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novembro 29, 2012

Ininterruptas

_’Nessa’?

“É”, arqueei a sobrancelha na sua direção, rindo. Terminei de descalçar os meus tênis; a Mia me observava do sofá. “Não foi para isto que você veio?”, perguntei-lhe desafiando a sua reação, direta. Abri o meu cinto, tirando-o com certa insolência. E a Mia reajeitou-se contra o encosto, quieta por um instante. Agora que a porra fica séria, você vai ficar aí parada com estes olhos castanhos. “Hein, garota?”, subi mais uma vez a voz numa inversão súbita de papéis, me divertindo e a encarando com considerável autocontrole.

Não estava bêbada, não desta vez – estava sóbria e bastante consciente. Ela sorriu, após a minha última provocação, com o “garota” que me escapara. Rindo do meu explícito interesse. Vem então, caralho. Sentia certo rancor de mim mesma por ter cancelado com a Clara – e precisava agora, numa lógica deturpada e minha, que aquele furo de merda valesse a pena. O prato já esfriara, nem dois goles na lata de cerveja. Aquele sorriso da Mia era como um passe livre. Dobrou os joelhos junto ao corpo, colocando os pés descalços sobre o assento – me olhava de volta agora, imprestável, naquele vestidinho preto. O tecido deslizou leve até a base das suas coxas. Eu a observava.

Maldita. O gosto daquela garota me contaminava os sentidos, não importa se eram meses ou apenas dias de abstinência. Eu ainda podia, contra todo bom senso, sentir a sua falta física em minha boca. E não. Não era nada que faltasse à Clara – deus, o que falta àquela garota? –, eu não a procurava nas pernas da Mia e certamente não buscava a Mia na sua pele argentina, em suas pintinhas castanhas. Eu sabia diferenciar as coisas e elas, elas eram mundos à parte. Não pensava numa quando estava com a outra. E eram todos os seus acertos irresistíveis e todo o errado da Mia – e só dela – que me faziam subir naquele sofá, naquele seu corpo; separando as suas pernas e a colocando no meu colo. Subindo o seu vestido por entre seus braços. E dali para o chão, amassado.

I’ve exposed your lies, baby. Subi as minhas mãos pelas suas cerejeiras, pelos narcisos amarelos opostos. The underneath’s no big surprise. Os meus dedos denunciavam conhecer os seus caminhos. E beijei-a. Beijei-a num ritmo diferente daquela madrugada, antes do Fer partir. Beijei-a com calma. Sem afobação, em intimidade. Beijei-a com a intensidade que o tempo e a sala, o apartamento vazios de repente me permitiam. Não foi planejado; nem significava tudo o que, talvez, o calor da minha língua e o toque das minhas mãos faziam parecer. Era inédito, apenas. Pois éramos nós que estávamos sempre nos escondendo – na sua casa, na minha –, atrás de portas e em pistas escuras. E agora não.

Ainda era sexo, ainda foi sacanagem. Minha avidez não fora menos do que no começo. Se muito, ainda aumentara. O que não antecipei, no início da noite ou naquele primeiro beijo, porém, eram todas as horas que teríamos naquela madrugada. E na manhã seguinte. O desenrolar tranqüilo para o qual eu não estava preparada. Os minutos se passaram contínuos, sem que precisássemos nos separar – fluidos e conscientes. E a porta permanecera aberta o tempo todo, destrancada. Aquela era a primeira vez que a Mia deitava comigo na minha cama. E não no quarto ao lado. Tentei manter a cabeça limpa, não pensar em nada.

Mas quando o sol começou a nascer pela janela do quarto e as nossas pálpebras já pesavam sonolentas, ininterruptamente despertas, ela encostou o seu corpo nu contra o meu e eu sabia naquele mesmo instante que estava com um problema. Pude sentir cada centímetro da sua pele, abraçada comigo, enquanto encarava o teto ainda pouco iluminado, em estado semiacordado. Estávamos sempre bêbadas demais, desmaiadas, ou com lençóis de menos, insuficientes para aproveitar momentos como aquele. Desta vez, não. Estava tudo calmo. Àquela altura, já não estávamos mais suadas e o cômodo parecia tomado pela brisa fria das seis da manhã. A Mia ajeitou o rosto no meu ombro e me olhou, também cansada.

