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julho 18, 2014

ABC

_Eu não sei por que eu vim. Devia ter ficado em casa...
_Vai lá. AINDA DÁ TEMPO! – a Mia revirou os olhos, de saco cheio, argh.

De mim, do meu surto desproporcional de ciúmes. Os ânimos tinham saído completamente do nosso controle, em meio segundo. Para. Volta. Olhei para os seus braços cruzados, para a forma como o seu corpo todo parecia evitar o meu. E me senti estranha – cacete, não era isso. O que eu tô fazendo? Os pés da Mia estavam instáveis, meio bêbada naquela calçada. A olhei na minha frente e tornei a sentir uma raiva irracional, dessas que te reviram o estomago silenciosamente, só de pensar nela se metendo com uma moderninha qualquer da Augusta pelas minhas costas. Deixando a garota chegar perto dela. A verdade é que a menina me lembrava bem demais a mim mesma. Desgraçada. Com o seu jeito de quem não dá a mínima, cara de cachorrona. Seria muita pretensão querer ser a única? Como se eu pudesse preencher toda a cota de sapatas na vida da Mia. Sim. Era muita pretensão. E eu não sabia por que me sentia tão ofendida, tão puta de vê-la ali, bebendo com outra no Bambu. No meu território. Era isso. A Mia nunca pertenceu a nenhum daqueles bares caminhoneiros da Augusta, porra; aquela era a minha vida.

Mas não era como se ela também não o soubesse – a cada movimento do seu corpo escapava uma confissão. Fazia de propósito. Ela sabia que não estava ali por curiosidade. Por vontade de conhecer. Aquele não era o seu rolê e a intenção sempre fora me atingir, no segundo em que eu visse ou ficasse sabendo. Ou ainda que não. Sabe? Retaliação psicológica. Quis sentir-se vingada pela forma idiota como eu agi naquela tarde, num joguinho mental consigo mesma. Somos duas ridículas.

_Mano... – eu comecei a rir de mim mesma, nervosa – Você acredita que eu comprei a porra de UM CELULAR? – a olhei e passei a mão na nuca; a Mia parecia não entender – Pra m-me desculpar?
_Do que você tá falando?
_Juro. Eu sou uma PUTA IDIOTA mesmo. Vim aqui achando que ia ficar tudo bem...
_L-linda...
_Bom, eu vou voltar. Vou para casa.

Dava-me por vencida. Aquela excursão toda havia sido um fracasso, eu nunca deveria ter pisado para fora do apartamento. A Mia acenou com a cabeça, ainda distante de mim – “ok” –, em resposta monossilábica à minha decisão. Como ok?

_Você não vem? – me tornei inquieta mais uma vez.
_Não, meu... – me encarou, como se fosse evidente – Vou ficar.

Filha da...

_Pra quê diabos você tem que fic... Argh! – interrompi a frase antes que fosse tomada novamente pela merda toda – Quer saber, tá. Que se dane. Fica aí, eu vou embora...

Dei as costas para ela. Sem ter resolvido porra nenhuma naqueles dez minutos de vida desperdiçada. Comecei a andar para o lado oposto, na direção da Fernando de Albuquerque, que àquela altura já estava tomada de pessoas. Num barulho crescente de sábado à noite; entre todas aquelas gargantas sedentas por cerveja, catuaba, pelo o quer que fosse. Passei no meio da muvuca em frente ao Ibotirama e atravessei a rua. Me sentia estranha. Havia estranheza em voltar para casa sozinha, enquanto todas aquelas pessoas acabavam de chegar na Augusta, prontas para beber até cair e agarrar o mundo por toda a madrugada. Me constrangia de mim mesma. Eu sei que é estúpido – mas a Mia estava tão perto – e eu ali, caminhando como uma fracassada para um apartamento completamente vazio.

As minhas noites já foram melhores, resmunguei para mim mesa e atravessei para virar na Peixoto Gomide. Entrei num dos botecos próximos ao bar da Alôca e pedi um maço de cigarros. O meu já estava quase acabando. E se eu ia sentir pena de mim mesma a noite toda naquele apartamento, era melhor que eu tivesse um estoque de nicotina. O cara do balcão me lembrava um tio alcóolatra que eu tinha, por parte de mãe. Sabe quando a pessoa fica com a cara caída, meio envelhecida, e aquele tom amarelado na pele de tanto se embriagar? Era essa cara. Ele me entregou o maço e eu paguei. Saí na calçada, enquanto o ajeitava no bolso com um dos celulares, e comecei a descer a Frei Caneca. O Du ainda estava no cinema com o André. Entrei no prédio e o som das chaves destrancando a porta ecoaram no cômodo completamente apagado. Fui no escuro até a cozinha e acendi uma das luzes. Deixei os celulares e os maços, um quase acabado e outro cheio, em cima da mesa e me dirigi até a geladeira para pegar uma cerveja. Então sentei ali. 

Mas que merda.

Por um segundo a minha cabeça foi na direção da Mia e do que diabos ela estaria fazendo naquele mesmo instante – e com quem. Mas logo me tirei dali. Não posso entrar nessas brisas ou vou passar a porra da noite me consumindo em absoluto ciúmes, com raiva dela e de mim mesma. Tomei um gole da minha cerveja. E puxei para perto o meu novo investimento telefônico, observando a sua aparência frágil. Aquilo não ia durar muito na minha mão. Digo – estou deixando cair o tempo todo e esqueço o celular no bolso quando encho a cara, jogo as coisas no chão sem nem ver. Não ia dar certo. Abri a tela e comecei a fuçar sem muito interesse, completamente entediada, com certa dificuldade em me virar com o touch screen. Internet. Bloco de notas. Mensagens. Modo avião – que porra é modo avião? –. Um aplicativo do Facebook. Calculadora. Um jogo pré-instalado. Abri o joguinho e me entediei por mais alguns minutos com aquilo, antes de desligar a tela e largar o aparelho de volta na mesa, com um suspiro de absoluta frustração.

