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setembro 26, 2012

Isn't it good?

Antes, quando falei sobre trens, vejam bem, a questão... é que uma vez que saem dos trilhos, trens requerem um esforço descomunal para serem novamente encarrilhados – e nós, bom, nós não tínhamos isto.

A sua boca deixou a minha; e os nossos corpos penderam no ar, soltos contra o chão. Envoltas em demasia de rum. Os seus lábios percorreram a lateral do meu rosto, arrastaram-se pelo pescoço abaixo – e voltaram para os meus. Ávidos, lúcidos. Ainda sentadas no piso de madeira, prensadas uma contra a outra, de maneira estúpida e em meio à sala. Numa irracionalidade controlada. Isto, isto era diferente. Os beijos, as mãos. A forma como nos conduzíamos, bêbadas. E plenas, não sei bem. A forma como os seus dedos entravam em mim; como eu a segurava por perto. Isto era eu e era ela, nós duas; éramos nós, ali, conscientes do que fazíamos – e fazendo-o, juntas. Não eram banheiros ou áreas de serviço, não eram desafios ou agressões emocionais. Acidentes de percurso. Não. Isto, isto era diferente. Isto éramos nós, inteiras – e era, como era, puta que pariu.

Em um só movimento, tirei a minha camiseta e pressionei o meu corpo descoberto contra o da Mia, apenas as tatuagens me cobriam a lateral da pele e os ombros. A sua mão subiu tensionada pelas minhas costas, a outra ainda metida no meu jeans. Os seus beijos deixavam mais uma vez a minha boca e eu sentia os seus lábios tocarem os meus ombros, os meus seios. Cada um dos traços marcados na minha costela. Lentamente. As suas mãos deslizavam mornas por mim. Era como voltar dez, onze meses antes ao chão do seu apartamento – mas não, isto, isto era diferente. E sentir ela tão próxima assim, de novo, estava me tirando do sério.

O meu coração se apertava. Percebia todas as minhas emoções tomarem conta de mim e subirem, de uma só vez, pela minha garganta. Sentia-me esmagada. Numa vontade repentina e idiota de chorar. Vulnerável no chão da sala, o meu corpo aberto e entregue ao dela. Crescia como um som ensurdecedor dentro de mim, enquanto todo o cômodo restava em silêncio. Eu o traía, eu sabia; de novo. E me traía também. Traía a Clara ainda, traía tudo o que construíra, traía todos os últimos meses. O álcool gritava em minha cabeça, argh. Traía tudo. A minha independência emocional, o meu bem-estar. Traía as minhas escolhas. Mas o pior, o horrível – o deplorável – é que eu gostava. Puta que pariu, como gostava. Gostava. De sentir cada grama do peso dela em mim. Toda a extensão do seu corpo e da minha agonia – e apreciava, porque, inferno, era como voltar para casa. Como?! Como eu posso gostar, porra?!

Os seus beijos, intensos e em transe, no entanto, acalmavam o aperto em minha garganta. E eu me via envolta num oceano de águas familiares, submersa naquele momento. Naquele mesmo instante. Embriagada, não sei. Parte de mim me condenava, sim; mas a outra não dava a mínima – puxando-a pela cintura e a colocando no meu colo, com força. A sua boca me arrancava a razão, as suas mãos lhe arrancavam a própria blusa. Mais um beijo. E outro. Não era cauteloso tirar as roupas assim na sala. Mas o fazíamos mesmo assim, deliberadamente, e dane-se; os meus braços procuravam descer as minhas calças por debaixo das suas pernas. A Mia ria. E eu achava graça – como era linda. Ao mesmo tempo, os meus pés empurravam e chutavam de si os All Star, para o mais longe possível. E eu sorria para ela. Nos olhávamos em sincronia. As maçãs do seu rosto contornavam suavemente a margem sob seus olhos, os seus cílios, num tom delicado de rosa. A sua pele clara me impelia. Fechei as minhas pálpebras e tirei o seu cabelo da frente dos ombros, colocando-o para trás. Beijei pouco a pouco a linha do seu colo. Podia sentir a sua pele mover-se, pendendo o pescoço e a cabeça para o lado. Os meus beijos se tornaram mais famintos. 

Agora que te tenho de novo, garota, não te deixo mais ir –  aquela era a verdade.

A sua pele contorcia-se, descoberta contra a minha. E inebriada. Deitei o seu corpo sobre o piso escuro de madeira, despindo-lhe de uma só vez os shorts malditos e a calcinha. Os meus dedos afundavam-se agora sobre as suas cerejeiras, sobre os seus narcisos. E a minha língua consumia os seus contornos, o seu gosto. O suor, cada nuance de calor nela. Encaixei as nossas pernas, intercaladas, com certa grosseria e apoiei um dos joelhos ao lado da sua coxa – subindo em cima dela num movimento contínuo e arrogante. Ela me segurou com ambas as mãos no rosto, sorrindo, e me beijou, conforme eu me pressionava contra ela. Àquela altura, eu sequer mais via os trilhos do trem.