_Por que nós não... – murmurou, estranhamente sentimental.
_Hum?!
_Por que não fizemos... isto, da outra vez?

Que pergunta, porra.

_Porque... – hesitei por um instante, consciente de que aquele não era um questionamento com todas as ramificações racionais que deveria normalmente ter; sem querer lhe responder por impulso. Dizer-lhe a verdade, oras, num azedume de certo sono. Porque você foi dormir com o Fernando aquela noite, por isto. Suspirei, revirando os olhos. Não transforme em algo que não foi. Eu acordei sozinha naquela manhã, garota, foi o que foi. Por algum motivo, entretanto, não o disse; notei os seus olhos já quase fechados sobre o meu ombro. E olhei para a esquerda, por cima do travesseiro; vi o relógio digital que marcava 6:07, em vermelho. Eu tinha que acordar dali a menos de uma hora, puxei a Mia mais para perto e a abracei, em automático, com conforto – ...nada, vem, vai. Vamos dormir.

novembro 24, 2012

“Car ensemble...

...rime avec désordre(Coeur de Pirate)

Alcancei o prato na mesa com a mão, ela segurou gentilmente o meu pulso. Começava a escorregá-lo na minha direção e ela me interrompera. Ainda a olhava direto nos olhos. Sorri. E então forcei mais uma vez o braço, trazendo o prato para mim e desvencilhando-me do seu charme irritante, que contaminara toda a maldita cozinha àquela altura. Coloquei os meus pés então a caminho da sala de estar, sem olhar para ver se me seguia. Liguei a TV, como recurso de distração, e sentei-me no sofá para comer o meu jantar.

Não até a segunda garfada de lasanha que a Mia se juntou a mim. Virei apenas de relance o rosto e a observei ali com o canto do olho, voltando logo a prestar atenção na minha comida. Achava graça em tê-la sentada ao meu lado ali em plena terça-feira à noite. No meu apartamento. O clima era curioso, pra dizer o mínimo. A minha mente divagava. Como as pessoas que tinham os seus membros amputados – eu o vira em um documentário – e ainda sentiam os dedos mexer ou a sua perna coçar. Da mesma forma, eu sentia que o Fernando entraria a qualquer momento naquela sala, ainda que o seu quarto estivesse vazio e todas as suas coisas tivessem sido levadas. A Mia me encarava; ela riu.

_Relaxa – disse e eu pensei, não estou nervosa; mas ela tirou o prato do meu colo e o apoiou com delicadeza na mesinha de centro, colocando as pernas em seguida sobre as minhas, cada vez mais descoberta naquele leve vestidinho preto.

Assim que você acha, garota, que eu vou relaxar?, ri.

E a olhei, achando graça. Fiz então um movimento para pegar de volta o prato, me curvando na direção da mesinha frente aos meus pés – desistindo, todavia, no meio do caminho. Suspirei, suavemente bloqueada pelas suas pernas ali. Ri. Não posso nem comer agora? Ela se reajeitou mais próxima e apoiou o cotovelo no encosto do sofá, tocando com os dedos o meu cabelo. Senti um desconforto. Algo bom e ruim. A sua mão posicionava uma mecha delicadamente atrás da minha orelha. Respirei fundo e pude sentir as suas canelas deslizando uma na outra a poucos centímetros de mim, sutis sobre o meu colo, num liso esbarrar.

