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dezembro 23, 2012

As Discordâncias pt. II

_Clara... – me curvei na direção do viva-voz, rapidamente.
_O que você está fazendo aqui, meu? – ouvi-a suspirar.
_Só me escuta, por favor.

Senti-me de novo como nos meses finais do meu relacionamento com a Marina, quando por vezes eu implorava para que me aceitasse de volta. Era frustrante ser o denominador comum de ambas situações.

_Vai para casa, cara. Está tudo bem, Bo. Está mesmo, só... – a Clara murmurou no interfone, indisposta – ...só vai pra casa. A gente se fala amanhã.
_Não, meu. Eu não posso, eu não consigo ir pra casa e deixar as coisas assim com você. Não consigo!
_...
_Bi, por favor.
_Vai pra casa. Você devia ter pensado nisto antes.
_Eu sei! Eu sei, Clá, porra. Mas eu, eu não tava pensando. Não mesmo. Eu não sei o que porra eu estava fazendo! – levantei a voz, discutindo em pé sozinha com um interfone frente ao seu prédio, no meio do escuro.
_Você... está transformando isto em uma grande cena, meu. E não quero isto.
_Só abre a porta, cara. Conversa comigo. Eu sei que eu não tenho direito nenhum de te pedir coisa nenhuma, que eu não mereço a milésima chance – as palavras saíam da minha boca, num fluxo irracional –, que eu, eu sou uma babaca, toda vez, mas... porra, eu... eu gosto de você. Eu gosto pra caralho de você. E eu nunca estive tão feliz, meu. Você, cara, você é a única merda de garota que me entende. E eu não sei o que eu estava fazendo! Eu juro que não sei! Eu, eu tava muito louca, Bi, você tem que acreditar em mim, eu não estava pensando! Eu não queria te desmerecer, não queria fazer nada na frente das suas amigas. Eu sequer queria ficar com a menina, eu só estava muito, muito chapada e eu não tinha ideia do que estava falando com ela, com ninguém. E... E eu sei que é sempre você que tem que engolir a minha merda, sabe, aturar o meu humor e as, as coisas que eu faço sem pensar. Eu sei. Eu sei disto. E eu não deveria ter gritado com você na rua...
_Não faz isto – ouvi-a suspirar, me interrompendo.
_Me deixa subir, vai, por favor. A gente tava bêbada, Clá. Eu, você, sabe. Olha, eu, eu sou uma idiota. E... não quero ter que me desculpar mais uma, mais dez vezes pelas coisas que eu faço. Eu vou tentar, cara. Prometo! Eu... – abaixei a cabeça, encarando o chão e resmungando, com um angústia por machucar os outros tão deliberadamente – ...eu não sei o que acontece comigo, eu... sabe, eu pareço me desligar das coisas, eu não penso na hora. Não penso em nada, não é por mal. Eu não sei. Eu só... Eu só sei que eu não quero te fazer mais passar por isto, por nada disto. Porque eu estou bem com você, meu, e eu quero continuar bem com você. Eu não posso te perder, porra. E eu não quero deixar as coisas como estão, eu não quero conversar amanhã. Eu não quero te dar um tempo pra perceber o quão babaca eu sou e o quanto você merece mais do que minha cara de pau idiota. Eu não quero. E se eu for embora agora, no segundo que você ficar sóbria, você sabe que vai estar de saco cheio. Não me manda pra casa, cara. Me deixa consertar. 
_...
_Bi, por favor. Por favor, me deixa subir.
_...
_Por favor, por favor... – choraminguei, prolongadamente.

E alguns segundos depois, do nada, escutei a porta de entrada destravar. Soltei as mãos na mesma hora da parede e me virei para a maçaneta, empurrando-a corredor adentro. Subi as escadas num só pique e bati na porta da Clara, uma desgastada porta de madeira. Estava levemente mais alcoolizada depois daqueles degraus todos. Escutei-a virar a chave e mal entreabriu a porta, já apressei a minha entrada, abrindo o restante e me colocando para dentro. Fechei a maçaneta atrás de mim, num empurrão, e levei num segundo as mãos ao seu rosto, beijando-a intensamente. Como se não a visse há dias. A bebida me deixava um tanto teatral, é verdade – a Clara se retraiu, mas aos poucos cedeu.

Não tinha calças ou maquiagem, apenas uma calcinha e uma blusa de dormir. Já estava com o cabelo preso para trás – e continuava bonita, ao que me dizia respeito, puta que pariu. Me senti tão idiota. De repente, num refluxo irracional. Por querer qualquer coisa senão ela, por procurar qualquer lugar senão aquele. Ali. É impressionante o quanto a culpa te faz sentir apaixonada. Ou o medo de perdê-la, alguma hora, eventualmente, pelas merdas que eu fazia a torto e a direito. Mas me sentia. Completa ao seu lado e uma babaca. Querendo retirar todas as minhas faltas. E lhe prometer sinceridade. “Você é minha garota neste mundo, cara”, disse, entre um beijo e outro. Genuinamente, intencionando cada uma das minhas palavras. Ela era. E eu estava perdoada.

As Discordâncias pt. I

_Eu vou pra casa – ela disse.

Ainda virada para as sarjetas da A. Bicudo. E cabisbaixa, segurava uma integridade que eu era incapaz de manter com aquele tanto de álcool nela, em mim. À distância, a luz acesa sobre um táxi que se aproximava a fez dar alguns passos na direção da rua e sinalizar. Me adiantei – “não”.  Não podia deixar que fosse embora sem resolver ou terminar a conversa, sem mim – e ao contrário da maioria das meninas, comumente inseguras para abandonar um bom drama, eu sabia que ela iria. Sem sequer olhar para trás. E eu não podia permitir. “Não vai, meu, por favor”, eu lhe pedi, com o rabo entre as pernas e angústia de vê-la sentar no banco de trás daquele táxi. Ela se ajeitava e eu sabia que não tinha direito de demandar coisa alguma.

_Bi – insisti, mesmo assim – por favor.
_Está tudo bem. Vai pra casa, cura a ressaca. Sabe, fica sóbria – me respondeu, com a mão já na porta –, amanhã a gente se fala.
_Clara, n...

