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fevereiro 24, 2012

"Típico."

_Como eu não vou pensar nisso?? Meu... – ele disse, gesticulando meio exagerado do outro lado da mesa – ...é o que, tipo, todo cara na face da... da... Terra sonha que aconteça e acabou de rolar comigo! Porra, vou deixar pra lá? Tá louca?!? – riu.

Affe. Como vocês, homens, são ridículos..., me segurei para não revirar novamente os olhos, ainda enojada pela maldita ideia da Mia com outra garota que não eu. Uma ideia muito, muito gráfica na minha mente. As duas no sofá, a Mia bêbada, numa festa barulhenta em Moema. Puta merda. O ciúmes crescia em mim, como um câncer, um incômodo. Me revirava o estômago, tão de repente. Quase chegara a pensar, quase, que estava de vez livre da porra da influência dela sob o meu corpo. Todavia me invadia agora os órgãos, contaminava tudo. Deliberadamente. E eu tinha que sentar ali, ô carma dos infernos, olhando o meu amigo nos olhos e ouvindo-o comentar, detalhadamente, cada pedaço do ocorrido. Cada beijo dele com ela, dela com ela... argh.

...e eu lá, rezando, para que parasse logo de falar. Pelo amor de Deus, pensava ouvindo o Fer, cala esta boca, porra.

_Meu... – aí ele mudou o tom, um tanto animado, e sugeriu de leve – ...cê acha que, tipo... alguma chance de... assim, não agora, claro! Mas, tipo, sei lá, depois que passar o drama todo dela, manja? Cê acha que... que ela dormiria comigo e outra menina?

Não, porra! Tá louco?!?

_Fer... – engoli seco, com a mera sugestão, tentando controlar minha ansiedade crescente – ...nada, nada a ver, meu. Cê tá viajando, cara, a Mia não é dessas.
_Ah, tá, mas de repente se eu falar com... jeito... tipo, pedir e explicar e tal. Pô, ela que começou a parada! Quer dizer, alguma curiosidade ou abertura ela tem, né...

Mano, eu juro, eu juro por tudo que há de mais sagrado, juro, que se você meter a Mia numa cama com outra garota... eu juro, seu babaca, juro mesmo..., pensei, já perdendo a cabeça, ...que eu te mato uma, duas, vinte vezes se precisar, e te caço vida após vida até a sua última encarnação... seu bosta! Puta merda. Apenas a ideia já me fazia involuntariamente contrariada, cada vez mais ansiosa, resignada ao silêncio. Não, isto não.

_Meu, que... que “pedir” e “explicar” o caralho, mano... ridículo, porra, nada a ver! Qual é a de vocês caras e essa merda de comer duas minas, meu? Puta babaquice... sério.
_Ah, falou então! Quem dormiu com duas aí aquela outra vez lá... com a, com a Dani! Hein? Quê, meu?! Qual o problema??

Ok. Um pouco contraditório, admito.

_É, mas... mas... nenhuma delas era minha namorada! – me enrolei um pouco para contra-argumentar, tentando encontrar alguma maldita coisa que justificasse tamanha indignação da minha parte, merda – Fer, na boa... vai por mim. Isto vai dar maior rolo pra você depois... é furada! Ela já ficou mal só de ter pegado a mina, porra, pegado! Depois cê vai lá comer uma outra na frente dela e a Mia vai surtar, cara... sério, não faz isso. Não vai dar certo, vai ser puta bad pra vocês...

Eu o desencorajava, na maior cara de pau e foda-se. Só por favor, por favor... esquece isto, mano!, eu me desesperava, mentalmente. Sentia-me traída por ela.

_É... tá, tem alguma razão. Mas, sei lá... – suspirou – ...talvez mais pra frente. Não sei. Vou ver... mas queria entender, meu, qual é a daquela reação dela hoje de manhã! Cê... – me olhou, pensando – ...cê não falaria com ela?
_Eu?? Falar o quê?!
_Ah, meu... não sei... tenta sacar qual foi, o problema, sei lá; saber o que ela achou da parada... cê que é sapatão aqui, porra, você sabe sondar esses assuntos com as minas!
_Eu? – me indignei – Não, meu. Não vou sondar nada! E... também... outra: você acha que a Mia ia me contar, meu?! Ela não vai querer nem admitir que rolou, mano, na boa... – cruzei os braços; isto eu me recuso a fazer... porra! – ...fora que, meu, eu mal vejo a Mia agora! Quando a gente se encontrar de novo já vai ter passado toda essa merda...
_Mano, mas vocês não vão amanhã? – ele estranhou.
_Amanhã?!
_É! No teatro, pô!

Merda. Havia me esquecido. Quase uma semana antes, eu concordara em ir à estreia de uma amiga em comum nossa no centro de São Paulo, que deu-nos os ingressos. Nada demais, uma peça pequena, no circuito alternativo de cênicas paulistano. E obviamente – porque eu era a rainha de me meter em situações “incríveis” como aquelas, porcaria –, sabendo que o Fernando levaria a Mia, eu convidei a Clara. Para não ir sozinha com os dois. “Ótimo”. E agora íamos eu, ele, a Clara, a Mia... e a filha-da-puta da porra da garota da festa. Isto é, na minha cabeça ao menos. Argh... mil vezes merda!

_Olha, Fer... – suspirei, com um desgosto desproporcional à situação, e ele notou, droga – ...eu... eu não sei, cara. Não quero ficar falando dessas coisas com a Mia, meu. A gente mal conversa de uns tempos pra cá! Pra quê cê quer que eu me meta nessa?
_Nossa! Eu, hein... não tá mais aqui quem falou! – arqueou as sobrancelhas, se levantando da mesa – Que humor de merda que cê tá, meu...

Pois é, aliás, obrigada por isto. Ouvi-o deixar a cozinha, depois de estragar completamente o meu jantar, o meu dia, a porcaria da minha vida, e empurrei o garfo ao lado do prato. O dia seguinte seria interminável.

fevereiro 23, 2012

Noutros cantos

Aquilo me fez, de certo, algum bem. Eu me dava bem com a Clara, pelos motivos mais óbvios. Éramos tranquilas uma com a outra e conversar abertamente sobre a Mia fez-me sentir que havia formas de deixar tudo aquilo para trás. De um jeito ou de outro, algum dia. Que os meses iam passar, que algumas coisas inevitavelmente deixariam de ser importantes, que talvez até pudéssemos ser amigas. Isto é, sem olhares atravessados ou as palavras rancorosas de sempre, sem os longos períodos ignorando-nos mutuamente. Sem nada disto.

