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março 31, 2013

Puerta de embarque 6

Ela estava em pé à minha frente, em silêncio. Entregou a sua passagem – entrou. E eu a minha, logo em seguida. Andei uns metros atrás dela. Estávamos sentadas no par de cadeiras 14 C-D. Tinha a ugg sobre os jeans, uma malha bege combinando. Observou a janela durante a viagem toda. Recusou a comida. Continuava quieta, o rosto encostado no vidro frio. “Fala comigo”, toquei a sua mão. Quarenta minutos haviam se passado. Ela cruzou os seus braços. E não disse uma palavra, o vôo todo até São Paulo.

But it was not your fault but mine
And it was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn't I, my dear?

Didn’t I?
(Mumford & Sons)

março 30, 2013

Derradeiro

(...)

Ah, nós ainda estamos discutindo isso, pensei. E enfiei tudo de qualquer jeito mochila adentro, irritada – não com a pergunta em si, mas com o fato de ainda não ter me livrado dela. Dezenove horas depois do seu nome ter acidentalmente escorregado por minha boca. A Mia continuava ali, entre nós. Inferno.

_Clara... – virei mais uma vez para ela, que vestia agora uma camiseta meio de qualquer jeito – ...não começa isto, por favor.
_”Não começa” o que?
_Por que você faz isto, mano, por que entra nessas – murmurei, a um metro de onde ela estava – ...você só vai se deprimir, cara; vai entrar num ciclo d...
_E por que eu me deprimiria?

Ela me encarou, séria. Tinha uma tristeza escondida no fundo dos olhos, como se soubesse a resposta que eu segurava. Me arrependi do que eu implicara.

_Não... não é isto... – abaixei a cabeça e ela repetiu, agora firme:
_O que tem entre você e a Mia?
_...
_Só fala.
_Nada.
_”Nada”?
_É. Nada! Não tem nada que você precise saber... – me ergui do chão, levemente aborrecida.
_Não. Não assim!
_”Não assim” como? – levantei a voz e ela ficou em pé também, se aproximando de mim sem muita paciência.
_Em código, porra. Assim! Ou você acha que eu sou idiota? – me encarou, muito segura do que dizia –. Que eu já não ouvi isto? Que EU já não falei isto? “Nada que precise saber” não responde a minha pergunta. Não responde nada! E cada segundo que você demorar pra responder só vai me machucar mais, você sabe disso.
_Por que você tá surtando, Clara, caralho?! – passei as mãos no rosto, nervosa e inquieta – Por que agora, porra? Por que de novo?! Por q...
_QUE DIFERENÇA FAZ?! – me interrompeu, de repente aos gritos – Por que você está me perguntando? PÁRA DE DAR VOLTAS!!
_Eu só mencionei o nome dela!
_ESTA NÃO FOI A MINHA PERGUNTA! – ela me olhou, os olhos subitamente marejados.

Fiquei em silêncio. Droga. Por alguns instantes tudo o que se ouvia era a nossa respiração, a dela ofegava. Ela parecia ter pensado mais tempo do que demonstrara nisto. Talvez aqueles meses todos, havia um rancor guardado. Sentei na beira da cama. Isto não está acontecendo – eu repetia na minha cabeça, tentando fugir da gravidade da situação em que nos encontrávamos. A Clara continuava em pé, tinha os braços agora cruzados. Parecia magoada. Minutos depois, tornou a falar, recompondo-se. E sem me olhar diretamente, questionou:

_Você dormiu com ela? – disse, segura.
_Dormi.

Respondi num impulso sincero, sem pensar.

_Quando?

Ouvi sua voz então ganhar peso, perdendo contidamente o fôlego. Me arrependi na hora.

