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março 25, 2012

Nove-décimos

Escorreguei o tênis de leve para a esquerda, alinhando a borda do meu All Star à sombra do assento que eu ocupava. O metrô corria silencioso. A próxima parada seria a primeira de duas curtas estações que separavam a produtora onde trabalhava das redondezas do meu apartamento. Um garotinho hiperativo – como eu também, na sua idade, fora – importunava uma cearense cansada que estava sentada ao meu lado, enchendo quem presumi ser sua mãe de perguntas. Observei-o e sorri por um instante. Ele passou a prestar atenção no que eu fazia com os pés. Não o olhei mais; tentava há horas apagar a conversa com a Mia da minha cabeça.

Num vagão, onze ou doze pessoas dividiam os bancos disponíveis em excesso para o horário. 20:03. Estou saindo tarde demais de lá, todo dia. Passei a mão no rosto e apoiei novamente no encosto, já um tanto largada. As portas se abriram e os passageiros do Trianon-MASP entraram. Monotonia absoluta. Por que eu ainda a machuco assim?, me arrependi. Desde que a Mia e eu resolvêramos falar “sinceridades” uma à outra, tudo parecia estar tão acumulado e de tal forma dentro de nós que cada conversa culminava em uma verdadeira catástrofe. E eu bem gostaria de culpar o beijo da festa pelos ânimos agitados, mas a verdade é que estávamos nesta desde a noite do pôquer. E a merda de garota só viera depois.

Inferno. Apoiei os antebraços brevemente sobre as coxas, curvada para a frente, e em seguida tornei a me encostar inquieta contra o banco. Pára de pensar na Mia, porra. Soltei o ar e olhei para frente – uma garota estava sentada fileiras adiante, numa cadeira. Ela tinha os olhos castanho-esverdeados e uma das laterais da cabeça raspada, como muitas que andavam na Augusta. O cabelo moreno caía liso, com leves curvas, do lado oposto. A observei por algum tempo sem qualquer intenção, o seu olhar distraído na janela, e então abaixei a cabeça. Tornei a olhar para as sombras no chão. Ajeitava os meus tênis, paralelamente.

O autofalante então anunciou: “Próxima estação. Consolação.” As pessoas começaram a se aglomerar nas portas, mudando a distribuição do vagão. A garota também se levantou. Poucos instantes depois surgia, do lado de fora e bem-iluminada, a plataforma que eu frequentava diariamente. Os novos passageiros esperavam em pé atrás da linha amarela. Parada brusca, portas abertas. O movimento intenso durou por alguns segundos. E logo fecharam-se novamente. Eu, por algum motivo, porém, não desci. Continuei na linha, atrás de sabe lá o quê.

Restavam menos pessoas no vagão. O garotinho também descera, quase todos da primeira viagem. Senti que precisava ver a Clara; tinha um sentimento estranho, não sei. A direção era aquela – continuei até a estação mais próxima do seu prédio e saltei, como se aquele fosse (o tempo todo) meu destino. Tomei um táxi na rua. O céu ameaçava com nuvens de chuva, cheguei bastante rápido e o porteiro me reconheceu, deixando que eu subisse. Mal toquei a campainha, anunciada certamente por ele, e ela atendeu. Estava bem-arrumada, os cabelos soltos e os ombros de fora numa bata hippie chic branca. Era estranho que eu estivesse ali, sem avisar; mais ainda tendo a visto ainda naquela manhã.

_O que você está fazendo aqui? – me perguntou desconfiada, sorrindo.
_Não sei. Eu... – passei as mãos no rosto, percebendo só então a tamanha idiotice em me encontrar ali de repente – ...não sei, desculpa! – ri.
_Eu tô jantando com uma amiga – ela riu também, realmente linda –, quer entrar?
_Não, meu, eu... eu já vou.

Excelente. Agora ela pensa que eu sou louca, psicopata! Me detestei em frente à sua porta, parada no corredor. Maldição! Era só o que eu precisava agora. Mas, não... espera, que amiga?! Fiquei em silêncio, não indo por alguns instantes. Ciúmes. Ela me olhava sem entender nada – e eu só podia estar desregulada mesmo; qual era o meu problema? Me deixar tomar por uma babaquice destas! Me preparei para sair, objetivando ignorar a dúvida na minha mente, mas então mudei de ideia e me aproximei, dando-lhe um beijo sem motivo algum. Dos intensos, demorados. Senti uma melancolia tomar conta de mim.

_Está tudo bem? – ela riu, ao final.
_Eu não sei, talvez.
_Bo?
_Eu... sabe, eu gosto mesmo de você – confessei e ela me olhou um tanto feliz, um tanto confusa com a declaração inesperada – e eu, sei lá, não sou boa nisso. Mas, enfim, só achei que você devia saber...

Saber, entende, a diferença que me faz. Ela sorriu, lhe disse um “garota” no fim e ela gostava disto. Me beijou num abraço carinhoso antes de fechar a porta – e voltou, sem admitir porém, mais feliz para o seu jantar. Andei para o elevador, ainda assim, com um incômodo dentro do corpo. Era a certeza que me desviara do caminho, que me fizera ir vê-la naquela noite. De que as coisas, agora, mudariam entre nós. Comigo, com a Clara – e como eu não queria, cacete, que mudassem. Mas havia, dei-me conta, um décimo incontestável da Mia que continuava ali. E o meu humor de merda, naquele e nos últimos dias, era a prova de que eu não conseguia ignorar.

março 24, 2012

[ OST 4! ♥ ]


ESTÁ NO AR! A 4ª trilha sonora oficial do Fucking Mia.

E esta é a melhoooor até o momento! Para quem não sabe, TODAS as músicas mencionadas aqui nos posts do blog (no decorrer da história...) são lançadas de tempos em tempos para download gratuito em forma de CDs. A organização/catálogo das OST's e incrível dedicação para disponibilizar o download, montar o Tumblr etc. é da minha amiga Tate Montenegro (a gênia das mixtapes do "
Fuck Art, Let's Dance!"). E a arte linda de morrer da capa é produzida por uma das leitoras, a Marcella de Oliveira! ♥


DOWNLOAD E TRILHAS:

março 22, 2012

O que me importa

_Eu... eu não quis, merda! – ela sussurrou para si própria, arrependida – Escuta, eu acho que a gente tem que... se encontrar... conversar, não sei...
_Mano, eu não tenho nada pra falar com você.
_Não faz isto! – implorou – eu não quis dizer nada disto! Não era pra, não era pra nada disto ter nem acontecido. Esta conversa, que... que saco! Eu... olha, eu... eu queria tanto, tanto só... só conversar direito com você. Eu tô me sentindo... não sei, eu... – interrompeu, já ofegante e confusa.
_Não, não. É exatamente isto. E é exatamente como você disse... é isto. É isto! Sempre foi isto na, na porra da sua cabeça! – me enrosquei nas palavras, a minha respiração se atropelava; e o meu coração apertou ainda mais – É isto, sabe... sou eu, sempre fui eu. A culpa desta merda toda é... é minha. Inteira minha! – ri, nervosa – Eu é que sou louca, não é, Mia, e que fui enxergar o que não estava lá! Eu! Eu que te seduzi, que te encantei, que coloquei ideia na sua cabeça, que te fiz fazer tudo aquilo e você não tem nada a ver com isto... NADA, não é?! – o jornaleiro da banca em frente me olhava como se eu fosse uma descontrolada, gritando toda desnorteada ao telefone – Fui eu. Eu que decidi me apaixonar por você e que me coloquei nesta merda desta situação. Eu! – senti as lágrimas engasgarem na minha garganta, mas as engoli, com raiva – Cara, se... se é isto mesmo que você... que você pensa que... que aconteceu. Entre a gente, meu. Na boa... vai à merda! Vai à merda e não volta mais, nunca mais. Some. Porra, Mia!! Sério MESMO?!
_Não é isto! Não! – se desesperou, contestada – Não é nada disto!! Eu...
_Olha, Mia, o que você está sentindo por mim agora – a interrompi, num tom mais baixo e frio e racional – não é... não é mesmo, não é amor. Não é carinho, não é saudade, respeito... – me convenci, ainda relutante, conforme falava aquelas palavras – ...é só rejeição. É desespero e nada além disto. Desespero, entende, por não ter mais a porra da minha atenção, por viver a sua porcaria de vida, por não saber o que fazer com a merda do seu relacionamento. É isto! É só isto que é... e eu, eu acho desprezível.
_Não, não é!! Por favor, me escuta... não é isto!!
_Eu estou pouco me fodendo pro que é, garota! – me estressei; por dentro o meu coração partia, ouvindo-a soluçar do outro lado da linha – Você guarde suas merdas pra você mesma, eu não me importo mais... eu nunca devia ter te tocado, nunca devia ter olhado na sua direção. Ontem menos ainda! – atravessei a rua de volta, prestes a acabar com aquilo – Fica longe de mim. Você e as suas amigas. Eu não quero mais saber!
_Por que você está fazendo isto?? Não é nada, NADA disto!! Eu... eu só... – ela chorava continuamente, completamente exposta e eu sabia; sabia que nada do que eu estava lhe dizendo era, de fato, verdade e sabia o quanto acreditava nos seus sentimentos e nas suas palavras, agora tão mais claras e mais sinceras; sabia que havia parte de mim nela e, principalmente, parte dela em mim; puta merda... como eu sabia!; todavia sentia o meu peito prestes a explodir de raiva, de frustração por ter que ouvir que nada daquilo era culpa sua, que fora eu quem procurara aquele sofrimento para mim mesma; que todo aquele caos fui eu quem induzi e conduzi; quem diabos ela pensa que é para bancar a vítima, a esta altura? – ...eu fui lá na – ela continuou –, na Mi hoje porque eu... eu não aguentava mais. Eu, eu não consigo parar de, de pensar em você... eu, não sei, eu só... eu só não queria que fosse assim, não qu... ontem à noite, eu...

E antes que ela pudesse terminar, eu desliguei o telefone. Numa estupidez incorrigível, tudo bem, e da qual eu certamente me arrependeria depois – afogada em litros de rum madrugada afora, muito provavelmente na cozinha do apartamento. Mas que se dane! Podia ouvir a voz da Marina me dizendo, como muitas vezes antes dissera, que “ausência de amor não significa raiva, significa indiferença; e ter ódio assim, flor, são sempre restos de amor”. Retirei o volume das chamadas e entrei de novo na produtora, colocando o celular – e todos os meus problemas – no bolso.

Petulância de uns

Tudo. Tudo o que eu já fizera para a Mia passou em flashes pela minha cabeça, sucessivamente. Como ela pode saber? Ela... ela não teria contado. Ou teria? – e se contou, o quanto esta garota sabe? A verdade é que nenhuma destas perguntas era importante. Porque alguma coisa ela sabia. Isto era inegável – caso contrário, não teria ligado e, caso contrário, não teria me dito o que disse. Não me cabia mais desconversar nada. Nada. E presumi, portanto, que sabia de tudo. Deixando conseqüentemente que o meu temperamento, que nunca fora lá dos mais pacientes, respondesse por mim:

_Michelle, né? Escuta, eu não sei como você conseguiu o meu número, garota... – tirei o cigarro já quase terminado da boca, soltando a fumaça no ar – ...mas não é da sua conta o que eu faço.
_Não, é sim. Você não pode simplesmente fazer o que quiser e “foda-se”. Não pode, meu! Não é assim que funciona. Não comigo, não com amiga minha – insistiu, ainda com a voz firme.
_Na boa, eu acho que a Mia é capaz de falar por si própria.
_Não! É aí que você se engana... Ela não é. Lógico que não é! Ela... Ela te, te venera, sei lá! Ela nunca falaria nada, meu... você não percebe isto?! O QUANTO isto é difícil pra ela?? – não; e quem é você pra vir me falar, porra?! – Ela, meu, ela chegou... chorando aqui, hoje, na minha casa. Eu achei que ela fosse ter um treco! Que ela não fosse agüentar, juro, de tanto que ela chorava e chorava! E, cara, ela não pode falar com... com ninguém sobre isto, com o Fer, com a mãe, com nenhuma das amigas. Ela tá muito mal! – me deixa em paz, mano, eu não tenho mais nada a ver com isto! – Você, meu, você tem alguma IDEIA do que faz a ela?! Do que você fez... este tempo todo, e continua... – pausou; senti o ódio no seu silêncio – ...fazendo?
_Olha aqui, eu...
_Você está acabando com ela! É isto que você está fazendo... acabando, cara! Deliberadamente!!

Ah, não.

_Meu, e o que você sabe?! Hein?!?! – me revoltei de repente com a sua presunção, me acusando daquele jeito, e já subi o tom de voz – Você acha que pode me ligar e falar um monte de merda?! Você não tem a mínima noção do que se passa comigo e com a Mia!!
_Eu sei o que eu VEJO! O que eu vejo quase todos os dias, nestas últimas semanas... é ISTO que eu sei! Sabe, é ver minha amiga chegar na droga da faculdade sem ânimo e ouvir ela falar sobre você e você e você... e as babaquices que você faz com ela!!
_Olha, desculpa, mas eu não preciso ouvir esta merda.

Desliguei o telefone – ela ultrapassara a linha há muito tempo. Eu estava de repente confusa e puta da vida; andava de um lado para o outro na calçada frente à produtora. Nunca ninguém do lado da Mia me confrontara. A audácia daquela garota, mas sobretudo a interrupção de uma tarde que potencialmente teria transcorrido normalmente, me tirou de repente do sério. Quem ela pensa que é? Deslizei e cravei os dedos na cabeça, e quem diabos sabe sobre ontem?! Com quem mais a Mia fala sobre mim? Quem já...?

Argh.

A minha respiração acelerou, exagerada – como tudo que envolvia a Mia na minha vida, me entalando o coração à boca. E aquela proteção toda, de repente?! Aquela assistência voluntária, intromissão de merda em defesa da amiga, sem nem saber de porra nenhuma dos fatos. Tudo isto me irritava profundamente. Podia sentir o meu autocontrole se perder e surgir uma vontade cretina de ligar para a Mia, de lhe dizer tudo aquilo, de descarregar. Joguei o cigarro fora na sarjeta imunda da região da Paulista. Refleti. Não, melhor deixar para lá. Andei quatro ou cinco passos de volta à porta da produtora. E aí voltei, no mesmo instante, com raiva. Digitei o seu número sem pensar, atravessando a rua, e esperei tocar.

