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maio 31, 2012

Velhos amigos

_E aí, rockstar... – ele me zombou, já sentado e apoiado contra a parede, tão bêbado quanto eu; revirei os olhos automaticamente – ...relaxa, meu, não vim aqui para isto...
_Aham, sei. Porque, nas últimas vezes que a gente se trombou, você foi “tão legal”, né.
_Cara... – ele riu da minha atitude, toda amarga – ...você gosta mesmo dessa mina, hein?
_Eu nã... – suspirei – ...eu não vou discutir isto com você.

Balancei a cabeça, irritada. Não era como se ele estivesse sendo agressivo comigo – pelo contrário, aquilo era o mais tranquilo que eu o vira ao meu lado em meses; as suas intenções de fato não pareciam ruins –; contudo, o meu julgamento já não estava lá dos melhores. Influenciado pelos comentários dos meus amigos idiotas, repetidamente, na última hora e pelos litros de álcool que corriam deliberadamente nas minhas veias. Não devia ter fumado aquelezinho, argh. Todos os meus sentidos rodavam, zonzos. E tudo o que eu queria era esquecer a história daquela porra daquele beijo.

_Pensar que nós costumávamos ser amigos, hein...
_Cara, você acha que eu gosto desta merda que tô com você?! – respondi.
_Bom, não é como se eu também tivesse pedido pra ser incluído nessa, você que m...
_Ah! Você acha que foi de propósito?! – traguei, soltando a fumaça em seguida e interrompendo-o – Porra, se tem uma coisa na minha vida que eu queria ter feito diferente...
_Isto?! E comer a mina do teu amigo você não teria deixado de fazer, então?!

O olhei de volta, ofendida. Cala a boca, mano.

_Eu não... espero que você entenda, viu... não mesmo, Marcos.
_E o que tem pra entender?! – ele retrucou, agora levemente exaltado; eu suspirei, sem vontade de ter aquela conversa – Meu, como você consegue?! Morar com o cara assim, olhar na cara dele todo dia, mano, escondendo uma parada dessa dimensão! Não sei como ele não percebe, na boa...
_Não tem o que perceber. Não tem mais nada entre nós duas – soltei a fumaça mais uma vez e apaguei a bituca no chão, sendo curta e grossa; mentira –, ela escolheu ele. Se você quer saber... É assim que eu “consigo”.

Levantei, sem ânimo mais para aturar o assunto. E ele me seguiu, segurando o meu braço antes que eu pudesse chegar à porta. Tira a mão, porra. “E aquilo foi o que, então?!”, me perguntou e eu perdi o resto da paciência que male-mal me faltava. Não me enche, bêbado de merda. Puxei o braço de volta, me soltando dele. “Não sei do você está falando”, retruquei e ele riu – agora, sim, com a mesma porcaria de má intenção dos últimos meses.

_Como não?! – levantou a voz para mim, no meio do corredor – Você beijou a mina na frente de todo mundo! E você não sabe do que eu estou falando?!?
_Ah, mano, vá à merda. Aquilo era uma brincadeira! Uma brin-ca-de-i-ra!! Você entende isto?! – gritei de volta, já sem controle.
_Uma brincadeira?! Você vai mesmo me dizer que AQUILO foi uma brincadeira?
_Claro que foi! Acorda, caralho!! Eu sequer escolhi aquela porra de jogo, não teve nada a ver comigo... – gesticulei, nervosa com as pressuposições dele – Foi até outra mina que me desafiou!!
_Quem? A amiga da Mia?! – ele riu mais uma vez, sendo sarcástico; argh, como me irritava! – É, vocês duas são muito convincentes mesmo...
_Eu não preciso ouvir isto, na boa. Vai tomar no meio do seu cu, Marcos! O que é, agora?! Hein? A porra da teoria da conspiração??
_Teoria da consp... – ele mesmo se interrompeu, rindo – ...cara, você tem culpa estampada na sua testa inteira! Se toca!! Só o jeito que, que você OLHA para ela; meu, nem aqui, nem na China que vocês não estão se pegando mais.
_Não, não estamos. Sinto acabar com a sua graça, hoje ou nas próximas vezes que a gente se ver, mas não: não estamos. Acabou! Entendeu?!

Ele me olhou descrente, com uma expressão irritante. Eu estava tão bêbada – tão fora de mim – que tive vontade de acertá-lo no meio daquela sua cara de babaca. Todavia, neste momento, o seu olhar desviou para cima dos meus ombros. Eu virei para trás e encontrei com o Benatti deixando o apê, cambaleando, provavelmente se dirigindo à saída de incêndio, acompanhado da garota que havia sido meu erro na época de colégio. Ótimo, virou lazer comunitário agora?! Revirei os olhos.

_Ah, é?! – o Marcos, que também frenqüentara a escola com todos nós, se aproximou e me disse em tom mais baixo – Me fala, então, em quantas festas você já foi e não pegou ninguém a noite inteira? Hein, Sra. Não-Tô-Nem-Aí-Pra-Mia?!
_Fala baixo, porra! – murmurei de volta, intolerante – E olha, pra sua informação, eu tô saindo com uma garota, sim. Sensacional, aliás. Ela só... teve... outra festa pra ir hoje...
_Sei. Porque o seu respeito pelas garotas com quem você sai é mesmo sem precedentes...
_Cala a boca! Cara, quem você acha que é para falar da minha vida assim?! – tornei a levantar o tom de voz, e foda-se quem ouvir – As escolhas que eu tomo não têm nada a ver contigo, mano. Fica na sua, porra!
_Eu?! Eu te conheço desde o primário, garota. Se tem alguém aqui que te conhece, sou eu!! – e eu, o quê, “traí” suas expectativas então?
_É? Então me diz, vai, quem é que estava dando em cima de ex-namorada vagabunda no seu aniversário?! Hein? Me fala! Quantas minas você contou eu pegando na sua festa? Quantas foram?! – ele hesitou, sem querer admitir que fora o Fernando o desleal naquele dia; balancei a cabeça, inconformada com sua hipocrisia – É, né. Sabe quantas? Nenhuma. Então vê se não me enche, porra!

Dei as costas para o Marcos e entrei de novo no apartamento, irritada, largando-o no corredor. Estava cansada e mais bêbada do que deveria estar, ainda. Me irritei imediatamente com a festa – que seguia com menos pessoas, mas não menos barulhenta –, tão logo eu pisei na sala. O Benatti me alcançou correndo, a poucos metros da porta, com a garota a alguns passos atrás, olhando-nos de braços cruzados e expressão descontente.

