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janeiro 27, 2012

Águas passadas

No outro dia, acordei como se de um sonho. Como se imaginara tudo aquilo. Completamente alheia à Mia e ao meu sentimento bêbado ressurgido por ela, na madrugada anterior; à nossa discussão no corredor. Como se nada tivesse, de fato – e em nenhuma estância –, acontecido. O pedido, a raiva, o tal do “nunca”, o meu amor por ela, as minhas lágrimas, o escuro, o silêncio, a Clara. Como se todas estas peças não fizessem parte de uma realidade sóbria. Pareciam agora, pelo contrário, tão tão distantes. De repente, não sei, retidas em algum lugar obscuro da minha memória.

Recuperada a consciência, levantei por fim e sentei na beira da cama, como se acordasse de uma grande dor de cabeça e com resquícios de ressaca. Isto tudo..., suspirei confusa, ...aconteceu mesmo?, olhei para a frente, intrigada pelos eventos surreais da noite anterior e pelas consequências da minha embriaguez já fora de controle. Precisava parar de beber – eu bem sabia e este era, no entanto, o tipo de promessa pela qual eu jamais moveria um palito na minha vida. Independentemente de quão freqüente eu a fizesse (e a fazia).

Respirei fundo. Olhei para o lado e vi a Clara, aconchegada sob o lençol, dormindo. As pessoas parecem inofensivas quando dormem, refleti à toa. Observei-a por algum tempo. Gostava da tranquilidade contida naquele breve espaço de tempo, logo pela manhã, em que ninguém acordara ainda e tudo continuava parado, meio que em stand by. Sempre tive mania de contemplação. Absorvia o mundo com os olhos; os meus momentos de maior calma eram estes. Olhei a Clara por alguns minutos, sentada nua contra o encosto da cama – ainda que o tempo lá fora estivesse chuvoso, frio –, a sua pele branca e as pintinhas e o cabelo moreno bagunçado sob o lençol. Estava bonita, e inofensiva.

Acariciei-a por toda a extensão do braço, escorregando as costas da minha mão lentamente até o seu rosto, e deitei ao seu lado. Ela acordou. Disse-lhe então que precisava ir, aquele seria meu primeiro dia de trabalho. A sua voz baixa murmurou que iria, portanto, também. Levantamos e fomos tomar um banho rapidamente. Talvez não tão “rapidamente”, ok, mas juntas. Há tempos eu não entrava debaixo do chuveiro acompanhada de uma garota. Este era o tipo de coisa que eu costumava fazer com namoradas; me lembrava de certa forma a Marina e os seus hábitos de signo d’água.

Às vezes, naquela época, se estava realmente calor passávamos tardes inteiras sentadas ensopadas dentro do box, no apartamento dela, conversando e rindo muito de qualquer coisa. Distraí-me por um instante, nostálgica. Logo, porém, as gotas que escorriam pela cintura da Clara e as suas mãos argentinas trataram de me trazer de volta – e muito bem – à realidade. O café-da-manhã que se seguiu foi divertido e leve, engraçado. Falamos incansáveis, enquanto os cabelos molhados pingavam sobre a roupa, sozinhas na cozinha. Antes da entrada do metrô, ela me perguntou: “você vai para lá?” e eu comuniquei que iria andando, ainda está cedo, a produtora era a duas estações dali e quase na Paulista. Dei-lhe um beijo, sincero. Demoramos; e fomos cada uma para um lado.

O dia estendeu-se leve e descomplicado, com o mesmo sentimento daquela manhã. De alguma maneira, eu estava estranhamente feliz. Com o emprego, com tudo, sei lá. As pessoas ali eram interessantes, novas – eram outras. E isto me intrigava. Conversei com quase todas, fiz bem pouco e observei muito, muito mesmo, ao longo do dia. Passou rápido. Mandei, já no meio da tarde, uma mensagem para a Marina. Genuinamente querendo vê-la. E lá estava ela me esperando frente à produtora assim que eu saí, apoiada contra o carro, atrás de seus óculos pretinhos. Tirei o gorro – destes descolados que caem, por excesso de tecido, para trás – e sorri ao vê-la ali.

_E aí? Vamos? – ela me olhou aproximar, contente.
_Aham.

Havíamos combinado de jantar, talvez no Kiichi.

_Buenas, então... – disse, entrando no carro dela, me acomodando no banco do passageiro – ...fodi de vez as coisas com a Patti lá. Tô comendo a Clara agora, e você? Alguma novidade aí?!
_Não tô mais com a Bia, terminamos – riu.

janeiro 20, 2012

O Efeito Casimir

Sentia o coração acelerado, agora em silêncio total – entrando no meu quarto, as luzes apagadas e a Clara já deitada, acomodada na cama. Uma batida atrás da outra, merda. Atropelando-se, fortes. Isto não é certo, cara. Tomar no cu. Suspirei. A contragosto, doloridas, as lágrimas continuavam engasgadas na minha garganta. Não comigo, garota; não assim. Minha respiração acompanhava o ritmo acelerado do meu pulso, dificultando-me encher direito os pulmões. De raiva, imensurável frustração. E de um momento para outro, a minha cabeça parecia se esmagar com o pesar de toda a fumaça que eu respirara por horas na mesa de jogo, de todos os cigarros, os baseados, os copos de whisky e Coca com vodka, toda a confusão no corredor.

Bastaram dez minutos – entre estar lavando a louça remanescente da noite de apostas na cozinha a enfim a porta do meu quarto. O que diabos foi aquilo? Eu me deixava torturar pelas possibilidades, de repente. O que diabos...? Em meio ao breu, as pernas plenamente descobertas e cercada de travesseiros, a Clara me chamou. Como se confirmasse que era mesmo eu quem estava ali, parada há minutos. Estava em pé em frente à porta.

Por que, por que... diabos ela...?