_Fala... – atendeu o celular, num suspiro hesitante.
_Então, é assim, né... – já fui a acusando e ri, nervosa – ...agora você põe suas amigas pra me ligar e me dizer bosta?! Sério mesmo que você vai querer jogar ESTE jogo?
_Eu nã... – ela se surpreendeu e atrapalhou um pouco para responder; a voz rouca como se, de fato, tivesse chorado a tarde toda – ...eu pedi para, para ela não te ligar. Eu... me, me desculpa.
_Como diabos esta garota tem meu telefone, Mia, porra?!?
_Eu nã... eu não... – aí respirou fundo, soando emocionalmente cansada – ...você... você precisa mesmo fazer isto?
_Eu?! E o que eu fiz?! Hein?? O que é que eu tô fazendo? – me irritei, por algum motivo sentindo-me traída – Eu tava aqui de boa, meu... trabalhando, a tarde tranquila, e vem você com esta merda?! Eu não sou obrigada, cara. Não agora, sabe... a ter que ficar ouvindo que você tá mal, que eu tenho que parar de fazer seja lá o que for que eu te faço. A ficar aqui escutando de uma fulana que não sabe PORRA NENHUMA que eu é que sou a errada nesta merda! Não sou obrigada mesmo! – ela me ouvia aumentar o tom, cada vez mais agressiva, descontando nela – Que, que merda você foi falar com esta menina, Mia, cacete? Pra quê?? Hein? A esta altura do campeonato, puta merda!! Você só pode ter bosta na cabeça!!
_E o que você queria que eu fizesse?! – ela surtou, de repente.
_Qualquer coisa menos ir falar com uma garota que não tem nada a ver com isto! Com a gente!! Com o que você tem ou teve, sei lá, comigo!!!
_Eu... eu não sabia mais o que fazer! Com quem falar!! – a sua voz desafinou, perdia o controle – Meu, como você acha que eu me sinto?!?!
_Não sei! Eu não sei! – Foda-se como você se sente! – É o grande mistério da porra da humanidade! Sabe... Eu nunca soube, porque você nunca me falou, Mia!!

Pude ouvir as suas lágrimas voltarem, do outro lado da linha, de uma só vez.

_Eu me sinto um LIXO! É assim que eu me sinto!! – gritou – É isso que você quer ouvir?? Então aí está: eu me sinto um lixo. Me sinto um, um NADA pra você! E confusa e, e insegura e presa nesta merda, que não sei mais nem como começou. E... e... quando eu tento te falar... você vai, vai lá... e faz o... que quer, sabe? Ontem, eu... – suspirou, interrompendo.
_Mano, e como você acha que EU me sinto?! Hein?!? Nesta história toda?! Você já parou pra pensar nisto alguma vez na sua vida?? – a acusei, aos berros.
_Não... você não, não precisa ser assim... – retomou o tom baixo, melancólico; como se o engolisse arrependida – a gente nã... não precisa... merda! Não precisa discutir assim...
_Precisa, sim. Precisa, Mia! – continuei exaltada – E vai continuar discutindo assim porque você, você parece que não entende, cara! Não entende o que eu passei, o que eu passei por você. Todo esse tempo, meu. E como foi difícil me recuperar, me livrar do que eu sentia por você. Pra vir agora e me enfiar de novo nesta merda, goela abaixo, contra a minha vontade?? E como, como você tem... coragem de falar isto pra mim?! Pra MIM?!? Que te esperei por meses?! Que só quebrei a cara por sua causa??? Vir dizer que está sofrendo, meu... ir chorar pra porra da sua amiga! Você acha que se compara?! Acha que está sentindo metade do que eu senti? Passando por um terço do que eu passei no ano passado?!? – prossegui, gesticulando ofendida, como uma louca no meio da rua – Como você acha que eu me sentia, porra?! Que nem uma idiota lá, amando alguém que nunca me deu a mínima, cacete, que nunca teve a decência de me dizer que não me queria? Mas, não, que preferia ficar fodendo com a minha cabeça e arrastando aquela porra de situação, recebendo toda a atenção, enquanto me destruía?!  Hein?!
_E isto te dá direito de fazer o que quiser comigo?! De fazer igual?? – se revoltou, subindo o seu tom no nível do meu – É assim?! Só por que você se machucou, só por que eu te magoei, você pode vir e virar a minha vida de cabeça pra baixo?! E depois simplesmente sair andando... Me, me comer na porra do banheiro só pra depois me largar lá e... e ir dormir com a droga da Clara! – ela chorava, incessante; irritada comigo; e então eu entendi o grande problema – Porra, eu estava ali do lado!! Do lado!! Você nem olhou na minha cara! Saiu andando daquele jeito e foi comer ela!! Você... meu... como você pôde fazer algo assim??
_Ah, tá! Por que você nunca fez, né?! Você nunca foi até o meu quarto e depois voltou correndo pros braços do Fer, não é?? – comecei a gritar com ela de volta, com raiva da sua hipocrisia – Todo este tempo, todas aquelas vezes, porra! Você NUNCA foi minha e eu tive que engolir, tive que sentar lá e engolir. Assistir você com ele todo santo dia, ouvir vocês rindo e trepando e brigando e conversando no quarto ao lado e o caralho a quatro sem poder falar nada... Nada!! Ah, sério, não me vem com esta agora... Nossa, não mesmo!!! ISTO você não pode falar, Mia.
_Meu! – ela se ofendeu – Você faz soar como se EU tivesse procurado tudo isto, como se eu tivesse feito alguma destas coisas de propósito, ido lá te procurar... era você, cara; VOCÊ fez isto com você mesma!
_Ah, Mia... na boa, vai à merda!

Sério mesmo?!, me indignei e senti o meu peito doer.

março 16, 2012

(a way of) Breakin' hearts

À luz do dia, tudo parecia menos complicado. E acordamos na manhã seguinte numa preguiça boa, juntas, eu e a Clara. Amassei o rosto contra o seu corpo, a sua pele morna – ainda estava cedo –, com uma indisposição imensa de me levantar ali da cama. Droga de despertador. E ela acabou se levantando antes de mim, foi se trocar para trabalhar; eu restei apagada entre os lençóis. Senti então uma mão no meu braço – ainda afundada no colchão, deitada de bruços. Movi os olhos para cima, abrindo-os com certa relutância, e vi o Fernando. Já estava com roupa de escritório, pensei o que está fazendo aqui dentro?.

_Escuta, preciso... – disse como se estivesse com pressa – ...que você deposite o aluguel hoje. Não esquece, meu!
_Uhum – murmurei.

Post-it, pra quê, né?! Você me acordou pra dizer isto mesmo?

_Tá?! Deixei minha parte em cima da mesa da cozinha, vê lá.
_Tá, tá... – virei o rosto, não enche. Voltando a dormir.

E é assim – quando você acorda uma vez, tudo bem. A sua garota sai do quarto e você re-embarca sem problemas no seu sono. Na segunda vez, no entanto, pelas mãos do seu infeliz amigo, você já perde o embalo. Dois minutos depois e, claro, lá estava o meu cérebro... ativo. Argh. Levantei a muito contragosto, me rendendo após alguns segundos. Não acredito nisto, inferno! Fui quase me arrastando até o banheiro, para escovar os dentes. Encontrei com a Clara em seguida na cozinha e, sobre a mesa, jazia o tal dinheiro do aluguel. Maldição. Meti-o no bolso da jaqueta.

