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agosto 26, 2014

Já faz tempo

_Linda, desculpa... e-eu... – me enrolei, com o Skype ainda aberto – ...a minha mãe tá me chamando por mensagem aqui... – “minha mãe”, porra? – ...eu preciso ir. Já já te chamo de novo, tá?
_Cê tá falando sério?

A Mia começou a rir, indignada. E deitou na cama achando graça, ainda nua – “então tá”. Eu apertei meus olhos em si mesmos, me odiando por aquilo enquanto olhava a sua bunda maravilhosa parada na tela. Qual é o meu problema, cacete?

_Foi mal. Mesmo. Tenho que ver o que é, mas já te ligo... – falei, hesitante na minha decisão. 

E nos desconectamos.

Me sentia mal por mentir para a Mia. Mas não podia ignorar aquela notificação. Não aquela. Desceu sobre a tela do Skype me avisando duma nova mensagem recebida – e ainda que eu não tivesse aquele número na agenda, eu tinha quase certeza que era a Clara. Não a minha mãe. Essas coisas acontecem mesmo quando você menos espera. Quantos dias fazia desde que enviei a mensagem sobre a troca de número? Dois? Três? Por que diabos ela esperaria 72 horas para me retornar? Não faz sentido. Só se ela tivesse, sei lá, viajando no meio do mato. O que também não fazia muito sentido – a não ser que ela tenha ido passar temporada numa caverna no meio do Nepal. Quer dizer, quando fomos para Buenos Aires, ela não desgrudou um segundo daquela porra de iPhone. Aliás, ficou tirando milhares de fotos minhas a (meu) contragosto.

Não. Não podia ser isso. Mas agora que a mensagem já estava no meu telefone, eu tinha que lidar com ela. Por mais ridículo que soe, por um segundo tive medo de abrir. Em partes porque a minha cabeça não conseguia pensar em resposta alguma que não envolvesse xingamentos consideráveis à minha pessoa. Ou uma versão elaborada de “nem fodendo que você vai começar a me mandar SMS agora, sua cretina de merda”. Por que eu faço isso com os outros? Ou comigo – por que diabos eu faço isso comigo? Um frio percorreu o meu estomago. Argh. Devia ter ficado no Skype com as pernas da Mia.

Para desapontamento de todas as minhas expectativas negativas, todavia, quando abri a mensagem não era nada daquilo. “O que você tá fazendo?”. Espera. Oi? Li mais duas vezes. Isso não pode ser dela. Alcancei o meu celular antigo sobre a escrivaninha do quarto. E chequei na lista o seu telefone – que depois de todo o drama que fiz para enviar a mensagem sábado, acabei esquecendo de anotar no novo aparelho. Não entendia: estava certo. Era ela. Mas isso não faz o menor sentido!, pensei. Por que ela esperaria três dias para me perguntar o que estou fazendo?, eu raciocinava, confusa. Era um comentário sobre o meu comportamento? Porque, de alguma forma, não me fazia sentido que ela se desse ao trabalho de me enviar uma mensagem no meu novo celular parar criticar a minha falta completa de julgamento – não se fosse para ser tão sucinta assim. Ela o teria feito no antigo e na hora. Seria mais simples, mais rápido. Não?

E se não era uma crítica, afinal, queria dizer que ela realmente tinha interesse em saber o que eu estava fazendo numa terça à noite? Duvido. Li mais uma vez a sua mensagem e aquelas cinco palavras despretensiosas me desnortearam. Que porra eu respondo?! Levantei da cadeira e caminhei até a porta do quarto, saindo para o corredor. Fui até a sala pegar o meu maço que tinha ficado na mesinha de centro. Nisso recebi mais uma mensagem – desta vez da Mia –, olhei rapidamente para a tela e ao ver que era dela, abri. “Essa conversa com a sua mãe tá tão interessante, é?”, dizia, junto a uma foto que provavelmente a faria ser presa em alguns lugares do mundo. Me fez sorrir.

O Du me viu passar e me provocou: "Mas já?". Comentou da cozinha, onde estava lavando os pratos que sobraram do jantar.

Não respondi. Voltei para o meu quarto e fechei a mensagem da Mia, abrindo mais uma vez a da Clara. Sentei na cadeira com os pés apoiados na janela entreaberta e fiquei olhando a tela. “O que você tá fazendo?”. Hum. Acendi um cigarro, soprando a fumaça para o lado. E encarava mais uma vez a sua escolha de palavras. Qual é, garota? Não conseguia entender aquela mensagem. Eu tô me preocupando demais? Não quer dizer nada, concluí. Ela provavelmente tinha ignorado a minha mensagem no sábado e na calada da noite no meio da semana, quando todas as más decisões são tomadas, ficou curiosa. Será? Na dúvida, eu preferia ir com essa explicação menos problemática dos eventos. Tirei então uma foto do cinzeiro que estava apoiado na janela. Com parte do meu pé aparecendo no canto da foto. E enviei para ela – “Porra nenhuma, e vc?”. Levei o filtro mais uma vez à boca e seguiu-se aquele silêncio inevitável de espera. Ugh. Enquanto tragava, voltei à mensagem da Mia e digitei com apenas uma das mãos (a outra estava com o cigarro) – “nem se compara. pqp ;)”, mandei. 

Respirei fundo. Larguei o meu celular no colo por um instante, tragando mais uma ou duas vezes até receber a resposta. Peguei mais uma vez o celular – e era a Clara. Puta merda. Ver o seu número na minha tela depois de tantos meses me dava frio na espinha. Abri. Nela, junto com um “considerando ir no posto...”, estava a foto de um maço vazio. Eu ri. Coloquei o cigarro entre os lábios para digitar a resposta, inclinando o meu corpo sobre as minhas pernas, apoiando nelas os meus antebraços. Antes que pudesse escrever, entretanto, recebi mais uma mensagem dela.