Fechou a porta antes que eu terminasse a frase e o táxi começou a andar lentamente. Merda! Tudo o que a minha mente embriagada conseguia pensar era “não”, “não” – observava o carro se afastar. Impotente. Estava genuinamente arrependida e me sentia presa a um final que eu não escolhera para aquela noite, ainda que o tivesse provocado. A raiva começou a me dominar. Sou uma porra de uma idiota mesmo. Esfregava as mãos no rosto numa tentativa vã de trazer qualquer sanidade para a minha cabeça, chapada as hell. A tontura e o ritmo disparado nas minhas veias começavam a me irritar. A situação toda me irritava. E lá estava eu, sozinha numa calçada escura de Pinheiros em plena madrugada de sexta-feira.

Senti vontade de destruir qualquer coisa, de cometer qualquer atrocidade. Ir arranjar briga na Bubu a quadras dali, chutar a boca do primeiro que aparecesse; encher ainda mais a cara, até estourar os meus miolos e vomitar cada grama daquilo no banheiro sujo de qualquer boteco; qualquer porra que me fizesse lidar com a frustração que me afligia. A cocaína confusamente parecia amplificar tudo – o meu sentimento de impotência e a minha capacidade, ao mesmo tempo, de fazer o que bem entendesse. Num impulso idiota. De gritar, não sei. E o estranho é que eu não o fiz, num impasse desgraçado, que me rasgava o interior. Eu sabia que minha cabeça exagerava e sentia uma necessidade irracional de ter bom senso, algo a ver com a Clara.

Fiquei portanto imóvel ali, sentada no meio-fio, num cigarro em seguida do outro. Os acendia consecutivos. Por mais tempo do que o aconselhável em São Paulo àquela hora, sozinha. Argh. Estava alcoolizada demais para considerar a minha segurança. Os meus pensamentos pareciam se voltar contra mim, contra a minha conduta e a porra das minhas decisões. Minha inconstância. Inferno. O que eu tenho a oferecer a ela, diabos? E então me ocorreu – lá pela metade do segundo cigarro – que sete horas antes ou nem isto eu estava comendo a namorada do meu melhor amigo no meu apartamento. Senti repulsa a mim, a quem eu me tornara. Em vista a tudo o que eu tinha e desperdiçava. E talvez este fosse um asco induzido pela situação, talvez ele sumisse na manhã seguinte e certamente sumiria, mas aquilo me contaminou no segundo em que me acertara. Puta que pariu.

Eu precisava da Clara. De repente dei-me conta do quanto precisava. E coloquei o cigarro entre os lábios, liberando a mão direita, para alcançar então a carteira no bolso. Abri-a e contei o dinheiro que tinha ali. Não dava nem nove reais e o metrô não abriria até dali uma ou duas horas. Foda-se, perdi o bom senso, ando para casa depois. Fiquei em pé na mesma hora e me dirigi o mais sóbria que conseguia até o ponto de táxi na esquina com a Teodoro. Pedi que me levasse ao prédio da Clara – a algumas, muitas quadras de onde estava.

Restaram-me uma nota de dois reais e algumas moedas, míseras. Desci determinada e andei poucos passos até o interruptor do seu apartamento. Toquei. E esperei pelo que me pareceu uma eternidade, sem resposta. Estou atrasada, ela já foi dormir. Pensei e suspirei. E toquei de novo, segurando o botão pressionado agora por mais tempo. Nada, de novo. Puta merda. Respirei fundo, com ambas as mãos apoiadas na parede que alocava as campainhas brancas, prestes a socar o cimento se não conseguisse corrigir a minha cagada. Toquei a terceira vez – e encarei, ansiosa, o viva-voz que ficava poucos centímetros abaixo dos botões com os números dos apartamentos. Esperando por qualquer sinal. Qual é, Clara, me atende, porra! Os segundos se prolongavam vazios frente ao seu prédio, em silêncio.

Dane-se. Peguei então o celular e tentei ligar para ela – a chamada, todavia, foi direto para a caixa postal. Maldição, quis jogar o telefone longe ao cancelar a ligação, mas não é possível. Caralho! Tornei a enfrentar a merda do painel com os interfones dos apartamentos. Chamei o seu número, pela quarta vez. Nenhuma resposta. Nada. Apoiei a testa contra a parede mais acima, sob a impressão de estar ali há horas, pressionando agora o botão continuamente. Ouvia o zunir da campainha, incessante – e o imaginava cortar o silêncio do seu apartamento modesto. Vez ou outra deixava o dedo subir alguns milímetros e tornava a pressionar o botão então, após uma pausa de nem um milésimo, propositalmente irritante. Atende. Atende, cacete. Escutei enfim o ‘cléc’ do interfone, sendo tirado do gancho do outro lado.

dezembro 20, 2012

All babes are wolves

_Vamos embora.
_O... o que... – mudei automaticamente para o meu modo de inocência, com certa indignação; a minha teoria era de que sempre é melhor encarar atritos assim como se tivesse sido injustamente acusado – ...o que você tá fazendo, porra?!
_Não me faz de idiota – a voz da Clara aumentou o tom, firme –, pega a sua camiseta e vem.
_Não, mano! Claro que não. Eu tô conversando e vou continuar conversando.
_Escuta aqui. Se eu passar por aquela porta sozinha – me ameaçou, apontando a entrada enfurecida; tinha o vestido ainda amassado do nosso “passeio” no quarto da Natali e os cabelos agora totalmente soltos e bonitos –, você pode esquecer o meu número, o meu endereço, você pode me esquecer. Você está me entendendo? Eu nunca mais olho na sua cara.
_Mas, gata – a garota do black power então se pronunciou, em minha defesa, num tom tranquilo –, a gente só tava convers...
_Você cala a boca, Marília! – a Clara a interrompeu, irritada com a intromissão, encarando-a e cruzando os braços enquanto a rebatia – Eu e você não somos amigas e eu não quero ouvir o que você tem pra dizer. A minha conversa é com ela! Não com você.
_Bi, meu – tentei acalmar os ânimos, que começavam a eclodir –, mas a gente realmente não estava fazendo nada... porra, a, a gente só estava conversando aqui, numa boa. Ela me perguntou da tatuagem e eu di...
_Ótimo! Você já se divertiu, bom pra você. Agora a sua cara de pau tem cinco minutos para me encontrar lá embaixo – descruzou os braços, pronta para ir –. Cinco minutos, Bo, ou eu vou embora. E se você não estiver na frente daquele elevador, não precisa nem se dar ao trabalho de vir se desculpar depois.  
_Clara, eu... – tentei apelar, agora sincera, mas ela já tinha me virado as costas.