_Hum, o Fer e a Mia acabaram de sair pela porta... – ela comentou, enquanto passava o café, encostada na pia – ...na boa, aquela garota tem algo contra mim.

Não perguntei por que – não sei se realmente queria ou não saber do “encontro” delas naquela manhã. Melhor não, é melhor nem pensar nisto... Sentei para comer um pão com manteiga e a Clara trouxe o café quente à mesa, logo depois saímos apressadas para trabalhar. Despedimo-nos no metrô. Um beijo e uma olhada feia de uma senhora sentada na plataforma. Cada uma foi para um lado da linha verde. Cheguei ao trabalho dez minutos adiantada, dei aquela conferida rápida na minha chefe – gata pra caralho, meu – e sentei então no computador comum da produção para checar as tarefas do dia. O restante do expediente deu-se sem grandes acontecimentos.

Mais tarde, fomos almoçar, eu e os dois colegas que conheci ainda no dia entrevista, num por quilo de uma pequena travessa da Paulista. Uma dos dois, certamente sapatão, concordava comigo no que dizia respeito às “qualidades” da chefa. Ríamos muito. Nós três éramos a panelinha colorida da empresa, ao ver dos demais. E o Renan – mais gay do que os fãs pré-adolescentes da Selena Gomez – gritava escandalizado com os nossos comentários; cada vez mais gráficos, propositalmente, a fim também de arrancar mais algumas risadas pelo caminho. Lá pelas 16h, já de volta à produtora e sem muito trabalho para uma segunda-feira normal, o meu celular tocou. Saí na rua para atender, aproveitando para levar comigo o maço de cigarros. Era a Marina, indignada – certamente depois de ler o meu SMS.

_MEU, VOCÊ FEZ O QUÊ?!?!? – gritou comigo, assim que atendi.
_Calma, calma...

Fui colocando um cigarro na boca e ri.

_Você perdeu qualquer noção de LIMITE? Do que é ACEITÁVEL?! Como você transa com a Mia, com o Fer e a Clara no mesmo apartamento?? Aliás, por que... POR QUE você foi lá comer ela, cara?!
_Eu sei, eu sei, meu... calma! Calma! Já sei de tudo isto, Má! E não é como se, também, eu tivesse planejado, né. Só... sei lá, aconteceu!
_”Aconteceu”??? – aumentou novamente o tom de voz, irritada; eu me divirtia com o escândalo que ela estava fazendo por aquilo – Sabe, imprevistos “acontecem”; chuva em Ubatuba “acontece”... mas não se entra nas calças de ninguém por, por acidente!!

Continuei rindo, entre uma tragada e outra.

_Ok. Ok... tá. Talvez você entre, afinal, já não sei mais o que pensar sobre as porcarias que você faz. Sinceramente. Você, sabe, ignora todo bom senso e vai lá e dá uma dessas, é inacreditável!
_Mas, Má, sério... Desta vez, não me arrependo, cara! – ahh, podia sentir os seus olhos revirarem do outro lado em desacordo – Olha, isto vai soar estranho, mas agora... agora eu sei, manja? Não quero, meu, não quero ficar com ela. E eu percebi isto, meu. Eu... eu curto a Clara.
_Ah é, porque ISTO nitidamente prova que você já superou a Mia... – resmungou.
_Não! Escuta... – ri – ...eu sei, sei que tenho lances pendentes com ela dentro de mim. Não estou negando isto. Só que agora, sei lá, eu... eu acordei tão bem com a Cla! Manja? Me parece burrice ir atrás da Mia de novo e eu não quero isto, meu. Não quero mais me sentir assim... é tudo muito pesado em mim.
_Ah! Falando assim parece que eu ou nenhuma outra pessoa nunca te dissemos que era burrice, né... – senti o telefone vibrar – ...talvez até faça algum sentido que vo...

Baixei o celular, olhando rapidamente o visor – com o cigarro entre os dedos.

_Linda, tenho outra ligação. Já te ligo!

Suspirou, interrompida.

Desliguei e apertei o botão para receber a segunda chamada, colocando o cigarro na boca – Alô?
_Oi – responderam – Olha, preciso falar com você.

Aquela voz era familiar. Estranhamente.

_Quem é?!
_É a Michelle – todas as Michelles com quem eu saíra me passaram pela cabeça, mas não, não é... nenhuma delas... a voz era diferente –, sou amiga da Mia. A gente se conheceu numa festa na casa dela, no ano passado. Não sei se você lembra, assistimos UFC e dormimos lá...
_Ahh... sim...

Nossa, mas isto faz um milhão de anos!, a minha mente rapidamente se confrontou com o que diabos aquela garota queria comigo e como, puta merda, havia conseguido o meu número! A resposta veio logo em seguida.

_Escuta, eu vou te dizer isto uma vez – ouvi sua voz firme, do outro lado da linha – e espero que você preste muita atenção no que vou falar: você precisa parar com isto. Agora. Com a merda toda! Você está acabando com ela.

março 11, 2012

Irascível

Entrei no quarto, furiosa. Com o foco, mil vezes droga, na merda de garota no cômodo ao lado. Que porra! Como que...? Filha da puta! A minha cabeça parecia agora explodir, acelerava numa velocidade que beirava o intolerável, tomada por um desprezo como nunca sentira antes pela Mia. Apenas por pensar que uma parte, ainda que mínima (dane-se!), de mim talvez... ainda... a, a quisesse. Argh, aquilo me era insuportável! E desencadeava tamanha revolta, interna:

Era tomada por flashes de memória – do seu toque, do seu gosto, dela; de como fora sentir de novo o seu corpo em mim. Mas eu, não, não te quero. Não quero! Os meus pensamentos se atropelavam, restavam como um verdadeiro caos, bagunçados; desmoronavam sobre mim. Digladiava, inferno, com o que acabara de acontecer. O que, o que diabos foi... isso?!, eu relutava comigo mesma. Sobretudo com os meus motivos – agora longe dos olhos da Mia. Ainda que sem ousar, nem por um segundo sequer, transparecer a dúvida que brotava desconcertante em mim.

O meu comportamento seguia imutável. Ganhava talvez agressividade – mas nunca, nunca, relutância. A minha fragilidade, esta ou qualquer, eu guardava comigo e muito bem. Em lugares que até pessoas como a Marina o eram em minha vida tinham dificuldade de achar.

_O que aconteceu?! – a Clara me perguntou firme, conforme eu caminhava impetuosa no escuro em direção da cama, onde ela estava sentada com uma perna dobrada frente ao corpo no colchão e a outra pendurada para fora, como se acordara há pouco num susto – Eu ouvi um barulho, meu! Uma porta batendo com forç...

Ah, eu não tinha cabeça para aquilo.

_Não aconteceu nada! – a interrompi, grossa – Vai, fica na sua...

Deitei num movimento ignorante ao seu lado na cama, sem necessidade; os lençóis estavam desarrumados num recém despertar dela. Sem dizer-lhe mais uma palavra sequer, apenas puxei um pedaço do lençol sobre mim e virei o corpo no lado oposto ao seu. Ela ficou em silêncio, sem reação ou vontade, por mais algum tempo; me observando no escuro. Os meus pensamentos seguiam vertiginosos – e me consumiam por dentro, maldição. Quieta, mas numa vontade louca de gritar; eu tentava conter a minha raiva, meus impulsos. Dentro do meu peito.

