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agosto 30, 2012

Inquietude

O sexo, porém, foi estranho. Não estranho, estranho – mas a minha cabeça parecia fora de lugar. Desconectada dos meus movimentos. O que não costumava acontecer, não com a Clara. As nossas vezes eram sempre intensas – simbióticas. Talvez a ligação me tivesse tirado o foco, não sei; toda a história com o Fer e o rolo do apê. Sentia como se uma parte secundária da minha mente se ocupasse com incessantes ruídos ao fundo, indistinguíveis em si, enquanto os meus olhos a encaravam e admiravam. Ela movia-se, maravilhosa. Sobre mim – as grossas coxas entrepassadas nas minhas; o desdobrar do seu ventre e deslizar sinuoso da cintura; as suas curvas; e o meu inconsciente lá, inquieto. Como se um objeto mantivesse-se sempre ali, na visão periférica.

Fiz um movimento para cima, levantando as costas do chão e as arqueando na sua direção, com boa vontade. Quando a Mia surgiu rapidamente na minha cabeça. Do nada. Cerrei os olhos, conforme os meus dedos lhe seguravam as pernas com força. Ela me beijou. Sentia a sua menina molhar a minha – num movimento delicioso, subia-me um calor por dentro. E todavia, algo em mim não se desligava. Puxei-a mais para perto, os nossos corpos já estavam suados. Gozara meia hora antes, na primeira vez. E eu não chegara nem perto; e agora, portanto, me esforçava bastante. Ainda assim, parte de mim não se desconectava do que quer que fosse que me perturbava.

Desci a boca pelo seu corpo, mordia-a; segurava-a colada contra mim. E como se me houvessem pedido, dez segundos antes, para não pensar na porra do elefante rosa; tudo o que me vinha à cabeça era agora, de repente, o próprio. Isto é, os olhos da Mia. E o seu umbigo delicado. A textura da sua pele. A forma como se movia quando estava comigo, sozinhas. Os seus cabelos morenos. O seu sorriso, as palavras que saíam da sua boca. Puta merda. Dei um suspiro carregado e cerrei mais uma vez os olhos, desta vez com força. Franzia as sobrancelhas, tentando me concentrar. Como odiava perder o foco nestas horas, ainda mais com alguém como a Clara em mãos. Mas, não, não dá. Inferno!

_Cara, me dá só um segundo... – pedi, interrompendo tudo, e abaixei a cabeça frustrada – ...eu tô, tô fora de mim, não sei.

Deslizei para o lado, no chão, afastando-me dela.

_Aconteceu alguma coisa?!
_Não... eu só... sei lá. Tô, tô em outro lugar.

Em algum mês do ano passado, provavelmente.

_Mas... não foi nada que... – a Clara estranhou, sentindo-se imediatamente mal – ...que eu fiz de... de errado, foi?
_Não, meu. Não mesmo! – ótimo, sou a idiota do ano, “maravilha” – Você não fez nada, linda... relaxa... pelo contrário, você fez tudo certo... eu é qu... – a confortei, passando os dedos suavemente no seu braço – Eu que tô fora de órbita, sei lá. Mas já, já passa...

Ela sorriu, amarelo. E encostou-se contra o sofá, sentada nua no chão do apartamento. Que merda eu tenho hoje?, me frustrei. Olhei para a Clara, a meio metro de distância de mim, e não conseguia entender o que se passava comigo. Talvez tenha sido a conversa no domingo, pressupus, já me recriminando. No dia em que a Marina fora em casa, fiquei tão bêbada que tudo o que eu conseguia pensar, já deitada na cama, antes de dormir, eram nas palavras da Mia na cozinha. “As melhores”, arqueei novamente as sobrancelhas. Fazia-me sorrir ainda. Dispersei o pensamento rapidamente, entretanto, e acendi um cigarro, voltando a cabeça à sala de estar. O carpete escuro contrastava com as pernas argentinas da Clara, os seus traços claros e suaves. Dei a primeira tragada e a encarei com certo encanto – você já aguenta muita loucura minha, garota. Contemplei a sua boa vontade em me aturar. Passei a mão no rosto, deixando aquilo para lá. E a Mia sumiu aos poucos da minha mente.