Argh.
Alguns sentimentos são piores quando se está bêbada. Neste nível. E eu sentia o meu coração doer de dúvida. Contorcer-se e rasgar, repentinamente sufocado, sem ar – indignado e contrariado pela invasão recorrente da Mia à porra dos meus órgãos, ao meu corpo. Aos meus pensamentos, mas que inferno. Por que, cara..., lamentei, por que você não me deixa em paz?! Sentia uma raiva como nunca antes dela, da sua atitude. Por quê, caralho?! A minha cabeça corria a mil, imersa uma a uma nas suas palavras, tentando em vão processar a discussão e esforçando-se para lembrar de tudo o que eu havia lhe vomitado sem pensar nas conseqüências. Não queria lidar com aquilo, não mesmo.

Mas, de alguma forma, me via obrigada. Meio abruptamente, sentei na beira da cama e acendi um cigarro para me acalmar; com os pensamentos todos obcecados pela Mia. Maldita. E pelo que eu nunca deixara de sentir por ela. Presa para sempre neste rolo de merda, argh. Não, me contive no mesmo instante, isto não. Porque ela, não, não merecia mais nada de mim. Mais nada. Você bem sabe... tudo, garota, tudo o que eu te dei. E que nunca te importou a mínima. Tudo o que eu cedi de mim. Do meu foco, da porra da minha vida, da minha lealdade, das minhas traições, das minhas amizades..., traguei lentamente e as mãos da Clara passearam suaves pelas minhas costas, ...do meu coração, da minha frustração. Da minha dor.

É. Não dava a mínima para ela! Mas lá estava, de repente. Inconveniente. E agora você vem, né? Balancei a cabeça, indignada, soltando a fumaça junto com a minha raiva, fora de controle. Agora, né, porra?!, ri de nervoso. A Clara notou e perguntou se estava tudo bem, sentindo a tensão no ar, mas eu a ignorei, completamente voltada aos pensamentos. Por quê, hein?! Por que não veio meses antes, por que me colocou nesta, por que me fizera passar por tudo aquilo. E não pense por um segundo, desgraçada, que a culpa não é sua. Há muito tempo e com muito, muito custo me convenci de que não foi erro meu. E não foi.

Foi seu, garota.


Progressivamente os meus pensamentos iam à contracorrente, me sufocando. Ela, porém, me desarmava sem esforço. Ah, maldita. A minha respiração pesava, cada vez mais. Você não podia vir quatro, cinco meses antes? Continha as minhas lágrimas com certo esforço. É erro seu porque eu que tive que te esquecer, que me forcei a te esquecer. Que me forcei a não passar mais por esta merda, a não te esperar, a não te querer, sua filha-da-mãe. Dei mais uma tragada e amassei o cigarro contra a parede, num impulso. Não conseguia fumar, inquieta.

Joguei-o pela janela aberta. Sequer me importava com o pedido repentino, com o drama todo, a situação com a Clara, o seu ciúmes. Não era novidade para mim, então foda-se. Poderia até esperar, antes, que o fizesse – certamente não previ a audácia, mas bem sabia que ela retia estes pensamentos dentro de si, que a detestava. Ela..., senti a minha cabeça confusa, ...e ela não..., passei ambas as mãos no rosto, frustrada, pensando na Mia. Pensando por que o que me incomodava, o que de fato me incomodava, nas suas palavras... era apenas uma.

“Nunca”. Uma palavra que lhe escapara. E que agora levava aos meus olhos as doloridas lágrimas até então engasgadas na minha garganta. Como não? Como não disse? Elas desciam lentas pela minha pele, indesejadas. O choro me causava dor de cabeça, ficava tensa. Não, espera. Não disse. Chorar, de fato chorar, me era extremamente desconfortável. A mim, que sempre contive as expressões mais óbvias de tristeza. “Eu nunca disse isto”, lembrei dela dizendo, contrariada. Respirava com pesar e tentava, num esforço desproporcional, reter as lágrimas. Não disse. Ela, ela não disse. Nunca disse – a Clara sentara ao meu lado e colocou, conforme as implicantes linhas molhavam o meu rosto, os braços ao meu redor. Internamente, eu não me conformava: Você é uma covarde, sabia? Ah, você é tão, tão covarde... Mia.

Porque dizer-me e só então era covardia. Das piores. E a Clara também disse, neste meio tempo, algo – mas eu, conturbada, não conseguia prestar atenção nela. Por um instante, a sua voz me parecia realmente longe, distante. Acho que perguntou se eu queria que ela fosse, não sei. Não a ouvi direito e não a respondi: ela ficaria. A minha confusão ressoava alto dentro da minha cabeça. Ainda que não disse, eu sei melhor. Me forcei a contrariar a (ainda que) mera sugestão do que ela “nunca dissera”. Você..., enxuguei as minhas lágrimas do rosto, com rancor, e me obrigando a acreditar no contrário, ...você nunca me amou.

E você não me ama agora
. Já chega.

janeiro 18, 2012

"Take what you need

…and be on your way.” 
(Stop Crying Your Heart Out)

_Foda-se! – gritei com ela, perdendo de vez o controle na discussão – Foda-se, Mia! – e então retomei um tom mais baixo, tentando não alertar os demais, mas ainda agressiva – Você acha que eu ligo, cara?! Você acha que importa??? Acha mesmo que faz diferença?? Agora?!? Porra, mano... Cê quer saber mesmo?! O que importa, Mia, é o que você disse... E você nunca, nunca... teve a... coragem... de me dizer porra nenhuma! Aliás, de fazer qualquer merda! De mostrar que gostava de volta de mim. Você nunca fez nada, Mia... nada! E agora você espera que eu faça o quê, caralho?! Hein?! Me diz, meu, o que você quer que eu faça com a porra da minha vida?!?
_Eu... eu sei! – lamentou; as lágrimas escorriam pelo seu rosto e ela ensaiou encostar uma das mãos em mim num impulso, mas logo desistiu, no meio do caminho; aí me olhou com pesar, quase implorando – Só... não... não isso. Por favor. Não isso. Não com ela!