O meu prato esfriava, cada vez mais longe. O mínimo movimento daquela garota ao meu redor, no entanto, parecia capaz de esquentar as minhas calças de dentro para fora. Caralho. Eu sabia onde ela estava indo com aquilo. Resolvi fazer uma última tentativa em direção à comida, desacomodando-me do buraco que começávamos a formar lado a lado no encosto, e as suas pernas mostraram-se novamente um empecilho. Quase sem intenção, ali. A encarei, rindo da minha própria situação, e ela sorriu, incrivelmente tentadora. Inclinava a cabeça para mim com naturalidade. No retorno, sem pensar, eu havia pousado as mãos em seus tornozelos. Ela as olhou, os meus dedos lhe tocavam acidentalmente a pele tatuada. Reajeitou-se mais uma vez, ainda mais próxima. E espichou-se para pegar o meu celular na mesa de centro.

_O que você está fazendo? – ri dela, sorrateiramente mexendo nas teclas; havia voltado a tela contra mim.
_Estou avisando que você não vai...
_Ah, tá! – ri mais ainda, esticando a mão para que me desse o aparelho imediatamente – Vai, Mia, pode parar com a graça...
_Não se preocupa, não estou estragando o seu disfarce! – ela sorria, digitando maliciosa, e eu achava engraçada a ceninha.
_Ah, não? Ela nem vai suspeitar mesmo, aham.
_Não, ó, escrevi igualzinho a você!

Comecei a rir, de novo, com a nuca apoiada no encosto. Esta eu quero ver. Estiquei mais enfaticamente a mão para que me entregasse e ela mandou que eu esperasse, que estava terminando. “Você não vai mandar isto”, a adverti, rindo. Ela colocou a pontinha da língua entre os dentes na mesma hora – pode ir parando aí, ô esperta. Precisava supervisionar aquilo. Pulei em cima dela num movimento mais assertivo para reaver o meu celular e ela não impediu que eu o tomasse, agora já praticamente em cima dela. Tornei a sentar no meu lugar – sem as suas pernas mais no meu colo, que caíram durante a breve disputa – e pus-me a ler a mensagem, ainda não enviada.

“Garota, não posso ir. Apareceu uma parada aí, vou ter que resolver. Foi mal! Bjo“

_Eu não falo assim – olhei para a Mia com todo o meu desprezo e ela riu.
_Claro que fala! Como não? Olha aí... – apontou para a mensagem, ainda aberta nas minhas mãos, se divertindo com os meus modismos – ...“foi mal”, “uma parada aí”, “garota”.
_Ah, e é assim que você acha que eu me comunico com a Clara? – eu a encarei, achando graça ainda no SMS que escrevera.
_Sei lá! Você se comunica assim com todo mundo.
_Olha. Para começo de conversa... – ela não é todo mundo – ...não mando beijo, mando beijos. No plural. E o “garota” está errado, eu não uso assim.
_Ah, não?! E usa como?
_Eu só falo diretamente quando estou interessada; ou muito puta – analisei, rindo.
_Ah, bom saber... – ela achou graça.
_Cê já devia saber, você já ouviu vários desses.
_É. “Alguns”.

Fez como que arqueando a sobrancelha, implicando certa ironia na quantidade de “garotas” que eu já havia soltado na sua direção. Besta. Ela, de fato, detinha o recorde. Continuei rindo, olhando-a – agora, com certo carinho. E então apaguei toda a mensagem que ela escrevera. Este absurdo. Sem pausar, num só embalo, tornei a digitar – “Bi, não posso ir hj. Desculpa! Te dou um toque amanhã e a gente combina outra coisa, sei la, obrigada por ontem. E anteontem :-)”. Sem que a Mia visse, claro. Enviei. Com outro “desculpa msm.” num SMS logo em seguida.

_Tá... – larguei o celular na mesa, levantando, e comecei a descalçar os tênis em pé, enquanto olhava para a Mia – ...vamos nessa, então.

novembro 23, 2012

[ ENCONTRO 2012 ]



3 ANOS DE BLOG!
...e a gente, claro, vai comemorar no BOTECO!

Encontro oficial de leitoras, escritora, Mia e amigas(os) afins. Em homenagem ao primeiro encontro, vai ser de novo no Ibotirama, bar de esquina conhecidíssimo da R. Augusta. No dia 8 de dezembro (sábado), teoricamente às 17h – mas está rolando uma enquete lá no Facebook, então participem.