Peguei o meu celular antigo e o abri nos meus Contatos. Então peguei o novo e abri os seus – ainda vazios. Isso vai levar algum tempo, pensei. E comecei a cadastrar um por um dos números na nova lista. Metade dos números eu sequer registrava por que não fazia ideia de quem era. Tinha aquele aparelho há anos e aposto que me levou bem menos tempo – tipo uma meia hora... – para esquecer quem diabos era “A mina do bar verde”. Esses foram descartados. Já a outra metade me deprimia. Conforme ia adicionando os contatos, avisava uma ou outra pessoa que estava mudando de número. E sabia que nenhum dos meus amigos em comum com o Fer retornaria o meu SMS. Mas mandei mesmo assim. 

Fui descendo a lista, de forma não muito eficiente, intercalando goles de cerveja com números anotados e mensagens digitadas. Cada letra do alfabeto me tomava uns dez a quinze minutos até terminar todos os contatos. E depois de mais ou menos meia hora, cheguei invariavelmente num que eu não conseguia descartar.

julho 06, 2014

Os Abutres

Praticamente de frente para o Tubaína ficava um bar de sapatão chamado Bambu. Não ia lá há alguns anos, porque me recusava a participar do estereótipo “voz e violão” dos rolês lésbicos. Acho que ouvi tanta MPB a contragosto na minha adolescência que, argh; e geralmente na voz de uma bofinha de moicano, sabe como é? Sentada num banquinho de madeira enquanto dedilha uma música da Ana Carolina e encara a sua namorada loira, de unhas compridas, em um vestido femme colado, que fica dançando em pé ao redor do palco a fim de demarcar o seu território. É. Eu tinha aversão a esse tipo de coisa. Não obstante, é claro, eram esses os bares que concentravam a maior parte das garotas que curtem garotas de São Paulo. Acumulando garrafas de cerveja e drama lésbico em mesas de plástico espalhadas por toda a calçada. E numa dessas, rodeada de umas porras duns abutres, estava a Mia.

Filha da mãe, eu a observei de longe, sem reação. Sentada ali, morena e maravilhosa em sua jardineirinha jeans curta e botas de cano baixo, ao lado de uma moderninha qualquer desgraçada da Augusta que enchia os copos da mesa toda e ria do que conversavam, olhando para a minha porra de mulher. Agora é assim? É vingança? Traguei o meu cigarro mais uma vez, me sentindo ridícula com aqueles dois celulares nos bolsos detrás da minha calça. E me desfiz completamente de qualquer intenção que eu tinha, minutos antes, de me desculpar.

Se você quer jogar esse jogo, garota: vamos lá.

Atravessei a rua com o cigarro na boca e os olhos nela – que até então não tinha notado a minha presença. A Mia logo ergueu a cabeça e me encontrou ali, chegando na calçada. Sequer se moveu. Com o braço ao redor da sua cadeira, a outra mina percebeu que ela me olhava e me encarou, virando a cabeça de novo para a Mia em seguida. Era morena e usava um dos lados da cabeça raspado – igual a todas as outras da Augusta nos últimos tempos, muito original –; exibia as suas tatuagens em uma regata combinada com jeans skinny. Era tão magrela quanto eu. E tinha o corpo acomodado na cadeira e as pernas cruzadas, com um dos tornozelos apoiados no joelho. Sua folgada de merda. Acho que eu preferia ver a Mia de volta com o Fernando a tê-la se metendo com uma idiota dessas. Argh

Fiz um sinal com a cabeça, cumprimentando a Mia, enquanto colocava as mãos nos meus bolsos da frente. Antes que ela pudesse responder, a garota abriu um sorriso ao seu lado, meio bêbada, e olhou diretamente para mim:

_Ah, então você que é a “famosa”, hum... – me provocou, com ares de vitória, como quem tinha se dado bem – A que anda chateando a minha nova amiga aqui...

Tá de brincadeira, né?

_Escuta... – me virei para ela, com indiferença – Tira esse sorriso escroto da sua cara e não se mete, beleza?
_Relaxa aí, ô loirinha, que a gente tava só conversando...
_Nossa... – eu ri, franzindo a sobrancelha – Você me ouviu perguntar alguma coisa pra você?!
_Linda... – a Mia revirou os olhos, já se levantando.
_Aí, ó! Vai me fazer perder a companhia, pô...

Filha da mãe. A Mia se afastou dela e chegou perto de mim.

_Você fica na sua, garota! – eu ainda encarava a outra sentada, puta da vida; a Mia me puxou para trás, aos murmúrios.
_Não começa, vai. Vem...

EU tô começando? Me virei para ir com ela. E a infeliz ficou na mesa com cara de tacho. Andamos até uma parte mais afastada da calçada e um pouco mais escura, perto de uma árvore. A Mia ajeitou o coque malfeito sobre a cabeça, meio bêbada também e sem qualquer remorso; eu já estava pilhada. Depois me encarou, cruzando os braços sobre a sua jardineirinha. À espera.

