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julho 28, 2011

Ah, uns 4 meses...

Debruçou-se sobre o sofá da sala. As mechas castanho claro do seu cabelo esparramaram-se nas páginas, as que eu estava lendo, de uma revista Trip antiga e atrapalharam a minha leitura. Senti, então, os seus braços me envolverem, ao redor do meu pescoço, me inclinando de leve para a sua direção. Deu-me um selinho, demorado, e eu suspirei incomodada, voltando a ler logo em seguida, sem interesse nenhum naquilo. Ela se levantou de cima do encosto, já sem graça com a minha apatia. Então abaixou-se para pegar a bolsa que havia largado atrás do sofá, murmurou duas ou três palavras desajeitadas de despedida para mim e aí saiu. O Fer vinha andando pelo corredor, conforme ela passava, e parou por um segundo, observando-a.

_Quem era essa?! – me perguntou, confuso, assim que a porta fechou.
_Sei lá, amiga da Lê... Conheci ontem lá no bar da Alôca – respondi, desatenta, folheando as páginas da Trip –, puta mina mala do caralho.
_Se a mina é uma puta mala do caralho que diabos ela tava fazendo na nossa sala? – ele riu.
_Meu, na boa, não enche...

Ajeitei-me no sofá. A minha cabeça estava explodindo, só para não perder o costume dos últimos meses, numa ressaca violenta. Estava lendo uma reportagem longa demais, em um fundo branco demais, com um fotógrafo gringo mais do que inspirador. Cogitara mudar de emprego algumas vezes naquela semana, aliás; estava entediada até a morte naquele estúdio na Vila Madalena e não vinha me dando bem com o meu chefe. Cheguei até a dar umas sondadas em território alheio. Contudo, sabia que seria difícil achar quem agüentasse os meus atrasos e toda aquela minha ineficiência nas manhãs pós-balada, recorrentes a cada vez que eu resolvia passar a noite enchendo a cara na Augusta ou comendo alguma garota. O que, nos últimos tempos, era quase praxe.

A da noite anterior nem eu podia explicar, estava bêbada ao extremo e acabei influenciada pela Lê, que me empurrou a amiga insistentemente como se fosse o pedaço de pizza que sobrou na caixa. E que eu, claro, acabei comendo. Argh. Não suportava a voz dela. Suportava menos ainda aquele cu doce todo na cama; os joguinhos bobos de garota mimada; o seu jeito lento de mover os lábios para falar, para me beijar, para qualquer coisa... Recordei-me com desgosto, tirando o cabelo do rosto enquanto seguia lendo. Eu só ia até o fim nesses lances – e isto inclui a revista e as meninas em minhas mãos – porque não tinha nada melhor para fazer. A verdade mesmo é que qualquer garota me enchia nos últimos tempos. Mesmo as ótimas.

_Amor? – ouvi a Mia de repente chamar o Fer de dentro da cozinha, aí pôs-se na porta com as mãos apoiadas no batente e uma espátula na mão.

“Amor”, hun, revirei os olhos. Voltei a focar na página branca demais da revista e as suas malditas letrinhas escuras, com certo esforço, os meus olhos se incomodavam e a minha cabeça doía agravada pela ressaca. O Fer voltou alguns passos para falar com ela – sobre o almoço ou sabe-se-lá o quê – e ficaram os dois parados, em frente à cozinha, conversando baixo. "Amor"?, a palavra persistiu no meu pensamento. Cara, como aquilo me tirava do sério... Bem tentava não prestar atenção, mas não tinha como: os dois se tornaram insuportáveis desde que voltaram. Lenga-lenga água com açúcar, argh. A Mia ria, encostada contra o batente, olhando-o cheia de luas, e eu tinha vontade de me jogar pela janela. Puta que pariu. Não tinha paciência para agüentar essas merdas. Fechei a revista e joguei-a de qualquer jeito mais adiante no sofá, automaticamente irritada.

_Vou comprar cigarro... – disse, num tom alto e meio nervosa, me levantando.

Os dois, que haviam acabado de se beijar brevemente, pausaram os cochichos. Parei em pé ao lado da mesinha de centro, pegando o meu dinheiro sobre ela, e contei as cédulas necessárias. Olhei para frente, na direção deles, e a Mia me observava incômoda. A encarei de volta sem hesitar por um segundo, quieta na minha, olhando bem nos seus olhos, enquanto guardava o troco no bolso da calça – não tinha mais paciência nenhuma para ela, nem medo de encará-la. Peguei minhas chaves e dei o fora dali, de saco cheio. E ela ficou lá, idiota, me olhando sair.

