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outubro 25, 2010

"She wants revenge!"

_Me vê um cigarro aí... – pedi para a Mia, encostada no lado oposto do fundo da escada, a um metro dela – esqueci de comprar, o meu acabou antes de eu entrar aqui.
_Quem... – ela pegou um cigarro extra no maço, já com um aceso na outra mão, e brincou com o filtro entre os dedos, sem me entregar a porra do cigarro – ...quem é “Marina”?
_Minha ex-namorada – arqueei as sobrancelhas, achando graça no jogo.
_“Ex”? – perguntou, como se não acreditasse, assim como o Fer fez.
_É. Ex.
_Que tipo de ex? – continuou, maliciosa.
_Do tipo que não é mais minha – olhei para o cigarro, inquieta, querendo fumar logo.
_Não sei como funciona... – ela disse, com um leve sorriso no canto da boca – ...com vocês, lésbicas, mas... – o filtro girava entre seus dois dedos e ela prosseguia, sem intenção de me entregá-lo tão cedo – ...no mundo hétero, sabe, não se dorme em casa de ex-namorado.

Ahh, Fernando, seu desgraçado filho de uma égua.

_Eu só falo da Marina – tirei o cigarro das suas mãos, bruscamente, roubando-o impaciente – para não falar de você.

Seus olhos encontraram os meus. Senti uma mudança repentina na sua atitude e, por fim, ela não conseguiu esconder um sorriso. Desta vez, sincero... não maldoso. Era isso que você queria ouvir, né, encarei-a de volta, levemente revoltada com o joguinho. Acendi o meu cigarro e ela me observou dar a primeira tragada, depois soltar a fumaça para o lado. Eu não queria dar muita trela à situação, no entanto, preocupada com a quantidade de álcool já ingerida por mim e a minha conseqüente falta de autocontrole. Contudo, claro, não me agüentei.

_Estava vendo você dançar... – disse, olhando-a de cima a baixo.

Respirei fundo, conforme meus olhos percorreram a sua silhueta, parada a poucos centímetros de mim fumando. Puta que pariu, isso é que é mulher, pensei e senti toda a minha imprestabilidade subir à minha cabeça.

_E? – ela perguntou, com o cigarro aceso nas mãos.
_E nada. Só achei bonito.
_“Bonito”? – ela riu.
_Você e as suas amigas... – continuei, encarando-a com toda a minha vontade contida no olhar, nitidamente querendo me referir a qualquer outra coisa senão aquilo.
_A gente, o que? – ela disse, me provocando.
_Dançando, sabe, juntas...
_Prefiro dançar com você – ela me olhou de volta, sendo direta.
_Você está bêbada... – eu ri.
_Não – ela retrucou, séria – eu estou tentando te dizer, pela segunda vez, o quanto gostei que você veio.
_E de que adianta? – respondi, após alguns segundos de silêncio, incomodada – não é comigo que você vai ficar hoje... – traguei mais uma vez o cigarro, sentindo o álcool começar a afetar o nosso diálogo.
_Mas... mesmo assim, você veio – ela insistiu.

Achei graça, de certa forma. Eu vou para qualquer lugar que você me chamar, garota. Seus olhos continuavam sobre mim. Atraída por ela, de repente, dei um passo para frente e cheguei realmente perto, o suficiente para causar um problema sério para a minha pessoa caso alguém conhecido resolvesse passar pelo alto da escada e dar uma olhada ali para baixo. A Mia permaneceu encostada na parede, como se quisesse que eu, em algum momento, tomasse uma atitude. A iminência de um beijo estava implícita – mas só me aproximei, olhando-a. Quis sentir o gosto da sua boca, desesperadamente, porém me contive. Sabia do risco.

Então, dei um passo de volta e desviei o olhar para o chão. Encarei-a por mais alguns segundos, em silêncio, depois tornamos a fumar cada qual no seu canto. O frio, vindo da porta ao nosso lado, começou a incomodar. Ela me olhava, curiosa, e eu tentava não me deixar convencer pelo meu corpo inteiro, que a desejava como nunca. Merda de festa, traguei mais uma vez, que porra eu vim fazer aqui. Soltei a fumaça lentamente, inconformada com a minha dificuldade de ficar ao lado dela.

“This is not a love song”.

De repente, ouviu-se a voz da Brody Dalle invadir o som da balada. Os olhos da Mia brilharam automaticamente – felicidade de bêbado –, conforme os alto-falantes começaram a nos ensurdecer com Beat your heart out dos Distillers. Sua primeira reação foi, obviamente, correr para a pista. Jogamos os cigarros no chão, pisando na brasa o mais rápido possível e subimos apressadas os degraus. Ao chegar à outra ponta, no entanto, me ocorreu algo.

Segurei-a pela mão e a puxei para o lado oposto, na direção da outra escada. Ouvi-a reclamar qualquer coisa, e ignorei, arrastando-a a força junto comigo, enquanto subíamos até a pista escura do segundo andar, onde uma massa não-identificável de pessoas dançava ao som de um hip hop qualquer. Encostei-a na primeira parede que minhas mãos encontraram, conforme paramos em meio àquele escuro absoluto, perdidas entre as batidas graves.

_O que diabos você está fazendo?! – ela brigou comigo, revoltada, sem sequer conseguir me enxergar.

Busquei-a no escuro, com as mãos, e segurei o seu rosto perto do meu, tentando visualizá-la mentalmente na minha frente. Uma vez que consegui, deslizei o meu corpo para perto do seu, encostando-me nela, e me aproximei do seu ouvido:

_Estou roubando sua música favorita – justifiquei.

Heterofobia alcoólica

Observava. As pernas, as coxas, os dedos e os corpos entrelaçados; cochichos no ouvido, sorrisos despreocupados; os antebraços de uma, apoiados nos ombros de outra; os quadris e braços submersos na música; as mãos em qualquer lugar, na cintura da que estivesse à frente, ao lado, atrás; o suor, o calor fazendo com que prendessem o cabelo, improvisassem coques mal-presos; as flores da Mia correndo pelas suas costas descobertas, a frente única preta contrastando com a sua pele, o movimento do tecido acompanhando o seu corpo... e eu lá, a poucos metros dali, babando.