_...
_Fala.
_Não intere... – suspirei.
_Não me diz o que interessa. Interessa!
_NÃO! NÃO INTERESSA! Que diferença faz, Clara?! – levantei da cama – Nenhuma! Eu tô aqui, não tô? Eu estou com você. Com você, porra – lhe implorava, tocando seu braço –.  Eu vim. Eu vim, mano, ATÉ AQUI! EU ESTOU AQUI! Vim, não vim? E como eu tenho vindo, cacete, todos esses meses! TODOS ELES! Do SEU lado. Você acha que eu não gosto de você?! QUE EU NÃO ME APAIXONEI POR VOCÊ?!? Que caralho importa a Mia?! O que a gente construiu não tem nada a ver com isto! Eu vi uma merda de um livro ontem e me lembrei dela e foi só isso, porra. SÓ ISSO! O que eu tenho com você é completamente indiferente a, a esta porcaria toda! É o que eu QUERO ter. Você entende isto? ENTENDE?! QUE UMA VEZ NA VIDA, ISTO É O QUE EU QUERO?!?
_NÃO! NÃO! EU NÃO QUERO OUVIR ISTO! – ela começou a gritar, ofendida; as lágrimas passaram a escorrer pelo seu rosto.
_CARA, NÃO CH... POR FAVOR! MERDA! – chutei o colchão, desajeitando-o fora da cama, com raiva de mim mesma; e então abaixei a minha voz, segurando o seu rosto perto do meu, em desespero – Não chora. Por favor, não chora – me angustiava, beijando as suas lágrimas – Clara, não faz isto. Por favor. Eu...
_VOCÊ É UMA COVARDE, CARA! COMO? COMO VOCÊ TEM A CARA DE PAU DE VIR AQUI?!
_Bi... – os seus olhos, encharcados, diluíam toda a minha pessoa; era a primeira vez que a via assim, que a deixava assim. Todo o drama recente daquela noite parecia ainda pesar em nossas palavras. Estávamos fadigadas, a mente desgastada. Exaustas. Senti o meu coração apertar, o meu corpo doía como nunca antes senti.
_Eu SABIA. NO SEGUNDO EM QUE EU TE PERGUNTEI, EU SABIA! E... e você, VOCÊ... VOCÊ TEM A PACHORRA DE MENTIR! NA MINHA CARA!! PRA MIM! PRA MIM!!! EU, PORRA! ME DIZ, QUANDO? QUANDO, CARALHO, EU TE DEI MOTIVO??
_Não faz a...
_Você podia ter me contado, PODIA! TODOS ESTES MESES! Uma a uma, cacete, eu te dei todas as oportunidades DO MUNDO PRA ME CONTAR NUMA BOA!! EU NUNCA TE PRESSIONEI COM ISTO! NUNCA! E você me faz de IDIOTA, VEM ATÉ AQUI COMIGO! VOCÊ, VOCÊ É UMA EGOÍSTA. VOCÊ ME DEIXOU GOSTAR DE VOCÊ, ME DEIXOU MUDAR TUDO! TUDO O QUE EU PENSAVA, O QUE EU QUERIA PRA MIM. TUDO! PERMITIU QUE EU ENTRASSE ASSIM NESTA MERDA DESTE RELACIONAMENTO COM, COM VOCÊ E... E NÃO ABRIU A BOCA! TODO ESTE TEMPO!!
_NÃO TINHA O QUE CONTAR! O QUE EU IA FALAR, CARALHO?!? NÃO TINHA O QUE CONTAR!! NÃO TINHA AT...
_”Até”, isto foi... FOI AGORA?????????? – ela me cortou, aos berros – Sua filha da puta. SUA... CANALHA! – ela começou a me empurrar para longe dela, relutante; as lágrimas tornaram-se raivosas.

Merda.

_Quando... Espera! QUANDO FOI A ÚLTIMA VEZ?!
_Clara, eu nã...
_VOCÊ, você... você comeu ela esta semana, não comeu? – ela me encarou, como se a ficha caísse só então – COMEU, NÃO COMEU?!?
_Por favor, não faz isso...
_FILHA DA PUTA!! SUA FILHA DA PUTA!!

Gritou. E voltou a chorar violentamente, como se eu a derrotasse, caindo sentada na beira da cama desarrumada. Me senti terrivelmente mal comigo mesma. “Uma pergunta...”, a Clara murmurou, entre soluços, “você não consegue me responder uma pergunta, uma que seja”. E foi como assistir todas as expectativas dela para aquele fim de semana irem por água abaixo. Graças à minha boca grande. Não. Ao meu ego imenso, idiota. À minha total incapacidade de ser sincera e feliz com a única porra de garota com quem eu deveria me importar. Eu sou uma canalha, uma imbecil mesmo. Eu não mereço nada do que recebi de você. Ajoelhei na frente dela, os olhos em lágrimas. E toquei as suas pernas, disse:

_Por favor, me perdoa – beijei os seus joelhos descobertos, chorando envergonhada – Por favor, Clá. Eu não... eu não sei o, o que eu faço; eu não sei de nada. Eu sou uma idiota. Por favor. Por favor, meu. Eu, eu preciso de você. É muito arrogante e é estúpido: mas eu preciso. Eu te quero na minha vida, eu te quero comigo, entende. Não c... – encostei a face molhada na sua pele, onde as suas pernas se juntavam – Me faz ficar. Por favor, me faz ficar.
_Tira a mão de mim – disse.
_Clara...
_Escuta aqui. Nós vamos subir naquele avião – continuou, como se se protegesse da minha pele, da minha existência ao seu lado – e no segundo em que chegar em São Paulo, eu não quero mais te ver. Você vai sumir da minha frente.
_Clara, por favor. A gente está cansada, nós duas falamos cois...
_Não. VOCÊ FALOU! Você falou, não eu. Agora vê se assume. 