Como eu queria – queria! – foder com a Mia. Literalmente. Ah, queria – e queria ainda, parte de mim, fazê-la pagar pelo mal que me fez. Também. Meses a fio, por todas as noites em que me tirara o sono, por tudo o que me fizera sofrer em silêncio, pelos seus “nãos”. Todavia, era eu quem estava lá (sofrendo). Eu – e não ela. Foda-se você, meu! O meu coração acelerou ainda mais, irritado. Parecia me arrepender de cada passo que eu dava, argh, e ainda – numa recorrência autodestrutiva de merda, sem precedentes – me mostrava capaz de ser uma babaca com a única garota que tinha a decência de ser exatamente quem eu lhe pedia que fosse em minha vida. Que grande merda!

_Bi... – murmurei então, imediatamente contrariada, no escuro.

A Clara ainda me olhava, sem entender direito os meus surtos.

_Desculpa... – suspirei – ...não, não tem nada a ver com você isto – tentei me explicar, agora mansa –. Eu é que, que não conseguia dormir... sei lá. E aí fui pra cozinha, não sei, bebi um pouco... – ela me ouvia quieta, ainda levemente ressentida – Já tô meio alta já, bati a porta do banheiro... me, me desculpa... sabe, por entrar aqui assim. Eu não devia ter, ter te respondido daquele jeito...

No fundo, eu sabia. Sabia que não queria arrastá-la para o meio da confusão que era a minha droga de vida, o meu coração; para o meio de tudo aquilo. Todos temos o nosso caos particular; nem todo mundo, todavia, tem o suficiente para ser convidado a entrar. E não era justo. Independente do que ela me fizera em outras ocasiões, independente do quão nebuloso ainda fosse o nosso futuro. Não demandaria este tipo de compreensão. Não dela. Não seria justo com ninguém – e com ela eu me importava. De uma forma que não tinha qualquer lógica, e muitas vezes seguida de uma prática ainda mais distorcida, que certamente só fazia sentido dentro da minha cabeça; mas me importava.

Com a Clara, é.

E eu sabia que ainda ia exigir que perdoasse muitos destes meus momentos. Momentos como aquele. Muitas destas minhas palavras atravessadas repentinas, fora de contexto. Dos meus segredos; da parte da minha vida vivida por detrás de portas, nos cômodos ao lado; das madrugadas no corredor. Os absurdos – e a violência irracional, indesejada – do meu coração. (...) Ela se aproximou, aninhando-se ao nos meus braços, no meu ombro. Me entendia. O meu ódio não se esvaíra; e a velocidade dos meus pensamentos seguia, tão sufocante quanto antes. Acariciei as suas bochechas, os seus braços; entretanto. Sabia, dentro de mim, que todas as chances eram de que eu também teria que perdoá-la, em breve. Em (muitos de) seus momentos. Mas me dava certa calma tê-la, assim, por perto...

...enquanto eu deixava a Mia, lá, do lado de fora.

março 07, 2012

Partidas

Rudes – eu, nela.

“Me beija”, sussurrou no meu ouvido, conforme eu a subia no meu colo, pressionando-a agressivamente contra a parede. – you let me violate you – Mordi a ponta do queixo, fui escorregando os dentes pela linha do seu maxilar, o seu pescoço abaixo. Não. A sua pele clara se marcava, com facilidade. Tentou um movimento sutil, como se para aproximar o rosto de mim; e eu a empurrei de volta. Nos ladrilhos duros, frios. – you let me desecrate you – Ela cedia aos meus modos hostis. Os seus braços se apoiavam nos meus ombros, emaranhando-se nos meus cabelos; e se contorcia. Os antebraços em mim seguravam parte do peso do seu corpo. Os meus dedos cravados no seu corpo, por debaixo do blusão largo, e descendo contínuos pela sua cintura, pela sua coxa deleitosa. Arranquei a sua calcinha. Um movimento arrogante; e ela se inclinou. – you let me penetrate you – Outro empurrão contra a parede, ela gemeu – fica aí, porra. Sem preliminares. Cala a boca, garota. As minhas mãos, pudera, já estavam sujas no instante em que entraram nela. Sussurrava indecências e carinhos no meu ouvido; os minutos passavam crescentes, numa intensidade vigorosa. Os seus dedos escorregavam pela minha pele, pelas minhas costas. E das suas palavras, Mia, eu só estava interessada na primeira cota. – you let me complicate you – Subi; a minha língua percorria a curva do seu pescoço. Imprestável. As suas pernas nuas, apenas semi-abertas, apertadas contra mim. Me puxando a regata branca conforme eu ia cada vez mais fundo, cada vez mais forte. (...) Puta merda, me desconcertei por um instante, no calor do momento, droga. Perdendo-me, nela. Senti a minha pele esquentar, seca; e cada vez mais, mais molhada. Me contraía, argh; contendo-me à força. Inferno; daquela vontade. Não. Foco! (...) Epifania estrondosa, violenta. Ela me olhava, agora direto nos olhos. A sua respiração escalava, crescia ofegante; os lábios abertos. – I wanna – Murmurou algo, entre um fôlego e outro, inebriada; prestes a gozar. Segurei a sua boca. Forçando-a a calar, mais um minuto e te largo, filha-da-mãe fuck you like – Fechou os olhos e abriu-os, ainda fixos em mim; se contorcendo, agoniada. Escorreguei meus dedos firmes pela sua boca entreaberta, pelo seu rosto. E então por entre seus cabelos morenos, enlaçando-os. – an animal – Prendi-os. Ambas, as duas, nós duas, tensionadas entre si. Desgraçada. O ar se suspendeu, num começo demorado de orgasmo. Os seus olhos presos nos meus. Foda-se, garota, pensei. Todas as cores, de repente. As pálpebras delas se fecharam por um segundo – I wanna feel you from – , regozijando-se. – the inside – De prazer nostálgico. O piso frio contra os meus pés descalços, as costas dela na parede de ladrilhos. Descontraíam-se aos poucos, lentos; mas os meus não. Ela suspirou breve, contida. Retomando, em alívio e em seguida, a respiração.

Ergui o queixo, a encarando impassível – terminou? Desencostei dela na mesma hora; retirando então as minhas mãos sem qualquer afeto. E me afastei, dando um passo na direção contrária; a Mia ainda estava ligeiramente atordoada, recuperava o fôlego apoiada contra a parede. Na – exata – mesma posição que a deixara. Não tinha naquele momento paciência, ou modos, para esperá-la. Para com ela. Abaixei e peguei a sua calcinha no chão, amassada ao avesso; jogando-a contra o seu corpo. As suas mãos apanharam-na – meio sem jeito – à altura do estômago, "o quê...?", sem entender aquilo. Dei alguns passos, ainda em silêncio, até a pia. E lavei as minhas mãos.

Saí. Deixando o silêncio e a porta, escancarada, para trás.
eu já não tinha mais nada que fazer ali.

março 06, 2012

Vem.

Naquela noite, ainda que bem acompanhada da Clara, eu não consegui dormir. Algo me mantinha acordada. Fecha os olhos, inferno..., eu me revirava na cama. E por mais que lutasse contra a ideia, sabia que uma parte significativa da minha insônia tinha os dedos da Mia. A sua presença ao meu lado, o teatro no Centro. Encostei cuidadosamente a porta do quarto, saindo para o corredor, buscando silêncio na ponta dos pés. Esquecera o cigarro lá dentro, deixa... tarde demais. Na cozinha, o relógio marcava a proximidade das três da manhã – e seus ponteiros ecoavam sistematicamente os seus tic-e-tacs pelos cômodos vazios. Todos, exceto a minha pessoa, dormiam.