Passei as mãos no rosto, engolindo seco todos os meus sentimentos, dos mais revoltantes e impensáveis, tudo o que me doía em ouvi-la falar. Nervosa e indignada, com esta merda de pedido. A Mia hesitou por um instante, chorando e me olhando como quem se arrepende do que vai dizer antes mesmo de pronunciar as palavras. Argh. Eu não aguentava mais ficar ali – aquilo era surreal demais, inferno. E ela percebeu.

_Olha, eu... eu sei que... que eu não tenho... – se apressou em dizer, soluçando e ansiosa para que eu não fosse, interrompida involuntariamente pela respiração pesada – ...que eu não tenho nenhum... nenhum direito de...
_É. Você não tem, mesmo – a interrompi.

E dei as costas, grossa. Não ia ouvir mais uma palavra daquilo.

Desencadeamento

_O quê? – pensei, parando por um segundo como se não tivesse entendido direito, e não consegui não rir, bêbada.
_Eu não... não quero que você... – hesitou, na segunda vez – ...não quero que fique com ela.
_Você não qu...?! – levantei a voz sem perceber, indignada com o descaramento daquele pedido, de repente – Eu?! Você não quer que eu fique com a Clara?! É isto??
_Fala baixo, meu... por favor...
_Não, agora você me explica, sério... Por que, hein?! Me diz só isto: por quê?! Por que diabos não ficaria?! Olha, na boa, Mia... – prossegui, me deixando irritar (filha-da-mãe!) pela falta de consideração dela comigo, com a nossa história, com os ocorridos dos meses anteriores, com qualquer merda que fosse; argh – ...por quê?! Por que não, hum?? O que me impede?!?

Não me respondeu, claro. Me olhava, contrariada e com os olhos prestes a proferir lágrimas petulantes, retraídas a muito custo. Mas o silêncio a denunciava. Não tinha argumentos, nenhum que justificasse tal pedido sem fundamento. Argh. Eu estava de saco cheio daquilo, daqueles jogos dela, daquela imaturidade – preciso dar o fora daqui, agora. Respirei fundo e me virei, determinada a ir para o quarto e deixar que passasse. Nas mãos da Clara.

Dane-se a Mia.

No entanto, num breve e previsível momento de descontrole, possivelmente movido ao álcool e às rodadas ilegais que já me afetavam o bom julgamento, dei dois passos de volta, tomada por um rancor incontrolável. Frustrada, senti o sentimento crescer em mim e a encarei como se não tivesse nada a temer ou a esconder.

_Não foi você? – retruquei do nada, num tom agressivo – Hein, porra?! Não foi você que disse que queria tentar? Que queria ele?!
_Não faz isto... – ela murmurou, magoada.
_Que não me queria?!? Não foi VOCÊ?!?! – continuei, ignorando-a; sentindo todas as emoções voltarem em mim à flor da pele – O que, cara? O que você quer de mim, Mia?! Me fala, na boa, porra... o que você quer?!
_Eu s... – hesitou, de repente constrangida.

Eu a olhava fixo, com um pesar horrível – a sua falta de coragem, as explicações que sempre me escondeu, me doíam. Revoltei-me mais ainda.

_O que você quer que eu faça? Hein, porra?!? – me segurei para não gritar com ela, em meio ao corredor vazio – O quê?! Você quer eu fique te esperando?!? É isto?? E até quando? Pra sempre, meu?? Presa a você, à... à merda que nós tivemos e que sequer significou alguma coisa nesta porra da sua vida! É isto que você quer, caralho?! Que eu fique sozinha?!? Que eu fique sem você e sem ninguém... – senti as lágrimas de raiva me subirem pela garganta, realmente bêbada e inconseqüente; merda – ...rasgando meu coração por você, mano, te assistindo lá com ele?! Hein?!? É isto que você quer??
_Não! Claro que não!
_Na boa, Mia... Você acha que eu gosto disso? Que eu quero isso?!? – me irritei ainda mais; me deixando tomar pelo calor da discussão, pelo absurdo – Você sabe o que eu quero, o que eu sempre quis... – me aproximei por um instante dela, com rancor nos olhos; machucada e subitamente vulnerável – ...VOCÊ, eu sempre quis você.

Me arrependi no segundo que falei. Senti o ódio tomar conta de todo meu corpo, detestando a nós duas. Ela me olhou quieta de volta. Prestes a desabar a qualquer momento. Os seus olhos estavam inchados, como jamais os vira antes, e agora eu a odiava mais do que nunca. Não me disse nada; apenas me encarava covarde, impedida – fala, desgraçada, porra! Mas ela não falou. E nem nunca falaria, isto era o que mais me doía.  Então continuei, desimpedida, desencadeando o que segurei esmagado por meses dentro de mim, numa verborragia que eu não conseguia evitar. Descontrole alcoólico. E que me machucava ainda mais.

_Por meses, cara... – retomei, num tom mais baixo e ainda com raiva – ...por mais de um ano, Mia. Porra! Foi só você. SÓ você. Mas... mas o que diabos você espera que eu faça?!? O que, mano?!?! – ri de nervoso, com os olhos mareados e a cabeça completamente desnorteada – Hein?! O que eu faço?? Me fala, o que faço??? – subi mais uma vez a voz, novamente irritada – Não foi você, porra?! Não foi você que me deu um puta fora? Há meses?! Hein?!? Que não me quis, que preferiu ele?? Que não me amava?!?
_Eu NUNCA disse isso! – me interrompeu de repente, chorando, subindo pela primeira vez o tom de voz.

Ah. Foi aí que eu fiquei, realmente, indignada.

janeiro 17, 2012

Linhas inimigas

Aquilo, nitidamente, não havia sido ideia dela. O jogo. Assisti o seu desconforto crescer. Diante dos meus olhos, em silêncio, por toda hora seguinte – e o Fer sequer notava, a própria namorada, ocupado em me derrotar no meu jogo favorito. Sem chance. Observava-a, já eu, fixamente. Como um erro consciente. Não conseguia de repente, num impulso inédito nos últimos meses, evitar. Com a Clara ao meu lado e olhos na Mia, do outro lado da mesa – mas não como anteriormente, não por admiração oculta. Uma dose atrás da outra, a garrafa de whisky incompleta ao seu lado. Ela perdia, aos poucos, a noção de limite. As cartas pareciam não lhe importar, sem ânimo ou vontade alguma, me odiando ver acompanhada. Com ela, com a Clara.

