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março 30, 2011

One, two, three... floor!

Uma tequila, claro, virou duas. E duas viraram quatro... que inevitavelmente se tornaram cinco. E após uma série de doses compartilhadas, um pouco fora de proporção, eu já estava alcoolizada dos pés à cabeça. De novo. Ou talvez pior ainda, deus do céu. E aí me encontrei num estado lastimável, esparramada numa cadeira de bar, desafiando uma loira de mini-alargadores pretos, igualmente fora de si, a me vencer num campeonato de palitocóptero. Não conseguíamos parar de rir, obviamente.

Os filhinhos de papai da Vila Madalena começavam, enfim, a se dispersar; deixando-nos como as últimas clientes restantes no bar às 5-e-alguma-coisa da manhã. Os atendentes agora nos olhavam torto, num canto, suspeitando da nossa absoluta falta de intenção de ir logo pagar a conta. Após deixar seu palito cair pela quarta vez consecutiva antes de mim, a loira então se apoiou na mesa, na minha direção, conforme eu provava bêbada como um gambá que conseguia fazer o meu dar mais cinco voltas, pelo menos.

Caiu na terceira, droga, e eu abaixei logo em seguida para pegá-lo no chão. Estou passando tempo de menos no bar, lamentei, reconhecendo o meu próprio fracasso. Ao retornar à posição normal, senti-me meio tonta; coloquei o palito resgatado sobre a mesa e me debrucei sobre ela, olhando a tal loirinha de volta. Ela me encarava. Me pareceu bonita – para quem havia sobrevivido a uma balada e à maior enrolação do século, isto é. E foi então que, após uma longa noite de tentativas mal-sucedidas, o clima finalmente pareceu despontar entre nós duas.

_Se eu tentar te beijar agora... – ela sorriu, maliciosa, me olhando – ...você vai dar um jeito de virar o rosto, não vai?!
_Não sei... – disse, achando graça, brincando com o palito sobre a mesa; aí encarei-a de novo, rindo – ...tenta, ué.

Ela me olhou desconfiada, mas logo inclinou o rosto na minha direção. De leve, aos poucos. Observei-a se aproximar vagarosamente de mim. Os garçons nos olhavam. Continuei achando graça, não quis rir, bastante bêbada. Mas apenas olhei-a, sorrindo, e no último segundo, desviei. Encostei a bochecha no canto da sua boca, próximo da minha, e apertei o rosto contra o seu, rodando-o, até conseguir dar-lhe um beijo comportado logo abaixo da sua maçã do rosto. Ela começou a rir na mesma hora.

_Filha-da-puta...
_O quê?! Você esperava que eu te agarrasse aqui?! Na frente dos limpa-mesas e do tiozinho da cozinha, meu? – fiz graça, como se ligasse de fato para aquilo, me justificando.
_Tá. Vamos pro carro, então... – ela sugeriu, sendo lógica, me provocando.
_Não, não... – balancei a cabeça, rindo; aí encarei-a fixo por um instante, sentindo a tequila bater na minha imprestabilidade, de repente; fiz uma pausa antes de continuar – ...e se eu disser que eu vou?!
_Eu pago a conta agora, meu... – ela riu – ...e a gente vai.

Suspirei. Olhando-a detalhadamente.

_Então, vamos.

A Carona

O ar passava gelado por entre os meus dedos, que dedilhavam distraídos ao som do álbum experimental que tocava no carro da loira. Cex, “Actual Fucking”. Minha cabeça seguia apoiada, de lado, na janela aberta. O antebraço todo para fora e os dedos suspensos no ar. Eu estava bêbada, realmente bêbada; havia aberto a janela para não vomitar no carro da garota, enjoada pelas voltas que demos pela Lapa para deixar o amigo dela em casa. Agora, porém, seguíamos lentamente em linha reta pela Heitor Penteado... só eu e ela, quietas, no interior do carro. A minha mente e o meu olhar estavam longe. Na Mia, isto é.

Inferno de whiskey.

Vejam bem... Existe o cu doce que afeta a maioria dos jogos de conquista e, particularmente, a maior parte das mulheres – o clássico quero-mas-não-vou-dizer-que-quero-porque-quero-ver-você-tentar-mais-um-pouquinho – e tem também um lance realmente parecido, mas bem menos ligado ao ego, que era o meu estado naquele momento. Eu sabia o que ela queria; sabia exatamente o que estava pensando, sentada ali ao meu lado, fumando um cigarro e observando-me vez ou outra com o canto do olho, cantarolando baixinho a letra insinuante que vinha do rádio; mas mais do que tudo eu sabia, sabia bem o que eu havia feito aquela “carona” parecer, ao telefone...

...eu só estava pouco me fodendo.