O resto da noite fluiu tranquilo. E o que começara no chão da sala passou para o quarto, depois para o chuveiro. Desta vez com sucesso. E com os cabelos molhados, pingando sobre nossas pernas e camisetas, sentamos falantes no sofá e comemos um resto de pizza da geladeira. Tagarelávamos muito, ultimamente. Cada vez mais confortáveis uma com a outra; era uma sensação antiga e que eu não tinha já há algum tempo em mim. Senti falta disto sem dar-me conta, reconheci, por um segundo. Contei-lhe então, receosa, sobre a solução do Gui ao meu problema com o apê e ela achou que eu devia dar-lhe uma chance. Ao tal do Du. Apesar de não concordar sobre o “morar com meninos”. É que, para ela, garotas eram mais fáceis de lidar.

_Você está louca, né? – eu ri – Sabe quando eu moraria com uma mina?! Nunca. Mas nunca, NUNCA mesmo! Não interessa o quão gata, o quão amiga, nada disto. Mulher é tudo problemática, mano, puta drama do caralho. Não. Nem a pau. Eu só moro com caras e ponto final. Se um dia eu casar, minha mulher vai morar no prédio do lado, juro. Nem amarrada, meu! 
_Exagerada... – ela revirou os olhos e achou graça.

Fumamos um baseado e tomamos algumas cervejas, assistindo episódios repetidos de Seinfeld na TV. Afundei-me nos seus braços, os cabelos ainda úmidos contra o encosto do sofá, e nos ajeitamos deitadas, levemente tortas, naquele pequeno espaço. Eu gostava de passar tempo com a Clara. Nos cutucávamos como duas bobas por baixo da camiseta, incessantemente, e a brincadeira eventualmente nos levava a amassos quase adolescentes. O que por sua vez, claro, não demorava a se transformar em passatempo adulto e imprestável. Lá pelas onze e meia, insistiu para que eu ficasse a noite toda, mas não quis. Decidi ir. Precisava ainda finalizar algumas listas para o dia seguinte – com a minha recente onda de horas extras e mais empenho no trabalho, ganhara mais responsabilidades dentro da produtora.

Peguei um dos últimos metrôs para Jardins e desci na Estação Consolação; o movimento de carros e pedestres ainda era relativamente alto – ê, São Paulo. E o tempo estava agradável. Sobre um dos prédios da Av. Paulista, um relógio eletrônico marcava meia-noite. 00:01. Acendi um cigarro e peguei o meu celular para enviar uma mensagem ao amigo do Gui, cujo número eu recebera por SMS horas antes. Disse para passar no apê no dia seguinte, às 13 horas. E ainda descia a Augusta quando ele me respondeu que “com certeza, estaria lá”. Fiz que guardava então o telefone de volta ao bolso, mas mudei de ideia rapidamente, por impulso. E num momento de idiotice bastante comum à minha pessoa, decidi enviar uma mensagem para a Mia.

Vejam bem. A questão é que, de uma forma silenciosa e muito subentendida, ficara desde o último domingo um sentimento de cumplicidade entre nós. Não como amigas, nem como nada além – apesar do meu lapso em meio às pernas da Clara, naquela mesma noite – mas estava lá; era o ruído inquieto por detrás da minha mente. Sentia-me estranha. Escrevi então: “Pensei em vc. do nada hj, meu, e na hr mais nd a ver... sem comentarios, rs”, conforme atravessava a R. Matias Aires em descida pro apê. Apertei o ‘enviar’. Isto é tão idiotaargh, algo me incomodava ainda mais agora. Senti um revirar leve no estômago, como se não quisesse passar a impressão errada a ela ou desencadear coisa alguma. Mas, ao mesmo tempo, era tomada por um impulso de lhe mandar algo. Qualquer coisa que fosse. De falar com ela.

agosto 08, 2012

Dois pais e um amigo gay

No meio da semana, o meu pai me ligou. No exato momento em que eu me desdobrava, descoordenadamente, entre o enviar de um SMS para Marina e a desajeitada tarefa de segurar a mochila para frente ao sair pela catraca do metrô. Logo agora, pai? Coloquei o celular entre o ombro e o ouvido, apoiando-o enquanto usava as mãos para fechar o zíper da mochila. Vesti as alças novamente nas costas. A minha voz soava como a de alguém distraído ou agarrado a uma parede de escalada.

_Depositei mais duzentos pra você, como está indo a mudanç... – ele interrompeu a fala, assim que agradeci, meio ao caos – ...onde você está?
_Saindo do metrô. Só um segundo, pai.

