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abril 15, 2014

Outras preocupações

_Gente... – a Vivian levantou do sofá, meio bêbada.
_Escuta – o Du a interrompeu, falando comigo, mas ela prosseguiu.
_...alguém me explica direito o que tá rolando? A mãe da Mia tá lá embaixo?!
_É... – o André se manifestou – ...quer dizer, eu acho.

E o Gui virou para explicar, perto deles, ainda em pé. Murmurou as palavras numa altura impossível de se ouvir, pelo menos não de onde eu estava. O rádio seguia ligado, berrando músicas dos anos 90. O Du se aproximou ainda mais de mim, tentando me aquietar no lugar. De toda forma que podia. Eu estava absolutamente impaciente, sentindo a minha casa relacionamento vida invadida. Quem essa mulher pensa que é? A Mia não é criança, porra, isso é ridículo. Olhei para a mesa da entrada e vi um maço ali largado – sem saber de quem era –; o apanhei. Acendi um dos cigarros. A minha mente se indignava com a situação – Qual é. Ser sapatão é “crime” agora?!

_É sério, escuta. Ninguém vai te segurar... se você quer descer, vai, faz o que quiser. Mas tô te falando: é má ideia. Mesmo que dê tudo certo com a mãe da Mia, vamos supor, vai... O que eu acho bem difícil pelo que ela tava falando aí, ok? Ainda assim... As chances são de que a Mia fique brava, meu. Não vai ser uma boa. Ela PEDIU pra você ficar.
_Du, você não tá entendendo... É PIOR se eu ficar aqui - traguei - Depois como que eu v...
_Tô tentando te explicar como vejo as coisas, porra. Hoje não é um bom dia. Vai por mim... – me cortou – A mãe é dela, meu, deixa que elas se resolvem...
_ E outra – o Gui completou –, cê não quer conversar com a velha assim, no meio da calçada e de qualquer jeito, quer?
_Mas se eu não for agora, que impressão vocês acham que ela vai ter de mim?? Eu posso ser a última pessoa que ela quer ver lá embaixo, mas te garanto que é melhor do que achar que eu sou uma rouba-filhinha-dos-outros que sequer mostra a cara, que fica aqui, nem aí, enquanto deixa a Mia se foder lá sozinha, mano! Ela precisa ver que a gente é um casal, porra, que a gente tá junta. Que eu me importo. Senão ela nunca vai entender!
_Ou... – o Du arqueou as sobrancelhas, contrariado.
_Não tem “ou”... – me angustiava aquele bla bla bla deles e nenhuma droga de ação, cacete. Queria sair logo por aquela porta!

Mas o Du insistia...

_Ou ela pode achar que é muita cara de pau você aparecer lá embaixo... Pode se irritar mais ainda. Por ver que é uma mina mesmo, manja, que cê é de carne e osso. Que é real. Ela pode se dar conta da situação...
_Quê?! Mas... ELA SABE QUAL A SITUAÇÃO!
_Você não sabe disso...
_Gata, escuta o que o Du tá falando... – o Gui pediu.
_MAS NÃO FAZ O MENOR SENTIDO O QUE ELE TÁ FALANDO!
_Faz, sim. Você lembra como foi pra mim? A briga com meu pai era uma e virou outra BEM DIFERENTE quando ele me pegou com um cara na rua... E eu já era assumido fazia dois anos, meu.
_Aff. Só que, Gui, mano... – me irritava, discordando da comparação – O seu pai é um louco! Homofóbico, agressivo de merda. A mãe da Mia é diferente, ela não vai fa...
_ELA TÁ LÁ EMBAIXO! – o Gui riu, na minha cara.
_É, meu... – o Du se metia – Como você pode ter tanta certeza que vai rolar numa boa?
_ELA JÁ ME CONHECE, MANO! Ela já me viu. Já gritou comigo. Já falou comigo no telefone, porra! Eu já tomei café da manhã na mesa dela. Ela sabe muito bem com quem a Mia tá dormindo, caralho: NÃO É NOVIDADE. Garanto.
_Bom... Eu acho que é cagada – deu com as mãos pra cima.
_Du, não é c...

De repente, abriram a porta. E a Marina entrou, apressada. Que tá acontecendo? – disparei na sua direção na mesma hora e ela segurou nas minhas mãos:

_É melhor você descer. O pai da Mia tá no carro.
_O PAI dela??
_É, meu.
_Merda – fodeu, pensei – Ele falou alguma coisa?
_Não. Mas a Mia não quis nem sair, ela tá lá perto do elevador. Só a mãe desceu, tá lá fora na calçada, mas dá pra ver o carro da entrada. Tá parado logo ali na frente... – a Marina me olhou, apreensiva.
_Que foi?
_A-a Mia começou a chorar, flor. Assim que viu ele.

“Eu vou descer”, me apressei. Droga. Desviei da minha ex, indo em direção à porta. Mil vezes droga. Essa era a pior forma para o pai da Mia descobrir. Fiquei imaginando aquele cara de cinquenta e tantos anos, conservador, de família judia, sentado no carro com a cara fechada, prestes a presenciar uma discussão bastante pública da esposa com a filha, em frente à casa da garota que ela está pegando. Não poderia ser pior. Se bem que – imprestável como eu era – conseguia pensar em duas ou três formas de agravar. Uma delas envolvia o seu quarto e umas horas livres.

