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abril 30, 2011

A vida sem ela

Os próximos dias se seguiram em silêncio. Ninguém naquele apartamento falava, não abríamos a boca, o telefone não tocava e as mensagens pelas quais ansiei por um domingo inteiro nunca vieram. Apenas os olhares se trocavam pelo corredor, desinteressados. E depois seguiam o seu caminho. Eu, o meu e ele, o dele.  Não mencionávamos o assunto, não interferíamos um na vida do outro. A garota voltou – a mesma daquela noite de sábado –, na quarta-feira, e ficou mais tempo dentro do quarto do Fer do que pela casa. Depois veio na sexta, mais uma vez. Conversavam por sussurros, pelos cantos, como se eu pudesse ouvir. Na cozinha, logo pela manhã, ou quando ele se despedia dela na porta de entrada. Eu observava, quieta, mas era como se não existisse no apartamento. O Fer não sorria, não com ela; e estava sempre com a aparência cansada, os olhos amargos e escuros.

Eu sabia que ele estava mal, podia vê-lo sem que precisasse me dizer. Convivência, quando é assim por anos, tem mesmo dessas.  Todavia, eu não conseguia me importar, não de início. Não sabia onde ele havia arrumado a garota e tão pouco ligava para isso. Não entendia também como ela não percebia o desprezo nos seus movimentos, a indiferença dele quando ela estava ali. Minha querida, você é só o step... eu a olhava, sentada na poltrona da sala, se despedindo do Fer na porta do nosso apartamento. Tinha cara daquelas estudantes de faculdade particular, que cursa Farmácia ou Nutrição, filhinha-de-papai e meio burrinha. Ele vai te jogar no lixo, meu, assim que isso acabar.

E, de fato, acabou.
Na semana seguinte, ela não voltou mais.

O estado surdomudo dos cômodos prosseguiu, contudo, cada vez pior. Parecia que uma vez estabelecido o silêncio, o tempo dificultava quebrá-lo e não conseguíamos mais voltar ao que era antes. Tampouco queríamos. Não estávamos com saco ou paciência um para o outro, não tínhamos mais disposição para os nossos respectivos erros estúpidos. Eu sabia que ele estava sofrendo por dentro, deixando criar rancor; e já ele, sequer se esforçava para reparar a dor que me corroia por dentro, escondida dos seus olhos e do mundo. Eu estava muda, apática. Andava pelo apartamento por mera necessidade de locomoção entre um cômodo e outro. Lia muito – terminei Inferno, da Eileen Myles – e via televisão aos montes para evitar a droga da internet e a minha propensão às péssimas decisões. Enchia a minha cabeça para não ocupá-la com pensamentos e parei de beber por um tempo.

Na noite de quarta, a mesma em que a garota veio, fiquei horas sem conseguir dormir, sozinha na cama e encarando o teto. Pensei na Mia. E só nela, um milhão de vezes, por todos os ângulos. No seu sorriso, nas curvas do seu corpo, nela deitada comigo no chão, nas coisas que me dizia distraída, no bar do Itaim, nos seus dedos percorrendo a tatuagem no meu pulso no dia do estúdio, em nós duas bêbadas na Sarajevo, em como ela dançava comigo, perto de mim, no beijo na pista de cima, nas sensações no escuro, nos seus olhos inchados de chorar, no elevador do prédio. Peguei o celular ao lado da cama e segurei-o por um tempo, deitada de lado, sem saber o que fazer. Não tinha idéia do que dizer para ela. Aí escrevi um desajeitado, “Eei... :)”, na esperança de que ela também estivesse acordada.

Ela não me respondeu.
Naquela noite e nem nos dias seguintes.

Droga. A Marina por sua vez estava, de um jeito remoto e expresso por algumas poucas ligações durante a semana, meio preocupada comigo. Me ligava à noite para saber o que eu estava fazendo e, às vezes, me fazia perguntas bem de mãe do tipo “você comeu alguma coisa hoje?”. Eu achava que ela estava exagerando. Respondia da mesma forma que responderia caso eu fosse, de fato, a sua filha. Ou seja: sem muita paciência. Para falar bem a verdade, a minha vida estava bastante normal. Eu ia e vinha do trabalho todo dia, me alimentava regurlarmente todo dia, dormia uma quantidade razoável de horas todo dia, ou quase todo dia, e por aí afora. “Você não está enganando ninguém”, a Marina argumentava, indignada. Mas, na prática, eu só não estava enganando ela. O resto não percebeu...