_Cara, que rolou com você e o Marcos?!? – ele me segurou pelo ombro, completamente embriagado – Cês brigaram?!
_Ele é um filho-da-puta, um babaca. É isto que está acontecendo! – respondi, sendo grossa – Você não se mete, Benatti. Ouviu?! Isto morre aqui.

Me virei e andei até o quarto, me fechando ali até o final da festa. Ele deu com as mãos para cima, no estilo “não está mais aqui quem falou”. E, em algum momento, eu apaguei.

maio 25, 2012

Os valores modernos

Surreal. Sentir todos aqueles olhos em nós, pela primeira vez, expostas ali. Ainda que os meus estivessem fechados, havia os sons da festa; o rádio tocando alto; as pessoas que nos rodeavam, bêbadas. E atentas a cada gesto meu. Acidentalmente, as nossas mãos encontraram-se sobre o piso de madeira; as pontas dos nossos dedos tocaram-se de leve. Não segura a cabeça dela; não, nada de, de mãos; não encosta nela; não enc... argh. Dei-me conta, ali de repente, de que não sabia como beijá-la assim. Em público, tão vigiada.

Não sabia o que não fazer.

O que podia ou não fazer, isto é, na frente de todo mundo. Pois se por um lado não queria conter-me demais, dando a entender que aquilo me afetava; por outro, também não podíamos demonstrar qualquer intimidade em nosso beijo. Tudo em milésimos de segundo; e a Mia sorria. Milhares de pensamentos corriam em disputa, ao mesmo tempo, pela minha cabeça. Embriagada e mesmo com os olhos fechados, podia senti-la sorrir a milímetros do meu rosto. Me aproximei lentamente, mais lentamente ainda. Eu estava nervosa, hesitante. Os nossos lábios, enfim, se tocaram. Está acontecendo mesmo. Foi então que a sua boca, o seu gosto se fundiu tão naturalmente em mim. Tudo era como sempre fora. Fácil, instintivo.

Durou quatro, seis segundos. O suficiente, no entanto, para empurrá-la de volta à minha realidade. E lembrar-me de todos os beijos que eu ainda tinha guardados para ela dentro de mim. Quando acabou – vai ser impossível te negar agora, garota –; reabrimos os nossos olhos e nos encaramos rapidamente, rindo da situação em que nos encontrávamos. Tentei não olhá-la por tempo demais, todavia, não dar bandeira; e abaixei logo a cabeça, forçando qualquer constrangimento. “Eu vou matar todos vocês por isto”, disse, em voz alta e ri. Nos afastamos de volta aos nossos lugares, engatinhando ao revés. Teatro completo.

_Quer dizer que... – o Fer comentou como se achasse graça, me olhando, assim que eu me sentei de novo – ...agora eu posso dar um beijo na Clara?!
_Você... – eu o ameacei com o dedo, apontando-o de longe – ...não ouse, babaca!

E um copo plástico voou, então, na sua direção; das mãos da Mia, que se fazia de indignada do outro lado da roda. Estava vazio, mas ainda assim. Ele riu e se curvou, sendo acertado na altura do ombro. Todo mundo riu, aliás. E a situação parecia que seria esquecida logo, passando despercebida dentre os eventos da festa. Mas é claro – né, claro! – que não. Não. Os meus amigos idiotas nunca deixariam tão barato assim. E as horas que se seguiram pela madrugada afora só vieram a comprovar meu pressentimento. Se eu havia pensado na Mia antes de me proporem o desafio? Eu?! Eu não era nada se comparada àqueles caras. Um a um deles. Inferno.

_Mandou bem, hein... – o Benatti foi o primeiro, soltando o comentário por cima do meu ombro, conforme me alcançara no corredor quando me dirigia à cozinha – ...cara, a Mia é puta gostosa. Puta gostosa mesmo, porra. Quisera eu! Dar uns pegas nela assim e com o aval do Fer ainda, mano... – ele riu, como se me cumprimentasse pela realização do desafio – ...é tipo, meu, porra; poder comer de graça no melhor pico da cidade e não ter que se preocupar com a conta no final.
_Mano. Cala a boca! Qual o seu problema, Benatti?!?
_Quê?! – ele se surpreendeu com a minha reação, ainda que achando graça – Cara, se não passou pela cabeça de todo mundo aqui, eu não sei O QUE passou esse tempo todo. O Fernando é um filha-da-puta sortudo, meu. Todo mundo sabe disto! Aquela mina é pr...
_Não! Só não... – o cortei de repente, bêbada – ...fala dela. E me deixa, vai.

Desviei dele, encerrando por conta própria a “conversa”, e entrei pela porta da cozinha atrás de qualquer coisa não-alcóolica que me compensasse o estrago da festa. Não importava onde eu fosse, todavia, eu parecia não conseguir fugir: em todos os cantos daquela merda de apartamento lotado, tinha sempre algum engraçadinho com um comentário a respeito do maldito beijo. Santa paciência. E se não eram os meus amigos cara-de-pau, era a Mia – quem eu pretendia, sim, evitar pelo restante da festa para não levantar intriga. Eu já estou me arrependendo disto e pelo motivo menos previsível de todos, pensei, logo após o décimo a vir me parabenizar. Bando de pilantra, mano. E no décimo primeiro, perturbando-me enquanto eu fumava clandestinamente no corredor do prédio, resolvi ser direta de uma vez.

_Cara, vocês não tem respeito, não?! – reclamei e soltei a fumaça na cara dele (e do amigo anexado, logo atrás), apoiada grosseiramente contra a parede – A mina não é um prêmio, eu não tô me gabando. Ela é namorada do Fer, amigo de vocês, meu. Foi uma porra de um desafio idiota e só, caralho!

Me incomodava. Mesmo que aquilo fosse um ciúmes cafajeste, incomodava. E eu não podia me controlar. Argh. Saber que todos os seus olhos estavam nela aquele tempo todo. Na, na minha garota; na do Fer, que seja. A verdade é que nem importava de quem era, agora, pois de um jeito ou de outro me repugnava a atitude deles. Quem diabos deu liberdade para falarem assim dela?!, eu me revoltava, agora sozinha no corredor. Odiava sentir qualquer tipo de impulso protetor pela Mia, detestava não estar no controle; principalmente porque me lembrava o quanto ela não era, nem nunca fora, “minha”. Puta merda.

E agora o quê?! Hein? Faço o quê?! Não. Estava bêbada demais para entrar naquela brisa. Tentei então afastar as minhas reflexões imprudentes, os meus pensamentos sobre ela e sobre a porra da nossa situação infindável, batendo as cinzas do cigarro no chão. Sentei ali, no piso frio, com as costas apoiadas na parede. E estiquei as pernas, embriagada; sentia-me cansada.