março 25, 2013

3 Bit Blues

A madrugada se desenrolou complicada, nuns ataques passionais.  Nos perdoamos contra a parede suja do banheiro. E nos desentendemos na saída, numa calçada cheia de garotas e moleques de uns 20 anos que não entendiam uma palavra do que dizíamos. Durou dez minutos. Fizemos as pazes no táxi de volta. A minha mão entrou nos seus shorts de linho, no escuro do banco de trás. Ainda assim a Clara se deprimiu ao chegar no quarto do albergue, fumando um que descolara com o amigo mais novo. Estava silencioso demais. Entrou num surto embriagado, numa destas ansiedades existenciais doloridas. Paranoica. A cavidade do seu peito sofria por excesso de espaço – e me culpava, falando irracionalidades induzidas por toda a bebida e aquela bad trip.

_Não, vem – eu falava firme e a segurava em meus braços.

Sentia-a se desvencilhar e a Clara levantava da cama, em um desespero alcoolizado de fazer algo. “Senta aqui, vai”, eu tentava argumentar. Lutando contra o sono e a minha própria bebedeira. Sequer sabíamos porque discutíamos mais – não se tratava da Mia. A Clara sequer se lembrava do ocorrido! Agitava-se. Por outros motivos, mais abstratos. Eram frustrações, pequenos instantes de ciúmes meus transformados em angústias, desacordos; amplificados pelos arredores e bem desproporcionalmente pelas substâncias em suas veias. Muito desproporcionalmente. Crises pessoais. E cada curva que a madrugava tomava parecia assumir uma forma completamente nova, nuns dismorfismos carregados. O sol quase nascia e ainda estávamos alucinadas, acordadas em plenas 6 da manhã naquele quarto.

_Vem pra cama.
_Eu não me, me sinto bem – choramingava, ofegante; curvada em pé contra a parede.
_Você tá bêbada, vai, vem. Cê vai se sentir melhor amanhã! Prometo.
_Eu não... quero.
_Não quer o quê? – eu perguntava, sentada no colchão; os meus olhos quase fechando de tão pesados.
_Me sentir melhor, eu... não quero.
_Não fala assim, Bi. Vamos!
_...
_Bi... – me levantei também, a abracei pelas costas – ...vamos, vai. Não faz assim.
_E O QUE VOCÊ SABE?! – se irritou. 
_Clara...
_VOCÊ NÃO SABE DE NADA! DE NADA, PORRA!
_Clara, pára... – ela se agitava e eu a segurava ainda mais forte, forçando-a a se acalmar – ...eu tô aqui, vamos lá. Não começa com isto de novo.
_Está TUDO ERRADO. TUDO. Eu sou uma estúpida!
_Não é. E não é assim. Vamos, vai... você tem que deixar a brisa passar, meu. Você já sabe como funciona, linda. É só dormir... vai ficar tudo bem.
_Eu n... eu não quero, Bo. Eu não posso. EU NÃO QUERO FICAR AQUI! Me tira deste quarto. Por favor! Eu não consigo ficar aqui.
_Consegue, sim. Vem. Deita comigo, a gente conversa até o sono chegar.
_EU NÃO QUERO! Eu não q... – choramingava.
_Não pensa nisto, linda. Está tudo bem, vem.
_...

Um instante de silêncio se seguiu. E eu lhe tirei aos poucos a blusa, largando-a no chão. Desabotoei o seu shorts de linho. E a coloquei debaixo do lençol, com todo cuidado que a minha falta de sobriedade permitia. Deitei então ao seu lado, virada para a sua direção. “Você me acha louca?”, ela indagou, de repente constrangida. Garanti que não. “Nem um pouco”. E me pus a contar os meus surtos de outras madrugadas, pela Augusta afora em São Paulo. A Clara esboçou um sorriso. 

Divertia-se com as minhas histórias estranhas, com o mais podre de mim. Porres homéricos, brigas alucinadas. Autopiedade em cozinhas vazias, entornando um copo de rum atrás do outro como se fosse água. Mencionei a vez em que impedi que a Dani se esgotasse em remédios – ou fizesse pior – depois de uma madrugada bêbada e violenta, completamente deprimida e fora de si. A Clara segurou o meu rosto, com carinho. E lhe descrevi em seguida a noite em que eu mesma misturei mais do que devia, alguns anos antes. Tive a certeza de que ia morrer, gritei incansavelmente e chorei; o Fernando ficou horas acordado ao meu lado, no chão do apartamento.  