Caminhei pelo corredor do meu andar com pressa. Estava aflita pela Mia. O elevador ainda estava lá, deixado pela Marina segundos antes. Desci todos os andares com a mão na parede – como se me preparasse para pular fora assim que chegássemos no térreo. Saí em disparada. E logo os meus olhos a encontraram no hall do prédio – a Mia estava num canto, próximo à porta de entrada do hall do prédio. Tinha os olhos vermelhos e envergonhados. Desgraça, odeio te ver assim. Apertei o passo, seguindo o mais rápido que podia na sua direção. E a abracei. Dei-lhe um beijo no rosto, sentindo suas mãos me apertarem.

_E-ela... – suspirou, pesada – ...estragou t-tudo, ela, ela não tinha esse direito! Eu queria contar, porra. D-do meu jeito.
_Eu sei, linda. 
_N-não era pra ele saber agora. Não assim. E-eu, eu não sei o, o que... – enfiava o rosto na minha camiseta, tinha as maçãs do rosto molhadas – ...q-que fazer, é o meu pai, caralho. Essa...
_Mia... Me escuta... Vai ficar tudo bem, o seu pai n...
_...essa VACA de merda!! Como ela pode trazer ele aqui???? – soluçava, aos prantos – Ele não vai nem olhar na minha cara, eu sei disso. Ele não vai entender. N-nunca.
_Vai, sim. O meu pai era igual, meu. Não era? Sabe, talvez só demore um pouco, mas ele vai entender... Ele te ama, Mia. E eles sempre entendem... – a abracei, mentindo; me partia o coração vê-la assim – ...todos meus amigos, as minhas amigas passaram por isso. E todos chegaram a algum nível de aceitação dos pais – ela me olhava, sem qualquer esperança; eu tentava animá-la – Escuta, ei! Alguns nos surpreendem, linda. Não é sempre um desastre, as coisas se acalmam.

A encarava e tentava sorrir, secando as lágrimas do seu rosto. “Vem comigo”, pedi com calma, “vamos falar com a sua mãe... a gente senta e conversa, eu posso ir na frente se você quiser. Vai dar tudo certo”. A Mia sequer se movia nos meus braços. Eu garantia: “O seu pai vai entender, linda...”. Mas os seus olhos receavam.

_N-não. Eu não posso ir lá fora. Você não conhece ele. Ele vai me odiar por não ter falado, por descobrir assim. 
_Não vai. Você nem sabe se ela contou ou não, vai ficar tudo bem.
_E-eu não consigo – me apertava as mãos, completamente travada no lugar –, é o m-meu pai.

abril 13, 2014

Dilemas

Entramos na sala – como se tivéssemos, as duas, acabado de cruzar com um fantasma no corredor. A Vivian estava sentada ao lado do André, num ataque de riso; o Gui em pé e a Marina com um pé no chão e o joelho da outra perna apoiado no sofá, também rindo, olhando para os dois. Falavam sobre algo que não prestei muita atenção. Que se dane. Tinha coisas mais urgentes com que me preocupar. A Marina virou a cabeça na nossa direção, nos observando entrar na sala. E franziu as sobrancelhas, ainda sorrindo:

_Que aconteceu, por que cês tão com essa cara?

Sem responder, a Mia cruzou os braços, curvando os ombros, tensa. E antes que pudesse eu mesma responder, o interfone tocou na cozinha. Entre o barulho do rádio e dos demais, que riam. Merda. Os meus olhos cruzaram com os da Mia.

_Eu vou descer. É melhor eu descer... – a Mia falou para mim, se agitando.
_O que foi? – a Marina apagou o sorriso do rosto, notando que era sério – O que é?
_Não, meu – pedi para a Mia –. É só a gente não deixar ela entrar, eu ligo pro porteiro...
_Cê tá louca?? Não. Ela só vai ficar mais brava!
_O que tá acontecendo? – a Marina se inquietou, mandando os demais ficarem quietos – Linda?!
_A mãe da Mia tá aí. Ela tá puta...
_Aqui, “aqui”? Tipo, no prédio??
_É.
_Quem tá, onde? – o Gui riu, ao longe, sem entender.

O interfone tocou mais uma vez, a Mia se afligiu ainda mais.