“Como vc tá?”.

agosto 25, 2014

Tecnologia

Admito que ter um celular decente – uma vez na vida – tinha lá as suas vantagens. Eu me sentia uma idiota por só agora estar baixando os aplicativos que meus amigos tanto falavam. E passava minhas horas tentando recuperar o tempo perdido. Fiquei tão obcecada nos primeiros dias que meus colegas de trabalho começaram a dar apelidos engraçadinhos para mim. Nem meia semana depois de comprar o aparelho, na terça-feira, fui almoçar com o estagiário numa padaria perto da Brigadeiro e ele achou um jeito de fazer piada com literalmente tudo o que passava na nossa frente. Como se eu fosse uma porra de uma caipira. “E isso é uma estação de metrô, olha”, brincava, “já entrou numa antes?”. Revirei os olhos – “Na boa, velho? Vai à merda”.

Ele se divertia. “Bom, para quem nunca tinha usado o Whatsapp...”. Há-há. Que seja. Não era como se eu tivesse outra coisa para fazer também. O nível de tédio na produtora estava páreo a páreo com um filme do Terrence Malick naquela semana. Passei a tarde toda seguindo amigos no Instagram e curtindo suas fotos, rodando à toa na minha cadeira. Me entretinha especialmente com o perfil da Marina, era o meu favorito entre todos. Ela basicamente publicava fotos de comidas fofas, xícaras, bolos, coisas assim. Só. Ah! E paredes. Incluindo a sua última – postada na volta do almoço na Vila Madalena –, era um muro perto lá da redação onde ela trabalhava, tinha uma plantinha nascendo no meio dos tijolos. Sua cara mesmo essas coisas, pensei. Eu curtia tudo. Como era nova naquilo, chequei umas mil vezes com a Lê se a Mia não conseguia mesmo ver as fotos em que eu colocava corações– porque ô aplicativo dos infernos. Aquele treco me recomendou seguir todas as minas que já peguei na vida, puta que pariu. A única pessoa que não estava na lista de importados do Facebook, mas que segui mesmo assim, foi o Fer. Achei ele nos comentários do perfil de outro amigo. Aproveitando a nossa fase relativamente boa, adicionei – ainda que o seu perfil só tivesse vídeos curtos de vinis tocando. Ska, rocksteady, punk antigo. Essas paradas assim.

A minha primeira foto foi o relógio da parede da produtora, exatamente às quatro e vinte. Não muito original. Mas levei quase meia hora para escolher um filtro e estreou a minha conta.

Aquela minha falta absoluta de conhecimento tecnológico parecia divertir todo mundo. Tão logo descobriu que eu tinha agora um smartphone, o Gui me mandou uma mensagem de voz no Whatsapp me chamando de PI-RA-NHA – que eu escutei em alto e bom som no meio do trampo, é claro. Desavisada daquela funcionalidade de merda. Argh. Eu te mato. Ele passava as horas agora me enviando prints dos caras que encontrava no Tinder. O aplicativo que a Marina me proibiu de baixar antes mesmo da Mia se pronunciar a respeito. A verdade é que tudo aquilo me soava um tanto novo. Não era como se eu não soubesse o que eram as coisas, eu só nunca tinha realmente usado nada daquilo. Não com minhas próprias mãos – e soava muito mais babaca na boca dos outros.

O meu máximo de engajamento digital anteriormente limitava-se a uma enxurrada de SMS, raros acessos ao Facebook e talvez uma webcam aqui e outra ali quando o MSN ainda existia. Sempre com o status invisível, geralmente para fugir da Roberta. Fora isso nada. Não tinha paciência: preferia sair e encher a cara, pegar alguém – não que isso tenha mudado muito. Para se ter ideia, eu ainda tinha um PC lata-velha em casa ao invés de um laptop. Então, é, era um mundo novo.

Naquela noite, sentada na cozinha com o Du jantando o resto da comida que ele fez no almoço, baixei também o Skype. O Du usava ele para ver o Martin. Seu amor mal-resolvido de Barcelona. Entre uma garfada e outra, mandei uma mensagem para a Mia – , eu meio que me sentia cool, ultraconectada –, perguntando se ela também tinha um. E logo veio o pedido de autorização do seu usuário. Não demorou muito e ela estava na minha tela, tendo uma visão privilegiada da minha boca mastigando a comida, num mau enquadramento que durou alguns segundos até eu me ver no canto da tela.

_Foi mal. Não saquei que a minha câmera também tava ligada – falei.

Ela achou graça e o Du, que estava sentado do meu lado, deu um tapa na minha cabeça.
“Cê é muito lerda, velho”, ele comentou rindo, já terminando o seu prato. Podia vê-la se divertir com aquilo, provavelmente em seu quarto em Higienópolis. Estava escuro no fundo da tela.

_Que vocês estão comendo por aí, afinal?
_Macarrão requentado – virei o celular para o meu prato para que ela pudesse ver –, tinha milho enlatado também, mas já acabou...
_E tá gostoso isso? Parece horrível.
_Valeu, hein... – o Du resmungou, brincando.
_Ah. Tá “ok”.
_Hum. E você vai demorar muito ainda?
_Não, já tô acabando quase...
_Então tudo bem. Me avisa... – a Mia sorriu; com o cantinho da boca, imprestável – ...viu, quero te mostrar uma coisa depois.

Pulei imediatamente da mesa. Bastou aquele sorriso filho-da-mãe dela e eu já estava largando o meu prato semi-terminado sobre a pia. Indo me trancar no quarto. “SUAS CACHORRAS!”, o Du riu e gritou, quando eu já estava no corredor. Provavelmente tendo presumido o mesmo que eu. “Cê escutou isso?”, comentei para a câmera achando graça, instantes antes de entrar no quarto, e a Mia acenou que ‘sim’ com a cabeça, também rindo. Fechei a porta atrás de mim e encostei contra a madeira, com o braço esticado na minha frente. “E aí”, pedi, vendo o celular, “o que era?”.