Foi quando ouvi alguém abrir a porta do apê, um metro talvez à minha direita, deixando o som da festa escapar para o corredor. Virei o rosto para cima como num reflexo, já sem muita paciência, para olhar quem era e encontrei o Marcos com a mão ainda na maçaneta, fechando a porta atrás de si.

_Ah, que maravilha... – murmurei, inferno – ...era só quem faltava mesmo, puta merda, viu.

Ele riu, tendo ouvido parte do comentário ou ao menos captado toda a minha “empolgação” no momento, e sentou-se ao meu lado no chão. Por que diabos eu fui aceitar este desafio?

maio 24, 2012

A Coação

Merda. Fiquei sóbria na mesma hora.

_O quê?! – retruquei e o meu coração congelou.
_Beija a Mia.
_O, o quê? Nã... não!
_Vai, beija logo, meu!
_É. Um beijo de verdade, sem selinho... – a garota complementou a galera.
_Não... – eu me atrapalhei, já suando frio, inferno – Não, gente, eu...

Não conseguia me mover, sem saber como diabos agir. Puta merda. Olhei para a Mia e ela sorriu descaradamente; argh, eu sabia que aquilo tinha o seu dedo. Maldição de garota. Mas não, eu não podia. Vingança é um prato que se serve frio e por um motivo – planejamento, redução de risco etc. Ela obviamente preferiu ignorar este fato. Você está indo longe demais, porra, o meu estômago embrulhou. Eu estava nervosa. Olhei então para o Fer, um pouco atordoada, procurando qualquer resposta do que diabos eu deveria fazer naquela situação. Ok. Não que o cara que achou o máximo sua mina beijar outra duas semanas antes vá se importar, bêbado como ele então estava. Porém o que me preocupava era o possível lapso de consciência no dia seguinte.

_Meu, não dá... – retomei, um pouco mais consciente, tentando me justificar – ...isto é pegar pesado demais.
_Só um beijo! O que tem?! – a mackenzista de merda riu, a Mia se divertia com a minha hesitação.
_Como o que tem?! É... é a mina do Fer, porra!
_Ah, qual é... – o Felipe, colega nosso sentado ao lado do Fer, gritou e riu também – ...todo mundo aqui sabe que já passou pela sua cabeça! Vai, só vai logo!
_É! É só um beijo, cara – o Rafa argumentou, me empurrando com o ombro.
_Nossa, não. Claro que não! Eu nunca, eu.... Eu tenho o maior resp... – gaguejei o meu discurso fingido, bêbada, forçando uma expressão séria.
_Aaaahhhhhhh, tá! – a festa inteira gritou junto, era só o que me faltava.

Como se eu não fosse capaz de controlar nem os meus pensamentos na presença de qualquer rabo-de-saia alheio! Eu me ofendi. Tudo bem que eu, de fato, fiquei com a Mia. E que os meus pensamentos a seu respeito são tudo menos decentes. E que eu fiz com que ela o traísse durante o namoro. Mas... mas... Ainda assim! A insinuação gratuita me revoltava. Quem são vocês para presumir que eu não consigo respeitar a mulher de um amigo?!

_Aham, você?! – outro amigo respondeu alto, rindo – Tá de brincadeira, né...
_Quê?! – olhei de volta, puta – Cara, não é assim. Não mesmo!
_Vai logo, caralho... é só um beijo!
_É! Só um beijo! – o Felipe gritou bêbado do outro lado da sala, o Fer ria bêbado ao seu lado – Desafio mais fichinha, mano.
_Não! Eu... – merda – ...e você não vai fazer nada, porra?!

A Mia me olhou, rindo, e balançou a cabeça para a minha indignação com ela. É claro que não, argh. O meu coração já acelerava rapidamente, a minha cabeça seguia confusa, mais chapada que o aceitável; eu não sabia que diabos fazer. Não tinha como fugir, inferno, todo mundo me olhava, esperando.

_Não sei, eu... – gaguejei novamente, um tanto ansiosa, e aí olhei para o Fer como se lhe pedisse permissão – ...e você, vai me matar amanhã ou o quê?

Ele riu em negação, balançando também a cabeça, e ergueu as mãos num gesto como se dissesse “vai em frente”, entrando na brincadeira depois de mostrar as bolas para meia festa. Bêbado de merda. A carta era branca, agora não tinha mais volta. Então me ajoelhei, sentindo as minhas mãos tremerem, e coloquei-as no chão. Ainda insegura, comecei a engatinhar roda adentro, droga; a Mia se aproximou também. Engatinhou até mim. E nos encontramos no centro da roda, eu a olhei com toda a indignação que podia, apertando as pálpebras. Todo mundo nos observava. Ah, filha-da-puta. Fechei os meus olhos. E ela os dela, rindo. Puta que pariu, o meu estômago prestes a sair pela minha boca.

maio 23, 2012

El Caos

Aconteceu quase uma hora depois, me pegando de surpresa. Eu estava distraída. Molhei de leve o dedo na ponta da língua. Um lado ia mais rápido do que o outro, notei. Algum amigo imbecil passou e tropeçou nos meus pés largados adiante, atrapalhando todo procedimento. “Olha por onde anda, porra!”, resmunguei e tornei a me concentrar, toda alcoolizada. Estava completamente bêbada, deitada no chão da sala na boa companhia do Rafa e havia pelo menos 10 minutos que ríamos de qualquer besteira que falávamos; a festa seguia em ritmo violento. Outras pessoas sentadas e caídas à nossa volta, a maioria envolvida num jogo idiota. Com o indicador úmido percorri meio perímetro do meu baseado, logo abaixo da linha que queimava ao tragar, tentando corrigir a trajetória da brasa. Alguma coisa, de repente, vibrou na parte de trás da minha cabeça.

_Cara, saca só a mina surtando... – o Rafa, que agora me servia de apoio para a nuca, me cutucou.

Olhei para cima e vi na tela do seu celular a mensagem de uma garota qualquer. Por que tem algumas mulheres que não conseguem esperar mais de dez minutos por uma resposta? Sem entrar em parafuso?! Revirei os olhos para ele, como se conhecesse aquela história de outros carnavais, e comecei a rir. Nem um mês saindo, meu. Aquilo era mesmo uma infelicidade para o meu amigo. Dei mais um trago, acertando por fim a linha da brasa, e segurei a fumaça por bem mais tempo do que o recomendável com aquele tanto de álcool no meu sangue. A combinação não me fazia bem. Então me levantei, sentando ao lado do Rafa e frente à roda que se formava aos poucos em volta, e estiquei a mão para que ele me passasse o telefone.