_Eu vou descer. Chega.
_Não. Fica aí! Eu falo com ela.
_Você não vai descer. Fora de questão. NÃO!
_Espera. Não querem que eu vá? – a Marina entrou no meio – Vocês precisam falar com ela? Como é a história?
_Não. Não tem nada pra falar! Ela não quer que a Mia fique aqui, ela quer levar ela pra casa.
_Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – o Gui aumentou o tom de voz, tentando nos interromper, sem sucesso.
_Eu acho melhor a Mia ir, linda, senão ela vai ficar mais brava. Eu posso ir junto se ela quiser – a Marina se ofereceu, me aconselhando – A gente explica o que tá acontecendo, que não tem nada para se preocupar...
_Não. Eu não quero nenhuma de vocês envolvida nessa merda – a Mia pediu –, eu já tô com vergonha o suficiente...
_Todo mundo fica aqui, ninguém vai descer. É só a gente não atender, meu! Finge que saímos!!
_Ela não vai cair nessa... – a Mia passou a mão na cabeça, atormentada.
_Foda-se. Não importa! O porteiro não pode deixar ela subir sem a minha autorização.
_Do jeito que ela é louca?? Capaz dela chamar a polícia, cê não conhece ela!
_Ela não vai fazer isso, Mia.
_Eu não duvido. Ela ficou ameaçando ligar pro meu pai, disse que ia fazer o caralho a quatro... Que eu era arrogante, que eu não tinha respeito, gratidão nenhuma.
_Mas, gente – a Marina argumentou –, de qualquer forma... O porteiro sabe que a gente tá aqui em cima.
_É, meu. Subiu o Gui... os meninos... E não faz nem uma hora que a gente desceu pra comprar mais cerveja, ele viu a gente entrar!
_Mas... – eu começava a perder a paciência.
_Vamos eu e a Mia, flor, a gente fala com ela. Vai dar tudo certo.
_Não. Eu vou descer, então, e vocês ficam aqui. A casa é minha! E a merda também... Eu não vou falar nada? Vou ficar aqui??
_O que tá acontecendo? – o Du surgiu descabelado e descamisado na sala, com cara de quem havia sido acordado por toda a discussão e caos no cômodo.
_Meu, pára! – a Mia me respondeu – Você NÃO VAI descer. Esquece. Só vai piorar as coisas!
_NÃO VAI. Eu posso falar com ela, porra. Você acha que eu nunca falei com mãe nenhuma?! Me deixa fazer isso, Mia, eu sei o que eu tô fazendo... Eu já passei por essa droga antes.
_Não, meu. NÃO.
_Mia, caralho...
_Você fica aqui e a Marina vai comigo... Eu não quero você falando com a minha mãe, ela é desregulada.
_Eu não vou ficar aqui sentada, depois essa louca te leva embora e... aí?! – os ânimos começaram a acalorar, estávamos todos bêbados ou fumados e um tanto apocalípticos – Nem a pau. NÃO.
_O que você acha que ela vai fazer?? FODA-SE ELA! Ela quer uma ceninha. É ISSO QUE ELA QUER! É uma ridícula. Eu brigo com ela todo santo dia, toda vez que vou sair, ela já tá cansada de ouvir. Eu sei como lidar com ela, deixa qu...
_Não. A GENTE precisa resolver essa merda... Nós duas. Ela não pode ficar nessas toda vez, porra. Qual é? Todo mundo é adulto aqui. A gente tem que conversar com ela, Mia...

O interfone tocou de novo, pela quarta ou quinta vez. E a Mia se estressou, saindo em disparada até a cozinha, irritada – pude ouvi-la puxá-lo da parede com tanta força que fez um estrondo, antes de atender. “Quê? (...) Não! Não é para deixar subir!”, gritou com o coitado do porteiro, que nada tinha a ver com a situação. “Não interessa! Manda ela ficar aí! (...) Não. (...) NÃO! (...) Manda ela ficar aí. Eu vou descer!”, anunciou, antes de bater o interfone de volta na parede e ressurgir no corredor, agora puta da vida. De saco cheio da história toda. Era curioso como ela se transformava quando se irritava, perdendo totalmente qualquer receio ou tensão que a fizera curvar antes. Tinha surtos de coragem, de que-se-dane-o-mundo. Os mesmos que a fizeram contar sobre nós para o Fer, para a mãe numa discussão em casa. E eu receava – que falasse demais, que surtasse com os pais – e que perdêssemos a causa, eventualmente.

_Mia – me aproximei, tocando o seu antebraço, enquanto ela vestia de qualquer jeito um shorts largado na sala – Deixa eu ir, linda... Não vai rolar nada demais, eu vou conversar numa boa com ela, meu. Você tá nervosa. Se ela quiser brigar, eu deixo ela falando sozinha, prometo. Eu não vou m...
_Não. VOCÊ FICA. Vem, Má... – se desvencilhou de mim, fechando o zíper e puxando a Marina pela mão.

Inferno. Ambas saíram pela porta, batendo-a, antes que eu pudesse abrir a boca. E eu fiquei ali, irritadíssima. Puta que pariu. Estava nervosa. Sentia a minha mão tremer, o meu coração entalar na garganta. Com tudo, com o que poderia acontecer. O Gui e o Du e o André e a Vivian me olhavam, parados na sala. Pareciam segurar o fôlego, em estado de alerta e sem entender direito o que acontecia – enquanto eu tinha vontade de destruir tudo. A porcaria da porta, o apartamento todo. Porra. Não gostava daquilo, daquela falta de controle. Daquele não saber o que diabos seria falado. Era melhor se eu tivesse descido junto. A gente precisa encarar isso que nem adulto, mostrar pra família dela que sabemos o que estamos fazendo, cacete. Que entramos nessa com consciência. Não com medo, eu caminhava de um lado pro outro, inquieta, não com o rabo entre as pernas, ficando escondidas.