Confirmar no evento do Facebook, clique aqui.

Meninas que não são de SP: Está rolando oferta de sofás lá no grupo do F.M. (link), vejam se descolam uma vaga com as paulistanas. Tragam os fígados extras e os All Stars nº 44, mas deixem a decência em casa!

E VEEEEEEEEEEEENHAM!
(que vai ser lindo.)

novembro 15, 2012

“You met Mia yet?”

E com suas mãos apoiadas no batente de madeira, despreocupadamente do lado do corredor, lá estavam eles. Os meus incontáveis meses de erro recorrente e amor não correspondido. Agora batendo, literalmente, à minha porta. Caralho. Num vestido preto soltinho, com pontinhos cinzas. A Mia sorriu genuinamente para mim, sem perceber a inconveniência da sua presença ali. Naquele maldito instante – a lasanha no forno e as chaves já sobre a carteira na mesa, pronta para sair. Me surpreendi.

_Oi?! O que... você está fazendo aqui? – perguntei e ela riu.
_Estou atrapalhando?
_Não. É que, ahm...
_Você disse que eu podia passar pra te visitar – argumentou, num sorriso imprestável e os meus olhos se perderam indefesos na curvinha formada em sua pele, logo na margem da bochecha –, não?

Droga. Eu tinha mesmo dito. Dois dias antes, alcoolizada como um gambá e sem um pingo de autopreservação, aparentemente, no chão da sala tagarelando imperturbada sobre o quanto “claro!”, ela podia “aparecer quando bem entendesse”. Trouxe isto a mim mesma, admiti minha parcela de culpa e comecei a pensar em como ia me livrar daquela agora. Não podia dizer que estava a caminho da casa da Clara. Argh. E não queria também me atrasar. No entanto, havia algo na forma como ela me observava de volta, serena, a cabeça apenas levemente caída para o lado à espera de um convite meu, que me impelia a deixa-la entrar.

_Eu... na real, estava pra sair. Ia só jantar antes – passei a mão na nuca e a olhei, parada espontaneamente na porta do meu apartamento numa terça à noite, não conseguindo evitar um sorriso ao final.
_Hum. Acho que você não quer sair... – deduziu, satisfeita.
_Não dá, meu. Já combinei. Se você tivesse ligado, eu...
_Sei. É a Clara?

Não faz isto com nós duas, garota.

_Mia... – suspirei.
_Liga lá, vai. Cancela.
_Não posso – ri.
_Claro que pode.
_E o que você está fazendo aqui, afinal?! – ergui o queixo, inquirindo-a, e a observei dar passos discretos em direção ao lado de dentro, com certa contenção e nenhuma pressa. Deslizou as costas pelo batente, virada para mim. E deu de ombros – ah, você “não sabe”?
_Por que tantas perguntas – achou graça –, de repente?
_Não fui eu que apareci “de repente”, na porta de ninguém.

Revirou os olhos, como se fosse irrelevante, e eu ri. Deu um passo curto, se aproximando, e arrancou de mim mais um sorriso; a situação era absurda. A encarei de volta. “E aí... você vai me convidar para entrar ou não?”, recomendou e eu ri, mais uma vez, abaixando a cabeça em consentimento. Enfim. Empurrei o resto da porta para trás. E dei-lhe espaço para passar, ela caminhou sala adentro. Fechei novamente a maçaneta e me virei. Ela deixava a sua bolsa sobre o sofá, o tecido do vestido parecia macio sobre suas pernas um tanto tentador –, e investigou sobre a mesa as minhas chaves e carteira.

_Hum, então, você estava mesmo de saída... – sondou, sorrindo.
_Ainda estou.

Ela me olhou, inflexível a alguns metros dela, e riu.

_Ok. Escuta, já venho, preciso ir lá ver o meu jantar. Fica à vontade aí, cê conhece a casa – brinquei e me dirigi para a cozinha; ela veio alguns passos atrás.