_Você só pode estar TIRANDO UMA com a minha cara, né? – vomitei as palavras, possessa, na sua direção – Isso? Essa mina??
_A gente só tava bebendo. VOCÊ que – me acusou e os ânimos claramente não melhoraram – me LARGOU aqui sozinh...
_Desculpa, mas – a interrompi, irônica – se você queria fazer uma ceninha, podia ter arranjado COISA MELHOR do que uma SAPATA PERDEDORA DO BAMBU; aposto que essa tapada de merda não consegue achar o caminho pra dentro nem com A PORRA DE UM MANUAL!
_AH! ME PERDOA SE NÃO ESTÁ DENTRO DO SEU "PADRÃO" – a Mia zombou, irritada –. POR QUE? A mina da livraria era melhor então??!
_NOSSA. Era.
_Você é uma idiota... – balançou a cabeça para mim.
_Pois é. Aparentemente ESTÁ ABERTA A COMPETIÇÃO! NÉ?
_CALA A BOCA, MANO! – ela se revoltou e eu senti o cheiro de cerveja sair do seu corpo; invejando não estar eu enchendo a cara em qualquer lugar como uma porra de uma emburrada – O QUE DIABOS VOCÊ VEIO FAZER AQUI? ISSO?!? Você quer BRIGAR MAIS agora porque eu tava BEBENDO COM OUTRA MINA?!??
_Não. Não porque você tá “bebendo com outra mina”, Mia. Porque VOCÊ TÁ BEBENDO COM UMA IDIOTA QUE FICA AGINDO PRA CIMA DE MIM COMO SE JÁ TIVESSE TE COMIDO!

Pronto. Feito. A aquela altura, nós duas já parecíamos um desses casais porraloucas, tatuados, que se metem em barracos no meio da rua. Era tudo o que eu queria da minha noite de sábado. Só que ao contrário.

junho 29, 2014

Da Augusta para a Frei para a Haddock

Isso é estúpido. O cigarro queimava entre os meus dedos e eu encarava obsessivamente o visor do celular. Estava de volta ao meu quarto – sozinha e entediada naquela tarde fracassada de sábado. Levei o filtro à boca e o traguei lentamente. Liga pra ela, porra. Mas a covardia impedia minhas mãos. Bati as cinzas na janela. Tinha os olhos ainda fixos no telefone, sobre a mesa. Essa tralha velha. Pois é. Acontecia de novo. Eu e a minha cabeça-dura íamos acabar repetindo os mesmos erros de antes. Os que cometi com a Marina, com a Clara; com todas as garotas da minha vida.

Empurrei os meus pés contra a mesa, inclinando a cadeira para trás. A ansiedade diminuía conforme a fumaça saía entre os meus lábios. Aquele tipo de discussão me lembrava “bem demais” as que tivera no passado – argh. Que merda. Me esquivando de toda responsabilidade; agindo deliberadamente, fazendo o que bem entendia com quem surgisse ao meu redor; e virando as costas, para depois invariavelmente me arrepender. E voltar de joelhos. É claro. Pedindo perdão pela minha boca estúpida, pelas minhas mãos e intenções inquietas. Recorrente impaciência argumentativa. Qual é o meu problema? Puta que pariu, mano, não conseguia adentrar uma discussão sequer sem me encher minutos depois e jogar a porra toda no ventilador.

Juro. O padrão só se repetia.

Às vezes, achava que de tão frustrada pelo meu primeiro relacionamento – com suas intermináveis conversas e brigas alucinadas, que me viravam madrugadas e lençóis ao avesso, incessantemente –, não me restara qualquer paciência. O que era terrivelmente injusto com as garotas que vieram em seguida. A minha vida amorosa sofria as sequelas, é, brilhante, arqueei as sobrancelhas. E meti o celular no bolso, num suspiro covarde – não tinha coragem de ligar e enfrentar a Mia agora. Puta como ela deve estar, pensei. O fato d’eu ter saído andando e a largado naquela calçada, ao lado do Conjunto Nacional, elevava a nossa briguinha boba a um status de desentendimento considerável. E eu não era boa em me desculpar remotamente.

Facilita tê-la ao alcance das minhas mãos, calculei, imprestável como era. Sempre preferi resolver as coisas pessoalmente. Essa estratégia é clássica de gente errada. Mas funciona. De repente, interrompendo os meus pensamentos, o Du bateu na porta e entrou no meu quarto sem esperar a resposta. Boa educação pra quê, né. “Que cê quer?”, perguntei, olhando-o por cima do meu ombro. Ele acenou. “Me vê um trago”, pediu e eu estiquei o braço na sua direção para que emprestasse o cigarro da minha mão. Ele o pegou e colocou o filtro na boca, soltando a fumaça logo em seguida, como se meio apressado. Então me olhou.

_Vou no cinema agora com o André. Tá afim?
_O metido a astrólogo?
_É... – ele riu, tragando mais uma vez.
_Que porre de programa, hein?!
_Quê? É mês da Parada – expirou de novo, me entregando o cigarro –. Tá passando um monte de filme de viado em São Paulo. Vai, vamos lá com a gente...
_Não. Tô de boa.
_Beleza. Cê que sabe.

O Du se virou para sair e eu traguei o que restava do cigarro, observando-o passar pela porta. Espera. Apaguei a bituca no parapeito da janela e quase pulei da cadeira, indo atrás dele, numa decisão repentina. “Du!”, chamei; ele ainda estava no corredor. Vi o André mais adiante, já na sala, com a sua camiseta irônica de publicitário hipster e as tatuagens no braço. “Fala”. “Vou descer com vocês”, respondi. Sem intenção alguma de ir ao cinema, peguei a minha carteira e fomos para o elevador juntos. Seguimos depois a pé até o Frei Caneca, o shopping mais queer da capital – intitulado e situado na nossa amada rua, como era de se esperar. Os garotos subiram até o último andar, onde fica o teatro e as salas de cinema. E eu saí pelos corredores das lojas.

