então tornou a encarar a mesa – mesmo quando você era só “a mina que mora com o Fer”, eu... eu gostava de conversar com você, sabe. Sei lá, você é tão inteligente, você sempre me fez rir e... eu acho que eu criei essa imagem... não sei. Quer dizer, eu nunca conheci uma menina que nem você... sabe... que me fizesse... me fizesse sentir vontade de... não sei, você... começou com umas brincadeirinhas e... toda vez que eu ia lá ou a gente ficava sozinha, eu não via a hora de você começar de novo... eu gostava, eu não sei porque, eu... eu só gostava. E eu sei que isso era uma puta sacanagem com o Fer... mas... mas não achava que realmente fosse passar daquilo, mesmo porque você... você é tão bonita, meu... e você sempre teve as suas garotas... eu não achava que fosse... importante... quer dizer, era eu, eu sequer sou... ah, não sei. Aí veio aquela menina, a lá da Augusta, a...
_...a Clara...
_É... e aí... eu não sei, eu... eu vi você com ela, aquele dia... e eu... eu não conseguia tirar o olho de vocês... eu queria que você... não sei, acho que eu senti vontade de... eu queria que você... sabe, pela primeira vez, eu realmente quis que... quis saber como seria se você... sabe, se você...
_Te beijasse?
_É, daquele jeito. Sei lá... acho que foi só aí que eu me toquei do tanto que... de como você... quer dizer... que você gostava mesmo de garotas. Ou de mim, não sei. Percebi que não era só uma brincadeira, não pra você... que... que você realmente me quis... em alguma daquelas vezes... ou, sei lá... eu... só que... só que aí vocês começaram a sair e... toda a sua atenção começou a ser para ela... e eu gostava de quando... de quando... não sei... eu fiquei meio de lado... e acho que... que eu percebi que eu me importava mais do que... do que eu achava. E aí quando a gente discutiu, eu fui dormir e aí não consegui ficar ali... eu não... eu não queria estar do lado do Fer, não naquela hora... porque eu não conseguia tirar você da cabeça... e... me incomodava estar deitada ali, sabe? Do lado dele. Eu... não sei... eu estava me sentindo mal com isso... com tudo... com o tanto que eu andava te olhando... com aquela... idéia boba de... sei lá, de... de ser o que a Clara era pra você... não sei... era... eu estava... eu... parecia que não tinha ar suficiente, sabe? Entrando no meu pulmão... e eu... eu não conseguia dormir... não conseguia desligar minha cabeça... e o tempo todo eu pensava em você, ali, no quarto do lado... não sei... até que... teve uma hora eu simplesmente levantei. Sei lá, eu... eu não pensei direito na hora, eu só... eu... eu sei que é meio idiota.
_Não é nem um pouco idiota – eu sorri para ela.

agosto 17, 2010

Índole

Tão eu. Era. Era isso. Era sempre isso que todo mundo, toda vez, ia pensar de mim. E talvez eles tivessem razão – ok, muita razão –, mas não era exatamente o que eu queria que passasse pela cabeça da Mia quando pensasse em mim. Merda, lamentei mentalmente, enquanto a olhava na minha frente.

Aquilo me sacudiu violentamente, por dentro. Não que fosse qualquer novidade para mim – “se eu ganhasse um centavo cada vez que...” –, mas porque não era verdade, não com ela... e eu não queria tirar mais ainda a sua segurança. Afinal de contas, o vento já não soprava muito a meu favor. Faz alguma coisa, porra.

_...é. Mas eu acho que... – respirei fundo, pensando direito no que dizer – olha, eu sei da minha fama e não estou dizendo o contrário, não mesmo, é só que... o problema não está no namoro, sabe? Porque isso funciona para mim, funciona mesmo. Eu até gosto. O problema, eu acho, está na garota. E eu tive garotas maravilhosas, não estou reclamando, mas nenhuma que realmente me prendesse a atenção. Digo, garotas que eram minhas de verdade, sabe, e que poderiam ter continuado assim, se eu não tivesse estragado tudo. Mas a verdade é que, uma hora ou outra, o meu foco se dispersava. E não era culpa delas, nem minha.

A Mia me olhou, como se não concordasse com o meu argumento.

_Tá, tá. Eu sei que pode parecer desculpa de cafajeste, mas... sei lá... – eu continuei, tentando o meu melhor para me explicar decentemente – é que já faz uns meses que eu, não sei, “percebi” que as coisas podem ser bem diferentes para mim. Que eu posso ser completamente diferente, aliás. Melhor, sabe? Todo esse foco, essa vontade, de fazer melhor, de agradar, de ficar com alguém... Eu só não tive muita oportunidade de mostrar isso, mas... eu sei, sei que não é assim, que eu não sou assim. Eu só não tinha conhecido a garota que eu realmente queria, antes, sabe?
_E agora? – a Mia me olhou, completamente compenetrada.
_Agora, o que?!
_Conheceu?

