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maio 27, 2011

180''

_Então...?

Merda, não vou conseguir.

A Mia me olhava, em pé na minha frente, impaciente com o meu silêncio súbito, quando o pensamento cruzou a minha cabeça. Por um breve instante, observando-a ali, num par de calças largas demais e realmente sem graça, me ocorreu que eu nunca tinha amado ninguém daquele jeito. Em toda sua inabilidade de mostrar interesse, eu era completamente idiota por ela – de uma forma que eu sequer conseguia contemplar dentro de mim. E eu, eu estava cansada.

_Olha, eu... eu sei o que você está pensando... as... as últimas semanas, não... não foi... não é como... como se... – ela começou a se enrolar numa desculpa insolicitada.
_Mia! Mia, na boa, não...  – interrompi, grossa - ...pára.

Ela se calou e ficou, de fato, parada. Ali. Eu a olhava, inferno, pensando em formas de amenizar o meu ato. Sua presença me amolecia. Insisti, me forçando a passar uma imagem mais forte do que eu realmente era naquele momento, como se não ligasse mais – mas com uma dor maldita no coração. Não, não consigo. As palavras grosseiras sumiram de mim e eu restei, impregnada com a dúvida. Engoli seco e a olhei, sem o carinho que sempre tive por ela no fundo das minhas íris.

_É simples assim, me escuta – a encarei, séria – você sente alguma coisa por mim?
_O quê?!
_Sente?! – reforcei, num tom acima de voz – alguma vez, algum dia, por um segundo que seja, já sentiu?!
_ Eu... eu nã... – ela baixou o olhar para o chão, parecendo surpresa com a pergunta – ...meu, eu...
_Não amor, Mia – interrompi de novo –, mano... nem... nem o que eu sinto por você... nem isso, Mia, qualquer coisa! Qualquer... qualquer coisa. Já sentiu?! – a observava, com um nó no estômago, sem deixá-la falar – cara, você... alguma vez, você chegou a... a realmente se imaginar comigo?! Quando eu te procurava, quando a gente se trombava pelo corredor, quando a gente saiu, todas as... todas as vezes que eu vim aqui, que eu te beijei... quando eu... quando te disse que... que... – aquilo entalou na minha garganta – ...meu, alguma... alguma vez você me levou a sério?!

Não, não queria exceder os dois minutos que eu havia prometido – a ela e a mim mesma. Podia ver os seus olhos formarem um “sim” machucado; as sobrancelhas franzidas, consternadas. Porém a sua boca continuava em silêncio, numa covardia imóvel. Pelo amor de deus, fala. Mas não disse. Me encarou de volta, apenas me olhou, em pé ali na sua frente, ansiando por uma resposta sua, e toda a paciência se esgotou de mim. De repente, não me importava mais com o fundo, qualquer fundo de verdade que fosse, perdido ali no meio da sua confusão, submerso dentro dela. No fim, não ia fazer nada. Nunca fez. E eu não vou ficar aqui esperando.

_Tá bom... – deixei escapar, me virando para ir embora.
_Espera! É só isso?
_Mia – virei e a olhei com sinceridade, num suspiro –, na boa, você não vale a dor de cabeça. Não mais, pelo menos.

A sua expressão mudou, de repente.

_Eu nã... eu... – ela pareceu magoada, meio atordoada – ...eu nunca qu... eu nã... eu não disse... não disse nada... porq... eu... – ela respirou fundo, engolindo suas próprias palavras confusas; aí vi seus olhos se afastarem – eu... eu preciso tentar com ele.

Senti o meu peito se apertar e o meu coração, controversamente, endurecer. Eu não preciso ouvir esta merda. Sorri, numa graça minha sem necessidade; sorri um meio-sorriso doído e pisquei brevemente para ela, me afastando. Na mesma hora. Eu não tenho mais nada para fazer aqui. Pensei em contar-lhe da traição do Fer, mas não importava mais. Você, eu. Todos nós nos traímos, de um jeito ou de outro, e agora tinha acabado. Finalmente, tinha acabado.

