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outubro 27, 2012

[ DESAFIO! ]

Lindos e lindas

Um dia vocês se cansam de mim e das minhas complicações... E abandonam para sempre a mim e à F.M., snif snif. Estou num momento crítico de entrega de um freela TENSO, trabalhando até de madrugada todos os dias e quase arrancando os cabelos, por isto tive que deixar o blog num cantinho reservado. Vim aqui avisar, né, porque acho que vocês merecem uma explicação a cada vez que “sumo” por falta de tempo ou excesso de trabalho. Caros: Não vou conseguir postar até o dia 2! Talvez dia 1º, se rolar um milagre.

Maaaas... VOU LANÇAR UM DESAFIO AQUI e quem sabe vocês se ocupam um pouco, enquanto eu não volto com os posts (está me matando não escrever, juro; vou dormir pensando na F.M. e na Marina no quarto e a Clara ali, para chegar, e o Fer na casa dos pais e a Mia toda mudada, na nova linda fase... e me mata! rs). SEGUINTE: DIA 12 DE DEZEMBRO, O BLOG COMPLETA LINDOS 3 ANOS E SURGIU A IDEIA DE  TRANSFORMAR CENAS EM CARTOON!

 
Como vai funcionar? Qualquer um(a) de vocês pode mandar! Desde a F.M. agarrando a Mia no aniversário na Sarajevo aos três chapados na sala (e a conversa sobre formigas) à disputa pela camiseta do Bowie com a Clara. Escolha a sua favorita do blog! Em dezembro vai rolar um encontro de feliz-aniversário-fucking-mia em São Paulo e vou lançar a galeria com os desenhos de vocês (e meus!) no Facebook.

Para uma lista de ideias (cenas), dei várias sugestões aqui.
Me desculpem pela demora? Prometo que volto em 5 ou 6 dias!

Amo vocês, muah!
;*

outubro 18, 2012

Ainda bem, ainda bem

Observava o teto, largada no sofá desde que chegara ao apê, estupidamente induzindo a mim mesma uma espécie de tristeza silenciosa. Foi assim na viagem toda de ônibus de Santo Amaro para lá. Eu não era normalmente adepta de fossa. Não costumava lidar com as coisas assim – o meu método, na verdade, tendia a ser muito mais barulhento e autodestrutivo; eu ficava com raiva; transformava cada angústia em surto e batia a porta numa saída desenfreada para os bares da Augusta, para as camas de meninas que não me eram importantes. Ou então fumava um maço todo trancada no quarto. Sempre assim. Esta era, no entanto, a primeira vez em que me sentia realmente fora do meu elemento. Desamparada, sem ele.

E me forçava a ficar ali, no apartamento vazio, com a ausência incômoda do Fer pelo cômodo, como punição pelo o que na minha mente acreditava ter sido culpa minha. A saída dele, o nosso afastamento. É estranho como os seus pensamentos se voltam contra você quando se está triste. Por mais que eu acordasse sã na manhã seguinte, por mais que minha cabeça voltasse devidamente ao lugar; madrugadas têm esta maneira sorrateira de te tirar de contexto e envolver numa brisa irracional, estúpida; e você não consegue fugir. De repente eu me via como a razão para tudo o que dera errado na vida do meu melhor amigo – desde o relacionamento prejudicado com a Mia ao seu retorno humilhante à casa dos pais. A culpa era minha; toda minha. E eu me torturava, claro, com os pés em cima do sofá.

Ouvi a campainha tocar. Marina. Levantei com desânimo e arrastei o meu corpo alguns passos até a porta, sendo recepcionada por um sorriso cuidadoso dela. Ela sabia por que estava ali, eu adiantara ao telefone. Livrara-se do seu encontro mais cedo para ir ao meu socorro. E chegou, portanto, ainda bem arrumada; num vestidinho branco que eu a vira usar em outras ocasiões, com uma malha turquesa aberta porr cima, e os óculos pretinhos. Tinha os cabelos soltos, acastanhados e bonitos. Foi reconfortante vê-la em pé ali. “Você quer sair ou...?”, perguntou-me, antes de entrar.