Sua agonia me incomodava, me irritava, de modo particular.

Por outro lado, tão pouco importavam as cartas à minha parceira da noite. Agora que jogávamos sozinhas uma rodada de Pôker, não mais Canastra em duplas separadas e lados opostos na mesa, ela pôde enfim se sentar junto a mim. Deixara sua mão repetidas vezes virada sobre a mesa, enquanto me provocava – baixinho e imprestável – no ouvido. Eu ria, sabendo o que me aguardava no quarto aquela noite. Achava graça na diversão dela em me vender, das mais criativas formas, o que eu já tinha. Sem tirar o foco das cartas, eu ria dela. Fumava o meu segundo baseado do dia. Estava aérea já e me embebedando numa velocidade fenomenal junto à Clara e ao Fer. Mas os olhos da Mia sempre davam um jeito de encontrar os meus. E eu a encarava de volta, sem saber o que lhe “responder”. O que justificar.

Não dava satisfação nenhuma, então – dane-se! Não era da sua conta, afinal. O que eu fazia ou deixava de fazer e com quem. Olhei para o outro lado, tentando não me permitir irritar pela petulância do seu desconforto. Me sentia no pré-primário, como nos meses em que me importava com a sua presença; tudo de novo. E não podia deixar que acontecesse, que me afetasse. Isto não, eu me recusava. A Clara por sua vez insistia em me desconcentrar, mas de um jeito completamente diferente.

E muito, muito melhor.

Desejando-me “boa sorte” aos sussurros delicados, maldita, no meu ouvido. Àquela altura, as duas já haviam saído da rodada, entregado os pontos à nossa sagacidade. Restávamos eu e o Fer, antigos rivais naquilo, com as cartas em mãos e os olhos um no outro. Vai nessa, desgraçado! Com gosto, contudo, a Clara beijava a lateral do meu pescoço e subia, tornando a minha tarefa ali realmente difícil. Por diversas vezes. Bêbada em excesso, chapada além do que deveria na noite anterior ao meu início na produtora – óbvio que isto não vai dar certo, sentia o calor me subir por dentro das calças. E ela conseguia tirar o meu foco por alguns milésimos. Eu não ia tolerar aquilo.

_Olha, eu já saquei a de vocês dois, viu... – eu disse, com os olhos presos ao meu jogo, e ri – ... você tá trabalhando pra aquele panaca ali só pra me fazer perder, não é?
_O quê?! – a Clara começou a rir, me dando um tapa no braço e a Mia revirou os olhos, noutro canto da mesa – Claro que não! Que absurdo isto!
_É, é. Isto mesmo... bom trabalho, comparsa.

O Fer achou graça e disse, rindo junto conosco.

_Vocês dois, hein, pode parar com a acusação. Não tô nada, meu!
_Nem vem... – ri – ...eu já saquei qual é a sua, garota.
_Todo mundo já sacou... – a Mia disse, murmurando com ironia num descuido e levantando as sobrancelhas.

Subi os olhos por cima das cartas e a encarei, como se não aprovasse o comentário infantil dela. Sério mesmo?! Um pouco menos discreto, o Fer também a olhou logo ao seu lado e fez um gesto sutil com a mão como se perguntasse a mesma coisa que eu, como se apontasse o óbvio desrespeito e falta de educação dela. “Porra, amor”. A Clara, porém, pareceu não se importar; acostumada com a estranheza da Mia na sua presença, me disse depois naquela noite. Me abraçou persistente pelo pescoço, cheia das más intenções, me dando um beijo alguns segundos mais demorados na bochecha. Eu sorri, meio sem intenção; incomumente feliz por tê-la comigo naquele domingo. Voltei os olhos às cartas e foquei-me mais uma vez. Ah, eu vou ganhar esta porra.

E ganhei, mesmo. Ambos no blefe absoluto: segurando, cada qual, um mísero par nas mãos. O meu, contudo – formado por duas belíssimas rainhas, claro –, prevaleceu contra o dele. Abaixou seu casal perdedor de valetes e eu pulei da cadeira em êxtase absoluto, batendo vitoriosa na mesa e quase derrubando tudo. A Clara ria e o Fer resmungava qualquer babaquice frustrada para a Mia ao seu lado, que o ignorava categoricamente, me olhando fixamente de volta. Tomou! Tomou! Ok, tá. Eu podia ser péssima vencedora, mas o Fer era mil vezes pior perdedor. Mais ainda quando era de mim: a nossa guerra – neste sentido, digamos – era antiga.

Acabada a rodada de jogos, a Clara retirou-se para deitar-se no quarto – e eu a imaginei imprestavelmente tirando toda a roupa, enquanto esvaziava o cinzeiro no lixo da pia da cozinha e o colocava sob a água corrente. Em breve, pensei sem reservas, celebraríamos e em grande estilo a minha vitória. Dominada pelas minhas piores intenções. Isto e, talvez, pelas excessivas doses consumidas na hora anterior. É, talvez. A Mia entrou na cozinha, me acordando da minha divagação, e deixou três copos com restos de whisky ao meu lado na pia; o Fer veio poucos instantes depois. Alcançou-a, tocando-a com carinho nos ombros, e avisou que ia tomar um banho. Ela concordou, ambos murmurando. E ele saiu.

Já ela, ficou.