Você ainda se acha importante demais para mim, não é, presumi em pensamento, revoltada, conforme descia no elevador. A real é que eu sequer pensava na Mia nos últimos dois ou três meses – a não ser que fosse obrigada, como naquela tarde. E mesmo quando me via forçada a fazê-lo, era diferente; o sentimento havia mudado. Deixou de ser ciúmes, de ser aquela atenção involuntária desgraçada, e passou a ser um rancor autodefensivo. Agora eu detestava tudo o que envolvia a porra do seu nome, da sua presença, e por mais estranho que seja, eu estava bem assim. Me incomodava, na verdade, era ter que encontrá-la vez ou outra deslizando atrás do Fer pelos cantos do meu apartamento. Mas até aí, não é, eu já estava acostumada. De outros carnavais até mais infernais. O nosso relacionamento agora inexistia. E, digo, por completo – transparecendo, no máximo, certa grosseria nos dias em que eu estava estressada com qualquer outra coisa. Mas sempre nas entrelinhas, não nos falávamos. Ela? Ela podia me olhar o quanto quisesse. Eu não estava nem aí. Não me importava mais com aquele drama de merda e não estava interessada no que ela pensava a respeito, não estava mesmo.

Saí na calçada e atravessei a rua, indo comprar cigarro na banca em frente. O meu celular tocou, puxei-o do bolso e vi um número esquisito. Atendi enquanto pagava pelo maço, com o aparelho pressionado entre o rosto e o ombro, pegando o troco e colocando-o na calça. Era um dos lugares para o qual eu estava cogitando trabalhar, o Gabriel havia feito a ponte como um favor para mim. A garota do outro lado da linha parecia ter em torno da minha idade e soava realmente interessada, com meu currículo em mãos. Duvidei que fosse a dona do lugar – e, de fato, não o era. A haviam pedido para ligar para mim e marcar uma entrevista na terça-feira. Ótimo, sorri e tirei o cigarro da boca, falando com ela pelo celular enquanto subia a Frei Caneca em direção à Paulista.

Desliguei o telefone, minutos depois, me sentindo bem. Aquilo me enchia de novas perspectivas e eu gostava disso, há muito tempo não me sentia assim. Quis ligar para os meus pais – em particular o meu velho – na mesma hora para contar, pois certamente apreciariam ouvi-lo, mas não quis me antecipar demais. Eu sempre me ferrava quando abria a minha boca grande antes do tempo. Senti então uma vontade imensa de contar para a Marina. Droga. Segui andando, tentando me desvencilhar daquela idéia idiota e parei sentada debaixo do MASP, rodeada por turistas da capital e garotos andando de skate na calçada. Ainda com a minha adorável ex-namorada na cabeça e os seus óculos pretinhos. Como sentia falta de tê-la na minha vida, estávamos brigadas há tempo demais... Não é, pequena? Fiquei olhando o seu nome escrito na tela do celular, chateada.

julho 24, 2011

As my mountain top

O dia anoiteceu e, então, bom, amanheceu. As horas passaram, os dias, um após o outro, sem que nada acontecesse. Os meus amigos pareciam todos se divertir com a minha nova fase. Que era a mesma que a antiga, de certa forma. Observava com curiosidade as pessoas à minha volta, felizes por mim, elogiando o meu novo estado de espírito. Engraçado como os outros se apegam ao que pressupostamente deveríamos estar fazendo com a nossa vida, isto é, quando se mora a uma quadra da Augusta e se tem um emprego infeliz que mal paga as contas. É, era exatamente isso que eu deveria estar fazendo. Me divertindo. Eu me sentia catatônica e estava, na visão de todos os meus amigos, melhor do nunca. Mais “eu” do que nunca. Pois é.