E o dia seguinte amanheceu com esta plenitude, diferente, tão logo me levantei para ir trabalhar. E os que se sucederam o seguiram, muito calmos.

Quase todos os dias, caminhei à produtora ao invés de pegar o metrô; gostava quando o ar de São Paulo estava assim frio. Saía mais cedo de casa e no meio da tarde enviava uma mensagem à Clara ou a qualquer outro amigo para decidir o que fazer quando o expediente terminasse. Numa dessas noites, o Fer foi numa festa e nos pusemos – Clara e eu – a transar em todos os cantos possíveis do apartamento. Por mera graça, só porque os nossos hormônios correspondiam aos de duas adolescentes em fúria e sabe-como-é. E aí, como tinha que trabalhar todo sábado de manhã, ela se levantou antes de mim no dia seguinte e eu fiquei. Desmaiada na cama, até acordar de vez lá pelas três ou quatro da tarde.

Arrumei então o meu quarto e o restante do apartamento, naquele estado pós-apocalíptico graças à zona que fizéramos sem querer na madrugada anterior. As minhas pernas doíam e a minha mente estava livre, tranquila. Arrumei tudo ao som de um CD antigo meu do Blind Melon. My mind is a mind that I have come to know..., eu cantava acompanhando o som da sala, já no volume máximo. Quando enfim terminei, depois ainda de colocar algumas roupas sujas para lavar, eram quase sete da noite. Cozinhei então algumas batatas e um miojo qualquer que restara na dispensa, morrendo de fome. Sentei com o meu modesto jantar na mesa da cozinha e, algum tempo depois, o Fer também acordou e saiu do seu quarto.

_Ah, aí tá você... – disse, ao entrar na cozinha, tão sonolento que quase não o ouvi.

Foi vagarosamente até o fogão, espiou o que havia dentro da panela, que estava sobre a boca já desligada. Com a tampa ainda na mão, pegou uma ou duas fatias de batatas cozida e comeu, sem se dar ao trabalho de se servir. Então veio para a minha direção, como quem não tem nada melhor para fazer numa noite de sábado, e sentou na cadeira à frente da minha. Do outro lado da mesa. Ficou em silêncio algum tempo e eu continuei comendo, na minha. O seu cabelo estava desarrumado, a cara amassada de tantas horas no travesseiro.

_Tenho uma pergunta – disse, do nada, se ajeitando na cadeira –. Preciso falar com você, na verdade... – pôs os braços apoiados na mesa, ainda meio desatento, e me olhou hesitante – ...rolou uma, uma parada ontem.
_Fala...
_Tipo... – enrolou – Fui com a Mia numa festa de um maluco lá do trampo, na casa dele, em Moema; gente boa. Até tava uma galera lá, cê lembra do Bina? Do Gustavo? Esse povo aí que estudava em Santo Amaro...? – “sei”, respondi meio de boca cheia; tratava-se de alguns colegas nossos da época de escola que depois viraram um bando de grafiteiros, trancaram o curso de artes plásticas na metade e foram ser porra louca profissional ou sei lá o quê – ...então, tavam lá e aí, manja, todo mundo muito louco, dançando e enchendo a cara e a música alta pra caralho; meu, vieram reclamar várias vezes no apê do nêgo, puta encheção de velho broxa...

E você vai chegar a algum lugar, em algum momento, com esta sua história?

_Enfim, mas sei que daí, uma hora, a Mia tava lá, manja, muito muito bêbada pra variar e falando com uma outra mina “x” lá da festa e eu mais pra lá trocando ideia com os brothers que fazia tempo que eu não via e tudo e e tal e tudo de boa, tranquilo, e aí, de repente, eu olhei pro lado e... as duas tavam se pegando!

Como?!, arregalei os olhos e o meu coração parou, quase engasgando com a comida.

_Sério! No sofá do cara, meu! – não consegui falar nada, nada! – Então eu pensei – ele prosseguiu –: “porra, da hora!”. Não é?! Tipo, lógico! E aí fui lá e sei que foi e conversa vai e conversa vem e a gente de buenas falando e eu sentei do lado delas e, quando vi, meu, peguei as duas... tipo, juntas!

Fer, a Mia o quê?!?, eu seguia em choque, tentando processar e sem ouvir direito o restante da história. O meu coração começou, então, a acelerar. E com muita dificuldade, forcei a comida que restara na minha boca goela abaixo, a muito contragosto; o meu estômago se embrulhava numa ansiedade repentina. Repete, cara, pensei. Mas o assunto inesperado me desnorteou de tal forma que eu já não sabia o que pensar. Ou, pior, sentir. Não, não, mano. Não repete nunca mais esta merda, nunca mais! – me arrependi na mesma hora, mentalmente.

_...porra, sério, foi do caralho.
_Fernando, cê... Cê vai fazer alguma pergunta em algum momento ou não? – o cortei, completamente grosseira, já impaciente com os detalhes desnecessários.
_Ah! É! Então, vou, cara... é que... – já não queria mais ouvir aquela merda toda, perdera todo o apetite e ele agora hesitava, puta que pariu, irritantemente – ...assim, manja, você que, que anda com minas e tal... e, tipo, que conhece a Mia e tudo mais, saca... você...

Suspirei, merda. Eu não quero mais ouvir isto; não, mano, isto não... não dá. Tentei me controlar, querendo desesperadamente sair logo dali e do meio daquela porra daquela história que eu não queria saber mais nada, inferno. Pra quê, pra quê estragar a porcaria do meu jantar, porra? Vir me contar esta bosta justo agora, caralho?! Sentia, de leve, o nervosismo tomar conta da minha respiração, mas seguia olhando-o, à espera da porra da pergunta, como se estivesse escutando alguma coisa.