_O que foi? – o Du me questionou, vendo na minha expressão que eu estava prestes a fazer merda.
_Eu preciso descer. Eu preciso estar lá, estar JUNTO com ela!
_Não, velho: faz o que elas falaram. Não é uma boa!
_Mas elas tão erradas, Du! Não é assim que a gente vai resolver essa porra – gritei e balancei a cabeça, inconformada – Não é assim, mesmo...
_Espera – ordenou, tentando me acalmar –. Só espera!
_CÊ NÃO ENTENDE, MEU?! Se a gente não falar com ela, essa desgraçada vai controlar tudo o que a Mia faz, como se fôssemos duas adolescentes, mano!!
_Se você for lá, a Mia vai ficar puta, velho. FICA AÍ!
_É, gata – o Gui se intrometeu, ainda em pé ao longe –, cê faz as coisas sem pensar e depois se arrepende...
_Vocês NÃO sabem de PORRA NENHUMA...

abril 10, 2014

Quatrohorasevinteminutos

Eu podia ouvir a voz estridente do Gui e dos demais, ao longe, pela sala ou pela cozinha. Era confuso. Afundei as minhas mãos sob o travesseiro, me aninhando no tecido macio; a tarde havia trazido algumas nuvens para o céu paulistano. O calor continuava, não obstante. Eu havia dormido, completamente desmaiada de tanta erva que fumara; a janela trazia agora um fim de tarde abafado para dentro do quarto. Uma São Paulo cada vez mais cinza.  Não sabia se era o horário ou a iminência de uma tempestade. Tomara que chova, pensei, vendo as nuvens escurecer. E logo tornei a fechar os olhos, num marasmo a que dava gosto de ceder. O corpo todo frouxo.

Ao final do corredor, a casa seguia agitada – podia escutá-los gritar e rir, a música alta, mexendo nos copos da pia. O Du tinha sumido por algum tempo, com o tal do André, horas antes e um pouco antes de eu apagar na cama. Volta e meia escutava a voz da Marina também, falando e rindo alto, na sala. A da Mia a seguia – falando algo num tom empolgado. Todos pareciam se divertir. Sem sentir a minha ausência. De repente, ouvi a porta se entreabrir e o som das conversas ao longe se tornou nítido, por um instante. Passou-se um segundo. E então ficou tudo em silêncio novamente. Sentia o ambiente escurecer junto ao tempo do lado de fora. O colchão se moveu lentamente. Eu havia entreaberto os olhos para ver o que era. Mas a brisa toda da maconha me forçava a fechá-los, quase por inércia. O Du deitou ao meu lado, de bruços. Apoiando a cabeça sobre as mãos.

_Posso ficar aqui com você? – ele murmurou.

Pode. “Que foi?”. E ele respondeu, baixinho, “não quero ir pra sala”. Ouvi o Du dizer algo mais. Não pude escutar direito o quê; um ventilador no chão soprava contínua e lentamente pelo cômodo. Forcei as minhas pálpebras a abrir. Ele tinha o cabelo bagunçado e estava sem camisa, com a cara apoiada nas mãos, olhando na minha direção. Eu esfreguei um dos antebraços sobre os meu olhos – num suspiro cansado. Toda a fumaça tragada horas antes me pesava. De um jeito confortável. Tornei a olhar para o Du, com um sorriso preguiçoso no canto da boca. “Que que cê aprontou?”, sussurrei e ele riu. “Nada”.

_Nada, né. Sei...
_Eu tava trancado no quarto. O Martin mandou mensagem, me ligou.
_E o...?
_O André tá lá na sala.
_Cê é louco, mano. Ele e o Gui ainda – eu achei graça; falávamos baixo, em segredo.
_Ele não sabe, meu. Falei que tava sozinho. Mas agora é foda, cara, não quero mais voltar pra lá...
_Fica aí um tempo...

Os meus olhos pesavam, de fato, sem querer deixar passar aquela brisa boa. Senti o Du ajeitar o corpo ao meu lado na cama e permiti que as minhas pálpebras se fechassem novamente. Podia ouvi-lo digitar algo no celular, trocava mensagens com alguém. Provavelmente o Martin. Ele ia arranjar para a própria cabeça – e o coração – desse jeito. Comecei a sentir certa fome. Droga. Nem a pau que ia me mover, ir até a cozinha. Temia que fosse uma daquelas laricas doídas, que te dobram o estômago. Mas quis voltar a dormir. Assim resolvo. O Du se moveu mais uma vez ao meu lado. E escutei a sua respiração, inquieto. Pouco depois se acalmou. E o silêncio durou alguns minutos.

_Tá acordada ainda?

Sua voz me despertou de um início de sono, desses bem lentos. Subitamente.

_Hum?!
_Tá?
_Tô.
_Eu...
_Cê tá bem?
_Eu sinto falta dele, meu...

O Du lamentou e eu me virei, só então abrindo os olhos. Ele tinha levantado os dois braços sobre o rosto, atravessados na horizontal. “Du”, cochichei com ele, “não fica assim, meu”. “É que é tão, porra, foda...”. “Mas cês já se encontraram no mundo, caralho. Vocês tão juntos, de um jeito ou de outro”, afundei o rosto no seu ombro, ainda sonolenta, “não fica triste”. “É. ‘Juntos’ naquelas, também...”. “Não. Existe um milhão de tipos de relacionamento, cara. Nenhum vale mais que o outro”. Argumentei. E assim que terminei de falar, senti a minha consciência apagar por um instante. E logo tornei a despertar, num susto. Eu dormi? Abri os olhos e o Du estava apagado do meu lado. Eu dormi mesmo?! Senti como se parte do tempo tivesse sido roubado da minha memória. Era uma sensação horrível.

O quarto já estava completamente escuro. Um daqueles ventos que antecedem chuvas se unira ao sopro do ventilador, no chão do quarto, esfriando um pouco o ambiente. Ergui os olhos e vi alguém tateando no breu. Tinha as pernas descobertas e um dos meus moletons antigos no corpo. Só podia ser uma pessoa. “Mia?”, murmurei. Que cê tá fazendo no escuro, garota? Ela seguiu a minha voz até a beirada da cama e se ajoelhou, sussurrando – “preciso falar com você”.