Começava já a me arrepender de tê-la deixado entrar. Abri a porta do forno e agachei-me à frente, para checar a lasanha. Caía a minha ficha agora de que, sem o Fernando no apartamento, as minhas desculpas para tirar a Mia dali se tornaram rapidamente escassas. E não me sentia tão confortável assim – ainda não –, com a saída recente dele, com aquela situação. Tomava-me, em algum plano subjetivo, por uma aproveitadora sem escrúpulos – ainda que fora ela quem aparecera ali, sem convite. Eu ainda assim abri a porta. Fechei a do forno e coloquei a travessa quente sobre uma das bocas do fogão, erguendo-me do chão. A Mia observava a cena, apoiada contra a mesa de ferro da cozinha.

E quieta.

Perguntei se tinha fome, ela atenciosamente recusou. Comecei então a cortar só o meu pedaço, está bem. Alcancei um prato no armário sobre minha cabeça, em silêncio. Os talheres no escorredor da pia – tudo à mão. De costas para ela. Estávamos a alguns metros uma da outra, talvez uns três. Podia senti-la ali no cômodo, movendo-se milimetricamente sobre o meu ombro. Todavia não falávamos. Isto é ótimo. Tudo o que eu preciso agora é iniciar mais uma sequência de minutos mudos com esta garota – ela parecia não se importar. Era assim toda vez. A porra da nossa marca registrada.

Tomei o prato em mãos, já com a lasanha devidamente posta, e caminhei até a geladeira para pegar uma lata de cerveja. Esta não ofereci. Era a última, de qualquer forma. Dei mais alguns passos. E coloquei tudo na mesa, em pé ao seu lado, a olhando. A distância era próxima. Ela sorriu, nem uma palavra. Você vem até a minha casa, a esta hora de uma terça-feira, e não tem nada a dizer?, ri do absurdo daquilo, desviando o olhar automaticamente dela. Vi o seu corpo mover-se, mais abaixo, e ela aproximou-se, perguntando o que era tão engraçado. Eu tornei a encará-la.

_Não te incomoda? Como nunca falamos?
_Não – riu –, por quê? Incomoda você?

Dei de ombros, achando graça na naturalidade dela.

_Sabe... É como se sabe que encontrou alguém especial.
_O quê? – comecei a rir.
_Silêncios confortáveis, não?

Puta merda. Os meus olhos penetraram os seus, admirados. Então eu entendi. A desgraçada estava citando Pulp Fiction. Talvez para a maior fã de Tarantino de toda São Paulo, sem qualquer traço de dignidade. Não consegui não sorrir para ela, aquilo era o tipo de coisa que me fizera apaixonar por seus cabelos castanhos e as suas cerejeiras em primeiro lugar. A comida começava a esfriar ao meu lado, esquecida. “Está certo”, lhe respondi e ri.

novembro 10, 2012

Círculos

Despedi-me da Marina com um abraço e cinco minutos depois a Clara passava por aquela mesma porta. Desencontraram-se – ufa. Chegara de táxi na Frei Caneca; os dedos ao redor de uma garrafa verde-escura de Jameson e os shorts de pijamas com abelhas estampadas combinados a uma ugg bege que usava para todo canto desde que voltamos a nos ver, a regata velha de dormir escondia-se debaixo de um moletom destes propositalmente largos que não cobrem a linha dos ombros. Só você mesmo, garota, ri do seu look caí-da-cama-e-vim-aqui-te-socorrer. De um jeito estranhamente descolado, estava charmosa – e garanto, qualquer outra pessoa ou par de pernas ficariam um desastre naquilo. Mas a Clara, a Clara nunca ficava.

Nos acompanhamos até a cozinha. Ligamos a música, colocamos uns álbuns velhos. Ela deu um pulo e sentou-se no balcão da pia; enchi os copos com o whisky que trouxera e me juntei a ela. Na segunda rodada, óbvio, já havíamos desistido dos copos – essas formalidades. E os nossos pés encontravam-se sobre a bancada ou dependurados. Por entre Tim Maia, Tom Waits, Grateful Dead; a música rodava boa e saudosa. Eu ainda tinha o álcool da noite anterior circulando em mim, a ressaca amenizara no decorrer do dia e não demorei a ficar realmente bêbada. Era como colocar mais sal em comida já previamente salgada. Cada gole me tirava mais de mim (com quatro vezes a eficiência normal). O que não era ruim, não naquela situação – estava desesperada para me distrair e não pensar na falta que o Fer me fazia naquele instante, naquela porra de apartamento vazio. A primeira noite sozinha. Ríamos.