_Sempre passa. E você vai jurar que nunca mais vai... beber... fumar, fazer nada.
_Até a semana seguinte... – sorriu, por um instante breve.
_É.

O clima agora estava mais sóbrio – em todos os sentidos. O seu nariz tocava desavisado a ponta do meu. Numa morna lentidão. Um milímetro mais para cá. E outro milímetro para lá, em deslizares. Nuns vai-e-véns inconscientes. E sonolentos. Aquelas nossas conversas, o toque da sua pele me faziam sentir em casa. Havia uma incomum genuinidade ali; um ser e falar livre de julgamentos dela. De certa forma, o relacionamento que tinha com a Clara era o que eu melhor conhecia. O que eu sempre conheci – aquele era meu mundo. E havia conforto em saber disto. Na certeza de que nos encaixávamos. Movi o meu corpo mais para frente e a encontrei adiante, a beijei. Num desencadear instintivo. Estávamos exaustas.

(...)

Dormimos entrelaçadas. E o dia amanheceu sobre os nossos olhos fechados, iluminando os nossos corpos desacordados. Estas eram as últimas horas juntas em Buenos Aires. E elas atravessaram caladas o nosso sono, como quem não quer perturbar uma quietude recém conquistada. As gargantas ainda arranhadas, as olheiras secas, a ressaca. Mas acordamos – inevitavelmente, com o celular da Clara tocando aos gritos quando já eram quase 16h. Teríamos que pagar outra diária no albergue pelo atraso no check-out – maldição. A minha cabeça doía. 

Os meus músculos pareciam ter sido esmagados por um caminhão. E a Clara aparentava incomodar-se com um torcicolo – provavelmente por ter dormido com o pescoço desajeitado sobre o meu braço. Deslizava a mão pela própria nuca e apertava os olhos em desconforto. Você é mesmo incrível. Em pé, eu a observa a alguns metros de onde estava sentada na cama e a admirava. Despida, magnífica – e minha. Sentia um impulso apaixonado de beijá-la, a sua pele. Ela estava quieta.

_Quanto tempo temos? – perguntei.

E me abaixei para arrumar a mochila no chão, agachada de costas para o colchão. Como não ouvi resposta nos segundos seguintes, me virei para vê-la.

_Clara?
_... – os seus olhos não me encontraram, fitando cabisbaixa as próprias mãos; e me disse, então – alguma, alguma vez você já mentiu para mim?
_O quê? – eu ri, sem entender a pergunta.
_Mentiu?

Suspirei. Soltando as roupas sobre a mochila.

_Por que isto, meu? – me irritei – Por que agora?
_O que... tem entre você e a Mia?

março 19, 2013

Então é guerra

E até aquela altura eu estava perdendo. O jantar com os amigos foi um desastre desde que pisamos aquela parrilla adentro – atravessada, a Clara fez questão de falar espanhol a noite toda e deve ter dado a entender que eu estava de castigo, ou algo assim, porque todo mundo me olhou com ares de desprezo. Ou talvez fosse a hospitalidade portenha. Os amigos eram um casal de caras na casa dos 30 e um outro um pouco mais novo, também gay. Tagarelavam animados, os três, e com carinho pela Clara. O único momento em que falaram comigo foi para perguntar se eu ia beber algo – quando o garçom estava à beira da mesa.

Comecei a me encher de álcool. A noite vai ser longa, resmunguei para mim mesma.

Durante a primeira hora e meia da balada – chamada Amerika – eles dançaram sumidos na pista, enquanto eu abraçava o bar e fazia amizade com o garçom. Segundo ele, brasileiro era o que não faltava em Buenos Aires. Eu já estava na terceira dose de rum. Os amigos da Clara e ela encostaram na bancada algum tempo depois, bêbados, pedindo algo para tomar. Os drinks chegaram rápido. Sem parecer sincera, a Clara me perguntou se eu queria me juntar a eles para dançar; então eu declinei. Podia ver os seus olhos revoltados – “tá bom”. Ainda que soubesse que ela não me queria lá de fato. Não me virei para ver onde estavam indo quando decidiram voltar, continuei encarando o rum no copo. Que se fodam eles, a Argentina toda.

