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agosto 13, 2014

Algumas horas dela

Na manhã do domingo, fui acordada pelo som da campainha e por uma dor filha da puta que martelava na minha cabeça. Nada agradável. Tinha metade do meu corpo para fora do sofá, enquanto a outra parte parecia escalar as almofadas desajeitadamente, vestida nas roupas da noite anterior. Me esforcei para abrir os olhos e chequei que horas eram no celular. 15:39. O visor indicava uma mensagem não lida – do Fer –, ainda no meu antigo celular. Tínhamos ficado na rua até sete da manhã, eu estava acabada. Depois, em um grupo de cinco ou seis pessoas, entramos ainda numa padaria nos arredores da República, bêbados, para comer alguma coisa.

Ou seja, cheguei em casa às oito. Vomitei todo o pastel embebido em óleo que comi, junto com os litros de cerveja e catuaba da madrugada anterior, e dormi no sofá no meio do processo de bolar um para aliviar o meu estomago. Porque, sim, sou muito saudável. Horas depois, sentia agora as minhas entranhas se contorcendo em ressaca, completamente vazias. Abri a mensagem do Fer e bati o olho rapidamente, antes de realmente ler. As letras estavam embaralhadas o suficiente para presumir que ele ainda estava alcoolizado quando digitou aquilo, provavelmente em algum lugar ali no Centro, na casa do Beto, onde disse que ia dormir para não ter que ir até Santo Amaro. Decodificado, o SMS dizia: “feliz pra caralho de ter te visto hoje, sua imbecil”. Mal sorri, ao ler, e a campainha tocou de novo. Ah, é. Torci mentalmente para que o Du estivesse em casa para que eu não precisasse me levantar.

_ABRE AÍ, CARALHO!! TÔ METENDO! – ouvi ele gritar do outro lado do corredor, de dentro do seu quarto, já irritado com a minha demora.

Argh. Fino.

Levantei numa puta má vontade. Com o cabelo emaranhado e as calças abertas, a blusa amarrotada. E me arrastei até a porta, rogando uma praga vingativa para que a foda dele fosse ruim. Desgraçado. Abri a porta. E ali parada, acordada e disposta, estava a Mia. Com um pacote na mão e olheiras bem menores que as minhas, vestida num shorts jeans e regata preta como quem – diferente de mim – já tinha tomado banho e se recomposto desde a noite anterior. Me vendo naquele estado lamentável normalmente ela teria gargalhado, mas acho que se sentia culpada. Cruzei os braços, apoiada contra o batente. “E aí...”, murmurei, com sono. Ela sorriu. “Oi”, respondeu baixinho, ainda no corredor; eu não me movi. Havia um silêncio um tanto constrangedor – algo como um “sabemos que fizemos merda” admitido não-verbalmente –, ela fechou então os olhos e apoiou a cabeça contra o meu peito. Achei que se arrependia. “Você é uma imbecil”, disse, para minha surpresa.

_Meu, é a segunda vez que eu ouço isso hoje... E eu mal levantei! – comentei, rindo.

E ela passou os braços ao redor da minha cintura, me abraçando carinhosamente. “Quem disse primeiro?”, perguntou.

_Então. Bizarramente, foi o Fer...
_Vocês discutiram de novo? – ergueu o queixo para me olhar, apoiando-o na minha camiseta.
_Não. A gente saiu ontem.
_Mas... Como isso? Assim de boa?

Acenei com a cabeça, “é, meu...”. Ela me observava, surpresa, com seus olhos castanhos. “Que foi?“. “Isso é incrível!”, ela sorriu. Sim. Eu suponho... – não tinha realmente parado para pensar até então no que aquilo significava. A Mia me apertou extasiada, me beijando a blusa, o pescoço, em beijos curtos, breves. Mais animada do que eu, que ainda sentia o meu estomago revirar todas as más decisões daquela praça imunda na República. “Estava com saudades”, me disse então. E eu estranhei.

_Mas você me viu ontem...

“Ontem não contou”, afundou mais uma vez a cabeça no meu peito, “foi uma merda”. Eu ri. Tem razão. Ela apertou os braços ao meu redor e ouvi o saco em sua mão fazer barulho.

_O que cê trouxe aí?
_Ah... – ela se desencostou do meu corpo para poder abri-lo, ainda na minha frente – ...eu te trouxe uns sanduíches lá de casa. Minha mãe comprou um presunto desses italianos.
_Ahm. Uns sanduíches? – achei graça.
_É. E maconha, sei lá, eu não sabia direito o que trazer...
_Não precisava trazer nada, linda. Eu tô cheia de erva aí!
_Tá. Mas é que... – colocou a cabeça mais uma vez no meu colo, agora sim soando arrependida – ...eu não quero mais brigar.

Eu comecei a rir. “Então você me traz comida e maconha?”. “É”. Ergui o seu rosto com as mãos, lhe dando um beijo, ainda rindo. E ela me abraçou mais uma vez. “Vem, entra...”, a convidei, me divertindo. De alguma forma, aquilo realmente me encheu o coração. Maldita. Sentamos na sala para comer e espalhamos migalhas por todo o sofá. A Mia bolou um, tagarelando sobre um artigo que tinha lido sobre os últimos dias do Lou Reed. Eu ainda estava cheia de presunto italiano. Fiquei só ouvindo. Depois de fumarmos, eu cogitava entrar no banho para depois darmos uma volta, quando escutei a porta do quarto do Du abrir. Ele passou pelado pelo corredor e cumprimentou a Mia de longe. Perguntou se íamos usar o banheiro, porque ia entrar no chuveiro assim que tomasse um gole d’água. Nós duas nos olhamos. Respondi que não. Esperamos ele entrar na cozinha e pulamos o sofá, correndo em direção ao banheiro, e nos trancamos ali. Vingança, meu caro amigo. Quando ligamos o chuveiro, ele já estava batendo na porta. Puto.