Abri a geladeira e a luz forte me doeu os olhos. A luminosidade daquela madrugada na Frei Caneca havia me dispensado de acender o interruptor, entrando à surdina pelos vitrôs abertos sobre a pia. Caminhara até ali no escuro, apenas eu e os meus pensamentos; no breu. Observei as garrafas colocadas aleatoriamente na porta e os meus olhos pararam numa de rum, semi-cheia, esquecida ali. Tá. Vamos lá..., peguei-a. E voltei à mesa da cozinha, sentindo-a gelar entre os meus dedos durante aquele breve percurso. Com o corpo mole e semi-sonolento, acendi a luz na parede e empurrei a cadeira, sem muita delicadeza.

Me sentei; a garrafa repousada em frente a mim, na mesa. Enchi um copo. A Clara reclamara no quarto aquela noite, incomodada com a atitude da Mia. O primeiro gole já desceu gelado; só para esquentar a minha garganta logo em seguida, indo aos poucos. A minha cabeça ia e vinha nos acontecimentos daquele fim de tarde, das horas anteriores, perturbada. “Toma cuidado. Esta garota só quer tanto sua atenção porque você não é mais dela, meu”, a Clara disse antes de deitarmos e transarmos, ao tirar as calças. E agora sou sua, por um acaso? – a minha mente implicou naquela mesma hora, mas não me pronunciei. Ela tinha razão, eu sabia. E a Mia não.

(...) Não?

A ideia me incomodava, era o que me mantinha acordada – respirei fundo, angustiada. Não queria a Mia de volta (e você realmente acha que alguma vez a teve, trouxa?!). A sua mudança de comportamento, todavia, me cutucava. Me intrigava e de uma forma não muito saudável. Não conseguia agora, insone, tirar o meu pensamento das suas mãos. Do atrevimento silencioso dos seus dedos. Podia senti-los, tão reais, tão amargurantes, na minha pele. Ali mesmo, sozinha, sentada na cozinha. O seu deslizar breve, numa destas memórias sensoriais. Sem intenção ou controle, ah, não faz isto. Mas ainda assim seguiam, o indicador e o ao lado; encostavam na minha mão. Eu escorregava os dedos pelo gelado do copo suado, simultaneamente, sobre a mesa da cozinha. E lembrava das vezes que os dela correram assim por mim, o meu perímetro, os contornos do meu corpo. Nuas, descobertas, as duas no chão frio do banheiro escondido na sua casa. A sensação insólita ia me tomando, lentamente. A sua memória, o seu toque, arrebentando cada centímetro de mim. Não, aquilo não era certo!

O meu peito apertou, doído. Por que, por que eu faço isto?, apoiei os braços na mesa e pressionei as mãos imediatamente arrependidas contra a minha cabeça. Baguncei sem querer o cabelo. Ela nunca lutou por você, me convencia, com rancor; nunca sequer se moveu, nunca. A afastei em pensamento. Nas madrugadas, às vezes, era pior; aquela nostalgia burra e meio impensada do peso dela dentro de mim; do amor que eu lhe tinha me ocupando, sabe, denso e em todo o coração. Nem sempre o seu corpo quer a leveza que conquista, entende? Mas você não, não tem direito, garota. De me tirar isto. O meu copo esvaziava-se, embriagando-me aos poucos. O que me incomodava mesmo, eu acho, era a proporção. Do quanto ela, de fato, tentara naquela noite e o quanto de tudo aquilo era apenas eu quem permitia. É, “permitia” – esta era a palavra –, pois permitia que entrasse de novo. Em mim, parte da culpa era...

Minha, sim.

Ainda que não tivesse movido um milímetro em sua direção naquela noite; não lhe dirigira um olhar, uma palavra. E como poderia? Hum! Agora que já não a quero, agora que não me importa mais; só agora, agora ela acorda. De repente, não tem problema ficar com garotas, não é? Puta merda! Por que, por que eu deixo, meu? Que me afete assim, que se volte a mim, que me venha com as suas confusões, eu já virava o segundo copo, quase terminando. Eu não quero isto, “Mia”. O seu drama, as suas incertezas, as suas idas e vindas com o Fer, a sua babaquice hétero, nada disto, não é mais problema meu. E eu não quero. Não quero mais ter parte nisto e nem nunca quis. Agora – e só agora – que me livrei de você, eu sei. Senti toda a raiva que guardava misturar-se progressivamente com as suas palavras na nossa última discussão, martelando na minha cabeça. Cara... Você nunca, nunca me amou.

Argh, maldita garota, me veio ao pensamento o seu beijo com a fulana vadia da festa, como um refluxo de emoções. E fui tomada por sentimentos de repulsa. Pela Mia, por tudo o que ela fizera ou representara, inferno de menina, na minha vida nos últimos anos. O caos constante. A ideia de uma amizade perdida com o Fer. Ah, só a mera ideia já me embrulhava o estômago, fazia eu me arrepender de cada movimento intencional meu na sua direção. Facilmente. Tudo, cara; tudo a perder e por causa de uma garota. Enchi mais uma vez o copo, começando a perder a conta. Balancei a cabeça, já com ele em mãos, instantes antes de beber – não, não vale a pena. Nunca valeu e nunca vai valer. VOCÊ não vale, nada. Eu precisava reassumir de vez o controle da situação, da minha vida.

Já estava no meu terceiro ou quarto copo, os olhos secos insones. (...) Chega, vai. Já se passavam mais de trinta minutos ali, sentada. Suspirei então, empurrando o último ainda com uns dois dedos restantes – e me levantei, cansada. Desgaste emocional, leve dor de cabeça, não sei. Iria voltar agora aos lençóis que compartilhava com a Clara. Mais uma tentativa de dormir, uma última; o álcool agora talvez ajude. Tomei a garrafa em mãos, já não tão fria quanto antes, e a devolvi à geladeira. Olhei para a porta mais uma vez, parada por algum tempo. Alguns condimentos, uma caixa de leite, uma cebola cortada ao meio, umas latas de cerveja e o rum. Respirei fundo, preciso mesmo parar com isto. Com aquela mania de confusão, aquela dependência de caos interno, ambas recorrentes demais nas minhas madrugadas. Sozinha e sempre, sempre, na cozinha.

É. Preciso parar também com os pensamentos sobre a, a desgraçada da Mia, porra mano, nada disto me fazia bem! – e não faz mesmo, caralho; isto, isto não pode ser saudável. Pois pararia com aquilo, decidi. Apaguei a luz da cozinha, ficando no escuro. Saí para corredor e quase simultaneamente, então, a lâmpada ali se acendeu. Como...? Do outro lado, saindo do quarto e ainda com a mão no interruptor, a Mia se assustou ao me ver parada ali. Como que...? Terminou de fechar a porta, surpresa, em silêncio. Os meus pensamentos demoraram alguns segundos para assimilar, já um tanto bêbada e inconseqüente, que ela estava acordada. E ali. Mas mudei de expressão, cerrando os lábios e com os olhos sérios. 