_Isso não é justo – reclamei para a Lê, que estava ao meu lado, soando já completamente alcoolizada e prestes a fazer uma análise antropológica da balada paulistana.
_O que não é? – perguntou, virando mais um gole da sua segunda cerveja.
_Olha aquilo, meu... Não, sério, olha aquilo!
_Que tem? – a Lê riu, acompanhando meus olhos até o meio da pista de dança, onde a Mia e as amigas dançavam, alheias à nossa atenção.
_Como o “que tem”?! Tem que não é justo, porra! Por que eu não posso dançar lá no meio?! Não, me diz. – então, a Lê pôs-se a responder o óbvio, mas eu a cortei logo em seguida e continuei com o meu raciocínio, completamente embriagada – eu tenho certeza, certeza, que se fosse eu ali com elas... o Fer ia me olhar torto dali – fiz um sinal com os olhos, indicando o meu melhor amigo, que conversava numa rodinha a poucos metros das garotas – mas certeza absoluta! Porque eu não, né, eu não posso. Eu sou uma porra de uma ameaça ambulante! Só que elas... essas minas... “héteros”... – fingi aspas com os dedos, sendo irônica – ficam aí se pegando na frente de todo mundo, ninguém fala merda nenhuma e é mão para cá, mão para lá, gracinha gratuita, selinho numa, selinho na outra... caralho, meu! Olha, na boa... Eu acho assim – disse, séria, para a Lê, filosofando com o meu terceiro whisky em mãos – ou você é sapatão ou não é. Entendeu? Não tem essa de ficar se esfregando na balada, agarrando a colega, se insinuando para Deus e o mundo, e depois ir lá curtir pinto. Não. Não, mano. Não. Se vai ser “das amigas” na balada, tem que ser “das amigas” na cama e ponto final. Vai ficar rebolando assim na nossa frente, porra... – olhei indiscretamente para a bunda da Mia, vestida maravilhosamente em um jeans preto justo, quase sofrendo com a cena e a minha impotência toda diante da mesma – ...ah, meu... meu... é... é sacanagem.
_Realmente, o mundo não é nada justo – a Lê concordou, com os olhos nas meninas e sua boca novamente na garrafa.
_Nada justo! – repeti, revoltada – não é nem um pouco! Isso é um absurdo, mano, uma discriminação. A gente é obrigada a ficar aqui, encostada na parede, dando uma de cabeça fria, fingindo que não tá nem aí e olhando pro outro lado, enquanto meia ala feminina está se pegando.
_A gente não tá exatamente olhando pro outro lado, né... – ela riu.
_Tá, que seja – terminei o meu copo, sem fazer careta, já perigosamente imune à bebida –mesmo assim.
_Hm, por falar nisso... olha aquela ali...
_Quem?
_Aquela ali, de branco.
_Não to vendo – disse, bêbada, meio confusa – quem, aquela?
_Não. Mais para lá, a morena. Do lado do cara de jaqueta.
_Ahn... sei – falei, não muito impressionada.
_O que você acha?
_Ah, sei lá, cara... tenta, ué.

E, simples assim, perdi minha companhia. Para uma paulistana metida à hippie, vestida com uma blusinha básica e calça de algodão, rosto bem feminino e ares lésbicos de gente que cursa Artes Cênicas em universidade pública. Não deu nem cinco minutos e a minha amiga – tentando bater o recorde de bocas por noite, evidentemente – já se encontrava frente a ela num canto.

O calor da Sarajevo havia fervido todo o álcool existente em excesso no meu sangue, eu estava bêbada demais, começando a tropeçar nas minhas próprias palavras e provavelmente bem menos interessante do que a tal garota, pela qual fui trocada pela minha amiga recém-solteira. Argh, povinho alternativo de merda, resmunguei mentalmente, encostando-me na parede com certa birra.

A verdade é que eu não tinha nada contra essas garotas cults, pelo contrário: era mais do que fã das mesmas. Boa parte do meu conhecimento de... ahm... “campo” provinha das camas e mentes abertas de meninas assim, das suas repúblicas universitárias e amigas pseudo-artistas dispostas em explorar as sensações do corpo humano, as diversas manifestações de relacionamento, o individual e o coletivo, sabe né... E o pensamento, de volta ao passado, me fez sorrir por um breve momento.

Olhei novamente para a balada, voltando à realidade logo em seguida, e me deparei com a Mia vindo na minha direção. Opa. Ajeitei o cabelo, endireitei as costas e a observei caminhar até o meu lado da pista. Ela sorriu para mim, a poucos metros de onde eu estava, e eu a encarei de volta. Então, fez um sinal com a cabeça para a esquerda, como se quisesse que eu a seguisse. Apoiei o copo vazio no chão e a alcancei a caminho da saída de fumantes, ao pé de uma escada estreita – a rua se encontra um nível abaixo da pista de dança, após uma portinha que deixava o frio entrar nos primeiros dois ou três metros. Enfim, a sós.

outubro 21, 2010

Quadras para cima

Meus dedos dedilharam, leves e entorpecidos, passeando pelo contorno dos pôsteres e grafites que compõem as paredes daquele submundo cool que é a Sarajevo. Entrar ali é como desligar-se do resto do planeta. Não que eu realmente precisasse de uma forcinha a mais além da minha conta majoritamente alcoólica de R$ 38 do Vitrine, isto é, claro.

O contraste repentino do frio vindo da rua com o calor abafado daquela cultura alternativa viva e corpos amontoados sobre cervejas e papos intelectuais, misturados em samba e punk rock, me enfiou ainda mais numa ultrapercepção de tudo ao meu redor. Vontade de fumar um, pensei, logo que entrei. E a Lê quis parar no bar da entrada, puxando-me pela mão.

_Vamos no de baixo... vou pegar um whisky – disse no seu ouvido, competindo com o som ambiente e segurando sua cabeça perto da minha boca, pela nuca.

Era sexta-feira e, assim como qualquer outro beco apertado da Augusta, o lugar estava lotado. Muito além da sua capacidade. Nos esprememos pelo meio dos que dançavam qualquer batucada underground na pista frente ao palco e alcançamos o corredor, onde trombei com um conhecido meu e possivelmente do Fer também. Veio para o aniversário? Hm, talvez, olhei bem para ele. Sei lá. Preciso de whisky, concluí e caí fora poucos segundos depois. E gelo, eu precisava era de gelo: aquela balada era a própria definição de aquecimento global – e eu estava derretendo, tão logo pisei lá dentro.

Apoiei-me sobre meus antebraços cruzados, debruçando-me no balcão do bar escada abaixo. Estava tocando alguma coisa do Planet Hemp nas caixas de som. Dezenas de pessoas circulavam atrás de mim e ao meu lado, indo e vindo até o bar, num vai-e-vem caótico e agradável, parando para conversar em pequenas rodinhas que misturavam entre si. A Lê – mais prudente – pediu uma long neck e eu, já com meu copo de whisky em mãos, ria da cara dela sendo cantada pelo barman. Sem lhe entregar a garrafa, fazendo graça, ele disse qualquer coisa no seu ouvido e os olhos dela arregalaram-se indignados na minha direção. Comecei a rir de novo e balancei a cabeça, tomando mais um gole, depois apoiei-me novamente no balcão.  

_Você veio! – escutei dizerem para mim, de repente, e senti braços carinhosos me abraçando pelas costas, por cima dos meus ombros.

Virei então, me recuperando do breve susto, e vi a Mia. Nitidamente feliz com a minha presença mais do que discreta no meio daquele monte de gente. Olhei para ela. Puta que pariu, você tá maravilhosa, meu pulmão procurou desesperadamente por um pouco de ar, sem muito sucesso. Tentei sorrir para disfarçar, desajeitadamente. Uma vez que ficamos frente a frente uma para a outra, no pouco espaço que a superlotação nos permitia, ela me abraçou mais uma vez e eu comecei a rir do excesso de cumprimentos, mas mantive minhas mãos bem longe do seu corpo – olhando para o Fer, que estava parado logo atrás dela, achando graça na embriaguez boba-alegre da sua namorada.