Tomei banho, ignorando. A Mia ficou me olhando de fora do box, sentada sobre a privada fechada. Estranhamente em silêncio. Com os joelhos abraçados contra o corpo. Quando eu já estava quase terminando, ela se despiu sem dizer uma palavra e entrou no chuveiro comigo. Ah, garota. Transamos demoradamente – irritando o Du, que a cada cinco minutos esmurrava a porta, de mau-humor por causa do seu pinto sujo. Não tô nem aí. Quando enfim saímos, a Mia enrolada na minha toalha e eu pelada, molhando todo o apartamento, ouvi ele me xingar do quarto. E vi o André passar rindo. A Mia escolheu um shorts bem caminhoneiro para mim e emprestou uma das minhas calcinhas. Já devidamente vestidas, me convenceu a pegar uma dessas bicicletas do Itaú e ir até a Praça do Pôr-do-Sol fumar.

Não precisei de nem dez minutos para me arrepender da decisão. Sedentarismo way of life. Eu tava morrendo antes de chegar na metade do caminho, é claro. A Mia se divertia com a minha indisposição. E me apressava, dizendo que o sol ia logo se pôr.  Foi um parto. Quando chegamos, a praça estava quase vazia e a vista espetacular. Acendemos o resto do que ela bolara mais cedo e conversamos sobre pedaços do corpo que nascem fora do lugar. Como dentes e dedos, é. Num papo muito estranho, brisado, que me fez contorcer de nojo e rir simultaneamente das coisas que ela dizia. A Mia me mostrou então como mexer propriamente no meu novo celular – e me chamou de imbecil mais algumas vezes no dia por tê-lo comprado. Me beijava sempre em seguida, o que não era tão ruim. Ali, tiramos a primeira foto decente que eu já fiz na minha vida com um celular: a Mia levantou a blusa quando estávamos sentadas numa área mais afastada, mostrando rapidamente os peitos e a tatuagem, com o baseado aceso na boca; ficou genial

Mas ela se recusou a me ensinar como colocar de papel de parede no telefone.

agosto 04, 2014

Vudu

_O que cê ia contar no telefone, hoje mais cedo?
_Ah. Nada... – eu ri, sem dar muita atenção ao assunto.

Bêbada. O Fernando abaixou a cabeça, ainda sentado ao meu lado. E ficou quieto. Ergueu então o copo de catuaba, matando o que restava ali dentro num gole breve. Parecia tenso. Tinha as mangas da camiseta branca arregaçadas no topo dos braços. Colocou um pouco mais da garrafa no copo. O gelo agora estava pela metade e o limão mal parecia fazer efeito. “Fala aí...”, murmurou sem me olhar diretamente, insistindo. Respirou fundo. E só então eu percebi o quanto ele tinha medo do que saía da minha boca.

“N-não era nada...”, respondi, olhando para ele.

O Fer tomou mais um gole, diretamente da garrafa – como se esquecesse do copo que acabara de encher. O que você acha? Que eu ia falar da Mia?, pensei. A minha cabeça rodava violentamente com todas as cervejas, as cubas que eu metera para dentro aquela noite. É melhor eu contar de uma vez do que deixar ele deduzir sozinho, refleti. Tornei a colocar o cigarro na boca. Sabe-se-lá o que isso seria, não é... E então, como quem faz pouco caso, falei:

_É bem idiota... – observei os meus próprios pés sobre o chão imundo da praça, entre uma tragada e outra – ...é só que, sei lá, faz uns meses que eu não falo com a Clara. D-desde que eu fiz merda e tal.
_...
_Enfim. E aí hoje, sei lá por que diabos, porque eu sou uma imbecil provavelmente, não sei o que me deu na cabeça e eu mandei uma mensagem pra ela.
_Claro que mandou... – ele riu, aliviado.  

Eu olhei por cima do meu ombro, para ele. E sorri:

_É muita prepotência ou o quê?
_Um pouco.
_Mas falando sério agora... – brinquei – Quais as chances dela ter um altar na casa dela com a minha foto?

O Fer gargalhou. E então balançou a cabeça.

_Uma boneca com o seu nome... – sugeriu.
_Com uns alfinetes, só se for, né?
_É...
_E eu ainda vou lá e me acho no direito de incomodar a cidadã, juro. Eu. Eu! Porque, afinal, sou mesmo inesquecível e ela é obrigada a engolir, né.
_Coitada. Ela provavelmente tá somando todos os números cabalísticos das letras da sua mensagem. Para jogar praga no chão que você pisa.
_Verdade. É melhor evitar passar debaixo de objetos pesados essa semana.
_Lustres, andaimes...
_Vou até fechar a saída de gás – eu ri.
_Come só frio por um tempo... – o Fer levou o gargalo da Selvagem mais uma vez à boca e quando comentei que ia subsistir de salame e cerveja pelos próximos dias, ele cuspiu metade do gole fora, rindo – ...bom, não mudou muita coisa.

“Né. Tiro de letra”, completei, fazendo graça. Nos divertíamos. E como toda entornada de lata que se aproveita vem, inegavelmente, seguida por uma dor de cabeça daquelas, a do Fernando logo virou a esquina. Caminhando puta da vida na nossa direção, com pernas morenas e peita do Skatalites. “Vixi...”, ele tomou outro gole, ainda rindo. E ficou em pé, pronto para a bronca. Lá vem. Resolvi que era melhor continuar sentada para não parecer que pulamos assustados juntos, como fizéssemos algo de errado.

