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Janeiro 27, 2012

Águas passadas

No outro dia, acordei como se de um sonho. Como se imaginara tudo aquilo. Completamente alheia à Mia e ao meu sentimento bêbado ressurgido por ela, na madrugada anterior; à nossa discussão no corredor. Como se nada tivesse, de fato – e em nenhuma estância –, acontecido. O pedido, a raiva, o tal do “nunca”, o meu amor por ela, as minhas lágrimas, o escuro, o silêncio, a Clara. Como se todas estas peças não fizessem parte de uma realidade sóbria. Pareciam agora, pelo contrário, tão tão distantes. De repente, não sei, retidas em algum lugar obscuro da minha memória.

Recuperada a consciência, levantei por fim e sentei na beira da cama, como se acordasse de uma grande dor de cabeça e com resquícios de ressaca. Isto tudo..., suspirei confusa, ...aconteceu mesmo?, olhei para a frente, intrigada pelos eventos surreais da noite anterior e pelas consequências da minha embriaguez já fora de controle. Precisava parar de beber – eu bem sabia e este era, no entanto, o tipo de promessa pela qual eu jamais moveria um palito na minha vida. Independentemente de quão freqüente eu a fizesse (e a fazia).

Respirei fundo. Olhei para o lado e vi a Clara, aconchegada sob o lençol, dormindo. As pessoas parecem inofensivas quando dormem, refleti à toa. Observei-a por algum tempo. Gostava da tranquilidade contida naquele breve espaço de tempo, logo pela manhã, em que ninguém acordara ainda e tudo continuava parado, meio que em stand by. Sempre tive mania de contemplação. Absorvia o mundo com os olhos; os meus momentos de maior calma eram estes. Olhei a Clara por alguns minutos, sentada nua contra o encosto da cama – ainda que o tempo lá fora estivesse chuvoso, frio –, a sua pele branca e as pintinhas e o cabelo moreno bagunçado sob o lençol. Estava bonita, e inofensiva.

Acariciei-a por toda a extensão do braço, escorregando as costas da minha mão lentamente até o seu rosto, e deitei ao seu lado. Ela acordou. Disse-lhe então que precisava ir, aquele seria meu primeiro dia de trabalho. A sua voz baixa murmurou que iria, portanto, também. Levantamos e fomos tomar um banho rapidamente. Talvez não tão “rapidamente”, ok, mas juntas. Há tempos eu não entrava debaixo do chuveiro acompanhada de uma garota. Este era o tipo de coisa que eu costumava fazer com namoradas; me lembrava de certa forma a Marina e os seus hábitos de signo d’água.

Às vezes, naquela época, se estava realmente calor passávamos tardes inteiras sentadas ensopadas dentro do box, no apartamento dela, conversando e rindo muito de qualquer coisa. Distraí-me por um instante, nostálgica. Logo, porém, as gotas que escorriam pela cintura da Clara e as suas mãos argentinas trataram de me trazer de volta – e muito bem – à realidade. O café-da-manhã que se seguiu foi divertido e leve, engraçado. Falamos incansáveis, enquanto os cabelos molhados pingavam sobre a roupa, sozinhas na cozinha. Antes da entrada do metrô, ela me perguntou: “você vai para lá?” e eu comuniquei que iria andando, ainda está cedo, a produtora era a duas estações dali e quase na Paulista. Dei-lhe um beijo, sincero. Demoramos; e fomos cada uma para um lado.

O dia estendeu-se leve e descomplicado, com o mesmo sentimento daquela manhã. De alguma maneira, eu estava estranhamente feliz. Com o emprego, com tudo, sei lá. As pessoas ali eram interessantes, novas – eram outras. E isto me intrigava. Conversei com quase todas, fiz bem pouco e observei muito, muito mesmo, ao longo do dia. Passou rápido. Mandei, já no meio da tarde, uma mensagem para a Marina. Genuinamente querendo vê-la. E lá estava ela me esperando frente à produtora assim que eu saí, apoiada contra o carro, atrás de seus óculos pretinhos. Tirei o gorro – destes descolados que caem, por excesso de tecido, para trás – e sorri ao vê-la ali.

_E aí? Vamos? – ela me olhou aproximar, contente.
_Aham.

Havíamos combinado de jantar, talvez no Kiichi.

_Buenas, então... – disse, entrando no carro dela, me acomodando no banco do passageiro – ...fodi de vez as coisas com a Patti lá. Tô comendo a Clara agora, e você? Alguma novidade aí?!
_Não tô mais com a Bia, terminamos – riu.

Janeiro 20, 2012

O Efeito Casimir

Sentia o coração acelerado, agora em silêncio total – entrando no meu quarto, as luzes apagadas e a Clara já deitada, acomodada na cama. Uma batida atrás da outra, merda. Atropelando-se, fortes. Isto não é certo, cara. Tomar no cu. Suspirei. A contragosto, doloridas, as lágrimas continuavam engasgadas na minha garganta. Não comigo, garota; não assim. Minha respiração acompanhava o ritmo acelerado do meu pulso, dificultando-me encher direito os pulmões. De raiva, imensurável frustração. E de um momento para outro, a minha cabeça parecia se esmagar com o pesar de toda a fumaça que eu respirara por horas na mesa de jogo, de todos os cigarros, os baseados, os copos de whisky e Coca com vodka, toda a confusão no corredor.

Bastaram dez minutos – entre estar lavando a louça remanescente da noite de apostas na cozinha a enfim a porta do meu quarto. O que diabos foi aquilo? Eu me deixava torturar pelas possibilidades, de repente. O que diabos...? Em meio ao breu, as pernas plenamente descobertas e cercada de travesseiros, a Clara me chamou. Como se confirmasse que era mesmo eu quem estava ali, parada há minutos. Estava em pé em frente à porta.

Por que, por que... diabos ela...?

Argh.
Alguns sentimentos são piores quando se está bêbada. Neste nível. E eu sentia o meu coração doer de dúvida. Contorcer-se e rasgar, repentinamente sufocado, sem ar – indignado e contrariado pela invasão recorrente da Mia à porra dos meus órgãos, ao meu corpo. Aos meus pensamentos, mas que inferno. Por que, cara..., lamentei, por que você não me deixa em paz?! Sentia uma raiva como nunca antes dela, da sua atitude. Por quê, caralho?! A minha cabeça corria a mil, imersa uma a uma nas suas palavras, tentando em vão processar a discussão e esforçando-se para lembrar de tudo o que eu havia lhe vomitado sem pensar nas conseqüências. Não queria lidar com aquilo, não mesmo.

Mas, de alguma forma, me via obrigada. Meio abruptamente, sentei na beira da cama e acendi um cigarro para me acalmar; com os pensamentos todos obcecados pela Mia. Maldita. E pelo que eu nunca deixara de sentir por ela. Presa para sempre neste rolo de merda, argh. Não, me contive no mesmo instante, isto não. Porque ela, não, não merecia mais nada de mim. Mais nada. Você bem sabe... tudo, garota, tudo o que eu te dei. E que nunca te importou a mínima. Tudo o que eu cedi de mim. Do meu foco, da porra da minha vida, da minha lealdade, das minhas traições, das minhas amizades..., traguei lentamente e as mãos da Clara passearam suaves pelas minhas costas, ...do meu coração, da minha frustração. Da minha dor.
É. Não dava a mínima para ela! Mas lá estava, de repente. Inconveniente. E agora você vem, né? Balancei a cabeça, indignada, soltando a fumaça junto com a minha raiva, fora de controle. Agora, né, porra?!, ri de nervoso. A Clara notou e perguntou se estava tudo bem, sentindo a tensão no ar, mas eu a ignorei, completamente voltada aos pensamentos. Por quê, hein?! Por que não veio meses antes, por que me colocou nesta, por que me fizera passar por tudo aquilo. E não pense por um segundo, desgraçada, que a culpa não é sua. Há muito tempo e com muito, muito custo me convenci de que não foi erro meu. E não foi.

Foi seu, garota.


Progressivamente os meus pensamentos iam à contracorrente, me sufocando. Ela, porém, me desarmava sem esforço. Ah, maldita. A minha respiração pesava, cada vez mais. Você não podia vir quatro, cinco meses antes? Continha as minhas lágrimas com certo esforço. É erro seu porque eu que tive que te esquecer, que me forcei a te esquecer. Que me forcei a não passar mais por esta merda, a não te esperar, a não te querer, sua filha-da-mãe. Dei mais uma tragada e amassei o cigarro contra a parede, num impulso. Não conseguia fumar, inquieta.

Joguei-o pela janela aberta. Sequer me importava com o pedido repentino, com o drama todo, a situação com a Clara, o seu ciúmes. Não era novidade para mim, então foda-se. Poderia até esperar, antes, que o fizesse – certamente não previ a audácia, mas bem sabia que ela retia estes pensamentos dentro de si, que a detestava. Ela..., senti a minha cabeça confusa, ...e ela não..., passei ambas as mãos no rosto, frustrada, pensando na Mia. Pensando por que o que me incomodava, o que de fato me incomodava, nas suas palavras... era apenas uma.

“Nunca”. Uma palavra que lhe escapara. E que agora levava aos meus olhos as doloridas lágrimas até então engasgadas na minha garganta. Como não? Como não disse? Elas desciam lentas pela minha pele, indesejadas. O choro me causava dor de cabeça, ficava tensa. Não, espera. Não disse. Chorar, de fato chorar, me era extremamente desconfortável. A mim, que sempre contive as expressões mais óbvias de tristeza. “Eu nunca disse isto”, lembrei dela dizendo, contrariada. Respirava com pesar e tentava, num esforço desproporcional, reter as lágrimas. Não disse. Ela, ela não disse. Nunca disse – a Clara sentara ao meu lado e colocou, conforme as implicantes linhas molhavam o meu rosto, os braços ao meu redor. Internamente, eu não me conformava: Você é uma covarde, sabia? Ah, você é tão, tão covarde... Mia.
Porque dizer-me e só então era covardia. Das piores. E a Clara também disse, neste meio tempo, algo – mas eu, conturbada, não conseguia prestar atenção nela. Por um instante, a sua voz me parecia realmente longe, distante. Acho que perguntou se eu queria que ela fosse, não sei. Não a ouvi direito e não a respondi: ela ficaria. A minha confusão ressoava alto dentro da minha cabeça. Ainda que não disse, eu sei melhor. Me forcei a contrariar a (ainda que) mera sugestão do que ela “nunca dissera”. Você..., enxuguei as minhas lágrimas do rosto, com rancor, e me obrigando a acreditar no contrário, ...você nunca me amou.

E você não me ama agora
. Já chega.

Janeiro 18, 2012

"Take what you need

…and be on your way.” 
(Stop Crying Your Heart Out)

_Foda-se! – gritei com ela, perdendo de vez o controle na discussão – Foda-se, Mia! – e então retomei um tom mais baixo, tentando não alertar os demais, mas ainda agressiva – Você acha que eu ligo, cara?! Você acha que importa??? Acha mesmo que faz diferença?? Agora?!? Porra, mano... Cê quer saber mesmo?! O que importa, Mia, é o que você disse... E você nunca, nunca... teve a... coragem... de me dizer porra nenhuma! Aliás, de fazer qualquer merda! De mostrar que gostava de volta de mim. Você nunca fez nada, Mia... nada! E agora você espera que eu faça o quê, caralho?! Hein?! Me diz, meu, o que você quer que eu faça com a porra da minha vida?!?
_Eu... eu sei! – lamentou; as lágrimas escorriam pelo seu rosto e ela ensaiou encostar uma das mãos em mim num impulso, mas logo desistiu, no meio do caminho; aí me olhou com pesar, quase implorando – Só... não... não isso. Por favor. Não isso. Não com ela!