_Vem, eu quero te apresentar pro pessoal que está aí... – a Mia me puxou pela mão, ainda animada.
_Não, espera – eu ri, segurando-a momentaneamente para trás – deixa eu te apresentar... essa é a Lê. Lê, essa é a dona aniversariante, evidentemente.

A Mia sorriu para ela, sendo simpática e sem se dar conta da olhada de cima a baixo que tomou da minha amiga nada discreta. Ao fim das cerimônias, a Mia me puxou de novo pela mão e eu mal tive tempo de alcançar o meu copo no balcão. Furamos o amontoado de gente, ainda de mãos dadas e olho no movimento perigoso do whisky dentro do copo - pedindo para ser derrubado ali no tromba-tromba - e o Fer puxou qualquer assunto com a Letícia, ficando para trás, em frente ao bar.

_Ai, eu tô tão feliz que você veio - a Mia segurou ambas minhas mãos, toda fofa.
_Você tá realmente bêbada, não?!
_Tô - ela arqueou uma das sobrancelhas, fazendo graça, e eu ri - mas tô feliz, de verdade.

Nisso, ela soltou minhas mãos subitamente. E o Fer chegou, atrás de mim, trazendo dois copos diferentes na mão. Um baixinho de whisky, como o meu, e um outro mais alto que parecia ser de alguma batida ou drink mais simples. Cuba Libre talvez, tentei advinhar, mas poderia muito bem ser um Long Island Ice Tea.

_Amor, olha... - ele lhe entregou o copo maior, como se ela houvesse lhe pedido aquilo, em algum momento antes.
_A Lê ficou no bar? - perguntei, curiosa.
_Ela foi no banheiro, eu acho. E você, hein? Só nos flashbacks aí... - o Fer brincou comigo - é Marina numa semana, Letícia na outra.
_Nada a ver, mano... eu nunca peguei a Lê! - contestei, já meio bêbada também.
_Quem é Marina? - a Mia se intrometeu na conversa.
_Minha ex-namorada...
_"Ex"... - o Fer continuou rindo, alheio ao que estava implicando, e eu dei-lhe um soco leve de brincadeira no braço, para ele fechar a matraca. A Mia nos olhou como se não entendesse e ele se meteu a explicar - ...nas últimas semanas é um tal de ligar pra Marina, ir ver a Marina, dormir na Marina.Tá boa a coisa, viu...

Isso, babaca, eu olhava para o Fer indignada, me empata nos primeiros cinco minutos.

outubro 18, 2010

Na calçada

Frio do caralho. Minha mente divagava sobre todos os tipos de palavrões e insultos que eu poderia soltar na direção do tempo, enquanto eu acendia um Lucky Strike todo amassado. A Lê apareceu empática, de repente, do meu lado, e eu lhe ofereci um cigarro em agradecimento – tão detonado quanto –, que ela acabou por aceitar.

_A amiga da Cris quer te pegar... – Cris?, comecei a buscar na memória.

Logo, no entanto, presumi tratar-se da dona da blusa pólo e a sua amiga, conseqüentemente, a loira ao meu lado. Aquela. De quem nem a Letícia, com duas tequilas a menos na conta do que eu, lembrava-se do nome.

_...bonitinha ela até, cara.
_Tô de boa.

Encarei o chão, tragando mais uma vez, metida nos meus pensamentos. A Lê começou a rir e me abraçou por cima do ombro, tirando e colocando o cigarro brevemente da boca. Soltou a fumaça para o lado e me encarou nos olhos, enquanto eu a olhava de volta sem entender toda aquela demonstração pública de afeto pela minha pessoa.

_Essa menina te pegou de vez, hein?! – ela me observou, próxima do meu rosto, sorrindo.
_Ela... – olhei-a de volta, séria, sendo sincera – ...ela é demais, Lê.
_Você quer ir lá ver ela?
_...
_Quer?
_Não.

Mentira.

_É complicado – retomei, sentindo a necessidade de me justificar.
_Mas, baby, isso sempre foi... – ela me olhou, de novo, com empatia.
_Não, é mais complicado.

Soltei a fumaça, agora segurando o cigarro apreensivamente entre os meus dedos, que estavam prestes a congelar. Não queria ter tocado no assunto. Porra. De uma forma ou de outra, aquilo estava dentro de mim, a noite toda, me incomodando. Até o momento, no entanto, fiz a minha parte e ignorei a droga do sentimento. Falar a respeito já era uma coisa totalmente diferente. Que inferno. A Lê se colocou na minha frente, segurando os meus braços, cruzados, com as mãos e me olhou com aquela cara de quem havia bebido demais.

_Você quer ir ver ela? – perguntou, de novo.
_Não... – hesitei, mais bêbada ainda, mas com uma leve consciência – ...sim. Eu... não posso.
_Meu, a Sarajevo é na quadra de cima! – ela pareceu me consolar – eu vou com você, se você quiser.
_Não, Lê. Não. Não quero aparecer lá – traguei mais uma vez.

E não queria mesmo. Mas, por algum motivo, a Marina me veio à cabeça... e a idéia de vê-la contrariada, discursando horas ao telefone sobre como eu era uma cabeça-dura previsível e ela sempre estava certa e etc., sei lá, me divertiu. Devia ter ficado em casa, pensei e ri de mim mesma.

_O que foi?! – ela riu comigo.
_Nada...

E antes que eu percebesse, o controle começou a escapar de forma gostosa pelos meus dedos. Conforme eu soltava o último trago, lentamente.

...

Dez para doze

_Você vai beber ou vai só olhar a noite inteira?
_Ahn? – virei para a garota ao meu lado, uma loira qualquer, de quem eu mal lembrava o nome, sem realmente ter ouvido o que ela havia dito.
_A tequila – ela riu, parecendo mais interessada em mim do que na resposta – você vai beber ou vai só olhar?!

Ah... isso, me lembrei. Tirei o copo na mesma hora da mesa e virei o shot rapidamente, meio rabugenta, fazendo graça para o que seria um alvo fácil nos meus tempos de desapego emocional crônico. Tô ficando velha pra pegar essas minas em bar, refleti, conforme descia o copo de volta à mesa. E não era nem idade a questão, mas o mais puro saco cheio. De toda aquela merda. De todas aquelas menininhas, dessas, que morrem de amores por qualquer uma que desce três ou quatro Cuervos em seguida e as ignora a noite toda. É, você mesma, olhei para a loirinha ao meu lado e ela sorriu, toda-toda aí tentando puxar assunto com a única pessoa da mesa que não está te dando bola. Era até engraçado, de tão óbvio; e comecei a rir, sozinha, olhando para o outro lado e disfarçando, por mera boa educação, enquanto pedia mais uma rodada de cerveja pro garçom.