E eu... não sentia porra nenhuma.

maio 18, 2011

As Reticências

Meu estômago se revirava, numa ansiedade crônica e incômoda. Assistia as ruas passarem, uma a uma, tranqüilas e alheias à minha confusão. Já era sábado de manhã. Eu havia gasto a noite toda numa série de cigarros e mágoas, sentada sozinha na porra do meu quarto, pensando na minha capacidade estúpida de machucar todo mundo à minha volta. A Marina, o Fer ou qualquer idiota que me amasse, que fosse fiel a mim. E lá pelas quatro ou cinco da manhã, enfiada numa bad tremenda e sufocante, eu quase me convenci de que era isso mesmo que eu era. Ou vinha sendo. Egoísta.

Não.

Não, meu. Despertei dos meus pensamentos sobre a madrugada anterior, ajeitando-me rapidamente no banco, e coloquei um dos pés apoiados no encosto da frente. Voltei a olhar pela janela do ônibus, que agora atravessava a Consolação. A sugestão inconsciente de que a Mia não me amava – nem nunca amou – tamabém me incomodava, mesmo que incerta. Acordei, aliás, após duas horas bem mal-dormidas, muito mais com a angústia em torno da Mia do que com a minha própria falta de caráter impregnada na cabeça. E aí me meti num ônibus, após quarenta minutos de desconforto crescente dentro naquele apartamento. Mal tomei café.

Quis mandar um SMS de desculpas para a Marina, por ter sido tão babaca nas últimas semanas, nos últimos anos, que seja, mas logo mudei de idéia. Melhor eu falar com ela assim que der. Não gostava de me explicar por escrito, achava grosseria. O ônibus logo alcançou as redondezas da casa da Mia e aí o meu incômodo interno aumentou. Que merda eu estou fazendo nessa porra desse bairro, mano?! Mas aí já era tarde para mudar de idéia, eu já estava lá. E o meu plano tinha tudo para dar errado – droga, droga.

Desci não muito segura de mim, daquilo tudo, e fumei uns dois cigarros na esquina de baixo, antes de virar para a rua da Mia. Podia ver o seu prédio dali, o que me desatava mais borboletas infernais no estômago; enrolei o máximo que pude. Sentia-a diminuir em mim – a Mia –, aos poucos. Joguei o resto do segundo cigarro fora e segui calçada acima. Quando parei em frente ao seu portão, uma madame estava saindo com um cachorro na coleira e aproveitei meio sem educação para entrar. O porteiro me perguntou onde diabos eu ia e me mandou esperar ali, ao lado da guarita, enquanto confirmava se eu podia subir.

_(...) tudo bem, senhora, eu aviso – ouvi-o dizer, após alguns minutos – está bem, está bem, sem problemas.
_Dá isso daqui, deixa eu falar eu com ela... – pedi, já pegando o interfone, sem tolerância para aquele rolo – ...Mia?!
_Oi – respondeu, após um breve silêncio.
_Olha. Eu não vou fazer uma ceninha... só quero falar com você, porra. Desce aqui.
_Não, meu, eu... eu acabei de acordar, n...
_Não custa nada, caralho – cortei ela, sem paciência –, dois minutos e eu vou embora. Já vim até aqui, porra... Desce aí, vai!
_Tá.

Ahh, mano... Por mais magoada e destruída que eu estivesse – e eu estava –, havia uma hora em que o cu doce começava a me encher. E a Mia já havia usado todos os seus créditos comigo. Esperei por longos quinze minutos, fumando o terceiro cigarro em menos de uma hora, numa atitude pouco saudável, apoiada pelos antebraços na grade de entrada do prédio. Ao ouvir os passos dela atrás de mim, me virei e dei a última tragada, jogando a bituca no chão. Ela estava maravilhosa, como se eu não a visse há meses, e eu sabia que não era de propósito. Escondida num moletom cinza, de ficar em casa, e com o cabelo meio preso: era sem querer. Puta merda, aquela garota me tirava do sério, sempre tirou, e eu estava prestes a ser realmente grossa com ela.