Passei as mãos no rosto, engolindo seco todos os meus sentimentos, dos mais revoltantes e impensáveis, tudo o que me doía em ouvi-la falar. Nervosa e indignada, com esta merda de pedido. A Mia hesitou por um instante, chorando e me olhando como quem se arrepende do que vai dizer antes mesmo de pronunciar as palavras. Argh. Eu não aguentava mais ficar ali – aquilo era surreal demais, inferno. E ela percebeu.

_Olha, eu... eu sei que... que eu não tenho... – se apressou em dizer, soluçando e ansiosa para que eu não fosse, interrompida involuntariamente pela respiração pesada – ...que eu não tenho nenhum... nenhum direito de...
_É. Você não tem, mesmo – a interrompi.

E dei as costas, grossa. Não ia ouvir mais uma palavra daquilo.

Desencadeamento

_O quê? – pensei, parando por um segundo como se não tivesse entendido direito, e não consegui não rir, bêbada.
_Eu não... não quero que você... – hesitou, na segunda vez – ...não quero que fique com ela.
_Você não qu...?! – levantei a voz sem perceber, indignada com o descaramento daquele pedido, de repente – Eu?! Você não quer que eu fique com a Clara?! É isto??
_Fala baixo, meu... por favor...
_Não, agora você me explica, sério... Por que, hein?! Me diz só isto: por quê?! Por que diabos não ficaria?! Olha, na boa, Mia... – prossegui, me deixando irritar (filha-da-mãe!) pela falta de consideração dela comigo, com a nossa história, com os ocorridos dos meses anteriores, com qualquer merda que fosse; argh – ...por quê?! Por que não, hum?? O que me impede?!?

Não me respondeu, claro. Me olhava, contrariada e com os olhos prestes a proferir lágrimas petulantes, retraídas a muito custo. Mas o silêncio a denunciava. Não tinha argumentos, nenhum que justificasse tal pedido sem fundamento. Argh. Eu estava de saco cheio daquilo, daqueles jogos dela, daquela imaturidade – preciso dar o fora daqui, agora. Respirei fundo e me virei, determinada a ir para o quarto e deixar que passasse. Nas mãos da Clara.

Dane-se a Mia.

No entanto, num breve e previsível momento de descontrole, possivelmente movido ao álcool e às rodadas ilegais que já me afetavam o bom julgamento, dei dois passos de volta, tomada por um rancor incontrolável. Frustrada, senti o sentimento crescer em mim e a encarei como se não tivesse nada a temer ou a esconder.

_Não foi você? – retruquei do nada, num tom agressivo – Hein, porra?! Não foi você que disse que queria tentar? Que queria ele?!
_Não faz isto... – ela murmurou, magoada.
_Que não me queria?!? Não foi VOCÊ?!?! – continuei, ignorando-a; sentindo todas as emoções voltarem em mim à flor da pele – O que, cara? O que você quer de mim, Mia?! Me fala, na boa, porra... o que você quer?!
_Eu s... – hesitou, de repente constrangida.

Eu a olhava fixo, com um pesar horrível – a sua falta de coragem, as explicações que sempre me escondeu, me doíam. Revoltei-me mais ainda.

_O que você quer que eu faça? Hein, porra?!? – me segurei para não gritar com ela, em meio ao corredor vazio – O quê?! Você quer eu fique te esperando?!? É isto?? E até quando? Pra sempre, meu?? Presa a você, à... à merda que nós tivemos e que sequer significou alguma coisa nesta porra da sua vida! É isto que você quer, caralho?! Que eu fique sozinha?!? Que eu fique sem você e sem ninguém... – senti as lágrimas de raiva me subirem pela garganta, realmente bêbada e inconseqüente; merda – ...rasgando meu coração por você, mano, te assistindo lá com ele?! Hein?!? É isto que você quer??
_Não! Claro que não!
_Na boa, Mia... Você acha que eu gosto disso? Que eu quero isso?!? – me irritei ainda mais; me deixando tomar pelo calor da discussão, pelo absurdo – Você sabe o que eu quero, o que eu sempre quis... – me aproximei por um instante dela, com rancor nos olhos; machucada e subitamente vulnerável – ...VOCÊ, eu sempre quis você.

Me arrependi no segundo que falei. Senti o ódio tomar conta de todo meu corpo, detestando a nós duas. Ela me olhou quieta de volta. Prestes a desabar a qualquer momento. Os seus olhos estavam inchados, como jamais os vira antes, e agora eu a odiava mais do que nunca. Não me disse nada; apenas me encarava covarde, impedida – fala, desgraçada, porra! Mas ela não falou. E nem nunca falaria, isto era o que mais me doía.  Então continuei, desimpedida, desencadeando o que segurei esmagado por meses dentro de mim, numa verborragia que eu não conseguia evitar. Descontrole alcoólico. E que me machucava ainda mais.

_Por meses, cara... – retomei, num tom mais baixo e ainda com raiva – ...por mais de um ano, Mia. Porra! Foi só você. SÓ você. Mas... mas o que diabos você espera que eu faça?!? O que, mano?!?! – ri de nervoso, com os olhos mareados e a cabeça completamente desnorteada – Hein?! O que eu faço?? Me fala, o que faço??? – subi mais uma vez a voz, novamente irritada – Não foi você, porra?! Não foi você que me deu um puta fora? Há meses?! Hein?!? Que não me quis, que preferiu ele?? Que não me amava?!?
_Eu NUNCA disse isso! – me interrompeu de repente, chorando, subindo pela primeira vez o tom de voz.

Ah. Foi aí que eu fiquei, realmente, indignada.

Janeiro 17, 2012

Linhas inimigas

Aquilo, nitidamente, não havia sido ideia dela. O jogo. Assisti o seu desconforto crescer. Diante dos meus olhos, em silêncio, por toda hora seguinte – e o Fer sequer notava, a própria namorada, ocupado em me derrotar no meu jogo favorito. Sem chance. Observava-a, já eu, fixamente. Como um erro consciente. Não conseguia de repente, num impulso inédito nos últimos meses, evitar. Com a Clara ao meu lado e olhos na Mia, do outro lado da mesa – mas não como anteriormente, não por admiração oculta. Uma dose atrás da outra, a garrafa de whisky incompleta ao seu lado. Ela perdia, aos poucos, a noção de limite. As cartas pareciam não lhe importar, sem ânimo ou vontade alguma, me odiando ver acompanhada. Com ela, com a Clara.

Sua agonia me incomodava, me irritava, de modo particular.

Por outro lado, tão pouco importavam as cartas à minha parceira da noite. Agora que jogávamos sozinhas uma rodada de Pôker, não mais Canastra em duplas separadas e lados opostos na mesa, ela pôde enfim se sentar junto a mim. Deixara sua mão repetidas vezes virada sobre a mesa, enquanto me provocava – baixinho e imprestável – no ouvido. Eu ria, sabendo o que me aguardava no quarto aquela noite. Achava graça na diversão dela em me vender, das mais criativas formas, o que eu já tinha. Sem tirar o foco das cartas, eu ria dela. Fumava o meu segundo baseado do dia. Estava aérea já e me embebedando numa velocidade fenomenal junto à Clara e ao Fer. Mas os olhos da Mia sempre davam um jeito de encontrar os meus. E eu a encarava de volta, sem saber o que lhe “responder”. O que justificar.

Não dava satisfação nenhuma, então – dane-se! Não era da sua conta, afinal. O que eu fazia ou deixava de fazer e com quem. Olhei para o outro lado, tentando não me permitir irritar pela petulância do seu desconforto. Me sentia no pré-primário, como nos meses em que me importava com a sua presença; tudo de novo. E não podia deixar que acontecesse, que me afetasse. Isto não, eu me recusava. A Clara por sua vez insistia em me desconcentrar, mas de um jeito completamente diferente.

E muito, muito melhor.

Desejando-me “boa sorte” aos sussurros delicados, maldita, no meu ouvido. Àquela altura, as duas já haviam saído da rodada, entregado os pontos à nossa sagacidade. Restávamos eu e o Fer, antigos rivais naquilo, com as cartas em mãos e os olhos um no outro. Vai nessa, desgraçado! Com gosto, contudo, a Clara beijava a lateral do meu pescoço e subia, tornando a minha tarefa ali realmente difícil. Por diversas vezes. Bêbada em excesso, chapada além do que deveria na noite anterior ao meu início na produtora – óbvio que isto não vai dar certo, sentia o calor me subir por dentro das calças. E ela conseguia tirar o meu foco por alguns milésimos. Eu não ia tolerar aquilo.

_Olha, eu já saquei a de vocês dois, viu... – eu disse, com os olhos presos ao meu jogo, e ri – ... você tá trabalhando pra aquele panaca ali só pra me fazer perder, não é?
_O quê?! – a Clara começou a rir, me dando um tapa no braço e a Mia revirou os olhos, noutro canto da mesa – Claro que não! Que absurdo isto!
_É, é. Isto mesmo... bom trabalho, comparsa.

O Fer achou graça e disse, rindo junto conosco.

_Vocês dois, hein, pode parar com a acusação. Não tô nada, meu!
_Nem vem... – ri – ...eu já saquei qual é a sua, garota.
_Todo mundo já sacou... – a Mia disse, murmurando com ironia num descuido e levantando as sobrancelhas.

Subi os olhos por cima das cartas e a encarei, como se não aprovasse o comentário infantil dela. Sério mesmo?! Um pouco menos discreto, o Fer também a olhou logo ao seu lado e fez um gesto sutil com a mão como se perguntasse a mesma coisa que eu, como se apontasse o óbvio desrespeito e falta de educação dela. “Porra, amor”. A Clara, porém, pareceu não se importar; acostumada com a estranheza da Mia na sua presença, me disse depois naquela noite. Me abraçou persistente pelo pescoço, cheia das más intenções, me dando um beijo alguns segundos mais demorados na bochecha. Eu sorri, meio sem intenção; incomumente feliz por tê-la comigo naquele domingo. Voltei os olhos às cartas e foquei-me mais uma vez. Ah, eu vou ganhar esta porra.

E ganhei, mesmo. Ambos no blefe absoluto: segurando, cada qual, um mísero par nas mãos. O meu, contudo – formado por duas belíssimas rainhas, claro –, prevaleceu contra o dele. Abaixou seu casal perdedor de valetes e eu pulei da cadeira em êxtase absoluto, batendo vitoriosa na mesa e quase derrubando tudo. A Clara ria e o Fer resmungava qualquer babaquice frustrada para a Mia ao seu lado, que o ignorava categoricamente, me olhando fixamente de volta. Tomou! Tomou! Ok, tá. Eu podia ser péssima vencedora, mas o Fer era mil vezes pior perdedor. Mais ainda quando era de mim: a nossa guerra – neste sentido, digamos – era antiga.