_Você... assim, você acha que... sei lá.... que, que pode ter sido mais do que isto? Manja, mais do que foi?
_Como assim...
_Ah, sei lá... cê num acha que, que a Mia pode... pode “ser”, acha?!
_Meu, por que cê tá me perguntando isto?! – disse por impulso, já rancorosa com o ocorrido todo – Ué, não foi “oh muito lindo” e o máximo e tudo mais?! – revirei os olhos, meio sem perceber – Que porra tá te preocupando então, mano?
_Não sei, meu, é que foi... foi muito estranho depois. Hoje de manhã, digo. A Mia...
_Fernando, relaxa. Na boa, foi só putaria... – o interrompi, como se não quisesse falar daquilo –, a Mia não é gay. Eu te garanto.
_Tá, tá. Eu sei... óbvio, né! Mas, tipo, eu também achei isto... saca? Que fosse só putaria e tal... Mas aí hoje ela, ela acordou estranha, manja. Fui falar mó de boa da parada, pô, felizão pra caralho... só comentar, sei lá, nada demais e ela não quis nem tocar no assunto, me cortou. Mais de uma vez! Toda vez que eu falava da garota lá, ela fechava a cara. A hora que a gente tava tomando café da manhã, depois, ela disse que na real a outra lá era uma “imbecil” e que ela tava muito bêbada e mandou eu esquecer daquela “merda”. Tipo, mano... Nestas palavras! Foi muito bizarro!
_Eu nã...
_Meu! Não é estranho?? – não me deixou terminar e seguiu, um tanto exaltado – Sei lá, se... se fosse... de boa, manja, ela não teria ficado tão de mau-humor hoje! Foi muito, muito esquisito.
_Talv... talvez... – comecei a vasculhar a porra da minha cabeça atrás de algo para lhe dizer, qualquer teoria ou justificativa furada que não fosse o “qual o nome da filha-da-puta dessa garota?” que era a única maldita coisa que me ocorria, agora, gritando insuportavelmente na minha mente – ...eu... eu não sei, Fer, cada menina tem... sabe... uma reação, meu. Tipo... – consegui, enfim, elaborar algo; tentando apagar a merda daquela imagem da minha cabeça e fazendo um esforço desgraçado – ...vai, vai ver a Mia sente algum tipo de... de... repulsa, manja? Sei lá, porra! De ter tido uma – “uma” – experiência gay, não sei, meu. Foda-se, cara! Pra quê cê vai ficar pensando nisso?!

fevereiro 20, 2012

Noite-a-noite (3)

(...)

_E naquele dia... nós discutimos, feio, logo depois do jogo. Acho que... não sei... na hora, todos os meus sentimentos por ela voltaram, tudo de uma vez, sabe? E não é como se a gente... digo, evidentemente a nossa história, por menor e mais breve que tenha sido, não teve um bom final. Senão ela não estaria com ele...
_Mas o seu amigo sabe? – me perguntou.
_Não. Não sabe de nada. Ninguém sabe.

Dei-me conta de que nunca contara isto, tão abertamente, para ninguém. A Marina, o Gui e a Lê a muito custo sabiam e também um amigo do Fer, por acidente. Mas o assunto constantemente morria nos meus pensamentos, não chegava nunca a ser expresso com palavras. E me era estranho dizê-las assim, tão deliberadamente. Por favor, hesitei, não me expulsa da cama; não me mandar sair e nunca mais voltar aqui. Olhava para a Clara, de repente receosa, como se a qualquer momento ela pudesse se dar conta do que eu acabara de lhe dizer e surtar.

_Vocês... – seguiu, porém, muito tranquila e contida; apenas um pouco incomodada – ...estavam juntas quando a gente saía?
_A gente se beijou, uma vez. Quer dizer... eu beijei ela uma vez; não foi muito bem-sucedido, o lance todo. Mas eu já gostava dela. E era pesado para mim, tudo isto, naquela época. Por isto nunca te disse nada, nunca disse pra ninguém. Só começamos o que quer que fosse depois que eu já não estava mais com você, nos meses seguintes.
_E você acha que... ela ainda gosta de você?
_Não. Nunca achei, na real. Nunca foi, tipo, realmente correspondido; não da parte dela. Só que agora... eu... eu não tenho tanta certeza.

Ela abaixou os olhos, por uns segundos. Torci para que não absorvesse muito daquilo, não do que eu estava dizendo. Ela não disse nada, contudo. E ficamos em silêncio. Diz alguma coisa, qualquer coisa. Temia que se o fizesse me perguntaria o mesmo, o quanto de sentimento ainda a tinha. À Mia. E por mais que a negativa me fosse – agora – tão natural; por algum motivo, não queria responder isto. Não esta pergunta. Estranho, um relance de hesitação brotou em mim. Sentia que não queria trair as minhas palavras com a Clara. Mas por que as trairia?, a minha mente deu voltas, confusa, que eu bem preferia que não tivesse dado.

_Mas, Bi, agora isto é uma grande besteira... – tentei remediar o estrago.
_Hum... não sei... – olhou-me, parecia serena e estranhamente bem por estar conversando comigo – ...e eu? Era o quê?
_Como assim?
_Você disse que não... falou seus sentimentos por mim, na época. Não foi? Bom, sei lá... fala agora, ué. Onde eu entro na história? Eu era o quê pra você?
_Você, bom... – sorri, achando graça de repente - ...você era descomplicada. Era boa notícia, sabe, uma vez na minha vida.
_Isto... até o Vegas, claro.
_É. Até o Vegas – ri.

E a olhei, esclarecida.

_Mas quem sabe, né, talvez você seja boa notícia de novo...

fevereiro 17, 2012

Noite-a-noite (2)

Falou a que está distribuindo senha para meia São Paulo, pensei comigo mesma ao ouvir a Clara falar. Mas ela tinha certa razão no que dizia. Dei de ombros, dando-me facilmente por vencida e arqueando a sobrancelha, concordando. Como se pouco ligasse. , eu bem poderia ter dado uma de ofendida, me expressado contra a calúnia, indignada e tal. Mas sabia que a verdade não a incomodava. Então, pra quê me dar ao trabalho? Não era que gostasse, de fato, de tudo o que passava pela minha frente – longe disto, aliás. Eu apenas, digamos, era capaz de achar charme em cada um dos aspectos femininos. E com frequência. E eu sabia disto.