_Você veio sozinha? – ela insistiu, aproveitando o embalo, agora que eu não estava mais hipnotizada pelo meu copo.
_Tô com a Lê aí... quer dizer, vim – resmunguei, sem dar muita atenção a ela, de repente incomodada com o barulho de fundo do Vitrine, e senti o álcool correr pesado pelo meu cérebro.

Que se foda. Virei para a minha esquerda, o lado oposto, em busca de outra porcaria para encarar, anything. Ouvi-a dizer qualquer coisa, não me lembro o que – ou simplesmente não escutei –, e me voltei para a frente para chamar a minha amiga, que se ocupava categoricamente com a boca, a língua, a vontade e a camiseta pólo de outra garota da qual eu também não sabia o nome.

De todas ali, só me eram conhecidas a Lê e mais duas, que estavam sentadas bem mais para lá numa mesa de talvez quinze pessoas, a maioria sapatão convicta, reconhecível de qualquer balada que se preze. Uma delas eu havia pegado, anos antes, em uma daquelas circunstâncias deploráveis clássicas do meu repertório. Essa, eu tinha certeza, não queria papo algum com a minha pessoa. A outra era uma pseudo-amiga, conhecida dos tempos áureos do Setentinha, e que não estava perto o suficiente para me entreter numa conversa saudosista. Restava, portanto, eu e a porra da loira. Que não calava a boca agora, claro, depois dos nossos três segundos e meio de contato visual.

Inferno.

_Vamos?! – perguntei sem paciência, assim que ganhei a atenção da Lê, entre um beijo e outro de puro consolo pós-pé-na-bunda.
_Vamos para onde, meu?! – ela riu, desligada.

Vi as mãos da garota puxando-a pela camiseta, na ânsia de aproveitar a noite, e senti que não teria chance alguma de competir com aquilo.

_Sei lá, mano... qualquer lugar, tô de porre de ficar aqui.

“Não”, óbvio. Sequer estava com esperanças de realmente dar o fora dali, conforme deixei escapar a minha última frase, por mero capricho ou birra. O garçom chegou com a minha cerveja. Ah, enfim. Enchi o copo e meti-o na boca, me afundando na cadeira, de saco cheio de ficar no Vitrine. Na porcaria do Vitrine. Em qualquer lugar.

O fato é que todos os rolês andavam me entediando. E eu os assistia perder a graça, progressivamente, resistindo estupidamente, na minha teimosia alcoólatra. Terminei o copo sem enrolar muito, ainda ignorando a garota ao meu lado, e apanhei o maço para ir fumar do lado de fora. Qualquer coisa que me tirasse dali.

(PAUSA)


Gente, antes de lerem os dois posts novíssimos (acabei de colocar!), dêem uma paradinha para ver esse vídeo. É um stop motion que eu e uma amiga fizemos para o projeto "It Gets Better", uma iniciativa muito legal de apoio a adolescentes gays que sofrem discriminação no colégio. Achei válido dividir aqui com vocês e espero que gostem. :)

Tenho outras novidades, que alguns já estão me perguntando, sobre o lançamento do meu livro. Não é nada relacionado ao blog, trata-se de um livro-reportagem (sou jornalista) que escrevi sobre como o tédio e o imediatismo impactaram a juventude atual - num resumo bem cruel e injusto do livro, perdão, prometo contar mais a respeito depois. Deve ser publicado no começo do ano que vem e eu informo aqui assim que tiver mais informações!

Outra coisa que têm me perguntado bastante é sobre a 2ª edição da trilha sonora do Fucking Mia. Já estamos quase com uma tracklist completa, só falta mais uma para ter o mesmo tanto de músicas e aí coloco o link para download ali do ladinho, da mesma forma.

E, por fim, me desculpem pela escassez de posts. Estou num período meio turbulento, mas juro que estou me esforçando para atualizar ao menos dia-sim-dia-não. Não gosto de colocar nada aqui que eu não "ame" ou que não esteja de acordo com o que quero para a história, tenham um pouquinho de paciência com a escritora, hehehe. Mas posso dizer que tem coisa boa vindo por aí... ;)

Obrigada, do fundo do coração, pelos acessos e comentários.
Mesmo. ♥

Mel M.

outubro 16, 2010

Dispensando rolê

De alguma forma, quando o ponteiro menor chegou à nona casa do relógio, eu me encontrava a caminho de casa no banco da frente de um carro. Um corsa preto e detonado, que há meses eu não via. Fumando com o vidro aberto, conforme atravessávamos a Av. Pompéia em direção a Jardins, e congelando a motorista. Bêbada, claro. Enquanto ouvíamos Stooges no último volume e xingávamos uma à outra por conta da porra da janela.

Eu gostava quando as minhas amigas decidiam parar de namorar e voltavam repentinamente à vida social, dispostas a sair todos os dias e todas as noites da semana, sabe como é. E a Lê tinha acabado de terminar com a sua namorada pé-no-saco, a mesma lesma morta com quem ela havia se encasulado por longos oito meses – para o meu desgosto. Ou seja, ela era uma companhia certeira e perfeita para aquela noite.

Chegamos à Frei Caneca tão logo o trânsito nos permitiu – argh, São Paulo – e estacionamos muito mal estacionado em uma vaga estreitíssima a duas quadras do meu apartamento. As quatro long necks de Itaipava divididas no barzinho perto da casa dela enquanto eu me atualizava prolongadamente acerca do seu término com a garota já haviam batido no meu estômago vazio e subido consideravelmente à minha cabeça. Contudo, o vento gelado – rua acima – tratou de me deixar sóbria.

Entramos no apê com as luzes já acesas e ela fez qualquer comentário maldoso sobre a sala – que, de fato, estava uma zona. Larguei-a lá para tomar um banho rápido e trocar a roupa sem graça do trabalho. Passei pela porta aberta da cozinha e vi o Fer, só de bermuda, fritando qualquer coisa no fogão, de costas viradas para o corredor. Pedi não muito educadamente para que ele arrumasse a bagunça que havia deixado em cima do sofá. Caso contrário, lhe disse, a minha visita não teria onde se sentar.

Quarenta minutos de água-toalha-armário-secador-jaqueta-e-tênis depois e eu estava pronta para acompanhar a Letícia até o Inferno se fosse preciso. Mas, digo, figurativamente falando... não a balada a poucas quadras dali.

Ou, bom, vai saber...

Minha mais recente obsessão era um novo par de Nikes preto e vermelhos, que eu usava para cima e para baixo, combinando-o com uma camiseta vintage dos Rolling Stones e skinny jeans. Então saí para a sala, claro, me achando pra caralho. A Lê me esperava lendo qualquer revista jogada em cima da mesa, ali em pé. Agora, sem o seu respectivo casaco, reparei em uma manga fechada ao redor do seu braço direito.

_Que foda, cara... – disse, impressionada, pegando na tatuagem para olhar direito – ...quando você fez?!
_Faz uns quatro meses... não, espera. Cinco.
_Numa sessão só?
_Não, foram duas. E custou os olhos da cara.
_Nossa... Ficou demais, meu!