A única, ou assim parecia, que não estava contente por mim era a Marina – mas já não nos falávamos mais, não com tanta freqüência pelo menos. Acontece que eu a havia ofendido, eu e a minha boca grande, num lapso bêbado estúpido, comemorando a minha recém-conquistada liberdade, ou pseudo-liberdade amorosa, isto é, aí soltei sem querer a minha opinião, num raciocínio besta e injustificável, comparei os nossos momentos e detonei o seu relacionamento com essa garota, não é mesmo, que ela ama, a que escolheu para ser sua, a tal da Bia, sapatão de merda, por pura mesquinharia de ex-namorada que não suporta não ser mais o centro das atenções. Foi isso que ela me disse, aliás, numa briga feia e de longuíssimas horas ao telefone, dias após o incidente na Clash, quando enfim me contou o que eu havia lhe dito aquela noite. A Marina disse isso, toda parte da “mesquinharia de ex-namorada” e etc. foi ela que disse e não eu. Claro.

Talvez a Marina tivesse razão. Eu não tinha mesmo consciência do que fazia, do que destruía pelo caminho. Talvez eu só fosse. Fosse indo e indo, meio sem direção. “Perdida nos meus objetivos”, ela disse, que se dane. Afinal, que porra eu deveria estar fazendo com 20 e tantos anos, senão achando que isso é vida para mim? É a minha vida, caralho. Cara, eu me irritava demais com a Marina. Ela se achava a minha mãe. Ou sei lá o que ela se acha... No fundo, eu sentia uma saudades tremenda dela. Toda vez que brigávamos, seja pelo que fosse. Tudo isso e ainda por cima por uma mentira.

Porque, não, eu não estava livre da Mia naquela noite. Mas também não estava pronta para admitir. Isto veio com o tempo – a autoconfissão e depois a minha estranha liberdade. E, cômico, não é, quanto mais o meu coração ganhava metros, metros e mais metros, quilômetros até, de distância do que um dia fora lugar da Mia; mais e mais ela encontrava caminhos de volta para o Fernando. Aos poucos, pelas rupturas e pequenas frestas esquecidas na sua consciência, na fraqueza do seu corpo e de todo o resto. Um olhar carregado de sentimentos deixados no passado; um toque, mesmo que sem intenções; um baseado aceso e aí dividido; um CD inteiro meu dos Velvets rodando repetidamente na sala; e de repente ele amolecia. Ou, ao menos, era assim que ele me contava. No dia seguinte, intrigado com si mesmo, na cozinha.

“Sometimes I feel so happy...
Sometimes I feel so sad...
Sometimes I feel so happy...
But mostly you just make me mad.
Baby, you just make me mad...”

É. Ela ia conseguindo e eu, bom, também.

“Linger on... your pale blue eyes.
Linger on… your pale blue eyes.”

Não era bonito. Tornei-me o cúmulo do que sempre fui. Skip a life completely, stuff it in a cup. Ao menos quando deixava de ligar, entende, quando já não me importava mais. Com quem ou com quantas, foda-se. Down for you is up. Tornei-me com excelência a mestra da conversa fiada, noite após noite – e a rainha da grosseria na manhã e dias seguintes, é claro. It was good what we did yesterday and I'd do it once again. Estava inerte, imprestável. The fact that you are married, only proves... De uma forma bem pouco vantajosa para o meu fígado e as partes restantes. ...you’re my best friend. Estava intragável e o estava para todo mundo. Minha confusão era tão silenciosa – ...but it's truly... –, tão tranqüila dentro de mim – ...truly a sin... –, que já não incomodava mais. E as semanas se passaram.

julho 09, 2011

Meio culpada, meio Cupido

É, era tudo o que eu precisava. Puta merda, viu. A Marina brava comigo, excelente mesmo! Cruzei os braços e encostei contra o banco, de cara fechada, ainda com um dos tênis desamarrados sobre o painel. TPM dos infernos!, pensei, começando a achar que ter ficado com a fulaninha ruiva talvez tivesse sido melhor do que aquela situação com a minha ex-namorada. Maldição, não me deixam em paz, porra. Tá tudo sempre ruim, tá tudo sempre uma merda, não importa o que eu faça, caralho... mas que droga, lamentei comigo mesma.

_Não vai falar mesmo? – virei o rosto para ela, após alguns minutos.
_...
_Tá bom, Marina – suspirei, tirando o celular do bolso, enquanto ele apitava escandalosamente – faz como você quiser.