E junto com ela, aquele silêncio constrangedor. Entre nós. Nada, nada bem. Lavei duas vezes o cinzeiro, impregnado daquele cheiro enjoado de erva e cinzas regulares – de quebra, o fiz também com os copos deixados por ela e enxagüei tudo. Olhei então de relance por cima do meu ombro e ela estava ali, apoiada contra a mesa, a alguns metros de mim. Quieta – a cabeça baixa, constrangida. Enxuguei rapidamente as mãos, largando o pano de qualquer jeito sobre a pia e me virei, encarando-a numa atitude agressiva pela qual ela não esperava. A Mia ergueu os olhos, com alguma verdade engasgada na garganta, contida no olhar – eu podia vê-la, mas longos segundos se passaram sem que nada acontecesse. Nada da boca dela. Típico. Dei de ombros, sem paciência para aquela ceninha, e caí fora sem voltar mais a minha atenção à sua direção. Quando eu já estava na metade do corredor, no entanto, ela me puxou pelo braço, por trás, e me obrigou a virar encarando-a. O que agora...

_Não quero que você fique com ela – a Mia me pediu, do nada, forçando-se a conter o que sentia nos olhos já marejados.

janeiro 13, 2012

Eleuteromania

Minha índole e o infeliz órgão pulsante que habita meu peito sempre tiveram maneiras muito distintas de conduzir suas respectivas existências. Este segundo é absolutamente aleatório, irracional. Acelera nas piores situações, com as menos desejáveis garotas, as menos propícias para mim, me prega peças constantes. Finge que não quer e aí ressurge, sempre ressurge. Desgraçado. A primeira, a minha índole, já não. Esta sempre se comportou dentro de uma lógica bastante errada, mas – e eu não vou entrar no mérito do quão errada – no fundo, já não me surpreendia mais.

Nunca liguei para garota nenhuma, sempre me dispersei e com consciência. O que eu sentia pela Clara naquele momento, porém, era muito parecido com o relacionamento mal-resolvido e sadomasoquista que sustentei por anos com a Dani – e que muito provavelmente ainda ia sustentar por muito tempo na minha vida. Ainda que não me apaixonasse por este tipo de garota, das que iam e vinham na minha cama de tempos em tempos e permaneciam imutáveis, elas me fascinavam. Simplesmente não conseguia evitá-las. Me sentia atraída pela ausência (ou promessa) de romantismo, de boas maneiras. De regras. Éramos cruas, narcisistas, soltas, sempre metidas numa incessante disputa de egos – que às vezes me esgotava –; e o sexo era fenomenal. Eram meus relacionamentos mais sinceros, mais divertidos.

Contraditoriamente, eram estas as garotas com as quais eu sentia absoluta liberdade em ser carinhosa. Com as quais eu podia fazer todos os lances bobos de casal, engasgados dentro de mim – reprimidos graças às péssimas escolhas do segundo, o infeliz órgão pulsante –, sem me preocupar com o efeito que isto teria nos sentimentos delas. Nos entendíamos silenciosamente. Não nos dávamos (pelos mesmos motivos) com o restante das meninas, ávidas por amores repentinos, e nos usávamos em contrapartida. Não tínhamos e nem nunca tivemos a intenção de namorar, nenhuma de nós amava uma a outra. Cada qual levava, sozinha, a sua própria vida. Os seus problemas, os seus relacionamentos. Mas nos gostávamos continuamente como quem gosta de um amigo que te entende. Por dentro, pela mais obscura verdade. Resumindo: não nos precisávamos, apenas nos queríamos – e há uma boa diferença aí.

O que não quer dizer, claro, que fosse um mar de rosas. Não é. Ainda somos garotas, after all, e garotas – todo mundo sabe – sofrem de uma dependência crônica por drama. Ainda mais garotas como nós. Obviamente nos trombávamos. Invariavelmente. E a lista nada modesta ia de discussões na madrugada, brigas, ciúmes, traições, algumas doses a mais até sinceridade, excessos, drogas, sumiços, hematomas, cenas dispensáveis, provocações, surtos, crises existenciais, lances realmente pesados no meio do caminho. Não tínhamos limite e nem quem nos controlasse. Não tínhamos relacionamentos saudáveis à parte para nos colocar de volta no chão. Acabava que nós dávamos sempre um jeito de nos encontrar, violentamente, e de nos relacionar com uma intensidade desproporcional, nos usufruir sem pensar a respeito ou moderar. E inevitavelmente, no final, alguém saía machucado – mas não o suficiente para que impedisse uma próxima vez. Como eu disse: minha índole, em toda sua lógica subconsciente, não conseguia evitá-las.

Mas agora não era tempo de pensar sobre isto. Ainda não. Não naquele fim de tarde, lento e ocioso, naquele domingo calmo; trancadas, dentro do meu quarto mal-iluminado e de propósito. Deitada ali com a Clara há horas – lhe fazendo carinhos despreocupados, dando voltas a esmo pela superfície do seu corpo descoberto apenas com as pontas dos dedos. Hum. Ela fumava um baseado, o resto do que eu apertara na madrugada anterior, e observava o teto. Os braços atrás da cabeça apoiada. Já eu, deitada de barriga para baixo, viajava ao seu lado. Passeava com uma das mãos pelos os seus contornos, magnificamente delineados. E ríamos, sem motivo. Cara, eu já estava realmente chapada. Mas, numa brisa boa, um tanto fora da realidade. Pelas horas enfurnada ali, com ela. Sabe aquele sentimento pueril? De que não existe (e não existia) nada além do quarto.

Alguém bateu na porta.

Ergui a cabeça num susto e olhei para a Clara, que me olhou de volta, rindo. Nos interrompendo, à realidade. Levantei a muito contragosto, resmungando qualquer coisa sobre provavelmente ser o Fernando vindo me encher o saco, e procurei o mesmo blusão de algumas horas antes. Estava largado no chão, o vesti. Me cobria até quase metade das coxas, então não vi necessidade em achar meio à bagunça também a minha calcinha. Fui assim abrir a porta e encontrei, de fato, o Fer. Do outro lado e já ligeiramente bêbado, simpático, com um cigarro na boca.

_Fala – eu disse, curta e grossa, roubando o cigarro sem pedir e dando uma tragada.
_Então, estamos... jogando cartas, eu e a Mia... – o devolvi, enquanto ele falava – ...vim ver se vocês não querem jogar, a gente queria fazer uma rodada em times.

janeiro 12, 2012

À Pele

"Well, you can get out of this party dress,
But you can't get out of this... skin." 