_Que foi?
_Vem lá fora um pouquinho comigo?
_Aconteceu alguma coisa? – me alarmei, sentindo uma fome desgraçada me apertar o estômago de repente, como um soco – Vou levantar. Espera.
_Não qu...

Antes que terminasse a frase, eu já estava sentada, com o cabelo bagunçado e certa sensação de deslocamento no tempo-e-espaço. Isso não é uma vida saudável. Me arrependia momentaneamente de ter fumado tanto. Engatinhei para fora do colchão, a fim de não acordar o Du, e saí por uma das pontas da cama. Trombei com a Mia no escuro, o seu corpo estava quentinho naquele moletom – e o meu gelado, exposta ao ventilador e à janela aberta por sabe-se lá quanto tempo, desmaiada. Fomos até a porta. E mal entramos no corredor (a luz machucou os meus olhos), pude ouvir o pessoal conversando na sala. Ainda. Que horas são? “Eu não quis te acordar”, a Mia se desculpou. E eu disse que não tinha problema, sorrindo, mas meio perdida ainda. Passei os dedos entre o cabelo, tentando amenizar o emaranhado. E notei que a Mia tinha uma expressão preocupada no rosto.

_Que foi? É coisa séria?
_Minha mãe fica ligando, ela tá insuportável. Ela quer que eu volte pra casa.

Fiquei olhando para ela. Meio chapada, sem reagir. Que casa? Demorei algum tempo para entender o que dizia.

_Eu acho que ela tá vindo pra cá.

março 28, 2014

Carneiros, veados e leões

Que porre. A Marina cantarolava Jesus and Mary Chain numa ponta do sofá; e eu observava o movimento das suas mãos no cabelo da Vivian, deitada em seu colo. Os seus dedos afundavam e percorriam os fios lentamente. E eu ali, completamente torta na poltrona. Entediada pra porra. O marasmo seguia os acontecimentos acalorados daquela manhã. And she’s crazy...,  o rádio dizia, arrastando o último “a” em sincronia com os lábios da minha ex. Numa típica e tediosa tarde de sábado. Isto é. Não fosse a superpopulação incomum daquele apartamento. A Mia se debruçava sobre a mesinha de centro, ajoelhada no chão, ao lado do peguete do Du; ambos dedicados a dichavar uma quantidade descomunal de erva.

Vocês são loucos, mano. Me estiquei atravessada na poltrona e deixei cair o pescoço para trás, observando o Du passar de ponta-cabeça.

_O Gui vem? – perguntei, ainda às avessas.

E ele acenou positivamente com uma expressão pouco interessada. Perambulava descabelado pela casa, usando uma das suas regatas clássicas. Tão rasgada que parecia um trapo. E nem aí para as visitas, óbvio. Esse cara da vez se chamava André – um publicitário de braços tatuados e voz grossa, loiro; parecia dinamarquês ou algo do gênero –; não tinha certeza do quanto ele sabia sobre o Gui. Ou sobre o Du. Não fazia ideia de como os dois se conheciam. Ele e a Mia haviam embarcado em uma conversa animada sobre astrologia já fazia meia hora. Tinha isso como hobby, pelo que entendi, naquele eu-tenho-o-sol-em-touro-e-a-lua-no-cu que o tal moleque tagarelava incessantemente. O Du sequer ouvia. Andava de um lado pro outro do cômodo, atarefado. Não sei com quê. E a TV agitava-se ao fundo, sem som, exibindo um documentário qualquer sobre natureza. Pois é – tédio.

_E ela? – a Mia o perguntou de repente, me entreolhando por um instante, sorrindo.

Eu estava em meio a um dilema interno. Entre levantar – ou não levantar – para ir pegar o meu maço no quarto. Completamente enfadada. E seguia torta na poltrona. Olhei para os dois, sem entender do que conversavam. O meu signo?, cogitei, numa suposição óbvia. A Mia o ouvia, atenta. Ele balbuciou algo incompreensível e então ergueu o queixo na minha direção, com as mãos ainda ocupadas com a maconha, e me perguntou – “que dia você nasceu?”. “Treze”. “De quê?”. “Abril”. Então a Marina, que até aí escutava tudo quieta, resmungou o horário três segundos antes de beijar a sua atual. Como você se lembra? Nem a minha mãe deve ter essa informação, pensei. A Mia ainda o encarava, fixamente. “Hum. É áries...”, ele calculou, “ascendência leonina”.

E os três me olharam com julgamentos. Quê? Todos eles, menos a Vivian – que estava deitada no colo da Marina e virada em sua direção.

_Meu, na boa – ele riu –, você deve ser um tsunami. Um trator.
_Ah, é. Certeza. Delicadeza zero, paciência nenhuma. E humildade nem pensar... – a Marina achou graça – ...essa daí é a definição de fogo no rabo.
_Cala a boca. Essas merdas não existem, mano... Isso é tudo história pra boi dormir.
_Ah, porque você não é impulsiva, né? Intensa? Egoísta? Sai falando o que pensa?
_Não. Não necessariamente...