_Não. Quero ficar aqui – respondi e dei um passo para trás, para que entrasse; fechando a porta em seguida.

A Marina largou a sua bolsa – destas largas de couro, marrom – no sofá e sentou-se, à espera, enquanto eu ia até a cozinha buscar uma cerveja. Estranho. Até então não andara pelo restante do apartamento; era esquisito pisar naqueles ladrilhos sem ter mais o Fer cozinhando algo no fogão ou esperando com o videogame ligado na sala para dividir o engradado. Não que ele sempre estivesse lá mas saber que ele não estaria mais fazia, sei lá, diferença. Peguei uma das latinhas e voltei. Estava pior do que havia ido, argh. Por que saí da sala? Sentei ao lado da Marina e ela esperou por alguns minutos até que eu falasse algo. Tudo aquilo pesava em mim.

_Foi... foi tão estranho, Má – suspirei, afundada contra o encosto; ela me escutava – deixar ele lá, vir pra cá. Eu nunca fiquei sozinha, cara. Eu nunca fiquei sem o Fer por perto – tomei um gole da cerveja, abrindo a lata entre as pernas – a gente se conhece há tempo demais; tá junto há, sei lá, doze ou treze anos.
_Mas ele continua aqui, flor...
_É diferente. Sabe... – lamentei, com a culpa entalada discretamente na garganta –  ...toda lembrança que eu tenho de qualquer merda que fiz na minha vida, de todos os lugares que eu morei, meu, ele tava sempre comigo. E agora eu tenho que pegar uma porra de um ônibus que leva quarenta minutos para ver o Fer, o Fer! E, tipo, se eu... Se eu quiser conversar, trocar ideia, sei lá, se eu tiver mal e o caralho a quatro, eu... eu não tenho mais ele pra falar comigo na cozinha, pra sentar aqui na sala. É uma merda, uma merda, na boa.
_Ele vai volt...
_E o pior – a interrompi, exaltada –; o pior é que eu... eu nem, nem me esforcei pra que ele ficasse! Eu sou uma idiota, cara. Uma idiota! Eu não me dei conta do quanto eu preciso dele, do quanto preciso dele agora, na minha vida, do meu lado; do quanto eu queria ele aqui, eu... argh. Eu podia ter feito tanta coisa diferente, Má. Eu, eu – senti vontade de chorar; a Marina me observava surtar –, porra, eu comi a mina dele! Sabe? Tem como ser uma amiga PIOR?! Eu sou uma imbecil, mano, uma puta descontrolada; que merda eu tenho na cabeça? Eu só machuquei ele, cara; eu só fiz merda atrás de merda. E ele sempre foi muito gente boa comigo, ele sempre cuidou de mim. Não é justo que ele tenha que passar por esse lixo todo e eu não, que ele que tenha que sair e ir pra casa dos p...

Me interrompendo, a Marina projetou os braços para frente e me abraçou com calma, tentando tranquilizar os meus ânimos que disparavam. Eu me sentia muito mal. Toda aquela história pesava em mim como um arrependimento terrível; como se tudo o que eu fizera para ele tivesse sido cruel e errado. Conversamos a noite toda. A Marina tinha os seus jeitos delicados, pacientes de me escutar e de me dar os seus conselhos. A tristeza, todavia, perdurava entre os meus pulmões. Apertando-me. “Você vai se sentir melhor de manhã”, ela disse, “e vocês dois vão se acostumar com esta nova realidade, até que possam mudar a situação para algo que funcione melhor”. Eu gostava de ouvi-la falar, sempre tão positiva.