_Que história?!
_Da sua ex-namorada – a Mia riu – ...a da tatuagem.
_Ah, sim... – eu me lembrei, me ajeitando na cadeira – ...a dona do Infinito.
_Essa mesma... – a Mia sorriu, de novo – É engraçado, agora que parei pra pensar. Eu não te tomaria por alguém que tatua coisas assim. Quer dizer, não sei... O infinito, sim; mas não para uma garota.
_É, nem eu acredito nas merdas que eu faço às vezes... – arqueei as sobrancelhas rapidamente, demonstrando um arrependimento incconformado – ...véi, é muita burrice.
_É mesmo... – ela concordou, achando graça.
_Mas, sei lá, na época fazia sentido, sabe?
_Hum. Sentido como?
_Não sei... Nós éramos daqueles casais que iam e voltavam o tempo todo, saca? Não era um namoro bom. Era ruim, ruim mesmo, mas eu era completamente babaca por ela e aí toda vez que a gente brigava, eu acabava indo lá bater na porta da casa dela e era sempre aquele drama... e aí você acha que vai ficar naquele rolo para sempre, acha que a pessoa para quem você sempre volta é sua constante na vida ou algo do tipo... e aí decide tatuar um infinito no pulso. Ah, sei lá, algo assim! Foi cagada, lógico que foi, mas na época parecia que ia ser para sempre ela.
_Vocês ficaram juntas muito tempo?
_Quase dois anos.
_Dois anos? – arregalou os olhos – Uau.
_É... Mas sempre naquelas, sabe? Indo e vindo. Era complicado. Ela me ajudou quando eu me assumi pros meus pais, manja? O meu pai ficou lá agindo como se fosse o fim do mundo, por meses, e não que eu estivesse tão mal... Eu sabia que ia ficar tudo bem uma hora ou outra, meu pai é cheio desses chiliques, mas no fundo ele me adora, sei lá, eu sempre soube que não ia durar... Mas mesmo assim, foi ela, sabe? Ela que ficou do meu lado, que conversava comigo... e esse tipo de coisa você nunca esquece. A pessoa acaba sendo importante, de um jeito ou de outro, mesmo que depois não dê certo.
_E por que não deu certo? – ela puxou a minha mão delicadamente para perto dela, cruzando-a por cima da mesa, e pôs-se a observar novamente a tatuagem, deslizando a ponta do dedo na minha pele.
_Por um monte de motivos – eu suspirei e tirei o cabelo do rosto com a mão que me restava livre – Não era uma relação saudável. Com o tempo, virou um lance obsessivo, sabe... Nós já não queríamos mais estar juntas, só que não conseguíamos nos desvincular uma da outra, ficamos acostumadas. Aí era aquela coisa... ela se enchia de mim, resolvia que não queria mais e a gente brigava. No fim de semana, ela ia para a balada e pegava meio mundo, depois se arrependia, aí ficava mal e vinha correndo para a minha cama. E eu acabava deixando, né, claro. Só que duas horas depois ela me contava o que tinha feito e aí eu é que ficava puta da vida, mandava ela ir embora, dizia que nunca mais queria ver ela... Aquele drama todo. E na semana seguinte, a mesma merda.
_Meu primeiro namoro foi assim... – a Mia riu, revirando os olhos, e eu achei graça na empatia dela – Você já tinha namorado antes da... ahm, qual o nome dela?!
_Nana. Quer dizer, Natália – respondi e olhei para cima, para o garçom, que colocava os nossos pratos cuidadosamente na mesa, depois continuei – ...e então, sério assim não. Eu até tinha tido uns namoricos antes. Acho que a Nana foi a segunda ou a terceira.
_“A segunda ou a terceira” – a Mia me imitou e riu de novo, me interrompendo; depois agradeceu ao cara rapidamente.
_Não é isso... – ri também, pegando o meu sanduíche com um guardanapo, tentando comer do jeito menos moleque possível – ...sei lá, eu comecei a ficar com mina muito cedo. O que eu quis dizer é que tiveram umas mais ou menos fixas antes dela, tipo, que duraram mais do que um mês. Tipo... não sei o que considerar namoro ou não.
_Sei. E foram todos assim? – ela perguntou, enquanto assoprava uma colher de sopa, para esfriá-la.
_Assim como?!
_Complicados.
_Não. Só ela. Acho que eu aprendi “demais” a lição e, depois disso, terminei todos os meus namoros antes de chegar nesse ponto. Ou fiz alguma merda, né.
_Até já sei qual... – a Mia riu, implicando qualquer inverdade a respeito da minha conduta sempre exemplar – ...meu, você deve ser a pior namorada do mundo.
_Que absurdo, mano! Claro que não! – me indignei e ela me olhou incrédula – Olha, você pode pensar o que quiser, mas eu sou uma excelente namorada.
_Sei...
_Tá, não acontece com tanta frequência. Admito. Não sou a pessoa que mais namora no mundo. Mas quando eu resolvo me comprometer, eu sou a melhor namorada que alguém pode querer! Eu me empenho pra caralho, sério.
_Hmm, quero ouvir o que as suas exs têm a dizer a respeito...
_É verdade! – eu continuei, achando a graça na descrença da Mia – Eu garanto que a maioria dos meus namoros foi ótimo. Realmente ótimo.
_“Até...”
_Até eu tropeçar e cair, sem querer, na cama de outra garota – eu expliquei, forçando uma voz ingênua e bem-intencionada.

A Mia começou a rir ainda mais e balançou a cabeça, inconformada.

_Nossa, isso é tão “você”...

Aperitivo

_Fica a dica. Pede esse aí ó, o de baixo... – me estiquei por cima da mesa, até onde a Mia estava, a fim de apontar o número no cardápio – É muito bom.
_Hum, não... – ela fez uma careta – Quero alguma coisa quente.
_Pede quente, ué.
_Não isso... – ela riu – Eu quero tipo, sei lá, uma sopa.
_Ah, mano, que nojo. Sopa? Olha o desperdiço... Esses caras fazem uns lanches geniais. Sério, vai por mim.
_Não quero lanche.
_É o melhor sanduíche de São Paulo, meu! – me indignei.
_Mas eu não quero! – ela riu e me reprovou com os olhos, pondo fim à discussão; em seguida ergueu a cabeça e encarou com um sorriso o pobre garçom, que mantivemos em pé ao lado da nossa mesa durante todo debate – ...eu vou querer o caldo, obrigada.
_E eu, o 26 – me dei por vencida e fechei o cardápio, olhando emburrada para ela.