setembro 21, 2012

O Inverso

O som agora estava mais baixo.  O cômodo parecia tomado pela imobilidade da madrugada. Seguíamos, porém, no mesmo ritmo – rindo e embriagadas. Eu e a Mia conversávamos lado a lado no chão. Entrincheiradas frente ao sofá, que dava de costas para a porta do quarto do Fer. Ao final do corredor. Em suas mãos, a Mia enfileirava os vinis numa ordem particular, que eu não prestei bem atenção, sentada sobre os próprios pés enquanto falava e eu a escutava, rindo às vezes e contra argumentando noutras. Por minha vez, eu tinha a minha cabeça apoiada no assento do sofá e os olhos distraídos pelo teto em branco, completamente retardada, falando uma asneira atrás da outra. Nos divertíamos, não sei explicar. Fechei os olhos em lassidão.

_Não queria que a noite terminasse... – ela disse.

E senti o tecido do sofá franzir de repente, podia notar a sua presença ao meu lado. A minha mente girava, as pálpebras coladas em si; a esmo no escuro. O que eu estou fazendo, meu deus. Ela seguiu falando, um tanto emocional. E o seu braço tocou a minha pele, as mangas da minha camiseta estavam enroladas sobre os meus ombros. A minha percepção aguçara – os sons e as sensações eram uma viagem à parte, dentro de uma brisa particularmente boa. Percebi as pontas do seu cabelo moverem-se sutis ao meu lado. Ela divagava; ainda; estava tão bêbada quanto eu e eu sabia.

_...não quero que chegue amanhã, sabe. Não quero! Aii... meu, por quê?! Por que o Fê tem que se mudar?! Que saco, mano. Não! Não quero. Não quero mesmo, argh. Não vai ser a mesma coisa mais, vai ser estranho agora... vir para a Augusta, sabe, sem vir aqui. O apê é a minha segunda casa, sei lá. Eu gosto tanto destas quatro paredes, tanto...
_Mas você não precisa deixar de vir, meu – intervi, alcoolizada –. Cê pode me visitar quando quiser, porra. Só passar aí...
_Ah, é! Porque a Clara vai achar, assim, “lindo”... né... – ela comentou, sendo irônica.
_A Clara não tem que achar nada, o apartamento é meu.
_Tá. Mas...
_Mia, na boa, vem aí quando quiser.
_Mesmo?
_Lógico, besta – inclinei a cabeça para o seu lado, abrindo os olhos por um instante, e sorri – Assim... é só não vir com este shorts aí, que estamos bem.

Ela riu, dando-me um tapa de leve no braço, elogiada. Eu gostava de ver a expressão em seu rosto. Afundou então mais ainda o corpo ao lado do meu, encostada contra o sofá com um cigarro apagado em mãos. Estava completamente fora de si. Deixou que o filtro lhe escapasse por entre os dedos, sem sequer dar-se conta, conforme deslizava os pés mais adiante no chão – esbarrando, acidentalmente ou não, a sua perna na minha.

_E a propósito... – a Mia disse, com um ar meio de entrelinhas – ...como vai a... – prosseguiu, escorregando sutilmente a mão no decorrer da própria coxa, de forma que os seus últimos dois dedos ficassem sobre o meu jeans, descendo até quase a altura do joelho – ...Clara?

A acompanhei com os olhos, sem me mover. Me diverti. Os seus dedos continuaram, como se por casualidade, para o vão entre os meus joelhos. Isto não pode estar mesmo acontecendo, ri, em silêncio. E virei o rosto para ela, também embriagada.

_Me diz você... “como vai o Fer” – respondi, arqueando a sobrancelha, e ri ainda mais.
_Ah. Tem certeza de que quer entrar aí?
_Você que começou... – achei graça na situação e ela sorriu, já imprestável.
_Ok. Do que quer falar, então?

A sua mão continuava parada nas minhas pernas. É. Talvez tenha sido o rum; ou talvez tenha sido toda a maconha dentro de mim. Ou ainda o shorts de menos nela. Não sei. A sua presença inevitável, maldita, em qualquer cômodo que ela ocupava. Algo causava a minha falta de filtro ou reação naquele momento. Ou talvez tenha sido a descomplicação incomum daquela noite toda, daquelas conversas – que me remetiam ao primeiro ano de namoro deles, à época em que os meus sentimentos por ela não pesavam. Não sei, não sei. A verdade é que eu sabia, sabia, onde aquilo estava indo – e sabia desde o instante em que o Fer levantara para ir dormir, sabia desde o começo. Desde o rum, desde as suas pernas sobre as minhas. Mas ainda assim não me movia, eu ficava. Interessada e irredutível.

“Do que você quiser”, respondi. Os seus olhos estavam presos aos meus. As pontas dos seus dedos começaram, então, a subir suavemente pelas minhas pernas – puta que pariu – e as minhas pupilas deixaram as suas, para passar a observar o que as suas mãos faziam.