Fingi que a culpa não era minha. E nos minutos seguintes, comecei a virar tequilas como se viram cartas em cassinos. Resolvi que ia perder o juízo, descontei no meu fígado. Nem quarenta minutos depois e eu estava amiga de um grupo de chilenos que encontrei perdidos, completamente torta. O meu espanhol fluente. Apoiava-me num deles para contar uma história que agora sequer lembro qual era, enquanto eles gritavam de volta e riam, entretidos. Eram uns simpáticos. Decidi então que não gostava de argentinos e que eles, os chilenos, eram simplesmente mais legais. Uma das garotas meio que dava em cima de mim – mas eu não estava interessada. As minhas pernas já começavam a trançar quando pedi o primeiro whisky da noite, acompanhado de uma latinha de Coca-cola. Era hora de resolver o problema com a Clara.

Entrar na pista foi uma experiência alucinada e confusa. O som estava alto, as pessoas completamente molhadas, tinha espuma de sabão para todo lado e as luzes mudavam frenéticas de cor. Eu estava embriagada. Realmente embriagada. Via os corpos dos outros passarem por mim, tomada por uma vontade irracional de empurrá-los para longe. Terminei o whisky nos primeiros dois minutos e não sabia onde tinha largado o copo. Caos absoluto. Apenas com a lata de Coca na mão, em meio a um Carnaval de espuma e gente com a roupa ensopada. Vi um dos amigos da Clara ao longe. Comecei a ir na sua direção, cambaleando e sem enxergar direito. As pessoas gritavam umas com as outras em espanhol, à minha volta, rindo. Estavam todos lá quando cheguei e a Clara dançava encharcada, atracada com outra garota. Filha da mãe.

Fiquei furiosa. Ela me viu, a cinco passos de onde estavam. Virei as costas e saí enputecida, sem vontade de ouvir uma palavra que tivesse a dizer. Fui de volta para longe. Um dos amigos – o solteiro – veio atrás de mim, a Clara sequer deu-se ao trabalho. Eu estava bêbada, claro. E comecei a mandá-lo calar a boca, conforme ele gritava qualquer coisa na minha direção. Parecia tentar explicar, por ela. Eu não queria ouvir. Debati os braços e segui andando, ele veio grudado à minha lateral, como um parasita, berrando no meu ouvido. Voltei para o bar e pedi mais um whisky. Tinha vontade de chutar a porra do balcão. O cara seguia falando ao meu lado – “no pasa nada!” –, se repetindo, e eu mandava ele à merda. Vingativa de merda. Virei a dose assim que chegou. Pedi outra. O argentino me segurou o braço e falava “ei, ei”, pedindo para que não fizesse aquilo, que fosse resolver direito. Virei o outro copo inteiro. Na décima resposta estourada, ofendendo-o, ele deu de ombros e voltou para a pista, deixando de se importar com o resultado.

Bosta. Empurrei a droga do copo adiante na bancada e me virei também, voltando para onde eles estavam. Quando revi a Clara,  a garota estava ao seu lado conversando; o grupo estava com espuma até quase a cintura, em pé. Pareciam comovidos pela ceninha de minutos antes. A Clara me encarou ainda ressentida. Me olhava como se tivesse vontade de fazer pior. Marchei na sua direção e a puxei pelo braço para fora do meio circulo, demos dois passos adiante. E ela se recusou – sem falar nada. Só se soltou de mim, com raiva para sair logo dali. Eu a segurei de novo, forçando-a a ficar perto. Ela me empurrou, se desatando sem coordenação. E começou a andar no sentido oposto, de volta, completamente bêbada. A puxei de novo, com mais força. A garota se aproximou. Um dos amigos entrou no meio e começamos a discutir. Virei para a Clara, encarando-a e falando na sua direção, passando a ignorar o cara. “É comigo que você tá brava, porra!”, fiz um gesto para o cara me largar. E me irritei. O amigo vinha me empurrando, querendo que eu me afastasse dela. Empurrei ele de volta. E a segurei pelo pulso, a Clara mandou que eu a soltasse imediatamente. A tal garota começou a falar qualquer coisa a dez centímetros do meu ouvido. “Manda ela calar a boca!”, eu gritava para a Clara. O barraco foi ganhando proporções descontroladas. Eu ainda a segurava pelas mãos, cheguei realmente próxima do seu rosto.