Acabamos dormindo no meu quarto, naquela cama minúscula. A Marina ficou com o lado da parede, por escolha; ainda em seu vestido branco e descalça. Já eu, capotei com um dos braços caindo para fora do colchão; a cabeça ao lado da mesa de cabeceira. A noite estava quente demais para cobertores. Fazia, talvez, uns cinco ou seis anos que eu não dividia uma cama com a Marina. Nem se me esforçasse conseguiria lembrar da última vez que dormimos juntas, antes do fim do namoro. Nas poucas vezes em que fiquei na sua casa, desde então, me deitara no sofá a pedido seu e nunca senti realmente falta. O sentimento era bom, porém, ali com o seu braço agora ao redor do meu corpo. Os seus dedos leves tocando o meu abdômen. Os seus pés descobertos esquentando-se nos meus, ainda de meia. Era uma nostalgia – não sexual; apenas carinhosa –, me sentia confortável com ela. Ela era a minha segurança, não sei explicar.

Dormi. E dormi bem. Como não achei, aliás, que seria capaz naquela primeira noite ali, sem o Fer no quarto ao lado. Por algumas horas, pelo menos. E então o meu celular tocou, na mesma cabeceira que ficava a poucos centímetros do meu ouvido, despertando-me. Abri os olhos relutante, senti a Marina reajeitar-se ao meu lado. As suas mãos envolveram ainda mais a minha cintura, num reflexo inconsciente. Ergui a tela diante do meu rosto e tentei ler, ainda sonolenta; era um desfocado SMS. Da Clara. “Vc. tá no apê? Como foi la no fer? Tava em casa e achei q. tlvz quisesse cia. Passei no supermercado e comprei um Jameson pra encher a cara :) e t. animar!”. Sorri, como se não pudesse evitar. Movi-me então para o lado e digitei.

Estou, vem sim”.

outubro 11, 2012

O Ninho

Inclinei o corpo na direção da Mia, segurando-a pela cintura, num beijo rápido, inesperado. Sequer pensei. Em pé no hall de entrada do prédio por um instante, com sua boca na minha, a sua língua na minha. Mas ela logo se desvencilhou das minhas mãos, com o celular nas suas. E deu um passo para trás.

_Obrigada por “trazer”... – ela sorriu, bonita.

Comecei a rir.

_Você só pode estar brincando, né...

Encarei-a, achando graça, e a observei ir. Porra, garota... Ela sorria, satisfeita com o que ganhara; e eu era deixada como que de braços abanando despreparada para aquilo. Venho até aqui e você, você chega em mim deste jeito. Do nada. E eu, mano... isto é tudo o que eu ganho?! Ela me agradeceu, voltando lentamente de costas para o elevador, e arqueou a sobrancelha para mim. Eu ria.

_Te vejo esta semana, então? – comentei na sua direção e ela sorriu, dando de ombros; filha da puta.  

Me olhava, confiante. Eu achava graça na ceninha toda. Certo. E afinal, eu precisava mesmo voltar para o Fernando, que me esperava com o carro e as tralhas todas do lado de fora do prédio. Ri uma última vez na sua direção e fiz então um gesto com a cabeça, como indicasse que já estava indo; dei alguns passos para trás antes de me virar de vez. Ela não se despediu, apenas foi também, para o elevador, rindo. Gosto mais dessa nova Mia, pensei comigo mesma, me divertindo, antes de descer os degraus para o jardim da frente.  E mesmo a metros da calçada, pude ver a cara de desgosto do Fernando, esperando dentro do carro entulhado.

_Desculpa, demorei?
_Não, de boa... – respondeu, já baixando o freio de mão, assim que fechei a porta – ...só não quero chegar muito tarde lá, mano.

E não demoramos muito a atravessar até Santo Amaro, a cidade estava sem trânsito. Em quinze minutos chegamos. Mas não que isto tenha impedido, claro, que o pai do Fernando nos recepcionasse com um comentário desagradável logo de cara, indisposto. “Você disse que vinha na hora do almoço”, resmungou, “sua mãe ficou esperando”. O Fernando não respondeu nada, apenas bufando em silêncio do meu lado, conforme tirávamos as amarras do colchão, sem que o velho o ouvisse. O carro estava parado diretamente em frente à casa dos pais dele, numa rua calma do bairro. Descarregamos tudo em pouco menos de meia hora e as pilhas se acumularam do lado de dentro – era estranho estar de volta ao antigo quarto do Fer, anos depois do fim do colégio.