maio 16, 2011

O Ponto Final 2

_Não, eu... – ela suspirou, como se eu fosse uma criança de dois anos – ... eu estou dando um exemplo. Lógico que eu não te traí! Você acha que eu não teria te falado, meu, em todos esses anos?! O que eu estou dizendo é que esse seu argumento é de que, se você me traiu, eu poderia muito bem ter te traído na mesma época e você não ia se sentir machucada.
_Ah, não é começa. Não é a mesma coisa.
_Não?! – ela riu, sem achar graça – Como isso, meu?!
_Porque não é. Eu e você, o que a gente teve... não é a mesma coisa!
_Não, tem razão, não é... não é mesmo. E sabe por que?! – ela começou a se exaltar, discordando – Porque nós, mulheres, nos deixamos afetar muito menos por infidelidade do que os caras... As mulheres são as primeiras a engolir, as primeiras idiotas a perdoar. Já o inconsciente coletivo masculino, né, por outro lado, não tolera uma olhada sequer na direção de outro cara que já vira uma catástrofe! O orgulho deles é muito mais frágil, meu, e o nosso, não. Não que isso seja certo, mas é assim. A gente agüenta, meu, a gente passa por cima, a gente fica relevando o erro dos outros... – ela me olhou, nitidamente querendo dizer mais do que estava efetivamente me dizendo – ...pelo bem do relacionamento.
_Ah, Marina, cala boca... – me revoltei; mano, que baboseira sexista – ...isso é absurdo!! Como é que você pode falar uma coisa dessas?! Não é pior ou melhor pra ninguém, isso é ridículo, meu... é a mesma merda pra todo mundo! Que diferença faz se foi um cara ou uma mina que tomou uma na testa? Chifre é chifre. As mulheres não aceitam melhor do que os caras, mano, nem a pau.
_Bom... Eu continuo aqui, não continuo?! – me provocou.
_Mas não por isso! – respondi, sendo grossa – O fato de eu ter te traído enquanto a gente estava junto, ou não, não influencia no relacionamento que a gente desenvolveu depois, meu. Não é assim.
_É, não pra você, né... – ela murmurou, revirando os olhos.
_O que diabos isso quer dizer?!? – levantei a voz, ofendida.
_Meu, na boa?! Às vezes, eu acho que você é igualzinha ao Fernando. Sério, eu não sei como você não enxerga isso! – ela se estressou comigo, do nada, e eu fiquei olhando-a sem entender porra nenhuma – Você tem essa mania, sabe, de achar que as suas merdas não importam, que todo mundo é obrigado a engolir o que você faz, mas é absolutamente incapaz de entender o que se passa na vida dos outros.
_Do que você está falando, meu?! De onde diabos surgiu essa conversa?!? Não era nem disso que a gente estava falando, porra!! – puxei um cigarro do maço, na pressa, sem prestar atenção direito e irritada – E quando foi que eu não entendi o que se passava com você, na sua cabeça, na sua vida, meu?! Eu sempre tentei t...
_Nada, esquece... – ela me interrompeu.
_Má... olha pra mim. Eu não fiz isso, fiz?
_O que eu quero dizer é que... – ela me ignorou, continuando – ...que eu acho que você está punindo o Fer por algo que talvez... que talvez não fosse tão diferente se fosse com você, sabe. Meu, você é a pessoa mais orgulhosa que eu conheço! E eu não digo isso porque acho que seja ruim, mas porque... cara, eu não sei como você não tinha um... um chilique desses, manja. Toda vez que via o Fer com a Mia! Sabe, como você segurava essa sua boca suja, não saía por aí derrubando a casa e gritando, xingando, fazendo aquelas cenas dramáticas que só você sabe fazer; pra depois ir pra balada e agarrar sete, oito meninas e aí comer uma qualquer só porque está brava com o mundo – ah cara, eu odiava, odiava quando a Marina falava exatamente o que eu mais detestava ouvir sobre mim mesma –; você é cheia dessas, meu! Aliás, quantas vezes você não recorreu à droga dessa sua lista telefônica aí só porque achava que, talvez, quem sabe, sei lá, “é possível”, vai saber, a Mia estava dormindo com o Fer em algum canto do universo?! Você realmente acha que você não faria nada, zero, do que o seu amigo aí está fazendo? Hum?! Sob as mesmas circunstâncias ou até menos, né...