De repente, o Fer entrou na sala – agora devidamente vestido –, com cara de quem estava atrasado, e se meteu entre nós para vasculhar a mesa, que estava atolada de papéis.

_Ou, você viu minha chave?!
_Não... não tá na cozinha, talvez? – perguntei.
_Não – disse, sem me olhar, e passou a procurar pelo sofá – caralho, viu. Já era pra eu tá passando na Mia... você vai hoje, né?
_Nem vou – expliquei, fingindo descaso de forma convincente – a gente vai comer no Vitrine com umas amigas agora e depois... sei lá.
_Tá me tirando, né?! – ele olhou pra minha cara, interrompendo a busca.
_Não, por quê?
_Por que você não vai lá, meu? – ele questionou, revoltado.
_Ah, cara, sei lá... não to afim de ir na Sarajevo. Já disse parabéns pra ela na terça, já tá bom.
_Pô, mano... que sacanagem. A Mia me perguntou mil vezes se você ia essa semana e você fazendo cu doce aí, porra. Ela mó queria que você fosse. Cola lá, meu, nem que seja só pra dar um oi. O Vitrine é ali do lado, a gente vai chegar lá pela meia-noite...
_Ah, Fer... não sei – respondi, relutante, e ele me olhou sem paciência – vou ver... não tô muito afim de ir, não.
_Tá. Você que sabe. Preciso sair – disse, continuando a procurar.

Assim que achou a maldita chave, passou apressado e saiu batendo a porta. A Lê me olhou imediatamente, confusa, sem entender o porquê de eu ter mentido três ou quatro horas antes quando lhe liguei desesperada e afirmei estar absolutamente carente de um programa para sexta à noite. O que não fazia o menor sentido para ela agora, tendo em vista que a Sarajevo era – declaradamente – uma das minhas baladas favoritas.

_Eu... – hesitei em explicar, meio de saco cheio, sem realmente querer ter que tocar no assunto – ...peguei essa mina dele.
_Cara – ela arregalou os olhos com a minha declaração e começou a rir – você tá sempre na merda, hein.

outubro 13, 2010

Hangin’ on the telephone ♫

A sexta-feira chegou excepcionalmente rápido, acelerada pelo tanto de trabalho acumulado que me aguardava no estúdio quando eu finalmente decidi dar as caras por lá. Três horas extras forçadas na quinta-feira, argh, e sossego algum na manhã seguinte de pura escravidão. É assim que vocês tratam uma funcionária recém-recuperada de uma enfermidade seríssima, seus porcos insensíveis?! Aquilo era uma violência contra a minha pessoa, um absurdo. Mas, tá. Que se dane, dei de ombros, lá pela terceira xícara de café do dia. Sentada na pia da cozinha do trampo, em uma pausa longa-demais em um protesto hipócrita contra a sobrecarga horária, eu me auto-consolava e pensava: o fim de semana tá logo aí.

Estava, na verdade, a uma hora e meia dali. E trabalhando daquele jeito, como uma mula de carga, ele chegaria antes ainda. Uff. O lado bom, no entanto, era que o stress me impedia de mandar mensagens para a Mia o tempo todo – o que, considerando a minha mais nova consciência (também conhecida como Marcos), funcionava ponderadamente ao meu favor. Porém, era chegada a sexta-feira. E isso, por si só, também não podia ser bom sinal na minha vida.

Não que eu estivesse lá muito preocupada com isso. Minha mente, agora, divagava sobre as bolinhas de ar que se formavam no meu café, numa análise cromática sobre a tonalidade amarronzada que saía do líquido preto. Ahn?! Uma vez que se esgotaram as bolhas e todas as minhas possíveis desculpas para continuar procrastinando, desci as escadas mais uma vez para buscar as provas de uma sessão que deixei imprimindo na máquina do estúdio. Voltei com uma pasta cheia à minha ocasional mesa e sentei-me sem vontade alguma de começar, grudada impacientemente no celular. Há duas horas, o Gui se empenhava em uma campanha telefônica para que eu o acompanhasse na Bubu naquela noite – o que, obviamente, estava fora de cogitação.

_Só vai ter homem lá, mano! – eu repetia, brava, já na terceira ou quarta chamada que ele me fazia naquela tarde.
_Meu... você me dá bolo atrás de bolo, você não tem poder de decisão. Vamoooos... – ele cantava ao celular e eu podia imaginá-lo dando pulinhos de insatisfação do outro lado da linha.
_Não, meu!
_Você não tá toda namorandinha aí com a outra, caralho?! Que diferença faz se só vai macho?
_Simplesmente porque não vou comprar, não quer dizer que eu não vou olhar... - argumentei, segurando o aparelho contra o meu ombro, enquanto minhas mãos se ocupavam com as fotos – e outra: homem é um negócio muito feio, mano. Tudo amontoado, suado, naquele forninho, se pegando... Não. Não. Não dá.
_Aaai, que exagero, como se fosse tão ruim assim...
_Gui, já fui na Bubu de sexta... não dá, sério – eu enfatizei, indignada com a insistência – vamos em outro lugar.
_Piranha, viu. Eu já vou estar em Pinheiros, meu, vai... que custa?!
_Não. Não, não, não.
_E você está sendo injusta, sempre dá umas meninas...
_Gui: NÃO.
_Ahh... você vai. Você vai e ponto final.

Então, ele desligava. Antes que pudesse ouvir o trigésimo “não”. Aí eu, por minha vez, rediscava para a Marina, com quem eu havia falado há menos de uma hora, e ela atendia com aquela voz desagradável de quem não quer nada comigo.

_Mas o que vocês vão fazer? – eu insisti.
_Ficar em casa, meu... – ela respondeu, impaciente – por que você inventa de sair comigo nos piores dias?! Já falei que não dá, hoje não dá.  
_Não sou eu que “invento”, meu! Não é minha culpa! Ela que meteu o aniversário dela na sexta, porra! Eu sei lá porque não fez na terça logo de uma vez! Vai, por favor... Eu preciso de gente confiável do meu lado hoje, Marina, eu não posso aparecer naquela droga e fazer mais merda ainda. Vamos, meu, por favor... Qualquer coisa!
_Mas precisa ser comigo?! Que saco, chama outra pessoa!
_Não, você sabe que eu só confio em você – disse, como se fosse óbvio.
_Eu vou estar ocupada, sinto muito, baby. Procura outra babá pra você.
_Nããão... – eu choramingava – o Gui quer me arrastar pra Bubu, meu... não quero ir, só vai ter marmanjo lá. No-jen-to. Não dá, não dá.
_Mas você também, hein?! Quer sair de qualquer jeito, “oh! pelo-amor-de-deus!”, mas quer ficar escolhendo, né?
_Não! Não quero! Com você, eu saio. Para qualquer lugar. Qualquer lugar. É só escolher. Juro. Pode até levar a outra mina junto. Mas vamos... Por favor, vamos! Por favor!
_“Pode até levar”... – ela riu, me ironizando – não, a gente não vai sair. Desencana.
_Ah, mano, é sexta-feira! Porra, Má, sério que você vai ficar dando uma de mimimi?! Vamos fazer alguma coisa!
_Eu já combinei, meu... e tá friiio! Não quero sair! A gente vai ficar no apê, juntinhas, vendo filme... fazendo um lance de boa... a Bia queria cozinhar também...
_...
_Alô?!
_Desculpa, eu dormi por um segundo.
_Vai à merda.
_“Vai à merda”?! Você se ouviu falando? Quantos anos vocês têm? Cinqüenta?!?! Ah, pelo amor de deus, Marina... ficar “juntinhas”, ver filme, cozinhar, fazer um “lance de boa”... você parece a minha mãe se fosse lésbica, porra! Que deprimente, mano... puta que pariu.
_Olha, você não está conseguindo nada desse jeito...
_Tá, tá. “Perdão”. Mas vamos sair?! Por favor, meu... um barzinho, happy hour, qualquer coisa! Vejo até filme com vocês! Mas... vamos?!
_Tá louca?! Eu não vou te chamar para ver filme com a gente! – ela riu, de novo – viu... preciso trabalhar agora, depois a gente se fala.