Ficamos parados, por alguns instantes, naquele cômodo vazio. Sem dizer nada. As caixas aglomeradas num canto, o sentimento de abandono permeando o resto do quarto. O Fernando coçou a parte de trás da cabeça, passando os dedos entre os fios raspados em máquina dois e com as tatuagens à mostra no braço. Estava visivelmente nervoso. Perguntei se queria ajuda para montar novamente a estrutura da cama e ele topou, como quem não tem nada melhor para ocupar a cabeça. Começamos a separar as vigas no chão, agachados. O clima se tornou progressivamente um lixo. Era triste – estar, estarmos ali. Depois de tanto tempo, de tudo que passamos. Olhei para cima, para ele; a montagem mal havia começado. Sentia a ressaca da madrugada anterior enfraquecer os meus braços, que encaixavam peça a peça consideravelmente pesada de madeira. Ele me ajudava, no lado oposto, com a expressão engasgada num humor sério. Apático. Nenhum de nós queria estar ali – e eu o queria de volta no apê.

Arrumamos a estrutura da cama, trazendo o colchão para o quarto, sem dizer uma palavra. E ao final, sentamos para fumar um do maço contra a parede do quarto. Esticamos as pernas no chão. Ele tirou o tênis, empurrando um pé noutro, e ficou apenas de meia. Ao meu lado, eu ao dele. As primeiras tragadas ocorreram em silêncio. Eu observava o rodapé e o piso escuro de madeira, aquele espaço que encolhera com os anos, nostálgica. Aquele era o quarto em que ouvíramos CDs de punk trasheira por toda a nossa adolescência e fumáramos maconha escondido tantas vezes, onde falei para ele pela primeira vez que curtia meninas. E ele murmurou, moleque, com as pernas cruzadas e a cabeça baixa, “pra valer?” – eu disse que não sabia, que não tinha pensado direito a respeito. Muitos anos antes. E agora, em outra realidade, com outras cabeças por completo, dividíamos um cigarro sem falar o que tanto ele, quanto eu, queríamos de fato dizer um para o outro.

_Vai ser estranho... – hesitei para começar, num sussurro relutante e incômodo – ...sem você lá, depois desse tempo todo.

Eu falava baixo, quase para dentro, e o Fer me ouvia sem desviar o rosto do chão. Nós dois éramos, provavelmente, as duas piores pessoas no mundo quando se tratava em expor os nossos sentimentos. Eu nunca dizia o quanto o amava, o quanto prezava pela nossa amizade. O quanto aqueles anos morando juntos me mudaram, o peso dele na minha vida pela última década ou mais. Mas você, porra, você é o meu filho-da-puta favorito. E não tê-lo mais por perto todos os dias, de repente, me deixava – logo eu, que nunca dei a mínima para sentimentalismos e que sempre me virei melhor sozinha – mais insegura do que eu era capaz de admitir naquele momento. Ainda assim, eu insisti e ele se tornou perceptivelmente inquieto com o assunto.

_Cara, eu vou sentir sua falta. Eu sei... que a gente andou brigando esses dias, que eu me afastei esses anos – relutei em dizer, sabendo que o motivo inconsciente para aquilo era a Mia; e a minha incapacidade de encará-lo desde que me envolvera –; mas... sei lá, eu... acho que não sei mais viver sem você no quarto do lado ou na rua debaixo, eu...
_Não – ele suspirou, desconfortável, se re-ajeitando contra a parede e tragou, soltando a fumaça sem me olhar – Não começa com essas bichices, mano. Eu... – lamentou, a muito contragosto – ...já tô na merda pra caralho com essa história toda, meu. Se logo você ainda for...  
_Fala, cê vai chorar, né – eu ri, mudando o clima abruptamente da conversa, e o empurrei com a lateral do corpo; não queria que ele se chateasse ainda mais.
_É, vai, vai brincando... – ele riu também.