_Tá, tá. Talvez, porra. Talvez eu fizesse mesmo! Mas, olha, eu te garanto... – acendi o cigarro, tirando-o logo em seguida da boca, e encarei-a – ...eu te garanto, meu, que eu nunca, nunca trataria a Mia, você ou qualquer outra garota do jeito que ele está tratando ela! Não importa, mano, nem que você tivesse dormido com quinhentas minas na minha frente. Você nunca ia ouvir esse tipo de coisa sair da minha boca. Ele está sendo um babaca.
_Ok: ele está sendo um babaca! Escuta, eu não estou dizendo que o Fernando está certo. Aliás, ele não poderia estar mais errado! Só que você também não está certa e a Mia menos ainda, meu. Nenhum de vocês está e eu não entendo porque diabos já se passou quase um mês inteiro e você continua aí, irredutível, sofrendo pelos cantos. Muda, meu; acorda. Muda aos poucos, sei lá, vai atrás, faz a vida à sua volta agradável de novo. Faz o que está ao seu alcance, se livra dessa birra tonta contra o Fer e convive direito nesse apartamento, vocês dois. Senão você vai acabar se isolando cada vez mais. Só... perdoa ele.
_Eu não... – argh, inferno! – ...eu não estou preocupada em perdoar ele, meu, eu... eu quero que ela me perdoe, porra. Você não entende isso, Marina?!
_Te perdoar por quê, meu?! O que raios você acha que fez de tão errado pra Mia? Eu não sei porque você tanto se culpa, cara!
_Sei lá, meu! Eu... eu pressionei ela... foi ...informação demais... no momento errado, eu... eu devia ter esperado, eu... – recomecei o meu drama recorrente, amargurada – ...eu não sei, Má, eu...  eu fiz um monte de coisa errada. Eu, eu não devia ter falado daquele jeito e não devia ter saído com a porra da loirinha também, não devia ter ligado pra ela de madrugada, ou qualquer outro dia, não devia ter desligado a droga do telefone, eu devia ter atendido, porra, enquanto ela... ela ainda queria falar comigo, n...
_Espera. Que loira?! – a Marina me interrompeu, já me olhando como quem acabara de validar o seu discurso de poucos minutos atrás sobre a minha inconstância deplorável de caráter.
_Não, ninguém... – resmunguei, sem querer falar sobre, emburrada por ter que admitir derrota nas entrelinhas – ...tá, olha, eu sou uma idiota. Eu sei disso. E eu sou mais idiota ainda quando se trata da Mia, eu... eu faço merda sem, sem nem querer fazer. O fato é que quando ela veio atrás, quando ela quis saber o que se passava comigo, por mais intolerável que fosse o motivo, eu... eu e esse meu... orgulho de merda... eu não atendi a porcaria do telefone. Não atendi e agora quem não me atende é ela! Puta mano, que ódio. Que inferno! Eu não atendi e agora ela caiu na real e... e tá aí... achando que a opção dela é a droga do Fernando!
_Mas, linda, você não pode forçar ninguém a te amar de volta. As pessoas não escolhem o que sentir. Você não vai ser a melhor opção a não ser que, por si só, a Mia veja você como uma opção para a vida dela, meu. Você não fez nada errado aí! Flor, desencana. É sério... Trabalha no que você pode melhorar desde já, meu, fica bem em casa e se anima. Sai um pouquinho. Esquece a Mia, vai... deixa ela ir atrás do que quer, deixa ela quebrar a cara, tomar as próprias decisões. Isso não depende mais de você.
_Não dá. Não dá, Má... Eu... Eu não agüento ver... ela assim, sabendo que ela tá mal desse jeito – a minha cabeça doía só de pensar – ela ouve um monte, meu, toda vez que eles brigam; você não faz idéia do que é não poder fazer nada, porra! Não posso nem saber como... como ela tá lidando com isso. Não posso ligar e conversar; não posso fazer porcaria nenhuma, não posso ver ela, eu... não, não dá.
_E você também não pode se responsabilizar por isso, meu, ela...
_Má, eu... – a cortei – ...eu amo ela demais. Demais. Você não entende... O que você faria, porra?! Se soubesse que a pessoa que você ama está mal pra caralho, está sofrendo, meu?!? Eu não consigo, mano, eu não consigo não pensar nessa merda!
_E... – ela suspirou, com pesar – ...e o que a Mia está fazendo por você?! Você não está, também, sofrendo??
_É, mas é diferente, meu. É diferente porque ela não me am...