Não demorou muito até encontrar o que eu estava procurando. A verdade é que eu não dava a mínima para nada daquilo. Tudo que envolvia tecnologia se vertia em uma preguiça descomunal dentro de mim. Então a decisão foi rápida. Entrei na loja de celulares e escolhi o smartphone mais barato que tinham, qualquer um é mais moderno do que o meu. Eu tive o mesmo aparelho por uns cinco ou seis anos. Era um dinossauro. Confesso que não era de todo fácil me livrar: parte de mim sentiria saudades das brincadeiras que eu sofria nas mãos da Lê, do Gui e de todos os meus amigos. Não que tenham sobrado muitos. Era como a minha marca registrada – ser uma absoluta atrasada, old school, foda-se em termos de comunicações. Mas não tinha qualquer apego além desse. Que seja! Agora eu participaria do surto coletivo obcecado por esses cânceres ambulantes.

Disse a fumante compulsiva, aham.

Tá. Que se dane. Saí da loja e peguei o meu antigo aparelho – que, na boa, merecia uma porra de um altar no meu apartamento – para fazer o que provavelmente seria a sua última ligação. Para a Mia, claro, a quem eu pretendia exibir a minha compra impulsiva (parcelada em sofridas três vezes) como pretexto exagerado para uma desculpa. Eu estava me achando muito irresistível nas minhas táticas.

_Fala – ela atendeu, menos empolgada, e eu ouvi um som de rua ao fundo.
_Onde cê tá?
_Por que?
_Porque sim, Mia... – eu ri da sua grosseria, ainda mantendo meu bom humor.
_Tô no bar com um povo.
_Onde? Que bar?
_Você vai vir?
_Se você me falar onde é – achei graça.
_Na Haddock. Entre a Matias Aires e a Fernando de Albuquerque.

Dava para ir a pé. Ótimo. Ficava bem mais para cima do que o shopping, do outro lado da Augusta e próximo à Paulista. E se nada desse certo, eu sempre podia levá-la para casa e pedir desculpas na cama. Como não tinha muitos bares naquela quadra, presumi ser o Tubaína – onde os playboys que se acham alternativinhos costumavam ir. Certeza que está com um pessoal metido da faculdade, revirei os olhos, conforme descia a escadaria do Frei Caneca até a rua. Realmente não entendia como ela conseguia ser amiga daquelas pessoas. 

Já estava de noite. E eu ainda estava um mulambo, vestindo a mesma roupa nada atraente que usara para vê-la mais cedo naquele dia. Que se dane. Levei dez minutos para andar até o Tubaína e o lugar estava relativamente vazio para um anoitecer de sábado. Rodei o bar inteiro atrás dela. E nada. Nem sinal da Mia ou dos seus amigos. Mas que porra. Só pode ser aqui!, eu não entendia.

Depois de uns bons quinze minutos vasculhando, me dei enfim por vencida. E saí para calçada para fumar. Tirei um cigarro do meu maço amassado e o acendi, frustrada. Quando me preparava para ligar mais uma vez para a Mia, olhei de relance para o outro lado da rua. E puta que pariu. Você só pode estar tirando com a minha cara.

junho 19, 2014

O vai e vem da maré

É. Eu já estava no inferno, podia simplesmente ir em frente e abraçar o capeta de vez.

_Tá – a encarei, naquela calçada – eu não tenho um contexto, não tenho. Eu fiz merda. E foi isso: uma grande merda que eu não pensei direito – disse com toda sinceridade –. Não era pra ter dado em nada e se você não tivesse pegado esse telefone, eu teria apagado a mensagem sem responder. Eu juro. Eu não sei por que anotei o número dela pra começo de conversa!
_Ah, você “jura”? – ela debochou.
_Eu... e-eu sei como isso soa, porra.

Deu um passo para o lado, inconformada. E eu me aproximei, tocando o seu ombro, arrependida.

_Linda, qual é... Me desculpa, por favor.
_...
_Mia... – murmurei – Vai, eu fui uma idiota.
_É. Você sempre “é uma idiota” – riu, revirando os olhos –. Já reparou que você fala isso toda vez que discute comigo, com a Marina? Com quem for? Sequer passa pela sua cabeça NÃO SER uma? HEIN?! Que tal?
_Mas eu NÃO FIZ NADA, porra. Eu não tava realmente interessada, eu mal falei com essa mina aq...
_Ah, é?! E por que ela competiria comigo? – a Mia se afastou mais uma vez do meu corpo – Do que vocês estavam falando antes de eu chegar?! Por que ela mandou isso??
_Eu não tava trocando mensagem com ninguém, meu!
_Não? Ela acordou e pensou em mim, então?! Resolveu vir te falar a opinião dela sobre a "arquiteta"?? – ela me encarou, indignada.
_Mia...
_Me diz! Se vocês não tão trocando mensagem, como ela sabe quem eu sou. Explica! Você mandou uma foto nossa? Ou espera, deixa eu adivinhar, “você foi idiota”?

Inferno. Naquele momento, eu dava toda a porra do meu reino para não ter que responder aquela pergunta. A Mia ia surtar quando soubesse que a acabara de acontecer. Que a garota estava ali, bem do nosso lado. Argh. Eu sou mesmo uma idiota. Burra do cacete! Abri a boca e o meu coração acelerou, sem saber o que inventar:

_E-eu não... eu não s-sei. Caralho, ela, e-ela deve ter...  – meti a mão na testa, já puta da vida; eu não podia mentir daquele jeito, não podia dizer que a garota espontaneamente achou ela no meu Facebook ou seja lá o que fosse; era baixo demais, até pra mim – ...d-deve ter t-te...  – me rendi  – ...visto, comigo.

E me arrependi no mesmo segundo. Isso vai dar merda.

_Espera – a Mia riu, me encarando no meio da rua – A-agora?

Argh.