_Bom, e se você... – ela sugeriu, em tom quase sussurrado – ...me contasse o que... – eu seguia atenta – ...era naquela mensagem, a do meio da semana.
_Que mens...? Ah! Ahn-ahn, não. Nem fodendo... – eu ri, você não espera mesmo que eu te conte em que eu estava pensando enquanto comia a Clara; a minha voz estava arrastada.
_Por que não?! – achou graça, de repente.
_Não. Agora não.
_Ah, me conta, vai...
_Não, meu.
_Por que?! Você estava... – perguntou, quase tão lenta quanto os seus dedos, que ela agora também acompanhava com os olhos – ... pensando em mim?
_E se eu estava?! – respondi, encarando-a, e a vi sorrir.

Estava mesmo. De que adiantava mentir?! – a mensagem tinha sido clara quanto a isto. A Mia levantou o olhar e o cruzou com o meu, sorrindo de novo ao notar que eu a observava – o meu coração, embriagado, parava então. Você nã, relutei em pensamento, puta que pariu, você é linda demais. Um som ritmado de cítara começou ao fundo. A olhava, a uma distância ainda segura. Os meus reflexos lentos, afetados por toda a fumaça, por todo o rum. “I once had a girl...”, o Lennon cantou baixinho no rádio, “...or should I say, she once had me?”.  E a nostalgia me foi embalando a cada verso de Norwegian Wood. Parte da minha consciência dizia-me, sóbria, “não faça isto”. Enquanto todo o restante considerava ignorar o aviso.

Os seus dedos seguiam subindo vagarosamente, apenas as pontas, pelas minhas pernas. Eu podia sentir cada movimento.

_Não começa, garota... – suspirei, hesitante, fechando os olhos por um segundo.

E senti as suas mãos, enfim, me tocarem. Não me agüentei. E abri novamente os olhos, observando-a se mover. Os seus dedos foram subindo. Lentamente para cima – a minha respiração começava a pesar, impulsiva, e eu ia ficando realmente desconfortável, sentada ali. Não me movia. Não fazia nada. O meu coração, todavia, acelerava instável com tudo aquilo, com o que eu poderia cometer se ela não parasse – com cada milímetro que ela continuava e continuava, puta merda.

Aproximou-se ainda mais do meu corpo. A sua boca agora parecia ainda mais perto. A poucos e perturbadores, irrelevantes centímetros da minha. Meu deus, só, só pára. A ponta dos seus dedos atravessou, todavia, a linha da minha calça, deslizando pela minha pele descoberta como num arrepio. Sob a camiseta. Subiu pelo centro e veio descendo depois, contornando lentos arabescos imaginários pela lateral, acompanhando então a cintura baixa do meu jeans. A esta altura, eu já estava perdendo a cabeça. Queria empurrá-la contra a primeira parede do apartamento que ela tanto, tanto gostava; me sentia tomar por toda irracionalidade do álcool das horas antes. E não me movia.  

Os seus dedos mornos colocaram-se acima dos meus botões. O primeiro, num tranco. Não. Por favor, meu. Eu não queria beijá-la ali, como não queria. E eu não devia beijá-la – os seus olhos estavam fixos nos meus. Sentia os seus dedos contornarem o segundo botão, firmes. Eu ainda não deferira um movimento sequer. A sua boca, todavia, me estava tirando qualquer razão restante. Completamente passiva às suas intenções como nunca ficara antes, inebriada a cada toque inconsequente seu. A cada decisão das suas mãos. Porra. Terceiro e o quarto, o último. Sentia os seus dedos desabotoarem já não tão sutilmente a minha calça. E a sua boca se aproximar, ali, tão perto, ansiando por um beijo. O momento começou a me consumir, num fogo egoísta e – que se dane. Movi-me para frente e a alcancei.

setembro 17, 2012

Receita pra desastre

A montagem das caixas começava a se tornar um caos. Uma após a outra, com mais dificuldade. A ideia tinha partido da Mia, que levantou em determinado momento para ir à cozinha e voltou com uma garrafa de Bacardi ouro entre as suas mãos que eu, cada vez mais, tinha certeza que não prestavam. Nada. E se tinha uma coisa que eu e o Fernando éramos incapazes de recusar, como os fracos humanos que éramos, era rum – ela sabia. Maldita. Eu podia ver os trilhos prestes a serem descarrilhados, como uma observadora passiva inerte, e não fiz nada a respeito. Pelo contrário. Bebi gole atrás de gole, rindo junto aos dois por horas no chão da sala, em meio aos vinis espalhados.

A nossa sorte é que o toca-discos havia sido embalado ainda no início da garrafa. Encontrávamo-nos agora na sexta ou sétima leva de vinis. E descontávamos a nossa crescente falta embriagada de coordenação no papelão, que se tornava cada vez mais amassado na lateral torta das caixas. As conversas logo começaram a tomar conta do nosso tempo, excessivas, enquanto pouco trabalho era de fato feito. Por volta das onze da noite, acendi um baseado, abdicando-me do meu posto. E ri da desorganização que causáramos na sala. Há muito tempo que eu não me divertia assim com o Fer e a Mia. Hm, senti falta disto, admiti a mim mesma – apesar dos pesares, aquelas eram duas das minhas pessoas favoritas no mundo, com quem eu me dava tão bem. Peguei um dos compactos originais de rocksteady do Fer nas mãos e a Mia me tirou o fino aceso.