Ela e os seus grandes, castanhos, me olhavam com a respiração suspensa. As pernas descobertas, num blusão branco e velho emprestado do Fer. Me encarou imóvel, eu a olhei de volta. Todo o meu rancor por ela então me subiu, de repente, de uma só vez, à cabeça. Droga de rum! Os instantes de silêncio se esgotaram tão rápido quanto surgiram – agora não, mano, agora eu não ia segurar. E ela me olhava, filha-da-mãe, como se eu ainda lhe devesse algo, num atrevimento que me irritou sem precedentes – já deu, garota!, perdi a noção. Ah... ela sabe. Sabia que eu estava magoada, sabia que eu sabia, sabia que me tinha feito errado aquela tarde. E ainda assim me olhava, daquele jeito! Não sou eu quem deve algo a alguém aqui, pensei e, rapidamente, abri a boca para vomitar o primeiro pensamento irracional que me surgiu:

_Sabe, eu estava pensando... – ri irônica, agressiva, e dando-lhe a entender a causa da minha insônia – ...que merda deve estar passando pela sua cabeça, agora, para você sair pegando minas.

Ela me olhou, para minha surpresa, sem se abalar. Direta – e não me incomodei, pelo contrário.

_Que é? Está gostando de beijar mulher agora?! – continuei arrogante, e bêbada.
_Você sabe o que é, o que eu quero – retrucou com a mesma ignorância, à altura; irritada pela minha atitude – Aliás, você sabe muito bem.

Comecei a rir, indignada com a resposta.

_Não. Quer saber, não, não sei... – passei as mãos no rosto, puta da vida – ...eu não tenho IDEIA de, de porra nenhuma, Mia. NADA! Nada do que se passa com você, nada nesta merda da sua cabeça! Nada! Não tenho ideia!!
_Tem, sim – retrucou na mesma hora, me olhando mais segura do que a jamais vira.

Ah! Me revoltei, encarando ela de volta, tenho?!, me exaltava. E o quê é?! De repente eu sou interessante, eu valho a pena?! É isto?! A minha respiração pesava, cada vez mais; os meus pensamentos gritavam tão alto a ponto da Mia quase ouvi-los. É assim, de repente "não tem problema", né? De repente você não dá a mínima?! É isto?? De repente não preciso ser só eu a me arriscar?! Não te importa mais o que o mundo pensa?! Não tem problema colocar tudo a perder na frente do Fer, da Clara... numa porra de um teatro... numa festa inteira cheia de gente?! Agora não tem, né?!, caminhei num impulso na sua direção, aí sem pensar. Não, porra?! O meu sangue ferveu, determinada. 

Fui. Por todos os seus nãos, as suas meias palavras e os enigmas constantes. Por toda aquela merda infantil do caralho, os seus erros, os meus. Todos eles. Os acertos insignificantes. Por tudo. Por tudo o quanto eu a quis, desgraçada, e pelo tanto que a queria naquele instante. Pelas suas pernas descobertas naquela porra, merda de corredor; e pelo seu gosto na minha memória. Pelo desgosto também. Pela dor que eu nunca deixei de sentir. E por todas as noites e dias insuportáveis como aquele. Então tá, garota. A empurrei grosseiramente para dentro do banheiro, batendo a porta. Você quer ser lésbica?! Tranquei-nos lá e ela deu alguns passos para trás, inerte. Então vem.

março 03, 2012

Bulletproof

Sem trânsito, chegamos quase meia hora antes do início da peça. Umas trinta pessoas se aglomeravam, bastante falantes, frente ao teatro. Liguei para a Lau, nossa amiga que ia atuar, e esperamos algum tempo até ela nos encontrar na porta já com os ingressos dados. Aí entrou de volta e resolvemos esperar. Prontamente, o Fer encarregou-se de incentivar a Clara a ir com ele buscar as pipocas, num carrinho mais adiante na calçada. Me manifestei na mesma hora, percebendo o que o cachorro do meu amigo estava fazendo, e disse que iria também. Ele insistiu que eu ficasse com a Mia, claro, folgado de merda, para guardar os nossos lugares na fila.

Agiu como se eu estivesse fazendo grande caso daquilo e fui obrigada a ficar quieta. Não podia dar-lhes motivo a mais para não querer ficar. “Já voltamos, porra. Fica aí dois segundos, cacete! Não vou roubar a menina...”, disse, já virando-se para sair e a Clara riu. Ah, excelente, pensei comigo mesma, sendo irônica, vendo-os se afastar cada vez mais e largar-me ali sozinha. Com a Mia. Tentei não dar-lhe bola, observando os meus pés no chão de concreto sujo. Não queria expressar o meu rancor, era a última coisa que eu podia fazer naquele momento. Mas sentia, todavia, que ela me olhava.

_E aí? – se apressou em falar, quase sem saber direito o que ou como fazer, tentando puxar qualquer assunto que fosse comigo – Como, como você tá?

Olhei-a brevemente e aí voltei os olhos novamente para o lado, às pessoas na calçada. Ignorando-a.

_Eu... – retomou, após algum tempo desconfortável de silêncio, ainda se esforçando para se mostrar simpática – ...vi um, um especial esses dias. Lá na Fnac. Era um livro com fotos do Lou Reed, tiradas num show só do “Berlin”...

Não disse nada. Seguia sem dar-lhe atenção, sem me dirigir a ela. Bem sabia que se o fizesse, se ousasse abrir a minha boca ou sequer virasse na sua direção, a visse direito, era capaz de me subir à cabeça e falar-lhe alguma besteira, algo do qual me arrependeria depois. E que certamente seria perceptível aos dois, que agora voltavam com as pipocas em mãos.

_...e, e aí lembrei de você – murmurou antes que eles se aproximassem; eu não me movi.

É. A situação beirava o ridículo. Eu ali tentando, a qualquer custo, não olhar ou me dirigir à Mia, a fim também de evitar constrangimento com a Clara – e o Fernando simultaneamente, tão logo os minutos seguintes provariam, fazendo um uso inédito de todos os seus recursos para que ficássemos sozinhas. Eu e ela, isto é. Mas que porcaria. Ah, eu sabia o que ele queria. Mas não, cara, eu não vou me predispor a isto. A conversar com ela. Não mesmo – menos ainda sobre aquela merda de incidente... naquela porra de festa, a sua sexualidade confusa. Pode esquecer!

Ao mesmo tempo, todo o contexto se agravava, naquele breve período de espera frente ao teatro, com a insistência inesperada da Mia em me procurar. Em todas as brechas, em toda oportunidade que tinha. Era absurdo. Tentava quase desesperadamente ser, sei lá, notada. Excessivamente legal comigo. Enquanto sequer se dirigia aos demais, eu estranhava. Conversava animada, me tocava o ombro, a blusa, me olhava, forçava um sorriso, um comentário qualquer. E eu virava o corpo, incomodada; me voltava à Clara, engolia seco, fingia que nada acontecia.

A única, aliás, que parecia não estar a par da situação era a minha companhia argentina. Seguia sorrindo normalmente, me abraçava desavisada e conversava com todos. Como pode, né? Mulher vê o que não quer o tempo todo e, quando de fato está ali, na sua cara, não percebe. De duas, uma: ou eu era realmente boa mentirosa, nas minhas expressões previamente refletidas; ou ela percebera a dança toda e optara por não agir acerca, por não se envolver. Não sei o que me incomodava mais – procurava, todavia, não pensar a respeito.