_O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?? – a garota chegou já na voadora.
_Calma, Jô, a gente tá só conversando. Ela é minha amiga.
_E VOCÊ ME LARGA SOZINHA LÁ TRÁS???
_Você tá bêbada, meu... – ele deu mais um gole, indisposto àquilo, já querendo virar as costas.
_VOCÊ NÃO?? – ela o puxou de volta, quase derrubando a garrafa da sua mão e obrigando-o a se virar – HEIN? AGORA É MOTIVO PARA VIR AQUI E FALAR COM OUTRA??
_NÃO, PORRA, não é isso... mas... MAS QUE MERDA! – ele se irritou e eu fiz uma careta involuntária, temendo o barraco dos dois ali no meio da praça – SÓ NÃO VOU DISCUTIR COM VOCÊ ASSIM. QUAL É, CACETE?? NÃO TÔ FAZENDO BOSTA NENHUMA!
_É! SÓ QUE EU TÔ LÁ, COM OS SEUS AMIGOS!!! ENQUANTO VOCÊ FICA AQUI DE PAPINHO... PRA QUÊ CÊ ME TRAZ, ENTÃO??
_Mano...

O Fer fez mais uma vez como quem vai se virar. E eu me intrometi:

_Amiga, deixa eu te falar... – ergui a sobrancelha, rindo – eu curto buceta, beleza?
_Por que você tá falando comigo? – olhou para mim e então para ele, surtando – POR QUE ESSA MINA TÁ FALANDO COMIGO??
_Jô... – o Fer achou graça também, ainda na brisa da nossa conversa anterior.
_VOCÊ É MESMO UM IDIOTA. OS DOIS. ESPERO QUE SE DIVIRTAM!!

Deu as costas, pê da vida, sem mais nem menos. O Fernando abriu os braços, sem entender porra nenhuma, confuso – “MAS O QUE EU FIZ??”, gritou, ainda em pé no meio da praça. Ela já estava a metros da gente àquela altura, furiosa. Ele se virou, então, e me olhou, procurando por qualquer apoio moral. Eu gargalhava em cima da muretinha. “Eu não sei o que eu fiz, meu...”, murmurou, rindo também. E se sentou mais uma vez do meu lado, com a catuaba em mãos.

_Ô! Vou te convidar para comer uns salames lá em casa... – brinquei.
_É bom. Só por precaução.

julho 31, 2014

It's baba boom time!

A meu ver, existiam duas opções. Ou a Clara ia mandar eu me foder assim que visse a mensagem; ou ia apagar logo de cara e me ignorar. Passados os vinte minutos iniciais desde que o meu sentimento de autopreservação cometera suicídio telefônico, presumi que seria mesmo a segunda opção. Ou existe uma terceira? Um cara interrompeu os meus pensamentos, pedindo para passar por mim no corredor do metrô. Dei licença a ele com certa má vontade – tem espaço suficiente para nós dois, babaca espaçoso – e me acomodei contra uma das barras de metal. Estava ficando tarde já.

Desci na República e caminhei sozinha em direção a uma das praças próximas, onde ficava o bar. Estava escuro na rua. Um tanto frio também, o que me fez arrepender de não ter trazido uma jaqueta. Preciso beber, planejei mentalmente, olhando por cima do meu ombro para um cara que me seguia. Para o meu alívio, logo cheguei à praça. E o lugar estava lotado. Era um desses rolês de rocksteady lotados de caras mods tatuados, do tipo que te faz pensar em pin-ups modernas e carros antigos. Fiquei na dúvida se ligava para o Fer, avisando que estava ali, ou se isso seria estranho. Não tinha certeza do quanto ele realmente estava ok com a minha presença no bar – e não queria abusar das circunstâncias. Fui tomada por uma leve ansiedade, nervosa. Entrei na multidão que se aglomerava na praça, desviando das pessoas e passando entre as rodinhas de conversa. Alguém ali fumava maconha. Mais de uma vez senti o cheiro, mas sem ver de onde vinha.

Quando o avistei. O Fer estava com o seu “uniforme” – jeans e camiseta branca –, as tatuagens à mostra e nitidamente bêbado. Tinha o braço ao redor de uma garota que eu não conhecia. Era bonita, devia ter a minha altura e a idade da Mia, talvez. Os lábios cheios. Parecia vir de uma mistura incomum entre nordestina e latina, não sei bem explicar. Usava um camisetão do Skatalites cortado nas laterais, com um sutiã preto por baixo, e shorts. E exibia uma rosa old school tatuada na lateral do pescoço, o cabelo moreno jogado por cima do outro ombro; incontáveis traços desciam pelos seus braços. Os dois se encaixavam perfeitamente na multidão.  

Ao lado deles estava o Tchiello – um amigo em comum entre o Fer e eu, que eu não via desde a época em que saía com a Patti... para se ter uma ideia, não é –, a ex namorada dele e um outro cara que eu não conhecia. Imaginei se os dois ainda se pegavam. O Tchiello e a ex. Aparentemente sim. O Fer foi quem me viu primeiro. E não se moveu – eu que fui até o grupo; tirando um cigarro do maço para ocupar as minhas mãos inquietas. O acendi. E cumprimentei todos só com a cabeça, à distância. O Tchiello imediatamente lançou um olhar de estranhamento para o Fer, praticamente checando se ele estava de boa com aquilo. Comigo, isto é. E o Fer balançou a cabeça, tranquilo. Me senti desconfortável.

Provavelmente sem entender a situação, o terceiro cara da roda se adiantou e apresentou a si mesmo. Chamava-se Beto e era um dos organizadores da festa, dono de uma coleção imensa de vinis. Disse que tinha discotecado no começo. O Fer fez um movimento então para apresentar a garota ao seu lado – sem muitos detalhes “essa é a Joanna”, disse apenas. E eu fiz um esforço tremendo para não mover um milímetro sequer da minha atenção ou olhar na sua direção. “Prazer”, respondi. Um tanto seca.