Durante as duas semanas que se seguiram, recusei todos os convites para sair – incluindo um do Gui para a The Week e outros dois da Lê de irmos para a Clash. Todo mundo achava que eu estava ocupada e isso me bastava, me isolei. De propósito. Não falava sobre a Mia. Com a Marina ou com qualquer outra pessoa. Ainda assim eu sentia, preso dentro de mim, uma vontade insuportável de mencionar o seu nome, a qualquer hora que fosse. Uma vontade louca de vê-la, de saber o que estava se passando. Tudo o que eu sabia – numa infeliz forma de conhecimento – era que havia procurado o Fernando num daqueles dias que se passaram – em um ou mais, depois do fim de semana da briga. Eu estava na cozinha, jantando, quando escutei ele discutir com ela pelo telefone. Abriu a porta do quarto com força, após algum tempo, falando um último “porque eu não quero que você me ligue, porra!” e saiu do apartamento direto, com raiva.

Nesse dia, eu me senti um verdadeiro nada.

E era por isso que não falava dela. Porque me doía lembrar, desconfiar que fosse, da possibilidade dela sequer pensar em mim. Assim o meu silêncio me protegia, me distraía do dela. Maldição. Coisas como o chilique daquela noite estavam fora do meu controle. Menções espontâneas no corredor, que nada tinham a ver comigo, numa discussão com o Fer e eu ali do lado, sem escolha, ouvindo. Me remetia à ela e desencadeava um caos interno. Então o babaca saía de casa sem nem se dar conta da repercussão dos seus atos barulhentos e eu sobrava ali, sozinha, com o estômago embrulhado e uma vontade filha-da-puta de fazer alguma merda muito grande. Só para colocar tudo para fora. Para descarregar toda aquela frustração de não ser eu, de não ser eu, cacete; de não ser para mim a porra daquela ligação.

Sentei em silêncio por vinte minutos, naquela noite, com o meu telefone mudo na minha frente na mesa. E depois, com um rancor desgraçado, estourei o volume do som da sala até os vizinhos reclamarem.

abril 20, 2011

A Intromissão

Encarei os tons arroxeados, cansados, que se camuflavam sob a minha pele ao redor dos meus olhos. Frente ao espelho do banheiro, destruída. Não havia dormido direito naquela manhã e, para ajudar, acordei cedo demais. Meio-dia passado. “Cedo cemais”, claro, considerando a ressaca moral e a madrugada virada numa sucessão idiota de escolhas erradas... observei o meu reflexo, ainda descabelada, e respirei fundo em desaprovação... lindo. Desliguei a água que estava correndo segundos à toa e deixei a escova de dente de lado na pia.

Ergui o cabelo, prendendo-o todo num pseudo-coque com um elástico desgastado. Aí virei de leve a base do pescoço para observar as marcas que persistiam impregnadas em mim, automaticamente tocando-as com a ponta dos dedos, inferno. Revirei os olhos, sem paciência para a minha própria índole estúpida, e me voltei para a porta. Arrastei o meu corpo mole, mal-dormido, por todo o corredor até a sala, numa calcinha preta e blusa velha dos Strokes.

O meu celular permanecia covardemente desligado nas minhas mãos. Não sei do que tinha mais medo: encontrar uma possível mensagem da Mia, na minha caixa postal, que me doiría escutar ou ligá-lo e não ter porra nenhuma ali. Meu deus, eu fico cada dia mais ridícula, cobri o rosto com uma almofada, já deitada no sofá. Aí tirei-a da frente e encarei o aparelho por um instante. Quando foi que eu me fiquei tão bichinha? Apertei a droga do botão de “ligar” – num ato de coragem, do nada – e larguei-o na mesa. Esperaria para ver. Na mesma hora, porém, ouvi a porta do quarto do Fer se abrir. Escutei atentamente, em silêncio, e os passos se seguiram, arastados, até a cozinha.

Pulei do sofá. Movida, óbvio, por um espírito fofoqueiro bem pouco saudável – dadas as circunstâncias – e caminhei para me meter onde não era chamada. A porta do seu quarto permaneceu fechada após a sua saída, nítido indicativo de que tinha mais alguém lá dentro. Cachorro do cacete, xinguei-o mentalmente, esquecendo-me da minha própria enroscada com a loirinha no carro naquela madrugada. Sendo discreta, entrei na cozinha como quem não quer nada, passei por trás dele e fui em direção ao armário de copos. O Fer estava com o mesmo samba-canção daquela manhã, mas agora também com uma camiseta branca por cima e uma cara amassada de homem imprestável.