Parei de repente de falar, segurei minhas palavras do nada. A Marina me encarava à espera da conclusão. Mas esta era uma frase eu não conseguia terminar.

(...)

Droga.

O Ponto Final 1

A linha incandescente já se aproximava do fim do cigarro. Mano, por favor, vai embora..., pensei comigo mesma. Só que a Marina continuava lá, quieta e me olhando, com um carinho que eu não merecia, sentada na minha cama. Olhei rapidamente para a brasa próxima do filtro, numa última tragada, olhando-a acender e depois amassei o cigarro contra o parapeito da janela, joguando-o fora. Sem chance dela ir, né..., revirei os olhos amargurada e me conformei. Voltei-me de costas para a janela, apoiando de leve na parede, e encarei séria a Marina.

_Senta aqui... – ela pediu.

Cruzei os braços, na mesma hora, sem pensar muito – não. E aí me peguei observando-a, parada ali, me olhando de volta com o seu par de olhos castanhos bem-intencionados por detrás daqueles seus óculos pretinhos de aro fino. Não me movi, apenas a encarei por alguns segundos.

_Deixa de ser criança... – ela inclinou a cabeça, em desaprovação – ...larga a mão e vem logo aqui, meu.

Então respirei fundo, sem muita paciência, e descruzei os braços, alcançando o maço que tinha ficado na mesa ao lado da janela. Caminhei com ele e o isqueiro em mãos até a beira da cama – prevendo que aquela conversa ia ser longa –, a Marina se virou mais ainda para mim, e eu me sentei bem a contragosto ao seu lado. Por mais que – não raramente – ela colocasse os meus pensamentos e coração no lugar, tinha vezes que a única coisa que eu queria era não fazer sentido algum; por vezes sentia vontade de sair por aí, irracional, com as emoções desenfreadas. Doa a quem doer – e, via de regra, era a mim que doía. Mas tinha, ah se tinha, vezes em que eu não queria me importar. Que queria que machucasse, queria mesmo, queria sentir cada miligrama da confusão e que se foda. Olhei para a Marina à minha frente. Esta era, definitivamente, uma daquelas vezes.

_Fala, vai...
_Se comportar assim não vai ajudar e você sabe – ela se ofendeu pelo meu tom.
_Má, não tô afim de ouvir bronca.
_Não estou te dando bronca – ela me cortou –, mas você precisa querer ser ajudada. Meu... vamos conversar numa boa, custa? Você sabe que eu não gosto de te ver assim, eu quero você feliz.
_Mas eu tô feliz... eu não preciso de ajuda, meu.
_Vai começar de novo?! – ela me lançou aquele olhar de nem-me-vem-com-essa.

 Eu mereço mesmo, me larguei afundada no colchão e foquei os olhos no branco sem fim do teto. Aquilo já estava me cansando antes mesmo de começar. Aí ela desatou a tagarelar por quinze minutos sobre a vida e alternativas e como temos que fazer escolhas para nós mesmos e os pequenos passos diários. Aquele papo bem “Marina”. Eu continuava achando que ela estava exagerando, independente de quão mal eu me sentisse naquele momento.