Subi as escadas num impulso e acendi um cigarro já do lado de fora, na frente da Estação Sumaré. Com o filtro na boca, tornei a colocar o telefone no ouvido; a noite estava agradável e bastante movimentada. O incentivei a continuar – “fala”.

_A sua mãe está preocupada com quem você vai enfiar neste apartamento para morar com você. Ela disse qu...
_Ela sempre diz, meu. Ela odeia a Augusta!
_É, mas talvez seja uma oportunidade para você repensar isto. Achar alguma coisa mais perto do trabalho, pegar uma kitnet.
_Não quero, já falei para vocês. Eu gosto de morar lá – argumentei, conforme olhava para o lado antes de atravessar a Oscar Freire – E outra, o Fernando vai voltar também. Eu só preciso de um tempo, vai ser suave... dois ou três meses. Ele continua procurando emprego, esta semana foi numa entrevista aí.
_Ainda assim, não sei se é boa ideia você deixar qualquer um ir morar com você. Depois a pessoa é estranha, mexe nas suas coisas, sei lá... pode levar gente perigosa pro apartamento, você sabe como essas coisas são.
_Não vai ser qualquer um, né, pai! Tô avisando só os amigos, eu coloquei um recado no meu Facebook esta semana, mandei mensagem pra um ou outro. Alguém vai aparecer!
_Bom, enfim... você sabe o que faz – ele resmungou, contrariado; e ouvi a minha mãe gritar algo ao fundo, lá vamos nós... – A sua mãe quer falar, peraí.

Suspirei e revirei os olhos, ainda descendo a Rua Amália. Virei na Alves Guimarães, já me aproximava do prédio da Clara. Um verde-água de apenas três andares, com varandas minúsculas, a dois quarteirões dali. Quanto antes chegasse, antes me livraria da voz repreensiva da minha mãe. Ela começou:

_Você ligou para a sua prima, como eu te pedi?
_Não.
_E por que não?!
_Mãe, pela milésima vez, eu não vou morar com a Nádia. Ela fica na porra do Morumbi! Que merda eu vou fazer lá, me diz?! – me estressei com a insistência, há dias que ela me enchia a respeito – Você acha mesmo que a gente ainda tem alguma coisa em comum?!?
_Não vejo por que não, vocês duas eram tão grudadas...
_Quando eu tinha 9 anos, né... – e a minha prima ainda não havia se transformado numa auto-obcecada hétero, típica, destas que escuta tanto sertanejo universitário que faz até a Dani parecer uma opção melhor – Não, não dá mais; mudou. Imagina agora eu aparecer com uma garota no flat da menina, que maravilha ia ser. Dá pra deixar isto pra lá?
_Você também não precisa agir deste jeito.
_Ahn, fala – me incomodei com o comentário –, de que jeito?!
_Não foi o que eu quis dizer e você sabe.
_Tá, tá. Olha, mãe, preciso desligar... tô chegando no prédio da Bi já, depois a gente se fala. Fala ‘obrigado’ de novo pro pai, tá? Beijos!

Ela concordou e eu desliguei antes mesmo de terminar o primeiro quarteirão. Voltei então à minha mensagem para a Marina, tendo já esquecido o que direito eu ia lhe aconselhar, e desejei boa sorte no seu encontro, que era naquela noite às nove e meia. Toquei a campainha ao chegar no prédio e terminei o cigarro às pressas, subindo depois pelas escadas. Tão logo a Clara abriu a porta, arranquei a camiseta preta que eu estava usando e a larguei no chão. Ela sorriu, me beijando, enquanto desabotoava a minha calça e descia o meu zíper – o seu SMS, quarenta minutos antes, havia sido bastante específico quanto ao objetivo da minha visita. Sexo. E ia acontecer ali mesmo, no meio da sala. Sorri, imprestável.

Em menos de dois minutos, o meu rosto já estava metido entre as suas magníficas coxas, ambas deitadas no carpete, com a sua calcinha amassada na minha mão direita e o vestido erguido até a cintura pela esquerda, quando o meu telefone começou a tocar de novo. Inferno. Parou. E então começou de novo. “Você quer atender?”. “Não”, murmurei, sem perder o foco nela, “são meus pais, deixa quieto”. Senti o seu corpo inclinar, droga. “Hum. Aqui está dizendo ‘Gui’...”, ela riu, com o celular já em mãos. Por que não deixou no chão? – revirei os olhos e sentei no vão entre as suas pernas, atendendo emburrada. “Temos tempo”, ela me disse movendo a boca em mímica, irresistível, e eu a beijei com vontade. O Gui já tagarelava, afetado, do outro lado:

_Putona! Revolvi seu problema! – duvido, pensei irritada e subi a alça do sutiã – Eu estou aqui na Fradique, advinha... numa mesa de bar... com três bichas maravilhosas e um boy que nunca viu uma bunda de verdade e só por isto não comeu nenhum de n... – oh céus, isto vai levar uma eternidade – ...ai, não me belisca! Pára! – ele se distraiu, por um instante; eu podia ouvir o restante da mesa rir, entre comentários e apelidos ofensivos trocados longe do telefone – ...e enfim, um deles tem um amigo... que eu conheci na Society, o Du, e ele está super precisando de um lugar para ficar. Ele quer fugir de uma pensão UÓ que ele fica, na casa de uma família lá no Santa Cecília, fracasso total, só até arranjar outra coisa melhor, sabe. Seria temporário mesmo. E aí eu vi seu recado e pensei em você! Já mandei mensagem para ele, ele disse que pode passar aí amanhã! – ele riu, convicto da boa ideia que tivera – Diz: você me ama ou não ama?!

Não, argh, não sei. Passei a mão no rosto, suspirando confusa. A verdade é que eu não sabia se era mesmo aquilo que eu queria. Todavia o Gui aguardava, empolgado, do outro lado da linha a minha resposta.

_Amo, amo... Escuta, passa o telefone dele pra mim por mensagem e eu vejo, depois a gente se fala. Tô no meio de uma parada aqui e é importante... tá? Te ligo assim que terminar, a gente conversa. Valeu por agitar, por tudo, mesmo.

agosto 04, 2012

O pó do armário

Discutíamos, a Marina e eu, como se ainda estivéssemos juntas:

_Ele é uma parte do seu passado, porra, não importa mais! Não tem mais nada a ver com você, caralho. Não entendo por que você se apega a isto... – argumentei, irritada.
_Ainda assim, foi uma pessoa que eu amei, foi parte da minha história. Não deixa de ser.
_Ah! Corta essa, Marina!!
_Ihh... tá ficando nervosinha, hein?! – o Fer se divertiu, rindo.
_Bom. Então, você está me dizendo... – a Marina insistiu, sem aceitar a minha posição, o meu ciúme irracional – ...que os caras com quem você ficou, a sua vida toda, foram automaticamente menos do que as meninas?
_Foram. Lógico que foram! – respondi, na mesma hora – É exatamente isto que eu estou dizendo.
_Não é verdade. Não pode ser!
_Claro que é, Má. Eu não lembro nem o nome dos caras que peguei!
_Ah, quer que eu te lembre alguns? – o Fernando logo se voluntariou, rindo, e a Mia arregalou os olhos, dando-se conta de que estávamos falando sério.
_Você?! Você pegou caras? Tipo, homens mesmo?!?

Gente, esta gaveta está muito, muito no fundo do armário – me afundei no sofá, incomodada com a atenção. Vamos deixar lá?

_”Pegar”?! Ela já namorou um! – o Fer soltou a fumaça, rindo, ainda com o baseado em mãos – Um pobre coitado, como ele chamava?
_VOCÊ NAMOROU UM?!? – a Mia tentava não se exaltar, até então sem interagir assim comigo na frente do Fer; mas sem muito sucesso em conter o misto de interesse e surpresa repentinos.
_Era Lucas.
_Essa daí vivia beijando amiguinho meu...
_Ai, mano, mas isso faz, tipo... sei lá, muito tempo. Dez anos! Eu estava na oitava série, porra... Foi namorico de criança. Quatro meses de “não tô sentindo nada”, mais irrelevante impossível.  E aí, no ano seguinte, eu já estava andando pela escola de mãos dadas com a minha primeira namoradinha...
_Ele deve te odiar até hoje – o Fer riu e eu também, concordando; “com certeza”.
_Meu, não, não dá. Não consigo te imaginar com um cara! Não dá, é muito estranho... – a Mia balançava a cabeça, inconformada.
_E vocês dois, hum? Nunca? – a Marina nos apontou, entrando na conversa.