Bati a porta do quarto atrás de mim, a ceninha da Mia me irritara. Há muito não me deixava afetar por o que quer que aquela garota fizesse – e não é agora que pretendo voltar. Talvez fosse a situação com a mensagem de manhã, a Patti. Contudo, não, algo não estava certo naquela liberdade toda. De ir e fazer o que bem entende, na frente de quem quiser, para provar um ponto que sequer era válido. Pura infantilidade, argh. Respirei fundo, deixando o ar escapar dos pulmões conforme caminhava de volta para a cama, e a Clara me olhou assustada com a barulheira repentina. Ainda com as pernas de fora, vestida no meu camisetão, sentei-me ao seu lado e alcancei um cigarro na cômoda lateral.

_Tá tudo bem? – perguntou, me tocando delicadamente, colocando cada uma das pernas ao lado do meu corpo e moldando-se nas minhas costas.
_Tá – respondi, mentindo, acendendo o cigarro –, não foi nada.
_Hum... – ela deslizou as mãos por debaixo da minha camiseta, pela minha pele; falando suave e casual – ...não quer me contar?
_Não.

Levantei e busquei o cinzeiro ao lado do computador, sendo um tanto grosseira. Ela subiu uma das pernas, deitando-a frente ao seu corpo, sobre o lençol, e me encarou por algum tempo. Aí olhou para o lado por um segundo, como se calculasse, e achou graça em algo que pensara. Voltou-se novamente para mim.

_O que é?! Não pode me contar? – riu, ofendida.
_Posso – disse seca –, só não faço questão.

“Então tá”. Ela me observou, surpresa com a sinceridade.

_Isto... – fiz um sinal com a cabeça, indicando a cama – ...não muda nada. Não é como se agora, de repente, a gente fosse melhores amigas. Porque não somos, garota. Meus problemas não são da sua conta.
_Uau, hein?! – forçou uma expressão apática, irônica – você mudou mesmo, desde aquele tempo.

Muita coisa mudou; não era exclusividade minha. Retirei o cigarro dos lábios e deixei com que a fumaça saísse lentamente. Bati-o no cinzeiro, de leve. Olhei pela janela, o dia estava calmo e de certo irrelevante. Encarei mais uma vez a Clara sentada na minha cama, agora com as costas nuas apoiadas na parede; completamente despida. O lençol permeava-lhe as pernas em ondas suaves, invejáveis; tocava-lhe sem incômodo ou esforço, a sua pele clara, as pintinhas que se espalhavam pelas suas coxas. Estava bonita ali.

_Por que, te incomoda? Hum? – me aproximei, sem dar a mínima.
_Não.

Respondeu direta. Ainda que não me convencesse.

_Olha, se você veio procurando romantismo, boa educação...

Disse-lhe, já sentando novamente na cama a alguma distância dela, deixando o restante da frase solto no ar. Eu não estava com paciência. Não mesmo. Senti-a mover-se prontamente na minha direção, deslizando as mãos e pernas descobertas pelo lençol branco. Encarei o chão com o cigarro entre os dedos, desinteressada. Os seus joelhos encaixaram-se na lateral do meu corpo, sentada sobre os pés na cama.

As pontas dos seus dedos percorreram-me os braços. E tirou, então, a minha camiseta num gesto contínuo, natural. Senti o seu corpo encostar nu contra as minhas costas, agora descobertas.

Estava morna. Traguei mais uma vez, como se não ligasse para ela, iminente ali. E macia. Seguiu com as mãos em passeios leves, por toda minha extensão. E me beijou o alto da coluna. Então interessei-me. Os seus lábios deixaram suavemente a pele. E aí mais um. E outro. Subiu aos poucos. Depois outro. Me veio pelo pescoço, envolvida em mim. Podia sentir a sua língua tocar-me entre uma brecha e outra. Mais um beijo. Outro. E então encostou o rosto no meu ouvido, apenas ao fim.

_Não vim... – sussurrou.

janeiro 06, 2012

Os Invernos

Na manhã seguinte, deixei a Clara ainda deitada na cama, adormecida, e atravessei o quarto à procura de uma camiseta grande o suficiente. Peguei o celular na cômoda e uma antiga com a gola toda arrebentada, intencionalmente aberta até cair nos ombros. Estiquei-a ao vestir as mangas, colocando-a com certa preguiça. Fui então para o corredor, fechando a porta cuidadosamente atrás de mim. E apenas quando estava parada ali, já do lado de fora, que tive coragem de abrir a minha caixa de mensagens. Vamos lá. Por algum motivo, sentia-me enjoada muito além da ressaca. O estômago começava a revirar por antecipação.

Havia, sim, respondido à Patti de madrugada. Perguntara onde eu estava duas vezes, frustrada. Em algum momento da noite anterior, já fora de mim na Hot Hot, metida na falta descarada de comedimento meu com a Clara, respondi. Sequer lembrava direito o que digitara – e talvez fosse isto o que eu tanto temia, argh. 1 nova mensagem. Apertei para ler, a contragosto; o corredor exalava uma quietude típica das tardes paulistanas de domingo. Ouvi o Fer e a Mia na cozinha, almoçando, ao que tudo indicava. Olhei para a tela miúda, segurando a respiração por um instante.

Sabia que havia lhe escrito merda. Não tinha mais volta.

E vieram então, uma a uma das suas palavras, com um rancor que já me era bem conhecido – mas que desta vez, ao contrário da maioria dos outros verões, surtira efeito. Porque garotas já me detestaram por muito menos; por muito mais também. Raramente me perturbava, contudo, a verbalização do que pensavam a meu respeito. Nunca dei a mínima e esta, de alguma forma, me incomodou amargamente. “Interesse efusivo, ñ era? É. Espero q. algum dia alguém seja capaz de se interessar por vc de volta, q. vc ñ acabe sozinha... Pq ñ vale a pena, msm.” – e, é, era justo.