Merda. Levantei em afobação e comecei a procurar a minha blusa, tinha os movimentos levemente atrapalhados por toda a bebida que ingeri. A minha cabeça não funcionava, não direito. Comecei a me irritar. Não posso perder a Clara. Por outro lado me inquietava toda a pretensão dela de se achar dona do meu nariz, do que eu faço. De repente, estava na porra de um “relacionamento”. Cadê a merda desta camiseta?! – eu me debrucei para ver sob os móveis, ajoelhada no chão, e a encontrei jogada próxima ao pé empoeirado do sofá. Argh, alcancei o tecido com a mão.

Me ergui novamente em pé, vestindo a droga da camiseta suja às pressas. Não sabia quanto tempo havia perdido procurando. Caminhei por entre as convidadas da festa bêbadas, sem me despedir da tal Marília, que continuava no sofá observando, e fechei a porta atrás de mim num estrondo desmedido. Chamei o elevador, com raiva. Apoiava as mãos na parede, um pouco acima do interruptor; tinha a cabeça abaixada e o estômago revirado, enjoado comigo mesma. Por que porra eu saí de casa hoje?, lamentava, amarga. Entrei no elevador e apertei o térreo. Quando a porta abriu, já haviam se passado quase sete minutos. Ela ainda estava lá.

_Bi, eu... – ia começar a implorar, no instante em que a vi.

A Clara começou a andar, em direção à saída do prédio. O vestido lhe batia na altura mais curta, as pernas bonitas. Tinha a carteira em mãos e um maço de cigarros, continuou andando para o lado de fora. Me ignorava. Inferno. “Volta aqui”, pensei em dizer e me contive – ela já estava longe demais, se eu erguesse a minha voz ia soar como uma ordem. Corri então para alcançá-la. Ela seguia como se fosse para a Teodoro, talvez para o ponto de táxi mais adiante. Em passos acelerados. Senti que a corrida me deixara ainda mais embriagada, mais desnorteada. Pedi que me esperasse e ela continuou andando, sem nem me ouvir. Estava a menos de dois metros dela agora. A madrugada iluminava-se pelas janelas dos prédios e pelos carros que passavam.

_Não faz isto, cara. Por favor. Eu peço desculpas, eu faço o que você quiser – ergui então a voz, tentando impedi-la.

Ela ouviu, virou-se enfim na minha direção e me encarou.

_Você é uma babaca. Olha, eu me segurei para não falar lá em cima, pra não dar escândalo, mas você é. Você é uma babaca! Eu estava a quatro metros de você – “espera aí”, comecei a retrucar, insultada; mas a sua voz sobrepôs a minha, ainda mais brava – e você não teve a decência de esconder o que estava fazendo. Na frente de todo mundo, porra. Você foi COMIGO naquela festa!
_Não, espera aí, cara! – me irritei com o comentário, bêbada – O que diabos eu fiz?! Que grande ofensa eu cometi?! Hein?!
_Você só faltou comer aquela garota! Na m...
_Comer?!? – comecei a rir e a gritar com ela, perdendo a cabeça – Clara, caralho, eu sequer beijei a menina! Eu mal encostei um dedo nela!! Você não acha que está exagerando?! A gente conversou por trinta minutos e você me arranca da festa porque acha que eu estava quase comendo a porra duma mina que nunca vi na vida?!
_Ah, porque o seu critério é realmente “quantos anos a gente já se conhece”, né.
_Ah, não. Não vem com ironia pra cima de mim, tá. Não você! Você pode chamar fulana pra ir jantar na sua casa, sair com meio mundo, pegar uma imbecil de merda no Vegas... – subi ainda mais o tom de voz; ela fumava a dois metros de mim, me interrompendo, nervosa.
_O Vegas?! O VEGAS?!? Eu sequer sabia que você estava lá aquele dia, porra. Você vai jogar isto na minha cara um ano depois desta merda desta história?! Você tava pegando a Mia na época, caralho! ACORDA! – começou a discutir de volta comigo, alarmando toda a rua da nossa briga embriagada – Não sei porque o seu ego tá tão ofendido até agora! Vai à merda. Isto é ridículo. Eu chamei a mina na minha casa, chamei, sim. A gente tinha acabado de começar a sair de novo, isto não é nada. NADA! Você acha que eu tô vendo alguém agora?! Você acha que eu vi alguém nos últimos tempos?!? Você acha que eu tô fazendo o quê com você, sua idiota?! Te trazendo para conhecer minhas amigas, te levando a sério. Logo você, a babaca-mor. Você acha que eu me incomodo por que, por que eu não gosto de você??
_Cara: A GENTE NÃO FEZ NADA!
_NÃO INTERESSA! Eu gosto de você, caralho. E eu não quero você dando em cima de uma, de uma qualquer assim na minha frente, na frente das minhas amigas!! Depois de eu falar todas as coisas que eu falo de você pra elas, porra. Você sequer entende o desrespeito que isto é comigo, com a gente. Você não tá NEM AÍ!

Me olhava com agonia, com desprezo por como me vira portar. Quem larga uma garota como ela para dar atenção para outra? Nem eu me entendia. C-c-c-c-c-come on, babe. Cruzou os braços, injuriada; I never knew that you needed me. Ela virou-se de lado, para a rua. As sarjetas sujas da A. Bicudo. Não a defendera na briga com a anfitriã, sequer me importei – pensei. I was born on the wrong side. E me senti mal. Eu não queria aquilo. Eu queria a Clara. Como queria. E precisava assumir quando estava errada ao invés de me proteger de qualquer ofensa em minha direção. The wrong side, the wrong side of everything. Me arrependia violentamente.

dezembro 17, 2012

“Não é o que você pensa”

A sala estava caótica. O Vive la Fête ensurdecia todos que rasgavam a garganta nas rodinhas de conversa para falar quase tão alto quanto o primeiro álbum bom da noite, num êxtase ruidoso. Havia gente demais para um apartamento de um só quarto em Pinheiros e eu não conseguia racionalizar de onde haviam saído tantos copos, tantas garrafas ou marcas redondas espalhadas pelas mesas e peças de centro e apoios de sofá e pelo chão cada vez mais imundo. Olhei para o lado e a Clara parecia discutir relativamente exaltada a alguns metros dali com a, alguém – os meus olhos estavam subitamente dispersos; minha cabeça disparava como se lutasse contra o meu corpo imóvel e eu não conseguia focar em nada, porra nenhuma. Fechei as pálpebras e as reabri, inebriada, ainda levemente confusa.