_Deixa eu responder, dá aí! – pedi, com o baseado ainda na boca.
_Nossa, mas não mesmo... Jamais! – ele riu e eu me ofendi, tentando consequentemente pegar dele à força; os dois bêbados like hell – Não, eu disse que não! Pára, mano, você vai acabar com todas as minhas chances!
_Cala a boca... não vou, não. Me dá! – eu ria e ele continuava se esquivando, negando os meus pedidos – Vai! Eu juro que não pego pesado! Rafa, pô...
_Não! Meu, eu disse não! Sai pra lá!
_E cê não vai responder nada, seu frouxo?! Daqui dois meses, esta mina vai tá te segurando pela coleira, porra!! Puta merda, viu... Vocês, homens, são uns imbecis, cara – desisti.

Ele riu e ignorou o comentário, guardando o celular no bolso de trás da calça, ainda sentado ao meu lado. “Me passa isso aí”, pegou o baseado de mim e eu fiz uma expressão de descontentamento quanto aos seus culhões inexistentes. Olhei rapidamente para a Mia sentada do outro lado da sala, como estava maravilhosa, acompanhada de duas amigas que pareciam cursar Mackenzie com ela. É, não que eu possa falar alguma coisa também..., refleti. O Rafa tragava já pela segunda vez. Peguei de volta, tragando bem no instante em que o olhar da Mia cruzou com o meu. Com raiva ainda?, me diverti, arqueando as sobrancelhas para ela.

Uma movimentação no meio da roda, no entanto, nos distraiu. Um colega de trabalho do Fer desafiara outro amigo nosso. Esse jogo é uma imbecilidade sem fim. E a provocação era que ele deveria beber uma das garrafas de vodka, das que circulava de mão em mão ali, até o limite de bebida dentro do vidro atingir a marca do logo impresso. Aquilo dava cinco copos (ou mais), direto. Ah! Ótimo, vamos mandar o povo pra casa de ambulância hoje, pensei. O outro, claro, se meteu todo a macho, bradando a quem quisesse ouvir que ia mesmo virar e que não estava nem aí e o caralho a quatro. Homens.

_Não, meu. Deixa de ser idiota. Bebe só até a metade! – me intrometi na discussão, todo mundo estava opinando ao mesmo tempo – Cara, você vai se matar!

Mas “o cara” levantou, não obstante, com a garrafa em mãos e todo mundo começou a encorajá-lo a beber logo, aos gritos. Comecei a rir – vocês são todos idiotas, meu, só pode. Ele meteu o gargalo na boca, virando verticalmente de uma vez, e o líquido começou a descer como água em galões de bebedouro, as bolhas de ar subiam. Balancei a cabeça, achava uma graça tremenda nestas brincadeiras. Sempre começavam com besteiras – eu fui obrigada a dar em cima de um cara desavisado da minha orientação sexual minutos antes de voltar ao meu lugar e acender o baseado.

O álcool, evidente, ajudava na catalisação da extremidade que os desafios naturalmente tomavam. Umas cinco rodadas ntes, o Fernando foi obrigado a baixar as calças e rebolar qualquer babaquice mais recente do funk com as bolas de fora. Só propostas “de nível”. E agora lá estava ele, uns metros mais para lá, enchendo a cara lata atrás de lata e incentivando o coitado a ultrapassar a linha do logotipo da Smirnoff. Empatia não era um sentimento muito popular nestas horas.

E ele conseguiu. Qual é o propósito da nossa geração, na boa? As pessoas ao nosso redor entraram em surto, berrando e comemorando junto a façanha, enquanto um cara empurrava vitorioso o outro que propôs o desafio. Desaforo masculino – os dois riam, aquele caos se instalava graças à brincadeira, todo mundo fora de si e eu tragando o meu baseado, ali na minha, achando graça naquilo tudo. Foi quando uma das garotas que estavam perto da Mia me chamou, apontando com um gesto sutil de cabeça, na frente de todo mundo.

_Ei, você! – a loira do Mackenzie falou alto, do outro lado da sala – Duvido você beijar a namorada do teu amigo. Beija. A Mia.

maio 20, 2012

Revide-me

“Kiss me now that I'm older
I won't try to control you
Friday nights have been lonely
Take it slow, but don't warn me”
(The Strokes)

“O suficiente”, ela me encarou imprestável e respondeu. Estava bêbada. Como não a via desde que a meti no banheiro do apê em segredo, noutra festa, mais de um ano antes, ou quando a puxei para a pista escura da Sarajevo no seu último aniversário. A diferença é que desta vez eu estava mais fora de mim do que nas outras duas juntas. O risco era, verdade, grande e sempre foi – mas as cartas eram também sempre minhas.

_Suficiente para quê? – sorri e perguntei, em tom de desafio.

Ela sorriu de volta para mim. O seu vestido se amassava contra o meu tênis, firme ali; o tecido formava curvas em si. Forçou o corpo suavemente na minha direção. Os seus grandes olhos castanhos ainda fixos em mim; se movia em milímetros notáveis, distribuía o seu peso contra o meu. Os cílios delicados, os movimentos sutis no chão. Parte de mim se divertia em vê-la ali, se deleitava sentindo-a avançar aos poucos. Eu sorria – não podia evitar, aquilo me satisfazia. Desde o telefonema ao sair da sua casa, na segunda-feira, eu sabia também que era exatamente este o tipo de atenção que ela queria. E cedia, para ver até onde ela iria.

_”Para quê”, hum... – fingiu pensar e seguiu me olhando, os dedos deslizando pela barra do meu jeans; foi fazendo graça – ...o suficiente para deixar você... fazer... o que você quiser.
_Ah, é? – eu ri.

Ela acenou com a cabeça, tinha os gestos propositalmente lentos. Insinuantes. Observei-a fixamente, podia prever cada um daqueles movimentos agora. Então a empurrei mais firmemente para trás com a perna, fazendo com que recuasse um passo de repente. Coloquei o pé de volta ao chão, apoiando-o novamente, e andei na sua direção. Ela me olhou; encostei-me nela, segurando-a de leve agora pelo braço. Aproximei o meu rosto da lateral do seu.

_E quem disse... – disse-lhe, baixinho – ...que eu quero fazer alguma coisa?