_Você já pensou em talvez... sei lá... tentar se reaproximar do Fer?
_O quê?! – aí eu me surpreendi, ainda deitada.
_Ah, meu... Não sei, é que... Eu acho que isso está te fazendo mal, sabe, e você não fica bem aqui, no apartamento, dormindo no quarto do lado e... e esse rolo da Mia, ele... ele é mais difícil de resolver... Talvez... fosse uma solução, sabe... Você não acha? Hum?! Essa briga de vocês não tá te colocando para baixo?
_Está, mas... – argumentei, meio revoltada – ...mas não sou eu quem tem que se reaproximar! Por que eu que tenho que ir lá falar? Ele que foi um babaca, porra, ele que venha se desculpar e endireitar as coisas.
_Ah! Só ele foi um babaca?!
_Marina, não começa...
_Ué, do jeito que você fala parece até que ele não tinha motivo pra estar sendo babaca e que você é a santa da história aqui, não é...
_Eu não disse isso... – retruquei; respirando fundo por uns instantes – ...olha, numa boa, não sei como era pra isso estar me ajudando.
_Bom, você já parou pra pensar que talvez ele esteja sofrendo tanto quanto você? Hm?! Aposto que não pensou. Porque, jogando bem a real, foi ele quem acabou de perder a namorada...
_O quê, agora você... – sentei na cama e encarei-a, com desgosto – ...vai me dizer que, porque a Mia era mina dele, isso torna as coisas piores pro Fer? Piores do que já estão sendo pra mim?!?
_Não, não. Não foi isso que eu falei... – ela me corrigiu, séria.
_Bom, para sua informação, Marina, ele não “perdeu” a namorada. Ele jogou ela fora e não está nem aí, não dá a mínima. Porque ele poderia muito bem pegar a porcaria do telefone e resolver essa merda com a Mia de uma vez por todas, faria bem pra ele, faria bem pra ela, todo mundo ficaria feliz – exceto, talvez, eu –, mas não... ele tem que ignorar, vai e não atende metade das ligações, só grita com ela, só discute, fica tratando mal, fala que tá comendo fulana, diz que não quer mais ver, fica agindo como o maior estúpido do mundo e...
_E você não agiria?! – ela se irritou.
_O quê?! Eu, mano?!?
_É, meu. O Fer tomou o maior chifre e ainda teve que ouvir isso dos amigos, da namorada, pô. Qualquer um ficaria grosso, é tipo, o mínimo a se esperar.
_Ah, nem vem, Marina... Isso não justifica! Nossa, mano, não justifica mesmo... Você sabe muito bem que o Fernando já traiu a Mia! Por que ele pode ir lá, comer a ex a noite inteira, não contar porra nenhuma por meses e depois se achar no direito de estar injustiçado? Agora ele está moralmente ofendido, por um acaso?! Ah, cara, qual é... Na boa, isso me irrita.
_Até aí, meu bem, você me traiu com metade de São Paulo. Se eu tivesse contado que te traí tambpem, então, você teria ficado de boa? É isso que você quer dizer?! Se você tivesse descoberto na época, você não ia ter reação nenhuma?
_Espera. Como assim “contado”?! – indaguei, com um aperto súbito no peito – Má, você me traiu?!

maio 09, 2011

[ ME DESCULPA? ]

Oi oi,

Queria pedir desculpas pela demora entre um post e outro. Vou dividir aqui o meu caos existencial do momento... Acabei de me mudar (de cidade, de apartamento, de vida...) e começar em um emprego novo que está me consumindo, assim como a mudança para o apê novo! Para completar, pedi a internet e ainda não foram instalar em casa. Estou postando, neste momento, em um Starbucks atrás de casa e correndo contra a bateria insuficiente do meu laptop. Espero que esta semana venham instalar a internet e eu devo voltar a postar num ritmo normal! :)

Espero que estejam gostando!
Obrigada pelas visitas e comentários liiindos ♥

Um beeijo,
Mel M.