Fim de ligação. Assim, como se fosse algo irrelevante e que eu pudesse discutir com ela em algum outro momento! Que ódio. Menos de vinte segundos depois, o Gui me liga.

_Olha, eu dei uma olhada no site e vai tocar o...
_Gui, eu não vou na Bubu. Não vou e acabou. Escolhe outro lugar.

Desliguei o telefone, já impaciente, de saco cheio daquela insistência toda. Respirei fundo e aí redisquei mais uma vez para a Marina.

_Você é uma chata, sabia?! – comecei a despejar no ouvido dela, indignada, assim que ela atendeu – quando eu mais preciso de você, você vai e faz isso comigo, meu?! Vira as costas e vai lá ver filminho e cozinhar com essa “Bia” aí! Mano, não dá para vocês fazerem isso amanhã?? Ou melhor, faz no domingo! Domingo é que é dia de se entediar até a morte, não sexta!
_Essa conversa já acabou. Quer parar?
_É só hoje, Má... Só hoje. Eu juro. Eu só preciso que passe essa droga desse aniversário. É do lado de casa, mano, eu preciso ir pra bem... bem... bem longe!
_Vai pra Bubu, oras.
_É só subir a Rebouças, Marina.
_Você não vai subir a Rebouças nesse frio do cacete! Eu duvido.
_Mesmo?! – perguntei com todo meu sarcasmo, ciente da minha capacidade.  
_Ok, talvez você suba... – ela admitiu – mas não dá. Hoje não dá, flor. Sinto muito.
_Marina, por favoooooooooooor... Por favor! Por favor! – comecei a repetir a fim de vencê-la pelo cansaço.
_Olha, eu até entendo o seu desespero... – ela seguiu falando, por cima da minha voz, me ignorando – ...porque eu sei que não adianta eu falar para você simplesmente não ir, que você vai acabar aparecendo por lá, já que você é uma retardada mesmo – ela teorizou, enquanto eu a detestava do outro lado da linha, agora ouvindo-a – e claro que eventualmente isso vai sobrar para mim, de um jeito ou de outro. Mas, ainda assim, vou te dizer “não” e aceitar o risco.
_Eu te odeio, você sabe que eu te odeio – apertei os olhos, fazendo birra.
_Ahh... Eu te odeio também, meu amor – ela riu.

Desgraçada.

Quando desliguei o celular, eu continuava sem um plano decente do que fazer comigo mesma naquela noite e o relógio da parede já se aproximava perigosamente das seis... oh, well.

outubro 09, 2010

Adequação

É possível normal saudável aconselhável sentir que tudo, finalmente, começa a dar certo... justo quando as coisas estão dando tão errado?

outubro 08, 2010

(Des)ânimo

Tranquei a porta atrás de mim, sob o risco de encontrar o Fer, adentrando o nosso apartamento classe-média-paulistana com a cara e a coragem: a coragem metida covardemente entre as pernas e a cara amassada de tanto ter chorado ao telefone, coisa que não fazia desde a madrugada em que liguei para o Gui com o meu pobre coração na mão e confessei pela primeira vez aquele amor absurdo pela Mia. Ou seja, entrei lá sem nada – e com menos ainda ao meu favor. Para a minha sorte, porém, o cômodo estava em perfeito silêncio... e desabitado.

O Fer não estava. Ou, mais provavelmente, estava dormindo – já passava da meia-noite e meia. E o cara levanta cedo amanhã para trampar... é, pois é, fazia sentido. Funcionário de uma empresa nas redondezas da Av. Paulista, o Fer era o programador mais tatuado que eu conhecia e um dos melhores também, apesar de não levar o emprego tão a sério. E eu não queria encontrá-lo tão cedo, não com aquela cara de quem estava com um problema bem maior do que deveria ter numa quarta-feira à noite.

Mas, não, o Marcos não ia contar. Quer dizer, eu espero. Argh, aquela insegurança me tirava do sério. De repente, uma situação que nunca esteve lá muito sob controle, saíra completamente das minhas mãos – e fora parar nas da pior pessoa possível. Ou segunda pior, ok. Eu e a minha estupidez ilimitada, puta que pariu, eu me xingava, ainda indignada, enquanto deixava as chaves em cima do móvel da sala.

O que mais me incomodava, no entanto, era a rede de mentiras que aquela minha falta completa de vergonha na cara estava me rendendo – e eu odiava ter que mentir para os meus amigos. Ainda assim, havia lhe garantido de que resolveria a situação eu mesma, seja tendo uma conversa sincera com o Sr. Namorado – há! Até parece... – ou deixando a Mia de vez, o que também me parecia pouco provável àquela altura. Ou seja, as chances de aquele rolo se emaranhar ainda mais pelas semanas meses seguintes e o Marcos, enfim, se encher e acabar me delatando por conta própria... eram, sim, bastante grandes.

Faz diferença agora?, minha mente protestou contra si mesma, cansada de se ocupar com aquilo. Não era desprezo pela situação ou menos ainda descaso, pois minha consciência latejava a importância daquela conversa desde as pedras sujas da calçada da Augusta até em casa. Talvez fosse justamente esse conhecimento, essa noção toda de quão relevante aqueles poucos minutos ao telefone realmente tinham sido, que me levava a um desgaste emocional tão devastador, àquela apatia que se fazia notar nos meus olhos e movimentos. Talvez fosse bem isso: o peso daquela confusão, que acabara de piorar mil vezes mais, chocando contra o meu corpo e me fazendo pensar “deixa pra lá, deixa pra lá...”. Depois me ocuparia com aquilo.