Quem? Eu e o Fer?! Comecei a rir, automaticamente. Apenas a ideia de ficar com ele me dava revertério. Já ficara com outros caras, mesmo depois de velha; em meio ao caos de uma festa ou outra das porra loucas que frequentávamos. Aqueles flashes de memória alcoolizados em que todo mundo, de repente, está se pegando e completamente fora de si. Então, digo, já “aconteceu”. E dos que beijei minimamente consciente, a maioria era viado. No foda-se total. Todavia, nem nos buracos mais sujos que nos metíamos bêbados, eu e o Fer nunca sequer nos cogitamos.

Era impensável. Impensável. Lá estava o cara que já me vira no meu pior, realmente mal, caída pelos cantos, vomitando no meio da Augusta, após porres homéricos, gritando alucinada com ex folgada, louca na balada, chorando por dias a fio, drogada de todas as formas, andando pelada pelo apartamento; que já segurara minha porta no banheiro e não deixara de me amar, nem nunca tentara nada comigo. Ele era mais do que o meu irmão. Era impensável!

_Não. Isto, não. Jamais!
_Ah vá, nunca?! – a Mia duvidou, rindo.
_Nem a pau! Nunca. Porra, não consigo nem ver ela pegando outros caras, que já me dá nojo... Imagina nós dois! Argh, não... Pára!!
_Verdade – eu ri –. Uma vez, o Fer me viu dando um beijo num amigo nosso, trêbada, numa festa... faz uns três anos, e ficou uns dois meses traumatizado depois.
_Quem???
_O Renato, da Tattoo You – o Fer respondeu para a Mia.
_E o Fer andava pela casa no dia seguinte... – ri, toda largada no sofá; a Marina achava graça na imitação – ...tipo, inconformado, dizendo: “porra, mano, que nojo!” e falava: “a merda da imagem não sai da minha cabeça. A culpa é sua! A culpa é sua!”.
_Não saía mesmo, juro. Foi bizarro! Bizarro. Argh.
_Foi um beijo, mano. Nem foi sério. Ridículo! E ele ficou me ameaçando por dias. Ficava: “Nunca mais na minha vida quero ver você com um cara! Nunca mais!”. E aí eu falei que ia virar hétero, só de desfeita. Persegui ele pelo apê inteiro, por semanas, dizendo que tava afim de dar para algum cara. Foi puta onda, mano...
_Pra você, né... – ele me encarou, ainda revoltado.

As meninas riam, aos montes. Eu também achava engraçado. A sua reação era prova concreta da assexualização completa do nosso relacionamento – eu me divertia. Estiquei a mão e alcancei o maço na mesinha de centro, tirando um cigarro para fora na trajetória de volta. Larguei o pacote sobre as pernas e dobrei uma delas frente ao corpo, em cima do sofá. Acendi com um fósforo e calculei para não deixar a volta desigual. Senti os braços da Marina me rodearem então, num abraço meio bêbado e desajeitado.

_Não se preocupa... – fez graça, já bobo-alegre, me apertando um beijo no rosto – ...mais gay que esta aqui não dá pra ficar.
_Acho bom, mano. Eu caço e mato o maluco que tentar qualquer coisa!
_Uh, ciumento... – a Mia riu dele, eu traguei o meu cigarro:
_Pode deixar. O dia que eu gostar de pinto, cê me interna.

A Marina revirou os olhos, rindo; os braços ainda ao meu redor.

_Sutil você, né...

agosto 02, 2012

Descomplicados

O Fernando observava a Marina, gesticulando e falando, cada vez menos contida à beira do sofá. Ele sorria – “Mas por que eu?”. “Não é a mesma coisa, você conversar com uma amiga íntima e por outro lado, com um conhecido e que é homem”. Ele tinha o baseado aceso na ponta dos dedos pinçados, curvava-se na sua direção. Se divertia. Sobráramos na sala apenas eu e a Marina, sentadas à sua frente – a Mia havia deixado a lateral da poltrona e ido à cozinha. Enquanto isto, a minha adorável ex pressionava os olhos, levemente bêbada, e deixava-se irritar. “Má, tudo bem” – ele insistia. “Mas, concorda comigo, a esta altura deveria ser irrelevante”. Balançou a cabeça – “não!”.