O cara, de uns 30 e poucos anos, pegou os dois menus das nossas mãos com uma expressão descontente e saiu em direção à cozinha. A Mia riu e colocou o antebraço na beirada da mesa, se projetando para frente. A essa altura, eu já estava novamente largada para trás na cadeira, olhando-a de longe e atenciosamente.

_Você é muito cabeça dura, mano... – comentei, rindo.
_Eu não estava afim de sanduíche, meu...
_Mas os caras são especializados nisso!
_Nossa, desculpa aí a falta de coerência. Você acha que eu preciso ir na cozinha me desculpar com o chef também?
_Como você é besta... – eu sorri, olhando para ela.

A Mia achou graça e sorriu de volta, ambas tomadas por uma felicidade boba de estarmos juntas ali. O barulho no fundo pareceu crescer lentamente. Parte de mim odiava como as coisas se moviam em câmera lenta quando eu estava perto dela. A Mia apoiou um dos cotovelos na mesa, deixando a cabeça cair um pouco para o lado. Então deslizou uma das mãos pelo cabelo. Eu continuava olhando-a, do outro lado, ao que me parecia uma distância imensa. Argh. Ficamos sem falar nada por uns instantes. Observei seus dedos, entrelaçados naquela franja morena, percorrendo os seus longos fios. E aí movi minha atenção para os seus olhos, brevemente fechados; acompanhei o contorno da sua bochecha; e fui descendo pela sua pele até a sua boca. Então observei os seus lábios, levemente entreabertos; o seu queixo, a lateral do seu rosto e milímetro por milímetro do seu pescoço, até ele se transformar em ombro e tatuagem; aí notei mais uma vez as linhas e os desenhos e as cores novas e as sombras e os contornos. Mano, aquilo me deixava muito sem jeito.

_Então... Vai me contar a história ou não? – a Mia perguntou, desavisada, e eu acordei do meu estado contemplativo idiota de ser.

agosto 15, 2010

Nas entrelinhas

_Então... – eu murmurei com o cigarro ocupando minha boca, enquanto vestia desajeitadamente a jaqueta ao sairmos para a rua, num frio desgraçado – vai me contar o que são essas flores aí?
_São narcisos – a Mia respondeu, enquanto acendia o seu próprio cigarro, e me parou momentaneamente na calçada para poder acender o meu também.
_Narcisos? – eu arqueei a sobrancelha, olhando para ela ainda com o filtro entre os lábios, enquanto sua mão tentava bloquear o vento ao redor da chama.
_É. Pára de falar, senão mexe aqui – ela riu, com o isqueiro em sua outra mão, sem levantar o olhar na minha direção.

Esperei ela terminar e, quando finalmente a brasa pegou, ela se afastou. Dei uma tragada, já caminhando rua abaixo, e retomei a conversa. A Mia andava ao meu lado com os braços cruzados num moletom e apenas uma das mãos levemente para cima, segurando o seu cigarro. O frio havia espantado boa parte dos pedestres usuais da Augusta.

_E por que narcisos? – eu ri, olhando para ela – Não soa meio “eu me amo” demais?!
_Não... – ela encarou o chão, como se estivesse interessada no cimento sob seus pés – É a flor do egoísmo. É justamente o contrário, é a perda do amor.
_Próprio?
_Do outro. Ou pelo outro, não sei – ela respondeu.
_Mas por que cê quis tatuar isso?
_Porque do outro lado estão as flores de cerejeira... – ela levantou o olhar na minha direção por um instante, depois voltou a encarar os seus passos – e essa é a flor do amor. De tudo o que é bonito e passageiro.
_Passageiro?
_É. Ela nasce no verão, mas sempre dura pouco. O vento leva ela embora. E é uma flor linda, é o símbolo da feminilidade... No Japão, fazem festa quando ela floresce, é o maior evento. Por isso que todo mundo tem. Não é difícil ver gente com flores de cerejeira tatuadas.
 _Eu gosto das suas – eu disse e traguei mais uma vez.
_...e pelo menos essas ficam para sempre... – ela riu.
_São bonitas – olhei para ela e paramos por um instante na esquina com a Oscar Freire, esperando os carros atravessarem a rua – os narcisos também. Mas tô impressionada, onde você aprendeu tudo isso?
_Ahh...– ela se espreguiçou, deixando os braços soltos no frio por um momento – meses e meses de pesquisa, né.
_“Google”, você quer dizer...
_Exatamente – ela riu.

Eu a olhei de novo e ri junto, balançando a cabeça para o lado. Aí traguei mais uma vez, sem dizer nada, e procurei ao meu redor rapidamente até achar o café onde eu queria ir. Um bistrôzinho escondido na outra quadra. Fiz um sinal com a cabeça e atravessamos juntas para o outro lado, paralelo à direção que estávamos seguindo anteriormente. O vento continuava cruel.