_Mas afinal, quanto tempo vocês já estavam aqui? – ela perguntou, tragando, e comecei a calcular em voz alta, confusa pela quantidade de rum que infiltrava-se na minha cabeça.
_Foram quatro, cinco... não, quatro anos e... seis me...
_Oito! Foram oito.
_Não, Fer... OITO meses?! Nem a pau, não... – balancei a cabeça para ele, com convicção – ...eu tinha 20, meu. Tenho certeza. E o meu aniversário é só daqui um mês ainda, não pode ser oito.
_Então foram sete. Seis não pode ser... – argumentou, sério – Mano, “seis meses” a gente teria que ter mudado em... que mês a gente tá agora?

Comecei a rir, com as pernas cruzadas no chão. “Olha pra você, meu! Você não sabe de que porra você está falando!”, gritei com ele e ri, já fora de mim. A Mia começou a rir comigo, sequer entendendo o que se passava naquele momento. O baseado em mãos. Peguei-o de novo dela e puxei ambiciosa por algum tempo, na intenção de segurar tudo aquilo nos pulmões – mas, claro, comecei a rir mais uma vez e a fumaça escapou toda. Já o Fer, por sua vez, ria de mim. O som na sala seguia barulhento – passível de multa. E nos tornávamos cada vez mais altos. Competíamos com os alto falantes; enquanto a Mia argumentava que tínhamos, de longe, o melhor apartamento de toda a Frei.

_Todo dia, juro. Nós saímos TODO DIA no primeiro mês, quando mudamos pra cá – apontei o indicador contra o chão, assertiva –. Mano, eu não lembro nem O QUE aconteceu quando começamos a morar na Augusta, é tudo tipo uma grande nuvem na minha memória, sério.
_No fim do mês, eu e você estávamos casados com a privada... – o Fer riu, me tomando o baseado e tragando duas rápidas bolas.
_Cara, na boa, eu comi gente que eu não sei o rosto até hoje... – achei graça e a Mia sorriu, nos observando tagarelar – ...se eu ver na rua hoje, eu não sei dizer.
_Nem eu sei, porra... – o Fer riu – Não. Espera! Quem eu tava comendo quando a gente mudou?!
_Nossa... você jura mesmo que você espera que EU lembre? – comecei a rir do pedido absurdo, quando subitamente me ocorreu, num flash breve de memória – MANO! Não! Nããããão, ahhh! Você tava com aquela vaca, argh, aquela vaca insuportável!!! Puta merda, Fernando. Esta era pior ainda que a Julia. A... a que me odiava, homofóbica do caralho.
_Ah, a Karina... – ele começou a rir também, se lembrando.
_Nossa. Por que te odiava?! – a Mia entrou de novo na conversa, de repente.
_Ela tinha alguma coisa contra, sei lá. Juro, mano: era só eu CHEGAR no apê, que ela revirava os olhos. Toda vez! E se eu tivesse com alguém, então, ela saía do cômodo. Puta mina fresca. Não conseguia nem olhar a filha-da-puta!! Uma vez ela disse pro Fer, não foi isso, que não achava que você devia andar com “gente assim”, não era, meu? Puta babaca do caralho!
_Credo. Mas POR QUE você tava com essa mina?! – ela se revoltou.
_Ah, sei lá... Só tava, meu. E a gente nem ficou tanto tempo assim, eu dei um pé nela depois que ela falou essas paradas aí...
_É. ”Sei lá”, né... – comecei a rir de novo, sabendo a resposta real, e me virei para a Mia para tricotar – ...ela tinha, mano, juro... o maior par de peito da Grande São Paulo. Imensos! O negócio não cabia numa rede de praia, imagina só num sutiã. Juro-por-Deus. Se ela fizesse uma espanhola, ele sumia.
_Isto é sensacional... – a Mia ria, achando graça da promiscuidade do Fernando por um par de seios descomunais.
_Fica quieta.
_Cara, a garota tinha u...
_As duas! – ele interrompeu.

Nós rimos, os três. E a Mia se esticou – naquele shorts minúsculo cada vez mais difícil de ignorar, vindo direto dos Infernos para o meu lado no piso de madeira – até alcançar o isqueiro largado no chão e acendeu mais uma vez a brasa já apagada do baseado. O cômodo parecia de alguma forma enevoado, o contraste com a lâmpada amarela no teto não ajudava muito. A poucos centímetros da TV, o rádio tocava no último volume a música nova do No Doubt, direto do meu iPod, e o meu pensamento se fundia meio vago àquela atmosfera ensurdecedora, um tanto perdido entre as palavras que falávamos e a letra que a Gwen gritava ao mesmo tempo, enquanto ríamos incessantemente na sala.