O rum a atrapalhava; e falhava em perceber que o Fernando a provocava, sem interesse algum nas suas respostas. Eu ri da determinação de ambos e me levantei, deixando-os discutir sozinhos. Fui até a cozinha, numa vaga intuição. “The way you stick out your lips and keep your hands on the hips. And I’m supposed to know, and I’m supposed to know...” – o som do rádio se afastava, contido na sala. Entrei pelo corredor. A Mia inclinava-se frente à geladeira aberta, uma das mãos apoiadas na porta. Observei-a de longe, encostada no batente, com o meu copo em mãos. Estava vazio. Eu sou eu e as minhas circunstâncias, pensei em Ortega, por um segundo. Ela não notara a minha presença, ergueu as costas em busca de algo na prateleira logo abaixo do freezer.

Andei até o balcão e apanhei uma garrafa também já quase esvaziada de whisky, abri a tampa. Coloquei uns três, quatro dedos no meu copo. Ela me reparou ali, levantando brevemente os olhos sobre a porta da geladeira – e perguntou se eu desistira do rum, já com a cabeça novamente abaixada. Eu ri. O Jameson me pareceu melhor desde o início, mas a Marina não toma. Fechei a garrafa de novo, deixando-a de lado. E dei dois passos na sua direção, encostando à sua direita no balcão. Tomei um gole. Ouvia-a se mexer do outro lado da porta da geladeira. Procurava limões com uma metade já guardada na palma esquerda. Agachou-se frente à gaveta de frutas e vegetais. Dei outro passo e cruzei os braços sobre a porta, com o copo em mãos. Achei graça nela – “o que você está fazendo?”.

_Queria... uma... – narrou, espaçadamente, conforme vasculhava pelos legumes – ...caipirinha. Mas não acho outro limão!

Porque não está aí, eu ri. E indiquei para que os pegasse ainda na rede, dentro do armário. Não era um bom lugar para limões – admito –, mas foi onde os jogamos na última compra. Pegou-os e eu a observei em silêncio, dando outro gole. Deixou-os sobre a mesa, cortando mais duas metades. Encostei de volta no balcão. Do lado oposto de onde ela estava, em pé. Frente à mesa e de costas para mim, também parada em pé, a Mia amassou-os com as mãos num copo e completou com açúcar e o fim do rum gelado. Mergulhou a colher e virou-se para mim, apoiada contra a beira da mesa. Enquanto ela misturava, dei outro gole no meu copo e ela me olhou tranquila. Lá estavam de novo, as sobrancelhas arqueadas. Ri por um instante e ela sorriu de volta, desviando o olhar.

_Nós tivemos algumas boas, não? – lhe perguntei.

Ela sorriu e as arqueou novamente; “as melhores” – me encarou.  Fiz um gesto inconsciente de acordo, com a cabeça. Rindo. E o clima na cozinha ficou sereno. Apesar do silêncio que se instalou, ambos os comentários fluíram naturais, com calma. Ela descruzou os pés, tomando seu caminho de volta à sala, e eu cruzei os meus, ficando. Tomei outro gole com os braços também cruzados e a observei sair. Hum – os meus pensamentos voltaram à sua boca e àquelas duas últimas palavras. Sorri. Sem grandes preocupações ou expectativas. As melhores, me diverti com a resposta.

Matei então o whisky e enchi mais um pouco o copo. A garrafa ficou vazia. Bebi outro gole e tirei o celular do bolso, com o copo na outra mão. Escrevi: “Tendo uma noite interessante com a Marina, a Mia e o Fer... mas agradável. Onde vc. está?” e enviei para a Clara. Sentia-me bem. Coloquei-o mais uma vez no bolso e tomei outro gole, dava-me uma alegria boba e procurei não pensar muito a respeito. Depositei a garrafa vazia ao lado do cesto de lixo, alguns passos adiante. E depois segui para a sala com passos desacelerados.

_Claro. Eu namorava um cara antes dela... – a Marina tagarelava no sofá, um pouco mais à vontade.
_Na faculdade? – o Fernando disse, a Mia já estava ao seu lado.
_É.
_É, um babaca! Perdedor.

Resmunguei, passando por cima do encosto do sofá, deitando meio de qualquer jeito ao seu lado. O copo em mãos. Argh. Eu odiava o sujeito – sempre odiei, desde quando nós duas namorávamos, anos antes. Revirei os olhos em desgosto pelo rumo que a conversa tomara. “Pára com isto!”, a Marina balançou a cabeça e eu ri, em teimosia, “não é assim, ela nunca nem conheceu...”. Não interessa, porra. Tomei outro gole, afundada no sofá, e a encarei. De fato, eu o detestava por detestar, mas me irritava como ela ainda o defendia. A Mia ouvia-nos discutir, com interesse.