Quando enfim entramos no teatro – eu dando graças aos céus por me livrar daquela babaquice subentendida na entrada –, o Fernando logo se apressou à frente na fileira, para entrar primeiro; sendo seguido, naturalmente, pela Mia. Seu calculista de merda! Rapidamente fiz um gesto para a Clara para que fosse atrás deles, para que me passasse, mas ela então recusou. “Não vou sentar do lado desta garota!”, cochichou para mim. Inferno. Suspirei sentindo-me encurralada, , e entrei na sua frente, a muito contragosto. Ela me seguiu, satisfeita, sentando na outra ponta.

O Fer na oposta; eu e a Mia no centro. “Ótimo”.

Não consegui mover-me direito a peça inteira, mal respirava, todas as suas longas quase duas horas. Sentia que a Mia olhava-me, insistente, e aquilo começava a me tirar do sério. Digo, a sua atitude de repente comigo. Qual é, garota, porra?! Suspirava e me esforçava, sem conseguir, para prestar atenção na peça. Do outro lado da cadeira, eu segurava as mãos da Clara, os dedos entrelaçados e firmes. A Mia observava. Me deixa; na boa, me deixa..., os meus pensamentos martelavam na minha cabeça, implorando irritados. Mas ela não ia embora: a sua atenção, sua intenção, os seus olhos. Em mim, o tempo todo. Puta merda. E a Clara do outro lado, comentando a peça; eu a olhava e sorria de volta. A minha respiração suspensa, tensa. Até que, em determinado momento, senti a Mia esbarrar em mim.

Ah, não. Isto não!

Me reajeitei na cadeira, como se fosse um engano das suas mãos, querendo mesmo acreditar que aquele milésimo de segundo havia sido sem intenção. Um descuido – dela. Todavia, ela voltou. A Mia. E outra vez pude sentir a sua pele na minha, deliberadamente. Colocou a ponta do indicador sobre as costas da minha mão, tocando-a suave – e inconseqüente. O Fer do seu lado, a Clara do meu – você perdeu a cabeça?! E então encostou também o dedo ao lado, o do meio; passeou-os pelos centímetros mornos. Minha respiração congelou, antes de acelerar.

Sentia como se tocassem além de mim, dentro de mim, droga, no meu âmago; como se encostassem de leve no nosso passado. Um incômodo me subiu pelo corpo, pela garganta. Pensei que a ânsia ia me expôr ali mesmo e a imaginei imediatamente com a outra garota, suspirei; o rancor tomava conta de mim. Não. Retirei a mão num movimento grosseiro e cruzei os braços frente ao corpo. Ela me olhou, mas os meus olhos permaneceram fixos no palco, irredutível. Me recuso a isto. Ela se encolheu na sua cadeira.

março 01, 2012

Pretensão, inevitável.

“I wanna be your last, first kiss
That you'll ever have.”
(Anberlin)

Ahh, desgraçada – eu fumava um atrás do outro, sozinha em meu quarto, perturbada. A Clara chegaria a qualquer momento. Aquela tarde passava devagar. E o apartamento tinha o seu silêncio perturbado pelo som do Fer martelando a mesinha de centro da sala, um dos suportes estava solto. Ali, de um jeito intragável, a Mia não saía da minha cabeça – e a beirada da janela já acumulava cinzas o suficiente para me matar. De câncer no pulmão, qualquer coisa é melhor. Melhor que esta merda de vida que venho levando... O coração dando voltas, os pulos constantes. E, assim, apertado – argh, a recorrência estava acabando comigo.

Os meus olhos dirigiram-se à calçada imunda e repleta de árvores da Frei Caneca. Aos pedestres e às pessoas que eu nunca iria conhecer. Por que eu não posso simplesmente não me importar?, pensei. Incomodava-me esta minha incapacidade. Ao se tratar da Mia – sempre da porra da Mia. E no entanto, importava. Importava! A boca dela na de outra garota, os seus beijos, as suas mãos correndo nas dela; como importava. Contra todo o meu bom senso, é, talvez. Mas o fato é que importava. Inegavelmente me importava.

Despertei-me do meu estado reflexivo, e martirizante, ao ouvir tocar a campainha. E somente então. Tá, ela chegou. Chega desta merda. Apertei o último dos cigarros – de toda uma série – contra a madeira, apagando-o na mesma hora, e joguei-o pela janela. Eu não ia tornar as notícias piores do que eram e me recusava, como recusava, a transparecer o caos dos meus pensamentos para ela naquela tarde. Saí no corredor com o meu par de tênis dourados e skinny jeans escuros, passei pelo Fer na sala, vendo-o terminar o reparo com as tatuagens à mostra, e abri a porta. A Clara estava, para variar, linda – e com as mesmas botas de quando a revi naquela noite, na Hot Hot. Ambas estávamos. Achei engraçado e sorri ao notar, breve.

_Então... vamos? – virei o pescoço, perguntando ao Fer atrás de mim na sala, mantendo uma das mãos na maçaneta.
_Vamos! – ele se levantou na mesma hora, largando o martelo sobre a mesa – deixa só eu pôr uma camiseta lá... agüenta aí.

Apoiei-me então no batente, observando a Clara na mais imprestável das intenções. Ela sorriu. O Fer passou por detrás de nós, para o corredor, e não demoraria a voltar já pronto. Senti a minha regata cinza de algodão deslizar suavemente entre minha pele e as costas da minha mão, metida debaixo da blusa e à toa sobre o meu abdômen. Eu e ela nos olhávamos, em nossas eternas reticências. Rimos, em silêncio. “E aí, hein?”. Nutria um carinho descomplicado por ela, não sei. Nos gostávamos – e isto, de repente, me bastava para aguentar um fim de tarde no teatro com a porcaria da Mia.

Respirei fundo.

Entramos no carro e dirigimos por numa São Paulo vazia – os domingos na capital – até as ruas elitistas de Higienópolis. Ao estacionarmos frente ao prédio, que eu bem conhecia, o Fer ligou duas vezes para a Mia. Sem sucesso. Desceu então do carro, já irritado, indo à portaria para pedir que interfonassem no apartamento. Voltou e sentou-se, batendo a porta. O meu braço estava ao redor da Clara, no banco de trás; e foi quando a Mia saiu pelo portão, absolutamente deslumbrante. Numa skinny bem-ajustada e com uma jaqueta verde-escuro bonita; os cabelos castanhos soltos, em contraste, e uma botinha curta nos pés. Eu e a Clara a olhamos pela janela do carro, admirando-a boquiabertas, no maior espírito sapatão possível. E eu me esforcei internamente, inferno, para manter a droga da garota e daquela merda de história bem longe de mim. Fora dos meus pensamentos.

Por favor... por favor, mano, pensava comigo mesma. E a observei entrar no carro. Ela não parecia feliz ou sequer disposta a ir. Me viu ainda do lado de fora e sentou-se, sem beijá-lo ao entrar. O carro mal deu partida, movendo-se, e a Mia virou-se na minha direção. Me olhou com os seus olhos castanhos, amendoados. Você não está tornando isto fácil, garota, suspirei. E certamente também não estava se dando ao trabalho de disfarçar. Ela parecia querer dizer-me algo, algum segredo muito bem guardado. E que eu não queria ouvir. Virei os olhos para fora do carro, pela janela, fugindo dos seus. Começava a sentir agora que já não ia conseguir – digo, não transparecer o rancor que sentia – e nós mal havíamos saído do seu quarteirão. Mas que droga.