_Hein?! AGORA? – a Mia repetiu a pergunta, ainda mais alto e mais claro.
_É – respirei fundo –, acabei de conhecer ela. Lá na Cultura.
_Você quer dizer DEZ MINUTOS ATRÁS, então? ENQUANTO ME ESPERAVA? É isso?? – argumentou, brava, e eu sabia que tinha me fodido – Nossa... Mas esse está sendo mesmo o MELHOR DIA da porra da minha vida, hein. Que maravilha de sábado. Não sei nem por que eu saí da cama...
_Mia...
_Sério! – ironizava – Podia ter evitado tudo isso. NÃO É? Não precisava ter discutido com os meus pais antes de vir e assim não teria interrompido a sua incessante busca por novas garotas para colocar nessa porcaria de celular...
_Linda, não foi assim. Porra. Me desculpa! – me sentia ainda pior agora – Merda... – tentava sair daquela – Nós não conversamos por nem cinco minutos quando eu tava lá dentro, ela é funcionária, perguntou se eu queria ajuda e nós falamos de, d-de tatuagem e do que você fazia da vida e de mim – gesticulei, afobada –; ela que puxou todo o assunto, meu! Eu não tava nem prestando atenção!! Aí me deu dois segundos e NÃO SEI POR QUE DIABOS eu pedi o telefone dela. Mas não era pra ter sido nada assim.
_Você nem percebe o tamanho da sua cara de pau... – ela se irritava.
_NÃO! Não foi isso. Assim que nós trocamos os números, eu me dei por mim e foi muito estranho, eu me senti mal. Eu sequer tava interessada. E não era pra ela ter mandado mensagem nenhuma. Nós não combinamos nada, não desse jeito. A gente sequer tava falando com esse tipo de, d-de intimidade. Se eu tivesse visto a mensagem primeiro, eu teria achado uma bosta e teria apagado. Você tem que acreditar em mim, meu, foi só isso.
_E-eu... – hesitou.
_Eu tô falando sério. Não foi MAIS NADA.
_Não sei...
_Porra, qual é! Você acha que alguém chega PERTO de você, mano? Essa mina é LOUCA! LOUCA. É óbvio que não tem comparação, linda. Caralho – eu ri –, eu te persegui por dois anos inteiros na minha vida, isso é o quão "pouco" interessada eu tô na gente...
_É. Mas pra isso??
_Não. Não pra isso! Pra ter o que a gente tem, cacete!! Pra te ter comigo, pra rir do seu lado. A gente pode POR FAVOR voltar a falar da minha roupa? – pedi – Hein? Vamos voltar naquele papo? Sobre essa falta de pente e espelho que eu tô hoje.

Implorei. E ela riu, por um segundo. Murmurando, a contragosto – “é, você tá mesmo...”. Eu sorri e a abracei – “vamos pra casa, vai...”. Lhe beijei o rosto, “esquece isso”. Ela me olhou e eu soube que ela não ia deixar passar, inferno. “Não é tão simples assim...”. “É, sim, linda”. “Não, não é”, se desvencilhou dos meus braços. “Mia”. “Porra, você sabia que eu tava chegando! Pra quê cê vai trocar telefone com outra mina?", se revoltou de novo, "pra sair com ela depois? Pra ficar conversando??”. “Não!”, me irritei. Você não escutou nada do que eu falei? A Mia cruzou os braços. “Você tá comigo, meu...”. “Tô”. “Não, aparentemente não tá; porque a sua cabeça tá em outro lugar, né! Eu vim pra te encontrar, meu. Você sabe como a minha vida tá bagunçada, cara, você não podia ter deixado pra lá?”. “E você acha que eu tava intencionalmente tentando te magoar?? PORRA, MANO, não foi isso”. O volume da conversa aumentava de novo e eu não sabia o que diabos estava acontecendo. “Não. Quer saber? Eu não tô com cabeça pra isso...”. “Mia, volta aqui, não foi NADA!”, a vi se afastando. “Não. 'Nada' seria você dar em cima duma mina qualquer”, se virou de novo para mim, “seria você deixar ela lá falando, enchendo a sua bola. Isso é 'nada'. Isso é ok: todo mundo faz. Eu faço, você faz. Mas por algum motivo você achou que devia pedir o telefone dessa idiota”. “Eu não achei porra nenhuma, eu nem pensei!”. “Mas fez. Então não foi ‘nada’, foi alguma coisa...”. Eu revirei os olhos, agora puta.

_Foda-se, Mia – virei as costas –, eu não vou me explicar de novo.
_Você vai simplesmente sair andando?
_É.

junho 01, 2014

Gracinha inoportuna

Murmurei com o cigarro ainda na boca, às pressas, – “deixa aí que eu já vejo” – mas as suas mãos já tinham aberto a mensagem. Mas que porra. Em uma fração de segundo, o sorriso da Mia desmontou-se diante dos meus olhos.

_Quem é ess... – e antes de terminar a pergunta, os seus olhos arregalaram – Mano, O QUE É ISSO?
_O quê? – droga, droga, eu repetia na minha cabeça, tentando não demonstrar a minha inquietude – Mia? – estiquei a mão, pedindo o telefone – Deixa eu ver.
_QUEM É ESSA MENINA? QUE MERDA É ESSA?
_Linda... Me dá o celular.
_COMO ELA SABE QUEM EU SOU??
_Eu não sei do que você tá falando, porra. EU NÃO LI AINDA! Vai. Me deixa ver a mensagem...

Fiz mais uma vez um movimento para que me desse o celular, com a minha mão adiante, mantendo-me firme, mas ela se afastou. E com o telefone nas suas, leu em alto e bom som:

_“BONITA A ARQUITETA... NÃO SEI SE CONSIGO COMPETIR” – a Mia declarou, no meio da calçada, e eu sabia que tinha me fodido – “RISOS”. Quer que eu repita? QUER?