A soltei. A Mia riu em silêncio, desacreditando, e sabendo que não acabava ali, eu deixei a lavandeira e voltei para a festa. Já ela ficou, por mais alguns instantes. E provavelmente me odiou um tanto, é claro – mas não o quanto eu estava prestes a odiá-la.

maio 19, 2012

12:51

À altura em que me encontrava já fora de órbita, os meus jeans favoritos haviam secado e então ganhado novas manchas úmidas de cerveja incontáveis vezes. Algo com embriaguez e a falta de coordenação, o apartamento lotado, sei lá. Cortei caminho por entre as pessoas que se acumulavam nos nossos cômodos até alcançar a cozinha – igualmente cheia, quando foi que convidamos tanta gente? – e roubei da mão de uma das garotas que eu desconhecia um whisky engarrafado. Dei dois goles bem espaçados e a tal morena arregalou os olhos, surpresa, talvez por eu dispensar bons modos com a propriedade alheia.

_E você é...? – riu, esticando a mão para que eu lhe desse a garrafa de volta.
_A dona da casa, prazer... – devolvi e sorri para ela, já meio sem limites – ...e você, hein?
_A namorada dela – fez sinal com a cabeça para outra menina, a alguns metros de nós, e desviou do meu mero princípio de más intenções, levando consigo a garrafa. Droga.

Não ligava a mínima para qualquer uma daquelas duas garotas, mas que deixasse a porra do whisky. Maldição! Dei mais alguns passos cozinha adentro, cansada de só beber cerveja, e cambaleei com certa dificuldade até a geladeira para ver – sem muitas esperanças – se o meu rum permanecia intacto ali. Nada feito, merda. Fechei a porta novamente, apoiando a testa na parte de cima dela. Oh, céus. Meus pensamentos estavam instáveis, girando. Senti-me enjoada no segundo seguinte e resolvi que precisava mandar todo mundo embora e ir abraçar a privada pelo restante da noite. Me virei e, no entanto, encontrei de cara com a Mia – parada atrás de mim, como se quisesse falar comigo. Ela sorriu; e não disse nada.

_Você acredita... – comentei, já realmente bêbada, sorrindo de volta – ...que existem lésbicas nesta festa que eu não conhecia?
_O quê?! – ela riu.
_É! Sabe, quando você... acha que já... “viu” ou, sabe, com... todo mundo...
_Meu, você não está fazendo o menor sentido! – a Mia achou graça na situação e eu me apoiei nela para ir até a lavanderia, guiando.
_Não, não estou mesmo... – concordei, já quase caindo.

Dei alguns passos tortos na direção da área de serviço e ela me seguiu, trombando em algumas pessoas no caminho. O seu ombro me servia de apoio, apesar dela estar quase tão fora de si quanto eu. Abri a porta daquele cubículo-com-máquina-de-lavar, livrando-nos da multidão agoniante, e me soltei da Mia para segurar as beiradas do tanque. Deixei minha cabeça pender, inclinando o corpo. Os fios do meu cabelo escorregaram pela curva do meu ombro, soltos no vão entre eu e aquele ralo largo e de plástico. Nada. Respirei fundo, tentando assumir racionalmente o controle dos impulsos do meu corpo, e expirei com calma. Preciso vomitar, preciso vomitar. Vai, cacete! Você já fez isto mil vezes. A Mia achava engraçada a minha determinação e eu fechava os olhos, me esforçando e ignorando-a; tentava me concentrar. A minha cabeça rodava, todavia, incessantemente.

Mas... não, não consigo. Ergui-me novamente. Dando-me por vencida, larguei as mãos das bordas frias do tanque e dei um passo meio instável para trás. Me virei na direção da Mia. Apoiei-me na parede, a olhei – pela primeira vez, de fato, naquela noite toda. Minha respiração oscilava, um tanto desnorteada. Ela sorriu, segura de si. Segura de quem era para mim. O mesmo vestido preto que usava no Inferno quando tudo começou, na noite em que agarrei a Clara na frente dela e do Fer, e com uma meia-calça grossa combinando. As pontas dos fios faziam ondas suaves, o cabelo moreno preso para baixo na lateral do pescoço. Estonteante, caralho.

_Ok, você... – apontei o dedo para ela – ...você precisa ir.
_Eu?! Por quê? – riu, ofendida.
_Porque eu, eu não... me confio... com você... – continuei apoiada contra a parede, quase atropelando as palavras de embriagada, e a sua expressão se iluminou, elogiada – ...você sabe, Mia.
_Ah, tá... E você acha que eu me aproveitaria de alguém no seu estado?

Disse sem acreditar nas próprias palavras, sorrindo. Atrás dela, a porta entreaberta dava visão para algumas pessoas conversando bêbadas, movimentando-se, e deixava que o som da festa entrasse barulhento. Olhei-a fixamente e então ri. “Vai à merda”, lhe disse. Ela riu e aí deu mais um passo na minha direção, deliberadamente, fazendo graça. Não começa isto, garota, porra. Eu a observei, parada e sem vontade alguma de controlar os meus impulsos. Podia ver os seus pés se mexendo, milimetricamente, no chão. Não, não, não começa. Aquilo era realmente excitante.

Subi um dos meus pés então, no mesmo All Star surrado do cotidiano, à altura do seu vestidinho preto e a mantive à distância. Ela começou a rir, indignada. Ergui o queixo e ela forçou o estômago contra a sola do meu tênis, como se testasse que ele de fato estava ali, impedindo-a. Olhei-a como se a batalha fora, enfim, vencida. Por mim. A Mia mordeu os lábios frustrada, me observando. Linda pra caralho. E eu estiquei a perna, afastando-a ainda mais de mim. Parecíamos duas crianças, sem controle.

_Cara, isto é ridículo... – ela constatou, rindo.
_...ah, eu não ligo...
_...patético...
_...não dou a mínima, Mia...
_...vai, me solta...
_...não...
_...escuta aqui, achei que você estava toda segura aí, que disse que sabia o que queria, que agora era diferente... – ela me provocou, se referindo à nossa conversa no começo da semana.
_...não estou nem aí, fala o que quiser...
__...não?! – se forçou na minha direção e eu cedi um pouco a perna, deixando-a dobrar-se; ela se aproximou e, meu, como ela era bonita; puta merda­... – ...e me conta, hein: quem é que estava tirando a roupa pra você hoje, lá no quarto mais cedo?
_Isto não é da sua conta, garota.
_Ah, não?!
_Não... – estiquei de novo a perna, afastando-a mais uma vez de mim; e a Mia riu, contrariada, ainda instigada a me tirar a concentração.
­_Hum... Aposto que era a Clara, não era...
_...não é da sua conta...
_Quanto você bebeu hoje, hun?
_E quanto você bebeu? – retruquei, sorrindo.