“Hum”, ela riu. E pareceu engatinhar sobre a sua cama com o celular na mão. Por algum tempo vi só uma tela escura e alguns flashes perdidos de teto até que, de repente, tornei a vê-la bem, segurando o celular com as duas mãos como se o ajeitasse sobre alguma coisa. “Mostra aí, meu...”, falei, já com um sorriso involuntário na cara. “Espera”, ela achou graça, ajeitando-o, “deixa eu colocar aqui”. Nisso, o celular se desequilibrou algumas vezes e ouvi a Mia xingar; eu me divertia. “Eu queria te perguntar uma coisa”, falou, já quase conseguindo. “Pergunta...” – sem tirar os olhos da tela, aproveitei o meio tempo para ir até a cadeira e empurrei a lateral dos tênis (um no outro) para fora do pé, me livrando deles. “É que...”, a Mia se ajoelhou na cama frente à câmera, que enfim parara sozinha sobre a mesinha de cabeceira, com um camisetão desses de dormir. “...eu tô preocupada”. “Ahm”. Eu a olhava. “Apareceu uma manchinha em mim”, ela se inclinou de quatro, com os cotovelos apoiados sobre o colchão e começou a puxar com as mãos a camiseta sobre a cabeça. Descobrindo a calcinha, as costas e suas tatuagens curvilíneas – progressivamente. Levei a minha mão à boca. “Sei”, coloquei a lateral do dedão entre os dentes. 

Observando-a, entretida.

Agora com o cabelo magnificamente bagunçado, tendo largado o camisetão à sua frente na cama, ela se ergueu mais uma vez de joelhos – “não sei se você consegue ver”, continuou, olhando para o próprio corpo. E eu segui na brincadeira: “Hum”, me inclinei na cadeira com os olhos na tela, “onde é?”. Os seus dedos começaram a percorrer o seu abdômen, como se caminhassem na ponta dos pés sobre a sua pele. Descendo da sua cintura na direção das suas coxas – “por aqui”. “Ahm”. “É que é bem pequenininha”. Eu ri. “Chega mais perto”, pedi, literalmente já com água na boca. Como eu sou babaca por você, garota, puta que pariu; eu me admirava. 

 Mas interrompendo, do nada, meu telefone apitou.

agosto 13, 2014

Algumas horas dela

Na manhã do domingo, fui acordada pelo som da campainha e por uma dor filha da puta que martelava na minha cabeça. Nada agradável. Tinha metade do meu corpo para fora do sofá, enquanto a outra parte parecia escalar as almofadas desajeitadamente, vestida nas roupas da noite anterior. Me esforcei para abrir os olhos e chequei que horas eram no celular. 15:39. O visor indicava uma mensagem não lida – do Fer –, ainda no meu antigo celular. Tínhamos ficado na rua até sete da manhã, eu estava acabada. Depois, em um grupo de cinco ou seis pessoas, entramos ainda numa padaria nos arredores da República, bêbados, para comer alguma coisa.

Ou seja, cheguei em casa às oito. Vomitei todo o pastel embebido em óleo que comi, junto com os litros de cerveja e catuaba da madrugada anterior, e dormi no sofá no meio do processo de bolar um para aliviar o meu estomago. Porque, sim, sou muito saudável. Horas depois, sentia agora as minhas entranhas se contorcendo em ressaca, completamente vazias. Abri a mensagem do Fer e bati o olho rapidamente, antes de realmente ler. As letras estavam embaralhadas o suficiente para presumir que ele ainda estava alcoolizado quando digitou aquilo, provavelmente em algum lugar ali no Centro, na casa do Beto, onde disse que ia dormir para não ter que ir até Santo Amaro. Decodificado, o SMS dizia: “feliz pra caralho de ter te visto hoje, sua imbecil”. Mal sorri, ao ler, e a campainha tocou de novo. Ah, é. Torci mentalmente para que o Du estivesse em casa para que eu não precisasse me levantar.

_ABRE AÍ, CARALHO!! TÔ METENDO! – ouvi ele gritar do outro lado do corredor, de dentro do seu quarto, já irritado com a minha demora.

Argh. Fino.

Levantei numa puta má vontade. Com o cabelo emaranhado e as calças abertas, a blusa amarrotada. E me arrastei até a porta, rogando uma praga vingativa para que a foda dele fosse ruim. Desgraçado. Abri a porta. E ali parada, acordada e disposta, estava a Mia. Com um pacote na mão e olheiras bem menores que as minhas, vestida num shorts jeans e regata preta como quem – diferente de mim – já tinha tomado banho e se recomposto desde a noite anterior. Me vendo naquele estado lamentável normalmente ela teria gargalhado, mas acho que se sentia culpada. Cruzei os braços, apoiada contra o batente. “E aí...”, murmurei, com sono. Ela sorriu. “Oi”, respondeu baixinho, ainda no corredor; eu não me movi. Havia um silêncio um tanto constrangedor – algo como um “sabemos que fizemos merda” admitido não-verbalmente –, ela fechou então os olhos e apoiou a cabeça contra o meu peito. Achei que se arrependia. “Você é uma imbecil”, disse, para minha surpresa.

_Meu, é a segunda vez que eu ouço isso hoje... E eu mal levantei! – comentei, rindo.

E ela passou os braços ao redor da minha cintura, me abraçando carinhosamente. “Quem disse primeiro?”, perguntou.

_Então. Bizarramente, foi o Fer...
_Vocês discutiram de novo? – ergueu o queixo para me olhar, apoiando-o na minha camiseta.
_Não. A gente saiu ontem.
_Mas... Como isso? Assim de boa?

Acenei com a cabeça, “é, meu...”. Ela me observava, surpresa, com seus olhos castanhos. “Que foi?“. “Isso é incrível!”, ela sorriu. Sim. Eu suponho... – não tinha realmente parado para pensar até então no que aquilo significava. A Mia me apertou extasiada, me beijando a blusa, o pescoço, em beijos curtos, breves. Mais animada do que eu, que ainda sentia o meu estomago revirar todas as más decisões daquela praça imunda na República. “Estava com saudades”, me disse então. E eu estranhei.