_Você nunca deve ter dito um ‘não’ na sua vida, né...
_Claro que sim. Várias vezes, meu... – discordei, soltando a fumaça no ar.
_Vai... Umas, o quê? Duas vezes nos últimos sete anos?! – riu.
_Besta! – ri também, observando-a e virando o corpo na sua direção, apoiada de lado na janela – ...quê, cê acha que eu não tenho critério nenhum, né?
_Não, sei lá, só não te imagino recusando mulher...
_Nossa, mano... claro que não. Acho metade das minas que tem por aí chatas pra caralho, não tenho paciência, meu. Só pego alguém que não tô afim se não tiver mesmo mais o que fazer. Tipo, tédio absoluto na mesa do bar ou numa balada muito porre, aí até rola... – traguei mais uma vez – ...e a garota ainda tem que fazer um esforcinho, cara.
_Aham...
_Verdade!
_Hum... E o que você acha pior... – iniciou uma hipótese, divertindo-se deitada na cama, ainda com os seus óculos e as pernas descobertas – ...se a pessoa não tem critério nenhum ou se ela tem interesse real por outras, e muitas, garotas? – esticou os joelhos, erguendo os pés ao alto no ar, movendo-os e os olhando à toa – Digo, quando se está com alguém que se gosta.
_Acho bem pior... – respondi e a olhei brevemente na cama, ao meu lado – ...quando a pessoa fica fazendo este tipo de pergunta cretina.
_Ah! Eu sou a cretina?! – ela riu, com ironia.

Colocou os pés no colchão e ergueu-se um pouco, apoiada nos cotovelos, me encarando indignada. Eu ri, também.

_Meu, você sempre vai ser. Você sabe que sempre vai ser. Pelo menos, enquanto formos eu e você em questão, né...
_Ah, é assim então? – jogou uma almofada pequena na minha direção, brincando – sério, meu, foi tão imperdoável? Tipo, vou ter que ficar pagando pra sempre...?!
_Óbvio – ri.

Ela balançou a cabeça e deitou mais uma vez para trás, no colchão. Eu ri mais um pouco, apoiada em pé contra a janela e a olhei por alguns segundos. Você é uma figura, garota. Admirava-a por ser quem era. Crua. E sem ser óbvia. Isto fazia-me sentir mal, por não ter sido sincera com ela, por não estar pagando pela minha parte naquela história. Os meus olhos perderam-se por alguns instantes, reflexivos. E voltei em seguida à realidade, um tanto determinada.

_Não foi imperdoável – comentei então –, na verdade... – continuei o assunto, apagando o cigarro no cinzeiro da mesa de cabeceira – ...não deveria nem ter sido tão absurdo assim. Eu é que...

Voltei para a cama, sentando na perpendicular dela, com as pernas esticadas e apoiada contra a parede na lateral. Há alguns dias lhe contara a minha reação na época, após vê-la com a garota, as semanas de mau-humor constante, a festa que fizeram para me animar. Me olhava, agora, prestando atenção ao que eu ia dizer. Com os seus olhos castanhos, argentinos. Sutilmente linda, ah, como o era.

_...eu que levei mal o lance todo. Não sei... – continuei, falando quase que para mim mesma – ...fiquei com o ego ferido, sabe? Eu, sei lá, eu gostava mesmo de você. Assim, não que a gente tivesse alguma coisa... Mas, não sei bem. Lembro de ter pensado, na época, que poderíamos ter durado meses e que você havia estragado tudo, só que, a verdade é que... eu também não estava sendo completamente transparente com você. Foi tudo muito confuso.
_Como assim? – seus dedos acariciavam a minha perna e ela me ouvia, afundada no colchão.
_Sei lá, meu. Eu devia ter dito que me importava, devia ter te dito o que você era para mim, o que sentia por você... – respirei fundo – ...e também o que sentia por outra pessoa. E eu, eu não disse.

Os seus olhos me encararam surpresos. Suspirei. Tá, agora vai...

_Sabe, quando... – fechei os olhos por um instante e os reabri, voltando-me a ela – ...você me perguntou? Por que eu estava chorando aquele dia, lá na minha casa...
_Hum-hum.
_A real é que eu fui... – respirei fundo, mais uma vez – ...por muito tempo, apaixonada pela Mia.

fevereiro 16, 2012

Noite-a-noite (1)

_Pára! – murmurei.
_Hum...
_Páára! Tá me arrepiando, meu – reclamei mais uma vez, já rindo.
_Mas é gostoso... – a Clara retrucou, afundando novamente o rosto na curva entre o meu pescoço e ombro.

Dane-se, porra, faz cócegas. Reajeitei-me uns cinco centímetros mais para a esquerda, a fim de cessar a sessão-ternura. Encontrávamo-nos naquele estado preguiçoso, meio aglomeradas uma na outra e afundadas na cama, após quase quatro horas intensas de sacanagem. A descarga de endorfina já surtia o seu efeito em nossos corpos, amolecendo-nos. Após a minha leve afastada para o lado, ela me olhou por alguns instantes, como se pensasse algo. Os lençóis estavam bagunçados ao nosso redor. Encarei-a também por um breve segundo, de volta, mas depois fixei o olhar no teto. A cabeça em branco, vazia.

_Posso te perguntar uma coisa? – disse, acomodando-se no meu braço – por que... você chorou aquele outro dia?
_Hein... Que dia? – respondi, distraída.
_Na sua casa, quando a gente jogou pôker.

Ah, este dia. Meu primeiro impulso foi não responder. E a minha mente retornou, bem pouco confortável, ao corredor e à briga de semanas antes. Ela sabe. Talvez não por quem, mas a Clara sabia que havia uma garota – fosse no meu pensamento àquela hora ou ali mesmo, no apartamento. Porque ninguém chora assim, tão do nada, a não ser que tenha um óbvio motivo e qualquer outro, que não uma garota, eu não teria evitado com tanta persistência. Ótimo, e agora eu digo o quê?! Talvez os cinco centímetros lhe tivessem remetido àquilo, de novo. Não queria, todavia, lhe causar desconforto e menos ainda ter que mencionar a Mia, trazê-la para dentre aquelas quatro paredes.

Estava agradável ali, sem ela.

Eu e a Mia andávamos estranhas – ela melancólica, eu ignorando-a. Algo estava prestes a acontecer e eu não sabia o quê. Acabei não respondendo nada, levantei num suspiro contido e busquei o meu maço de cigarros, sentada ao eu lado na cama. Ela poderia ter insistido, mas não o fez. Não perguntou mais nada. E eu levantei então para acender e fumá-lo na janela – já a Clara ficou quieta por algum tempo, ainda deitada. Um ou dois minutos depois, ergueu-se animada de joelhos na cama e alcançou um par de óculos na cabeceira. Vestiu-os, destes imensos e quadrados, sem grau e de aro grosso, que andavam na moda.