_E a sua favorita, qual é? – ela me perguntou, conforme chegamos ao outro lado.
_Sei lá... – eu dei de ombros, jogando a bituca do cigarro no chão e pisando na brasa – a do braço, talvez, não sei. É a maior.
_Hmm... – a Mia me olhou, como se discordasse, e pegou uma das minhas mãos – Eu gosto mais dessa.
_Dessa?! – eu achei graça, assistindo seus dedos percorrerem o pequeno símbolo no meu pulso direito, com a manga da jaqueta levemente arregaçada – Por que?!
_Não sei, eu gosto dela – ela sorriu, olhando-a.
_Essa tatuagem eu fiz por causa de uma ex-namorada, eu tinha dezoito. Quer dizer “infinito” – eu ri, ironicamente, e passei a mão no rosto – Está mais para “oito motivos para te esquecer”.
_Sei... – a Mia achou graça e percorreu com a ponta do indicador a linha já bastante desbotada pelos anos, a observando com carinho – Mesmo assim, eu gosto dela.
_Quer saber a história?

Acenou que “sim” com a cabeça, me olhando de volta, intrigada.

_Vamos entrar, então... E eu te conto enquanto a gente espera a comida.

agosto 10, 2010

A la Marquis de Sade

Se tem uma coisa que eu gosto mais que mulher no mundo, ah, é de muié com tatuagem. E eu não estou me referindo àquelas três estrelinhas escondidas atrás da orelha, nem àqueles erros em forma de golfinho, acompanhados de um sol ou um tribal tosco, resultado lamentável de um devaneio pós-insolação num feriado prolongado no Guarujá. Argh. Não. Para o meu coraçãozinho e toda a água na minha boca, existe uma grande diferença entre “ter” uma tatuagem e “ser” tatuada. E a Mia se encaixava na segunda categoria.

Puta tesão. Juro – eu podia passar duas, três, dez horas que fosse ali, apenas observando uma garota sendo desenhada dolorosamente por aquela maquininha. E aquela garota ainda por cima. Na boa, aquilo para mim era quase melhor do que sexo.

Os minutos se desdobravam lenta e deliciosamente. De tempos em tempos, eu e a Mia engatávamos uma conversa qualquer descontraída com a tatuadora, realmente gente boa. Isso me animava consideravelmente. Aquela intimidade que fluía bem, aqueles momentos espontâneos de proximidade, tudo isso me fazia sorrir mais do que o normal. E eu estava bem mais feliz do que o de costume naquele estúdio. Ainda assim, sempre havia aqueles instantes de silêncio, em que só se ouvia o barulho do motorzinho e ninguém falava nada por minutos a fio. E esses, sim, eram complicados.

Conforme a máquina percorria o corpo da Mia, pouco a pouco as flores iam se colorindo de tons amarelados, então a tatuadora limpava a sua pele e ia descendo pela sua costela. E eu me obrigava a sentar ali, perto dela, assistindo-a morder os lábios, milímetro por milímetro, ao passo que a agulha preenchia o contorno, franzindo a sobrancelha e se mexendo sutilmente; reposicionando o quadril para frente e para trás na cadeira; contorcendo a cintura, com as costas descobertas; movendo-se sinuosamente a cada pausa. E os olhos da Mia apertavam a cada recomeço. Então ela esmagava a camiseta com suas mãos, afundando os dedos no tecido, e depois ia soltando o ar lentamente pela boca.

Não faz assim, mulher. Pelo amor de Deus.

Os meus olhos não conseguiam desviar dela. Da forma como aquela cintura se torcia. Dos desenhos, um por um. Dos seus dedos na camiseta. Ou os suspiros esporádicos da sua boca. Eu a observava ininterruptamente, numa fissura tão absurda que logo começou a me dar um calor, uma quentura. Sabe? Aquela febre interna filha da puta. E aí ficar parada naquela cadeira começou a se tornar uma tarefa realmente difícil. A minha mente ia sendo tomada por todo tipo de pensamento sujo, impuro, imprestável, e eu me torturava. Já estava cozinhando debaixo daquela roupa toda – e ainda assim, não tirava os olhos dela.

Respirei fundo mais uma vez e tirei o lenço do meu pescoço. A Mia continuava lá, concentrada na sua nova tatuagem e no processo, com a tatuadora já abaixo da sua costela. Todo o meu foco continuava na sua pele. Merda. O calor não tinha ido embora. O jeito foi tirar a jaqueta, também. Daqui a pouco eu fico pelada aqui, pensei e quis rir. Mas a intensidade daquele metro e pouco entre eu e a Mia, a influência cruel que as suas curvas e aquela porra daquele zunido da maquininha tinham sobre mim não permitiam. A única coisa que eu conseguia fazer era me inquietar naquela cadeira, morrendo de tanto tesão calor.

_Que aconteceu? – a Mia perguntou de repente, me olhando.
_O quê? – eu me reagi assustada, imediatamente arrependida de toda a bandeira que eu estava dando, droga.
_Aí... – ela riu, me encarando.
_Como assim?! – repeti, dando uma de desentendida.
_Na sua blusa – ela sinalizou rapidamente, com os olhos, e riu de novo – Está toda suja, meu.

Ah, isso. Respirei aliviada.

_Eu... eu derramei café nela hoje, no trampo – encarei minha camiseta, puxando-a com as mãos para ver melhor, e me irritei novamente com a mancha – Que merda, esqueci que isso estava aí.
_Está bonito, hein... – ela achou graça.
_É... Faz parte do meu estilo “funcionária do mês”.
_Toma, veste essa! – ela jogou a blusa que estava na sua mão na minha direção – Eu trouxe outra mais larga para usar depois que terminar aqui.
_Mas você não...?
_Não, pode usar. Assim mais tarde a gente sai daqui pra comer alguma coisa e você não precisa ficar de casaco o tempo todo – a Mia sorriu.