Arrastei os meus All Stars surrados, que em algum momento, alguma vez, dois ou três anos atrás, haviam sido brancos, pelo chão escuro de madeira da sala e atravessei a linha que a separava do piso frio cor-de-gelo da cozinha. Puxei uma cadeira, tomada por aquela impassibilidade súbita, e me sentei por alguns segundos no escuro. Por mais que a minha cabeça se recusasse a pensar naquela história, a desgraçada me rodeava insistentemente.

Que inferno.

Tirei o celular do bolso e coloquei-o indelicadamente na mesa, como se me livrasse da própria arma do crime. Maldito, encarei-o toda infantil, com ódio e os braços cruzados contra o corpo. Mas aí senti, de repente, uma necessidade estranha de falar com a Mia. Só avisar, sei lá, que estava tudo bem – quando, na verdade, não estava. Ainda que ela não soubesse do rolo que se seguiu à minha saída do seu apartamento. E então, checando dez vezes a porra do destinário, enviei-lhe uma mensagem.

Depois escorreguei pela mesa, afundando o rosto cansado nos meus braços cruzados sobre a tábua, ainda ligeiramente gelados do frio que estava lá fora. Estou fodida, suspirei com pesar, submersa em mim mesma. Inspirei. Inspirei fundo e expirei mais uma vez, lentamente, tentando me livrar dos meus fantasmas. Que grande merda. E, então, senti o celular vibrar a superfície da mesa. Levantei os olhos por trás do meu antebraço direito, esticando o esquerdo para pegar o aparelho, e abri a mensagem diante do meu corpo, ainda debruçado sobre a mesa da cozinha.

“Hahaha eu disse q. vc ia congelar! Da prox. vez te empresto meu moletom, se vc ñ for tão cabeça-dura ;) e to qrendo ir dormir tbm, mas to aqui no chão da sala ainda, ñ consigo parar de ouvir o cd... me faz pensar em vc.”

E aí abri um sorriso na mesma hora, claro.

outubro 05, 2010

A porra do alfabeto

Primeiro toque. Nada. Eu subia novamente a Augusta, agora tomada por uma agitação interna violenta, decorrente do susto que há pouco me parou os pés e o coração. Droga, droga. O incômodo, o vazio das ruas, invadiu o meu corpo e eu me sentia realmente mal, sem saída, indo na direção contrária a que eu deveria, me afastando o quanto antes do meu apartamento. Segundo toque. Caralho, atende. Atente, por favor, atende. O desespero começou a tomar conta de mim. Sentia-o subindo, agudo, pelas minhas veias, passando por cada célula arrependida de mim até engasgar na minha garganta. E nada, nenhuma voz do outro lado da linha. Uma letra, inferno. Uma porra de uma letra. Como eu sou idiota, como eu sou idiota, eu não me conformava. E aí veio o terceiro toque. A ausência de resposta me desesperava, mais do que qualquer megavolt do choque repentino de segundos atrás, aquele, ao ler o nome do melhor amigo do meu melhor amigo sob a tal mensagem revoltada.

Quarto toque e nada. Então, parei em frente a um muro abandonado e deixei minha cabeça apoiar-se contra o cimento. Não tinha motivo algum para continuar. Completamente desacreditada, como se já houvesse perdido a batalha e sem sequer ter tido a chance de me explicar. Quinto toque. A única opção que me restava era torcer, em vão, com os olhos apertados, sentindo o concreto contra a minha testa e a inutilidade do celular contra o meu ouvido. Ele não pode ligar para o Fer, ele não pode, não pode..., eu implorava no frio, sozinha no meio de uma noite em São Paulo. Por mais que eu quisesse me encher de qualquer esperança remanescente em mim, a demora e a maldita escolha nada educada de palavras dele me forçavam a aceitar o fato de que agora eu havia fodido tudo de vez. E eu sequer tinha uma desculpa, não tinha argumento algum, minha mente estava tomada pela ansiedade e uma leva de lágrimas precipitadas começava a se formar dolorosamente ao redor dos meus olhos. Merda, mil vezes merda. Sexto toque - e, de repente, o Marcos atendeu.

_Fala.

Meu coração parou pela segunda vez. Suspirei ao escutar aquela voz grossa, pesada, sem vontade alguma me ouvir de volta. Ah, isso não vai ser fácil..., pensei, abrindo a boca para consertar a besteira que eu havia feito, sem saber direito como, e sentindo todo o nervosismo entrar no meu caminho.

_Má... eu... - tropecei nas primeiras palavras, sem querer ter que enganá-lo - eu... eu... você não entendeu. A mensagem não foi...
_O que eu não entendi?! - ele me interrompeu, soando indisposto para aquele rolo.
_A mensagem não era para você, era... - retomei, covarde, falando mais baixo ainda.
_Isso eu percebi - ele me cortou de novo, irritado.
_Ela era... era... para a Marina - senti minha respiração tremendo, perdendo a coragem, prestes a inventar uma mentira descarada - é que eu... não é o que você está pensando.
_Não é? Me explica, então, o que é. O que diabos aquilo pode ser - ele levantou o tom de voz, me diminuindo mais ainda.
_Não... Não tem nada a ver... Eu sei o que você deve estar achando, mas... mas eu... eu não... - respirei fundo - foi uma amiga da Marina... e eu... estava só estava contando. Não tem nada a ver com... É que essa menina... ela... ela...
_Ela o que?! Chama "Mia", por um acaso? - ele retrucou, nem por um segundo convencido, e as lágrimas começaram a correr involuntariamente pelo o meu rosto.
_Má... - eu implorei, ainda encostada contra a parede, subitamente derrotada - ...Má, por favor.
_Você é muito cara de pau, mano...
_Ele não pode saber, meu, não pode - eu chorava, sentindo aquela confusão toda entalar na minha garganta, sem saber o que fazer. 
_O que você quer que eu faça, porra? - ele brigou comigo e eu fechei os olhos novamente, inconformada com a minha burrice - como... mano, como você pode dizer que tá apaixonada pela garota??
_Eu... eu não...
_E fazer isso pelas costas do cara... meu... porra, mano. Você foi longe demais. Vocês duas, aliás, porque essa menina aí... meu... o Fer vai ficar acabado quando souber disso - continuou, tomando as dores do amigo, de certa forma com razão - como você pode comer a mina do teu amigo, mano?? Você tem noção do que fez?!
_Má, eu... eu...
_O que, porra?!
_Eu... me apaixonei por ela. Eu... - tomei ar mais uma vez e senti-me um pouco melhor - ...eu sei que eu não tenho desculpa. Que é imperdoável. Eu sei, Má, mas eu... eu realmente gosto dela.
_Ahh, vá... Você gosta de qualquer rabo-de-saia que passe na sua frente! Não dava para achar outra, caralho? Tem que olhar pra namorada do seu melhor amigo, porra?!
_Não! Não é assim! Eu... Má, eu amo ela. Amo mesmo. Eu não sabia mais o que fazer. Isso me torturou por meses, eu juro que não planejei... e agora, agora já foi... Eu... - disse sem pensar - ...eu vou falar com o Fer. Eu vou dar um jeito. Mas não assim, não agora. Por favor, ele não pode descobrir por você, ele não vai me perdoar nunca.
_É lógico que ele não vai te perdoar, mano, olha o que você foi fazer com o cara!!
_Mas eu não queria, eu... Má, pelo amor de deus, você tem que entender. E o Fer... o Fer também já... já traiu ela... não é como se...
_O Fer, o quê??