Eu sabia que aqueles meses na casa dos pais, em especial o convívio com o velho, não eram fáceis para o Fer engolir, àquela altura. Orgulho e goela abaixo, na segunda metade dos seus vinte anos. E conforme eu me despedia dele na porta, a certeza de que aquilo não era tão mais fácil para mim se concretizou como há semanas eu vinha evitando sequer pensar. Um peso desgraçado, de repente, dentro de mim, a cada passo e uma vontade de não voltar para o apê pela primeira vez sem ele, vazio. O nosso apê. Passei as mãos no rosto e acendi outro cigarro. Desci até o ponto de ônibus, sentindo-me estranha, sozinha; maldição. Eram talvez sete, ou oito, da noite e o sábado estava apenas começando para todos os que esperavam ao meu lado no ponto. Senti uma vontade desesperada de estar com alguém. E não podia ligar para a Mia, é, num senso distorcido de respeito – e nem ainda para a Clara, pelo exato mesmo motivo. Então, digitei o único outro número que eu sabia que me confortaria. E ela atendeu.

_Meu... – suspirei, chateada.
_O que aconteceu, flor?! – ouvi a voz da Marina do outro lado.
_Dorme comigo hoje?

outubro 03, 2012

OST 5 ♥

Capa INCRÍVEL (linda demais!) by Marcella Oliveira

LANÇAMENTO OFICIAL DA OST 5! A 5ª trilha sonora do blog, com as últimas músicas inclusas nos posts, já está disponível para downlooooad gratuito. Tem Bowie, tem Strokes, tem Misfits, tem Rolling Stones, tem Beatles e muito mais... Aproveitei e já troquei TODOS os links das outras 4 OST's lá no Tumblr, cujos arquivos haviam sido removidos por copyright. Quem ainda não tem alguma das anteriores, já pode baixar.

Download:
http://fuckingmiaost.tumblr.com/
Para ouvir online:
http://8tracks.com/fckingsoundtrack


NOTA: Algumas meninas não conseguiram abrir a pasta zipada de primeira, mas funcionou na segunda ou terceira tentativa. Se tiverem problemas, façam o download de novo ou peguem com quem conseguiu! ;)

outubro 02, 2012

Prorrogação

“And...
When I awoke
I was alone, this 
Bird had flown”.
(The Beatles)

A voz do Fernando invadiu os meus ouvidos desmaiados. Eu estava completamente fora de órbita, deitada de qualquer forma no sofá da sala. A coluna torta. Acordei com as suas mãos me sacodindo o cotovelo, que eu havia erguido sobre o rosto a fim de bloquear a luminosidade; o meu braço direito cobria os olhos. Movi-o alguns centímetros para baixo, abrindo as pálpebras com certa indisposição, e encontrei o Fer ali, em pé do outro lado do encosto, bem na minha área de visão. A minha cabeça doía – puta merda, me contorci – e ele riu da minha expressão de incômodo. O meu corpo parecia pesar cinco toneladas a mais, afundado contra o estofo; e a ressaca me sugava secas as veias.

_O que você tá fazendo aí, mano?! – o Fer questionou, rindo; eu o ouvi, mas desorientada – E por que cê tá sem roupa, porra?