Tá bem. Levantei, empurrando a cadeira levemente para trás, e tirei a blusa num só movimento. Depois a dobrei, tomando o meu tempo para ficar só de sutiã na frente da Mia, e abaixei para colocá-la junto da minha jaqueta e do lenço no chão. A tatuadora sequer olhou na minha direção. Puxei a blusa da Mia do meu ombro, onde a tinha apoiado, e comecei a vestir. A Mia me encarava com os seus olhos castanhos e, por algum motivo, eu me senti vingada por toda a sessão de tortura que tinha aguentado até então. O nosso relacionamento era cheio de momentos assim – nos observávamos em silêncio. Cheias de intenção por detrás e com pouca ação. Ainda assim, eu não conseguia esconder minha satisfação, conforme colocava sua camiseta, por toda atenção que estava recebendo.

_E aí? Ficou bom? – perguntei, ainda de pé, ao terminar de vestir.


Ela me olhou de cima a baixo e sorriu, deixando escapar uma malícia discreta com o canto da boca. Aí, sim.

agosto 09, 2010

Day off

O lado bom de se apresentar à labuta quase diariamente com cara de merda e olheiras descomunais é justamente essa facilidade que eu tinha de mentir sobre o meu estado de saúde. Digo, quando metade do trabalho já está feito para você, não é necessário muito esforço para soar realmente convincente.

_Não estou me sentindo bem – eu forcei uma voz pesada, levemente ofegante, apoiada no batente da sala dele antes de sequer terminar de entrar.

Meu chefe levantou os olhos e observou a minha expressão arrasada de quem não tinha dormido a noite inteira por causa de uma porra de um SMS e aí passado o dia inteiro numa agonia interna por causa de uma garota, sem saber realmente que era disso que se tratava, e... simpatizou comigo. Beleza, eu contive um sorriso e abaixei a cabeça para sair, buscando mais um olhar de pena, a fim de consolidar a minha patifaria.

O relógio do meu celular mal marcava 16h30 e eu já era uma mulher livre, a caminho do metrô. Vinte minutos depois e eu estava dando as caras na estação Consolação, vestida com a minha jaqueta badass preta e um lenço palestino vermelho colocado de qualquer jeito em volta do pescoço, não me sentindo nem um pouco doente. A tarde estava linda, ensolarada e fria pra caralho. São Paulo, eu pensei com carinho, enquanto descia contra o vento gelado da Augusta, enfiando as mãos no calor confortável do bolso da frente do meu jeans.

O estúdio ficava umas quadras abaixo, numa galeria, e tinha vista para a rua através de uma janela imensa no segundo andar. Subi as escadas, cantarolando Gimme Danger na minha cabeça, realmente feliz de estar ali. A cadeira onde a Mia estava sentada, só de calça e com a parte da frente do corpo decentemente escondida no assento, ficava de lado para a saída da escada. Segurava a blusa nas mãos. Assim que cheguei, ela me olhou e sorriu, enquanto eu babava encantada pela visão espetacular que era dar logo de cara com ela assim, daquele jeito.

Uau.

Me aproximei e a cumprimentei num impulso imprestável de ser, segurando sua cabeça por trás, com os dedos entrelaçados no seu cabelo, e dando-lhe um beijo cheio de vontade a dois milímetros da sua boca. Aí puxei uma cadeira e sentei de frente para ela, me acomodando para o show que ia ser aquilo, acenando um “alô” com a cabeça para a tatuadora – que já tinha totalmente perdido o posto de importância naquela sala.

_Sofrendo muito aí? – eu sorri para ela.
_Não, tá de boa... Quando chegar na costela é que vai doer. Mas por enquanto está dando para levar – ela respondeu, indiferente, e me sorriu de volta.
_E o que é?
_Você não viu? – ela estranhou, rindo.
_Não... Deixa eu ver... – levantei e caminhei para trás da cadeira dela, do lado oposto da tatuadora, que rabiscava qualquer coisa na lateral direita das suas costas.

Do lado esquerdo, suas curvas já eram acompanhadas por uma série de flores de cerejeira cor-de-rosa e delicadas, que desciam pela sua pele até um pouco depois de onde supunha-se estar a lateral da sua calcinha e as quais eu conhecia bem – aquelas já haviam me deslumbrado e torturado mais de mil vezes naqueles anos todos.

Agora, do lado direito e embaixo de toda aquela sujeira de sangue misturado com a sobra de tinta preta do contorno, ela começava a ganhar uma série semelhante de flores, num fluxo e proporção parecidos, mas com pétalas diferentes, que começam na parte de cima das suas costas e escorregavam pela lateral do corpo.

_Não é a mesma, é? – eu perguntei, detrás do seu ombro.
_Que a de cá? Não, não, é outra.
_Mas tem algum significado? – continuei, admirando sua nova aquisição, centímetro por centímetro.
_Tem... Depois eu te explico direito. Eu já estava com a ideia de fazer essa desde que fiz a desse lado, só não tinha grana, né. Aí ganhei essa de presente dos meus pais.
_Ai, mas está ficando meio estranho...
_O quê? Estranho por quê? – ela se agitou, já preocupada, e a tatuadora foi obrigada a interromper o processo, enquanto ela se mexia na cadeira para fiscalizar seu corpo – Onde?!
_Ahh, meu, acho que o contorno ficou grosseiro, está meio... – eu sentei, de novo, na sua frente e não me aguentei ao ver sua expressão de desespero; aí comecei a rir – ...tô brincando, besta.
_Porra, mano, que susto! – ela brigou comigo.
_Deus, essa é a piada mais velha do planeta! – eu ri.
_Vai se foder – ela me bateu com a blusa que estava em sua mão e riu também – Não, sério agora... O que você achou?
_Vai ficar linda, meu... – eu pisquei para ela e sorri, sincera.
_Você é a primeira a ver...