_Dormiu bem?! – perguntei sem olhá-lo, irônica, de costas, observando o meu copo se encher de água.

Ele não respondeu, provavelmente ainda bravo pelo barulho todo com o celular mais cedo naquele dia. Se moveu até o outro lado da mesa, mudo, preparando um sanduíche em pé. Não é possível, dei um primeiro gole, encarando-o sem que ele o percebesse, agora encostada contra o armário. Ele não trairia a Mia. Não assim, porra, não na mesma noite. O Fer podia ser muitas coisas – e poucas delas realmente nobres –, mas nunca fora vingativo. Não, isso não, concluí, eu que estava louca demais para entender. A dúvida, contudo, me perturbava. Seguia incomodando, irritante. Como uma coceirinha ínfima, inquieta, atrás da minha orelha. E, então, não me agüentei. Retomei mais uma vez:

_Tem... – falei calma, casualmente  – ...alguém aí?
_Não é da sua conta – ele retrucou, grosso.

Ahh, tem.

_A Mia? – insisti, mesmo sabendo que não.
_Já falei, porra... não se mete.
_Que que foi agora, Fernando?! – me ofendi com a sua indelicadeza.
_Nada.
_“Nada”?!
_A vida é minha.
_Tá, a vida é sua! Falei que não era, por um acaso?! – me irritei, afetada pelo meu azedume incrível daquele dia – Não precisa responder se não quiser. Só queria saber se tinha mais alguém em casa, porra... o apartamento é meu também, sabia?! Você não acha que eu tenho direito de saber essas coisas??
_Cara, alguma vez eu me intrometi na sua vida? Hein, caralho?! – ele virou para mim, nervoso – Já?! Já fiquei perguntando das meninas que você traz aí?!? Fiquei, meu?!
_Ah! Então tem alguém aí, não é?!
_Não te interessa... – ele virou novamente para a mesa, me ignorando.
_Ahh... Me interessa, sim! Aliás, acho que, considerando aquele teatrinho de merda todo que você armou ontem aí, isso me interessa e muito, Fernando. Você acha que pode dormir com qualqu...
_Se a Mia pode, eu também posso – ele me interrompeu, por fim.

Aí saiu puto da cozinha, levando consigo o sanduíche inacabado.

abril 16, 2011

Pena, vaidade e outros problemas da humanidade

Mais três minutos e o celular começou a tocar de novo. Eu assistia imóvel enquanto ele vibrava, barulhento, em cima da mesa. Aquela era a segunda vez que ela me ligava de volta. As minhas mãos, os meus braços permaneciam inalterados, cruzados um no outro, indiferentes – ou aparentando – ao som que saía alto do aparelho. Eu não suportava desmoronar: não na frente dos outros, menos ainda dela. Aquilo me machucava o ego de uma forma violenta.

Quantas vezes, porra, quantas malditas vezes eu não quis que você me chamasse?, os meus olhos inchados observavam o nome da Mia na tela. Progressivamente ficando na defensiva, merda. Como eu quis. Que você aparecesse no meio da madrugada, que me ligasse..., aquilo me doía por dentro, caralho, me esmagando em silêncio, ...que quisesse saber de mim, porra?

Ah, mas agora... Agora, meu bem, era diferente.

Ao final do toque, já com certo rancor, peguei o celular e tirei a notificação de chamada perdida da tela inicial. Deletei. Depois o coloquei mais uma vez na mesa, largando-o ali, num movimento pesado. Isso é ridículo, mano, argh. Todavia lá estava eu, bêbada como um gambá, às 7 da manhã de um domingo desgraçado que não acabava nunca, sentada sozinha numa cozinha vazia, encarando o celular parado na mesa apenas para ver se ele começava a tocar de novo.

E, de fato, começou. Poucos segundos depois. Ahh, sua filha-da-puta..., balancei a cabeça e me forcei mais ainda para trás na cadeira. Acompanhei, afundada, com os olhos e ouvidos embriagados, enquanto o toque crescia e a tela se acendia insistente. Nem uma palavra, encarava-o, você não disse nada, meu. E agora lá estava ela, de repente, pronta para me ouvir. Engraçado como o ego de merda das pessoas funciona..., os meus pensamentos ecoaram pelo cômodo amanhecido, transformando frustração em desprezo, ...como reagimos com indiferença, com distanciamento ao amor.