_Mas você me viu ontem...

“Ontem não contou”, afundou mais uma vez a cabeça no meu peito, “foi uma merda”. Eu ri. Tem razão. Ela apertou os braços ao meu redor e ouvi o saco em sua mão fazer barulho.

_O que cê trouxe aí?
_Ah... – ela se desencostou do meu corpo para poder abri-lo, ainda na minha frente – ...eu te trouxe uns sanduíches lá de casa. Minha mãe comprou um presunto desses italianos.
_Ahm. Uns sanduíches? – achei graça.
_É. E maconha, sei lá, eu não sabia direito o que trazer...
_Não precisava trazer nada, linda. Eu tô cheia de erva aí!
_Tá. Mas é que... – colocou a cabeça mais uma vez no meu colo, agora sim soando arrependida – ...eu não quero mais brigar.

Eu comecei a rir. “Então você me traz comida e maconha?”. “É”. Ergui o seu rosto com as mãos, lhe dando um beijo, ainda rindo. E ela me abraçou mais uma vez. “Vem, entra...”, a convidei, me divertindo. De alguma forma, aquilo realmente me encheu o coração. Maldita. Sentamos na sala para comer e espalhamos migalhas por todo o sofá. A Mia bolou um, tagarelando sobre um artigo que tinha lido sobre os últimos dias do Lou Reed. Eu ainda estava cheia de presunto italiano. Fiquei só ouvindo. Depois de fumarmos, eu cogitava entrar no banho para depois darmos uma volta, quando escutei a porta do quarto do Du abrir. Ele passou pelado pelo corredor e cumprimentou a Mia de longe. Perguntou se íamos usar o banheiro, porque ia entrar no chuveiro assim que tomasse um gole d’água. Nós duas nos olhamos. Respondi que não. Esperamos ele entrar na cozinha e pulamos o sofá, correndo em direção ao banheiro, e nos trancamos ali. Vingança, meu caro amigo. Quando ligamos o chuveiro, ele já estava batendo na porta. Puto.

Tomei banho, ignorando. A Mia ficou me olhando de fora do box, sentada sobre a privada fechada. Estranhamente em silêncio. Com os joelhos abraçados contra o corpo. Quando eu já estava quase terminando, ela se despiu sem dizer uma palavra e entrou no chuveiro comigo. Ah, garota. Transamos demoradamente – irritando o Du, que a cada cinco minutos esmurrava a porta, de mau-humor por causa do seu pinto sujo. Não tô nem aí. Quando enfim saímos, a Mia enrolada na minha toalha e eu pelada, molhando todo o apartamento, ouvi ele me xingar do quarto. E vi o André passar rindo. A Mia escolheu um shorts bem caminhoneiro para mim e emprestou uma das minhas calcinhas. Já devidamente vestidas, me convenceu a pegar uma dessas bicicletas do Itaú e ir até a Praça do Pôr-do-Sol fumar.

Não precisei de nem dez minutos para me arrepender da decisão. Sedentarismo way of life. Eu tava morrendo antes de chegar na metade do caminho, é claro. A Mia se divertia com a minha indisposição. E me apressava, dizendo que o sol ia logo se pôr.  Foi um parto. Quando chegamos, a praça estava quase vazia e a vista espetacular. Acendemos o resto do que ela bolara mais cedo e conversamos sobre pedaços do corpo que nascem fora do lugar. Como dentes e dedos, é. Num papo muito estranho, brisado, que me fez contorcer de nojo e rir simultaneamente das coisas que ela dizia. A Mia me mostrou então como mexer propriamente no meu novo celular – e me chamou de imbecil mais algumas vezes no dia por tê-lo comprado. Me beijava sempre em seguida, o que não era tão ruim. Ali, tiramos a primeira foto decente que eu já fiz na minha vida com um celular: a Mia levantou a blusa quando estávamos sentadas numa área mais afastada, mostrando rapidamente os peitos e a tatuagem, com o baseado aceso na boca; ficou genial

Mas ela se recusou a me ensinar como colocar de papel de parede no telefone.

agosto 04, 2014

Vudu

_O que cê ia contar no telefone, hoje mais cedo?
_Ah. Nada... – eu ri, sem dar muita atenção ao assunto.

Bêbada. O Fernando abaixou a cabeça, ainda sentado ao meu lado. E ficou quieto. Ergueu então o copo de catuaba, matando o que restava ali dentro num gole breve. Parecia tenso. Tinha as mangas da camiseta branca arregaçadas no topo dos braços. Colocou um pouco mais da garrafa no copo. O gelo agora estava pela metade e o limão mal parecia fazer efeito. “Fala aí...”, murmurou sem me olhar diretamente, insistindo. Respirou fundo. E só então eu percebi o quanto ele tinha medo do que saía da minha boca.

“N-não era nada...”, respondi, olhando para ele.

O Fer tomou mais um gole, diretamente da garrafa – como se esquecesse do copo que acabara de encher. O que você acha? Que eu ia falar da Mia?, pensei. A minha cabeça rodava violentamente com todas as cervejas, as cubas que eu metera para dentro aquela noite. É melhor eu contar de uma vez do que deixar ele deduzir sozinho, refleti. Tornei a colocar o cigarro na boca. Sabe-se-lá o que isso seria, não é... E então, como quem faz pouco caso, falei:

_É bem idiota... – observei os meus próprios pés sobre o chão imundo da praça, entre uma tragada e outra – ...é só que, sei lá, faz uns meses que eu não falo com a Clara. D-desde que eu fiz merda e tal.
_...
_Enfim. E aí hoje, sei lá por que diabos, porque eu sou uma imbecil provavelmente, não sei o que me deu na cabeça e eu mandei uma mensagem pra ela.
_Claro que mandou... – ele riu, aliviado.  

