Recuperada a consciência, levantei por fim e sentei na beira da cama, como se acordasse de uma grande dor de cabeça e com resquícios de ressaca. Isto tudo..., suspirei confusa, ...aconteceu mesmo?, olhei para a frente, intrigada pelos eventos surreais da noite anterior e pelas consequências da minha embriaguez já fora de controle. Precisava parar de beber – eu bem sabia e este era, no entanto, o tipo de promessa pela qual eu jamais moveria um palito na minha vida. Independentemente de quão freqüente eu a fizesse (e a fazia).
Respirei fundo. Olhei para o lado e vi a Clara, aconchegada sob o lençol, dormindo. As pessoas parecem inofensivas quando dormem, refleti à toa. Observei-a por algum tempo. Gostava da tranquilidade contida naquele breve espaço de tempo, logo pela manhã, em que ninguém acordara ainda e tudo continuava parado, meio que em stand by. Sempre tive mania de contemplação. Absorvia o mundo com os olhos; os meus momentos de maior calma eram estes. Olhei a Clara por alguns minutos, sentada nua contra o encosto da cama – ainda que o tempo lá fora estivesse chuvoso, frio –, a sua pele branca e as pintinhas e o cabelo moreno bagunçado sob o lençol. Estava bonita, e inofensiva.
Acariciei-a por toda a extensão do braço, escorregando as costas da minha mão lentamente até o seu rosto, e deitei ao seu lado. Ela acordou. Disse-lhe então que precisava ir, aquele seria meu primeiro dia de trabalho. A sua voz baixa murmurou que iria, portanto, também. Levantamos e fomos tomar um banho rapidamente. Talvez não tão “rapidamente”, ok, mas juntas. Há tempos eu não entrava debaixo do chuveiro acompanhada de uma garota. Este era o tipo de coisa que eu costumava fazer com namoradas; me lembrava de certa forma a Marina e os seus hábitos de signo d’água.
Às vezes, naquela época, se estava realmente calor passávamos tardes inteiras sentadas ensopadas dentro do box, no apartamento dela, conversando e rindo muito de qualquer coisa. Distraí-me por um instante, nostálgica. Logo, porém, as gotas que escorriam pela cintura da Clara e as suas mãos argentinas trataram de me trazer de volta – e muito bem – à realidade. O café-da-manhã que se seguiu foi divertido e leve, engraçado. Falamos incansáveis, enquanto os cabelos molhados pingavam sobre a roupa, sozinhas na cozinha. Antes da entrada do metrô, ela me perguntou: “você vai para lá?” e eu comuniquei que iria andando, ainda está cedo, a produtora era a duas estações dali e quase na Paulista. Dei-lhe um beijo, sincero. Demoramos; e fomos cada uma para um lado.
O dia estendeu-se leve e descomplicado, com o mesmo sentimento daquela manhã. De alguma maneira, eu estava estranhamente feliz. Com o emprego, com tudo, sei lá. As pessoas ali eram interessantes, novas – eram outras. E isto me intrigava. Conversei com quase todas, fiz bem pouco e observei muito, muito mesmo, ao longo do dia. Passou rápido. Mandei, já no meio da tarde, uma mensagem para a Marina. Genuinamente querendo vê-la. E lá estava ela me esperando frente à produtora assim que eu saí, apoiada contra o carro, atrás de seus óculos pretinhos. Tirei o gorro – destes descolados que caem, por excesso de tecido, para trás – e sorri ao vê-la ali.
_E aí? Vamos? – ela me olhou aproximar, contente.
_Aham.
Havíamos combinado de jantar, talvez no Kiichi.
_Buenas, então... – disse, entrando no carro dela, me acomodando no banco do passageiro – ...fodi de vez as coisas com a Patti lá. Tô comendo a Clara agora, e você? Alguma novidade aí?!
_Não tô mais com a Bia, terminamos – riu.