Sentia os meus pensamentos anulados. Era como viver no absoluto presente, sem roteiro algum na cabeça. Em branco, “limpa”. And I really mean it this time / And you know it's such a trip / Don't get me started / I'm trying to get a hold on this. Fechamos com muito custo e algumas distrações extras mais uma caixa, faltavam agora poucos discos espalhados pelo chão. O Fer, todavia, começava a sentir o baque da cannabis no cérebro. Bocejando durante a montagem da caixa seguinte, enquanto eu ainda fumava descomedida, empurrando a fumaça seca com o que restava do rum, chegando ao terço final da garrafa; num comportamento insensato.

O trem descarrilhava. Sem que tenha demorado muito, apenas quatro ou cinco músicas depois, o Fernando bateu com as mãos nos joelhos e levantou-se do chão, anunciando que não conseguia mais manter os olhos abertos, fritando chapado pela má combinação. Ia nos deixar ali, disse. Deu dois passos até a prateleira no centro da sala, abaixando o volume do rádio, e se dirigiu a nós duas – “pode largar o, o, os coisos aí que, deixa que, que amanhã de manhã eu termino”. Falou em palavras arrastadas, desconexas. E entrou no corredor para ir dormir.

setembro 12, 2012

Pré-Bacardi Rum

O clima no apartamento ficou estranho. Apesar dos meus esforços para compensar a minha acidental falta de sensibilidade na noite de quinta, o Fer manteve a sua cara devidamente fechada pelos dias seguintes. Co-existíamos no apartamento como dois irmãos após uma briga; eu puxava assunto na mesa da cozinha e ele me respondia com três palavras. Tá, eu sei que eu mereço; mas... porra, são nossos últimos dias aqui! E eu não tinha feito, de fato, nada além do acertado. Mas aquele era o meu castigo nas nossas últimas horas morando juntos – a sua indiferença. Agindo como se pouco importasse; “que seja, então”; enquanto a verdade era que ele estava menos bravo com a minha rápida troca de colega de quarto e mais desconfortável em sua própria pele, incomodado por ter que deixar a sua vida comigo ali na Augusta.

O ânimo do meu melhor amigo só melhorou quando a Mia chegou, no sábado à tarde, para ajudar a empacotar as coisas que ele levaria para a casa dos pais. O combinado era que ele as levaria no domingo e, até então, eu não vira um pacote sequer pelo apartamento. Eu estava largada no sofá, com os pés espalhados sobre a mesinha de centro, jogando videogame e bebendo calmamente o que já deveria ser a minha quarta long neck; quando os dois entraram consideravelmente mais bem animados pela porta da frente, segurando infinitas caixas desmontadas de papelão nas mãos. “Alguém está de bom humor...”, comentei sem tirar os olhos do jogo, sob o risco de ganhar um olhar de merda na minha direção. Mas não – ele riu e passou por trás de mim no sofá, dando-me um tapa atrás da cabeça. Seguiram em direção ao quarto. Reacomodei-me no sofá, surpresa, e os observei andar corredor adiante. Isto só pode ser obra sua, meu, olhei para a Mia, que ia alguns metros atrás dele e então tornei a encarar a TV, satisfeita.

Balancei a cabeça e ri. Muito bizarro. Pude ouvir a música alta vir do quarto e ambos conversando durante a tarde toda, divertindo-se. A maior parte das coisas dele – as roupas, os lençóis, todos os livros etc. – estava lá dentro acumulada, socada no fundo dos armários. Enquanto isto, ainda na sala, eu já abria a penúltima cerveja do engradado e me afundava no sofá, lá pela 31ª rodada de Mario Kart 64. O sol se punha, reparei, quando ouvi enfim a porta do quarto abrir-se e o som escapar barulhento para o corredor. Ao fundo, o Mick Jagger gritava os versos, acompanhado pela guitarra aguda do Buddy Guy. "Give me champagne when I'm thirsty, give me a reefer when I wanna get high...". Cantarolei por um instante. Poucos segundos depois, senti a Mia apoiar os antebraços no encosto ao meu lado, em pé atrás do sofá onde eu estava. Subi os olhos na sua direção.

_Acalmou a fera? – sorri e voltei os olhos à corrida, sem chegar a pausar o jogo.
_Ah, ele está nervoso. Com a história toda, né, não queria ter que sair... – ela respondeu; e passou os pés descalços por cima do encosto, deitando-se tranquila ao meu lado e colocando as pernas com naturalidade sobre as minhas – ...mas eu disse que ele precisava aproveitar os últimos dias aqui e, não, ficar pensando nisto. Não é como se fosse o funeral dele, também.
_É...