O seu nome seguia piscando e o toque aumentava. A verdade é que já desgastamos cada maldita letra dessas três palavras de merda. “Eu te amo”, hun..., apertei as sobrancelhas com desgosto. De tão supersaturado, de tão falado a esmo, não causa mais impacto algum. Nada. Nos seus olhos, na sua boca: nada. Mesmo que, o meu, não fosse a esmo. Ah, mas a dor... a dor, sim. Passei a mão no rosto, me forçando a sair daquela brisa. Parei com ela sobre a boca, inquieta, observando o celular tocar. O aperto no peito me voltou, de repente, incômodo. No fundo, é só isso que você quer. É o que todo mundo quer.

Evidência, caos, isto é.

A confusão na voz, as lágrimas, os segundos entalados na minha garganta. Isso, sim, te enche de curiosidade; te faz pegar a porra do telefone. Senti o meu coração acelerar, aos poucos, no meu peito. Com um rancor desgraçado. É uma prova, é isso; é algo concreto, gotas de água salgada através do telefone; é ter o óbvio escancarado e soluçado no seu ouvido, mais do que apenas dito ou mostrado, para você saber de fato o quanto afeta a vida dos outros... senão são só palavras, pensei, e de que vale a minha, não é?

Pois: não. Ela não ia me ouvir chorar. Nem mesmo ela, não, não; eu me segurava, com dificuldade. Principalmente ela. Eu não ia atender. Não. Já havia pisado e atropelado todo o meu orgulho nos meses que se antecederam àquela droga de pós-balada na minha cozinha vazia. Desta vez, não. Desta vez, eu ia olhá-la tentar e tentar. E não ia me mexer. Mesmo que me doesse – e como doía – olhar o nome da garota que eu amava, a que me meteu na merda onde eu me encontrava, a que me tirava a cabeça do sério há meses, me chamando assim, sucessivamente. Senti as lágrimas subindo pela minha garganta e me machucando por dentro, contidas. Eu já te disse tudo o que tinha para dizer, no elevador, encarei bêbada o celular vibrando.

Até que parou. E a ligação finalmente caiu – direto na minha lista de chamadas perdidas. Peguei novamente o aparelho em mãos e tirei a notificação pendente na tela. Devolvi-o à mesa, colocando-o com mágoa sobre a madeira. O excesso de tequila me impedia de medir os meus movimentos, o meu aparelho acabava apanhando desnecessariamente. Você deve estar se achando realmente importante, não é..., olhei com desprezo para o celular mais uma vez, sem conseguir tirar a Mia da minha cabeça.

E não o era? Não? Passei as mãos, com pesar, no rosto e apoiei os cotovelos na mesa. Deixei os meus olhos fechados por um instante, acobertados pelos meus dedos emparelhados. Ela é, porra, pensei. E eu sabia que era. Contudo, às vezes, parecia querer me forçar a acreditar no contrário. Por pura auto-defesa. Da forma mais grosseira, estúpida e nitidamente magoada possível, eu tentava provar que não. Que eu podia não atender, que eu não ia ligar a mínima. Mas aí eu, claro, me importava. Ou me deixava afetar, de uma forma monstruosa...  

Merda.

Eu odiava a minha involuntariedade de sentimentos ao redor dela, ao redor da mera idéia dela. “Ela”. Você. Encarei mais uma vez o celular, agora apagado e quieto sobre a mesa, e desliguei-o de vez. Chega. Já não suportava mais agir daquele jeito – amargo e infantil – com a garota que eu sempre quis; eu me sentia horrível. Por outro lado também, não estava em quaisquer condições de atendê-la; não desta vez. Cama... é isso que eu preciso, me levantei, prevendo a ressaca terrível que se seguiria naquela tarde. E aí cambaleei até o corredor.

_É você que tá fazendo esse barulho todo, caralho?! – vi o Fer parado, só de samba-canção e uma puta cara de sono, frente à porta aberta do seu quarto.
_Foi mal... – respondi de qualquer jeito e passei, com cara de poucos amigos, me dirigindo aos meus aposentos. Não tinha vontade alguma de confraternizar com ele, não mesmo, menos ainda depois da droga da briga no dia anterior.
_Porra, custa?! – ele reclamou comigo, igualmente sem saco para com a minha pessoa, nervoso – Desliga essa merda, né, caralho... a gente tá tentando dormir!
_Tá, tá! – fechei a porta do quarto.