A minha linha de pensamento se perdia, aos poucos.

Tornava-me tonta. E os meus olhos desacelerados eram atraídos à garrafa entre as suas pernas; à maneira como o vidro se moldava nas suas coxas, à sua pele. Descoberta, num shorts nulo, de algodão com suas pequenas abelhinhas.  “Isto não é justo”, eu dizia e ela ria; a admirava. Desci então da bancada para pegar o maço que ficara na mesa de cabeceira. E voltei do meu quarto com um dos cigarros em mãos. Passava-o entre os dedos, distraída, e trocávamos duas ou três palavras. Eu ainda em pé, frente a ela e à pia, enquanto o acendia. Os pensamentos instáveis; a caixinha em mãos. Tornara a colocar whisky nos copos. Deixei escapar o cigarro ao final da primeira tragada – merda –, que rolou para o chão e quase queimou as pernas da Clara pelo caminho. Pecado, contemplei-as descobertas.

_Vai, esperta! – a Clara pulou de susto, rindo da minha embriaguez.
_Foi... – abaixei para pegar o filtro no chão, murmurando atordoada, e me desequilibrei, claro; dando com a lateral do ombro na porta do compartimento que ficava ali, abaixo da pia e a alguns centímetros para lá de onde as pernas da Clara se dependuravam, no que me pareceu um movimento em câmera lenta – ...mal, argh! – acabei sentando meio sem jeito no chão, confusa com o que acontecera – ca... ra-lho!
_Está bem já, hein?!
_Merda de... cigarro! – coloquei-o na boca, direto do chão, e fui reacender com raiva.
_Melhor cê ficar aí embaixo... pra segurança sua e do resto mundo.

Ela divertia-se, fazia graça, e eu a ignorava, mais por acaso que outro motivo, concentrada em canalizar todas as minhas habilidades embriagadas para riscar o fósforo. Algumas tentativas se sucederam. Antes de você ser, eu sou – eu sou, eu sou, eu sou, amor, da cabeça aos pés; eu sou, eu, eu sou... eu sou, amor, eu sou..., os Novos Baianos gritavam agora no rádio da sala. A música embalava a minha ebriedade; e os pés descalços da Clara me cutucavam, por cima, os ombros. (...) e só tô beijando o rosto de quem dá valor, pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis. As bochechas encostadas nas suas canelas lisas e, de repente, a vista dali debaixo tinha um encantamento irresistível; um quê. Magnífica. E eu tentava agora, escalando o balcão e rindo, debruçada bêbada sobre ela, entrar entre as suas pernas.

_Não, não... – ela enrolava, sem se esforçar muito para desvencilhar-se das minhas mãos – ...não posso, meu. Não posso.
_Dá, sim... – eu insistia e causávamos a maior bagunça, em meio à cozinha; sujávamos uma a outra de whisky ao segurar o copo já molhado sem atenção e eu a mordia, lambia a sua pele, as gotas uma a uma e a beijava, por toda a parte interna das suas coxas, deslizava os meus lábios sobre a sua pele com gosto de álcool, com fome dela.
_Não, meu... – ela sorria e eu me colocava a dois centímetros da sua boca ávida – ...não dá –; nos beijávamos então, inebriadas pelo espírito irlandês daquela garrafa verde bendita – ...não começa, porra. Você já sabia, Bo.
_Não sabia. Não sabia de nada. Vai, eu preciso... só hoje, eu... – argumentava, com as mãos intrometendo-se em seus shorts; e ela as tirava, digamos, biologicamente impossibilitada de levar qualquer sacanagem adiante.
_Então vem aqui... – os seus dedos agarrados à minha blusa me puxavam, querendo resolver o problema; entrelaçada uma na outra sobre o pouco espaço que havia livre ali em cima, sobre o balcão da cozinha, e eu relutava.
_Não, não... – dizia, entre um beijo e outro – ...eu quero você.
_Não dá, amor. Não dá.