Respondi meio sem jeito, pega desprevenida por toda a sua “liberdade” repentina. Não. Não surta, não surta; não quer dizer nada. Procurei me distrair da audácia das suas pernas, expostas num mini-shorts sobre a minha comportada calça jeans, focando os olhos no jogo que rodava na TV, mas incomodada. A minha cabeça começou – inevitavelmente – a disparar. Desde quando viramos amigas? De onde diabos surgiu esta intimidade toda?!, a questionava em pensamento, sem dizer uma palavra, e então começava a debater comigo mesma. Ok. Eu sei, eu sei de onde surgiu; isto é culpa minha. Mas, ainda assim, não somos tão próximas! Não podemos ser! E menos ainda aqui dentro, caralho, com o Fer ali no quarto do lado. Aquilo era ridículo e eu sabia – argh, um movimento dela e lá estava eu, inquieta, perdendo a minha cabeça por aquela garota. De novo. Quantas vezes mais preciso superar esta merda? E somos minas, porra. Por que não? Por que ela não poderia? Garotas fazem isto o tempo todo, seguia jogando em semi-piloto automático, enquanto convencia a mim mesma de que nada daquilo era problema. E que, se o Fer entrasse ali, não veria nada de errado; que o drama estava todo na minha cabeça. Por que inferno eu me importo, afinal? Fodam-se as pernas da Mia! As duas. Dane-se. Não dou a mínima mais, eu tenho a Clara, cacete. Pisquei enfaticamente, na tentativa de afastar aquela imbecilidade sem fim dos meus pensamentos. As suas pernas, todavia, continuaram ali.

_E você...?
_Hum?! Eu, o quê?
_Está... – questionou, me olhando – ...nervosa?
_Não – dei de ombros –, de boa.

Respondi sem ser lá muito sincera. Estou nervosa com as suas pernas nas minhas, caralho. E por outro lado, também não havia dado à mudança toda consideração que deveria – uma vez que pensasse, de fato, a respeito ou me visse enfim sozinha no apartamento, certamente entraria em parafuso. Mas não, não vou pensar nisto agora. Voltei a minha concentração ao jogo mais uma vez, já na última volta. E tão logo a voz do Buddy Guy entrou, clamando: “Hey, Mick, there shouldn't be no law when a man wanna smoke a little dope”; ouvi o Fer surgir detrás do sofá, vindo do corredor, pedindo que o ajudássemos a empacotar os vinis da sala. Pulei em pé na mesma hora – livrando-me, o quanto antes, daqueles 95 cm de puro incômodo.

_Vou deixar os CDs aí, beleza? – disse, de notável bom humor – Quero levar só o toca-discos e os vinis. Ah, aliás, minha mãe me encheu pr’eu vender o fogão que ela deu de presente, mas vou deixar aí também. O seu antigo é um lixo – riu.

setembro 08, 2012

Ganja

O restante do dia correu abarrotado de tarefas, de sobe-e-desce no trabalho. Entre uma crise e outra, troquei mensagens com o Gui para me assegurar da sanidade do Du e horas depois, quando encontrei a Clara para jantar nos arredores da Consolação, já havia me decidido por ele. “Ai, tem certeza?! Não é melhor procurar mais um pouco, Bo?”, ela me perguntou, fumando um cigarro na porta do restaurante. Mas eu não tinha ânimo para estas coisas, odiava correr atrás de paradas cotidianas. “Não quero gastar meu tempo nisto, meu, e o cara é gente boa”, argumentei. A verdade é que a questão fora praticamente resolvida para mim; que enrolei ao máximo para achar alguém e, no fim, não precisei fazer nada – então quem sou eu para empatar foda do destino?! A Clara riu e deu de ombros, “tá bem”.

Decidi ligar para o Du quando chegasse no apê e logo acordamos que ele traria suas coisas na quarta seguinte, que era o quinto dia do mês. Ficou feliz com a notícia. E eu desliguei também com um sorriso no rosto, como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas. “Resolvido. Joguei o celular sobre o travesseiro e a Clara deslizou pelas minhas pernas, subindo pelos meus joelhos até as coxas. Acomodou-se entre elas. Os seus dedos me faziam cócegas pela cintura; dedilhava-os lentamente acima até o fecho do meu sutiã – e o tirou, por debaixo da blusa. Eu vestia uma desbotada preta de algodão, as pernas descobertas. Explorávamos os corpos uma da outra, com a calma de quem tem meses adiante juntas. A temperatura das nossas peles igualava-se aos poucos. Sem nunca, realmente, virar sacanagem.

Passávamos horas, às vezes, trancadas no quarto brincando distraídas com as sensações que causávamos na outra. Corri a minha mão pela cavidade das suas costas. E inclinei-me para lhe beijar os ombros, a lateral da cintura. A sua pele era mais fina sobre as costelas. Sensível. Ela se aconchegava nos meus braços e me beijava de volta, com os lábios mornos, no canto da boca. Então nos re-ajeitávamos e nos beijávamos de novo; e de novo. Os pequenos beijos ficavam maiores, o toque das línguas mais próximo. Deslizávamos suaves pela pele uma da outra. A minha cabeça vazia, tranquila, o tempo todo. E enrolávamo-nos despreocupadas, conversando nos entreatos. Aquilo duraria por meia, talvez uma ou duas horas.  

(...)

"Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem."
Hilda Hilst

(...)

Ouvi o Fernando chegar lá pelas dez, talvez dez e vinte. Eu e a Clara estávamos afundadas na cama fumando haxixe e ouvindo o Maxinquaye no último, os meus pés descalços sobre o colchão e as nossas pernas dobradas. Bateu na porta. “É o Fer”, eu disse e lhe passei o baseado, “preciso ir falar com ele”. Levantei com lentidão do colchão – o meu corpo parecia pesar três vezes mais, acomodado. A Clara resmungou com a ponta na mão, estava só de sutiã e sem calcinha. “Não, não vai...”. Sorri para ela e vesti a mesma blusa desbotada de antes, apenas para sair do quarto. Entrei no corredor e a porta do Fer estava aberta, para a minha surpresa, com a luz apagada. Ok, estou oficialmente ouvindo coisas..., estranhei. Voltei até a sala e o encontrei em pé, abrindo uma das correspondências.