_Vocês se conhecem de onde? – a mina fez cara de poucos amigos, em resposta.
_A gente se conhece faz tempo...
_É. Faz onze, doze anos... – completei.

Ela pareceu descontente. Agia como a maioria das minas agem perto do Fer e de mim: como se eu fosse uma ameaça. Amiga, deixa eu te contar: o meu negócio é outro. Não que importasse muito dizer. Por algum motivo toda hétero que o Fernando trazia para sua vida suspeitava que, mesmo eu sendo sapata de carteirinha, na calada da noite, fosse para economizar água no banho ou esquentar a cama alheia, eu e ele transávamos. Era a suposição padrão. Eu já estava acostumada. Até a Mia – meses depois de me conhecer, aos risos – admitiu ter ciúmes de mim no começo. Para cê ver, né. A homossexualidade não era cogitada nem quando eu literalmente estava comendo elas com os olhos.

Heteronormatividade cega mesmo as pessoas. E a daquela menina não custou muito a me cansar. Não que ela fosse escrota – muito pelo contrário –, era super gente fina. Parecia realmente interessante. O tipo de mina de quem eu seria amiga normalmente. Mas fez questão de me tratar com indiferença a noite inteira. Ficou cercando o Fernando como se eu fosse a última palha entre a sua insegurança e o fogo no rabo alheio. Mal trocou uma palavra comigo nas horas seguintes e ele também não – o que consequentemente me forçou a fazer amizade com o Beto. Que se foda, pensei. Juntos, fizemos umas trinta viagens da calçada até o bar, abarrotado de gente, para pegar bebida. Em pouco tempo eu já tinha me esquecido do frio. Fumei um baseado com uns caras que não conhecia, amigos dele, e fiquei completamente chapada – a partir daí ri de toda e qualquer coisa que saía da boca do Beto. 

De tempos em tempos, checava o meu celular. Os dois. Sem resposta da Clara ou sinal da Mia.

_Posso sentar aí? – o Fer me perguntou.

Eu estava agachada em cima duma muretinha baixa de ferro àquela altura, dessas que ficam ao redor das áreas com grama na praça, fugindo um pouco do caos, quando o Fernando se aproximou. Acenei com a cabeça e ele se sentou ao meu lado. Segurava uma garrafa de catuaba aberta nas mãos, do tipo que se compra de ambulantes na rua. Deixou-a no chão entre as suas pernas. E pediu um trago do meu cigarro. Quando o devolveu, segundos depois, murmurou um “e aí?” de cabeça baixa, antes de soltar a fumaça. Eu estava muito louca – então não respondi. Ele subiu os olhos, observando os meus, vermelhos, e achou graça.

_Tá boa a festa, então? – ironizou.
_Ô...
_Cê tem mais aí com você?
_Mais o q-quê? – perguntei, sem entender.
_Erva – ele riu.
_Não. Nem era minha, f-foi... – tentei apontar, me orientando, mas a minha cabeça estava confusa – ...ah. Uns caras aí. N-na, na frente ali do bar, não sei onde foram parar agora.
_Deixa pra lá – o Fer pegou a garrafa pelo pescoço e me ofereceu – Quer?

Neguei com a cabeça. Muito sensata. A verdade é que eu precisava de uns minutos antes de meter qualquer outra coisa no meu corpo ou eu ia começar a perder de vez o controle. Já tinha arregaçado as mangas da camiseta de calor. Coisa que, sóbria, eu não faria. Olhei para aquela catuaba Selvagem e achei desperdício bebê-la assim. Apesar das objeções do Fer, me levantei e fui até o bar num pulo só, onde fizera amizade com um dos atendentes. Trafiquei então um copo plástico com açúcar, limão e gelo. Voltei orgulhosa do meu feito. E entreguei para o Fernando beber com a sua catuaba. Talvez num esforço meio exagerado de agradá-lo, eu admito. Ele aceitou e riu. Encheu o copo, me dando primeiro para experimentar. Tomei só um gole – e estava bom. Já devia ser mais de meia noite, alguém colocou Jamaicans para tocar na mesa de vinis.

_A gente quase não se falou no fim das contas... – comentei.
_É. É que a Jô é meio...
_É... – eu ri.

O Fer passou a mão na nuca. Sem olhar diretamente para mim, de cabeça baixa. E mrmurou: “o que cê achou dela, afinal?”.

_Uma merda – eu respondi.
_O quê?!??
_Desculpa – ele subiu os olhos até mim, rindo, e eu comecei a rir também –, mas achei uma merda mesmo. Numa boa... Eu detestei.
_Caralho, meu...

Ele gargalhou, indignado com a minha honestidade. Tomou ar e completou então – “bom... menos mal assim” –, antes de dar mais um gole. Como se aquilo colocasse o seu novo relacionamento fora de risco. Da minha zona de risco, isto é. Balancei a cabeça, achando graça na sua observação. E tornei a tragar. Os olhos do Fer seguiram a minha mão por um instante. E num segundo senti que ele queria me perguntar da Mia. Mas não o fez. Encarou as próprias mãos, ao invés, e levou o copo mais uma vez à boca.

julho 29, 2014

Pulando três casas

“Mudei de num...”. Não. Apaga. “Tô com um número novo e...”. Não, não. Apaga de novo. “Sei que não faz diferença, mas mud...”. Argh. Deleta tudo. “E aí? Faz tempo que a g...”. Não. “Não sei como...”. Não, não. “Vou mudar de número e senti que devia...“. Não. “Bo...”. Não. “Clá...”. Não. “Clara...”. Não. “Oi. Só queria avis...”. Não. “Essa é uma msg coletiva: se vc tá recebendo isso, é pq...”. Não mesmo. Tá, vai. Abordagem honesta: “meu, to 5 min aqui decidindo se te mando isso ou não...“. Affe. Não, não. Tosco, apaga. “Ei. Meu numero novo é...”.