Intervenção

_Você está com uma cara péssima.
_Marina, na boa, não enche.
_Alguém precisa te dizer isso... – ela entrou no meu apartamento, se intrometendo, sem que eu a convidasse.
_O que você está fazendo aqui, meu?! – resmunguei, fechando a porta.
_Eu vim ver se consigo te salvar de você mesma...
_Deixa de ser ridícula, porra, nada a ver.
_Eu?! – ela me olhou irônica, parada no meio da sala, e eu revirei os olhos, já sem paciência para aquilo.
_Eu não preciso ser “salva”.
_Não?! E quando foi a última vez que você saiu? Hein?!
_Eu saio todo dia, Marina, nem vem...
_Pegar um metrô de ida e um de volta até a Vila Madalena não conta. Se você chama isso de sair, então, já está pior do que eu imaginava. Agora, vamos, coloca uma roupa melhor aí... – ela saiu andando em direção ao quarto, entrando no corredor, como se quisesse que eu a seguisse – ...o Fernando não está aí?
_Não, ele foi na casa do Igor.

Ótimo, era tudo o que eu precisava, pensei em desânimo, rabugenta, antes de ir atrás dela. Entrei no quarto pouco tempo depois e encontrei a minha fabulosa ex-namorada com metade do corpo dentro do meu armário, vasculhando a pilha bagunçada de roupas que se acumulava sobre as gavetas. Cara, eu odiava as intervenções da Marina. Por mais que funcionem, quase sempre. Na época em que namorávamos, ela costumava invadir a minha casa contra a minha vontade, no meio da tarde, e “salvar” o nosso relacionamento das nossas muitas (muitas!) brigas. Era sempre assim, uma hora ou outra, eu cedia. Naquela noite – e nos últimos dias –, contanto, eu não estava com saco para aquela ceninha toda.