Encostei a cabeça contra a madeira fria, pressionando a testa na superfície lisa do batente da porta. Suspirei demoradamente. Frustrada ali em pé; aquilo me machucava a tal ponto, internamente, que não era capaz de sequer questionar a mim mesma se havia tomado a decisão certa ou não. A realidade sempre seria aquela, dali em diante; não posso voltar atrás. Agora restava-me encarar aquela merda – como quem jamais houvesse desejado a Patti, em todos os dias da última semana; como se nunca me tivesse interessado a sua presença no meu cotiano. E eu era, com certa prática, capaz disto.

Guardei o aparelho no bolso, me dirigindo à cozinha para um copo d’água – seca de uma ressaca desgraçada. Entrei e, sentada na mesa com o prato já terminado colocado à sua frente, a Mia me olhou como se já soubesse. Ficou quieta. Continuo não te entendendo, pensei e encarei-a de volta, desvirtuando-me por um instante do incômodo que me ocupara todos os pensamentos minutos antes, ao ler a tal mensagem. Depois desencanei, que se dane você, indo na direção da geladeira e abrindo a porta.

_Pra quem não resiste a um pé na bunda, hein... – o Fer comentou me observando e rindo, apoiado na pia e me irritando, enquanto eu pegava uma latinha de cerveja – ...até que cê esperou bastante.
_Não enche, Fernando... que eu não falei com você, porra.
_Vai, demorou o que? Cinco? Seis horas desde que você saiu pra encontrar sua outra namoradinha?!

A Mia levantou-se, bruscamente, e saiu do cômodo.

janeiro 05, 2012

Entreatos

O seu rosto escorregou pelo meu ombro descoberto. Minha regata já estava completamente puxada fora de lugar, suja e contra a porta de ferro de uma loja qualquer, logo ali. Não era mais branca – não desde aquela madrugada. Amassou o rosto contra o pouco de tecido que havia no alto das minhas costas e eu comecei a rir de novo, junto com ela, a Clara. Traguei mais uma vez o meu cigarro roubado, tossindo logo em seguida, a respiração atropelada pelo riso. Os olhos dela me acompanhavam, ares argentinos, vendo-me ali de baixo. Balancei a cabeça horizontalmente, com certa calma, tentando manter a sobriedade – ou o que me restava dela, argh. Dignidade zero.

Sequer lembrava onde estava tamanha graça. Meu deus, ri. Estávamos sentadas na porta de um comércio qualquer nas redondezas da Hot Hot, ainda fechado, claro. O céu estava escuro, com brisa; a noite seguia irreal e agradável. O chão apenas que estava frio, cimento áspero; todavia a rispidez da calçada parecia não ter impacto algum em nossas pernas descobertas. Revirávamos sobre o concreto, ajeitando-nos incessantes, inquietas e animadas com as pernas cruzadas, umas sobre as outras, bêbadas – a Clara me abraçava, caíamos uma na outra. E aí ríamos, muito. Completamente tontas.

Entreatos, beijava-a com vontade.

Ausência de lucidez, instantes repetinos e a todo momento. Ela tentava tirar os meus tênis, disse que os adorava e declarou querer apoderar-se deles. De jeito nenhum, eu brigava fisicamente com ela e nos pegávamos loucamente, inevitavelmente. Peguei a, tomei posse da, garrafa de vodka barata que ela segurava com certo apego alcóolatra. Partyhard, folks. Como se precisássemos de algo além das nossas respectivas comandas superrecheadas, pagas nos vinte minutos antes, decidimos já na saída investir o restante das nossas muito mal-gastas economias numa garrafa inteira de sabe-se-lá-o-quê que aquele cara estava vendendo na porta. Dei mais um gole, um de algumas dezenas anteriores. E olhei-a sujando suas uggs naquele chão imundo, no clima e pouco se importando; toda sem frescura. Achei-a admirável.

(...)

Cercando o meu corpo, suas coxas magníficas forçavam o minishorts escuro cada vez mais para cima. Arregaçava-se, franzia-se. Em particular, disse-lhe as mais baixas obscenidades. O taxista tentava nos ignorar, ou não. E eu tentava me controlar, manter a porra da calma. Pra quê calma? Mãos à toda e sussurros. Ela ficava realmente, realmente linda com os fios bagunçados do cabelo castanho. Bagunçados sobre mim, observava-a me olhando de volta. E sentia apertar-me os pulmões, uma ausência filha da puta de pensamentos puros, de fôlego. Caralho.

Entramos barulhentas no apartamento, anunciando-nos. Quase cinco da manhã, nos pegando sem pausa. O silêncio e a quietude da sala quase escura, apenas a TV ligada; o Fer assistia qualquer programa já com o som quase no mínimo. A Mia, por sua vez, dormia com a cabeça no seu colo, esticada apenas de blusão no sofá. Não notei se nos ouviu entrar. Mantive as minhas mãos ocupadas com a blusa vintage do Lynyrd Skynyrd da Clara por todo percurso, que retirei num impulso e larguei no meio do corredor a despeito da possível platéia que tínhamos.

Joguei-a enfim na minha cama. E subi por cima, por entre suas pernas, beijando-a inteira. Movíamos num ritmo acelerado, semialucinado – fora de nós mesmas, realmente bêbadas. Perdi também a minha regata, num ato justo. E perdemos todo o resto tão logo. Sentia as suas mãos me puxarem, me machucarem insensíveis sobre a nova tatuagem, o peso do seu corpo deslizando contra o meu. E machucava-a de volta – foda-se! – com os dentes, com a boca, com tudo de mim. Na lateral da sua cintura, nos quadris, nas costas. Apertava os dedos contra o interior das suas pernas e escorregava-os acima. Pertubávamos o silêncio do quarto, tão logo de todos os cômodos do apartamento e da porcaria do prédio.

(...)