Revirei os olhos e afundei a cabeça na mesa da cozinha, irritada. Por que isso é tão difícil?

Que se dane. Peguei mais uma vez o celular na mão, agora determinada. E escrevi: “Vc provavelmente ñ quer saber... mas mudei de número, Clá, e seria estranho ñ te avisar =/”. Fique olhando para a tela por alguns segundos. Parada, covarde. Só vai logo, caralho. A Mia estava lá, metida na sua cruzada de retaliação pela Sapatolândia. Em pleno sábado à noite. E eu ali – não era como se estivesse fazendo qualquer coisa errada. Foda-se. Incluí o meu novo contato e coloquei o dedo sobre o “Enviar” – como quem tira um band-aid –, sem pensar direito.

Mas... Que porra eu tô fazendo? O arrependimento se seguiu em menos de um milésimo. E senti o celular contra os meus dedos, impossibilitada de fazer qualquer coisa àquela altura. Ótimo. Faz meses que tô sumida, ela me odeia. E de repente eu surjo com essa bosta de SMS aleatório sobre o meu número? Cai na real. Ela não tá nem aí, porra. Só imaginar a cara da Clara ao abrir aquela mensagem me fazia – argh. Não. (E por algum motivo eu a imaginava sentada na beirada da sua cama, semi-vestida e atrasada para uma festa qualquer, em meio ao seu quarto de panos pregados nas paredes, quando checava o celular e acidentalmente se deparava comigo ali). Por que eu fui incomodar? Tornei a acender a tela do telefone e observei – aquela porcaria tinha mesmo sido enviada. Merda.

_Fala.
_Quer ouvir uma coisa muito idiota que eu acabei de fazer?

Liguei então para a única pessoa no mundo que – estranhamente – não me recriminaria. Pelo contrário. E desta vez não era a Marina. Ela havia se tornado amiga da Mia, do tipo que me trocava agora nas tardes de domingo para cozinhar muffins de fubá e banana com ela, e se ouvisse eu dizer que mandei uma mensagem para a Clara a aquela altura do campeonato do nosso relacionamento provavelmente me esquentaria a orelha por uns bons vinte minutos. Não importa a irrelevância do ato. Não. Não era a Marina. Eu ouvi ele rir. Havia ruído ao fundo e o Fer soava levemente bêbado. “Provavelmente não”, respondeu.

_Onde cê tá? Na Augusta?
_Não. Tô num rolê na República... – respirou – Eu vi sua mensagem, mais cedo.

Hesitou, antes de resmungar.

_E?

“Cola aí”, falou, meio a contragosto. Sorri. Assim que desligou, empurrei para trás a cadeira e fui até o quarto trocar de camiseta. Voltei para a cozinha, peguei as minhas chaves e saí prontamente. Subi a Augusta toda me segurando para não ir pela Haddock – ver onde diabos estavam as mãos da Mia – e entrei no metrô de cabeça baixa, com o fone nos ouvidos, pegando o túnel que ia até a estação ao lado. Embarquei em direção ao centro. A República não era longe.

julho 18, 2014

ABC

_Eu não sei por que eu vim. Devia ter ficado em casa...
_Vai lá. AINDA DÁ TEMPO! – a Mia revirou os olhos, de saco cheio, argh.

De mim, do meu surto desproporcional de ciúmes. Os ânimos tinham saído completamente do nosso controle, em meio segundo. Para. Volta. Olhei para os seus braços cruzados, para a forma como o seu corpo todo parecia evitar o meu. E me senti estranha – cacete, não era isso. O que eu tô fazendo? Os pés da Mia estavam instáveis, meio bêbada naquela calçada. A olhei na minha frente e tornei a sentir uma raiva irracional, dessas que te reviram o estomago silenciosamente, só de pensar nela se metendo com uma moderninha qualquer da Augusta pelas minhas costas. Deixando a garota chegar perto dela. A verdade é que a menina me lembrava bem demais a mim mesma. Desgraçada. Com o seu jeito de quem não dá a mínima, cara de cachorrona. Seria muita pretensão querer ser a única? Como se eu pudesse preencher toda a cota de sapatas na vida da Mia. Sim. Era muita pretensão. E eu não sabia por que me sentia tão ofendida, tão puta de vê-la ali, bebendo com outra no Bambu. No meu território. Era isso. A Mia nunca pertenceu a nenhum daqueles bares caminhoneiros da Augusta, porra; aquela era a minha vida.

Mas não era como se ela também não o soubesse – a cada movimento do seu corpo escapava uma confissão. Fazia de propósito. Ela sabia que não estava ali por curiosidade. Por vontade de conhecer. Aquele não era o seu rolê e a intenção sempre fora me atingir, no segundo em que eu visse ou ficasse sabendo. Ou ainda que não. Sabe? Retaliação psicológica. Quis sentir-se vingada pela forma idiota como eu agi naquela tarde, num joguinho mental consigo mesma. Somos duas ridículas.

_Mano... – eu comecei a rir de mim mesma, nervosa – Você acredita que eu comprei a porra de UM CELULAR? – a olhei e passei a mão na nuca; a Mia parecia não entender – Pra m-me desculpar?
_Do que você tá falando?
_Juro. Eu sou uma PUTA IDIOTA mesmo. Vim aqui achando que ia ficar tudo bem...
_L-linda...
_Bom, eu vou voltar. Vou para casa.

Dava-me por vencida. Aquela excursão toda havia sido um fracasso, eu nunca deveria ter pisado para fora do apartamento. A Mia acenou com a cabeça, ainda distante de mim – “ok” –, em resposta monossilábica à minha decisão. Como ok?

_Você não vem? – me tornei inquieta mais uma vez.
_Não, meu... – me encarou, como se fosse evidente – Vou ficar.