Eu olhei por cima do meu ombro, para ele. E sorri:

_É muita prepotência ou o quê?
_Um pouco.
_Mas falando sério agora... – brinquei – Quais as chances dela ter um altar na casa dela com a minha foto?

O Fer gargalhou. E então balançou a cabeça.

_Uma boneca com o seu nome... – sugeriu.
_Com uns alfinetes, só se for, né?
_É...
_E eu ainda vou lá e me acho no direito de incomodar a cidadã, juro. Eu. Eu! Porque, afinal, sou mesmo inesquecível e ela é obrigada a engolir, né.
_Coitada. Ela provavelmente tá somando todos os números cabalísticos das letras da sua mensagem. Para jogar praga no chão que você pisa.
_Verdade. É melhor evitar passar debaixo de objetos pesados essa semana.
_Lustres, andaimes...
_Vou até fechar a saída de gás – eu ri.
_Come só frio por um tempo... – o Fer levou o gargalo da Selvagem mais uma vez à boca e quando comentei que ia subsistir de salame e cerveja pelos próximos dias, ele cuspiu metade do gole fora, rindo – ...bom, não mudou muita coisa.

“Né. Tiro de letra”, completei, fazendo graça. Nos divertíamos. E como toda entornada de lata que se aproveita vem, inegavelmente, seguida por uma dor de cabeça daquelas, a do Fernando logo virou a esquina. Caminhando puta da vida na nossa direção, com pernas morenas e peita do Skatalites. “Vixi...”, ele tomou outro gole, ainda rindo. E ficou em pé, pronto para a bronca. Lá vem. Resolvi que era melhor continuar sentada para não parecer que pulamos assustados juntos, como fizéssemos algo de errado.

_O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?? – a garota chegou já na voadora.
_Calma, Jô, a gente tá só conversando. Ela é minha amiga.
_E VOCÊ ME LARGA SOZINHA LÁ TRÁS???
_Você tá bêbada, meu... – ele deu mais um gole, indisposto àquilo, já querendo virar as costas.
_VOCÊ NÃO?? – ela o puxou de volta, quase derrubando a garrafa da sua mão e obrigando-o a se virar – HEIN? AGORA É MOTIVO PARA VIR AQUI E FALAR COM OUTRA??
_NÃO, PORRA, não é isso... mas... MAS QUE MERDA! – ele se irritou e eu fiz uma careta involuntária, temendo o barraco dos dois ali no meio da praça – SÓ NÃO VOU DISCUTIR COM VOCÊ ASSIM. QUAL É, CACETE?? NÃO TÔ FAZENDO BOSTA NENHUMA!
_É! SÓ QUE EU TÔ LÁ, COM OS SEUS AMIGOS!!! ENQUANTO VOCÊ FICA AQUI DE PAPINHO... PRA QUÊ CÊ ME TRAZ, ENTÃO??
_Mano...

O Fer fez mais uma vez como quem vai se virar. E eu me intrometi:

_Amiga, deixa eu te falar... – ergui a sobrancelha, rindo – eu curto buceta, beleza?
_Por que você tá falando comigo? – olhou para mim e então para ele, surtando – POR QUE ESSA MINA TÁ FALANDO COMIGO??
_Jô... – o Fer achou graça também, ainda na brisa da nossa conversa anterior.
_VOCÊ É MESMO UM IDIOTA. OS DOIS. ESPERO QUE SE DIVIRTAM!!

Deu as costas, pê da vida, sem mais nem menos. O Fernando abriu os braços, sem entender porra nenhuma, confuso – “MAS O QUE EU FIZ??”, gritou, ainda em pé no meio da praça. Ela já estava a metros da gente àquela altura, furiosa. Ele se virou, então, e me olhou, procurando por qualquer apoio moral. Eu gargalhava em cima da muretinha. “Eu não sei o que eu fiz, meu...”, murmurou, rindo também. E se sentou mais uma vez do meu lado, com a catuaba em mãos.

_Ô! Vou te convidar para comer uns salames lá em casa... – brinquei.
_É bom. Só por precaução.

julho 31, 2014

It's baba boom time!

A meu ver, existiam duas opções. Ou a Clara ia mandar eu me foder assim que visse a mensagem; ou ia apagar logo de cara e me ignorar. Passados os vinte minutos iniciais desde que o meu sentimento de autopreservação cometera suicídio telefônico, presumi que seria mesmo a segunda opção. Ou existe uma terceira? Um cara interrompeu os meus pensamentos, pedindo para passar por mim no corredor do metrô. Dei licença a ele com certa má vontade – tem espaço suficiente para nós dois, babaca espaçoso – e me acomodei contra uma das barras de metal. Estava ficando tarde já.

Desci na República e caminhei sozinha em direção a uma das praças próximas, onde ficava o bar. Estava escuro na rua. Um tanto frio também, o que me fez arrepender de não ter trazido uma jaqueta. Preciso beber, planejei mentalmente, olhando por cima do meu ombro para um cara que me seguia. Para o meu alívio, logo cheguei à praça. E o lugar estava lotado. Era um desses rolês de rocksteady lotados de caras mods tatuados, do tipo que te faz pensar em pin-ups modernas e carros antigos. Fiquei na dúvida se ligava para o Fer, avisando que estava ali, ou se isso seria estranho. Não tinha certeza do quanto ele realmente estava ok com a minha presença no bar – e não queria abusar das circunstâncias. Fui tomada por uma leve ansiedade, nervosa. Entrei na multidão que se aglomerava na praça, desviando das pessoas e passando entre as rodinhas de conversa. Alguém ali fumava maconha. Mais de uma vez senti o cheiro, mas sem ver de onde vinha.