Sem escrúpulos por duas, três vezes seguidas. Um baseado aceso e, depois, mais uma. Pode vir, maldita. 

janeiro 04, 2012

O Clássico

Passei pelas cortinas na entrada da Hot Hot, uma balada elitista em pleno centro sujo paulistano, e caminhei por entre as pessoas superproduzidas, distraindo-se escandalosamente. Aquele caos queer da porra da cidade que nunca dorme. Não havia bebido uma dose sequer naquela noite – mas, em compensação, fumado meio maço no banco de trás do táxi, no caminho, para ver se me acalmava. Durante todo o percurso, pensei na Patti. Sozinha, me esperando; todavia incapaz de lhe enviar uma mensagem sequer e me destestando. Por isto, por tudo. Possibilidades estragadas. Inferno.

Desci do táxi sem saber porque direito estava ali, com uma curiosidade idiota e certo rancor da Clara, de mim mesma. Sei lá. Tudo o que eu não precisava era de outra pessoa que me influenciasse assim, que me tirasse do sério, me desvirtuasse o caminho. Não neste nível. Já me bastara o tempo que perdi correndo atrás da Mia. E, convenhamos, nossa história não era das melhores. Entrei na balada incomodada com a impossibilidade de voltar atrás. Mas entrei, embarquei na minha própria decisão, e dane-se.

Nem cinco minutos procurando-a. E a Clara estava lá, linda. Os shorts minúsculos, os cabelos morenos soltos. A camiseta branca vintage do Lynyrd Skynyrd, um cinto marrom largo, as pernas maravilhosas de fora e com um par de uggs, uma delas apoiada contra a parede. Tinha uma cerveja em mãos, estava conversando com um amigo e ainda sem me notar. A três metros, no máximo. Me arrependi de ter ido, merda, por um instante, agora que a via parada ali e dava-me conta do que eu estava fazendo.

Esta garota. Aquilo era uma péssima – ainda que maravilhosa, esplêndida, inegavelmente tentadora – idéia; e eu sabia. Ela sorriu ao me ver aproximar, caminhando na sua direção. Toda magnífica, argh. O amigo cumprimentou-me com a cabeça, brevemente, assim que me reparou ali. “Você veio!”, ela se surpreendeu. Estava animada. Cumprimentei-os de volta com um meio-sorriso, bem menos empolgado, e fui pro bar logo em seguida. Não sentia vontade alguma de ser bem educada, não assim.

Encarei o cara do outro lado como se estivesse prestes a cometer um erro muito grande. Respirei fundo e apoiei as mãos no balcão, séria. Pedi-lhe uma dose de whisky com energético e poucos segundos depois, a Clara parou ao meu lado, encostando com a lateral do corpo na parede. Não lhe disse nada, sequer a olhei. Pediu algo também para si, uma cuba libre, acho; e me encarou, genuinamente contente por eu estar ali. Tarde demais para voltar agora. Dei o primeiro gole, conformada. Tentava entender, na minha cabeça bagunçada, o que diabos eu estava fazendo lá.

_Você foi uma babaca comigo... – disse então, quebrando o silêncio e colocando o copo de volta ao balcão, aí a encarei com calma – ...sabia?!
_Eu... – ela me olhou surpresa, apagando imediatamente o sorriso da cara e voltando-se também de frente à bancada, constrangida, apoiando os braços da mesma forma – ...eu sei.
_E eu não deveria estar aqui – prossegui, ignorando-a já com o copo novamente em mãos, e enrolei antes de dar mais um gole –, mas estou. Agora eu é que vou ser uma imbecil completa com outra pessoa.

Ficamos em silêncio. Era verdade. Dei outro gole – agora que eu já estava lá, parada ao lado dela, sentia-me frustrada e irritada ao mesmo tempo. Enfiada numa merda de uma balada lotada e escura, mal ouvindo a minha própria voz. Argh, puta merda. Eu tinha umas também, como diria a minha mãe, que às vezes pareciam duas. Uma capacidade fora do normal de me arranjar problema para a cabeça, maldição.

_Você não precisa ser... – comentou.
_Pois é – suspirei, estranhamente concordando com ela –, não “precisava”, né.

Aí me dei conta, não é culpa da Clara. Passei as mãos na cabeça, internamente revoltada com a minha babaquice inesgotável. Aquilo era demais, até mesmo para mim. Eu não tenho um puto de moral, porra. A Clara não tinha nada a ver com aquilo, eu tinha. E aceitar isto me doeu como nunca antes. Por livre e espontânea decisão, engoli seco. Parte de mim não podia acreditar que eu havia, de fato, largado a Patti sozinha a três quarteirões da minha própria casa.

_Mas você veio... – a Clara segurou um sorriso e me olhou.

Tá, ok. E agora o quê, esperteza? Não havia planejado esta parte do meu grande e impactante discurso. Era só isto, todo o meu argumento e que sequer parecia se estender mais a ela. Observei-a, me olhando de volta, os olhos serenos e amendoados, castanhos. Senti a curiosidade voltar, aos poucos. Como uma coceirinha, dessas sutis, que não incomodam tanto. Merda. A desgraçada da Clara ainda conseguia, com sua pinta filha-da-mãe de argentina, se inocentar de qualquer erro seu por mera existência num mesmo local que eu.

Ô droga, viu.
 
Bem no fundo, eu guardava uma amargura terrível dela. Por meses, dentro em mim – e ofuscada, de certa forma, pelo que eu sentia pela Mia na época. Mas estava ali, imersa. Fazendo par agora com a raiva que eu sentia de mim mesma, claro. O meu peito pesava, a respiração seguia acelerada. Encarei-a com certa grosseria, numa atitude inevitavelmente transparente. Cara... Como odiava garotas que me intrigavam assim, que me atraíam sem esforço algum. Contra todas as boas razões para eu não estar lá.

“É, vim...”, respondi irritada e num impulso contínuo, empurrei-a contra a parede cool da Hot Hot, em estampas psicodélicas. Apertei-a com o meu corpo, violentamente, num dos beijos mais rancorosos que já dei numa garota. Ah, foda-se também.