_E o que eu penso? – ela perguntou à minha afirmação anterior.
_Eu... – enrolei a língua para falar e ri à pergunta sobre o Fernando, meio atordoada; então lhe murmurei, tendo-a como provável amiga da Clara e me explicando – ...é um cara, ‘Fer’ é um cara.
_Hum... – ela sorriu, a garota ao meu lado; os seus delicados cachos negros pareciam formar desenhos suntuosos no ar hype da festa e aparentava mais no controle de si do que o restante de nós – ...interessante. Você, hétero.
_Não... – ri.
_Não?
_Ele mora, ou... morava comigo. É um amigo, só.

Ela ergueu as sobrancelhas. Movia-se com certa graça; eu a admirava em inconsciência alcóolica. Tinha os shorts dourados arregaçados, torneando a base das suas coxas. Apenas uma pulseira também dourada no pulso. Aproximou-se então do meu rosto e disse em tom baixo, como se confessasse, colocando a mão na minha perna: “Não achei que fosse mesmo”. Não torne isto difícil. Virei o meu rosto na sua direção, encarando-a com um gosto, ahm, apetite na boca. Uma outra garota literalmente havia desmaiado numa cadeira a menos de dois metros de onde estávamos; e eu sentia o calor se manifestar nos meus pensamentos, enfiados até dizer 'chega' em álcool e outras substâncias menos lícitas.

_Não? – divertia-me, ainda afundada naquele sofá com conforto, fora de mim – E o que me denunciou?
_Bom, para começar... você é a única sem blusa na festa – ah, é, sobre isto..., me constrangi por um segundo e ela ajeitou-se ao meu lado, me encarando com um achar graça no canto dos lábios cheios – e, não sei se reparou, mas só tem mulher aqui.
_É, é? – ri.

“Sabe que não tinha reparado, né”, eu disse, completando. E os minutos pareceram escapar do meu controle, de repente – sentada ao seu lado, sem qualquer traço restante de moral, numa conversa que se desdobrava em rodeios e ambiguidades deliciosas. Com a garota do black power, charmosa. A ínfima parte ainda sóbria em mim me alertava de que ela era mais do que provavelmente alguma amiga ou conhecida da Clara. Nada era realmente dito ou feito. E isto é absurdo, pensei. Observava a sua pele negra adornar um osso um pouco mais saltado no seu ombro, de forma sutil. E realmente irresistível. Puta... que pariu, a mera visão me dava um calor desgraçado.

Eu sabia que devia ter saído dali. Entretanto, todo o resto do meu corpo parecia já ter esquecido o que eu estava fazendo naquela festa. Onde estava, o que é pior. E rolavam uns tateares incertos, uns climas despretensiosos de “começo”. Eu brincava, não sei explicar. Ouvia-a e provocava sem real intenção de beijá-la; não sabia o que diabos fazia, porra – estava com a cabeça entupida de coca, de álcool; com um fogo que explodia as minhas veias de dentro pra fora. E não estava pensando a respeito, caralho. Os arredores tontos me invadiam. Era só, sei lá, uma abertura que surgira ao acaso; um passatempo. Mas alguém, claro, estava prestes a não o achar.

_...e umas flores aqui, algo que flua, entende – deslizei as minhas mãos por um dos seus braços, suavemente, tentando convencê-la de que uma tatuagem ficaria atraente nela; que ria e justificava não achar bonito; ainda que mantivesse os dedos sobre a minha caveira nas costelas, exposta sob o meu sutiã, sem blusa, e dizia gostar – ...como não? Ficaria linda, porra, mesmo.
_Você até que é convincente – riu.
_É que eu sou paga pra fazer propaganda d’uns estúdios.
_Sei – continuou achando graça.
_Sério! – prossegui, com sarcasmo, afundando ainda mais o corpo no sofá e acendendo um cigarro meio de qualquer jeito – Na boa, quando você quiser alguma indicação de lugar, cê me liga e a gente vai.
_Então, quer dizer – soltei a primeira tragada e ela debruçou-se delicada sobre a perna que eu tinha apoiado na outra, colocando a mão sobre o meu joelho e falando como se insinuasse – que eu vou ganhar o seu telefone?
_Bom, qu...

Antes que eu pudesse responder – ou sequer me dar conta –, a Clara veio voando na nossa direção e empurrou o meu pé para fora do apoio do joelho oposto, me desequilibrando. E à garota, que quase caiu do sofá de tão na ponta que estava. Merda. Olhei para cima e encontrei uma Clara enfurecida, tão embriagada quanto eu àquela altura, pronta para me chamar de todos os nomes que eu provavelmente merecia. Eu me fodi.

dezembro 13, 2012

¡Al centro!

_Vem, porra... – ela me dizia no ouvido.

Já vai. Nunca entendi direito a dinâmica das festas – ainda que sempre tenha apreciado o caos com que as coisas pareciam se suceder, aquela inconsciência alcóolica toda. Os risos exagerados e as trombadas inertes sem sentido, a libido latente. Duas horas antes e eu não conhecia ninguém; agora me entrosava com a festa inteira em ritmo frenético. Com avidez, as mãos da Clara me puxavam pela lateral da camiseta. E eu tinha os meus dedos entremetidos na parte mais voluptuosa das suas coxas, sentia-as mornas com certa imprestabilidade, embora o meu rosto e atenção estivessem voltados para a mesinha de centro. Para a conversa, isto é. Que bizarramente rondava a minha pessoa; já consideravelmente alcoolizada e com o meu ego sendo cutucado pelas outras garotas da festa. Isto é genial, eu ria.