Quando o avistei. O Fer estava com o seu “uniforme” – jeans e camiseta branca –, as tatuagens à mostra e nitidamente bêbado. Tinha o braço ao redor de uma garota que eu não conhecia. Era bonita, devia ter a minha altura e a idade da Mia, talvez. Os lábios cheios. Parecia vir de uma mistura incomum entre nordestina e latina, não sei bem explicar. Usava um camisetão do Skatalites cortado nas laterais, com um sutiã preto por baixo, e shorts. E exibia uma rosa old school tatuada na lateral do pescoço, o cabelo moreno jogado por cima do outro ombro; incontáveis traços desciam pelos seus braços. Os dois se encaixavam perfeitamente na multidão.  

Ao lado deles estava o Tchiello – um amigo em comum entre o Fer e eu, que eu não via desde a época em que saía com a Patti... para se ter uma ideia, não é –, a ex namorada dele e um outro cara que eu não conhecia. Imaginei se os dois ainda se pegavam. O Tchiello e a ex. Aparentemente sim. O Fer foi quem me viu primeiro. E não se moveu – eu que fui até o grupo; tirando um cigarro do maço para ocupar as minhas mãos inquietas. O acendi. E cumprimentei todos só com a cabeça, à distância. O Tchiello imediatamente lançou um olhar de estranhamento para o Fer, praticamente checando se ele estava de boa com aquilo. Comigo, isto é. E o Fer balançou a cabeça, tranquilo. Me senti desconfortável.

Provavelmente sem entender a situação, o terceiro cara da roda se adiantou e apresentou a si mesmo. Chamava-se Beto e era um dos organizadores da festa, dono de uma coleção imensa de vinis. Disse que tinha discotecado no começo. O Fer fez um movimento então para apresentar a garota ao seu lado – sem muitos detalhes “essa é a Joanna”, disse apenas. E eu fiz um esforço tremendo para não mover um milímetro sequer da minha atenção ou olhar na sua direção. “Prazer”, respondi. Um tanto seca.

_Vocês se conhecem de onde? – a mina fez cara de poucos amigos, em resposta.
_A gente se conhece faz tempo...
_É. Faz onze, doze anos... – completei.

Ela pareceu descontente. Agia como a maioria das minas agem perto do Fer e de mim: como se eu fosse uma ameaça. Amiga, deixa eu te contar: o meu negócio é outro. Não que importasse muito dizer. Por algum motivo toda hétero que o Fernando trazia para sua vida suspeitava que, mesmo eu sendo sapata de carteirinha, na calada da noite, fosse para economizar água no banho ou esquentar a cama alheia, eu e ele transávamos. Era a suposição padrão. Eu já estava acostumada. Até a Mia – meses depois de me conhecer, aos risos – admitiu ter ciúmes de mim no começo. Para cê ver, né. A homossexualidade não era cogitada nem quando eu literalmente estava comendo elas com os olhos.

Heteronormatividade cega mesmo as pessoas. E a daquela menina não custou muito a me cansar. Não que ela fosse escrota – muito pelo contrário –, era super gente fina. Parecia realmente interessante. O tipo de mina de quem eu seria amiga normalmente. Mas fez questão de me tratar com indiferença a noite inteira. Ficou cercando o Fernando como se eu fosse a última palha entre a sua insegurança e o fogo no rabo alheio. Mal trocou uma palavra comigo nas horas seguintes e ele também não – o que consequentemente me forçou a fazer amizade com o Beto. Que se foda, pensei. Juntos, fizemos umas trinta viagens da calçada até o bar, abarrotado de gente, para pegar bebida. Em pouco tempo eu já tinha me esquecido do frio. Fumei um baseado com uns caras que não conhecia, amigos dele, e fiquei completamente chapada – a partir daí ri de toda e qualquer coisa que saía da boca do Beto. 

De tempos em tempos, checava o meu celular. Os dois. Sem resposta da Clara ou sinal da Mia.

_Posso sentar aí? – o Fer me perguntou.

Eu estava agachada em cima duma muretinha baixa de ferro àquela altura, dessas que ficam ao redor das áreas com grama na praça, fugindo um pouco do caos, quando o Fernando se aproximou. Acenei com a cabeça e ele se sentou ao meu lado. Segurava uma garrafa de catuaba aberta nas mãos, do tipo que se compra de ambulantes na rua. Deixou-a no chão entre as suas pernas. E pediu um trago do meu cigarro. Quando o devolveu, segundos depois, murmurou um “e aí?” de cabeça baixa, antes de soltar a fumaça. Eu estava muito louca – então não respondi. Ele subiu os olhos, observando os meus, vermelhos, e achou graça.

_Tá boa a festa, então? – ironizou.
_Ô...
_Cê tem mais aí com você?
_Mais o q-quê? – perguntei, sem entender.
_Erva – ele riu.
_Não. Nem era minha, f-foi... – tentei apontar, me orientando, mas a minha cabeça estava confusa – ...ah. Uns caras aí. N-na, na frente ali do bar, não sei onde foram parar agora.
_Deixa pra lá – o Fer pegou a garrafa pelo pescoço e me ofereceu – Quer?

Neguei com a cabeça. Muito sensata. A verdade é que eu precisava de uns minutos antes de meter qualquer outra coisa no meu corpo ou eu ia começar a perder de vez o controle. Já tinha arregaçado as mangas da camiseta de calor. Coisa que, sóbria, eu não faria. Olhei para aquela catuaba Selvagem e achei desperdício bebê-la assim. Apesar das objeções do Fer, me levantei e fui até o bar num pulo só, onde fizera amizade com um dos atendentes. Trafiquei então um copo plástico com açúcar, limão e gelo. Voltei orgulhosa do meu feito. E entreguei para o Fernando beber com a sua catuaba. Talvez num esforço meio exagerado de agradá-lo, eu admito. Ele aceitou e riu. Encheu o copo, me dando primeiro para experimentar. Tomei só um gole – e estava bom. Já devia ser mais de meia noite, alguém colocou Jamaicans para tocar na mesa de vinis.