maio 17, 2012

Batgirl '97

_Que que tá pegando aqui? – aí o imbecil do Benatti enfiou a cara no vão da porta, esbarrando bêbado no Fernando, num timing simplesmente ótimo.
_Strip, strip-tease, cara...
_E tá de roupa por quê?
_Não está rolando nada – revirei os olhos imediatamente pra resposta do Fer e ele riu –, cai fora, vai! Os dois!  
_Não, seu idiota. Ela tava assistindo outra mina aí! E é por isso, né... que cê não vai lá com a gente, hein, putona!
_Eu não tava assist...
_Porra, e nem compartilha com os irmão! – o Benatti me interrompeu, falando alto.
_Não, é sério... – me dirigi então ao meu “melhor amigo”, puta da vida – ...agora olha aí o que você fez, Fernando!
_Quê?! Cê tava mesmo! – ele riu, já mais louco que o Batman.
_Mano... os dois, fora! Já! Sai!! Vai, vai...

Nisto – porque, claro, a situação não poderia ficar melhor –, a Mia se juntou aos dois babacas, passando pelo corredor, e colocou a cabeça dentro do quarto para ver o que acontecia ali, perguntando curiosa dado a toda movimentação.

_Meu, nada, não é nad...
_Nada?! Ela tava vendo outra mina tirar a roupa na webc...
_Fernando! Porra!! – eu te odeio, eu te odeio para sempre.
_Ela, o quê?! – a Mia se assustou com a resposta, despreparada.
_Ô, na boa, até sorte sua que cê não é um cara... – o Benatti completou desnecessariamente, com um comentário anatômico estúpido, e riu – ...senão, meu, já pensou cê ia...
_Já, já, já... Chega, vai. Sai! – encerrei o assunto antes que saísse algo muito pior da sua boca – Vamos, vai, todo mundo pra fora!

Merda. Mil vezes merda. A minha sorte é que a webcam não tinha áudio, mas eu estava certa de que a Clara já havia deduzido tudo o que acontecera àquela altura do campeonato. E tudo o que eu queria era poder sair da frente do monitor e conseguir me desculpar direito. Pelo inconveniente (vulgo, o Fernando). Ele então fechou a porta, ainda rindo... porém não antes de se permitir um último comentário cretino, é óbvio. Algo como “vou dar privacidade pra vocês duas” (ah tá, privacidade my ass!). Mano, eu precisava – urgentemente – aprender a usar a merda da tranca na porta e com mais frequência. Que inferno.

Sentei novamente na cadeira e a Clara já havia desligado a câmera. Agora, apenas a minha cara de pau branquela aparecia na tela, me sentindo na quinta série de novo (quando eu babava secretamente pela Alicia Silverstone vendo TV e tomava susto toda vez que meu pai entrava na sala). “Desculpa, gente bêbada aqui”, lhe escrevi. Alguns segundos depois, ela riu e disse que não tinha problema, mas que precisa mesmo ir para a festa. Não! Não me deixa sozinha agora, justo agora, pensei covardemente. Surgir naquela festa depois do incidente ia ser um desastre – mas não teve conversa, nem chance, e ela se foi. E eu fui encher a cara para ver se aguentava o tranco. Minha péssima e sempre recorrente idéia.

Timing

.     diz (22:19):
Eei... c tiver aí me avisa

Me encostei contra o apoio da cadeira do quarto e abri uma long neck com as mãos, largando a tampa na mesa do computador. Coloquei os pés contra a beirada de madeira e tomei o primeiro gole. Aí fechei a janela do MSN, minimizando-a, e comecei a ler as notificações do meu Facebook. A cerveja estava bem boa, um dos meninos havia trazido e colocado todas para gelar no nosso freezer – roubei da cozinha quando entrei. Dei outro gole. Então coloquei o álbum de 96 do Sublime para tocar, aumentando no máximo o volume, e pus os fones no ouvido para tentar competir com o som alto da sala.

Clara diz (22:23):
to sim, vc sumiu
te mandei msg

Clara diz (22:24):
oq acontece?

.     diz (22:24):
nada, só tô sem cel
aí ñ tinha seu numero... q vc mandou?

Clara diz (22:24):
nd tbm, era sobre segunda

.     diz (22:25):
mas oq? quero saber, po :-)

Clara diz (22:27):
nd... deixa pra lá
vc ta bem? ta td bem?

.     diz (22:27):
ta tendo uma festa aqui..

Clara diz (22:28):
rs, eu to indo
pra um outra na casa da lu
*uma

Não! Não vai, meu, pensei, fica aqui até a milésima festa da semana acabar... – eu podia lhe implorar até. Dei mais um gole na cerveja antes de responder e enviei um pedido de webcam. A conexão estava baixa, então a sincronização demorou alguns segundos até ela aparecer de regata branca do outro lado. Sorri. Estava bonita, realmente bonita, como sempre; me lembrava porque eu conseguia gostar tanto dela sem precisar me esforçar muito. Os cabelos morenos presos, como se não fosse a lugar nenhum. And what I really wanna know, ahh, baby (...) – o som dos meus fones cantava alto, estourando o meu bom senso. Ela sorriu de volta ao me ver ali, sentada no escuro, fumando, e tudo pareceu bem entre a gente mais uma vez.

.     diz (22:31):
vc ñ parece pronta, sabe...

Clara diz (22:31):
Q? C acha q eu tô mentindo?
rs

.     diz (22:32):
eu acho q vc quer ficar aqui e me fazer cia...

Clara diz (22:32):
numa sexta a noite? ñ
só ñ to pronta ainda

Clara diz (22:32):
e vc podia me ajudar a escolher

.     diz (22:33):
ta bonita assim

Clara diz (22:33):
besta
ñ vou assim, vê essa..

Ri do seu “besta” instintivo para mim, tomando o meu próximo gole. E aí coloquei a garrafa apoiada no meu colo. A Clara levantou da cadeira e saiu do alcance da tela, sumindo por um instante. Os meus dedos seguravam a long neck com delicadeza, já os da outra mão levavam o cigarro mais uma vez à minha boca. Daddy's got a new Forty-Five..., os meus dedos batucavam de leve no vidro.

Traguei demoradamente. E então ela re-apareceu na imagem, ao fundo, perto da sua cama bagunçada; o corpo agora sem as calças e segurando nas mãos um vestido escuro argentino com florzinhas laranjas. Afundei-me na cadeira, dando-me por satisfeita de estar ali, observando-a fazer graça e tirar lentamente a regata. A sua cintura, as suas curvas, me arrancavam do sério. Você está fazendo isto certo, hein, garota. Puta que pariu... Sorri e ela começou a vestir sinuosamente o vestido, que eu conhecera semanas antes no seu apartamento.