Acabada a rodada de jogos, a Clara retirou-se para deitar-se no quarto – e eu a imaginei imprestavelmente tirando toda a roupa, enquanto esvaziava o cinzeiro no lixo da pia da cozinha e o colocava sob a água corrente. Em breve, pensei sem reservas, celebraríamos e em grande estilo a minha vitória. Dominada pelas minhas piores intenções. Isto e, talvez, pelas excessivas doses consumidas na hora anterior. É, talvez. A Mia entrou na cozinha, me acordando da minha divagação, e deixou três copos com restos de whisky ao meu lado na pia; o Fer veio poucos instantes depois. Alcançou-a, tocando-a com carinho nos ombros, e avisou que ia tomar um banho. Ela concordou, ambos murmurando. E ele saiu.

Já ela, ficou.

E junto com ela, aquele silêncio constrangedor. Entre nós. Nada, nada bem. Lavei duas vezes o cinzeiro, impregnado daquele cheiro enjoado de erva e cinzas regulares – de quebra, o fiz também com os copos deixados por ela e enxagüei tudo. Olhei então de relance por cima do meu ombro e ela estava ali, apoiada contra a mesa, a alguns metros de mim. Quieta – a cabeça baixa, constrangida. Enxuguei rapidamente as mãos, largando o pano de qualquer jeito sobre a pia e me virei, encarando-a numa atitude agressiva pela qual ela não esperava. A Mia ergueu os olhos, com alguma verdade engasgada na garganta, contida no olhar – eu podia vê-la, mas longos segundos se passaram sem que nada acontecesse. Nada da boca dela. Típico. Dei de ombros, sem paciência para aquela ceninha, e caí fora sem voltar mais a minha atenção à sua direção. Quando eu já estava na metade do corredor, no entanto, ela me puxou pelo braço, por trás, e me obrigou a virar encarando-a. O que agora...

_Não quero que você fique com ela – a Mia me pediu, do nada, forçando-se a conter o que sentia nos olhos já marejados.

Janeiro 13, 2012

Eleuteromania

Minha índole e o infeliz órgão pulsante que habita meu peito sempre tiveram maneiras muito distintas de conduzir suas respectivas existências. Este segundo é absolutamente aleatório, irracional. Acelera nas piores situações, com as menos desejáveis garotas, as menos propícias para mim, me prega peças constantes. Finge que não quer e aí ressurge, sempre ressurge. Desgraçado. A primeira, a minha índole, já não. Esta sempre se comportou dentro de uma lógica bastante errada, mas – e eu não vou entrar no mérito do quão errada – no fundo, já não me surpreendia mais.

Nunca liguei para garota nenhuma, sempre me dispersei e com consciência. O que eu sentia pela Clara naquele momento, porém, era muito parecido com o relacionamento mal-resolvido e sadomasoquista que sustentei por anos com a Dani – e que muito provavelmente ainda ia sustentar por muito tempo na minha vida. Ainda que não me apaixonasse por este tipo de garota, das que iam e vinham na minha cama de tempos em tempos e permaneciam imutáveis, elas me fascinavam. Simplesmente não conseguia evitá-las. Me sentia atraída pela ausência (ou promessa) de romantismo, de boas maneiras. De regras. Éramos cruas, narcisistas, soltas, sempre metidas numa incessante disputa de egos – que às vezes me esgotava –; e o sexo era fenomenal. Eram meus relacionamentos mais sinceros, mais divertidos.

Contraditoriamente, eram estas as garotas com as quais eu sentia absoluta liberdade em ser carinhosa. Com as quais eu podia fazer todos os lances bobos de casal, engasgados dentro de mim – reprimidos graças às péssimas escolhas do segundo, o infeliz órgão pulsante –, sem me preocupar com o efeito que isto teria nos sentimentos delas. Nos entendíamos silenciosamente. Não nos dávamos (pelos mesmos motivos) com o restante das meninas, ávidas por amores repentinos, e nos usávamos em contrapartida. Não tínhamos e nem nunca tivemos a intenção de namorar, nenhuma de nós amava uma a outra. Cada qual levava, sozinha, a sua própria vida. Os seus problemas, os seus relacionamentos. Mas nos gostávamos continuamente como quem gosta de um amigo que te entende. Por dentro, pela mais obscura verdade. Resumindo: não nos precisávamos, apenas nos queríamos – e há uma boa diferença aí.

O que não quer dizer, claro, que fosse um mar de rosas. Não é. Ainda somos garotas, after all, e garotas – todo mundo sabe – sofrem de uma dependência crônica por drama. Ainda mais garotas como nós. Obviamente nos trombávamos. Invariavelmente. E a lista nada modesta ia de discussões na madrugada, brigas, ciúmes, traições, algumas doses a mais até sinceridade, excessos, drogas, sumiços, hematomas, cenas dispensáveis, provocações, surtos, crises existenciais, lances realmente pesados no meio do caminho. Não tínhamos limite e nem quem nos controlasse. Não tínhamos relacionamentos saudáveis à parte para nos colocar de volta no chão. Acabava que nós dávamos sempre um jeito de nos encontrar, violentamente, e de nos relacionar com uma intensidade desproporcional, nos usufruir sem pensar a respeito ou moderar. E inevitavelmente, no final, alguém saía machucado – mas não o suficiente para que impedisse uma próxima vez. Como eu disse: minha índole, em toda sua lógica subconsciente, não conseguia evitá-las.

Mas agora não era tempo de pensar sobre isto. Ainda não. Não naquele fim de tarde, lento e ocioso, naquele domingo calmo; trancadas, dentro do meu quarto mal-iluminado e de propósito. Deitada ali com a Clara há horas – lhe fazendo carinhos despreocupados, dando voltas a esmo pela superfície do seu corpo descoberto apenas com as pontas dos dedos. Hum. Ela fumava um baseado, o resto do que eu apertara na madrugada anterior, e observava o teto. Os braços atrás da cabeça apoiada. Já eu, deitada de barriga para baixo, viajava ao seu lado. Passeava com uma das mãos pelos os seus contornos, magnificamente delineados. E ríamos, sem motivo. Cara, eu já estava realmente chapada. Mas, numa brisa boa, um tanto fora da realidade. Pelas horas enfurnada ali, com ela. Sabe aquele sentimento pueril? De que não existe (e não existia) nada além do quarto.

Alguém bateu na porta.

Ergui a cabeça num susto e olhei para a Clara, que me olhou de volta, rindo. Nos interrompendo, à realidade. Levantei a muito contragosto, resmungando qualquer coisa sobre provavelmente ser o Fernando vindo me encher o saco, e procurei o mesmo blusão de algumas horas antes. Estava largado no chão, o vesti. Me cobria até quase metade das coxas, então não vi necessidade em achar meio à bagunça também a minha calcinha. Fui assim abrir a porta e encontrei, de fato, o Fer. Do outro lado e já ligeiramente bêbado, simpático, com um cigarro na boca.

_Fala – eu disse, curta e grossa, roubando o cigarro sem pedir e dando uma tragada.
_Então, estamos... jogando cartas, eu e a Mia... – o devolvi, enquanto ele falava – ...vim ver se vocês não querem jogar, a gente queria fazer uma rodada em times.

Janeiro 12, 2012

À Pele

"Well, you can get out of this party dress,
But you can't get out of this... skin." 


Bati a porta do quarto atrás de mim, a ceninha da Mia me irritara. Há muito não me deixava afetar por o que quer que aquela garota fizesse – e não é agora que pretendo voltar. Talvez fosse a situação com a mensagem de manhã, a Patti. Contudo, não, algo não estava certo naquela liberdade toda. De ir e fazer o que bem entende, na frente de quem quiser, para provar um ponto que sequer era válido. Pura infantilidade, argh. Respirei fundo, deixando o ar escapar dos pulmões conforme caminhava de volta para a cama, e a Clara me olhou assustada com a barulheira repentina. Ainda com as pernas de fora, vestida no meu camisetão, sentei-me ao seu lado e alcancei um cigarro na cômoda lateral.

_Tá tudo bem? – perguntou, me tocando delicadamente, colocando cada uma das pernas ao lado do meu corpo e moldando-se nas minhas costas.
_Tá – respondi, mentindo, acendendo o cigarro –, não foi nada.
_Hum... – ela deslizou as mãos por debaixo da minha camiseta, pela minha pele; falando suave e casual – ...não quer me contar?
_Não.

Levantei e busquei o cinzeiro ao lado do computador, sendo um tanto grosseira. Ela subiu uma das pernas, deitando-a frente ao seu corpo, sobre o lençol, e me encarou por algum tempo. Aí olhou para o lado por um segundo, como se calculasse, e achou graça em algo que pensara. Voltou-se novamente para mim.

_O que é?! Não pode me contar? – riu, ofendida.
_Posso – disse seca –, só não faço questão.

“Então tá”. Ela me observou, surpresa com a sinceridade.

_Isto... – fiz um sinal com a cabeça, indicando a cama – ...não muda nada. Não é como se agora, de repente, a gente fosse melhores amigas. Porque não somos, garota. Meus problemas não são da sua conta.
_Uau, hein?! – forçou uma expressão apática, irônica – você mudou mesmo, desde aquele tempo.

Muita coisa mudou; não era exclusividade minha. Retirei o cigarro dos lábios e deixei com que a fumaça saísse lentamente. Bati-o no cinzeiro, de leve. Olhei pela janela, o dia estava calmo e de certo irrelevante. Encarei mais uma vez a Clara sentada na minha cama, agora com as costas nuas apoiadas na parede; completamente despida. O lençol permeava-lhe as pernas em ondas suaves, invejáveis; tocava-lhe sem incômodo ou esforço, a sua pele clara, as pintinhas que se espalhavam pelas suas coxas. Estava bonita ali.

_Por que, te incomoda? Hum? – me aproximei, sem dar a mínima.
_Não.

Respondeu direta. Ainda que não me convencesse.

_Olha, se você veio procurando romantismo, boa educação...

Disse-lhe, já sentando novamente na cama a alguma distância dela, deixando o restante da frase solto no ar. Eu não estava com paciência. Não mesmo. Senti-a mover-se prontamente na minha direção, deslizando as mãos e pernas descobertas pelo lençol branco. Encarei o chão com o cigarro entre os dedos, desinteressada. Os seus joelhos encaixaram-se na lateral do meu corpo, sentada sobre os pés na cama.

As pontas dos seus dedos percorreram-me os braços. E tirou, então, a minha camiseta num gesto contínuo, natural. Senti o seu corpo encostar nu contra as minhas costas, agora descobertas.

Estava morna. Traguei mais uma vez, como se não ligasse para ela, iminente ali. E macia. Seguiu com as mãos em passeios leves, por toda minha extensão. E me beijou o alto da coluna. Então interessei-me. Os seus lábios deixaram suavemente a pele. E aí mais um. E outro. Subiu aos poucos. Depois outro. Me veio pelo pescoço, envolvida em mim. Podia sentir a sua língua tocar-me entre uma brecha e outra. Mais um beijo. Outro. E então encostou o rosto no meu ouvido, apenas ao fim.

_Não vim... – sussurrou.

Janeiro 06, 2012

Os Invernos

Na manhã seguinte, deixei a Clara ainda deitada na cama, adormecida, e atravessei o quarto à procura de uma camiseta grande o suficiente. Peguei o celular na cômoda e uma antiga com a gola toda arrebentada, intencionalmente aberta até cair nos ombros. Estiquei-a ao vestir as mangas, colocando-a com certa preguiça. Fui então para o corredor, fechando a porta cuidadosamente atrás de mim. E apenas quando estava parada ali, já do lado de fora, que tive coragem de abrir a minha caixa de mensagens. Vamos lá. Por algum motivo, sentia-me enjoada muito além da ressaca. O estômago começava a revirar por antecipação.