E não é como se estivesse ignorando-a, pois ela quase não falou diretamente comigo durante o percurso. Estava ali brisando, sozinha na minha. Na lei do mínimo esforço. Viajando nas batidas em downtempo da música e nos meus dedos no ar; olhando a cidade passar, as poucas luzes que restavam acesas. Virei o rosto, endireitando-o, e apoiei o queixo sobre o braço que pendia para o lado de fora. Será que se todo mundo vivesse à noite, me ocorreu, meio debruçada ali, eu ia querer ficar acordada de dia? Não. Aquilo soava do contra demais, até mesmo para mim. Notando um movimento mínimo meu, a loirinha até então na sua puxou assunto. E eu voltei a colocar os ouvidos do lado de dentro do carro; encostei o corpo contra o assento e coloquei os pés no painel, escorregando e levantando os joelhos na altura do meu rosto. Aí acendi um cigarro, largada ali no banco do passageiro, a fim de acompanhá-la.

_O que estava pensando aí, hein? – ela sorriu.
_Em nada... – murmurei, mais interessada na minha nicotina; olhando distraída para o filtro – ...na madrugada, numa garota, sei lá. Em parar pra comer.
_Pra comer?!
_É. Quer ir comer alguma coisa? – sugeri quando já nos aproximávamos de Jardins, a poucos quarteirões de casa, sem saber bem por quê; não sentia fome alguma.
_Mas só vai ter boteco aberto agora... – ela riu.
_Não, meu, vamos pro Black Dog.

Ok, admito, eu estava enrolando. Descaradamente enrolando. Ganhando tempo, sem fome, enfiando comida goela abaixo. Pois sabia que, assim que eu descesse na porta do meu modesto edifício, ela ia querer subir comigo. E eu não pretendia ser a filha-da-puta que além de pegar a carona a troco de beijo nenhum, também diz estou-cansada-deixa-para-outro-dia. Eu precisava criar, no mínimo, a ilusão de que aquilo fora um médio encontro.

E àquela altura, para falar a verdade, me fazer de desentendida estava até que me divertindo. Conversávamos empolgadas, bêbadas; ela encostava na minha mão, sob a mesa, e eu apoiava ambas ao lado do prato; aí ela vinha colocá-la discretamente na minha perna e eu a cruzava dois segundos depois; vez atrás da outra, assistia as suas tentativas de criar qualquer clima para um possível beijo e me entretia em desviar-me delas. Ela percebia, claro – tinha como não perceber? –, e achava graça, de certa forma.

O papo começou a ficar realmente bom, contudo; conforme levantamos da mesa e ela tentou me convencer a tomar uma saideira do outro lado da rua. Eu já estava mais sóbria. O suficiente para saber que não tinha grana para nada que figurasse no cardápio da Prainha. Boteco de playboy... argh. Aliás, depois do meu hot dog totalmente desnecessário, restavam-me menos de cinco reais em moedas no bolso.

_Ahh vem, vai... eu peço uma tequila e a gente divide! – insistia.

março 28, 2011

Me engana, eu gosto

_Ah, é?! – ela riu, do outro lado da linha.
_É... – sorri – ...tava pensando agora mesmo.
_Hum... interessante, hein.
_Onde você está? – ignorei-a, mudando de assunto.
_Onde eu estou? – ela fez graça – por quê, hein?
_Porque eu quero saber onde você está, ué...
_“Saber”? Só saber?! Sei...
_É segredo, por um acaso?
_Não, não bem segredo... – ela se divertia e eu fingia estar com paciência para aquilo – ...mas o que eu ganho se eu te contar?

Mulheres e o cu doce eterno.

_Mano... – respirei fundo – ...você sabe responder alguma pergunta sem fazer outra, ô loirinha?
_Você que não respondeu a minha ainda... – ela riu – Hein? O que eu ganho?!
_Todo o desinteresse do mundo...

Tá bom? Só não enche.

_Ah, agora é fácil assim? – ela se entretia, irritante.
_É.
_O que eu quiser, então?
_É – porra, quer que eu repita?! – vai... me fala onde você está.
_Ah! Você está com pressa? – ela riu.

Cacete.

_Não, não é pressa, é só que... – disse suave, fingida – ...sei lá, agora... me pareceu uma boa hora para você... vir buscar o seu “desinteresse”... em mim.
_Às três da manhã?! – ela ironizou, rindo.
_Alguma coisa contra ligações de madrugada?
_Nenhuma. É só que, né... assim, do nada...
_Não do nada, eu... – me preparei para mentir descaradamente – ...eu meio que fiquei, sei lá, com isso na cabeça, sabe... depois de te encontrar lá no Facebook mais cedo hoje... aí eu saí com uma amiga e... tava aqui... meio pensando em você... – forcei um constrangimento “fofo” babaca – ...não sei, meu... fiz errado mesmo em ligar?
_Não! Achei... achei ótimo, meu, de verdade! – ela tratou de me assegurar, já completamente na minha – então, eu to aqui na Hot Hot, sabe? – não – ...mas tava pensando em sair daqui a pouco.
_E daí você vai pra onde? Porque, tipo... eu tô presa aqui na Barra Funda, sem carro. Mas posso, sei lá, pegar um táxi até aí... é muito longe?
_Ah, um pouquinho, é aqui pro lado do Anhangabaú... – um “pouquinho”, porra?!?! – ...sabe, né?
_Sei, mas... você foi de carro?!