Filha da...

_Pra quê diabos você tem que fic... Argh! – interrompi a frase antes que fosse tomada novamente pela merda toda – Quer saber, tá. Que se dane. Fica aí, eu vou embora...

Dei as costas para ela. Sem ter resolvido porra nenhuma naqueles dez minutos de vida desperdiçada. Comecei a andar para o lado oposto, na direção da Fernando de Albuquerque, que àquela altura já estava tomada de pessoas. Num barulho crescente de sábado à noite; entre todas aquelas gargantas sedentas por cerveja, catuaba, pelo o quer que fosse. Passei no meio da muvuca em frente ao Ibotirama e atravessei a rua. Me sentia estranha. Havia estranheza em voltar para casa sozinha, enquanto todas aquelas pessoas acabavam de chegar na Augusta, prontas para beber até cair e agarrar o mundo por toda a madrugada. Me constrangia de mim mesma. Eu sei que é estúpido – mas a Mia estava tão perto – e eu ali, caminhando como uma fracassada para um apartamento completamente vazio.

As minhas noites já foram melhores, resmunguei para mim mesa e atravessei para virar na Peixoto Gomide. Entrei num dos botecos próximos ao bar da Alôca e pedi um maço de cigarros. O meu já estava quase acabando. E se eu ia sentir pena de mim mesma a noite toda naquele apartamento, era melhor que eu tivesse um estoque de nicotina. O cara do balcão me lembrava um tio alcóolatra que eu tinha, por parte de mãe. Sabe quando a pessoa fica com a cara caída, meio envelhecida, e aquele tom amarelado na pele de tanto se embriagar? Era essa cara. Ele me entregou o maço e eu paguei. Saí na calçada, enquanto o ajeitava no bolso com um dos celulares, e comecei a descer a Frei Caneca. O Du ainda estava no cinema com o André. Entrei no prédio e o som das chaves destrancando a porta ecoaram no cômodo completamente apagado. Fui no escuro até a cozinha e acendi uma das luzes. Deixei os celulares e os maços, um quase acabado e outro cheio, em cima da mesa e me dirigi até a geladeira para pegar uma cerveja. Então sentei ali. 

Mas que merda.

Por um segundo a minha cabeça foi na direção da Mia e do que diabos ela estaria fazendo naquele mesmo instante – e com quem. Mas logo me tirei dali. Não posso entrar nessas brisas ou vou passar a porra da noite me consumindo em absoluto ciúmes, com raiva dela e de mim mesma. Tomei um gole da minha cerveja. E puxei para perto o meu novo investimento telefônico, observando a sua aparência frágil. Aquilo não ia durar muito na minha mão. Digo – estou deixando cair o tempo todo e esqueço o celular no bolso quando encho a cara, jogo as coisas no chão sem nem ver. Não ia dar certo. Abri a tela e comecei a fuçar sem muito interesse, completamente entediada, com certa dificuldade em me virar com o touch screen. Internet. Bloco de notas. Mensagens. Modo avião – que porra é modo avião? –. Um aplicativo do Facebook. Calculadora. Um jogo pré-instalado. Abri o joguinho e me entediei por mais alguns minutos com aquilo, antes de desligar a tela e largar o aparelho de volta na mesa, com um suspiro de absoluta frustração.

Peguei o meu celular antigo e o abri nos meus Contatos. Então peguei o novo e abri os seus – ainda vazios. Isso vai levar algum tempo, pensei. E comecei a cadastrar um por um dos números na nova lista. Metade dos números eu sequer registrava por que não fazia ideia de quem era. Tinha aquele aparelho há anos e aposto que me levou bem menos tempo – tipo uma meia hora... – para esquecer quem diabos era “A mina do bar verde”. Esses foram descartados. Já a outra metade me deprimia. Conforme ia adicionando os contatos, avisava uma ou outra pessoa que estava mudando de número. E sabia que nenhum dos meus amigos em comum com o Fer retornaria o meu SMS. Mas mandei mesmo assim. 

Fui descendo a lista, de forma não muito eficiente, intercalando goles de cerveja com números anotados e mensagens digitadas. Cada letra do alfabeto me tomava uns dez a quinze minutos até terminar todos os contatos. E depois de mais ou menos meia hora, cheguei invariavelmente num que eu não conseguia descartar.

julho 06, 2014

Os Abutres

Praticamente de frente para o Tubaína ficava um bar de sapatão chamado Bambu. Não ia lá há alguns anos, porque me recusava a participar do estereótipo “voz e violão” dos rolês lésbicos. Acho que ouvi tanta MPB a contragosto na minha adolescência que, argh; e geralmente na voz de uma bofinha de moicano, sabe como é? Sentada num banquinho de madeira enquanto dedilha uma música da Ana Carolina e encara a sua namorada loira, de unhas compridas, em um vestido femme colado, que fica dançando em pé ao redor do palco a fim de demarcar o seu território. É. Eu tinha aversão a esse tipo de coisa. Não obstante, é claro, eram esses os bares que concentravam a maior parte das garotas que curtem garotas de São Paulo. Acumulando garrafas de cerveja e drama lésbico em mesas de plástico espalhadas por toda a calçada. E numa dessas, rodeada de umas porras duns abutres, estava a Mia.

Filha da mãe, eu a observei de longe, sem reação. Sentada ali, morena e maravilhosa em sua jardineirinha jeans curta e botas de cano baixo, ao lado de uma moderninha qualquer desgraçada da Augusta que enchia os copos da mesa toda e ria do que conversavam, olhando para a minha porra de mulher. Agora é assim? É vingança? Traguei o meu cigarro mais uma vez, me sentindo ridícula com aqueles dois celulares nos bolsos detrás da minha calça. E me desfiz completamente de qualquer intenção que eu tinha, minutos antes, de me desculpar.