Ela me encarou, possessa. Desgraça. Se tivesse um buraco bem ali no meio da Augusta, eu teria me enfiado nele. Para nunca mais sair. Isso não poderia ter acontecido de um jeito pior. Por que eu entrei nessa porra dessa livraria hoje? “Mia...”, eu me preparei para inventar qualquer merda e ela imediatamente notou minhas intenções, estampadas na minha cara de pau. “Vai se foder...”, resmungou e começou a andar na direção contrária. “Mano, qual é!”, apressei o passo e a alcancei. Me metendo na sua frente – me escuta. Mas ela simplesmente me empurrou o celular de volta, contra o meu estômago, devolvendo-o. Inferno. Tudo acontecia rápido demais.
 
_Quer falar comigo, porra?!

Ela me ignorou. E eu tive vontade de arremessar aquele telefone contra a parede da porra do Conjunto Nacional. PUTA QUE PARIU. Nesse mesmo segundo, reparei num casal loser de hipsters da Paulista que nos encarava, acompanhando a movimentação da calçada com um sorrisinho escroto na cara. “Que foi? Hein?? PERDEU ALGUMA COISA, CARALHO??!” – lati na direção deles, antes de ir atrás da Mia. Que a essa altura já estava ainda mais adiante, cacete.

_Dá pra você parar? – me enfiei mais uma vez no seu caminho, segurando-a pelos ombros, e ela revirou os olhos – Você vai sair andando assim, só porque leu uma mensagem, meu?? Espera lá...
_”Só” uma “mensagem”?? – balançou a cabeça, rindo, e se desvencilhou das minhas mãos – Me solta. Eu não quero falar com você agora.
_Sério mesmo? É assim, então? Você vai simplesmente sair andando??
_Vou. 

Seguiu adiante, sem olhar na minha cara. Filha da mãe.

_Mia, porra. Espera. Que que é! – me irritei e certa de que me arrependeria daquelas palavras, as disparei na sua direção – Não é como se você estivesse muito certa também! Vai ler as minhas coisas agora?? São MINHAS, meu.
_Ah, essa é ótima! – ela se virou, indignada – Essa é ótima mesmo. Você acha que EU estava errada? Que não importa, porque EU não devia ter lido? – apontou o dedo contra o próprio peito, irritada comigo – É isso??
_E-eu... – me enrolei.
_EU NUNCA MEXO NAS SUAS COISAS! Eu nunca abri uma mensagem. Nunca atendi uma porra de uma ligação quando você sai do quarto! Eu nunca liguei o seu computador sem você junto. Nunca! Sequer PASSOU pela minha cabeça que fosse ser isso hoje! Eu só quis ajudar. Eu IA LER a mensagem pra você – justificou –, porque você estava com as mãos ocupadas. Só isso. E foi uma péssima escolha, péssima, na hora... foi. Foi mesmo. Mas te GARANTO que não foi para fuçar em nada seu. Não vem com essa pra cima de mim!
_Tá. Tudo bem – merda, eu traguei nervosa, sabendo que estava errada e ainda assim argumentando –, mas ainda tira as coisas fora de contexto...
_Me explica então. Me agracie com uma porra de contexto. Vai! Me conta por que essa mina vai competir comigo... – me desafiou – Eu quero ver você tentar.

maio 31, 2014

Inerte

Sabe quando você está caminhando – de volta do trabalho ou indo para aquele bar onde você enche a cara, toda sexta-feira com as magníficas e obscenas criaturas que você chama de amigos – e sem qualquer motivo aparente, ainda que você faça aquele mesmo percurso todo tempo, os seus pés se distraem por um breve momento e atravessam a rua? Então, quando você chega do outro lado, você olha para os seus pés na calçada e é tomada por uma sensação ridícula, que te faz rir. Aí pensa consigo mesma: o que diabos eu estou fazendo aqui?

Pois é.

Eu não sabia o que estava fazendo ali. Com o telefone daquela garota anotado no meu celular e um cigarro aceso, sentada no meio-fio da Santos. Logo atrás do Conjunto Nacional. Números trocados a troco de nada? E não, eu não estou querendo me justificar – veja bem. Eu estava pouco me lixando pra aquela mina. Não era como se eu quisesse trair a Mia ou algo do tipo. Essa ideia não saiu da minha cabeça por livre e espontânea vontade. E eu sei que vai soar como desculpa sem vergonha de gente cafajeste, mas eu realmente não havia agido conscientemente. Não foi intencional, não foi uma decisão minha. Foi mais como uma correnteza, uma perda momentânea de noção. De onde eu estava, do que estava fazendo. O que, de novo, soa esfarrapado e talvez seja. mas talvez as pessoas também sejam mais complexas do que isso. Do que é certo ou errado. Não sei. Me senti um lixo.  

Quando, de repente, o meu celular vibrou. Mal havia acendido o cigarro e sentado ali na rua, ocupada confrontando mentalmente a minha atitude. Olhei rapidamente no visor: a mensagem de minutos antes para o Fer acabara de ser confirmada – é, só então. Fiz um movimento para guardar o telefone no bolso e ele tornou a vibrar, agora continuamente. Era a Mia me ligando. O sinal não estava pegando lá dentro e retornara há pouco, transbordando o meu aparelho. Atendi e ela já começou a despejar em cima de mim, em tom irritado:

_Onde você tá, meu? Por que você não atende??
_Tô na saída da Santos, o meu celular não tava pegando...
_PORRA. Custava avisar? – reclamou, nervosa comigo – Faz dez minutos que tô aqui!
_Eu mandei uma mensagem, meu. Você não recebeu?
_Não, cacete, não recebi nada! Esse seu celular é uma merda mesmo...
_É, eu não vou argumentar o contrário... – ri – Você tá dentro já?
_Tô. Tô no café. Me encontra aqui, por favor, não quero mais rodar...
_Beleza. Tô indo!