Enquanto isto, a Clara subia pelo meu pescoço, fora de controle. Nos observavam conforme eu tagarelava merda, como se em duas realidades concomitantes; permanecia no centro de seis, sete meninas e era atacada na lateral. A música no ambiente aumentava progressivamente; e o calor me fazia suar cada dose de tequila que eu virava. Uma atrás da outra, elas continuavam vindo. As perguntas também. Sequer sabia mais o que estava metendo na boca. Ou nas narinas. E a Clara me pedia para desacelerar em comentários invasivos que eu ignorava, sussurrando então alternativas indecentes no meu ouvido. Isto é melhor. Eu ouvia garotas gritarem, aos risos, em outras rodinhas de conversa mais adiante. Não via nada a dois metros de onde estava, porém, atordoada. O foco todo confuso. A verdade é que a decência já havia deixado aquele apartamento há pelo menos duas horas. A minha companhia argentina apertava-se contra a minha pele com os lábios esfomeados, as pernas inquietas. Contorcia-se por atenção; e eu falava insaciável.

_O câncer de São Paulo são essas porras destes alternativos de merda, cara! Com dinheiro e um bando de piadas internas com os coleguinhas de agência; se acham originais pra caralho... – senti meu coração disparar, conforme vomitava um argumento atrás do outro e ria com as garotas – ...me dá asco acharem que a Augusta é isto, as baladas cobrando setenta na porta, porra. Pior é ter que trabalhar com estes bostas!
_Ah, não. Meu! Na que eu trampo é sussa, na boa; é que talvez quem mexa com moda pegue uns mais rolês mais tensos – uma delas comentou; argh, ela era exatamente o tipo de pessoa a quem eu me referia, bêbada de vodka com suco de morango num vestido de R$ 400 da Antix.
_Silêncio, garota. Ninguém te chamou pra defender tua classe!
_Eu nã...
_São todos uns merdas, cara. Sem exceção... – a interrompi e pisquei na sua direção, achando graça; e abaixei a cabeça nos segundos logo depois, sentindo a minha pele esquentar de dentro pra fora – ...mano, que porra, tá muito quente aqui.

Droga. Começava a sentir a combinação me tirar a consciência. O coração acelerado, o ego disparado. Fazia alguns meses que eu não entrava tão pesado nos entorpecentes – inferno de ideia. A Clara me persuadia, me violentando enquanto eu falava. E as minhas palavras se atropelavam, perdiam-se confusas, em lapsos de porraestamerdadestagarotasabeoqueestáfazendo antes que eu retomasse a minha linha de pensamento e conseguisse voltar ao que estava dizendo.

Uma das garotas agora comentava empolgada, na ponta de um sofá do outro lado, sobre sua experiência com moda no Exterior. Ao lado, afundada amargamente no encosto, a namorada me encarava com certo desprezo nos olhos. E eu provocava risadas no grupo de meninas, com a minha boca suja e casos intermináveis da produtora, achando graça nas reações delas entre um cigarro e outro aceso; interagíamos deliberadamente – meio irracionais, sem nos conhecer direito. Os dedos da Clara subiam impacientes, fincados na lateral do meu corpo.  Me beijava a nuca. E então deslizou pelo meu rosto, interrompendo a minha boca com a sua. O que eu...? Me perdi na sua língua, de repente; sem ter chance de pensar a respeito. 

Perdi a noção por um instante do que estava acontecendo. E afundei em seu gosto, pelo que me pareceram minutos. Infindáveis naquela poltrona de couro. O que está..., caralho?! Sentia de repente que a podia comer ali mesmo. Num comportamento adolescente, digno daquelas épocas em que era completamente normal se fechar num quarto com cinco outras meninas e dividir cada uma um canto com o seu par da noite. A luz apagada, sabe, o ouvido fechado para as demais. Não que eu tivesse tido muito disto – não tanto quanto as garotas que conheci depois, pelo menos –, pois estava sempre com o Fer e cercada de moleques. Agora, no entanto – numa espécie de compensação dos anos perdidos –, eu tinha a minha regata tirada em meio a desconhecidas numa sala lotada, me enroscando apenas de sutiã preto e jeans, com a Clara sentada no meu colo. Sem sequer saber como tínhamos começado. Cacete. Não notei que perdíamos o controle.

Alguém passou por trás da poltrona e deu-nos um tapa na cabeça – “arranja um quarto!”, gritaram. E a Clara ergueu o dedo do meio sem ver quem era, me beijando incansável. Eu a mordia entre um destes beijos e outro, estava confortável ali e não dava a mínima para o que acontecia além do alcance das minhas mãos. Àquela altura, metidas na sua blusa. A segunda pessoa passou então nos cutucando – e a Clara revirou os olhos, desmontando do meu colo de uma só vez e me puxando pelo passador do cinto através da sala, até o corredor. Nos enfiamos às agressões no quarto da tal Natali. Natália? E, claro, transamos na cama da garota – sobre a colcha de flores; contra o armário, sabe-se lá. Apenas flashes pareciam restar na minha memória, os chupões e hematomas pelo corpo. Tudo ocorria em estranhos espasmos de consciência. E quando deixamos o quarto, eu já não fazia ideia de onde porra deixara a minha blusa.  

Voltamos para sala, ligeiramente descabeladas e amarrotadas, todavia nem sinal da regata que eu vestia antes. Inferno. Rodei os olhos no chão antes de nos aproximarmos. E cruzamos caminhos com a anfitriã, a que não ia com a minha cara – e por mais improvável que fosse, ela aparentava ainda mais descontente comigo. Segurou a Clara. “Você quer me explicar o q...”, ouvi apenas o começo da frase enputecida, conforme seguia adiante para me sentar no sofá. O meu sutiã estava torcido; a minha cabeça doía e eu parecia não saber direito o que fazer com as mãos, as pernas. Soltei o corpo contra o encosto, afundando-me fora de mim. Não tinha sono, apenas enfadamento. Peguei o celular em mãos com certa dificuldade – eram 2:13. O visor marcava os números numa luz que me incomodava os olhos. Havia uma mensagem não lida – a abri. Dizia: “Saudades, mano. Q cê tá aprontando?”, enviada do celular do Fernando horas antes, “me liga de vz em qdo, porra!”. Terminei de ler e achei graça.