Maldição. Meses a fio juntas e os nossos ciclos ainda não haviam sincronizado, drama lésbico recorrente. Ainda ganhei – claro! – tudo o que tinha direito de receber em cima da superfície de granito escuro; e ainda distraí-me, em suadas e embriagadas horas de insistência, do fato que o Fernando não estaria mais ali para nos interromper. Nos enrolávamos, divertidas. Consegui tirar quase toda a sua roupa; e ela andava livre agora pelo apartamento. Eu a beijava então contra a parede do corredor, ambas sem blusa ou sutiã. E nos jogávamos no sofá para o milésimo round de discussão – ah, dava. Recebera um SMS do Du mais cedo naquele domingo, confirmando a mudança na quarta. Isto é, tínhamos ainda outros dois dias inteiros ali.

No seguinte, a Clara também dormiu no apartamento. Me livrando de mais uma noite sem o Fernando; tudo parecia o mesmo naqueles cômodos com ela lá. Me fazia bem, portanto, tê-la comigo. Para conversas de madrugada, para a companhia no café-da-manhã e todas aquelas coisas pelas quais eu não prezara nos anos antes. Convenci-a a tomar três ou quatro banhos comigo entre a noite de segunda e a manhã de terça, evidentemente. E depois nos separamos na estação Consolação para ir trabalhar. Íamos em direções opostas. Combinamos de nos ver mais tarde, eu passaria na sua casa. Almocei com a Marina naquela terça, que tagarelou sobre sua ficante, a tal Vivian. E voltei para o apartamento lá pelas sete, pretendendo ficar pouco – sozinha ali, sim, era estanho –; tomei um banho rápido e coloquei um pedaço de lasanha no forno. Estava terminando de guardar tudo na carteira, antes de comer e sair, quando a campainha tocou.

novembro 04, 2012

A porta aberta dos perigos

“Na verdade continuo
Sob a mesma condição
Distraindo a verdade
Enganando o coração”

(Pato Fu)

novembro 01, 2012

¡Oh my corazon!

A Marina estava adormecida ao lado das minhas pernas nuas, no colchão. Coloquei o celular sobre a mesa de cabeceira e vi os seus óculos dobrados ali. Usava o mesmo vestido branco de antes; já eu estava com uma camiseta velha e uma calcinha preta. As suas mãos ainda recaiam sobre a linha da minha cintura – me virei para ela e a observei dormir por um instante, em silêncio. Ah, não quero te acordar, meu. Eu e ela tínhamos um bloqueio para mostrar afeto desde a separação. E estava feliz em senti-la perto mais uma vez, sem pretensões.

Desde que voltamos a nos falar, especialmente no começo, a Marina teve problemas em confiar em mim e não gostava que eu a tocasse. Em poucas ocasiões o fizemos – quando, somente, eu ou ela estávamos muito tristes. Ela dormiu uma única vez nos meus braços, sentadas no sofá do seu apartamento, no dia em que a Bia a dispensou. Aquela, agora, era a segunda vez. Em anos. No início, ela sequer permitia que eu fosse na sua casa – tão “correta” que era. Numa das primeiras vezes que saímos, logo que voltamos a nos falar, quis abraçá-la num impulso meio inconsciente e ela chegou a se desvencilhar. “Você perdeu este direito”, argumentou, sem rancor. “Somos só amigas agora”.