Me ergui do chão e meti o celular no bolso, jogando o cigarro ainda pela metade na calçada. Uma velhinha mais adiante me olhou feio por isso. Que que é? Entrei. O café ficava no térreo e eu logo avistei a Mia, estressada com a ineficiência do meu celular dinossaurico e o cabelo preso num coque descabelado sobre a sua cabeça. Vestia uma jardineira jeans de shorts minúsculos, com uma blusa preta de alcinhas por debaixo, e uma botinha de cano curto nos pés. Preciso apagar o telefone dessa mina. O que eu tava pensando?, sorri, ao vê-la ali em pé me esperando. De repente, fazia menos sentido ainda ter feito o que fiz. Ela estava impaciente. Linda pra caralho. Me aproximei e a sua boca já parecia prestes a me xingar. A cumprimentei com um beijo – o qual ela retribuiu – e só então veio a bronca.

_Puta que pariu, hein? Eu subi e desci essa droga cinquenta vezes já. Sem brincadeira: cinquenta, meu! Você viu o tanto de gente que tem aqui???
_Eu sei. Desculpa, achei que tivesse ido a mensagem...
_Juro. Hoje era o PIOR dia pra essa merda do seu celular não funcionar. O PIOR. Você não tem noção do quanto a minha mãe me torrou a paciência antes de eu sair. Quis mandar ela pro inferno, mas meu pai ficou se intrometendo e eu não consegui me defender. Foi um lixo. Tudo o que eu queria era ir embora logo. E a[i chego aqui e você me some, me larga nesse caos, eu já tava empurrando as pessoas pra passar, mano, quase atropelando. Tô muito irritada. Quero MATAR UM.
_Calma. A gente já se achou, meu... Tá tudo certo! – eu ri – Relaxa.
_Olha, você pode espernear o quanto quiser, mas já deu: eu vou comprar outro telefone pra você.
_Não. Nem pensar. Não quero que cê me compre porra nenhuma... Lá vem você com esses papos de novo...
_Essa merda não funciona!!
_Tá. Mas EU compro, com o MEU dinheiro. E quando EU quiser. Não tem essa.
_Considere um presente fora de época.
_Não tem dessa...
_Tá. Te dou de Dia dos Namorados então.
_Cala a boca – eu achei graça.
_Vou dar mesmo...
_Vai? – me enrosquei impulsivamente naquela jardineirinha dela, cheia de gracinha, colocando os meus braços ao seu redor como uma lagartixa que se esgueira parede acima – Hein, vai dar pra mim?
_Affe... – a Mia revirou os olhos, rindo da minha cara.
_Você que disse, mano. Suas palavras, não minhas.
_E por que a pergunta? Eu já não dou o suficiente, hum?!

Ela se divertia, deixando de lado o seu azedume todo. “Defina suficiente” – pedi e ela sorriu. A encarei convencida do contrário, antes mesmo que me respondesse. “Não?”, ela achou graça, percebendo. E eu balancei a cabeça aos risos – não mesmo. Aquele seu sorriso fazia deixava uma sensação morna no meu peito e me fazia apertar os braços ao redor da sua cintura. Em modo automático. A Mia se deixava envolver. Com uma imprestabilidade naqueles seus olhos castanhos tão, tão deliciosa que – meu deus, garota. Eu podia te comer todo dia, o dia todo, e ainda não ia ser suficiente. Nunca. Mas ela me empurrou para longe, de repente, com a mão no meu ombro. E me fez uma careta – “você não merece”, disse, brincando.

_Ah, não?
_Nada. Porque me deixou aqui esperando!
_Opa. Desculpa aí, ô princesa...
_Vai. Vai nessa. Fica com ironia mesmo! Sua babaca... – ela sorriu, me puxando pela mão sem muita atenção com quem passava em volta de nós – Vai, vamos sair daqui... Já peguei bode desse lugar.
_Às suas ordens, madame... – respondi, rindo.

Marchamos grudadas para fora daquela livraria como duas adolescentes que tomaram muita droga escondidas dos pais, cutucando compulsivamente uma à outra e rindo, meio descabeladas – eu com o meu ninho de mafagafo loiro, o de sempre, e ela com o seu coque moreno meio desmazelado. A Mia se indignava com a roupa que eu estava usando. “É assim agora, né?”, me zombava, “antes você se arrumava toda pra me ver, agora que as coisas esfriaram cê não dá a mínima...”. “Mano, QUANDO você me viu arrumada?”, eu me divertia. “Ok. Mas nunca foi tão largado assim”. “Em que mundo cê vive? Eu tô sempre um mulambo, mulher, tá louca? Não era comigo que cê tava saindo, não. Cê tá lembrando de outra aí...”, brinquei. E ela me fez um joinha com a mão: “É. Eu e as várias mulheres que eu já peguei na vida”. “Besta”. Nós duas ríamos.

Chegamos na calçada e o sol ainda não tinha se posto, o que me animou a aproveitar o fim daquele sábado. Sugeri passarmos em algum bar na descida da Augusta. E os olhos da Mia só faltaram implorar – por favor, sim! –, louca para esquecer o drama todo com a mãe em casa. Tirei o maço do bolso e a sua mão ocupou automaticamente aquele espaço no meu jeans. Então aconteceu. O mesmo que antes: foi pisarmos na calçada que o meu celular vibrou, no bolso ao lado. Minhas mãos estavam ocupadas na hora. Com o isqueiro e aquele vento de merda que sobe da Augusta até a Paulista, impedindo qualquer fumante de cultivar o seu vício.

_Espera – a Mia pediu – O seu celular tá...