_A gente quase não se falou no fim das contas... – comentei.
_É. É que a Jô é meio...
_É... – eu ri.

O Fer passou a mão na nuca. Sem olhar diretamente para mim, de cabeça baixa. E mrmurou: “o que cê achou dela, afinal?”.

_Uma merda – eu respondi.
_O quê?!??
_Desculpa – ele subiu os olhos até mim, rindo, e eu comecei a rir também –, mas achei uma merda mesmo. Numa boa... Eu detestei.
_Caralho, meu...

Ele gargalhou, indignado com a minha honestidade. Tomou ar e completou então – “bom... menos mal assim” –, antes de dar mais um gole. Como se aquilo colocasse o seu novo relacionamento fora de risco. Da minha zona de risco, isto é. Balancei a cabeça, achando graça na sua observação. E tornei a tragar. Os olhos do Fer seguiram a minha mão por um instante. E num segundo senti que ele queria me perguntar da Mia. Mas não o fez. Encarou as próprias mãos, ao invés, e levou o copo mais uma vez à boca.

julho 29, 2014

Pulando três casas

“Mudei de num...”. Não. Apaga. “Tô com um número novo e...”. Não, não. Apaga de novo. “Sei que não faz diferença, mas mud...”. Argh. Deleta tudo. “E aí? Faz tempo que a g...”. Não. “Não sei como...”. Não, não. “Vou mudar de número e senti que devia...“. Não. “Bo...”. Não. “Clá...”. Não. “Clara...”. Não. “Oi. Só queria avis...”. Não. “Essa é uma msg coletiva: se vc tá recebendo isso, é pq...”. Não mesmo. Tá, vai. Abordagem honesta: “meu, to 5 min aqui decidindo se te mando isso ou não...“. Affe. Não, não. Tosco, apaga. “Ei. Meu numero novo é...”.

Revirei os olhos e afundei a cabeça na mesa da cozinha, irritada. Por que isso é tão difícil?

Que se dane. Peguei mais uma vez o celular na mão, agora determinada. E escrevi: “Vc provavelmente ñ quer saber... mas mudei de número, Clá, e seria estranho ñ te avisar =/”. Fique olhando para a tela por alguns segundos. Parada, covarde. Só vai logo, caralho. A Mia estava lá, metida na sua cruzada de retaliação pela Sapatolândia. Em pleno sábado à noite. E eu ali – não era como se estivesse fazendo qualquer coisa errada. Foda-se. Incluí o meu novo contato e coloquei o dedo sobre o “Enviar” – como quem tira um band-aid –, sem pensar direito.

Mas... Que porra eu tô fazendo? O arrependimento se seguiu em menos de um milésimo. E senti o celular contra os meus dedos, impossibilitada de fazer qualquer coisa àquela altura. Ótimo. Faz meses que tô sumida, ela me odeia. E de repente eu surjo com essa bosta de SMS aleatório sobre o meu número? Cai na real. Ela não tá nem aí, porra. Só imaginar a cara da Clara ao abrir aquela mensagem me fazia – argh. Não. (E por algum motivo eu a imaginava sentada na beirada da sua cama, semi-vestida e atrasada para uma festa qualquer, em meio ao seu quarto de panos pregados nas paredes, quando checava o celular e acidentalmente se deparava comigo ali). Por que eu fui incomodar? Tornei a acender a tela do telefone e observei – aquela porcaria tinha mesmo sido enviada. Merda.

_Fala.
_Quer ouvir uma coisa muito idiota que eu acabei de fazer?

Liguei então para a única pessoa no mundo que – estranhamente – não me recriminaria. Pelo contrário. E desta vez não era a Marina. Ela havia se tornado amiga da Mia, do tipo que me trocava agora nas tardes de domingo para cozinhar muffins de fubá e banana com ela, e se ouvisse eu dizer que mandei uma mensagem para a Clara a aquela altura do campeonato do nosso relacionamento provavelmente me esquentaria a orelha por uns bons vinte minutos. Não importa a irrelevância do ato. Não. Não era a Marina. Eu ouvi ele rir. Havia ruído ao fundo e o Fer soava levemente bêbado. “Provavelmente não”, respondeu.

_Onde cê tá? Na Augusta?
_Não. Tô num rolê na República... – respirou – Eu vi sua mensagem, mais cedo.

Hesitou, antes de resmungar.

_E?

“Cola aí”, falou, meio a contragosto. Sorri. Assim que desligou, empurrei para trás a cadeira e fui até o quarto trocar de camiseta. Voltei para a cozinha, peguei as minhas chaves e saí prontamente. Subi a Augusta toda me segurando para não ir pela Haddock – ver onde diabos estavam as mãos da Mia – e entrei no metrô de cabeça baixa, com o fone nos ouvidos, pegando o túnel que ia até a estação ao lado. Embarquei em direção ao centro. A República não era longe.

julho 18, 2014

ABC

_Eu não sei por que eu vim. Devia ter ficado em casa...
_Vai lá. AINDA DÁ TEMPO! – a Mia revirou os olhos, de saco cheio, argh.

De mim, do meu surto desproporcional de ciúmes. Os ânimos tinham saído completamente do nosso controle, em meio segundo. Para. Volta. Olhei para os seus braços cruzados, para a forma como o seu corpo todo parecia evitar o meu. E me senti estranha – cacete, não era isso. O que eu tô fazendo? Os pés da Mia estavam instáveis, meio bêbada naquela calçada. A olhei na minha frente e tornei a sentir uma raiva irracional, dessas que te reviram o estomago silenciosamente, só de pensar nela se metendo com uma moderninha qualquer da Augusta pelas minhas costas. Deixando a garota chegar perto dela. A verdade é que a menina me lembrava bem demais a mim mesma. Desgraçada. Com o seu jeito de quem não dá a mínima, cara de cachorrona. Seria muita pretensão querer ser a única? Como se eu pudesse preencher toda a cota de sapatas na vida da Mia. Sim. Era muita pretensão. E eu não sabia por que me sentia tão ofendida, tão puta de vê-la ali, bebendo com outra no Bambu. No meu território. Era isso. A Mia nunca pertenceu a nenhum daqueles bares caminhoneiros da Augusta, porra; aquela era a minha vida.