_Olha o que eu comprei hoje! – sorriu, mudando de assunto – Achei muito, muito barato lá perto da Calixto!

Me virei para olhá-la e comecei a rir na mesma hora, sozinha.

_Você é muito paga pau hipster, cara...
_Ah, cala a boca! Ficou lindo em mim, não?
_Qualquer coisa em você ia ficar... – ri ainda, falando suave, e observei por um instante o prédio ao lado, através da janela; e comentei – ...eu gosto de garotas que usam óculos.

Me veio à cabeça a Marina, por um acaso. A época em que namorávamos. Onze meses inteiros, pensei comigo mesma. Fazia tempo que não namorava. Em todo edifício ao lado, apenas uma luz estava acesa. Talvez eu sinta falta, concluí então o raciocínio anterior. Numa sala de estar branca e sem qualquer personalidade, indiferente; alguém assistia TV no prédio vizinho – já era madrugada em São Paulo. Não sabia bem que horas, exatamente; meio perdida naquele quarto bagunçado e surreal, fora da noção comum de tempo e espaço. Sabia, porém, que em breve teria de ir trabalhar. Dormiríamos umas duas horas, quem sabe três, e eu sairia com a mesma roupa do dia anterior. Minha chefe. Meu pensamento foi diretamente a ela e ao que diabos, merda, ela vai pensar de mim quando me vir.

_Bom, e existe algum tipo que você não gosta? – a Clara riu, continuando o assunto.

fevereiro 11, 2012

Ella

Trocou o CD que tocava no rádio, caminhando desinibida para a cama lentamente, de volta. Cómo decir..., uma voz feminina sussurrou suavemente. Deitou-se adiante de mim, o corpo de costas contra os lençóis macios de algodão e os braços largados sobre a cabeça, leves. ...que me parte en mil, ao fundo prosseguia. Os contornos e desníveis naturais pelo seu abdômen, as pernas enlaçadas – ...las esquinitas de mis huesos... –, formavam sombras sutis que lhe faziam voltas admiráveis pelo corpo, desenhando-a magnífica. A Clara voltou os olhos para mim, castanhos. E argentinos. “Quem está cantando?”, lhe perguntei com um gesto de queixo e a observei, os seus movimentos sutis, contemplando-a.

As horas naquele cômodo e constantemente bagunçado quarto eram sempre, sempre leves. E me passavam despercebidas. Pequeníssimo, modesto e um tanto boêmio; tinha as paredes repletas de fotos, cortes e recortes, tachinhas, desenhos curvilíneos, fitas, improvisos, luminárias diversas e panos, cujas extensões eram decoradas delicadamente. O frio se manifestava toda vez que eu me mexia para fora dos lençóis sobrepostos, meio amassados, e parecia me impedir de sair dali. Quatro paredes e meio arapuca, entende? De um jeito natural e agradável, portanto, eu ficava. E as horas ali iam.

Perdiam-se em si. Enquanto dançávamos, nuas, e conversávamos à toa; e eu procurava minuto atrás de minuto, ela, na ponta dos meus dedos; deslizando-os sedentos pelo seu corpo. Meu, nunca assim; sexo nunca fora assim tão fácil. Tão instintivo. E era um perigo que fôssemos eu e ela, ali – e não outras duas garotas quaisquer –, fazendo-o. Mas nos arriscávamos com gosto; ...que han caído los esquemas de mi vida. Despreocupadas e impetuosas, os dois gênios compatíveis em demasia. Por mais de três horas já àquela altura, brincando de chefe uma com a outra, insinuando de forma inteligente. E eu, que interpretava a mim mesma, ia-me com ela, que mudava e se desdobrava. Assumia, via-a, as mais lindas formas a minha frente.

Ahora que todo era perfecto (...)

Virou-se, acomodou-se; cantarolava apenas com os lábios, em silêncio e para si, deslizando sobre colchão; – ...y algo más que eso, me sorbiste el seso... –, parecia aconchegada. Afundara nos lençóis, olhava-me por detrás deles, agora de relance. Então levantou o corpo, num movimento fluido e acabara sentando-se frente a mim; uma das pernas dobrada adiante do corpo e a outra para fora da cama, pendendo para baixo e sobre o chão. Ajeitou os cabelos morenos, com calma. Eram lindos, suaves, as ondas lhe louvavam o rosto. “Se chama Bebe”, me disse enfim. A resposta bem pouco me importava; e eu sorri, admirada pela forma como o dizia, sem tirar os olhos dela.

Perguntou-me se eu gostara da faixa e eu ri, disse que sim, “claro”. Me lembrava o seu jeito, os seus caminhos; de alguma forma, ressoava o seu tom comigo. “Me cuesta abrir los ojos”, pronunciou então, me olhando, e sorriu. Foi se aproximando, com os gestos lentos e sincronizados. Sem pressa, sorria “no sea que aún te encuentre cerca”. Vê-la cantar para mim, naquela distância tão pouca, os fios de cabelo deslizando pela pele, conforme escorregava os braços e vinha, engatinhando vagarosa, sobre a cama na minha direção, me desconcertou. A luz lhe favorecia extraordinariamente, “...me guardo tu recuerdo”; ela sorria ao dublar uma a uma das sílabas, que eu pouco entendia.

E ainda assim apreciava tão veementemente. Com uma estranheza, aquela admiração presa dentro de mim. De repente, o errado me pareceu certo demais. Parecia. Subiu no meu colo, escorregou as pernas pelas minhas e a lateral do rosto na extensão do meu, leve e suave. Contornou minha face aos poucos, quase que dançando comigo, com os meus sentidos, as minhas intenções, mais atenta do que nunca a seus movimentos – e disse enfim, baixinho, no meu ouvido: “que dulce fue tenerte dentro”.

A mim. 