Aconteceu rápido demais. Ela o puxou do outro bolso antes que eu pudesse tirar o filtro da boca e contestar. Merda.

maio 29, 2014

Pode. Pode?

“Estou só olhando”, respondi, sem nem olhar para o lado. A minha mão estava ainda sobre o livro quadrado de arquitetura e a outra ocupava-se em por o celular de volta no bolso. Fingi por um instante estar de fato olhando na direção das obras destacadas sobre a mesa, só para despistar – não havia ninguém praqueles lados da Cultura e a última coisa que eu queria era socializar com alguma funcionária. “Tem certeza?”, ela insistiu, “eu não estou fazendo nada agora no setor, posso te ajudar a encontrar algum livro”. Eu balancei a cabeça.  E achei graça na sua disposição para trabalhar – se fosse eu, estaria me fazendo de ocupada entre as prateleiras só para não ter que falar com ninguém. Dei um passo para o lado e os meus dedos deslizaram desinteressados sobre um livro de paisagismo.

_Você estuda arquitetura? – a funcionária me perguntou.
_Não. Mas meio saio com uma garota que estuda.
_Ah...

Os meus olhos seguiram desatentos por uma obra ou outra, já quase ao fim da mesa. “Alguma coisa para ela, então?”, a garota me perguntou. E eu estranhei. “Não”, respondi, rindo, como se fosse óbvio. E só então subi o meu olhar até a atendente – agora curiosa. “Não?”, ela sorriu, me olhando de volta, diretamente. Eu achei graça. “Não”. Ela acenou com a cabeça, captando a confirmação, e apoiou as duas mãos sobre a mesa. Eu dei mais um passo adiante. “E você, estuda o quê?”. Tinha uma sensação esquisita no estomago, os meus dedos deslizavam pelas capas dos livros. “Nada”, ergui os olhos mais uma vez. Realmente curiosa. E os abaixei logo em seguida. Ela usava os cabelos ruivos, repicados logo abaixo da orelha. Parecia um ou dois anos mais nova do que eu – “nada?”, ela riu. E eu balancei a cabeça.

_Cara, você não está ajudando...
_Não, né? – eu concordei, achando graça.

Ela sorriu. Olhava na minha direção sem qualquer constrangimento – você está dando em cima de mim?, a ideia me divertiu – e a encarei por um instante de volta. É impressionante a capacidade que temos de nos comunicar com apenas pálpebras e pupilas. “Você trabalha?”, ela perguntou, antes que eu desse mais um passo para frente, pegando um livro qualquer nas mãos. “Nada de interessante”. “Duvido”, me olhou mais uma vez. Juro. Às vezes, penso que as bichas e sapatas vivem tão à parte, tão escondidos, que desenvolvemos esse tipo de habilidade. Como um código. Para a nossa própria sociedade secreta – nos olhamos e sabemos. Sabe? Nos identificamos. É como nos comunicamos na rua, como damos em cima uns dos outros sem sair do armário. Sem nos expor. “Trabalho de assistente numa produtora”, a olhei de volta. “Ok. Acho que não temos livros sobre isso”, sorriu. E ajeitou o próprio cabelo. De forma despretensiosa. Tinha alargadores pequenos e pretos em cada uma das orelhas, desses de 5 ou 6 milímetros e que fazem uma curva quase em espiral. São bonitos, pensei.    

Todos os funcionários da Cultura eram meio porraloucas. “Eu posso ver a sua tatuagem?”, a garota me perguntou então. “Oi?”. “Eu tava vendo ali de trás”, disse, “antes de vir te atender... Achei tão bonita”. Eu estava com uma camiseta branca, já um tanto velha e batida, que coloquei só para ajudar a Lê a raspar o moicano e que escondia a maior parte dos rabiscos no meu corpo. “Qual delas?”. Ela se aproximou do meu lado direito, respondendo – “essa”. “Essa aqui?”. Ergui a manga, revelando o restante das rosas que cobriam o meu ombro. Aquela era a favorita da Mia – gostava do fato de que nós duas tínhamos flores cravadas na pele, ela dizia. “São lindas”, a menina comentou. E segurou no meu braço, escorregando o dedo por cima das linhas. Eu a olhei de volta, de perto. Descaradamente. Filha da mãe. Observei, achando graça, conhecia aquele joguinho até bem demais.

_Você tem alguma? – perguntei.

Ela ajeitou o corpo para mais perto de mim. “Só uma”, tudo acontecia de forma muito sutil. “Mas queria fazer mais. Você tem outras?”. É. Eu ri – “algumas”. Arqueei a sobrancelha, como se indicassem não serem poucas. “Algumas?”. “É”. “Quantas?”. “Acho que oito, não sei bem...”, respondi e fiz graça, “algum livro pra me recomendar?”. Ela riu, bagunçando a franja com a própria mão. Se divertia comigo – “olha, uns bem melhores do que de arquitetura...”. Eu ri. Tenho certeza disso. Concordei com a cabeça e ela me olhou, agora sem sequer disfarçar o seu interesse. Desgraçada. Isso não vai prestar. A Mia estava para chegar, a qualquer instante.

_Escuta – sem pensar direito, fiz então o que a antiga eu faria uns meses antes – Por que cê não me passa seu telefone e a gente vê esses livros outro dia...
_Outro dia só? Eu posso te mostrar agora, se você quiser...
_É, mas... – subi o olhar e ela tinha todas as suas intenções fixas na minha direção – ...acontece que eu não trouxe dinheiro hoje – brinquei –, vai que eu gosto de algum livro e quero levar. Não é?
_Sei.
_E outra: hoje eu também não posso ficar, vim encontrar alguém.
_Hum. A arquiteta?
_É. A arquiteta – confirmei e ri.