_Mano, que cê tá fazendo aí aind... – o Fer abriu gritando a porta atrás de mim, do nada, e eu pulei da cadeira derrubando toda a cerveja na merda do meu jeans favorito.
_Puta susto, Fernando!! Caralho!

Gritei de volta com ele já em pé, tirando os fones e tentando ficar o máximo na frente da tela do computador. Tarde demais, droga. Ele começou a rir, obviamente tendo visto mais do que eu gostaria que visse da minha garota, puta merda do quinto dos infernos; e eu quis me enfiar num buraco bem fundo, já prevendo a encheção de saco que se seguiria a noite toda. Por que? Por que comigo?

maio 16, 2012

Na prática, porém...

A verdade é que não demos. Jeito nenhum. Nos primeiros dias, pelo menos, que seguiram a péssima notícia, a única coisa que demos foi uma festa. Quer dizer, a intenção até que começou bem: mexemos no currículo do Fer, cadastramos em diferentes sites e até enviamos uns e-mails. Todavia bastou uma resmungada sobre o recém-desemprego no Facebook e o perfil dele se encheu de propostas a la “te pago uma, vamos bebemorar tua liberdade!”. E as doses viravam sessões de videogame seguidas de algumas rodadas cerveja e as visitas à tarde geravam convidados bêbados ocupando o sofá à noite, coisas assim. Pois agora que o Fer não tinha nada que fazer durante o dia todo, o seu tempo era gasto na companhia – um a um – dos nossos amigos desocupados.

A Mia é que ainda não havia aparecido por lá. O que era estranho – porque como o Fer passou a ter todo tempo livre do mundo, imaginei que ela seria a primeira a estar lá; e até evitei voltar cedo demais para o apê naquela semana. Mas, não, ela não esteve. E o meu ego logo presumiu ser eu a causa disto, é claro. Enquanto, por outro lado, o seu namorado me dizia que ela estava em plena semana de prova na faculdade. Olha, se está mesmo, ela não mencionou nada quando fui na sua casa..., dei de ombros descrente, sentada quieta à mesa da cozinha ouvindo-o falar.

A semana passou voando. Trabalhei como uma condenada, pegando o máximo de horas extras possíveis (assim evitava a Mia e ganhava a grana extra pra ajudar em casa). Nestas, fiquei mais outras duas noites sozinha com a chefe na produtora, que era uma das que mais trabalhava de todo mundo ali. O que fez que a tensão entre nós, em longas e silenciosas horas, diminuísse. Ou aumentasse. Eu não sabia dizer – ela era do tipo reservada, não falava muito e nem me dava muita bola, e se mostrava realmente inteligente a cada oportunidade aleatória ou inconsciente. Acho que passei a admirá-la de outra forma, sei lá.

Isto é, não que naquela sexta-feira eu não estivesse tendo que disfarçar muito bem os meus olhares na sua direção. Quase que atraída magneticamente pela forma como o seu colo deixava a camiseta de linho deslizar sobre si, nas oscilações da sua respiração. Tá, ok, isso soou um tanto psicopata até mesmo para mim – a verdade é que eu me distraio com facilidade toda vez que me encontro trancada num quarto escritório com outra “garota”. Ela não é uma "garota". 

Lá pelas nove e tantas, despertei de repente do estado contemplativo quando me ocorreu que a padaria perto de casa fecharia às 10 e que eu ainda tinha que comprar os aperitivos – vulgo os salgadinhos mais baratos que eu achasse. Os mesmos que evitariam meio círculo de amigos de vomitar no nosso chão de madeira naquela noite.

_Que aconteceu? – minha chefe perguntou, sentada a alguns metros noutra mesa, notando a minha agitação repentina.
_Nada, eu... – respondi, enquanto arrumava meus papéis para sair – ...lembrei que preciso passar pra pegar umas coisas. Vai ter uma festa hoje no meu apê e a padaria fecha em 20 minutos, preciso correr.

“Hum”. Ela sorriu. Depois tornou a ficar em silêncio, observando na sua mesa o quer que estivesse fazendo ali até aquela hora. Argh, merda! Eu me sentia uma idiota toda vez que falava com ela ou abria a boca na sua presença. Foi falta de educação? Não convidar?, pensei comigo mesma e me arrependi de ter mencionado a festa. Enquanto isto, corria para colocar tudo em ordem e sair logo. Mas, não, por que ela acharia isto?!, balancei a cabeça e afastei a ideia em seguida. Não é como se ela fosse ter o mínimo interesse em ir numa festa de caráter duvidável e num apartamento minúsculo e desorganizado e com pessoas novas o suficiente para serem filhos dela a esta altura, me convenci. Não... Nem em um milhão de anos! Fechei então a pasta, agora já com todos os papéis dentro, e guardei-a na gaveta. Comecei então a procurar as chaves para trancá-la.

_E você? – a minha chefe me perguntou, enquanto eu ainda estava abaixada frente à mesa – Tem namorada ou o quê?!
_Eu? Não... – respondi automaticamente.

Sentei-me de novo na cadeira, já desistindo da ideia de trancar a gaveta. E por qualquer motivo idiota emendei o assunto, sem pensar.

_Na real, até tenho algo parecido com isto – tenho? –. Mas é uma longa história, é meio complicado.
_Por que complicado? – ela achou graça.
_Não é... é que... Eu... – tirei um cigarro do maço, enrolando um pouco para sair – ...eu gostava de outra menina, antes, e ela namora... um amigo...

Mano, cala a boca! Cala a boca! – fechei os olhos sutilmente, me arrependendo. Por que você está contando isto pra ela?!

_Enfim... não sei nem por que eu estou te falando isto... – ri.
_Porque eu perguntei.
_É... – concordei, meio sem graça – ...você perguntou.

Levantei-me então da mesa, já para ir embora. E só aí me dei conta de que não pensava ou falava com a Clara desde o começo da semana. Dias inteiros sem o seu número ou sem aparecer na sua casa. Porcaria... É, eu devia ter me esforçado mais para avisar a falta do celular, eu bem sabia. Que merda há comigo ultimamente, hein?! Sorri para ela, disfarçando, e peguei o cigarro e o maço sobre a mesa. Saí. O vento do lado de fora da produtora se esforçou para me impedir de acender a brasa, consegui quando faltava pouco para a entrada do metrô. Fumei metade e deixei o resto apagado ali mesmo, na calçada.