Mas não era como se ela também não o soubesse – a cada movimento do seu corpo escapava uma confissão. Fazia de propósito. Ela sabia que não estava ali por curiosidade. Por vontade de conhecer. Aquele não era o seu rolê e a intenção sempre fora me atingir, no segundo em que eu visse ou ficasse sabendo. Ou ainda que não. Sabe? Retaliação psicológica. Quis sentir-se vingada pela forma idiota como eu agi naquela tarde, num joguinho mental consigo mesma. Somos duas ridículas.

_Mano... – eu comecei a rir de mim mesma, nervosa – Você acredita que eu comprei a porra de UM CELULAR? – a olhei e passei a mão na nuca; a Mia parecia não entender – Pra m-me desculpar?
_Do que você tá falando?
_Juro. Eu sou uma PUTA IDIOTA mesmo. Vim aqui achando que ia ficar tudo bem...
_L-linda...
_Bom, eu vou voltar. Vou para casa.

Dava-me por vencida. Aquela excursão toda havia sido um fracasso, eu nunca deveria ter pisado para fora do apartamento. A Mia acenou com a cabeça, ainda distante de mim – “ok” –, em resposta monossilábica à minha decisão. Como ok?

_Você não vem? – me tornei inquieta mais uma vez.
_Não, meu... – me encarou, como se fosse evidente – Vou ficar.

Filha da...

_Pra quê diabos você tem que fic... Argh! – interrompi a frase antes que fosse tomada novamente pela merda toda – Quer saber, tá. Que se dane. Fica aí, eu vou embora...

Dei as costas para ela. Sem ter resolvido porra nenhuma naqueles dez minutos de vida desperdiçada. Comecei a andar para o lado oposto, na direção da Fernando de Albuquerque, que àquela altura já estava tomada de pessoas. Num barulho crescente de sábado à noite; entre todas aquelas gargantas sedentas por cerveja, catuaba, pelo o quer que fosse. Passei no meio da muvuca em frente ao Ibotirama e atravessei a rua. Me sentia estranha. Havia estranheza em voltar para casa sozinha, enquanto todas aquelas pessoas acabavam de chegar na Augusta, prontas para beber até cair e agarrar o mundo por toda a madrugada. Me constrangia de mim mesma. Eu sei que é estúpido – mas a Mia estava tão perto – e eu ali, caminhando como uma fracassada para um apartamento completamente vazio.

As minhas noites já foram melhores, resmunguei para mim mesa e atravessei para virar na Peixoto Gomide. Entrei num dos botecos próximos ao bar da Alôca e pedi um maço de cigarros. O meu já estava quase acabando. E se eu ia sentir pena de mim mesma a noite toda naquele apartamento, era melhor que eu tivesse um estoque de nicotina. O cara do balcão me lembrava um tio alcóolatra que eu tinha, por parte de mãe. Sabe quando a pessoa fica com a cara caída, meio envelhecida, e aquele tom amarelado na pele de tanto se embriagar? Era essa cara. Ele me entregou o maço e eu paguei. Saí na calçada, enquanto o ajeitava no bolso com um dos celulares, e comecei a descer a Frei Caneca. O Du ainda estava no cinema com o André. Entrei no prédio e o som das chaves destrancando a porta ecoaram no cômodo completamente apagado. Fui no escuro até a cozinha e acendi uma das luzes. Deixei os celulares e os maços, um quase acabado e outro cheio, em cima da mesa e me dirigi até a geladeira para pegar uma cerveja. Então sentei ali. 

Mas que merda.

Por um segundo a minha cabeça foi na direção da Mia e do que diabos ela estaria fazendo naquele mesmo instante – e com quem. Mas logo me tirei dali. Não posso entrar nessas brisas ou vou passar a porra da noite me consumindo em absoluto ciúmes, com raiva dela e de mim mesma. Tomei um gole da minha cerveja. E puxei para perto o meu novo investimento telefônico, observando a sua aparência frágil. Aquilo não ia durar muito na minha mão. Digo – estou deixando cair o tempo todo e esqueço o celular no bolso quando encho a cara, jogo as coisas no chão sem nem ver. Não ia dar certo. Abri a tela e comecei a fuçar sem muito interesse, completamente entediada, com certa dificuldade em me virar com o touch screen. Internet. Bloco de notas. Mensagens. Modo avião – que porra é modo avião? –. Um aplicativo do Facebook. Calculadora. Um jogo pré-instalado. Abri o joguinho e me entediei por mais alguns minutos com aquilo, antes de desligar a tela e largar o aparelho de volta na mesa, com um suspiro de absoluta frustração.

Peguei o meu celular antigo e o abri nos meus Contatos. Então peguei o novo e abri os seus – ainda vazios. Isso vai levar algum tempo, pensei. E comecei a cadastrar um por um dos números na nova lista. Metade dos números eu sequer registrava por que não fazia ideia de quem era. Tinha aquele aparelho há anos e aposto que me levou bem menos tempo – tipo uma meia hora... – para esquecer quem diabos era “A mina do bar verde”. Esses foram descartados. Já a outra metade me deprimia. Conforme ia adicionando os contatos, avisava uma ou outra pessoa que estava mudando de número. E sabia que nenhum dos meus amigos em comum com o Fer retornaria o meu SMS. Mas mandei mesmo assim. 

Fui descendo a lista, de forma não muito eficiente, intercalando goles de cerveja com números anotados e mensagens digitadas. Cada letra do alfabeto me tomava uns dez a quinze minutos até terminar todos os contatos. E depois de mais ou menos meia hora, cheguei invariavelmente num que eu não conseguia descartar.