Havia, sim, respondido à Patti de madrugada. Perguntara onde eu estava duas vezes, frustrada. Em algum momento da noite anterior, já fora de mim na Hot Hot, metida na falta descarada de comedimento meu com a Clara, respondi. Sequer lembrava direito o que digitara – e talvez fosse isto o que eu tanto temia, argh. 1 nova mensagem. Apertei para ler, a contragosto; o corredor exalava uma quietude típica das tardes paulistanas de domingo. Ouvi o Fer e a Mia na cozinha, almoçando, ao que tudo indicava. Olhei para a tela miúda, segurando a respiração por um instante.

Sabia que havia lhe escrito merda. Não tinha mais volta.

E vieram então, uma a uma das suas palavras, com um rancor que já me era bem conhecido – mas que desta vez, ao contrário da maioria dos outros verões, surtira efeito. Porque garotas já me detestaram por muito menos; por muito mais também. Raramente me perturbava, contudo, a verbalização do que pensavam a meu respeito. Nunca dei a mínima e esta, de alguma forma, me incomodou amargamente. “Interesse efusivo, ñ era? É. Espero q. algum dia alguém seja capaz de se interessar por vc de volta, q. vc ñ acabe sozinha... Pq ñ vale a pena, msm.” – e, é, era justo.

Encostei a cabeça contra a madeira fria, pressionando a testa na superfície lisa do batente da porta. Suspirei demoradamente. Frustrada ali em pé; aquilo me machucava a tal ponto, internamente, que não era capaz de sequer questionar a mim mesma se havia tomado a decisão certa ou não. A realidade sempre seria aquela, dali em diante; não posso voltar atrás. Agora restava-me encarar aquela merda – como quem jamais houvesse desejado a Patti, em todos os dias da última semana; como se nunca me tivesse interessado a sua presença no meu cotiano. E eu era, com certa prática, capaz disto.

Guardei o aparelho no bolso, me dirigindo à cozinha para um copo d’água – seca de uma ressaca desgraçada. Entrei e, sentada na mesa com o prato já terminado colocado à sua frente, a Mia me olhou como se já soubesse. Ficou quieta. Continuo não te entendendo, pensei e encarei-a de volta, desvirtuando-me por um instante do incômodo que me ocupara todos os pensamentos minutos antes, ao ler a tal mensagem. Depois desencanei, que se dane você, indo na direção da geladeira e abrindo a porta.

_Pra quem não resiste a um pé na bunda, hein... – o Fer comentou me observando e rindo, apoiado na pia e me irritando, enquanto eu pegava uma latinha de cerveja – ...até que cê esperou bastante.
_Não enche, Fernando... que eu não falei com você, porra.
_Vai, demorou o que? Cinco? Seis horas desde que você saiu pra encontrar sua outra namoradinha?!

A Mia levantou-se, bruscamente, e saiu do cômodo.

Janeiro 05, 2012

Entreatos

O seu rosto escorregou pelo meu ombro descoberto. Minha regata já estava completamente puxada fora de lugar, suja e contra a porta de ferro de uma loja qualquer, logo ali. Não era mais branca – não desde aquela madrugada. Amassou o rosto contra o pouco de tecido que havia no alto das minhas costas e eu comecei a rir de novo, junto com ela, a Clara. Traguei mais uma vez o meu cigarro roubado, tossindo logo em seguida, a respiração atropelada pelo riso. Os olhos dela me acompanhavam, ares argentinos, vendo-me ali de baixo. Balancei a cabeça horizontalmente, com certa calma, tentando manter a sobriedade – ou o que me restava dela, argh. Dignidade zero.

Sequer lembrava onde estava tamanha graça. Meu deus, ri. Estávamos sentadas na porta de um comércio qualquer nas redondezas da Hot Hot, ainda fechado, claro. O céu estava escuro, com brisa; a noite seguia irreal e agradável. O chão apenas que estava frio, cimento áspero; todavia a rispidez da calçada parecia não ter impacto algum em nossas pernas descobertas. Revirávamos sobre o concreto, ajeitando-nos incessantes, inquietas e animadas com as pernas cruzadas, umas sobre as outras, bêbadas – a Clara me abraçava, caíamos uma na outra. E aí ríamos, muito. Completamente tontas.

Entreatos, beijava-a com vontade.

Ausência de lucidez, instantes repetinos e a todo momento. Ela tentava tirar os meus tênis, disse que os adorava e declarou querer apoderar-se deles. De jeito nenhum, eu brigava fisicamente com ela e nos pegávamos loucamente, inevitavelmente. Peguei a, tomei posse da, garrafa de vodka barata que ela segurava com certo apego alcóolatra. Partyhard, folks. Como se precisássemos de algo além das nossas respectivas comandas superrecheadas, pagas nos vinte minutos antes, decidimos já na saída investir o restante das nossas muito mal-gastas economias numa garrafa inteira de sabe-se-lá-o-quê que aquele cara estava vendendo na porta. Dei mais um gole, um de algumas dezenas anteriores. E olhei-a sujando suas uggs naquele chão imundo, no clima e pouco se importando; toda sem frescura. Achei-a admirável.

(...)

Cercando o meu corpo, suas coxas magníficas forçavam o minishorts escuro cada vez mais para cima. Arregaçava-se, franzia-se. Em particular, disse-lhe as mais baixas obscenidades. O taxista tentava nos ignorar, ou não. E eu tentava me controlar, manter a porra da calma. Pra quê calma? Mãos à toda e sussurros. Ela ficava realmente, realmente linda com os fios bagunçados do cabelo castanho. Bagunçados sobre mim, observava-a me olhando de volta. E sentia apertar-me os pulmões, uma ausência filha da puta de pensamentos puros, de fôlego. Caralho.

Entramos barulhentas no apartamento, anunciando-nos. Quase cinco da manhã, nos pegando sem pausa. O silêncio e a quietude da sala quase escura, apenas a TV ligada; o Fer assistia qualquer programa já com o som quase no mínimo. A Mia, por sua vez, dormia com a cabeça no seu colo, esticada apenas de blusão no sofá. Não notei se nos ouviu entrar. Mantive as minhas mãos ocupadas com a blusa vintage do Lynyrd Skynyrd da Clara por todo percurso, que retirei num impulso e larguei no meio do corredor a despeito da possível platéia que tínhamos.

Joguei-a enfim na minha cama. E subi por cima, por entre suas pernas, beijando-a inteira. Movíamos num ritmo acelerado, semialucinado – fora de nós mesmas, realmente bêbadas. Perdi também a minha regata, num ato justo. E perdemos todo o resto tão logo. Sentia as suas mãos me puxarem, me machucarem insensíveis sobre a nova tatuagem, o peso do seu corpo deslizando contra o meu. E machucava-a de volta – foda-se! – com os dentes, com a boca, com tudo de mim. Na lateral da sua cintura, nos quadris, nas costas. Apertava os dedos contra o interior das suas pernas e escorregava-os acima. Pertubávamos o silêncio do quarto, tão logo de todos os cômodos do apartamento e da porcaria do prédio.

(...)

Sem escrúpulos por duas, três vezes seguidas. Um baseado aceso e, depois, mais uma. Pode vir, maldita. 

Janeiro 04, 2012

O Clássico

Passei pelas cortinas na entrada da Hot Hot, uma balada elitista em pleno centro sujo paulistano, e caminhei por entre as pessoas superproduzidas, distraindo-se escandalosamente. Aquele caos queer da porra da cidade que nunca dorme. Não havia bebido uma dose sequer naquela noite – mas, em compensação, fumado meio maço no banco de trás do táxi, no caminho, para ver se me acalmava. Durante todo o percurso, pensei na Patti. Sozinha, me esperando; todavia incapaz de lhe enviar uma mensagem sequer e me destestando. Por isto, por tudo. Possibilidades estragadas. Inferno.

Desci do táxi sem saber porque direito estava ali, com uma curiosidade idiota e certo rancor da Clara, de mim mesma. Sei lá. Tudo o que eu não precisava era de outra pessoa que me influenciasse assim, que me tirasse do sério, me desvirtuasse o caminho. Não neste nível. Já me bastara o tempo que perdi correndo atrás da Mia. E, convenhamos, nossa história não era das melhores. Entrei na balada incomodada com a impossibilidade de voltar atrás. Mas entrei, embarquei na minha própria decisão, e dane-se.

Nem cinco minutos procurando-a. E a Clara estava lá, linda. Os shorts minúsculos, os cabelos morenos soltos. A camiseta branca vintage do Lynyrd Skynyrd, um cinto marrom largo, as pernas maravilhosas de fora e com um par de uggs, uma delas apoiada contra a parede. Tinha uma cerveja em mãos, estava conversando com um amigo e ainda sem me notar. A três metros, no máximo. Me arrependi de ter ido, merda, por um instante, agora que a via parada ali e dava-me conta do que eu estava fazendo.

Esta garota. Aquilo era uma péssima – ainda que maravilhosa, esplêndida, inegavelmente tentadora – idéia; e eu sabia. Ela sorriu ao me ver aproximar, caminhando na sua direção. Toda magnífica, argh. O amigo cumprimentou-me com a cabeça, brevemente, assim que me reparou ali. “Você veio!”, ela se surpreendeu. Estava animada. Cumprimentei-os de volta com um meio-sorriso, bem menos empolgado, e fui pro bar logo em seguida. Não sentia vontade alguma de ser bem educada, não assim.

Encarei o cara do outro lado como se estivesse prestes a cometer um erro muito grande. Respirei fundo e apoiei as mãos no balcão, séria. Pedi-lhe uma dose de whisky com energético e poucos segundos depois, a Clara parou ao meu lado, encostando com a lateral do corpo na parede. Não lhe disse nada, sequer a olhei. Pediu algo também para si, uma cuba libre, acho; e me encarou, genuinamente contente por eu estar ali. Tarde demais para voltar agora. Dei o primeiro gole, conformada. Tentava entender, na minha cabeça bagunçada, o que diabos eu estava fazendo lá.

_Você foi uma babaca comigo... – disse então, quebrando o silêncio e colocando o copo de volta ao balcão, aí a encarei com calma – ...sabia?!
_Eu... – ela me olhou surpresa, apagando imediatamente o sorriso da cara e voltando-se também de frente à bancada, constrangida, apoiando os braços da mesma forma – ...eu sei.
_E eu não deveria estar aqui – prossegui, ignorando-a já com o copo novamente em mãos, e enrolei antes de dar mais um gole –, mas estou. Agora eu é que vou ser uma imbecil completa com outra pessoa.

Ficamos em silêncio. Era verdade. Dei outro gole – agora que eu já estava lá, parada ao lado dela, sentia-me frustrada e irritada ao mesmo tempo. Enfiada numa merda de uma balada lotada e escura, mal ouvindo a minha própria voz. Argh, puta merda. Eu tinha umas também, como diria a minha mãe, que às vezes pareciam duas. Uma capacidade fora do normal de me arranjar problema para a cabeça, maldição.

_Você não precisa ser... – comentou.
_Pois é – suspirei, estranhamente concordando com ela –, não “precisava”, né.