Abri minha caixa de mensagens e lá estava, um recado da ruivinha daquela manhã – e, pelas minhas contas, da madrugada anterior também. “Adorei te conhecer, rs”. Quer dizer, é assim que as pessoas “se conhecem” agora, achei graça por um instante e ri. Aí me senti uma cretina, claro. Desliguei o celular sem responder, enfiando-o de volta no bolso e me ajeitei mais uma vez no banco. A Marina me olhou rapidamente e pouco depois parou com o carro no semáforo, antes do sinal amarelo se tornar vermelho. Já estávamos perto de casa, em Jardins.

_Meu, o que deu em você? – persisti estupidamente, um tanto curiosa.
_Dá para cortar o assunto?! Chega, meu. Não é nada... – ela se incomodou – ...você estava bêbada, aliás bem bêbada, nota-se, e eu não preciso reviver aqueles dez minutos lamentáveis da nossa amizade. A propósito, não sei nem porque vim até aqui te buscar na casa aí da... sei lá quem era dessa vez.
_Ah, é esse o problema agora?! Má, é só me falar, porra, não precisa vir me buscar. Eu te liguei porque... sei lá... porque eu confio em você, porque é pra você que eu ligo sempre, pelo menos ultimamente. Mas se não queria vir, não vem, pô! – me desculpei, sendo sincera – se eu soubesse que ia te incomodar tanto, nem tinha nem ligado!
_Não é isso. É so que é, né, é engraçado... – ela se lamentou, dirigindo, olhando para frente – ...cinco anos atrás eu estava aí sofrendo por causa desse seu comportamento egoísta e, hoje, eu estou indo te buscar na porta.
_Cara, você não precisa fazer isso... – me senti mal, merda, e a olhei com carinho – por que você vem, meu?
_Porque, bom... – ela estacionou em frente ao meu prédio e se dobrou na minha frente, abrindo a porta do meu lado, já praticamente me expulsando do carro – ...porque você é tipo uma criança, sabe... – prosseguiu, com certa ironia, mas sem maldade – ...que a gente precisa pegar na mão e mostrar o que está fazendo de certo e de errado; que não sabe o que quer da vida; não sabe se relacionar com ninguém; não aprende nunca a beber; e definitivamente ainda não entendeu pra que serve um aparelho celular.
_Você está sendo cretina de propósito, Marina...
_Não, eu só não estou com paciência para lidar com você hoje. Vai, tchau... sai, sai!

Revirei os olhos mais uma vez, sem acreditar naquilo, e desci do carro de mau humor. Fechei a porta e assisti a Marina se afastar pela quadra seguinte da Frei Caneca, conforme acendia um cigarro. Subi minutos depois pelo elevador do prédio e cheguei ao apartamento estranhando a posição das coisas; parecia que havíamos sido assaltados por um bando incompetente de ladrões. Entrei na cozinha para pegar um copo d’água – precisaria de uns cem daqueles ao longo do dia – e o Fernando acordou com o barulho. Ele estava capotado numa das cadeiras da cozinha, com o rosto grudado na mesa e as roupas do dia anterior, acompanhado apenas por uma das mãos em cima da tábua, enquanto a outra pendia para baixo junto ao seu corpo.

_Você dormiu aí, ô pamonha?! – eu ri.
_Não... não... dormi não... – disse acordando, puta mentira deslavada.
_Sei – ergui a sobrancelha, sem acreditar nele.
_Como foi lá? – perguntou, esfregando um dos olhos, com sono – Comeu?!
_Ao que tudo indica... e você? Achou alguém lá?
_Nahhh... – levantou os braços, se espreguiçando – ...peguei umas, mas sei lá, tava meio bicha. Fiquei pensando na Mia, manja, depois que a gente conversou, fiquei bodiado.
_Espera... – o meu coração pulou uma batida, mas que inferno, me esforcei para não dar bandeira – ...você... você conversou com a Mia ontem?!?
_Não, idiota! – ele achou graça – A conversa que eu tive com você.
_Ah, tá...

...porque isso me faz sentir “tão” melhor, não é.

_Aí, não sei, nem quis trazer ninguém pra cá. Me senti meio mal, mas, né... tenho você para viver os meus sonhos! – ele riu, brincando – conta aí, meu, o que achou da ruiva?!
_Ah, sei lá, não achei nada... – disse, desanimada, terminando a minha água e colocando o copo na pia – ...normal.
_Só isso?!? – ele me encarou, rindo, sem entender e eu quis sair logo dali, de perto dele e da merda da sua vida amorosa – Que é... não foi bom, porra?!
_Ah, Fernando, não enche...