Estremeci. Senti um calor tomar o meu corpo todo e respirei fundo, fechando os olhos. Havia algo de magnético em sua voz, a maneira que pronunciava aquelas palavras. O sotaque, a língua enrolando nas letras. Tudo, tudo nela. Me era inebriante. Meu... A minha cabeça já começava a xingá-la de todos os nomes possíveis, argentina filha-da-mãe. A sua boca deslizou contra a ponta da minha orelha, foi indo, vindo pelo meu queixo. E descendo. Mais. Sentia-a na minha pele. Os seus dedos escorregavam por mim as laterais da minha calcinha. En esta oscuridad..., foi me tirando tudo, o sério, pouco a pouco. Para prestarme calma; e a sua boca encostava na minha cintura, fluía abaixo. Suspirei, trêmula. Me soltei. Ela foi. 

Os olhos fechados; a cabeça e sentidos abertos. El tiempo todo calma. Senti a sua língua, os seus dedos. Cada vez mais. La tempestad y la calma. Continuou. La tempestad y la calma. Crescendo a intensidade, interrompia-se então o silêncio.

Y mojará...
la flor que cresce en mi.

(...)

fevereiro 09, 2012

Redirecionamentos

_Ei... – falei ao celular assim que pisei na calçada, minutos depois, do lado de fora da produtora – ...te acordei?
_Nem... tava vendo TV, e você? – a Clara respondeu, ainda com a voz mole, enquanto eu acendia um cigarro com a mão que me restava livre.
_Tô saindo só agora – murmurei desajeitadamente, equilibrando o filtro entre os lábios.
_Nossa! Tá tarde já, meu. Mas e aí, tá tudo bem? O que foi?!
_Mano... – soltei a primeira tragada, enfim com a boca livre para falar – ... eu quase, quase fiz uma cagada muito grande agora. Cê não tem noção!
_Lá vem. O quê? – ela riu.
_Meu, eu tava lá trabalhando, checando uns negócios para amanhã, de boa... e a minha chefe ficou também, ficou lá assinando umas paradas, tipo, numa mesa a meio metro da minha, saca? E aí a gente começou a trocar idéia... e, cara... – apertei os olhos, fechados, com força e certo remorso – ...eu cheguei muito, muito perto... – recoloquei o cigarro na boca numa rápida tragada, abrindo-os novamente – ...de dar em cima dela. Tipo, muito perto! E aí ficou puta climão depois, sei lá...
_Sua besta, cê vai ser demitida, mano... – a Clara divertia-se, rindo.
_Não! Mas, juro, você não tem noção!! – comecei a gesticular, ainda com o cigarro em mãos, me autodefendendo conforme caminhava pela Al. Santos – Porra, ela tava... tipo... muito dando brecha. Muito mesmo! Mas...
_Quê?
_Sei lá, não era tipo brecha, breeecha... Foi mais... ah, não sei.
_Ahm... – ela ria.
_A gente ficou falando, manja, sobre ficar com meninas. E ela disse que já pegou umas e, meu, pra quê, né? Pra quê ela ia dizer isso? E pra mim ainda?! Nada a ver... – soltei mais uma vez a fumaça, tentando me livrar da tensão dos minutos anteriores, de dentro da produtora – Só que também, por outro lado, não era como se ela tivesse dando a mínima pra mim... ah, sei lá! Não consigo, cara... Essas mina mais velha são impossíveis de ler, cacete!
_Nossa... – seguiu achando graça, despreocupada – ...parece que esta hora extra foi tensa mesmo, hein?
_Meu, muito! – ri também – Sério, não via a hora de sair do meio daquela porra daquelas quatro paredes, juro. Eu tava enlouquecendo ali. Muito tenso... muito, muito mesmo.
_É, né. Tá calor aí? – ironizou, rindo.
_Puta merda, Bi... na boa... – achei graça da minha própria retenção, digamos, de más intenções “acaloradas”.

Nós rimos. Na rua e, muito provavelmente, no apartamento da Clara também, os termômetros marcavam pouco abaixo de míseros dezesseis graus positivos. Ah é, esqueci: e em algum momento da semana anterior, eu e ela havíamos dado início a uma brincadeira idiota de apelidos. O “Bi” que disse a ela surgira, de alguma forma, de “Björk” e o “Bo” que ela vinha usando para mim, ambos ressurgidos de uma conversa antiga nossa, fazia referência ao camaleão do rock. O meu favorito.

O papo recente, destes bem bobos e aleatórios, ocorrera na cama dela durante o fim de semana. Devidamente despidas e despreocupadas. E não me alarmou – afinal, acima de qualquer pessoa, eu era quem mais nutria um desgosto tremendo por apelidos e babaquices de casal. Todavia, por algum motivo, tudo o que vinha da Clara não me assustava. Simplesmente não incomodava, não sei. Talvez porque o nosso comportamento e, principalmente, os nossos pensamentos eram parecidos demais. E fora justo o “até demais” que resultara no nosso rompimento no ano anterior. A diferença – verdade seja dita – é que eu estava atrás de apenas uma menina, uma certa menina aí, nos corredores do meu apartamento, enquanto ela não se incomodou de ir caçar qualquer outra em pleno Vegas, meio à Augusta.

_E não quer passar aqui, não?! Acalmar esse fogo aí? – ela riu mais uma vez, ao perguntar logo em seguida, já se insinuando.
_É, então... – virei a esquina, mudando automaticamente o rumo e já caminhando em direção ao metrô na Paulista – ...te liguei pra isso.

fevereiro 08, 2012

A Flexibilidade

A verdade é que, sim, intimidava. A minha chefe ou qualquer outra. Por mero conceito, ascensão etária. Mulheres mais velhas, a sua instigante autoconfiança e as irreveladas noites que já detinham em sua experiência de vida. Eu achava isto fascinante. E lhes era eu, por outro lado, facilmente decréscimo – como não o era em para outras garotas da minha idade. Me mantinha sempre, portanto, à distância; o que não era lá do meu feitio. Em raras ocasiões encontrei-me dando em cima, de fato, em mulheres mais velhas. Intimidada de verdade. Não que a idéia não tenha cruzado a minha cabeça, isto é.

Até mesmo a mãe da Mia cruzara minha cabeça, deus! Imagine alguém que – trocadilhos à parte – estava diretamente acima de mim e que passei a encontrar com frequência pelos corredores da empresa. Digo, era evidente que hora ou outra os meus pensamentos deixariam o “gata pra caralho”, como eu bem disse à Marina, e tomariam um rumo realmente imprestável dentro da minha mente sem muito controle, ainda que eu não fizesse nada a respeito. Para a Clara, com quem eu estava trocando incessantes SMS diariamente e que se divertia com as minhas atualizações sobre a roupa ou determinada palavra que a minha chefe descolada usara no dia, a minha demissão era iminente.