_Hum, quem é a tal de ‘Fer’...? – ouvi uma voz feminina dizer, com bom humor, logo ao meu lado.
_Hein?! – virei a cabeça lenta, sem entender; avistando uma das garotas que sentara na roda tempos antes; tinha um shorts dourado e uma regata preta no corpo com um destes black powers que apenas as garotas mais bonitas, descoladas da Augusta pareciam capazes de usar; argh, caralho.
_Eu disse, “quem é Fer” – ela repetiu e riu.
_Fer?! – respondi ainda entontecida, achando graça, e a observei por um instante; cara, preciso parar por aqui.
_É. Que ganhou este sorriso aí...

dezembro 06, 2012

Bons começos

Morar com o Du foi estranho nos primeiros dias. Não era como as outras vezes em que eu e o Fer cedemos o sofá a algum amigo temporariamente sem teto, brigado com a namorada – ou desistente de qualquer perspectiva de uma vida decente, diga-se de passagem. Aquilo era mais permanente. Ainda que fosse apenas por alguns meses. Na primeira noite em que voltei do trabalho, tomei um susto ao notar a sua presença. Ali, com a calça saruel e os pés descalços, os braços à mostra. Ele era uma graça – mas alguns segundos eram necessários até que eu o associasse à luz acesa quando entrava no apartamento. Já ele, por sua vez, precisou de alguns dias para se acostumar com a minha aversão a calças.

Éramos dois estranhos num mesmo ninho. Dividindo panelas e cômodos. Não demorou muito também para que ele conhecesse a outra garota que frequentava o meu quarto – e muito mais do que a Mia. A Clara veio na quinta-feira e ele a cumprimentou com um sorriso no rosto, me fitando em seguida. Eu sei o que você está pensando, pensei, implorando com os olhos para que ele não comentasse nada. O Du apenas riu. E no dia seguinte, quando nos encontramos sozinhos na cozinha na hora do café, ele não fez pergunta alguma. Obrigada pela parte que me toca. De certa forma, começava a me parecer uma boa ideia morar com ele.

A Mia reapareceu na sexta-feira. Numa passada rápida por lá, antes de encontrar o Fer para jantar, sob o pretexto de me deixar a camiseta que emprestara. E eu a acabei comendo contra a parede do quarto. Só de leve. Ou talvez nem tanto. O Du chegou algumas horas depois, costumava estar sempre com algo para ler nas mãos – desta vez, porém, tinha um cara de 1.80m com jeito de modelo e pinta de quem vai à The Week. Bem apropriado para o fim de semana. Os cumprimentei já a caminho da porta, rindo, com as chaves na mão e o meu skinny jeans. Vestia também uma regata transparente e um sutiã preto por baixo. Os dois se trancaram rapidamente no quarto. E eu fechei a porta da entrada atrás de mim, já atrasada.

Precisava chegar na estação Faria Lima do metrô. Ia na festa de uma amiga da Clara. Uma que eu não conhecia, por sinal – chamava-se Natali ou Natália, sei lá. O apartamento ficava a cinco quadras da saída na Rua dos Pinheiros, na A. Bicudo. Quando desci em Pinheiros, caminhei para a calçada e, poucos passos já do lado de fora, acendi um cigarro. A Clara ainda não havia chegado. Merda. Mantive os olhos abertos, checando os bolsos compulsivamente, enquanto tragava com certa paranoia. Fruto, claro, mais da minha cabeça do que da região em si – que era muito mais segura do que a rua debaixo do meu prédio, devo admitir.

Eu era um tanto traumatizada; uma vez fui roubada quando saía à noite do Eldorado só a algumas quadras dali, na época em que me arrumei um bico de Natal no shopping. Argh. Conforme eu bloqueava as minhas memórias paulistanas, observei um táxi estacionar logo adiante na rua e a Clara descer – tinha a franja delicadamente presa sobre a cabeça e o restante dos cabelos soltos; usava um vestido imprestável com as suas mechas castanhas. Estava linda. Maldita. E tornava fácil vê-la depois da Mia.

É. É verdade que, no caminho até lá, hesitei sobre os meus sentimentos – ou sobre quanto era capaz de lidar com esta nova, ahm, situação. Na realidade, nunca fui boa em me manter no controle de nada. Da minha boca e, menos ainda, dos meus pensamentos. Na época da Marina havia sido um desastre. Mas, não. Não sentia nada. Pelo contrário. Estava leve em vê-la novamente. Sorri para a minha filha de argentinos, assim que se aproximou, guardando o troco numa carteira discreta que ia com o vestido. Como eu consigo gostar tanto assim de você, hein, garota, indaguei a mim mesma. E a Clara me deu um beijo rápido ao me alcançar, tocando o meu antebraço com intimidade. Nos colocamos a caminho da rua da amiga.

_Cê não vinha a pé?
_Vinha. Mas, ah... – suspirou, ajeitando-se sobre o meu braço, que lhe protegia os ombros por comodidade – ...já estava tarde também,  achei mais fácil vir de táxi. Não foi nem seis reais!
_Hum.

Acenei com a cabeça, ainda com o cigarro acesso. Chegamos em menos de dez minutos ao apartamento da Natália – ou Natali, eu continuava sem saber. Perguntei discretamente à Clara se todas ali eram lésbicas. E ela disse que sim, respondeu – “A maioria”. Conforme cumprimentávamos à distância, de maneira genérica, uma sala cheia de meninas em seus 25 ou 26. Conhecia apenas uma de vista das noites paulistanas. Mas a única a quem dediquei um pouco mais de atenção fora a Lu, amiga-a-tiracolo da Clara, com quem cruzara algumas vezes antes. A música transitava entre pretensiosa e muito pretensiosa – o ambiente, todavia, estava agradável. As garotas eram bonitas e os sofás confortáveis. Parte do feeling descolado devia-se também às luzes indiretas e uma vista impressionante dos edifícios acesos de São Paulo.

A cidade estava magnífica. E a tequila que chegara nas mãos da anfitriã também; a mesma que me cumprimentou sem muita simpatia, talvez por alguma água passada sobre a ponte da Clara. Deixei passar com bom humor. Vai saber. Já o El Jimador, bom, este me recepcionou com a mesma cordialidade de sempre. E tão rápido a minha garganta deixou de queimar, dose atrás de dose, a minha sociabilidade também aumentou. E com ela, a minha liberdade em meter-me mais e mais entre as amigas e as pernas da Clara.

dezembro 02, 2012

Uns não-relacionamentos

O som do meu celular me perfurou os ouvidos, o sono – incômodo. Abri os olhos com certa relutância e uma dor desgraçada na cabeça pelas horas não dormidas; uma das pernas da Mia estava entrelaçada na minha, as suas curvas descobertas em palidez e os lençóis contorcidos, meio desconfortáveis. O telefone gritava – espera, não, este não é o alarme... –; ela moveu-se ao meu lado inconsciente, afundando-se em meio aos cabelos bagunçados e o travesseiro. Perturbada com o irromper do silêncio.