Cheguei à padaria quando faltavam 5 minutos para o encerramento dos caixas. Ufa. Aquilo era tempo suficiente para colocar cinco sacos de salgadinho e outros dois de amendoim sobre a esteira – eu não estava lá com muita grana nos bolsos. Desci mais um pedaço da Augusta e entrei para a Frei já na esquina de casa, os pacotes em dois sacos plásticos imensos. Na minha sala, ocupando embriagadamente o sofá com o som no último volume, já se encontravam um grupo inteiro de machos; duas das suas namoradas; um dos meus erros passados, da época de colégio; e o Fer. Ah é, e a Mia.

maio 04, 2012

Cumplicidade

_O que diab... – puxei-o para o lado na calçada, segurando-o pela camisa, e ele se levantou – ...filhos da puta, mano! Sem aviso nenhum?? Como assim te demitiram?!
_Sei lá, cara! Cheguei lá e o chefe do setor me chamou e... – ele soava já desesperado, passando a mão repetidas vezes na cabeça – ...eu tô fodido, mano. Fodido. Cê não tem noção!
_Calma, meu. Não é o fim do mundo também, a gente vai resolv...
_Como não é?! Eu tô zerado, caralho! – me interrompeu, entre uma tragada e outra, nervoso com a situação – Zerado, mano. Zerado. Não tenho dinheiro pra nada agora! Acabei de gastar o que tinha sobrado do último salário na porra da tattoo – uma hannya no braço esquerdo, fechando a manga, na semana anterior –, meu pai vai me comer vivo se descobrir que eu perdi o emprego. Eu tô fodido, cara...

É, de fato. Naquilo eu não podia discordar: o melhor era deixar a notícia bem longe do velho. O pai do Fer, a propósito, me detestava. Nunca gostara, na real. Se o Fernando não fosse tão íntegro comigo e tão cabeça-dura ou inconseqüente quanto era com os pais, eu jamais teria pisado na sua casa e nós não moraríamos juntos agora. Não que a família dele toda tivesse problema comigo. A mãe não se incomodava muito, ela ficava na sua; até gostava quando o Fer me levava às festas de família ou quando eu aparecia de gaiato junto com ele depois da aula, na época do colegial. Mas aos olhos do pai dele, eu não passava de uma “lésbica suja” – palavras dele e não minhas, claro. E o seu filho só estava a um passo da indecência – tatuado e maconheiro e morando bem no meio da “Guei” Caneca – por minha causa.

Isto tinha, vamos ser justos também, uma leve parcela de culpa minha e do Fer. Porque quando éramos mais novos, costumávamos culpar toda encrenca na qual nos metíamos um no outro. E, não, não é o que vocês estão pensando: não era no sentido sacana da coisa, era mais pra um acordo. Pois assim ouvíamos menos bronca, pegávamos menos castigo e podíamos voltar para a rua o quanto antes. E, né... Como diabos a gente ia saber que, 10 anos depois, íamos estar morando juntos num apê e tendo que lidar um com a família do outro?

A maior parcela da culpa ainda era, no entanto, do babaca do pai do Fer. E da sua noção idiota de moralidade, claro. Pois é. O relacionamento dos dois era péssimo. O temperamento de ambos também não ajudava – e menos ainda a forma “educada” do meu melhor amigo de falar a verdade na cara dos outros. Até melhorou um pouco quando o namoro com a Mia começou. O pai dele enxergava naquilo algum progresso social, o Fer estava num emprego estável, ele achava que os dois iam casar em algum momento e a porra toda – a família dela também tem lá o seu mérito nesta. Mas, no geral, os dois não se davam. E as discussões eram “barulhentas” (as maçanetas e móveis do nosso apartamento sofriam a pior parte delas). Perder um emprego de anos colocava o Fernando à mercê do financiamento paterno assim que o meu falhasse (e ele ia falhar, eventualmente) e aquela era certamente uma notícia a se protelar.

Pelo máximo de tempo que desse.

_Fer, meu, relaxa! Relaxa. A gente vai dar um jeito... Olha, eu te ajudo, a gente revê seu currículo neste fim de semana, procura pra ver se alguém sabe de alguma coisa. Vai aparecer, meu. Só... vai com calma, cara. Relaxa! Cê acabou de saber também, você não tinha nem que tá aqui...
_E eu vou fazer o que em casa o dia todo agora, porra?! Ficar coçando...?! – ele estava perdendo a cabeça, eu era a primeira a saber – Não, não. Eu tinha que falar com alguém, mano. A Mia tá na aula já e, e eu vim andando... cê não atendia o telefone, meu!
_Tá no conserto, já te falei. Acabei de levar lá – repeti.
_Mas... por que? Que que deu?
_Eu quebrei ele ontem... – murmurei e ele me olhou sem entender; eu revirei os olhos e suspirei – ...meio que perdi o controle e bati contra a grade ontem a noite, tá? Foi isto. Fodeu o visor...
_Puta, mano, mas você também é outra...

Ele começou a rir, me olhando em descrença da história. Agora você acha graça, né?! Demos alguns passos adiante e sentamos lado a lado na calçada, frente ao estúdio, para terminarmos os nossos cigarros. Faltava pouco para eu ter que entrar. Ele seguia rindo, tirando uma com a minha cara por conta do maldito celular. Empurrei-o com o meu ombro, fazendo-me de ofendida, e então me apoiei nele. Segurei a sua mão. Ele a segurou de volta e suspirou, ficamos em silêncio por algum tempo. O aluguel, “ótimo”. Foi aí que as minhas preocupações ganharam forma em meu pensamento. Faltavam agora dois minutos para o início do meu expediente, o Fer observou as nossas mãos e me olhou de lado.

_Escuta, você não precisa ficar toda bicha aí só porque eu tô desempregado, viu... – ele riu.
_Quê?! Tô de luto pelas minhas economias, não por você.
_Ah! E que economias?! – disse, sendo irônico.

O olhei com todo o meu desprezo, tentando não rir.

_É, vai. Vai fazendo gracinha, vai... te deixo no olho da rua, rapá!
_Pior, né? – riu e abaixou a cabeça; há anos não dependíamos mais de ninguém para pagar nossas próprias contas, sempre pulamos de emprego em emprego e eu sabia o quanto aquilo era difícil para ele – Cara... – ele me encarou, de novo – ...prefiro dar a bunda do que voltar pra casa dos meus pais, mano. Juro. Não dá. Agüentar o velho todo dia ia ser foda agora...
_Calma, a gente vai dar um jeito.