Babaca. Andei até o armário, irritada, e tirei a camiseta que estava usando. Joguei-a lá dentro, arranquei os tênis e abaixei as calças, largando-as no chão. Aí escolhi uma blusa velha qualquer, alguma dos Strokes, e coloquei para dormir. Fechei a porta do armário, em seguida, me sentindo menos bêbada do que antes e mais tonta do que nunca. Então, me virei para ir para a cama. Mas espera, parei por um segundo, ainda em pé, “a gente” quem?

abril 10, 2011

Re-consciência

_Ei... – ela sentou e me segurou pela mão, fazendo com que eu a olhasse, ao invés de me vestir – ...o que foi?!
_Nada – disse com naturalidade, me soltando dela, aí desvirei a camiseta e coloquei-a no corpo.
_Nada?
_Nada, porra...
_Então, é isso?!
_É – me sentei do lado oposto do banco, meio sem saco para aquilo, acendendo um cigarro.
_O que foi? – ela me encarava, insistente – só fala, meu, não tem problema... O que? Você não gosta? É isso? Não quer que eu...? Meu, eu não preciso fazer nada, tipo, “com você”. Eu posso só...
_Não é isso...

Meu deus, ainda tem gente que acredita em passivas e ativas?!, pensei, estranhando o rumo da conversa. Para mim, isso tinha morrido há anos, junto com o coelhinho da Páscoa e a fada do dente.

_Ah, não é?! – ela me provocou, irritada, ainda sem acreditar.
_Não... – eu achei graça, tragando.
_Bom, então me explica, né... – continuou, meio ofendida – ...porque eu achei que estava indo tudo bem!
_Mas estava...
_E?!
_E nada, porra. E, sei lá, eu... não tô afim.
_Assim, de repente?!
_É.

Abaixei manualmente a janela para deixar a fumaça sair. Aí olhei para a calçada e notei o dia já bem mais claro, com resquícios da sujeira partyhard da madrugada de sábado. Como eu gosto de São Paulo, meu, observei, me sentindo em casa.

_Cara, você tem sérios problemas... – ela reclamou, murmurando, e cruzou os braços sentada ao meu lado, bravinha.
_Pois é – me enchi dela, num impulso grosseiro, e troquei o cigarro de mão, puxando a trava da porta ao meu lado para sair.  
_O que você está fazendo?!
_Eu posso andar até em casa... – justifiquei, agressiva, e saí.
_Não, meu... espera! – ela se apressou em escorrer pelo banco, em direção à calçada, e veio atrás de mim – O que diabos você está fazendo?! Calma, mano, eu te levo...
_Não, eu não quero que você me leve – virei para falar com ela, já cansada de estar ali; aquele dia de merda havia se prolongado demais – vai pra casa, meu. De boa... a gente... a gente bebeu demais e... sei lá.
_Mas que merda deu em você?! Não... não vou. Não! Você acha que eu vou te largar aqui, mano? Entra no carro, vai, eu te levo até lá, não custa nada...
_Eu tô bem, é aqui do lado, meu. Sério, eu quero ficar sozinha.
_Ficar...? – aí ela se estressou comigo, de repente – “Ficar sozinha”?! – levou uma das mãos à testa, encarando o chão por um instante, e depois me olhou de novo, irritada – então, por que raios você me ligou, porra?!?
_Mano, não... – comecei a rir, sem querer.
_Meu, qual é o seu problema?? Hein?!? – ela me encarou, nervosa, e eu parei de achar graça, aquele chilique do nada começou a me incomodar – o seu plano era o quê?! Sério, me fala... Me enrolar a noite toda e fingir que ia me comer?! Hein?!? – aí revirei os olhos, com o cigarro metido na boca, com preguiça de começar aquela discussão – e pra quê?! Pra chegar no carro e fazer graça por vinte minutos?! É isso?!
_Meu, na boa... não começa, vai, loirinha...
_Ah! E você acha que é justo?! Comigo?? Acha mesmo?!
_Espera aí... “justo”?!
_É, caralho!
_Tá. Você quer justiça, então... – levantei a voz, enfadada – O que é que você quer? Quer que eu te coma?! É isso? É isso que você quer?? Hein?! Então, vem... – peguei-a pela mão e marchei, irritada, até o carro – vamos lá, entra... – abri a porta bruscamente.
_Não, eu não d...
_O que?! Quer romantismo agora, porra?! – bati a porta, de novo.
_Não! Eu só quero entender porque voc...
_Olha, na boa, você não quer entender... – resmunguei, sem paciência alguma, passando por ela na calçada; descontando nela uma frustração violenta e que, no fundo, pouco tinha a ver com a situação em si – ...o que você realmente quer, garota, eu não tenho.
_Ah! É isso, então?!? – ela gritou na minha direção – Você simplesmente vai sair andando??
_É – disse, sem me virar, e continuei me afastando.