Aí me dei conta, não é culpa da Clara. Passei as mãos na cabeça, internamente revoltada com a minha babaquice inesgotável. Aquilo era demais, até mesmo para mim. Eu não tenho um puto de moral, porra. A Clara não tinha nada a ver com aquilo, eu tinha. E aceitar isto me doeu como nunca antes. Por livre e espontânea decisão, engoli seco. Parte de mim não podia acreditar que eu havia, de fato, largado a Patti sozinha a três quarteirões da minha própria casa.

_Mas você veio... – a Clara segurou um sorriso e me olhou.

Tá, ok. E agora o quê, esperteza? Não havia planejado esta parte do meu grande e impactante discurso. Era só isto, todo o meu argumento e que sequer parecia se estender mais a ela. Observei-a, me olhando de volta, os olhos serenos e amendoados, castanhos. Senti a curiosidade voltar, aos poucos. Como uma coceirinha, dessas sutis, que não incomodam tanto. Merda. A desgraçada da Clara ainda conseguia, com sua pinta filha-da-mãe de argentina, se inocentar de qualquer erro seu por mera existência num mesmo local que eu.

Ô droga, viu.
 
Bem no fundo, eu guardava uma amargura terrível dela. Por meses, dentro em mim – e ofuscada, de certa forma, pelo que eu sentia pela Mia na época. Mas estava ali, imersa. Fazendo par agora com a raiva que eu sentia de mim mesma, claro. O meu peito pesava, a respiração seguia acelerada. Encarei-a com certa grosseria, numa atitude inevitavelmente transparente. Cara... Como odiava garotas que me intrigavam assim, que me atraíam sem esforço algum. Contra todas as boas razões para eu não estar lá.

“É, vim...”, respondi irritada e num impulso contínuo, empurrei-a contra a parede cool da Hot Hot, em estampas psicodélicas. Apertei-a com o meu corpo, violentamente, num dos beijos mais rancorosos que já dei numa garota. Ah, foda-se também.

Dezembro 30, 2011

"Here I go...

...and I don’t know why”
(Patti Smith)

Saí do banho com uma certa folga ainda no horário. Eram poucos minutos após as dez; o filme só começava lá pelas onze e tantas. Desfilei de um lado ao outro do quarto, indecisa quanto ao que usar, semi-vestida com duas calcinhas sobrepostas e o cabelo ainda úmido. Retornei ao banheiro para secá-lo; o Fer e a Mia estavam trancados no quarto já há algum tempo. No meio do barulho e daquele ar quente todo, desavisada do que estava por vir, ouvi chegar uma mensagem no meu celular, largado na pia.

Entre os fios bagunçados no meu rosto, li: “Oi, ñ sei se seu numero eh o msm. Qria ter falado + com vc hj. Foi estranho te ver, fiquei pensando mto nisso dps... mas, enfim, ñ vou falar por aqui. Hj vou estar com um amigo na Hot Hot, tô indo pra lá daqui a pouco, se ñ for fazer nd. Te devo uma? Bjs, Clara”. Fiquei parada por um instante, sem reação. Precisava de algum tempo para processar – direito – todos os acontecimentos daquele dia. Li mais uma vez, em silêncio, e coloquei o telefone de volta na pia em seguida.

Sem respondê-la.

De alguma maneira, as suas palavras me inquietavam, sentia-me cutucada – só não tinha certeza em que sentido. Não vou fazer isto, pensei. Não ia revirar aquilo dentro de mim, não ia me desgastar respondendo. Re-liguei o secador, a fim de não me distrair do meu objetivo ali, observando os meus olhos por inércia no espelho. A inquietude, contudo, continuava lá. Em algum lugar. Joguei o cabelo para um lado, mexendo-o sob o ar quente. Pouco tempo depois, não o suficiente para secá-lo, virei para o outro lado. E então ao oposto, o mesmo de antes, mais uma vez. E aí virei de novo, merda. Senti a ansiedade crescer.

Dane-se. Coloquei todo o cabelo para a frente, abaixando a cabeça perpendicular ao chão, ignorando o sentimento. Comecei pela franja, aí subi para a nuca e a lateral esquerda, a diagonal da frente. A de trás. A direita. A outra diagonal. A mesma de antes. Voltei à nuca. O lado esquerdo. A franja. Não importava quanto bagunçava meu cabelo, não secava; deixei o ar correr em cima dos fios por um tempo, depois joguei-os para trás e tornei a secá-los normalmente, mas não ia direito. Parecia que eu estava ali há horas – e, provavelmente, tinha ficado menos de 5 minutos. Droga. Peguei o celular e li mais uma vez a mensagem.

Apoiei ambos os antebraços na borda da pia, segurando o telefone em mãos e olhando para a tempestade em copo d’água que eu, de repente, estava fazendo com o ressurgimento da Clara. E o ciúmes da Mia na sala. Considerei responder, mas, o que diabos eu diria? “Já tenho planos.”? Não, mano. E por algum motivo besta, eu não conseguia dispensá-la. Passei a mão na nuca, encarando o teto e respirando fundo, me livrando mentalmente daquela situação babaca. Engoli todas as minhas idiotices psicológicas e devolvi o aparelho à pia, pegando novamente o secador e ligando-o na última potência.

Fechei os olhos e dei início à maior barulheira contínua, secando os fios de um lado para o outro ininterrumptamente. Sacudia-os com as mãos, pela raiz, bagunçando-os abrutalhada e sem pensar em porcaria nenhuma, cada vez mais fortemente. De todos os lados, todos os ângulos. 1... 2... 3... 19... 20... Chega. Larguei o secador sobre a pia do banheiro, de maneira grosseira. E apoiei ambas as mãos na superfície fria, irritada. Respirei fundo. Isto não está certo, briguei comigo mesma, não com a Patti. Me forçaria àquilo, agora; a ir na porcaria do cinema e foda-se a merda da Clara.

Retornei ao quarto com o cabelo semi-seco, porém bonito. Determinada. Peguei os meus novos tênis favoritos – um par dourado de canos médios, todo descolado – e coloquei-os com um minishorts jeans escuro. Apanhei então uma regata branca, destas quase transparentes e largas, indecentes, que ficam soltas ao redor do corpo. Com as pernas de fora, enfiei o celular no bolso e peguei o meu maço e isqueiro acoplado. Sentia como se não pudesse parar um segundo ou faria, de certo, alguma merda muito grande.

Saí do quarto, ainda decidida, e fui para a sala atrás da minha carteira. O Fer estava na cozinha agora, apenas de shorts e descalço; a luz acesa. Se dirigiu à porta do corredor, apoiando-se de lado na parede e me olhando, enquanto comia um lanche improvisado. Encontrei a carteira, ufa. Peguei-a apertada no vão do sofá, provavelmente ali desde que estávamos sentados jogando videogame à tarde. Separei apenas o documento e o dinheiro, colocando-os no bolso junto ao maço e largando a carteira de volta no sofá.

_Humm... – o Fer disse, então, me olhando de cima a baixo toda trabalhada na correria – ...bom encontro com a namoradinha, hein!

Revirei os olhos, sem lhe dar ouvidos. Ela não é minha nam..., interrompi o pensamento antes que a frase saísse pela minha boca, argh, deixa pra lá. Me movi em direção à porta, sem intenção alguma de desacelerar e apanhei a chave na saída. Andei pelo corredor em linha reta, chamei e o elevador chegou rápido. Já no térreo, atravessei a entrada do prédio determinada e desci para a rua. O shopping Frei Caneca era a poucas quadras dali. Acendi um cigarro, comecei a andar. No entanto, agora, no escuro e perigosamente sozinha, sentia-me estranha. Com um sentimento conhecido no estômago, merda.

Segui em frente, ignorando. Passei pela banca, pelos outros prédios. E atravessei a primeira rua. Os jovens bêbados e escandalosos começavam a circular pela Frei e pela Augusta, ao lado; podia ouvi-los ao longe. Caminhei mais alguns passos, olhando os meus tênis novos contra o cimento, tentando me distrair, então encarei o escuro à minha frente e parei. Inferno. Virei-me, a cinco metros do ponto de táxi, tomada por uma curiosidade masoquista que não deveria existir. A última coisa que eu queria era provar o Fer certo da sua babaquice barata. Olhei no celular e já eram onze horas, droga. Hesitei ao encostar na porta, querendo voltar ao mesmo lado que estava indo – foco, porra. O motorista me encarava confuso, do lado de dentro de um Palio, com a luz acesa. Entrei.

_Sabe onde é a Hot Hot, amigo?
_Lá pros lado da Bela Vista, na R. Sto Antônio?
_É... – afundei-me contra o encosto do táxi num suspiro desgraçado, já me odiando.

Dezembro 28, 2011

Irredutível

_Mas e aí, que rolou hoje?
_Não, nada. Só... me cumprimentou na rua e eu, sei lá, tipo... disse que tava indo tatuar lá perto. Mas não rolou nada.
_Cê ficou de boa?
_Fiquei... ou, não sei, na real. Foi estranho. Não esperava encontrar ela lá, manja, sei lá. Me pegou meio de surpresa, saca, e fazia tempo que eu não pensava nela... – disse, mas meio dando de ombros, e bebi mais um pouco da cerveja.
_Hm, sei...
_Ela tava... bonita, meu. Bem bonita... 
_Ihhh... – o Fer já começou  rir.

A Mia subiu novamente os olhos, a muito contragosto.

_Quê?!
_Vai começar, hein...
_Vai começar o quê, meu?! – me indignei.
_Você aí... – ele riu, acendendo um cigarro – ...já vai lá se interessar pela menina de novo, certeza.
_Não vou nada...
_Ah, vai, sim. É a sua cara isto... é só você tomar um fora que cê fica obcecada pela garota – tragou, soltando a fumaça logo em seguida; a Mia me observava e eu seguia indignada com a observação dele – Essa mina mesmo, meu! Quanto tempo você ficou com ela antes? E depois tava lá toda mal, sofrendo. Puta bad e vocês nem tinham namorado, tinham se visto sei lá, quatro vezes no máximo.
_É que ela era ótima, ué! Só por isto... cê nunca sentiu nada assim, por ninguém que saiu quatro, cinco vezes? Ah, vá Fernando!
_Não. Não é isto. É você que não resiste a um pé na bunda. Não resiste mesmo, meu. Se for trocada por outra, então... nossa, aí você entra em surto até conseguir a mina de volta. Faça sol, faça chuva, você dá um jeito!
_Cala boca, mano. Nada a ver! – me revoltei – E eu não vou sair com ela, não é nada disto, eu tô só te contando, porra... por isto que não te falo mais as coisas, você só me enche, cacete! Não tem nada a ver, nada a ver... Eu tô em outra, meu.
_“Tá bom”... – riu e encostou de volta no sofá, sendo irônico – ...vai ser igual aquela lá, como chamava? No colegial a, a... Ná! Não era isso, Natália?

Ah, a maldita dona do Infinito.

_O que tem a ver?!
_Ela não te deu um fora depois que vocês se pegaram, tipo, no começo do segundo ano e você ficou toda obcecada com a mina até conseguir namorar com ela no meio do terceiro e foi uma grande merda eterna por sei lá quanto tempo?!
_Não foi uma grande merda – murmurei, contrariada.
_Claro que foi, vocês só brigavam!
_Porque foi uma das minhas primeiras, porra. Você queria o quê?! Eu fiquei quase dois anos com ela, todo mundo briga com as primeiras namoradas, é tipo uma lei universal. Você não sabe se comportar num relacionamento, tem que ter vários antes – como se eu, em algum momento, tivesse aprendido... – e outra: eu tô saindo com uma mina agora, ótima, e a Clara nã...
_Ah é, porque isto sempre te impediu! – me interrompeu.
_Não, babaca, eu quis dizer uma das boas... do tipo, estou afim de ficar com você mesmo, saca? Não do tipo quero te comer e de boa.
_Quem, aquela lá do Vegas?
_É, a Patti...