A Mia começou a rir da minha resposta para a Marina, na mesma hora. QUÊ, MEU?! E o tal do André se aproximou do seu ouvido, confidenciando-lhe algo que eu presumi – pelos olhos dela na minha direção – ser sobre a minha pessoa ou personalidade. As pontas dos dedos da Mia despejavam pouco a pouco agora a erva já dichavada, sobre uma seda larga. Começou a bolar um, com as pupilas ainda em mim, admirada. Ela ria e comentava algo entre uma frase e outra dele, mas eu não conseguia mais ouvir do que conversavam – distante de onde estavam, ajoelhados no tapete.

_Eu tenho leão também, acho... – a Vivian ressurgiu do nada, murmurando sonolenta – ...em algum lugar.
_Eu não sei os meus – a Mia mordeu então a ponta do baseado, retirando a parte torcida da seda.
_Bom... Eu sou virginiana.
_Você eu já tinha sacado – o André piscou rapidamente para a Marina e tornou a observar a Mia, intrigado, que agora arrastava as mãos pelo tapete, engatinhando na minha direção – já você... é mais difícil.

Ela trazia o baseado entre os dedos, escapando para o meu lado. Está gigante o bagulho. Conforme ia deslizando os braços à frente do corpo, o seu cabelo castanho escorregava suavemente contra sua pele. Era insuportável ver aquela mulher de calcinha e regata na porra da minha sala. E não por a boca, não tocar. Ela se aproximou e ajoelhou em frente à poltrona, acendendo o não tão fino na minha frente. “Você vai fumar?”, falou, ainda que os seus lábios segurassem a ponta. Tragando em seguida e soltando a fumaça pouco depois. Numa nuvem branca e densa, é, cês sabem. Eu acenei para ela, em resposta. E ela tragou uma segunda vez, erguendo o corpo e apoiando-se então sobre o assento onde eu estava. Curvou-se sinuosamente sobre mim – e eu entreabri a boca. Puxei toda fumaça da sua boca para a minha e respirei, liberando-a em seguida no ar.

Foi quase um beijo. Ou a versão subversiva de um. E a Mia sorriu ao final, achando graça. Puta que pariu. Escrota do caralho, mas que porra!! Eu tinha vontade de xingar toda vez que olhava para aquela mulher. Inferno. A desgraçada tinha um magnestismo absurdo – difícil de absorver e aceitar sem me sentir uma completa idiota. E perdedora. À mercê absoluta dela. Puta merda. Os nossos olhos se demoraram um no outro por alguns milésimos – milésimos estes que ninguém mais percebeu além de nós. O André e a Marina ainda discutiam os signos.

Para a minha ex-sabe-de-tudo, as características da Mia eram muito “óbvias” e transparente. Hum – a Mia virou o rosto na direção deles ao escutar um trecho da conversa e riu, “quero ver, então!”. O desafio estava feito. Eu seguia crente que tudo aquilo não significava nada. Mas a Marina ajeitou os seus óculos pretinhos, animada para exibir as suas habilidades. Após meses de observação. “Você é Libra, não?”. “Sou”. “Essa tá fácil, não vale. A Má sabe quando foi seu aniversário!”, eu a provoquei; no último ano, não falei de outra coisa por dias. E ela rebateu: “eu ia saber de toda forma, tá?”.

_Ia nada... – eu me diverti.
_Você é de outubro?
_É. Dezenove.
_Que horas cê nasceu? – o André continuou, interessado no resultado.
_Ih. Foi de manhã. Tipo seis, seis e meia...
_Do que cês tão falando? – o Du entrou novamente na sala, agora sem a regata e com as mãos ávidas para "emprestar" o nosso baseado.
_Hum. O ascendente é escorpião, mas preciso confirmar.
_E isso é bom ou ruim? – a Mia olhou para o André e eu para o Du, que agachava ao lado dele.
_É sensacional. E um desastre também, a combinação é meio tensa.
_E o seu Du?
_O meu o quê?
_Seu signo... – respondi.
_O meu é veado, meu bem...

março 20, 2014

(2, 3) Na cama

Meus lábios aproximaram-se das linhas em sua pele. Logo atrás dos seus joelhos. Estava deitada na minha cama, esparramada sobre um travesseiro. Tinha as pernas de fora numa calcinha de temas náuticos e a regata amanhecida, mexendo no celular. “Nem tenta”, a Mia resmungou, assim que beijei suas pernas. Mas eu a ignorei. Escalando-a, pausadamente. Dos seus joelhos a uma pintinha escondida, intermediária, em uma de suas coxas. Beijo atrás de beijo – até a curva do seu quadril. Bem ali, na linha que marcava o fim de suas pernas magníficas e antecipava todo o tecido, suavemente curvado sobre seu corpo e costurado entre âncoras azul-marinhas. Encostei a boca naquele algodão desgastado e a beijei. Chegando tarde no quarto. Dez, vinte minutos depois da nossa briga, com o rabo já entre as pernas.

_Você é uma idiota – a Mia murmurou, sem virar para me ver ali.

Encostei o rosto sobre a curva das suas costas e respirei fundo – eu sei. “Me desculpa”, pedi. Com o pouco de vergonha que restava na minha cara lavada. Minutos antes tomara uma bronca da Marina na sala. Ergui os olhos, acompanhando o contorno do seu corpo, e observei o seu rosto, escondida por detrás dos seus ombros. “Não funciona assim”, ela falou, ainda desconfortável. “Não é só falar ‘desculpa’ e tudo bem...”.