Ahn? Senti a minha camiseta amassada contra a minha mão esquerda e notei então que o meu braço a segurava sobre o meu abdômen; as minhas calças estavam puxadas apenas até a metade das minhas pernas. O que? O que aconteceu ontem?, o meu cérebro parecia gritar em agonia, encharcado em rum e THC. Cada pensamento doía, argh. E tudo o que me vinha à cabeça eram os orgasmos da Mia naquele chão, a sua boca contra a minha, o movimento das suas tatuagens entre os meus dedos. Inferno. As mãos do Fernando esticaram-se a menos de vinte centímetros de mim, apoiou os antebraços no alto do encosto e me observou ali de cima, rindo. “Esta é a melhor memória que eu poderia ter de você”, brincou então, “meu último dia aqui”. Revirei os olhos para ele, perturbada. É – eu numa puta ressaca violenta, com os peitos de fora no meio da sala, parece bem apropriado. Resumia toda a porra da nossa convivência naquele apartamento. Esfreguei uma das mãos contra o rosto, tentando me livrar daquela enxaqueca de merda, e me sentei. Vesti de novo, descabelada, a camiseta.

_Sério, velho. O que diabos cê tava fazendo?! – ele achava graça na minha desgraça e eu só queria que ele calasse de vez a boca; cada ruído que saía detrás do sofá me destruía os miolos ali sentada.
_Sei lá... – murmurei, emburrada e meio bêbada – ...fiquei com calor à noite, nem lembro. Tava chapada. Que diferença faz?

Levantei numa atitude a la cão rabugento, intragável, e ele riu ainda mais. Começou a juntar os poucos vinis que restavam no chão, enquanto eu subia as calças, determinado a terminar de empacotar aquelas caixas todas. “A gente sai numa meia hora”, gritou na minha direção, ao passo em que arrastava os meus pés pelo corredor. Se eu estiver viva. Segui até o quarto e me joguei mais uma vez na cama, derrotada. Por que diabos eu bebo, cacete?! Os meus órgãos internos pareciam prestes a implodir, exauridos e sem energia. Os acontecimentos da noite anterior ainda me eram levemente nebulosos – eu ODIAVA aquela sensação, a abstração de todo controle. Argh. Mia. Puta que pariu – virei-me com o corpo de frente ao teto e apoiei apenas a nuca (de forma desconfortável) contra a cabeceira, acendendo um cigarro dos que restavam na mesa ao lado da cama. Lá vamos nós, de novo...

O quarto estava mudo, imóvel. À luz do dia tudo me parecia menos excitante e mais racional. Onde porra eu estava com a cabeça? – mas ela, ah, ela; ela estava tão linda, tão incrível. Como uma força inegável, irresistível nas minhas mãos. Os meus devaneios da noite anterior me eram vívidos, ainda intensos na minha memória. Não importa, foi bom. Sorri satisfeita. E um momento de silêncio se seguiu, incômodo – ou importa? E foi quando me dei conta de que eu estava sozinha naquela porra de cama, de novo, e a Mia dormia naquele mesmo instante no quarto do Fernando. Num impulso zangado, chutei a estrutura de madeira da cama e sentei o corpo em seguida, colocando os pés na lateral, no chão. Não começa com isto, caralho.

Senti o colchão sobre as minhas mãos, deslizando-as ao lado do meu corpo. E traguei mais uma vez, me forçando tranquilidade. Eu não preciso pensar sobre isto agora. E a noite anterior não precisava significar nada, nem a mais e nem a menos do que fora. Dane-se. Dane-se isto. Eu só estava de mau humor, eu sabia; aquele sentimento de vazio, de merda ia passar. A minha cabeça doía latejante e eu me irritava. Deixei a fumaça sair dos meus pulmões. E respirei com calma, limpando a mente em branco. Os ânimos estavam agitados, os meus e os dela, naquele chão da sala e a reverberação daquilo na manhã seguinte era no mínimo inconsequente, um movimento burro. Eu não posso fazer isto, não posso. Deixa pra lá. E apanhei as primeiras roupas que vi no armário, indo tomar um banho rápido antes de irmos.