Merda. Fiquei muda de repente.

_O que você falou?! - ele retomou, indignado - o Fer fez o que?!
_Ele... ele traiu ela, Má. Você viu, você... você tava lá quando começou... no seu aniversário.
_Mano, vocês se merecem. Puta que pariu. Vocês se merecem mesmo - ele riu, sendo sarcástico.
_Má, por favor... eu estou te implorando... me deixa resolver isso sozinha, meu - limpei minhas lágrimas, virando contra a parede e apoiando as costas no cimento, já mais recuperada - não conta nada para ele. Por favor.
_Não sei... - ele suspirou - ...não sei... - e aí levantou novamente o tom de voz, revoltado - ...por que diabos você foi me meter nessa, porra?
_Desculpa. Desculpa, meu, desculpa.

Ficamos em silêncio por um instante. Eu podia sentir o peso dos pensamentos que conflitavam na sua cabeça do outro lado da linha e segurava a minha respiração, na tentativa de me acalmar.

_Má, por favor?!

outubro 01, 2010

Presta atenção

E aí dançamos. Dançamos, pelo chão, a tarde toda. "Comi a Mia de novo. To apaixonada, meu... pqp.", digitei para a Marina conforme descia as escadas, passando pela entrada do prédio onde eu havia passado metade daquele dia frio. Do caralho, porra. É, eu era simplesmente a garota mais feliz de São Paulo. Não conseguia parar de sorrir, tonta, andando pelas ruas escuras como uma esperta que se acha mais leve do que o ar. Ridícula, mas que se dane.

Consegui pegar um ônibus exatamente no espaço de tempo que a Mia chutou que ele passaria - no máximo, 5 minutos -, me sentindo realmente com sorte, e sentei toda satisfeita em uma das cadeiras encostadas lá no fundo. Uma curiosidade momentânea acerca do horário cruzou a minha mente. Quem sabe onze e meia... mas talvez já passasse até da meia-noite, sei lá. De um jeito ou de outro, já estava tarde e eu não tinha sono algum. Não com aquela empolgação - bobinha - que circulava pelo meu corpo inteiro.

Como era de se esperar, o ônibus dava uma considerável volta para chegar no não-tão-longe-assim. Me esparramei sem pressa no banco, apoiada confortavelmente contra o encosto, olhando para o lado de fora e para as luzes da cidade que eu tanto amava. O frio e o horário deixavam a Av. Paulista vazia. E linda, linda pra caralho. A imagem da Mia naquela tarde voltou à minha cabeça. Tão viva que eu quase podia senti-la ao alcance dos meus dedos, que agora percorriam o vidro gelado da janela do ônibus, toda riscada, judiada pela má educação urbana. 


E podia vê-la, a Mia, observando silenciosamente o quarto ao redor enquanto fumava um cigarro. Um dos meus. Sentada sem roupa ao meu lado, com os cabelos soltos cobrindo parte das suas costas bem-traçadas, completamente confortável com a minha presença ali. Assim, um estar junto, mas sem encostar e nem fazer grande coisa disso... um bem-estar compartilhado, tranqüilo.

Minha mão corria as luzes de São Paulo, como percorria o seu corpo... enquanto os semáforos e letreiros refletiam coloridos na janela, eu fechava os olhos e lembrava de como era tê-la assim tão perto de mim. Como aquilo me fazia feliz, puta que pariu. E era justamente aí que estava o perigo... esse vício inevitável dela, aquela abstinência recorrente de serotonina, prestes a sair de vez do meu controle.

E ia sair - disso eu tinha certeza. O que não quer dizer, é claro, que em nenhum dia desde que eu havia me metido naquela confusão, há meses, eu havia tido qualquer forma ou sentimento minimamente semelhante a "controle". A questão, agora, é que o ponto de retorno tinha sido, enfim, ultrapassado. E era isso, esse era o perigo. Eu sentia que estava indo, indo sem volta - sem ter como. E sabia que ia complicar - é, ainda mais -, mas tudo o que vinha à minha mente era ela. Ahh, ela. E aquela tarde e a noite que a antecedeu. E todas as outras, as outras vezes, as que vieram antes dessa. Tudo.

Tudo o que era nosso - e eu gostava em demasiado de ter qualquer coisa só minha e dela, é claro. Lembrei de algo que ela disse, sem sentido com o contexto, numa linha de pensamentos desconexos a seu respeito, algo sobre os membros da staff da Sarajevo, e ri sozinha no fundo do ônibus. Ah é, a festa... quase havia me esquecido, envolta nas minhas divagações babacas e apaixonadas. O aniversário dela. O mesmo que foi motivo de debate por minutos a fio entre nós duas, eu e ela nuas, deitadas sobre o tapete da sala.

Não queria ir. Gostava da Sarajevo e gostava demais da Mia, evidentemente... só não era fácil - e eu queria me poupar disso. Poupar o mundo inteiro, aliás, que não precisava saber da minha dificuldade em ficar perto da namorada do meu melhor amigo. Não queria que meia capital paulista visse isso estampado na minha cara quando eu estivesse absurdamente bêbada, perdida pela pista, odiando os braços dele ao redor dela.

Depois penso nisso, decidi ao sair do ônibus e descer numa Augusta abandonada. Nem as putas estavam com muita coragem de enfrentar aquele frio do cão, àquela hora da noite, sem um carro ou uma alma viva sequer nas ruas. Para qualquer lado que se olhava, para cima ou para baixo daquela ladeira de renome, o vazio se fazia notar brutalmente. Era até incômodo ver a Augusta assim. Não fazia sentido e
também não me parecia  lá muito seguro - não para uma garota sozinha, vai saber.

Então, apertei o passo. Comecei a descer o tanto de calçada que faltava, sentindo o vento cortar os meus braços descobertos, que se encolhiam cruzados em frente ao meu corpo. Devia ter trazido a porra da jaqueta, pensei pela milésima vez naquele dia, me torturando sem muito propósito. Foi quando o meu celular tocou. Por um ou meio segundo, o que avisava a chegada de um SMS. Que só podia ser da Marina, óbvio, pagando um pau federal para as minhas peripécias numa resposta longa e animada - segundo pressupôs a minha prepotência toda. E isso me encorajou a esticar o braço no frio para alcançar o aparelho no bolso de trás da minha calça.

No entanto, o primeiro relance nas poucas e nada amigáveis palavras que compunham a mensagem, me fizeram repensar. Não o remetente da mesma, porque isso estava escrito logo ali embaixo, mas o destinatário da outra, da que eu havia mandado enquanto descia pelas escadas do prédio da Mia. E aí, inferno, eu percebi a grande merda que eu fiz.