E era o que éramos, naquele instante. Mas o tempo e as longas conversas, aquelas minhas idas ao seu apartamento em busca de conselho, mudaram a forma como nos sentíamos e nos acostumamos novamente a estar perto uma da outra. Aquela noite acontecera naturalmente – e acordar com o seu braço ao meu redor me fez bem, me deu tranquilidade. Sentia um carinho imenso pela Marina que poucas vezes tinha liberdade de expressar. O último ano havia sido particularmente bom. Entre nós duas, isto é. Como já havíamos feito e dito tudo o que podíamos uma a outra, por já termos namorado, esta era a primeira amizade assim que eu conseguia ter – sem estragar tudo indo para a cama. Ela era especial.  

_Ei... – toquei no seu braço, acordando-a – ...a Clara está vindo aí.
_Hum?! Quê, agora? – murmurou sonolenta, tinha o rosto afundado nos cabelos apenas um pouco bagunçados; sorri e confirmei com um gesto, “uh-hum”.

Ela se levantou com relutância, sentando-se ao meu lado no colchão com os pés cruzados e as costas apoiadas na parede. Pôs-se a arrumar o cabelo num coque improvisado. O seu rosto e movimentos ainda transpareciam certa sonolência; me pediu os óculos. Lhe entreguei. Quis saber que horas eram e – mesmo que eu tenha insistido então para que ficasse; que pegaríamos o sofá, a Clara e eu – disse que ia embora. Perguntei se gostaria de almoçar naquela semana, ela acenou que sim, que aceitava. E então me questionou por que eu não havia chamado a Clara mais cedo, naquela noite.

_Ah. É complicado.
_Complicado? – ela me encarou, com certa ironia, e eu estranhamente me envergonhei dos meus motivos.
_Eu... dormi com a Mia, ontem; foi sem pensar – murmurei.

Ela começou a rir, balançando a cabeça. Descrente.

_Eu sei, eu sei. Não precisa falar, tá...
_Você é uma peça rara, meu. Sério! – achava graça, ainda – Quando você me disse, na sala hoje, que se arrependia de ter dormido com a mina do Fer, meu... eu achei que fosse um peso antigo. E não das últimas 24h! Sinceramente – divertia-se –, eu não sei como você consegue...
_Eu gosto dela, eu... não sei. Não sei! Eu não consigo evitar, a gente também tinha bebido e ela veio pra cima, meu. Sei lá, Má... – suspirei, com os antebraços apoiados nos joelhos dobrados sobre a cama – ...eu não sei o que tem comigo e com esta garota. Eu simplesmente não consigo! Não consigo dizer ‘não’, não consigo me livrar dela, deste sentimento.
_Tem que ver direito isto aí, hein...
_Juro. Quando eu, quando eu acho que passou... sabe, que não sinto mais nada. Ela, ela vem e... argh.
_Mas, e a Clara?
_Eu gosto da Clara. Eu gosto muito.
_E ela sabe? – a Marina me fitou os olhos, apreensiva.
_Não. Ela não entenderia... – disse e o meu coração bizarramente doeu – Quer dizer, ela... ela diz que sim, mas eu sei que não entenderia. Não a Mia. E... e foi só ontem também! – me apressei em negar qualquer envolvimento com a ainda namorada do Fernando, mesmo que não tivesse tanta certeza do nosso “não” envolvimento àquela altura... – E eu não quero estragar as coisas com ela. Não por uma noite, não por isto. A... a Clara, não sei, ela passou a significar mais do que eu qu...

Interrompi a frase, antes que ela ficasse séria em demasia. Para os meus ouvidos e os dela. Eu sabia que a Marina tinha lá suas ressalvas com a Clara e eu não acreditava ser necessário anunciar que acabara me apaixonando por ela nos últimos meses em que estivéramos juntas. Ela sorriu, todavia. Ficava feliz por nós mesmo que eu não o dissesse, era estranho. Porque ainda assim eu relutava em confessá-lo. Receava que reprovasse, que deixasse de achar tolerável. A Marina deu de ombros, olhando para os próprios pés cruzados – “eu só acho que você não pode continuar com as duas, nem sentindo as duas coisas... ou alguém vai se machucar”. Concordei. Eu me sentia confiante – não pretendo.

_Eu estou com a Clara – afirmei.
_Espero que saiba o que vai fazer, flor...