_Escuta, eu vou simplificar – eu disse, furiosa –. VOCÊ QUER FICAR BRAVA COMIGO, FICA BRAVA COMIGO. Faz a merda que quiser. E acaba logo com essa porra. Que quando você terminar, eu vou estar te esperando.
_Olha, o mundo não gira em torno de você... SABIA?
_Ah, não?! VOCÊ VAI ME DIZER QUE ESTÁ INTERESSADA EM DANÇAR COM ESTA PORRA DESTA VACA? DO NADA?! – gritei descontrolada, na direção da garota que parou de falar na mesma hora; os amigos nos cercavam numa confusão ruidosa e eu olhei de volta para a Clara – Eu não dou a mínima, Clá. Faz o que quiser.
_É. EU DEVIA FAZER MESMO!
_Qual é o seu problema, CARALHO?! É A MIA?? UMA FRASE QUE EU TE FALEI?!? É ISTO??
_Não. Não é a porra da Mia. É VOCÊ! VOCÊ É MEU PROBLEMA!
_Então fica brava comigo, cacete! À VONTADE! FICA BRAVA! – berrei na direção dela – EU SOU MESMO, SOU. SOU UMA IDIOTA! UMA IDIOTA, PORRA! – dei dois tapas violentos na minha cara, completamente fora de mim e incomodada por vê-la mal – FICA BRAVA! VAI!! FICA!! ME BATE, CARALHO! ME CHUTA! Faz o que você quiser, Clara. Eu não tô nem aí. Eu sou uma imbecil mesmo e eu mereço o que você quiser, O QUE VOCÊ DECIDIR. QUE SE DANE, CACETE!

Saí andando, largando dos seus pulsos. E dez minutos depois, eu a estava comendo no banheiro.

março 14, 2013

Littorina littorea

Algo de nostálgico transpirava por aquelas prateleiras empoeiradas de madeira. Conforme o meu dedo deslizava, indeciso, pela capa do Benedetti. Um gosto secreto – e eis um sentimento perigoso para se deixar corpo adentro; para se permitir que invada a mente assim. Mas lá estava: uma vontade irracional de pagar por aquelas linhas. Levá-las comigo. Para a garota que me confundia o coração e a cabeça com seus vai-e-véns. Ela ia sorrir, sorri, e arregalar os olhos quando visse que pensei nela. A imaginei com as mãos no livro, me ouvindo contar sobre aquele momento. E decidi: vou levar – ou não? “Tengo que amarte”, revirei os olhos ao repassar a frase na minha cabeça, é meio patético. “Aunque esta herida duela...”, não. Folheei as páginas rapidamente, sem ler nada em particular. Ela vai pensar que estou apaixonada. Não dá – é ridículo demais.

Estar na Argentina, de certa forma, me atrapalhava. Não posso estar seriamente pensando na Mia, olhei para o livro agora com desgosto, não. Péssimo timing. Os arredores pareciam subtrair das letras o cheiro dela, sumindo sorrateiros com as suas madeixas morenas e o seu olhar curioso. Eu estou aqui e não lá. Não preciso disto, eu não preciso – repetia na minha cabeça como um mantra, convencendo-me. Preciso aprender a deixar a confusão para trás. Suspirei. E espiei mais uma vez sobre a prateleira para ver que a Clara caminhava lentamente de volta, distraída pelos títulos da pequena livraria. – encarei determinada o livro em minhas mãos, decidida a deixar para lá. E larguei a obra do escritor uruguaio na cesta onde o encontrara. Este é o meu fim de semana, fui indo na direção da Clara; meu com você, porra.

_Cansei. E aí, vamos?
_Olha o que eu achei! – ela segurou um Quino na minha frente, a capa amarelada indicava ser antigo, e eu ri – E você, viu alguma coisa?
_Não – bom, pensei, meio que sim.

Caminhar até o caixa da livraria foi uma tarefa hesitante. E um tanto difícil de se realizar sem dar bandeira. Ótimo, argh. Agora nunca mais vou encontrar a merda do poema. Parte de mim ainda queria levá-lo. E com certo nervosismo, eu dedilhava a mão direita sobre o balcão. Ruidosamente. Eu devia ter tirado uma foto da página – será que podemos fazer isto? Deve ser inapropriado. Eu divagava mentalmente: que se dane, fingiria ser cultural, algo do Brasil. A Clara me indicou o preço, que o atendente falou enrolado em espanhol, interrompendo os meus pensamentos. Puxei a carteira com meus pesos trocados horas antes. Por que eu sequer estou cogitando cenários?! Não vou levar o livro. Só o Quino e pronto. Não preciso comprar presentes. Para ninguém, cacete, eu me dissuadia.

O atendente agora contava o meu troco, com certa demora. E não vai fazer falta também, a Mia não está esperando nada disto – tá, digladiei comigo mesma, talvez por isto mesmo que seja legal. Mas, por outro lado..., peguei a alça da sacola já com o livro pago dentro, é meu aniversário, sou eu quem deveria estar recebendo presentes. É. Nos despedimos com educação e saímos para a rua, não eram nem 18 horas. A Clara parou frente à porta da livraria para acender um cigarro. Hum. E o que será que a Mia vai me dar? Admirei os meus próprios pés na calçada. “Você quer?”, a Clá ofereceu um Marlboro aceso. Eu aceitei. Isto é, se der algo, resmunguei mentalmente. Deixara São Paulo com a Mia ainda brava. ‘Desculpa’, sei. Devolvi o cigarro para a Clara.  Duvido que ela vai deixar passar. Só não queria que eu viajasse irritada e descontasse tudo na cama com a Clara. Admito – eu, às vezes, pensava coisas estranhas.