_Eu sei. É só que... – murmurei, com vergonha de mim mesma, praticamente afundando a boca na sua cintura para que não escutasse as minhas palavras – ...ainda é difícil falar dela... da Clara.
_Por q-que diabos você...
_Eu tô tentando ser sincera, porra.
_E o que isso quer dizer?
_Não quer dizer nada. Não é como se eu ainda amasse ela. Eu só, sei lá... n-não esperava ouvir o nome sair da sua boca, foi muito do nada. E a gente, a gente não terminou numa boa, meu... ainda é recente e... não sei por quê, m-mas essa merda me afeta demais. Me perdoa. É uma bosta, de verdade, que eu tenha transferido isso pra você. Mesmo – concluí, encarando os seus olhos, ainda que me evitassem – Desculpa, linda.
_Por que você não quis me contar o que aconteceu hoje?
_Eu não dis...
_Disse, sim – me interrompeu –. Você disse que não queria conversar e que queria ficar sozinha.
_Tá. Mas eu ia te contar, eu só tava puta na hora. Não queria falar com ninguém...
_Não precisava ter sido grossa.
_Mano, eu já pedi desculpas – me estressei –, o que mais você quer que eu faça?
_O que era?
_O quê?
_Hoje, mais cedo. O que aconteceu?
_O... – suspirei, hesitante – ...o Fer veio aí.

Aqui? – a Mia me procurou por um instante, apenas com o canto do olho, sem dizer nada. Senti que quis disparar uma multidão de perguntas na minha direção. Mas então tornou a encarar o colchão, deitada de barriga para baixo. Me estiquei ao seu lado, com a cabeça apoiada sobre um dos meus braços, encarando o teto. O olhar da Mia tornou a me espiar. Em silêncio. Eu agora a observava de volta – fala alguma coisa. Por favor? Era justamente essa a reação que eu temia: um grande nada. Uma dúvida infinita de como reagir à notícia. À proximidade repentina do sujeito. Do Fer. Do seu ex. Receava ver nela o que ela vira em mim, minutos antes, trancada naquele banheiro. Inquietação, ao mero soar do nome. Dele. Dela. Da Clara. Do Fer. Dos nossos fantasmas. De verões e idas e vindas passados. De tantas brigas e ciúmes; expectativas frustradas, sentimentos traídos. O mesmo de sempre. Ela pôs a mão no meu rosto. Mas agora era – era? – diferente.

Senti os seus dedos acariciarem minhas bochechas e então deixarem a minha pele, num suspiro. O seu toque era morno e suave. Tornou a olhar para o travesseiro, sem enunciar qualquer resposta. “E então?”, a questionei irrequieta. “Hum?”. “Você não quer saber o que ele queria?”. “Não”, deu de ombros, como se encerrasse o assunto. Prontamente. Quis beijá-la no instante em que se negou, contendo às custas um sorriso. Que brotava – genuíno – no canto da minha boca. Era uma escolha consciente. A isenção dela. Mais abaixo, a minha mão procurava o pouco de tecido acumulado em sua cintura. Estava usando a mesma regata da madrugada anterior, amassada contra as laterais do seu corpo. O meu corpo se escondia nas mesmas vestes constrangedoras de antes.

Em meio a tudo isso, o meu celular vibrou – de repente, submerso entre os lençóis. Respirei fundo. Estava com preguiça de procurar. Meti a mão de qualquer jeito no emaranhado de tecido entre a Mia e eu. E assim que o encontrei, ele vibrou novamente. Vi no visor – eram duas mensagens do Fer. Com certa hesitação, as abri. “Ñ fui aí pra brigar mas pqp, c é FODA. fdp porra!!”, me xingava a primeira. E segundos depois, às 13:16, a segunda dizia: “saí cuma mina ontem e ela quis ir no mis, ver a parada lá do bowie. Lembrei de vc... foi isso”. Agora que não entendi porra nenhuma mesmo. Fiquei olhando para o celular, incerta do que diabos responder. Então o telefone vibrou, pela terceira vez.

“Mas isso ñ qr dizer nd”, concluiu.

Ótimo. O Fernando tinha sido picado por uma mosquito lésbica. Essa era a única explicação que vinha na minha cabeça para aquela sequencia nonsense de mensagens. Metido em todo um drama emocional e levemente esquizofrênico – muito sapatão da sua parte. Deixei o celular de lado, numa decisão precavida. E afundei o meu rosto na curva do pescoço da Mia por um instante, entre o ombro e os seus fios, colocados atrás da orelha. Estar em meio às suas madeixas castanhas me fazia sentir isolada do mundo, me tranquilizava. Não estava em condições de pensar mais nada – argh. A cota do dia já havia se esgotado.

Após alguns segundos me deitei novamente, agora de lado e virada para a Mia, a admirando. Ela riu – “pára!”. “Quê?”. “De me olhar assim”. “Não pode?”. “Você é besta, velho”, se divertiu. E eu dei de ombros, não tô nem aí. Ela achou graça. E deitou a cabeça no travesseiro, igualmente. “Não sei por que te dou bola...”. “Você me ama”. “Hum?”. “Por isso”. “Eu não di...”, interrompeu-se, fixando os olhos por um instante no vazio, à procura de memórias bagunçadas pelo álcool, “...e-eu disse?”. Comecei a rir. E ela imediatamente enrubesceu, ao se recordar, enfiando o rosto na fronha envergonhada.