Puta merda, olhei subitamente para o meu cigarro e o vi quase rasgado, provavelmente amassado no meio do meu surto com a porta do carro e o “fazer justiça” ao encontro, agora pendendo torto na minha boca. Tentei endireitá-lo, já quase alcançando a esquina seguinte. O dia já havia clareado o suficiente e eu poderia muito bem pegar as duas estações de metrô que me separavam de casa, mas não tinha dinheiro suficiente. Então, andei. Paulista afora, metro por metro de chão, sentindo um nada imenso por dentro. Não pensei, em porra nenhuma, só andei. E andei direto, até a porta do prédio.

Quando entrei em casa, a sala estava em silêncio absoluto, amanhecendo. Me dirigi para a cozinha, largando as chaves ao lado das caixas de sucrilhos sobre a mesa, e peguei um copo no armário de cima. Abri a porta da geladeira, logo em seguida, e o enchi de água. Sede do caralho. Puxei uma cadeira frente à mesa e tirei o celular do bolso, largando-o ali, aí me sentei meio de qualquer jeito, afundada contra o encosto. Tomei a água em goles grandes, totalmente alcoolizada. Assim que terminei, fiquei parada olhando para o copo vazio. A minha respiração estava pesada. Merda.

Virei-me para o lado, perpendicular à mesa, apoiando os braços nas pernas e o rosto nas mãos. Começou a me voltar, de repente, todo o dia anterior à cabeça. Os acontecimentos, todos eles, ao mesmo tempo e sem motivo. Aquela porra de apartamento, a briga, a Mia, a mensagem, o Fer, a Mia... a Mia, a Mia, a Mia... os meninos, o Vegas, a loira, a merda do meu jeito, da minha vida, a Lê, a balada, a Mia, aquela traição toda... a Mia, a Mia, porra... e o bar, a droga daquela Bia, a minha grosseria estúpida, a Mia... a Mia, a Mia... a Marina... o ar começou a me faltar, de repente; senti um soco no estômago. Os meus olhos doíam, inchados numa rapidez embriagada e fora de si, e a minha garganta apertava-se.

Comecei a sentir uma agonia que vinha de dentro; um desespero sem controle. Olhava à minha volta, o apartamento, a pia, os armários, as cadeiras, o microondas, a geladeira, a torneira, o chão, a mesa, a porra do copo vazio, as minhas chaves, a porta para o corredor, a sala, e as coisas simplesmente não faziam sentido. Nada, porra, nada mais faz sentido nessa merda, senti as lágrimas me subindo doídas pela garganta, mas não quis chorar.

Me virei de novo para a mesa e coloquei os cotovelos apoiados nela, segurando forte ambos os olhos entre os dedos, relutando, com o rosto metido nas mãos. Inferno, o meu pensamento voltou à tarde do dia anterior. As minhas ações não faziam sentido, nada, nenhum. O que eu tô fazendo, meu deus?!, eu me condenei, bêbada e ciente demais das minhas próprias merdas. Eu não sabia como tudo havia chegado àquele ponto.

Peguei o telefone meio de qualquer jeito, em cima da mesa, num desespero impulsivo, e aí disquei para ela. Sentia a minha cabeça prestes a explodir, a implodir, a se rasgar, doída, completamente sem rumo. Eu não sei o que eu buscava, o que eu esperava ouvir – acho, na verdade, que eu não queria nada. Não dela. Só que não conseguia mais estar sozinha; estar ali, de novo. E que motivo egoísta, não é, para enfiá-la novamente na droga da minha vida, para trazê-la à minha realidade; mas eu não conseguia evitar, não conseguia pensar.

_Hmm?! – ouvi-a do outro lado, sonolenta.
_Mia... – tentei falar e meus olhos começaram a se encher de lágrimas, me doendo inteira – Mia, eu... – parei, angustiada, e os segundos seguintes correram em silêncio, droga, retomei – Mia...
_O que aconteceu?! – ela soou mais desperta, assustada.
_Eu... – busquei fôlego, com dificuldade – ...eu não... eu não sei... eu... – não conseguia empurrar palavra alguma acima, uma angústia horrível me bloqueava a garganta, apertando-a a ponto de quase não deixar passar o ar.
_Alô?!