A Mia voltara-se novamente à TV, emburrada. Fingindo não se interessar pela conversa. É, agora faz diferença, né. Enquanto isto o Fer, me zombando de apaixonadinha, me enchia de socos de brincadeira e acabamos nos engajamos numa pancadaria amigável bêbada, rindo. Eu estava, mesmo, afim dela.

À toa

De volta ao apartamento, após algumas horas vendo a Lê sofrer para adquirir sua carpa, já pelas 4 da tarde, passei pela porta de entrada e encontrei com o Fer e a Mia sentados na sala jogando videogame. Havia uma travessa de bolo de chocolate parcialmente cheia sobre a mesa de centro. Pediram que sentasse um pouco ali com eles, quer dizer, o Fer quis ver a tatuagem nova. Me acomodei ao seu lado no sofá, roubei a sua cerveja e, por um instante, puxei a lateral da camisa para a que visse, já tomando um gole. Os restos de tinta e um pouco de sangue haviam tirado um tanto da visibilidade por detrás do plástico; o Fer esticou-o com os dedos tentando não me machucar.

Sentada no chão ao seu lado – digo, do outro lado – a Mia levantou os olhos discretamente na minha direção e observou o desenho por um segundo. Depois tornou a olhar para frente, para a televisão. Fiquei algum tempo comentando a ida ao estúdio com o Fer, a blusa já abaixada e um dos pés sobre a mesinha de centro, segurando a cerveja em mãos. Retomaram a disputa, Guitar Hero, e eu acabei ficando por ali com preguiça de fazer qualquer outra coisa.

_Come um pedaço aí... – o Fer comentou, referindo-se ao bolo, sem tirar os olhos da televisão – ...a Mia que fez agora à tarde.
_Não, tô de boa. Acabei de tatuar, meu, nem posso comer chocolate...
_Nada a ver, mano, cala a boca. Não dá nada! Eu nunca faço essas merdas e todas as minhas tão normais, meu...
_Ah, sei lá, né... – respondi, não muito convencida.

Então olhei para a travessa, toda coberta com a calda de chocolate que sobrepunha o bolo, daquelas grossas e obviamente deliciosas. E aí, claro, mudei de idéia; esticando-me para pegar o que chamei de “tá vai, só um pedacinho”. O Fer riu de mim.

_Pô, ficou gostoso mesmo, hein... parabéns! – comentei, de boca cheia, e a Mia apenas me olhou por um instante sem me dar bola ou agradecer.

Num raciocínio dos não muito complexos, concluí que ainda me ressentia pela outra noite. Se bem que, na minha humilde opinião, elas nem eram tão amigas assim. Pensei comigo mesma, eu é que deveria estar brava, meu... Mas deixei quieto. Apenas me afundei no sofá, acomodada. Sem nada para fazer até aquela noite, o que era ótimo. A tarde começava agora a perder aquele calor todo das horas anteriores, tornando-se agradável pouco a pouco. Ainda assim, o ar entrava abafado pela janela aberta.

Bem queria poder arrancar as calças, que me incomodavam categoricamente toda vez que chegava em casa, mas de uns tempos para cá a presença da Mia passara a me inibir. Ela estava de mini-shorts preto e um sutiã da mesma cor por debaixo da regata branca; o Fer vestia uma bermuda qualquer e camiseta branca também. Só eu naquele pano todo, argh.

Tentei compensar na cerveja gelada, com preguiça de mover-me até o quarto e me trocar. Mandei uma mensagem para a Patti enquanto jazia ali, largada no sofá, bebendo afundada entre as almofadas. Combinei nossa saída à noite, assisti o jogo deles, disputei algumas partidas, depois fiquei à toa. Enchendo a cabeça de pensamentos aleatórios e de Stella, que era uma raridade num apartamento sempre pouco abastado.

_Ei, que cê tá toda brisando aí? – o Fer me perguntou um tempo depois, me cutucando com as costas da mão – Hein, tá pensando em quê?
_Nada... pensando só... – tomei mais um gole da minha terceira ou quarta cerveja – ...rolou uma parada, sei lá, estranha hoje.
_Conta aí, mano. Rolou o quê?!
_Ah, encontrei uma... mina... sei lá, não sei se você lembra dela... a Clara, manja?

Na mesma hora, os olhos da Mia voltaram à minha direção. Abaixou-os novamente ao chão, em seguida, e não falou nada, me ignorou. Fingiu não se interessar. O Fer, por outro lado, seguia interessado. Disse lembrar dela por todo o escândalo que eu fiz – enfatizou – no dia que a peguei com outra no Vegas, quando saí chutando todas as suas coisas na sala, e pela festa que demos dias depois no apê para me tirar da fossa. A mesma em que me tranquei no banheiro com a Mia, pela primeira vez. Beijara-a semanas antes daquilo, de madrugada no corredor; a Mia havia vindo bater na minha porta, inquieta. Havíamos discutido sobre a Clara naquele dia, na cozinha, primeira vez que a vi reagir, com ciúmes. E lembrei então da minha tarde com a Clara, a disputa pelas camisetas e por quem seríamos como estrelas do rock. As pernas dela sobre as minhas, as suas mãos. A pontinha da língua entre os dentes, rindo de mim. Minha cabeça divagou por um instante, encarando o Fer nos olhos enquanto ele falava. Sobre a festa, ainda.

Dezembro 27, 2011

Björk

Puxou-me pela mão, entre as pessoas, e sorriu ao me identificar ali no meio; os arredores da Calixto estavam o caos que sempre eram. Ao menos, aos sábados. Arqueei as sobrancelhas surpresa, sem saber direito como reagir àquilo, e tirei o cigarro da boca por um momento. Segurei-o para baixo, ela estava com uma regata preta e o cabelo preso em um grande coque improvisado sobre a cabeça. Me olhou de cima a baixo, me deixando sem jeito, e me cumprimentou absolutamente tranquila. Estava bonita; as pintinhas, a pele branca e os olhos amendoados, aqueles ares de argentina. De jeans básico e ainda All Star, o que estranhei tamanho o calor que fazia.

_Nossa, o que... – ela sorriu, receptiva e animada comigo – ...você está fazendo pra estes lados?
_Eu tô com uma amiga aí – fiz um gesto com a cabeça e a mão que segurava o cigarro, apontando a direção em que a Lê fora; desconfortável em estar falando com ela assim de repente –, nós...
_Mas vocês vieram pra feirinha?

Me interrompeu, perguntando interessada. Agíamos como boas conhecidas, não sei bem. Pôs uma das mãos, então, na curva entre o ombro e o seu pescoço delicado, num gesto leve e sutil daqueles que a tornavam realmente, filha-da-mãe, muito sexy. O calor, a situação e toda aquela gente passando ao redor começavam a me incomodar. Mas, por qualquer motivo imbecil, eu não caí fora na mesma hora.

_Não, eu... eu vim tatuar lá no, sabe, aqui em baixo depois da Schaumann. O que vo... – me atrapalhei um pouco, estranhamente confusa – ...o que você tá... – ela me olhava, tentando entender o que eu estava dizendo de forma bem pouco articulada, e sorria; só então eu me dei conta – ...ah! Você... você trabalha aqui, não?!
_Sim – ela riu.

E foi aí que me toquei de que estava a um quarteirão da loja onde ela trampava e onde, aliás, eu viera buscá-la incontáveis meses antes, uma vez. Ocasião na qual me enxarquei toda de chuva. A mesma noite que fomos no Glória, pensei e tudo me voltou de uma só vez, as recordações da Clara, caindo a ficha da situação em que me encontrava naquele instante, embrulhou-me o estômago. E ela percebeu.

_Faz tempo, não faz? – comentou e sorriu para mim.
_Faz. Olha, eu preciso ir, a minha amiga já está lá na frente... – disse, dando sinais com o corpo de que ia sair; a sua presença me deixava estranha – ...eu, a gente... tem que voltar lá pro estúdio, então.

O meu desconforto crescia, merda. Não consegui sorrir, mas por algum motivo tentei ser educada. Quando passa algum tempo, acho, certas coisas perdem a importância. E os erros dela desapareceram. Ela sorriu de leve, de volta, agora um pouco constrangida.

_Tá bem... – encostou uma das mãos no meu braço, com intimidade, me olhando com carinho – ...a gente se fala, espero.

Murmurei um “aham” qualquer, meio grosseiro, concordando com a cabeça, e fui colocando o cigarro de volta entre os lábios, já me virando para descer e sair dali. Não dei bola, tentei ao menos. Ela ficou me olhando ainda, a menos de um metro na mesma calçada, e eu procurei não pensar naquilo. Desci a rua até encontrar a Lê, já do outro lado da feira, reclamando que nos atrasaríamos e perguntando quem era. Ah, uma garota aí..., eu disse, meio chateada.

Não sabia por que me sentia tão estranha. Não tinha sequer gostado de vê-la. Ou gostara, não sabia dizer. A Lê insistiu ainda, curiosa, e eu mudei de assunto, preferia não falar daquilo. Voltamos ao estúdio e eu ficaria, de qualquer forma, fechada ali pelas próximas horas.

Dezembro 26, 2011

Pain Lovers

Eu havia esquecido de quanto, filho da puta do caralho, aquilo doía. Argh. Minha costela parecia rasgar-se aos poucos. E o açogueiro que sobre ela pendia, o tatuador, achava graça no meu sofrimento. Aliás, ele e a minha amiga da onça, toda vingativa, que me chamou de “bicha” durante o processo inteiro.  

O lugar também não ajudava: a pele ali é fina e o osso por debaixo aumenta a sensibilidade. É um dos piores. Todas as minhas outras haviam doído menos, algumas deram até gosto. Já aquela estava me matando; era complexa e sólida, feita para transformar qualquer um em macho. A minha outra da costela, a do Pequeno Príncipe, já no lado oposto, era pequena e vazada, fora bastante simples de suportar. A nova, uma caveira do Día de los Muertos rodeada por rosas vermelhas, quase me fez desistir após terminado o contorno. Mas o cara era rápido – e eu já tinha pagado, de qualquer forma. Então, com muito esforço, engoli.

O mesmo tipo de rosas, com traços old school, compunha a minha maior até então. Ficava no alto do braço direito – lado oposto àquela nova – e foi, por muito tempo, a favorita da Mia. Ela gostava de flores tatuadas, as minhas me lembravam ela. Todas as outras estavam espalhadas pelo corpo, eram menores e mais significativas. Duas semelhantes associadas aos meus pais, em locais diferentes; uma para minha primeira namorada, o símbolo do infinito no pulso; uma ao redor do tornozelo; e um pequeno triângulo vazado no antebraço, por dentro. De certa forma, eu me apegava às minhas tatuagens.

Mais do que às mulheres. E os meus planos incluíam ainda uma série delas – pelas quais eu ansiava durante o ano todo e juntava dinheiro religiosamente. A última havia sido para a minha mãe, no alto das costas – a dedicada ao meu pai eu fizera há anos e ela, claro, reclamou. Não me importava, atribuía significado a todas. A caveira do Día de Los Muertos, por mais contraditório que soasse, simbolizava a vida e era importante para a minha nova fase.