_Tem alguma coisa aqui que esteja passada?! – disse, falando sozinha, enquanto mexia no bolo de tecido.
_Eu não... meu, eu não vou pra lugar nenhum – me joguei na cama, aí me virei para cima, encarando o teto – tô cansada pra caralho, mano, trabalhei a semana toda... Cara, eu não queria nem que você viesse pra começo de conversa! Você que ficou insistindo, porra, eu...
_Ah... você vai, sim! – ela me interrompeu, indignada – É sexta-feira, eu já vim até aqui e...
_Má, por favor... – choraminguei, passando as mãos no rosto.
_O que você acha desta? – ela me ignorou, mostrando uma blusinha semi-decotada que só mesmo a Marina poderia ter escolhido dentre todas as dezenas de opções melhores do meu armário; então, eu sentei na cama para esclarecer aquilo de vez.
_Me escuta, meu, na boa: eu não vou.
_Você não tem escolha... – continuou, começando a me irritar.
_Marina, é sério, eu não quero.
_Eu não estou perguntando.
_Má... – disse, mais controlada – ...pára.
_Não tem discussão! Você vai...
_Marina, caralho, eu não quero ir! Não quero sair, porra, não entendeu ainda?! – comecei a dar chilique – Me deixa, cara, que saco!
_E qual é a alternativa, hein?! – ela me encarou, agora incomodada – Você ficar aqui sentindo pena de você mesma??
_Ninguém está sentindo pena de ninguém...
_Ah, não?! – ela levantou a voz – meu, você fica aqui enfiada nessa fossa e...
_Quem disse que eu tô na fossa?!? – cortei ela, indignada, aumentando ainda mais o tom da discussão – Eu tô pedindo ajuda por um acaso?! Hein?! Te disse alguma coisa? Vim chorar no seu ouvido??
_Só porque voc...
_Vim?!? – encarei-a de volta, irritada – Não, não vim!! Não vim, Marina.
_E precisa, meu?! Faz três semanas que a única coisa que eu escuto é “ah, não tô muito afim...”, “ah, sei lá, fui no estúdio”, “ah, não... já jantei, vou dar uma dormida...”!!
_E você queria que eu falasse o que, porra?!?
_Qualquer coisa! Me liga, caramba; conversa, fala como você está, me diz o que está acontecendo, sai um pouco, conhece outras pessoas... daqui a pouco vai fazer um mês e você continua aí, vegetando.
_O problema é meu, mano! O que você tem a ver com isso??
_Não. O problema é que você fica aí, bancando a machona e dizendo que tá tudo bem, quando eu sei que, na verdade, não está nada bem.
_Marina, me escuta, cacete: eu... estou... bem.
_Sei... – ela levantou a sobrancelha para mim e eu perdi a calma na mesma hora.
_Porra, mano! Sério mesmo?!
_Linda, pelo amor de deus, você não tá bem! – ela se indignou, falando alto – Você acha que isso é vida?! Ficar assim por causa de uma garota que não...
_Eu estou bem! Eu... estou... bem! – interrompi-a, mais alto ainda – Quer que eu repita? Eu estou bem! Não tem nada rolando, caralho!!
_Você não está bem!
_Estou, sim!!
_Não, não está... e você sabe disso! Nossa, você muito sabe disso!!
_Argh, que ódio... mano, eu tô bem!!
_Não, meu!!
_Marina, porra... que saco!!
_Mas você não está! Você sabe que não está!!
_E você quer que eu diga o que, cacete?!? – gritei com ela, do nada – Hein?!? O que você estaria dizendo, porra?! – a olhei, sem medir minhas palavras, me sentindo vulnerável – Se falasse pra alguém que ama a... a droga pessoa... e a garota simplesmente sumisse da sua vida?? Não quisesse mais saber de você? Não te ligasse? Não te respondesse?? Não atendesse a droga do celular?? Você queria que eu dissesse o quê?!? Que eu não tô bem, porra?! – ela me encarou, agora quieta – Que eu tô mal? Que eu tô sofrendo?! Que eu não consigo parar de pensar nela um segundo sequer?? É lógico que eu não tô bem, caralho!! Precisa vir aqui e me encher saco?!? Eu não quero sair! Eu não tô afim! Me deixa, porra!!
_É isso! É isso que eu quero ouvir!! Só isso, meu: a verdade!!
_Bom, a verdade não me faz sentir melhor!! Satisfeita?! E aí?!?
_Mas, linda, pelo menos você está falando. Isso ajuda, voc...
_Que diferença faz?!? – me irritei mais ainda, já perdendo o controle – Eu continuo aqui, porra, enfiada nessa merda... Não faz nem um mês que a gente estava aí se vendo, cacete; ela foi me ver no trampo, a gente ficou junto; ela tava me procurando, finalmente, depois de tanto tempo; a gente tava bem, ela tava dando bola pra mim, muito mais pra mim do que pra ele! Pra mim, porra!! E agora, de repente, eu faço tudo errado, ela vai embora, fica atrás do Fernando que nem um cachorrinho, liga quinze vezes por dia atrás dele, não me liga, não me atende, minha relação com o meu melhor amigo tá um lixo, ninguém mais se fala nessa porra desse apartamento, ele só briga com ela no telefone e isso quando ele atende, né, e ela... e ela, meu... ela deve... – comecei a me sentir realmente sufocada com aquilo – ...ela deve estar mal pra caralho e... e sozinha... e ninguém faz nada, porra! Eu não posso fazer nada!! Eu tenho que ficar aqui, fingindo que não existo, e ela lá e o Fernando sendo um babaca... e ela agüentando... puta, mano! Que inferno!!

Enxuguei o rosto de qualquer jeito, com as mãos, aí andei até o outro lado do quarto e abri a porcaria da janela. Ainda com ódio, tirei o maço do bolso, coloquei a droga do cigarro na boca e acendi. Primeira tragada e a Marina continuava lá, parada, me observando com aquele olhar de pena insuportável. Maldição.