Por justa causa, claro.

Àquela altura eu já estava trabalhando na produtora há pelo menos dez dias – em inúmeros projetos, clientes, prazos etc. – e horas extras já haviam tornado-se frequentes. Quase diárias, para dizer o mínimo. E foi numa dessas que eu me vi, às nove e quarenta da noite, sozinha com a minha chefe. Vestida, conforme reportei à Clara lá pelas oito, numa camisa social estilosa branca e num colar com uma pedra imensa cor ferrugem pendurada, revelada por um decote magnífico. Puta merda, escrevi no SMS.

Estávamos trancafiadas no estúdio de produção terminando, ela, uma pilha de documentos para analisar e eu, o checklist infindável da gravação da manhã seguinte. Não trocávamos muitas palavras além do demandado pelo dia-a-dia dos projetos; aliás, eu mal o fiz com qualquer outro colega desde que começara no novo emprego. Pouquíssima troca de informação pessoal. É, estava querendo mantê-lo.

_Então... – a minha chefe disse, numa mesa a menos de dois metros de onde eu estava sentada, atrás de alguns papéis empilhados – ...qual é a sua?
_Hm?! – ergui a cabeça, sem ter escutado direito.
_“Qual é a sua”... – repetiu calma e ergueu os olhos por um instante, sorrindo, antes de voltar a rubricar o documento que tinha em mãos.
_A “minha”?!
_É... – riu, agora sem me olhar, focada no papel e com dois anéis prateados no dedo anelar – ...está rolando uma aposta entre todo mundo na empresa.
_Uma aposta?
_Se você gosta de meninos ou meninas...

Comecei a rir na mesma hora, em silêncio na minha, e ela me observou enquanto achava graça. Brevemente, voltando logo os olhos ao documento. Me ajeitei então na cadeira – estava quase afundada, com um dos braços sobre o encosto, largada trabalhando – e apoiei os antebraços na minha frente, na beirada da mesa, pondo-me a encará-la. Ainda que não devesse. Não respondi, esperei que me olhasse de novo. E alguns instantes depois, sem ouvir nada de mim, ela prosseguiu, ainda sem tirar a mão esquerda de uma folha apoiada na mesa. Notei as marcas sutis no decorrer do seu braço, semelhantes a sardas, destas que vêm com anos de sol.

_Não se preocupa... – ela disse, enquanto assinava a parte inferior da página – ...esse tipo de comentário é comum por aqui.
_Não estou preocupada... – respondi e sorri, tranquila; ela subiu os olhos novamente na minha direção – ...só... – prossegui – ...curiosa para saber em qual dos dois você apostou.
_Eu?

Ela riu e eu a encarei fixa, como se dissesse “é... por que não?”. Transmitia calma, autoconfiança. Enquanto no fundo, todavia, sentia-me como se dividisse um cômodo com a Catherine Keener num dos filmes do Neil LaBute. Que era como metade das minhas fantasias começavam... ou seja, eu já estava tensa.

_Bom... – fez pouco caso – ...acho que você gosta das meninas.

Certo. Deslizei um pouco na cadeira, ainda observando-a. Comecei a brincar com um isqueiro que estava sobre a mesa, entre os dedos da mão direita, mas sem deixar de prestar atenção nela. Não me sentia intimidada, não naquele instante – certamente pensaria sobre aquilo, em retrospectiva, e me incomodaria (muito) por conta própria –; mas naquele segundo encarava-a de volta com naturalidade.

_E você? – perguntei – Gosta?
_Sou casada com o meu sócio – respondeu direta, sem dar-me muita bola ou se incomodar com a pergunta – há quase quatro anos. Fui “heteroflexível”, por assim dizer, quando era um pouco mais velha que você, por alguns anos – pareceu brincar –, mas mulheres são complicadas demais. Muito drama.
_Hum... – segui olhando-a, fixa – ...pelo contrário, eu acho as mulheres fascinantes.

Arqueou as sobrancelhas e sorriu, sem indicar se concordava ou não, desviando brevemente o olhar para baixo, nos papéis sobre a mesa. Parecia-lhe um assunto sem importância, já superado. Terminou de assinar – a mesma página de antes – e, logo depois de encerrada nossa conversa, cruzou novamente o olhar com o meu. Demoraram-se alguns milésimos, os meus olhos nos dela, encarando-os fixamente. Não conseguia evitar um meio sorriso impensado, contagiada pela leve imprestabilidade que, agora sim, dominava minha cabeça e transparecia ainda que sutilmente nos meus gestos. Observava-a muito calma, o tempo todo. E ela não se intimidara de volta.

_Você parece dar trabalho às suas meninas... – comentou e riu, voltando os olhos aos documentos sem abalar-se comigo.
_No, ma’am... – ri, descarada, já retornando ao checklist.

Nem um pouco...

fevereiro 06, 2012

[ 500.000 ]


Há dois anos, começava o que se tornaria uma verdadeira saga de garotas e mais garotas e esquinas sujas e camas alheias e noites bêbadas e sexo e mais sexo e mais e mais sexo e muito drama e brigas intermináveis e caos e pensamentos imprestáveis e arrependimentos e amor, muito amor, do tipo mais gay e inevitável. Em cada canto de São Paulo, a realidade (a minha e a de muita gente) virava ficção. Atualmente, o blog Fucking Mia pode ser considerado o maior do gênero lésbico no Brasil e chegou à incrível marca de MEIO MILHÃO DE ACESSOS!

Graças às leitoras e leitores mais incríveis, lindos e fiéis. Vocês são sensacionais, meu. Demais mesmo!


OBRIGADA POR TUDO!


Um beijo,
Mel M.


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Sobre raposas e lobas

Apesar de o frio pairar o ar paulistano aquela noite, resolvemos sentar do lado de fora de um bar restaurante na esquina da Augusta. Bem metidas a europeias. Ambas de jaqueta; eu com meu gorro e a Marina com um cachecol verde de lã grossa – aconchegadas. Ela pediu vinho e resolvi acompanhá-la, mesmo não sendo fã. Aquele tipo de programa era bem, sabe, coisa de Marina. Pedimos os pratos e ela fez careta para mim, disse que eu não sabia acompanhar uma boa taça. “Não se come hambúrguer com tinto, cara”, ela riu. Eu achava pura frescura. Dei de ombros, estava morrendo de fome.