Da mesma forma, encantavam-me as mulheres tatuadas, numa intensidade justificada apenas por fetiche. Conversei ao longo das horas com o tatuador e a Lê sobre os mais belos exemplos que haviam por aí – ele se divertia conosco e com os nossos comentários dyke pride. Imprestabilidade imensa. Rimos muito, o que ajudou a esquecer um pouco a dor em determinados momentos.  

Quando enfim terminou, o cara limpou todo o sangue da minha pele e a sujeira de tinta preta e vermelha ao redor; e eu me levantei para ver no espelho. Do caralho. Muito do caralho, meu. Sorri como se tivesse vencido uma maratona, absolutamente recompensada. Foda-se o dinheiro, foda-se a dor desgraçada. Aquilo ia sempre valer a pena. Em seguida, a Lê se aproximou e com o celular em mãos, elogiou o trabalho dele, enquanto tirava uma foto para o Instagr.am – me posicionei reta, na lateral, toda orgulhosa.

Platifiquei-me. Agora era a vez da Lê de sofrer nas mãos do cara, mas antes sairíamos para almoçar os três. Ele encontrou um amigo no bar próximo. Tínhamos uma hora, eu e a Lê, o que me sobrava tempo para ir olhar as câmeras na feirinha da Calixto. O sol estava de rachar, subimos a Teodoro e pegamos qualquer coisa para comer no Habib’s da esquina, seguindo direto para a feira lotada. Me entreti por algum tempo na barraca de um maluco cheio das polaroids antigas, mas como toda vez que eu ia na Calixto, percebi que não tinha dinheiro para pagar nem um quinto do que pediam por cada antiguidade e artefato ali.

Subimos um pouco mais na Teodoro, passando pelas infinitas lojas de novos designers e de instrumentos musicais, até a ruazinha da Choque Cultural onde trabalhava uma amiga da Lê. Cara, eu adoro este bairro. Batemos papo por algum tempo, entretidas, mas aí já era hora de voltarmos. Conforme fomos descendo a Teodoro, me engajei em conseguir acender um cigarro no meio daquela gente e andando sem pausa. E foi quando dei de cara com a Clara.

Dezembro 24, 2011

OST 3!

Então... é Natal! ;-)

E a tempo de salvá-las dos lamentáveis hits da Simone, chegou a 3ª edição da trilha sonora do Fucking Mia. Eee! Com direito a capa (todas criadas pela leitora e incrível Marcella Oliveira, obrigada! ♥) e até casa nova, para quem estava reclamando que o link não rolava. Todos os downloads, inclusive dos dois CDs anteriores, foram dispostos e organizados num Tumblr muito gracinha feito pela sensacional Tate, que algumas de vocês devem conhecer do podcast "Fuck Art, Let's Dance!". Eu ameeeei o novo endereço e estava louca para compartilhar com vocês.

Desejo a todo mundo que lê o blog, suas lindas e lindos, um feliz Natal e absolutamente fantástico Ano Novo. Calma, ainda vai rolar posts em 2011! rs Peço desculpas também pela minha ausência aqui do blog, esta vida de gente grande não tá fácil, galera... Espero que continuem lendo e gostando tanto assim, amo os comentários e a participação de vocês. Muita coisa boa para rolar!



Sem mais delongas, portanto, eis as trilhas sonoras do BLOG:

Dezembro 23, 2011

Mancadas clássicas

_Hm... que horas são? – murmurei sonolenta, enfiada no travesseiro.

A Patti estava em pé, apoiada na janela, com um cigarro na mão. E completamente nua. Como se eu a tivesse libertado dela mesma – observei-a com admiração e sorri. Hum, só 19 anos..., acompanhei a âncora tatuada em sua coxa com meus olhos esticados por cima do travesseiro. Ela, que antes olhava o movimento lá fora, agora me encarava de volta serena, com um meio-sorriso no canto da boca. Repeti-lhe a pergunta e ela sorriu um pouco mais, arqueando as costas para olhar um relógio na parede atrás de mim.

_Dez e vinte.

Respondeu.

_Tá brincando?! – dei um pulo, na mesma hora, já pegando a calcinha no chão – ...merda, merda... mil vezes merda... – vesti-a rapidamente e comecei então a procurar pelas minhas roupas.
_O que foi? – ela se assustou – Você tem que ir??
_Eu vou tatuar, tá marcado às 10 e meia... – coloquei (sem abotoar) o jeans e fui calçando de qualquer jeito os All Stars – ...que merda, mano. Minha amiga vai me matar, cara!
_Calma, eu te levo! Onde é? É perto?
_Não, meu. Fica aí! Não precisa se vestir, sair correndo... – coloquei o sutiã preto, vestindo a camiseta amarrotada e fechando já as calças -  ...deixa, eu pego o metrô. Dá tempo!

Mentira. Não dá.

Beijei-a rapidamente, num selinho firme. E corri escada abaixo para pegar o primeiro táxi que aparecesse, desgraça. O desenho estava bem dobrado no bolso da jaqueta. Podia ouvir, na minha cabeça, a Lê me xingando de todos os nomes possíveis. Não ia dar tempo. Por que diabos eu fui insistir de ser a primeira? Agora eu ia conseguir foder de vez o barraco e o tatuador certamente ia querer sair para almoçar depois, a pausa ia ficar imensa e uma de nós não tatuaria tudo naquele dia. Cara, eu era uma mulher morta. Morta. Droga!

(...)

Só me dei conta da grosseria – e tamanha – quando já estava longe demais para reparar o dano, inferno. Fechei os olhos, apertando-os em arrependimento, conforme o taxista descia a Arcoverde. Não se larga uma garota assim, não uma hétero, porra, depois da sua primeira noite ever com uma mina ainda! Por um segundo, por um segundo temi que pensasse mal de todas as lésbicas do mundo, como um todo – e que passasse, agora, a ficar com um pé atrás comigo. Ah, isto não.

Escrevi: “Ei, desculpa sair correndo assim. Mas a minha amiga vai me matar, juro juro. Posso te compensar, talvez, com um jantar mais tarde? ;-)”. Após enviar, já mais aliviada, olhei para frente pela janela e notei o trânsito em que estávamos. Um pouco mais abaixo, a Arcoverde estava completamente congestionada por conta da tradicional feirinha boêmia da Calixto. Quinze para as onze em pleno sábado, é óbvio.

_Deixa, amigo... vou a pé daqui! – toquei no ombro do motorista, já tirando o dinheiro da carteira – Quanto deu?

Bati a porta do táxi, descendo a rua entre os carros com pressa. Já havia subido na calçada quando a Patti me respondeu. “Relaxa, vms sim!”, ufa. Segui descendo e digitei apressada, dividindo minha atenção entre a rua esburacada e o visor do celular. Perguntei o que ela queria fazer e, para o infortuno dos meus extintos anos de estudante, ela escolheu ir ao cinema. Não discuti a respeito, contudo; aceitaria qualquer coisa que propusesse e pelo menos era do lado de casa, no shopping da Frei Caneca. Devo esta a ela, pensei, já a poucas quadras do estúdio de tatuagem.

Atravessei a Henrique Schaumann – o semáforo da avenida não fechava nunca! – com certa impaciência. Tinha em mãos o primeiro cigarro do dia, já pela metade. Sabia que teria que entrar direto assim que chegasse e me preocupava o meu estômago vazio. Andei mais duas quadras já na Francisco Leitão e logo pude avistar a minha amiga, revoltada, parada em frente ao estúdio e apoiada em um poste, com os óculos escuros moderninhos e o cabelo curtinho arrepiado para cima. Estava de bermuda, daquelas bem sapatão mesmo, porque decidiu de última hora que tatuaria na panturrilha. Fumava impaciente. Me aproximei, já receosa da bronca, atravessando a rua até ela.

_Mano, tomar no cu você e essa merda da sua pontualidade, cara. Eu vou te matar... – a Lê tirou os óculos, me segurando pelo braço como uma criança e arrastando para dentro do estúdio, jogando o cigarro fora na sarjeta.

Dezembro 21, 2011

À diante

Encostou a cabeça sutilmente na parede, curvando-se de lado. Os longos fios morenos pendiam no ar, o ombro tocava apenas de leve a parede do corredor. Havíamos conversado por mais de uma hora sentadas na escada de um edifício pequeno em Perdizes, onde morava com duas amigas, e agora parávamos para eu fumar já próximas a seu apartamento. Deslizou o corpo lentamente e percorreu as costas na parede fria, apoiando-se dos ombros à cabeça, agora por completo. Me olhava, à espera. Era como se a Patti posasse, disponível e de certa forma serena, voltada de frente para mim.

Eu estava sentada do outro lado do corredor, as pernas dobradas e abertas de leve, os braços apoiados nos joelhos. Uma das mãos segurava um cigarro já quase terminado e a outra, acima da cabeça, mantinha a minha franja bagunçada fora do rosto, enquanto observava-a de gracinha ali comigo, em pé. Cara. Já sentiram como se pudessem, de fato, sofrer por vontade de uma garota? Vontade dela, vontade física, porra. Mesmo que contida só por alguns instantes – você ali, parada. Perdendo qualquer sanidade. Puta que pariu.

Incontáveis vezes, na minha vida. E esta era uma delas.

Sorri breve, sem tirar os olhos de cima da Patti. Você vai me matar, mano, pensei e joguei fora a bituca, preciso parar com essa imbecilidade de pôr hétero na minha cama. Imbecilidade porque eu já sabia como era e certamente o seria. O lance com as inexperientes no ramo da sapataria é que elas freqüentemente funcionam como fáceis elogios ao nosso desempenho e, consequentemente, acabam por tirar-nos do sério.

E tiram, mais ainda, por não saber retribuir o favor. Te enlouquecem por horas, de maneira não premeditada, alheias a qualquer autoconsciência sexual saphos e você acaba por terminar a noite exausta, gratificante e previsivelmente com o ego fora das devidas proporções, mas prestes a explodir. E digo, realmente prestes a explodir. É de socar o travesseiro, morder o lençol, chutar a porra da porta do quarto e ir fumar a um mínimo de quinze metros de distância da garota. É o tipo de frustração egocêntrica que vicia. E aí quando você finalmente se cansa da tortura, passa os meses seguintes comendo lésbicas de carteirinha, uma atrás da outra. Orgasmo garantido e etc.

Agora lá estava eu, de volta ao primeiro estágio do masoquismo egocêntrico. Já sofrendo por antecipação, com uma mulher maravilhosa à minha frente e um potencial carinhoso tremendo. Vamos lá. Levantei-me, indo direto na sua direção. Precisava garantir-me naquela e ela estava ainda na parada sugestiva e sutil, tateando as possibilidades. Eu já não. Coloquei as mãos na sua cintura, beijando-a contra a parede, num movimento brusco – e desci os dedos firmemente para as suas coxas, erguendo-a no meu colo. Não teve sequer tempo de pensar, entre um beijo e outro. Mas abraçou-me com vontade, segurando-se.

Pelo tempo que agüentei-a. E não foi pouco.