_Meu, cê bateu na minha porta dois segundos atrás? – questionei.
_Bati. Por que?!
_Cara, acho que tô ficando paranoica, sei lá. Achei que tinha ouvido, depois achei que não tinha ouvido. Fumei demais, não sei... – me confundi toda, falando espaçadamente e ele notou que eu estava chapada; começou a rir – ...cê queria alguma coisa?
_Não, só avisar mesmo. Vi a bolsa da Clarinha aí na entrada, aí não quis interromper... sobrou alguma coisa lá? Cês tão fumando o quê?!
_Ah, tem um pouco ainda, é hash. Pode pegar...

Acenou com a cabeça, agradecendo, e voltou os olhos à correspondência que abrira instantes antes – uma mala direta qualquer. Distraído. O que eu vim fazer aqui mesmo?

_Ah, então... – retomei, apoiando-me com o joelho no sofá – ...fechei hoje com o moleque lá, pra vir morar aí. Ele vem na quarta.

O Fer me olhou de volta, surpreendido pelo assunto. Ou pela rapidez com que as coisas se acertaram. E me senti subitamente mal pela forma como lhe dei a notícia. Droga. Os seus olhos se frustraram. Não esboçou reação alguma, movia-se normalmente – mas eu podia ver na sua expressão que o incomodara. Ah, imbecil! Eu sou uma insensível, tenho merda na cabeça. Ele cruzou os braços, abrindo a boca para falar. “Ah, deu certo, então...”. Ouvi-o murmurar. Arghhh, conserta! Conserta! Procurei alguma maneira desesperada de remendar o assunto, mas o que diabos eu podia dizer? Já tinha combinado. O cara vinha mesmo! Na quarta. Na próxima quarta. Em uma semana. Em menos uma semana! Caralho, caralho, merda. O pânico começou a tomar conta de mim, enquanto eu olhava para o Fer e pensava a respeito – foi cedo demais? Tentei articular qualquer resposta ao seu resmungo, mas não conseguia, não saía nada. O meu pensamento estava duplamente lento, sobrecarregado pela fumaça nos meus pulmões. Inferno!

_Deu, e-ele fa...
_Ok – me interrompeu, forçando indiferença.
_Fer, por favor, eu... – me comovi, sem saber direito o que falar.
_Não, não! Tudo bem. De boa, sério...
_Mas eu, não... merda, eu tô me sentindo mal agora!
_Cara, foi isto que a gente combinou, não foi?! Então tá certo, meu. Relaxa! É isto, porra, vai fazer o quê...
_Mas você não... eu... Fer, é que... argh! – me enrolava toda, chapada, e me irritava comigo mesma – É que, sei lá... ele já tava, tava afim de vir logo e vai virar o mês também e aí eu pensei que...
_Relaxa. De boa mesmo, meu. Tenho certeza que vai ser divertido pra caralho... – resmungou de cara fechada, deixando escapar certa agressividade na última frase; e saiu em direção à cozinha, fugindo do tópico. Bosta.

setembro 04, 2012

Prazer, Du

“E o que era, hm?” – a Mia me enviou de volta, por mensagem, no dia seguinte. Eu estava entre o diretor de arte da produtora e uma das modelos, quando senti o celular vibrar no meu bolso. Em meio a uma photoshoot superfaturada na Haddock Lobo. Tirei-o discretamente da calça e espiei a resposta, digitando logo em poucas palavras – “Dps t. conto”. Tornei a focar os meus olhos na prancheta cheia de rabiscos. E naquele caos organizado do cliente, sem dar bandeira. Ah não, não é possível que achem isto hype..., eu dizia a mim mesma, silenciosamente. E observava com desgosto as fitas coloridas, feitas de retalhos, que flutuavam sobre a calçada suja e contrastavam com o charme de uma São Paulo bastante urbana. Achava pretensiosas as ideias do Carlos, festa junina démodé, não conseguia me conformar. Mas ele, claro, as dirigia com toda convicção.

Fofocava com uma das estagiárias, entre um cigarro e outro na pausa, que ria dos meus comentários sobre a sessão. A manhã parecia durar para sempre. Quando olhei no meu relógio e faltavam menos de quinze minutos para as 13h – argh, merda merda! Joguei com pressa a bituca no chão, apagando a brasa na ponta do meu All Star encardido, e dei uma corrida até a tenda onde se encontrava o restante da equipe. Avisei que ia tirar o meu horário de almoço, precisava passar em casa; deixando a prancheta com o outro estagiário. Subi então para a Av. Paulista, cruzando a pé para a Frei Caneca. E desci a rua com o telefone já em mãos, de olho no horário. 12:57. A menos de um quarteirão do nosso prédio, vi um cara de cabelos loiro-escuros parado frente ao portão. Vestia uma calça saruel preta e tinha óculos escuros Clubmaster. A regata branca com o corte fundo na lateral o denunciava como amigo do Guilherme. Absolutamente gay e alternativo.