_E a Mia? Não viu mais? – disse, apoiando a taça adiante na mesa.

Ah é, a Mia. Esqueci-a por um instante! Explicara já a Patti, ela explicara a Bia; durante o caminho até lá. E então hesitei a fala, interrompendo a fluidez da conversa até então, ao pensar na Mia. E em tudo o que se passara na noite anterior. Não queria falar sobre aquilo, não queria contar e me ver de repente obrigada a reviver toda aquela merda – apenas a ideia já me enchia instantaneamente de desgosto, de uma preguiça imensa. Respirei fundo. Desconversei com o olhar e me virei para a rua, afundando-me ainda mais na cadeira. Sem um pingo de vontade de falar no assunto.

_O quê, hein? Que foi isso?!
_Nada.
_O que foi, meu?! – insistiu.
_Nada, pô. Não é, eu... – me amargurei visivelmente, argh; sabia que teria que contar de uma forma ou de outra, senão ela não pararia mais de me encher pelo resto da noite – ...a gente, sei lá, a gente discutiu ontem. Foi meio feio.
_Você e a Mia? Mas por quê?!?
_Ah, ela... – suspirei, já me deixando irritar de novo por aquilo – ...ela veio falar... sei lá, ela... ah, Má, cê quer mesmo saber disto? Não tô afim, meu...
_Nossa! – encolheu os ombros, pegando mais uma vez a taça, e riu – Foi tão ruim assim?
_Não é, é que... sei lá. Ela teve um surto ontem e eu tava bêbada, acabei falando um monte pra ela e aí ouvi o que não queria ouvir também, fiquei mal, a Clara tava lá, não sei. Não foi... não foi legal. Foi estranho... – ela me olhou preocupada, curiosa – ...sabe quando... uma coisa parece que não aconteceu direito?
_Sei, sim.
_Eu, meu... Eu não processei ainda, manja... – tragei o cigarro, soltando a fumaça logo em seguida, e lhe pedi com o olhar – ...deixa pra lá, vai?
_Deixo... Mas você sabe, né, que enquanto ela te incomodar assim... – fez graça, levantando o indicador e uma das sobrancelhas para mim – ...é porque você ainda tem algum sentimento por ela...
_Ah, mas eu tenho mesmo... – não discordei, tragando; e a encarei com sinceridade – ...atualmente, dos bem negativos.

A Marina começou a rir, balançando a cabeça vagarosamente de um lado para o outro, e bebeu mais um gole da sua taça, me olhando. Havia uma certa calma no seu olhar, por detrás dos óculos de aro preto; uma tranquilidade bem-resolvida. Às vezes eu queria saber o que se passa aí dentro, pensei, na sua cabeça. E bem sabia que ela me falaria num instante, caso eu pedisse. Eu só não pedia por medo da resposta. Das suas teorias infindáveis sobre a minha pessoa. De não concordar ou, pior, que ela acertasse contra a minha vontade.

_E a abstinência, hein, Má? – sorri para ela, direta.
_Ah... lá vamos nós.
_Vamos mesmo, ué. E aí? Quais os planos para voltar à ativa?
_Então... na realidade, já resolvi.
_O quê?! Mas já?? – arregalei os olhos, surpresa, e comecei a rir sem querer – Mas quando isto, meu?? Vocês terminaram, tipo... anteontem!
_Quê? – me observou, ofendida.
_Cacete!
¬_Ah, é assim... – aí riu também, mas de mim – você acha que só você transa em São Paulo toda, né, flor?!
_Não... não acho – ri, mais ainda – mas certamente não esperava que você fosse, digo, se “resolver” com essa... agilidade toda – achei graça e ela revirou os olhos – Mas quem foi? Alguém que eu conheço?
_Não, a Nina... uma garota aí, cê não conhece. Minha ex-chefe. Ela trabalhou comigo quando eu ainda estava na outra redação e a gente ficou em contato depois. Ela já tinha me convidado, mas eu ainda tava com a Bia na época. Aí liguei pra ela e a gente acabou indo jantar ontem.
_E já dormiu lá? – me espantei com a “modernidade” incomum da Marina.
_Ah, ela foi bem... “convicente” – riu.
_Mas... – apaguei o cigarro contra o cinzeiro sobre a mesa, prossseguindo – ...qual é a desta Nina aí? Vocês já tinham alguma coisa quando trampavam juntas? Nunca nem ouvi você falar dela. Ela é papa anjo assim mesmo?!
_Não, meu! Não é assim. Ela tem, tipo, 28 anos! – a Marina seguiu rindo e me olhou como se eu falasse absurdos – Nada a ver... Ela era editora na minha seção, mas era de boa. Tipo, ela sabia de mim e eu sabia dela, só que só fomos falar disto depois que eu já tinha vindo trabalhar na revista. Nunca rolou nada, só coleguismo. Quer dizer, uma olhada ou outra...
_Espertinha você, hein...
_Ah... – ela riu, se fazendo de desentendida – sei lá, “mulheres com autoridade”... sabe como é...
_Nem me fale, cara. Você precisa ver a minha chefe, lá onde eu comecei hoje... – ergui os cotovelos, colocando as mãos apoiadas atrás da cabeça – ...puta merda, na boa, a velha é gata pra caralho.
_Cê precisa falar assim?! – ela me repreendeu, rindo – Tá, mas “velha” quanto?!
_Sei lá... deve ter uns quarenta. Uns vinte a mais que eu, fácil! Maravilhosa, meio matrona. E uma cara de cretina, manja... – abaixei mais uma vez os braços.
_Cretina como? – bebeu mais um gole do vinho, interessada.
_Ah... tipo: “você é uma pirralha, não sabe porra nenhuma”. Quer dizer, ela é simpática e tal, não me destratou nem nada disso... mas sabe quando não tá nem aí? Ela olha pra todo mundo com ares de intelecto, no mínimo, superior. Não fica de conversinha...
_Te intimidou, é? – a Marina riu, surpresa.
_Claro que não!
_Ah, lá vai você...