Ela me olhou satisfeita, enquanto eu a encarava de volta, fascinada pelas suas palavras. Era tão mais fácil, assim, só eu e ela. De repente, eu me sentia realmente especial – tudo era descomplicado, tudo estava bem. Não importava mais se eu era ou não a primeira opção para acompanhá-la. Só importava que fosse eu quem estivesse lá. E isso me fazia bem. Isso e, claro, o fato de ela estar sentada seminua numa cadeira bem na minha frente, recebendo injeções irreversíveis de tinta. Já aquecendo todas as segundas intenções em mim.


Oh, yeah.

agosto 06, 2010

S2

“Q. hrs vai rolar?”, escrevi, curta e grossa, muito a contragosto.

Cada uma das quatro palavras me tomou minutos a fio para ser, enfim, digitada. Engolir meu orgulho não era algo que eu fazia com frequência. E agora que eu já havia me calado por quase um dia inteiro, beirando o fim da tarde no estúdio, a possibilidade da Mia resolver me ignorar me assombrava.

As quatro – bastante sucintas e não muito amigáveis – palavras digitadas não ajudavam muito a situação. Então, sem pensar direito, adicionei um “;)” ao final do SMS a fim de amenizar a minha incapacidade de ser legal com a Mia naquele momento. Olhei para a tela e fiz uma careta involuntária. Não, que sorrisinho mais idiota, resmunguei mentalmente, enquanto o apagava rapidamente. E, pronto, de volta à grosseria inicial. Foda-se, vou mandar assim mesmo, pensei e apertei a tecla de envio.

Larguei o celular e retomei o que estava fazendo – o que era mesmo? –, me afundando nas últimas horas de trabalho. Mas não por muito tempo. A resposta da Mia seguiu-se à minha pergunta com uma rapidez espantosa. O celular estava num dos cantos da mesa. Espiei a tela com o canto do olho, com medo de encontrar a segunda bronca do dia ou qualquer questionamento que me tirasse do sério justo quando eu começava, lentamente, a engolir minha estupidez.  

“Acabei de chegar aqui, é naquele que te falei uma vez, lado bom da Augusta. Vem pra cá! ;)”. É. E não só ela continuava toda irritantemente fofa comigo, ignorando toda a minha ausência e economia posterior de palavras, como também havia resolvido fazer uso da porra do smile que há 30 segundos eu me recusara a colocar. Desgraçada, eu pensei. De qualquer forma, toda aquela dança do mando-ou-não-mando, que torturou minha cabeça pelas três horas seguintes à minha conversa com a Marina, havia sido inútil. “Tô no trampo agora, meu, não posso...”, repliquei automaticamente e enviei, suspirando.

E ela não respondeu. Nem nos dois minutos seguintes... quatro... cinco... sete... argh. Nada. Passei a mão pela minha nuca, nervosa, tentando relaxar. Olhei mais uma vez para o celular e já haviam se passado oito minutos inteiros. Inferno. Me convenci, então, de que ela não ia me escrever de volta. E num movimento brusco, peguei o aparelho bufando e meti-o no bolso de trás da calça, me dirigindo à cozinha. Quer dizer, à máquina de café, que a essa altura já estava exausta e acabada de tanto trabalhar. Assim como nós, por assim dizer.

Aquele cômodo era como o meu segundo lar, praticamente. Uma porcentagem considerável das minhas horas de trabalho era gasta procrastinando, sentada naquela pia, me entupindo de uma quantidade não-saudável de cafeína. Puxei a cafeteira na minha direção, com uma avidez digna de viciados, e enchi um dos copos plásticos com aquele líquido preto. Ah, puta merda!, eu xinguei ao realizar a proeza de derramar metade do conteúdo do copinho na minha camiseta. Branca. Da M.Officer.

Claro, porque preta não poderia ser. E nem barata. Caralho, viu, como se eu precisasse de mais uma bosta dessas. Logo hoje, eu reclamava para mim mesma, enquanto tentava inutilmente me secar com um bando de guardanapos. Na mesma hora, claro, meu celular resolveu tocar. Mensagem da Mia. Deixei todos os papéis sujos em cima da pia num ato quase involuntário e tirei o telefone do bolso, desanimada.

“:(”. É... só isso, isso, dez minutos depois.

Encostei a lateral da parte de cima da minha coxa na superfície de granito e olhei mais uma vez para a mensagem, suspirando. Por mais babaca que soe – e isso vai soar realmente babaca... – as diferentes combinações de pontos duplos, ponto-virgulas e parênteses são capazes de afetar o estado emocional inteiro de uma geração viciada em celular. Ou seja, a minha. E te comover de um jeito ridículo.

Olhei para a minha blusa com aquela mancha super atraente de café, argh, aí olhei para o relógio pendurado na parede – 16h12 – e para a porta que levava à saída. Está cedo demais, pensei, tirando os fios de cabelo bagunçados da cara. E, é, estava mesmo. No entanto, minha outra mão segurava o desejo por escrito da garota que eu amava, querendo que eu estivesse lá com ela. E às vezes, isso simplesmente fala mais alto do que todo seu orgulho de merda. Ou um chefe prestes a ficar realmente puto com a sua falta completa de comprometimento. Ah, que se dane, decidi.