Começamos então a andar pela calçada. Por que ela se incomoda? Ela tem o Fernando, sempre teve. Segui com os pensamentos acelerados. Ela não precisa de um livro meu, de poema algum. Começava a ficar rabugenta. A verdade era que eu queria – violentamente – lhe dar aquele livro. Fazer caso do acaso. Numa ânsia que me tomava a cada passo em que nos distanciávamos da esquina da livraria. E por que eu me incomodo? Eu a amo tanto assim que não consigo ficar 24h sem pensar na porra do seu nome? ‘Não’, aparentemente – revirei os olhos. E se a amo, por que não consigo dizer? E o que merda estou fazendo aqui afinal?! Me senti de repente como se traísse a Clara em pensamento. Aquilo era ridículo: É só um poema.

Já dei todo resto, eu posso muito bem dar um poema pra Mia. E num impulso como quem arranca um band-aid sem rodeios, pedi para que a Clara me esperasse e corri meia quadra de volta para comprar a droga livro. “É para a Marina”, disse ao retornar, de cabeça baixa – estou mentindo descaradamente agora, bonito. Ao chegar no albergue uns vinte minutos depois, enfiei a sacola com ambos os livros na mochila. O que a Clara pegou para mim e o que eu peguei para a Mia. Já começava a me sentir levemente arrependida, ainda que satisfeita. Estranhamente, ao mesmo tempo. Íamos apenas tomar banho e nos trocar; o jantar seria em Recoleta e depois encontraríamos uns amigos da Clara, com quem iríamos à balada.

“Vou daqui a pouco”, murmurei. Não entrei no chuveiro com ela – fiquei afundada na cama me atormentando com pensamentos pouco saudáveis acerca do motivo que levara a Mia, afinal, a se incomodar com a minha viagem. E o peso interno se arrastou, aff.  O que eu estou fazendo?!, deslizei as mãos pelo rosto, atordoada. Não conseguia entender por que um poema ainda tinha forças de desencadear horas a fio de Mia-argh dentro da minha cabeça. Pensamentos sobre o porquê dela ter surtado me levavam invariavelmente ao “ela me ama mesmo?” e este era rapidamente substituído por “por que diabos importa?”, que vinha seguido de auto repreensão por estar pensando naquilo em plena Argentina e logo eu me pegava argumentando comigo mesma que eu tinha direito de pensar na Mia, de dar a mínima para o que ela sentia com relação a mim. Para, então, ser interrompida pela Clara:

_E esta brisa aí, hm? Que pasa? – ela riu, me olhando.

Estava encostada contra o batente da porta que dividia o quarto do banheirinho do albergue. Nua da cintura para cima, num shorts curtíssimo embaixo. Destes soltinhos de linho vermelho, num tom queimado bonito. O seu cabelo molhado deslizava em fios morenos, contornando os seus seios. Notei que algumas gotas haviam escorrido até metade do seu abdômen. “Hum?!”, insistiu. E andou até a minha direção na cama, deitando o corpo de bruços ao meu lado. A Clara tinha uma tatuagem minúscula de menos de um centímetro – a silhueta de um caramujo – sobre as costelas, meio na altura dos seios. Era um charme, discretinha. De tão pequena tinha vontade de tocar na sua pele toda vez que a avistava, sob pretexto de averiguar se não era uma pintinha. Lembrando surpresa que existia ali.

_Estou, sei lá... – respondi então, escorregando o polegar sobre as pequenas linhas.
_Hum...
_Foi um dia meio esquisito.
_Esquisito, por que? – ela virou o rosto preguiçosamente para o meu lado, falávamos em tom lento e suave – Achei que você estivesse gostando...
_Estou, Bi. É só que eu... fiquei meio, não sei. Pensando, sabe.
_”Pensando”?
_Na... Mia.