Se você quer jogar esse jogo, garota: vamos lá.

Atravessei a rua com o cigarro na boca e os olhos nela – que até então não tinha notado a minha presença. A Mia logo ergueu a cabeça e me encontrou ali, chegando na calçada. Sequer se moveu. Com o braço ao redor da sua cadeira, a outra mina percebeu que ela me olhava e me encarou, virando a cabeça de novo para a Mia em seguida. Era morena e usava um dos lados da cabeça raspado – igual a todas as outras da Augusta nos últimos tempos, muito original –; exibia as suas tatuagens em uma regata combinada com jeans skinny. Era tão magrela quanto eu. E tinha o corpo acomodado na cadeira e as pernas cruzadas, com um dos tornozelos apoiados no joelho. Sua folgada de merda. Acho que eu preferia ver a Mia de volta com o Fernando a tê-la se metendo com uma idiota dessas. Argh

Fiz um sinal com a cabeça, cumprimentando a Mia, enquanto colocava as mãos nos meus bolsos da frente. Antes que ela pudesse responder, a garota abriu um sorriso ao seu lado, meio bêbada, e olhou diretamente para mim:

_Ah, então você que é a “famosa”, hum... – me provocou, com ares de vitória, como quem tinha se dado bem – A que anda chateando a minha nova amiga aqui...

Tá de brincadeira, né?

_Escuta... – me virei para ela, com indiferença – Tira esse sorriso escroto da sua cara e não se mete, beleza?
_Relaxa aí, ô loirinha, que a gente tava só conversando...
_Nossa... – eu ri, franzindo a sobrancelha – Você me ouviu perguntar alguma coisa pra você?!
_Linda... – a Mia revirou os olhos, já se levantando.
_Aí, ó! Vai me fazer perder a companhia, pô...

Filha da mãe. A Mia se afastou dela e chegou perto de mim.

_Você fica na sua, garota! – eu ainda encarava a outra sentada, puta da vida; a Mia me puxou para trás, aos murmúrios.
_Não começa, vai. Vem...

EU tô começando? Me virei para ir com ela. E a infeliz ficou na mesa com cara de tacho. Andamos até uma parte mais afastada da calçada e um pouco mais escura, perto de uma árvore. A Mia ajeitou o coque malfeito sobre a cabeça, meio bêbada também e sem qualquer remorso; eu já estava pilhada. Depois me encarou, cruzando os braços sobre a sua jardineirinha. À espera.

_Você só pode estar TIRANDO UMA com a minha cara, né? – vomitei as palavras, possessa, na sua direção – Isso? Essa mina??
_A gente só tava bebendo. VOCÊ que – me acusou e os ânimos claramente não melhoraram – me LARGOU aqui sozinh...
_Desculpa, mas – a interrompi, irônica – se você queria fazer uma ceninha, podia ter arranjado COISA MELHOR do que uma SAPATA PERDEDORA DO BAMBU; aposto que essa tapada de merda não consegue achar o caminho pra dentro nem com A PORRA DE UM MANUAL!
_AH! ME PERDOA SE NÃO ESTÁ DENTRO DO SEU "PADRÃO" – a Mia zombou, irritada –. POR QUE? A mina da livraria era melhor então??!
_NOSSA. Era.
_Você é uma idiota... – balançou a cabeça para mim.
_Pois é. Aparentemente ESTÁ ABERTA A COMPETIÇÃO! NÉ?
_CALA A BOCA, MANO! – ela se revoltou e eu senti o cheiro de cerveja sair do seu corpo; invejando não estar eu enchendo a cara em qualquer lugar como uma porra de uma emburrada – O QUE DIABOS VOCÊ VEIO FAZER AQUI? ISSO?!? Você quer BRIGAR MAIS agora porque eu tava BEBENDO COM OUTRA MINA?!??
_Não. Não porque você tá “bebendo com outra mina”, Mia. Porque VOCÊ TÁ BEBENDO COM UMA IDIOTA QUE FICA AGINDO PRA CIMA DE MIM COMO SE JÁ TIVESSE TE COMIDO!

Pronto. Feito. A aquela altura, nós duas já parecíamos um desses casais porraloucas, tatuados, que se metem em barracos no meio da rua. Era tudo o que eu queria da minha noite de sábado. Só que ao contrário.

junho 29, 2014

Da Augusta para a Frei para a Haddock

Isso é estúpido. O cigarro queimava entre os meus dedos e eu encarava obsessivamente o visor do celular. Estava de volta ao meu quarto – sozinha e entediada naquela tarde fracassada de sábado. Levei o filtro à boca e o traguei lentamente. Liga pra ela, porra. Mas a covardia impedia minhas mãos. Bati as cinzas na janela. Tinha os olhos ainda fixos no telefone, sobre a mesa. Essa tralha velha. Pois é. Acontecia de novo. Eu e a minha cabeça-dura íamos acabar repetindo os mesmos erros de antes. Os que cometi com a Marina, com a Clara; com todas as garotas da minha vida.

Empurrei os meus pés contra a mesa, inclinando a cadeira para trás. A ansiedade diminuía conforme a fumaça saía entre os meus lábios. Aquele tipo de discussão me lembrava “bem demais” as que tivera no passado – argh. Que merda. Me esquivando de toda responsabilidade; agindo deliberadamente, fazendo o que bem entendia com quem surgisse ao meu redor; e virando as costas, para depois invariavelmente me arrepender. E voltar de joelhos. É claro. Pedindo perdão pela minha boca estúpida, pelas minhas mãos e intenções inquietas. Recorrente impaciência argumentativa. Qual é o meu problema? Puta que pariu, mano, não conseguia adentrar uma discussão sequer sem me encher minutos depois e jogar a porra toda no ventilador.