“Olha, vc vai me meter em encrenca aqui... to indo ;)”

agosto 04, 2010

A Bronca

_Não, vão vocês. Eu tô sem fome – respondi para dois dos meus colegas de trabalho, conforme eles saíam para o mesmo restaurante de sempre.

O almoço chegou e a terceira mensagem da Mia não saía da minha cabeça. Permaneci sentada na porta do estúdio, fumando, enquanto olhava meus colegas se afastarem na calçada. Lá pelo quarto ou quinto cigarro do expediente, o meu mau humor já havia se diluído em nicotina e eu estava mais calma. No entanto, o trânsito de pensamentos na minha cabeça continua intenso. Nenhuma mensagem nova, eu olhava para a tela do celular e suspirava.

Meus pés se mexiam, ansiosos, pelo chão. Apoiei os cotovelos nos joelhos e coloquei a cabeça entre as mãos para focar melhor no assunto. Isso é ridículo, pensei. Qual é a grande dificuldade de simplesmente ignorá-la? Respirei fundo. Aquilo não estava funcionando.

_Você pode falar? – perguntei ao celular, aflita.
_Não exatamente... – a Marina respondeu, do outro lado da linha.
_É rápido, eu juro.
_O que foi? – ela continuou, falando baixinho.
_A Mia. É aniversário dela.
_E...?
_E ela quer que eu vá com ela num estúdio hoje... – eu tentei explicar, sem conseguir realmente expressar a problemática da situação – tipo, ela vai tatuar e me chamou para ir junto. Eu não falo com ela desde sábado, não respondi nenhuma mensagem até agora, eu não sei o que falar.
_Por que diabos você não fala com ela desde sábado?! – a Marina se indignou, sem entender o que estava acontecendo – Eu achei que tava tudo bem!
_Eu queria, meu, eu queria ver ela e aí ela me disse que não podia, por causa do Fer.
_E...?
_Como “e...”?! Ela me deu um puta fora! – eu me revoltei.
_Espera... vou sair no corredor – ouvi o celular mexendo-se na sua mão e pouco segundos depois uma porta se fechando, aí ela continuou – como foi isso? Por telefone?
_Não, ela me mandou mensagem depois de, tipo, várias minhas.
_E você tentou ligar para ela?
_Não, eu... – aí o pouco de vergonha da cara que eu tinha segurou as palavras na minha boca, por um instante – ...eu tava na casa de uma mina aí.
_Como assim? Que menina?
_A Thaís, você não vai lembrar dela...
_Fazendo o que na casa dela?!
_O que você acha, meu?? – me irritei.
_Ai, mas eu não acredito nisso!
 _Quê, porra?? Eu tive que passar a noite inteira de sexta sozinha em casa, me torturando com o silêncio da Mia e a merda de certeza que ela estava com o Fer, mano. Você tem noção do que é isso?? E ela vai e me dispensa no dia seguinte, meu, depois de puta noite fantástica na quinta, como se eu não fosse... não fosse... argh.
_Você tá se ouvindo falar? – ela riu.
_Quê??
_Meu deus... Essa garota fode mesmo com a sua cabeça, hein?!
_O quê, Marina?? – eu indaguei, de novo, mais irritada ainda.
_“Eu tive que passar a noite de sexta sozinha em casa”, meu, você está escutando o que você está dizendo? O drama que você está fazendo? – ela riu mais uma vez – Se você acha que a coisa complicou pro seu lado, que é solteira e sapatão, imagina ela que é hétero e passou uma noite inteira com a melhor amiga do namorado, que nunca tinha dormido com uma mina antes, que nunca passou por nada disso, que sequer saiu do armário... Fofa, você acha que é fácil ir lá depois e encontrar o bonitão, recebendo mensagem sua e tendo que lidar com tudo ao mesmo tempo?!
_Ela... – eu murmurei, já com a bola bem mais baixa do que antes e bem menos certeza do que eu estava reivindicando – ...ela não precisava ir encontrar com ele.
_Ahh, não precisava? E você acha que ela ia fazer o quê? Largar toda a vida dela depois de uma noite com você?? Dispensar o Fer, meu, assim... Do nada?! – ela riu – Você não pode realmente achar que é tão boa assim na cama.
_Vai se foder.
_Olha, ia ser lindo se a Mia te assumisse, gata. Mas você achou mesmo que ia ser tão fácil?
_Não, eu... – senti uma vontade idiota de chorar, sem nem saber por quê, e engoli seco – ...mas, Má, foi tão bom. Tão, tão bom, porra! A gente se divertiu tanto juntas. Não é possível que ela não esteja, no mínimo, sei lá... pensando em mim, sabe?
_Mas não está? Ela não te chamou para ir lá hoje, meu?
_Chamou... Mas só porque o Fer não vai poder ir! Aí ela lembra que eu existo! – assim que as palavras saíram rancorosas da minha boca, no entanto, a primeira e a segunda mensagem da Mia vieram na minha cabeça e eu senti um nó na garganta.
_E você preferia que ela te chamasse quando o Fer pudesse ir?
_Não, lógico que não.
_Então, o quê? Ela tinha que chamar você primeiro, ao invés do namorado? E depois aparecer tatuada com você do lado, dando bandeira, e dizer “oi, amor, olha a tatuagem que eu fiz”?!
_Não! Claro que não! Mas tem vários jeitos de fazer dar certo... Porra, por que você está defendendo ela?! Você não tá vendo que eu tô mal??
_Porque você está agindo que nem uma criança de 3 anos de idade, meu. O que eu venho te falando esse tempo todo? Você precisa voltar para a realidade, gata: ela namora o Fer. Ela sempre namorou o Fer. Não vai ser fácil, aliás, não é fácil. Muito menos para ela, que está muito menos resolvida nessa vida do que você.
_Mas... – eu interrompi, reclamando.
_Quer me escutar?! – ela continuou, me ignorando – Se você realmente quer que isso dê certo para vocês, você vai ter que parar com esses chiliques.
_Não é chilique. Eu tô apaixonada, porra, dói pra caralho!
_Eu sei, linda. Mas ela não vai sair dessa sozinha e você sabe disso. Ninguém é tão seguro assim! Você vai ter que segurar a mão dela e ter muita, muita paciência. É diferente agora. Você está acostumada com as garotas correndo atrás de você e largando tudo, mas a Mia não vai fazer isso, flor... Não vai. A situação de vocês é mil vezes mais complicada, você tem que enfiar isso na sua cabeça e sair desse seu mundinho, meu – a voz dela diminuiu o ritmo, indicando uma conclusão – E, por favor, para de comer a lista telefônica inteira.
_Eu não... – pus a me defender, ofendida pela última colocação.
_Olha, eu preciso ir – ela me interrompeu, de novo – me manda mensagem depois falando no que deu. Preciso ir mesmo, tô cheia de trabalho... Um beijo!
_Tá... – suspirei, me sentindo derrotada.