Incertos arrependimentos

_Não tinha um lugar mais longe? – a Marina suspirou, assim que eu entrei no carro.
_Desculpa, linda.
_Desencana...

Entrei no carro e fechei a porta. A expressão na cara da Marina não era lá das melhores, o dia estava silencioso e ensolarado; eu me sentia um tanto culpada. Começamos a andar.  Uma música da Martina tocava baixinho no rádio, quase esquecida ali. Algo como thought I was in love... tell me, was I wrong?, ressoando de leve em seguida uma frase que não consegui entender. Acomodei a minha cabeça um pouco para trás, entre o encosto e a janela. Fiquei ali por alguns segundos, mas não muito. O clima me incomodava. Quis dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas não sabia o quê.

_Ah! Falei com a Mia ontem...
_Hmm... é mesmo? – ela me respondeu, como se não tivesse interesse.
_É, a gente... – estranhei a reação da Marina – ...quer dizer, eu... eu disse que não queria mais passar por aquilo e que el...
_Ahn...
_Enfim... – continuei, meio relutante em continuar a conversa – ...aí fiz o que... você tinha, né, me dito. Eu... falei com o Fer e a gente... saiu, ontem.
_Uhn, que bom...
_Meu, eu nem... nem, sei lá... – comecei a me justificar, ignorando a atitude da Marina e sentindo uma ressaca desgraçada; fui tagarelando e apoiei os meus pés no painel – ...sabe, não pensei na hora. Fomos na Clash lá e, meu, tava lotadásso, daí eu me perdi do Fer e, nossa, mano... bebi, mas assim, bebi pra caralho, pra caralho mesmo, e aí essa mina t...
_Olha, na boa... eu não quero saber – ela me cortou, de vez, sem o menor humor.
_Nossa... Tá, então.

Fiquei em silêncio, olhando-a. Ela seguiu dirigindo quieta pela Salim Maluf; a cidade estava vazia, todos os paulistanos em suas respectivas casas, em pleno almoço de domingo. O clima ali por dentro, contudo, continuava estranho. Senti um desconforto, um peso esquisito na consciência. Qual é, meu? Às vezes, eu não entendia porque a Marina se submetia ao que claramente não queria fazer. Aquilo me perturbava. Me diz não, porra!, pensei indignada. Toda essa disponibilidade dela me incomodava, principalmente porque eu não me confiava o suficiente para não abusar da sua boa vontade. E sempre acabava por fazê-lo.

_Tá tudo bem, Má? – perguntei baixinho, depois de um tempo, insistindo estupidamente numa conversa que eu sequer queria ter.
_Tá. Só não... – suspirou – ...não começa.
_“Não começa” o quê? Cara, o que eu fiz?! – levantei o tom de voz na mesma hora, ofendida, e ela me encarou sem querer ter que me explicar – olha, não sei o que deu em você...
_Meu, você é inacreditável... – balançou a cabeça.
_O quê?! Que que eu fiz??
_Nada.

“Nada”. Mano, mulher é foda... Me dá vontade de, argh. Revirei os olhos, inquieta. Fico de boa e ela vai lá me tirar de casa, faz a maior ceninha, briga comigo, comecei a reclamar mentalmente, aí faço o que ela quer, saio, esqueço a porra da Mia, encho a cara, me divirto, fico de boa com o Fer e ela não quer ouvir... lindo! Encarei o vidro, observando quadra após quadra paulistana pela janela, num bairro não lá muito bonito. Me sentia inconformada. Ela não dizia nada e eu também não.

_Tudo bem, então. Vou ficar quieta... – provoquei, depois de um tempo.
_Você nem lembra do que me disse, né?! – ela continuou a conversa, agora brava, é óbvio.
_Quê?!?!
_Ontem. Você lembra do que me disse ontem? Hein?!
_Ah, Marina, pelo amor de deus... – me irritei com o ar de seriedade dela – ...meu, eu tava bêbada! E no meio da balada. Você acha que eu vou lembrar, porra?!?
_Não. Claro que não vai, né... – murmurou, revirando os olhos.
_O quê? O quê, hein?! O que eu disse?!
_Nada.
_Fala, meu, que saco! O que foi?? Eu disse alguma merda?!
_Não, não disse. Você não disse nada... – encerrou o assunto, sem paciência comigo.