Maldição, argh – eu também me incomodava com o barulho no cômodo. Demorei alguns segundos para me dar por mim. Olhei sonolenta para o relógio e o visor agora marcava “8:03”. Puta merda, não ouvi o alarme! Pulei para o lado oposto do colchão, a fim de alcançar a mesinha de cabeceira. Havíamos dormido invertidas na cama: o travesseiro jogado onde deveriam ficar os pés, os lençóis soltos. Droga, droga, droga. Me apressei. Peguei o celular com certa afobação e o atendi, atrapalhada.

_Alô, alô. Desculpa!
_Bom dia – o Du riu, o seu número apareceu indicado no visor –, escuta, eu... tô aqui embaixo. Estávamos tentando o interfone e ninguém atendia...
_Eu sei, desculpa. Fui dormir tarde ontem, não acordei. Meu, foi mal! Pode subir, eu, eu vou ligar na portaria e liberar lá, peraí – comecei a atropelar as minhas palavras, ainda meio desorientada – mas pode subir, já ligo já.  

Desliguei, num suspiro inquieto. Eu sou uma idiota! Claro. Prestes a largar o moleque com toda a mudança no meio da calçada da Frei Caneca, eu sou a rainha das primeiras impressões. Argh. Passei as mãos no rosto, tirando a franja bagunçada da cara. Tentei me concentrar – tá, o que eu preciso fazer? Respirei fundo, a cabeça entre os joelhos. Ainda tinha que interfonar para a portaria, ele aguardava há sabe-se quanto tempo lá embaixo. Olhei para a Mia ao meu lado, inferno, querendo afundar no seu corpo pelo resto da manhã e não fazer mais porra nenhuma. Mas, não. Eu precisava de roupas.

Saí da cama, ainda sem elas, e andei até a cozinha para pegar o interfone. Liberei a entrada do Eduardo. E então abri a geladeira. Tomei um gole ou dois de leite direto da caixa, sentia a minha boca seca. Agora, sim, eu preciso de uma calcinha... Bocejei, enquanto pensava. E voltei sonolenta até o quarto, o dia amanhecia ensolarado. Vesti a primeira que surgiu da gaveta. E chutei, em seguida, a bagunça de roupas para debaixo da cama; a Mia seguia desmaiada. Estava de bruços, com o rosto afundado no travesseiro. Admirei as suas linhas nuas enquanto colocava uma camiseta larga do MC5 branca. Caralho, esta garota. Esta garota, sorri. Virei de costas e alcancei um shorts qualquer jogado no piso, a campainha tocou.

É o Du. Vesti-o rapidamente, saindo para o corredor.   

Atravessei a sala e abri a porta para ele. Estava todo atolado em malas e bolsas, sacos amarrados uns nos outros. O cumprimentei, achando certa graça na cena. E o ajudei a carregar algumas coisas para dentro.  “Tem mais uns par, um amigo está lá embaixo com um carro”, ele disse e perguntou se não o ajudaria a trazer o colchão, conforme deixávamos tudo no antigo quarto do Fer. “De boa, vamos lá”. Calcei um chinelo dos que estavam largados ao lado da porta e saímos juntos.  O amigo me olhou como se eu fosse louca – desfilando sem sutiã na rua, em plena luz do dia. Dane-se. Esta sou eu não dando a mínima para a sua cara de indignação. Não sei, às vezes, qual é a dos gays com a porra da emancipação feminina. Pegamos tudo. Curvando-se sobre o carro, o Du o agradeceu pela janela aberta e despediu-se do cara com um selinho.

Sabia.

Entramos no prédio. Apresentei-o para o porteiro e pedi que deixasse avisado que ele começaria a morar comigo. “Então...”, comentei com ele, conforme nos espremíamos com o colchão dobrado no elevador já em movimento, “...aquele, lá embaixo, era o seu namorado?”. Ele me olhou, estranhando. Será que estou sendo invasiva? Eu nunca sabia o que merda eu podia comentar ou não. Mas, então, ele sorriu.

_O Ju? Não.
_Não?
_Não exatamente... – riu.

E aí eu entendi. Me divertindo com a resposta. “Hum”, disse e ajudei-o a empurrar o colchão e todas as tralhas para fora do elevador, “então quer dizer que ele é, tipo, o cara com carro?”. “É. Mais ou menos isto”, admitiu, rindo. Imprestável. Começava a gostar do Du pelo que, provavelmente, eram os motivos errados. Mas simpatizávamo-nos. Dentro do apartamento, carregamos o colchão pelo corredor e tentei não fazer barulho, ainda que soltasse um xingamento a cada tropeção que dava. Dormi de menos para estar levantando peso a esta hora, puta que pariu. O diabo do colchão insistia em escorregar as minhas mãos e eu dava com ele entre os pés. Desgraça! Com o trajeto enfim superado, ajudei-o a instalar tudo no antigo cômodo do Fer e, antes que pudéssemos terminar, a Mia abriu a porta do meu quarto. Provavelmente desperta graças à minha boca suja.  

_Te acordei? – caminhei até ela no corredor e sorriu, negando com a cabeça e me dando um beijo rápido.

Tinha as pernas descobertas, vestindo apenas uma camiseta larga e com os cabelos desarrumados. Uma das mãos sutilmente apoiada na minha cintura. O Du nos observava de longe. Levantou quando o chamei, apresentando-a brevemente. Deu alguns passos até o corredor, juntando-se a nós, e a cumprimentou à distância com um gesto do queixo. Tirou um maço do bolso de trás da calça e colocou um dos cigarros na boca, tinha os cabelos engomados demais para ser hétero àquela altura da manhã. Nos observou; a Mia estava apoiada contra o batente do meu quarto, os cabelos morenos soltos e bonitos.

_Esta é a sua namorada? – o Du dirigiu a pergunta a mim, na frente dela.