Quis desligar, de repente. Inferno. Senti me doer mais ainda; as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Puta que pariu. Tentei respirar fundo, mas não conseguia. Meu peito se enchia de angústia, apertado. Passei a mão no rosto. Eu estava perdendo a razão, merda. Apertei os olhos, bem fechados, e enxuguei as lágrimas com pressa, com raiva, tirando-as dali.

_Linda? O que foi?!
_Eu... – solucei contra a minha vontade, droga, sentindo uma tensão terrível tomar conta de mim, tentando entender na minha cabeça como, como diabos aquilo estava acontecendo comigo; a traição, a briga, ela, o apartamento, o meu amigo, como eu havia deixado a minha vida chegar àquele ponto; o quão idiota eu podia ser, caralho – ...eu... eu não devia ter te ligado... desculpa.

Então desliguei, do nada. E as lágrimas voltaram intensas.

abril 08, 2011

O Ato

É. Era estranho beijá-la. Trancadas num carro, parado no meio da rua em pleno bairro nobre, às quase seis da manhã de um domingo. Sentia alguma coisa fora de lugar na minha cabeça, como quando se tem a impressão de estar esquecendo algo, as chaves ou a porra da consciência. Mas beijava-a de novo, me forçando por cima do seu corpo, as mãos apertando-a pelas coxas, metidas no banco de trás do seu carro.

A verdade é que, quando se está tão bêbado quanto eu realmente estava, as suas ações assumem um estado esquisito de inércia, disparam em linha reta. Pensar a respeito, uma vez que se começa, e de fato mover-se no sentido contrário requer muito, muito mais do que um mero “incômodo” lá no fundo da sua mente. E eu adquiri – até que bem rápido – uma amnésia seletiva. Injustificável, eu sei.

Já as pernas dela... As pernas dela já estavam abertas. O meu joelho direito apoiado já entre elas e o outro apertado entre a sua cintura delicada e o encosto do banco. Sem esforço nenhum da minha parte, eu juro. Aí a minha perna direita se forçava contra ela, os seus lábios se apertavam contra os meus em resposta, me puxando pela nuca com ambas as mãos, se enroscando no meu cabelo de forma intensa. Conforme os minutos passavam, juntas ali, podia sentir o ar interno do carro se tornando abafado, úmido. E antes que pudesse ver, estava começando a suar, me enrolando cada vez mais intensamente com ela, no meio dela, enfim.

Todas as janelas do carro estavam fechadas. Sentia a tequila fervendo no meu cérebro, nas minhas veias, beijo atrás de beijo. Cada vez mais molhados. Eu e ela e as nossas línguas e os nossos corpos e a minha... minha mão metida na... é, na sua calça apertada. Mas aí puxei-a de volta e, sem pensar, arranquei a minha blusa. Passei o tecido de qualquer jeito no rosto, secando-o, e joguei-a no chão do carro. Voltei para cima dela, com tudo, sem nem perceber o que realmente estava fazendo ali. Os vidros começavam a embaçar, a temperatura estava subindo progressivamente. A minha cintura suada por cima dela, todavia, parece ter lhe dado a impresão de qualquer tipo de liberdade. Subiu a mão por uma das laterais internas das minhas coxas, toda metidinha, se aproximando. Peguei-a pelo pulso antes que chegasse e segurei firme acima da sua cabeça, afastando-a.

Nós não íamos tirar as calças ali. Não, claro que não. Eu, a propósito, não tinha intenção de abaixar as calças em lugar nenhum. Não com ela, pelo menos. Os seus beijos, contudo, me envolviam, subindo pelo meu pescoço. Ergui os olhos e vi o céu clarear pela janela... caralho, eu vou... ser presa... aqui..., fiz certo esforço para piscar, tentando me manter minimamente sóbria. Mas aquilo já estava longe do meu alcance. Ela, porém, não parecia se importar. E talvez eu também não desse a mínima, se estivesse com os pensamentos de fato imersos naquilo, e não flutuando soltos por aí.