E tão logo pronunciei – inconsequente – o seu nome e antes que pudesse me explicar, a Clara se levantou apressada. “Vamos”. Não disse mais nada, não brigou comigo. Simplesmente ficou em pé e vestiu uma regata preta, calçou a sua rasteirinha trançada. Numa pressa quase rude. E a batalha começou.

março 06, 2013

Corazón coraza

Na manhã seguinte, senti doer cada músculo do meu corpo – num lento despertar, alongar dos sentidos. A cabeça devorada pela ressaca. Por que tomei vinho? Vinho, ao contrário de rum e umas doses de whisky, não me fazia nada bem. As minhas extremidades estavam fracas, a pele calejada de hematomas; e mordidas nas costas; chupões; roxos no pescoço, nas pernas; e marcas do lenço torcido nos pulsos, de quando a Clara se vingou. A sensação geral era que fora atropelada por um caminhão. Estou ficando velha, lamentei, passando as mãos no rosto sentada à beira da cama, caralho. Aquele era o meu primeiro pensamento de crise dos 25 anos. Alguns outonos antes e eu não estaria me sentindo assim – teria levantado com uma ressaca leve e ido contabilizar as marcas no espelho, achando graça.  

Olhei para o lado, para o corpo ainda desnudo e adormecido da Clara. Uns outonos antes – eu não tinha você. Ri. E virei para frente, colocando o rosto entre as mãos novamente. Esta garota é um animal, puta que pariu. Sentia certo orgulho de estar com ela, às vezes; de viver as coisas ao seu lado. Esta era uma delas. Levantei, sorrindo. Fui até a mochila largada no canto do quarto do albergue e peguei uma calcinha qualquer, vestindo-a após um breve banho naquele chuveiro gelado. Então coloquei o único jeans que levara e uma regata branca. Deixei o quarto de minutos após despertar. E desci até a recepção, agora menos inibida para falar – quem se inibe depois de horas daquilo em Buenos Aires? –.

Gesticulei. Gastei todo meu español fajuto para descobrir onde comprar un café de la mañana. E o recepcionista do albergue riu, repetindo desayuno algumas vezes. Eu disse que dava na mesma. Fez então um pequeno rabisco num mapa da cidade, destes gratuitos que tinha no balcão, e mostrou onde estávamos, quais três quadras eu tinha que andar até a padaria mais próxima. Fui até lá e comprei com uns pesos da Clara o que consegui apontar – uns sanduíches naturais e uns alfajores, dois cafés para viagem. O bairro era ainda mais bonito durante o dia. Voltei observando as ruas, tentando não me perder. A Clara ainda estava dormindo quando cheguei, vinte minutos depois, e despertou. Comemos e em menos de meia hora já saímos.

Tínhamos muito para ver. De uma estranha flor de metal a um palácio não tão rosa, uma avenida muito larga. Andamos o dia inteiro – os meus favoritos foram os murais dedicados de artistas de rua ao Quino e a estátua da Mafalda, ao lado da qual sentei e pedi pela primeira vez para que a Clara tirasse uma foto. Almoçamos num restaurante em San Telmo e como já beirava as 16 horas, tomamos  mais vinho. Movida pelo meu entusiasmo com a Pequena Notável, a Clara me levou a uma simpática livraria do bairro, com títulos importantes e também muitos alternativos.  Era cheia de pufes e tinha um café no fundo.

_Eu costumava vir aqui nos dias frios – ela disse, numa dança entre as prateleiras cheias de livros amontoados –, ficava horas lendo e meus amigos não entendiam.
_Por que? Você não lê?! – ri.
_Não era isto. Era só que nunca tinham visto a garota que me servia os macchiatos.

Olhei para ela, achando graça. Peguei um dos livros que estavam numa grande cesta de palha no chão, em promoção. Pareciam obras de sebo, meio detonadas. O primeiro que peguei era um livro de poesias. A Clara seguia mais adiante, observando as prateleiras mais ao fundo para ver se me achava um Quino original, em espanhol. Folheei as páginas com certo interesse em ver quanto daquilo eu conseguia entender. Inicialmente, os poemas eram curtos e simples. Me pareciam o tipo de coisa que a Marina gostaria de ler. E pensei em levá-lo de presente para ela. Até que, na página 79, as linhas finais de um dos poemas me prendeu o olhar.

Dizia: “(...) Porque eres mía
Porque no eres mía
Porque te miro y muero
Y peor que muero
Si no te miro amor
Si no te miro

Porque tú siempre existes dondequiera
Pero existes mejor donde te quiero
Porque tu boca es sangre
Y tienes frío
Tengo que amarte amor
Tengo que amarte
Aunque esta herida duela como dos
Aunque te busque y no te encuentre
Y aunque
La noche pase y yo te tenga
Y no.

E não sei bem por que aquilo me acelerou o coração, fechei o livro em agoniado silêncio. Olhei por cima das prateleiras, a Clara estava ao longe. Pensei em devolvê-lo ao cesto – mas quis levar. Não para a Marina, nem para mim. Relutei. E fiquei em pé, ali, numa dúvida um tanto besta. Subitamente apegada àquelas páginas.