_E aí, beleza? – perguntei, cumprimentando-o apenas com um gesto – Você que é o Du?
_Ah, sou. Desculpa, o porteiro não tava conseguindo ligar lá, cheguei uns cinco minutos antes...
_Não, meu... tranquilo. Eu tava a caminho já.
_Você trabalha aqui perto? – pegou a mochila no chão e colocou-a nas costas, conforme eu empurrava o portão, prédio adentro.
_Na Brigadeiro, lá pra cima. Mas hoje eu tava numa externa aqui do lado, então vim rápido. Ó, cuidado com o degrau aí...

Ele olhou para baixo, prestando atenção onde pisava, e continuamos em direção ao salão do prédio, até o elevador. Apertei para o nosso andar. E enrolei as mangas da camiseta sobre o ombro, cansada da descida em ritmo apressado até a Frei. Estava confortável com ele – mas, agora que o via mais de perto, não me parecia ser mesmo gay. Ou era? Me ocupei com o meu radar por um instante, distraída.

_E você, trabalha? – perguntei-lhe, assim que a porta do elevador abriu.
_Sou ator.
_Ah, pô, que legal... – agora entendi tudo... –. De teatro ou TV?
_Então... Teatro, em teoria. Mas não tô com peça agora, só dou aula e faço uns bicos. Talvez role algo nos próximos um ou dois meses...
_Mas quantos anos você tem?
_26.

Chegávamos na porta do apartamento – que, se eu não tivesse voltado mais cedo da casa da Clara na noite anterior, estaria uma zona. Retirei as chaves do bolso e abri a porta, dizendo-lhe para deixar a mochila em qualquer canto. Agora toda a zona encontrava-se devidamente escondida nos armários e gavetas. Temporariamente, pelo menos. Na noite anterior, o Fernando recusara-se a me ajudar, provavelmente com ciúmes do meu potencial novo colega de quarto. Não insisti muito com ele, deixa quieto. Já àquele horário o apê estava vazio, ninguém na sala.

_E você tá querendo sair lá de onde cê mora?
_É. Eu moro com uma família no Santa Cecília, tenho um quarto alugado – ele olhava os cômodos conforme andávamos, eu ia na frente para mostrar – Mas é ruim ali pra mim, não tenho privacidade, eles são cheios de regras. Não funciona.
_Não te deixam levar gente pra dormir, ou o quê?
_Entre outras coisas.

Chegamos, enfim, ao quarto que ele ocuparia caso resolvesse vir e eu afastei a bagunça do Fernando com os pés para que pudéssemos entrar direito. Fez de propósito, né, maldito – revirei os olhos para aquela zona. Expliquei que aquele era ligeiramente maior que o meu, então o aluguel não seria dividido exatamente na metade, mas quase. E que a maioria das coisas ainda ficariam – a cama de casal, a TV na sala, o fogão novo. O motivo é que tudo isto já existia na casa dos pais dele, então o Fer havia oferecido em me deixar boa parte nos meses que estivesse fora.

_E o teu amigo tem planos pra voltar quando? – perguntou; nós já andávamos de volta para a sala.
_Então, daqui uns meses só. Ele tem que juntar uma grana, quer arranjar um trampo legal até poder se estabilizar. E aí ele vem de novo. Mas é flexível, tipo, a gente vai conversando... – cocei a nuca, distraída em arrumar uma pilha de revistas na chegada à sala – Quanto tempo cê acha que precisaria aí?!
_Ah, meu... o que der, tá ótimo. Eu tô com plano de financiar um canto meu, então preciso ir olhar ainda e ir atrás da papelada e tal. Demora uns meses. Mas o que rolasse aqui já ia ser ideal, o lugar é perfeito. E o apê é demais, porra, do lado da Augusta.
_É. Fala essa pros meus velhos... – eu ri; ele sorriu comigo.

Encostei contra o apoio do sofá, meio em pé, e cruzei os braços. Ele me parecia mesmo o tipo de cara que frequentava a The Society, que além do mais era ali do lado de casa. Mas sua postura tinha um quê hétero. Senti que, se pudesse, mudaria imediatamente para lá – estava visivelmente animado com a tour.

_E quais as regras aqui? Tem alguma em especial?!
_Ah, não muitas. Eu passo a maior parte do tempo fora, então nem vou ficar muito aí. Quando venho, fico trancada no quarto, ou seja... É de boa. Pode trazer quem você quiser. Fazer o que quiser. Tentar limpar o banheiro quando usar. Cada um faz sua comida. Dividimos os gastos. E sei lá, meu... Só não ouvir música de merda alto e não comer ninguém na cozinha enquanto eu janto, que tá tranquilo – concluí e ele riu da resposta.
_Beleza. E pode fumar?

Olhei-o com cara de “meu bem”. Já gostei de você.