Seguíamos nos beijando, nos enroscando mais e mais. Ela era boa – eu já sabia que era. Àquela altura, o número de marcas roxas no meu pescoço já estava consideravelmente maior. Cara, não acredito nisso..., eu pensava e lembrava da Mia, me torturando. Mas aí, numa estupidez contraditória irremediável, movia o rosto para frente e beijava a loira mais forte ainda. Deslizei a mão novamente por debaixo da linha do seu skinny jeans. Ela me agarrava sem frescura alguma, sem noção até, bêbada demais. Apertadas uma contra a outra, semi-deitadas, num banco traseiro estreito – e nos apertando mais ainda, claro, por mútua falta de auto-controle. 

Os botões da sua calça já estavam todos abertos, escancarados, sobre a minha mão, que se encontrava enfiada na sua calcinha. Ela me puxou para si novamente, com uma das pernas ao redor da minha cintura, e aí desceu a mão do meio dos meus fios de cabelos pelo perímetro extenso das minhas costas, expostas, até contornar a linha da minha calça e chegar ao zíper colocado na frente. Nem pensar, garota. Segurei-a, de novo. Ela riu e me olhou, intrigada, achando estranho. Sem tirar os olhos dos meus, porém, num atrevimento que era para ser adorável, se soltou de mim. E insinuou o corpo para frente, me beijando. Aí veio mais uma vez, de leve, insistindo.

Parei de beijá-la e olhei para baixo, para a sua mão sobre a minha perna, a quatro centímetros de onde ela realmente queria chegar. Aí olhei para ela, de novo, séria. Ela riu mais uma vez, achando menos graça nesta, e tirou as mãos de cima de mim imediatamente. Desviou o olhar por um instante, depois tornou a me encarar. Queria uma explicação, pressupus. E aí perdi, de repente, toda a vontade de estar ali. Inferno. Escorreguei minha mão para cima de novo, para fora da sua calcinha. E me inclinei para trás.

_Eu fiz alguma coisa? – ela perguntou, irônica.
_Não... – respondi de qualquer jeito, procurando a minha camiseta, sem paciência.

Cansaço

Tentei me equilibrar na beira da calçada, entre as faixas brancas e as de cimento. Uma a uma, por baixo dos meus pés, leves e embriagados. Repetia uma melodia qualquer na minha mente, um tu-ru-tu-nu-nu-num sem sentido, acompanhando os meus passos como se numa dança. Um cigarro aceso pendia entre meus dedos; ambas as mãos suspensas no ar, buscando um ponto de equilíbrio pro corpo.

Eu estava dispersa, aquele dia não acabava nunca. O carro da loira se encontrava a duas quadras dali, estacionado, agora já quase isolado na rua: o restante dos baladeiros havia ido para casa, os poucos que restavam estavam largados nas mesas do Black Dog. O dia estava prestes a amanhecer. Por algum motivo, aquele seria o meu segundo nascer-do-sol em três dias ao lado de uma garota que eu mal lembrava o nome.

Metros atrás de mim, tirou a chave do bolso e eu vi a luz traseira do carro piscar subitamente, destravando-se. Seguia a frente dela, realmente distraída. Ou bêbada demais, sei lá. Encostei na porta do passageiro, meio cambaleando; e senti certo alívio em ter qualquer apoio para mim mesma. Os meus pés não obedeciam mais aos meus comandos, que maldição. Ouvi um baruho e olhei por cima dos ombros. A loira estava logo atrás de mim, ao invés de surgir do lado oposto, já com a mão na maçaneta da porta de trás do carro...

Ô, merda.

Encarei-a. Aí me virei e apoiei os antebraços sobre o carro, numa reflexão rápida. Preciso parar de falar tudo que me vem a cabeça..., eu achei graça. Balancei a cabeça, rindo, e traguei mais uma vez o cigarro. Então decidi, meio sem ter por que, encarar aquilo de uma vez.

_Tá... – a olhei de volta, bem nos olhos, e tirei as mãos de cima do seu carro; retornei dois passos pela mesma calçada, colocando-a contra a porta de trás, uma mão de cada lado do seu corpo no vidro.

Ela sorriu, de leve. Puxou a maçaneta com a mão e movemo-nos para frente, a porta foi se abrindo progressivamente atrás de nós. Aí ela entrou, escorregando para o fundo do banco, e apoiou-se contra a janela oposta. Fiquei em pé na calçada, observando. Puta merda, mano..., foi o meu último pensamento antes de cometer o que eu já previa que ia me arrepender de fazer. Mas ri mais uma vez e joguei o cigarro na sarjeta, entrando em seguida.