Excelente. Comecei a rir e encarei a Mia, arqueando as sobrancelhas para ela. “E aí, o que eu digo?”, perguntei, escapando da responsabilidade. E colocando-a, sem querer, numa posição constrangedora. A Mia achou graça. Balançou a cabeça, desapoiando-se da porta. E então se desculpou, pedindo licença e dizendo que precisava ir ao banheiro. “Mas, afinal...”, o Du insistiu, sem resposta, “...isto é um não?”. E ela bateu-lhe duas vezes no ombro, passando por ele. “Isto é um ‘bem que ela gostaria’”, argumentou.

Pôs-se a caminho. E ele contentou-se com a resposta, achando graça. Sobrei sozinha no corredor; o Du voltou ao quarto para arrumar as suas coisas, conforme a Mia seguia para o banheiro. Observei-a se afastar de costas e apertei então o passo, alcançando-a antes que fechasse a porta. Num impulso, a envolvi nos meus braços. E ela sorriu, achando estranho. Desvencilhou-se das minhas mãos, todavia, e riu. “O quê?”, me indagou. Mas não respondi de imediato. Olhei-a de cima a baixo, apoiada numa parede próxima à porta, enquanto ela molhava o rosto na pia. Usava uma blusa antiga minha.  

_Não, é só que... – me divertia –  ...você fica bem assim.

novembro 29, 2012

Ininterruptas

_’Nessa’?

“É”, arqueei a sobrancelha na sua direção, rindo. Terminei de descalçar os meus tênis; a Mia me observava do sofá. “Não foi para isto que você veio?”, perguntei-lhe desafiando a sua reação, direta. Abri o meu cinto, tirando-o com certa insolência. E a Mia reajeitou-se contra o encosto, quieta por um instante. Agora que a porra fica séria, você vai ficar aí parada com estes olhos castanhos. “Hein, garota?”, subi mais uma vez a voz numa inversão súbita de papéis, me divertindo e a encarando com considerável autocontrole.

Não estava bêbada, não desta vez – estava sóbria e bastante consciente. Ela sorriu, após a minha última provocação, com o “garota” que me escapara. Rindo do meu explícito interesse. Vem então, caralho. Sentia certo rancor de mim mesma por ter cancelado com a Clara – e precisava agora, numa lógica deturpada e minha, que aquele furo de merda valesse a pena. O prato já esfriara, nem dois goles na lata de cerveja. Aquele sorriso da Mia era como um passe livre. Dobrou os joelhos junto ao corpo, colocando os pés descalços sobre o assento – me olhava de volta agora, imprestável, naquele vestidinho preto. O tecido deslizou leve até a base das suas coxas. Eu a observava.

Maldita. O gosto daquela garota me contaminava os sentidos, não importa se eram meses ou apenas dias de abstinência. Eu ainda podia, contra todo bom senso, sentir a sua falta física em minha boca. E não. Não era nada que faltasse à Clara – deus, o que falta àquela garota? –, eu não a procurava nas pernas da Mia e certamente não buscava a Mia na sua pele argentina, em suas pintinhas castanhas. Eu sabia diferenciar as coisas e elas, elas eram mundos à parte. Não pensava numa quando estava com a outra. E eram todos os seus acertos irresistíveis e todo o errado da Mia – e só dela – que me faziam subir naquele sofá, naquele seu corpo; separando as suas pernas e a colocando no meu colo. Subindo o seu vestido por entre seus braços. E dali para o chão, amassado.

I’ve exposed your lies, baby. Subi as minhas mãos pelas suas cerejeiras, pelos narcisos amarelos opostos. The underneath’s no big surprise. Os meus dedos denunciavam conhecer os seus caminhos. E beijei-a. Beijei-a num ritmo diferente daquela madrugada, antes do Fer partir. Beijei-a com calma. Sem afobação, em intimidade. Beijei-a com a intensidade que o tempo e a sala, o apartamento vazios de repente me permitiam. Não foi planejado; nem significava tudo o que, talvez, o calor da minha língua e o toque das minhas mãos faziam parecer. Era inédito, apenas. Pois éramos nós que estávamos sempre nos escondendo – na sua casa, na minha –, atrás de portas e em pistas escuras. E agora não.

Ainda era sexo, ainda foi sacanagem. Minha avidez não fora menos do que no começo. Se muito, ainda aumentara. O que não antecipei, no início da noite ou naquele primeiro beijo, porém, eram todas as horas que teríamos naquela madrugada. E na manhã seguinte. O desenrolar tranqüilo para o qual eu não estava preparada. Os minutos se passaram contínuos, sem que precisássemos nos separar – fluidos e conscientes. E a porta permanecera aberta o tempo todo, destrancada. Aquela era a primeira vez que a Mia deitava comigo na minha cama. E não no quarto ao lado. Tentei manter a cabeça limpa, não pensar em nada.

Mas quando o sol começou a nascer pela janela do quarto e as nossas pálpebras já pesavam sonolentas, ininterruptamente despertas, ela encostou o seu corpo nu contra o meu e eu sabia naquele mesmo instante que estava com um problema. Pude sentir cada centímetro da sua pele, abraçada comigo, enquanto encarava o teto ainda pouco iluminado, em estado semiacordado. Estávamos sempre bêbadas demais, desmaiadas, ou com lençóis de menos, insuficientes para aproveitar momentos como aquele. Desta vez, não. Estava tudo calmo. Àquela altura, já não estávamos mais suadas e o cômodo parecia tomado pela brisa fria das seis da manhã. A Mia ajeitou o rosto no meu ombro e me olhou, também cansada.

_Por que nós não... – murmurou, estranhamente sentimental.
_Hum?!
_Por que não fizemos... isto, da outra vez?

Que pergunta, porra.

_Porque... – hesitei por um instante, consciente de que aquele não era um questionamento com todas as ramificações racionais que deveria normalmente ter; sem querer lhe responder por impulso. Dizer-lhe a verdade, oras, num azedume de certo sono. Porque você foi dormir com o Fernando aquela noite, por isto. Suspirei, revirando os olhos. Não transforme em algo que não foi. Eu acordei sozinha naquela manhã, garota, foi o que foi. Por algum motivo, entretanto, não o disse; notei os seus olhos já quase fechados sobre o meu ombro. E olhei para a esquerda, por cima do travesseiro; vi o relógio digital que marcava 6:07, em vermelho. Eu tinha que acordar dali a menos de uma hora, puxei a Mia mais para perto e a abracei, em automático, com conforto – ...nada, vem, vai. Vamos dormir.