Juro. O padrão só se repetia.

Às vezes, achava que de tão frustrada pelo meu primeiro relacionamento – com suas intermináveis conversas e brigas alucinadas, que me viravam madrugadas e lençóis ao avesso, incessantemente –, não me restara qualquer paciência. O que era terrivelmente injusto com as garotas que vieram em seguida. A minha vida amorosa sofria as sequelas, é, brilhante, arqueei as sobrancelhas. E meti o celular no bolso, num suspiro covarde – não tinha coragem de ligar e enfrentar a Mia agora. Puta como ela deve estar, pensei. O fato d’eu ter saído andando e a largado naquela calçada, ao lado do Conjunto Nacional, elevava a nossa briguinha boba a um status de desentendimento considerável. E eu não era boa em me desculpar remotamente.

Facilita tê-la ao alcance das minhas mãos, calculei, imprestável como era. Sempre preferi resolver as coisas pessoalmente. Essa estratégia é clássica de gente errada. Mas funciona. De repente, interrompendo os meus pensamentos, o Du bateu na porta e entrou no meu quarto sem esperar a resposta. Boa educação pra quê, né. “Que cê quer?”, perguntei, olhando-o por cima do meu ombro. Ele acenou. “Me vê um trago”, pediu e eu estiquei o braço na sua direção para que emprestasse o cigarro da minha mão. Ele o pegou e colocou o filtro na boca, soltando a fumaça logo em seguida, como se meio apressado. Então me olhou.

_Vou no cinema agora com o André. Tá afim?
_O metido a astrólogo?
_É... – ele riu, tragando mais uma vez.
_Que porre de programa, hein?!
_Quê? É mês da Parada – expirou de novo, me entregando o cigarro –. Tá passando um monte de filme de viado em São Paulo. Vai, vamos lá com a gente...
_Não. Tô de boa.
_Beleza. Cê que sabe.

O Du se virou para sair e eu traguei o que restava do cigarro, observando-o passar pela porta. Espera. Apaguei a bituca no parapeito da janela e quase pulei da cadeira, indo atrás dele, numa decisão repentina. “Du!”, chamei; ele ainda estava no corredor. Vi o André mais adiante, já na sala, com a sua camiseta irônica de publicitário hipster e as tatuagens no braço. “Fala”. “Vou descer com vocês”, respondi. Sem intenção alguma de ir ao cinema, peguei a minha carteira e fomos para o elevador juntos. Seguimos depois a pé até o Frei Caneca, o shopping mais queer da capital – intitulado e situado na nossa amada rua, como era de se esperar. Os garotos subiram até o último andar, onde fica o teatro e as salas de cinema. E eu saí pelos corredores das lojas.

Não demorou muito até encontrar o que eu estava procurando. A verdade é que eu não dava a mínima para nada daquilo. Tudo que envolvia tecnologia se vertia em uma preguiça descomunal dentro de mim. Então a decisão foi rápida. Entrei na loja de celulares e escolhi o smartphone mais barato que tinham, qualquer um é mais moderno do que o meu. Eu tive o mesmo aparelho por uns cinco ou seis anos. Era um dinossauro. Confesso que não era de todo fácil me livrar: parte de mim sentiria saudades das brincadeiras que eu sofria nas mãos da Lê, do Gui e de todos os meus amigos. Não que tenham sobrado muitos. Era como a minha marca registrada – ser uma absoluta atrasada, old school, foda-se em termos de comunicações. Mas não tinha qualquer apego além desse. Que seja! Agora eu participaria do surto coletivo obcecado por esses cânceres ambulantes.

Disse a fumante compulsiva, aham.

Tá. Que se dane. Saí da loja e peguei o meu antigo aparelho – que, na boa, merecia uma porra de um altar no meu apartamento – para fazer o que provavelmente seria a sua última ligação. Para a Mia, claro, a quem eu pretendia exibir a minha compra impulsiva (parcelada em sofridas três vezes) como pretexto exagerado para uma desculpa. Eu estava me achando muito irresistível nas minhas táticas.

_Fala – ela atendeu, menos empolgada, e eu ouvi um som de rua ao fundo.
_Onde cê tá?
_Por que?
_Porque sim, Mia... – eu ri da sua grosseria, ainda mantendo meu bom humor.
_Tô no bar com um povo.
_Onde? Que bar?
_Você vai vir?
_Se você me falar onde é – achei graça.
_Na Haddock. Entre a Matias Aires e a Fernando de Albuquerque.

Dava para ir a pé. Ótimo. Ficava bem mais para cima do que o shopping, do outro lado da Augusta e próximo à Paulista. E se nada desse certo, eu sempre podia levá-la para casa e pedir desculpas na cama. Como não tinha muitos bares naquela quadra, presumi ser o Tubaína – onde os playboys que se acham alternativinhos costumavam ir. Certeza que está com um pessoal metido da faculdade, revirei os olhos, conforme descia a escadaria do Frei Caneca até a rua. Realmente não entendia como ela conseguia ser amiga daquelas pessoas. 

Já estava de noite. E eu ainda estava um mulambo, vestindo a mesma roupa nada atraente que usara para vê-la mais cedo naquele dia. Que se dane. Levei dez minutos para andar até o Tubaína e o lugar estava relativamente vazio para um anoitecer de sábado. Rodei o bar inteiro atrás dela. E nada. Nem sinal da Mia ou dos seus amigos. Mas que porra. Só pode ser aqui!, eu não entendia.

Depois de uns bons quinze minutos vasculhando, me dei enfim por vencida. E saí para calçada para fumar. Tirei um cigarro do meu maço amassado e o acendi, frustrada. Quando me preparava para ligar mais uma vez para a Mia, olhei de relance para o outro lado da rua. E puta que pariu. Você só pode estar tirando com a minha cara.