Ouvi a linha desligando, enfiei o celular no bolso da jaqueta e afundei o rosto na mão. Eu odiava como a Marina estava sempre coberta de razão. Inferno.

agosto 02, 2010

Bom dia... ou não.

“Viu minha msg ontem?” foram as primeiras palavras que eu li ao acordar, antes mesmo de me levantar da cama e me preparar para enfrentar aquela porra daquele dia. Não tinha dormido quase nada, o que implicava numa considerável alteração no meu humor logo pela manhã. O pior é que aquela droga daquela mensagem da Mia me partia o coração.

De um jeito... revoltante.

Não dá bola pra ela, mano, eu me indignava, tentando inutilmente lutar contra a minha falta completa de amor próprio quando se tratavam daquelas três malditas letras no remetente. Ah, aquele ia ser um longo dia...

Ainda assim, resisti. Eu sabia que o meu silêncio ia enlouquecer a Mia – o que pode até parecer vingança –; no entanto, a verdade é que quem não estava se aguentando de ansiedade mesmo era eu. À beira de um ataque de nervos nos primeiros 20 minutos do dia. Que maravilha, hein. Mas não ia responder. Não – não enquanto não decidisse o que pensar daquilo, enquanto não soubesse palavra por palavra da minha resposta, enquanto não tivesse bem claro o que queria desencadear.

Transbordando de uma sensatez incomum, ainda mais para aquela infeliz hora da manhã, acelerei o passo e me mantive o mais longe possível do celular até partir para o trabalho. Uma vez na vida, eu não estava atrasada. Milagre. Me esquivei dos outros na rua, conforme subia a Frei Caneca, e fumei um cigarro para me esquentar. A cidade começava a acordar.

No metrô, desprovida de sinal e entretenimento, reli umas quinze vezes as duas mensagens da Mia. Aí olhava o horário e guardava o celular no bolso – só para, segundos depois, tirá-lo novamente e ler mais uma vez, claro. Aquela segunda mensagem, às 8:13, me intrigava mais do que o conteúdo revelador a primeira. O que diabos será que ela está pensando? Eu metia as mãos no rosto, no cabelo, no bolso da jaqueta e olhava inquieta para os outros rostos no vagão. Porcaria.

Vila Madalena, por fim. A porta se abriu e todos os passageiros remanescentes desceram apressados em direção à escada, inclusive eu. Conforme avistei o céu cinza daquela manhã fria de São Paulo, o meu sinal retornou e instantaneamente o celular vibrou no meu bolso. Por sorte, minhas mãos estavam ocupadas acendendo o segundo cigarro do dia e minha cabeça se recusou a pensar a respeito. Então, coloquei o isqueiro de volta na parte da frente da minha jaqueta e tomei meu tempo na primeira tragada. Lentamente, como se a evitasse... É, ela.

Até que não deu mais, não é? A nicotina se esvaziou dos meus pulmões e a curiosidade entrou no seu lugar. E na mesma hora, puxei o aparelho do bolso de trás da calça. Coloquei o cigarro de novo na boca, sentindo necessidade de segurar o celular com as duas mãos, e li o tal SMS: “Tá recebendo minhas msgs? :( hj eh meu aniversário, meu... vou tatuar mais tarde e acho q. o Fe ñ vai poder ir. Oq. vc vai fazer hj? Quer ir cmg?”. Pois é.

Inacreditável.

Reli, suspirando, agora com mais calma. E até o final. O que uma ignorada não faz com uma mulher, eu ri de nervoso e meti a droga do celular de volta no bolso. Me senti ofendida, realmente ofendida, mas não sei bem por quê. Terminei de fumar o cigarro, irritada, ao longo do caminho até o trabalho, e o joguei na porta do estúdio assim que cheguei. Meu humor estava pior do que quando acordei naquela manhã. Argh, eu preciso de café, resmunguei mentalmente ao cruzar a recepção.