_Arrependida?
_Não... – murmurou, me espiando detrás do buraco que praticamente cavara no travesseiro – ...é só, não sei, diferente agora. Sóbria.
_Diferente?
_É. Real.
_Tenho certeza... – me movi em sua direção, me amassando carinhosamente contra seu corpo – ...que você já disse que amava um milhão de pessoas antes de mim.

Ela sorriu.

_Tá. Mas nenhuma delas era menina...

março 05, 2014

Tato

“Eu nã...“, a minha cabeça pendia sobre a pia, os braços esticados na lateral. A minha respiração acelerou, sobrepondo-se ao restante da frase. Vai embora. MERDA. Não podia ignorá-la, pensei, com as mãos na porcelana fria. “Abre aqui” – a sua voz falava, constrangida, do outro lado da porta. Podia imaginá-la com a testa suavemente encostada na madeira, em pé no corredor. As pernas de fora em uma das minhas camisetas. Mas – argh, não. “Deixa eu falar com você, meu...”, a Mia insistia, murmurando, trancada do lado de fora.

Inferno. Estiquei a mão e virei a chave.

Ainda que não quisesse – e não queria – ter aquela conversa. Mas dane-se. A porta abriu-se cuidadosamente, apenas uma fresta. E os olhos da Mia encontraram os meus inquietos, no reflexo do espelho. Ela sabia que tinha algo de errado. E hesitava. Sem entrar ou abrir mais a porta. Encostou a lateral do rosto no batente e me perguntou – “o que acontece, hum?”. Falando baixinho. Ainda me olhando pelo reflexo. Tinha medo de lhe falar que era o Fer, que ele tinha estado ali. Desencostei as minhas mãos da pia, dando alguns passos para trás. “Desculpa se te acordei”, me limitei a responder, cruzando os braços. E apoiei na parede atrás de mim.

_Não tem problema. Eu já tinha levantado...
_Hum.
_Onde você tava?
_Eu não quero conversar, Mia.

Ela empurrou o que restava da porta, deslizando para dentro, e a encostou atrás de si. “A gente não precisa falar”, disse carinhosamente, fechando-nos sozinhas no banheiro. E sorriu. Usava a mesma regata da noite anterior, de algodão, preta, agora amassada contra as suas curvas; e uma calcinha antiga, dessas com as laterais mais largas, num vermelho desgastado. Estampada com mini-âncoras azul-marinhas. Apoiou uma das mãos sobre a pia. E ficou ali, me observando. Tinha os pés descalços contra o ladrilho e os cabelos bagunçados, estava uma graça.

_Na boa, cê não precisa ficar aqui...
_Eu não tenho nada melhor para fazer... – ela sorriu e subiu o corpo, sentando-se na pia.

Olhei-a, com as agora pernas soltas no ar, e achei graça por um instante.

_Desce daí, vai.
_Por que? – me encarou, como de brincadeira.
_Cê vai quebrar essa parada...

Ahm, ela riu. “Quer dizer que...”, me provocou ao descer, se aproximando deliberadamente de mim, “...sou grande demais para sentar ali?”. Apoiou então as mãos sobre os meus ombros. Indignada. E eu ri. “Provavelmente”. Encostou o seu corpo no meu e a olhei de cima a baixo – “com esse tanto de coxa e bunda aí” –, completei. Agora imprestável. Continuava todavia com os braços cruzados, observando-a. “É?”, ela sorriu. E deslizou os lábios pelo meu maxilar até beirar a minha orelha, “achei que você gostava”. Falei o contrário, por acaso, garota? Os seus dentes pressionaram a pontinha da minha orelha, me fazendo arrepiar. 

Porra. Agora? Senti o quadril da Mia encaixar-se no meu. E as suas mãos me percorrerem a cintura, “me conta o que aconteceu, vai”. Era tentador. Mas me desvencilhei, ainda sentindo o meu coração acelerado desde a calçada da Frei.

_Não. Me deixa um pouco – pedi –, quero ficar sozinha...
_Espera. Você tá falando sério?! – ela não gostou.
_Tô, ué. Por que?
_Nossa... – deu de ombros, de repente ofendida – Achei que fosse uma besteira qualquer.
_Mas, meu... É-é besteira.
_Sei – cruzou os braços – Isso tem a ver com a Clara?

QUÊ?

_Com a CLARA?! – levantei a voz, sem entender.
_Foi uma pergunta.
_Não, meu. DE ONDE CÊ TIROU ISSO??
_Sei lá! VOCÊ me explica por que tá me afastando, por que não quer falar...
_Ok: Mia, não – resmunguei –, não tem a ver com a porra da Clara.
_Por que você está sendo grossa??
_Eu tô sendo grossa?! – me irritei – Por que você tá trazendo ela pro meio dessa merda, meu? Eu não troco uma palavra com a Clara desde o meu aniversário, caralho! Já faz meses.
_Ótimo! Era só responder a pergunta.
_A Clara... – eu ri, murmurando comigo mesma.
_Que foi? Algum problema?
_Não...

Arqueei as sobrancelhas, sendo irônica. E ela me encarou. “Você é tão insegura assim?”, comentei, com certa amargura. Mas me arrependi na mesma hora. Bosta. Mal tive tempo de erguer os olhos na sua direção, para me desculpar, e a Mia me mandou à merda. Em alto e bom som.

Seguindo o estrondo da porta.