No quarto, porém, o tom mudou. Não a intensidade, nem o foco. Acompanhava agora à meia luz, mas da mesma forma, cada uma das suas curvas. E ela parecia insistir em esconder-se, de si mesma e de mim, sei lá, transparecia constrangimento. Ou uma insegurança inédita no nosso convívio. Fosse o território desconhecido, fosse a merda da suposta autoconsciência feminina, aquela imagem ridícula que algumas têm do próprio corpo – e que eu sempre, sempre odiei. Especialmente na ala hétero, uma incidência muito mais pesada do que na lésbica, tradicionalmente mais livre de conceitos sociais. Algo a ver com o feminismo, talvez. Presumia e ela disfarçava bem, via seu esforço em manter-se desinibida. Por uma noite, aquela.

Nua. Eu empunhava o lençol, deslizando-o lentamente pelo decorrer do seu corpo.  Aos poucos, descobriam-se uma a uma as tatuagens old school que lhe decoravam a pele e eu a olhava, admirada, sem desviar o meu interesse. Nem por um segundo. O lençol percorreu, por fim, os seus dedos. E aí caiu liso sobre o colchão. A Patti permaneceu deitada, ainda que inquieta; apenas sua respiração pulsando sob uma espera que lhe parecia agonizante.

Ah. Sempre existiu, ainda que não houvesse qualquer forma de contato, de mútuo tato, algo de muito intenso e íntimo em duas mulheres despidas numa mesma cama. Sem pressa, movimentando-se femininas. E movi-me então na sua direção. Ela me aguardava tensa, como se fechasse os olhos antes de um grande salto. E fiz com que os abrisse. A melhor parte é estar solta no ar, garota. Procurei meios que a fizessem compreender, lentamente, o que eu tanto via nela. Em cada centímetro dela. Em cada pedaço que, pouco a pouco, eu percorria. Com os dedos, com a boca. Com todas as minhas mais vivas intenções.

E ela por fim, entendeu.

Dezembro 19, 2011

Hipotética infundada

E ainda assim, a ideia não saía da minha cabeça. Filhos da puta.

Ah, não. Eu não ia enlouquecer por culpa daqueles dois mal-amados. Eu me recusava, isto sim, até o último copo de whisky. E passei a madrugada seguinte em claro, atormentada pela média de acertos dos comentários da Marina sobre a minha vida, mas me entretendo com uma garrafa irlandesa e a coleção de videogames do Fernando, que me acompanhou na imprestabilidade sedentária até as duas. E aí foi-se dormir para conseguir trabalhar direito no dia seguinte. Segui sozinha – estas eram, afinal, minhas primeiras “férias” em muito tempo –, convencendo-me entre uma pista e outra de Mario Kart de que a Mia não tinha influência alguma em quem eu queria ou deixava de querer.

Já na tarde que se seguiu, pouco depois das 13h, a ressaca me puxou semi-adormecida do sofá e arrastou-me até o chão frio do banheiro, onde acordei de vez. Ótima maneira de passar as mini-férias. Precisava agora me apressar para conseguir chegar a tempo num exame admissional, nas redondezas da praça da Sé, às 14h. Inferno. O calor abafado e aquelas nuvens enjoadas que cobriam o céu paulistano quase me fizeram vomitar por diversas vezes naquele metrô suado. Cheguei intacta, porém, e saí da mesma forma.

Ufa.

Fui direto ao meu antigo trabalho, resgatar a carteira de trabalho que havia deixado lá para assinarem. A Patti me enviara uma mensagem durante o percurso, em algum momento, mas li-a apenas ao sair do estúdio. Caminhava cansada e azeda pelas ruas estreitas da Vila Madalena, em direção à casa do Tchiello para pegar o meu desenho, e por algum motivo não consegui lhe responder. Bloqueio emocional estúpido. O calor começava a me irritar, baixando minha pressão e deixando-me mole. “Ele saiu faz uns 10 minutos, foi levar a Pri no metrô”, disse a mãe dele no portão, referindo-se à namorada do Tchiello, “já, já deve tá chegando aí!”.

Droga, esperei. E na volta, já com o desenho em mãos, amassei meu amigo num surto de felicidade. Quase sufocado, ele me xingou repetidas vezes, rindo. Aquela seria a minha a minha oitava. Delírio, endorfina das puras. Fiquei para algumas cervejas com ele e saí já com o sol ameaçando se pôr. Pensei na Patti de repente, na manhã anterior. Cara, eu estou sendo uma idiota. Pensei que estragaria tudo, como sempre, e a respiração apertou o meu peito. Não sabia porque gostava dela, apenas três dias depois e assim, tão inesperada e gratuitamente – mas o fato, danem-se, é que gostava. Com Mia ou sem Mia antes.

Peguei meu celular. Hope my new star doesn't turn to dust – disquei para ela. You think I'm playing with you..., poucos instantes depois ela atendeu e eu sorri, aliviada, ...but i'm just afraid to lose. Cumprimentei-a animada, já brincando, fazendo qualquer gracinha que me veio à cabeça, quase chegando à estação de metrô Clínicas. Ela parecia feliz de ouvir-me dizer seu nome, competindo com o tráfego de ônibus e carros barulhentos.

_E aí, já cansou de mim?
_Estranhamente, não... – ela riu.
_Posso ir te ver então?

A mudança automática de percurso veio, como muitas vezes antes viera. Arrependível, ah, isto com certeza. Mas foda-se a Marina. Ela sem esforço algum provaria-me errada, e muito em breve, só que hoje não. Hoje não. Esta noite, garota, I'm trying hard to find my way to keep you.

Dezembro 16, 2011

Hush! Hush!

Vc. me faz sentir em casa, de um jeito estranho”. Olhei a sua mensagem, já pela terceira vez, e sorri. Estiquei os pés sobre o apoio lateral do sofá e traguei mais uma vez. Dei uma bola, segurei o hashishe por alguns instantes no pulmão, o corpo calmamente apoiado nas almofadas. E então deixei que a fumaça saísse. O sol começava a se pôr do lado de fora da Frei Caneca, todo o cômodo tomara aos poucos um tom alaranjado. Eu já havia respondido a mensagem, há alguns minutos, e não obstante olhava-a incansavelmente.

Aquela tarde de quinta-feira estava tranqüila. Tirei da tela, apertando o botão de backspace, e abri campo para uma nova mensagem. Coloquei animada o número do celular da Marina, decorado há alguns anos, no destinatário. “Qdo vc. ñ consegue parar de ler uma msg...”, hesitei. ...quer dizer que você está apaixonadinha? Ah, não mesmo. Não dava. Por mais que fosse a Marina, alguém que possivelmente adoraria receber este tipo de insight, principalmente um que partisse de mim, eu não podia mandar aquilo. Deletei tudo, de uma vez. E comecei de novo: “Ñ consigo parar de olhar p/ a msg de uma garota”.

Resumi.

E a Marina, claro, respondeu no mesmo instante, antes que eu levasse mais uma vez a seda cuidadosamente apertada aos lábios. “QUE GAROTA????? :) :) :)”, em letras maiúscilas exageradas, eu comecei rir sozinha. Você se empolga, né, Marina. Não havia lhe contado direito sobre a Patti e a noite de terça no Vegas, dada a situação com a Bia no dia anterior. Ocupara-me a manhã toda, aquela, com a Patti e a sua boca e seus sorrisos e cochichos delicados  na minha cama. Dávamo-nos bem. E em raras ocasiões na minha vida, isto pareceu-me melhor do que... bem, sexo. Respondi.

“Mas essa ñ é a q. vc. conhece faz, sei lá, 1 dia?”, ela respondeu. “E?”, soltei a fumaça no ar despreocupadamente e sentei-me, o meu cabelo começava a bagunçar pelo tempo ali deitada. Curvei-me sobre a mesinha de centro e aí deslizei suavemente uma das pontas na parede do cinzeiro, fazendo com que as poucas cinzas formadas caíssem. Ainda estava com o celular em mãos, mas a Marina não me respondia. Larguei-o sobre a mesa, ao lado do cinzeiro já um tanto sujo. Preciso limpar isto algum dia ou vai impregnar a casa toda, pensei. Sem me mover um centímetro, no entanto, óbvio.

Traguei mais uma vez e decidi parar naquela – hash batia mais forte em mim, apenas um pouco além daquilo e eu ficaria realmente chapada. Deixei estar e apaguei-o no cinzeiro, deixando-o apoiado na borda. O celular vibrou sobre a mesa. “Vc. ñ acha q.”, li, “pode estar projetando um pouco? :-/”. Ofendi-me na mesma hora. Meu... projetando o que, Marina?! Ah, não, eu não precisava daquele tipo de comentário. Não dela. Bufei, toda irritada. Olhava a tela do celular e não entendia aquela postura, deixei-me afetar a contragosto.

Projetando o que, meu?!

Neste mesmo instante, o Fer entrou no apartamento carregado de sacolas plásticas nas mãos. Me cumprimentou, falando qualquer coisa que não prestei atenção, e deixou as chaves sobre a mesa ali ao lado. Atravessou então o cômodo e foi direto para a cozinha, onde acomodou as compras pelos cinco minutos seguintes. Aí retornou à sala; eu ainda não havia respondido para a Marina. Ele começou a falar e eu virei-me para olhá-lo, em pé metros atrás do sofá, tentando abrir um pacote com os dedos e os dentes.

_Fez o que... – perguntou-me quase indecifravelmente, com a boca ligeiramente ocupada – ...o dia todo?
_Fui lá no Tchiello agora à tarde, pedi pra ele desenhar uma parada pra mim... vou com a Lê, sábado, tatuar.
_É? Mas cês vão onde?
_Num lá em Pinheiros.

Notei mais uma mensagem da Marina no celular largado sobre a mesa, mas não peguei-o para ler. Não quero saber.

_Hum... – finalmente conseguiu abrir o pacote e sentou-se na poltrona ao lado do sofá onde eu estava – ...e quem tava aí hoje de manhã?
_Ah, uma menina – espreguicei-me, enquando falava, esticando-me contra o encosto.
_Não, jura?! E você resolveu inovar também em... sei lá... outras áreas da sua vida?
_Babaca – eu comecei a rir dele e peguei o celular para ler.

“Flor, ñ se chateia. Eu só acho q. vc. devia ir com calma e ver se... se é isto msm”, a Marina havia me escrito.

_Que menina?! – o Fer prosseguiu, deixando as brincadeiras de lado, e eu desviei o olhar da mensagem.
_Ah, aquela lá, do Vegas – sorri para ele – Patrícia, Patti.

Então ele me olhou, como se estranhasse, arregalando os olhos por um instante e aí suspendeu as sobrancelhas, dando de ombros. Como se dissesse “bom, então tá”. Não entendia a reação das pessoas. Qual é agora?! Não era como se eu nunca tivesse me interessado por ninguém, na minha vida toda, por mais de um dia. Ainda que, ... ok. Consecutividade podia não ser exatamente o meu forte, mas, meu, e daí?! Me deixa, porra. Finjam menos supresa, exibam menos relutância; sejam educados, caralho.

Emburrei-me, balançando a cabeça comigo mesma e parei de olhar na direção do Fer. Isto é ridículo. Quem era a Marina também para ficar aí pressupondo teorias conspiratórias a meu respeito, a respeito do que eu sinto ou não por uma garota?! Eu estava bem – e estava bem há meses –, estava livre, limpa de romantismo fracassado. Não era como se, como se, se a garota estivesse substituindo a porcaria da Mia na minha vida. No meu coração.