Quando saí, a encontrei na sala junto ao meu tão logo não mais colega de apartamento. Estava bonita. Numa camiseta larga e os cabelos desalinhados, mas com certo charme – é possível eu te achar menos do que como a vejo? –; ela sorriu ao me dar ‘bom dia’. Tentei não agir de maneira diferente, ajudando-os a carregar a metade restante das caixas até o carro do Fer. Algo me incomodava, durante o início do processo. Enquanto ele levara a primeira cota dos discos, a Mia havia passado um café na cozinha e eu agora “desfrutava” de um dos piores chás cafeinados que eu tomara na vida, já em nossa segunda viagem à garagem do prédio. O clima se tornou bom, aos poucos, entre nós. Os três. E o Fernando me ajudou a destruir as habilidades da Mia na cozinha, completamente inexistentes, em comentários cruéis na descida de elevador. Ela ria, indignada.

_Muito agradecidos vocês... – disse e arqueou a sobrancelha ao repousar a última caixa, no chão sujo da garagem, sobre uma outra que eu trouxera.

Estavam todas lá. Quatro anos e meio de apartamento dividido em poucas caixas. Parecia, agora, tão pouco. Demos início então a um balé confuso, na tentativa de dominar todo o espaço disponível até fazer aquelas pilhas de papelão caberem todas no banco de trás e no porta-malas. Ao final da árdua tarefa, o reles automóvel popular mais parecia uma carreta de logística – a versão pobre, isto é. Com um fio passando, nada discreto, pelas janelas para segurar o colchão sobre o teto do carro. Muita classe.

Sentei no banco da frente, cumprindo meu papel de amiga sapatão necessária para ajudar em mudanças, e já estava prestes a fechar a porta; quando a Mia deu dois passos e me impediu. Ficou parada do lado do carro, como se esperasse algo de mim. Você só pode estar brincando, não é?, olhei para o Fer, na mesma hora. “Qual é, a casa dela é aqui do lado!”, ele argumentou e eu suspirei, abrindo o resto da porta para que ela sentasse no meu colo. Que situação agradável. Era o cúmulo do ridículo – nós duas, amassadas ali, com o Fernando bem do lado. Depois de todas as sacanagens e posições imprestáveis, indecentes que praticamos sem um pingo de vergonha na cara naquela madrugada. Eu quero morrer. Desviei os olhos (e as mãos) para bem longe das pernas da Mia durante todo o percurso, até chegarmos em Higienópolis e ela saltar.

Ufa.  
  
Me acomodei confortavelmente, agora podendo respirar de novo com naturalidade, mais calma e sozinha no banco da frente; e o Fernando baixou mais uma vez o freio de mão. Começamos a rodar o quarteirão em direção à Avenida Angélica quando, de repente, senti a lateral do meu banco vibrar. “One means somebody's lonely. Company means there are two...” – ouvimos uma voz começar a cantar. Aquele era o toque da Mia, droga. Alcancei o celular, que havia ficado no vão da porta do passageiro, e o atendi; conforme o Fernando já fazia o caminho de volta. “Sou eu, besta. Você esqueceu o celular no carro!”. Ela riu e pediu que eu levasse até ela, disse que estaria esperando no hall do prédio. Se você já vai descer, por que não vai até a calçada, meu? Desliguei, sem falar nada. Estávamos atrasados.

Em menos de cinco minutos, nos encontrávamos de novo em frente ao seu prédio. “Vai lá!”, o Fernando falou, estacionando o carro sem desligar o motor. Abri a porta e dei uma corrida até a portaria, apontando o celular em mãos para que abrissem logo. E abriram, para minha surpresa, sem interfonar – já estava avisado. Atravessei o jardim que ocupava o recuo do prédio num só fôlego e subi os três, quatro degraus que davam na porta do hall de entrada. A Mia já estava lá. Sorriu e, uma vez que eu me encontrei lá dentro, andou na minha direção com a mão esticada para pegar o telefone. Ao enfim segurá-lo, porém, me puxou num rápido movimento para perto dela e colocou os braços atrás do meu pescoço. Ah, garota. Ela então, abraçada em mim, me beijou.