Diz que sim, diz que sim... pelamordedeus.

_Vim – ela riu, de novo – Por que? Quer que eu passe aí?!
_Não, mano... – me fiz de ofendida – ...eu me viro, aqui é completamente fora de mão pra você.
_Não,  não, é de boa... – lerê, lerê! – Mas, tipo... E se não funcionar?
_Não funcionar o quê?
_O nosso trato... – ela continuou, fazendo graça – ...saca, e se eu pegar o meu beijo e, de repente, eu quiser mais?
_Aí você pega mais... – respondi, bêbada, sem dar bola – ...pega o que você quiser, meu.

Só me tira dessa merda dessa rua, garota, e quem sabe você se diverte.

_Tá, vai... – ela disse – onde na Barra Funda?

março 24, 2011

Dúvidas, impulsos e uma mentira

Péssima, péssima escolha. Olhava, numa atitude intragável, para o fundo do copo baixo em minhas mãos; um resto de whiskey tingia o balcão vermelho por através do vidro, deixando-o amarelado. Encostada de corpo inteiro contra o bar, com desgosto, eu via podridão em tudo – nas cores, nos líquidos, nos sons, estridentes; nas pessoas dançando –, por que mesmo eu vim? A Lê já havia desistido de me fazer dançar com ela, arranjou qualquer garota descartável, fácil. Eu não estava no clima. Não estava no clima para porra nenhuma.

Engoli o restante de álcool no fundo do tal copo e deixei-o novamente sobre o balcão, pedindo para o cara enchê-lo mais uma vez. Eu não deveria ter saído de casa, observei o vermelho agora torto, deformado pelo vidro vazio, eu estava tão bem. Havia conseguido o telefone da garota, a loira, já devidamente anotado no celular, metido no bolso de trás da minha calça; me entreti o quanto pude com a minha nova playlist gênia e esqueci a porra da Mia por um par de horas, distraída. Eu tenho merda na cabeça, só pode..., dei um primeiro gole na nova dose. Mano... Achei, de verdade, que isso me faria bem? Não, o ambiente escuro e abafado, insuportável, daquela balada havia me enfiado com tudo de volta à minha bad; eu estava rezando, implorando para ir embora logo.

Nenhum sinal, contudo, de uma partida iminente.

Um babaca de jaqueta jeans e camisa dos Pistols, metido a moderninho, me enchia o saco, invariavelmente grudado ao meu lado; e eu o ignorava. Homens são como cachorros – não importa o tamanho da migalha: se você joga um só pedacinho, eles não saem mais do lado da mesa. Assim ele insistia, soando mais culto do que provavelmente era, falando coisas como o quanto Jack Kerouac mudara a sua vida no ano anterior. Eu precisava sair dali. Olhei por cima do meu ombro, para a pista, e a Lê seguia com as coxas metidas entre as pernas de uma qualquer. Ahh foda-se, decidi, estou caindo fora.

Saí, com gosto, sentindo a brisa agradável da madrugada paulistana me tirar subitamente daquele inferno. Já o astral permanecia, claro. Tirei o maço do bolso e acendi um cigarro, meio sem jeito, protegendo a brasa do vento enquanto o fazia. Dei a primeira tragada, pensando nos olhos inchados da Mia naquela tarde, aí retirei o filtro da boca e deixei uma fumaça morna se espalhar o ar. As palavras da Marina continuavam ecoando na minha cabeça... deveria mesmo ter sido diferente, a essa altura. Por que, então, não foi?! Por que não disse que me amava? Por que, mano, por que diabos não disse nada? Ora achava que a culpa era dela, ora sabia que fora a minha ansiedade estúpida que me metera naquela situação.

Mas por que, por que ainda não disse?

Mais uma tragada, suspirei; agora eu decidia como faria para sair da Barra Funda e voltar para casa. Observei o movimento na rua, paciente. Até me dar conta de que eu estava bêbada, realmente bêbada, sozinha... e longe pra caralho da Frei Caneca, mas que merda. Traguei mais uma vez. E com o meu par favorito de tênis, bem lembrei, carésimos. Peguei o celular e olhei as horas – 03:17. Eu tô fodida, ri sem acreditar naquilo e soltei a fumaça. Lembrei do Fer, por um segundo; da sua raiva no apartamento, naquele corredor estreito. A intensidade da briga voltava à minha cabeça, incômoda. O mero pensamento me embrulhou o estômago – ou talvez fosse o whiskey, sei lá

Contei os meus trocados restantes do absurdo que paguei na saída da balada, mas não tinha o suficiente para um táxi, não mesmo. Quis, então, ligar para a Marina vir me resgatar, mas não tinha coragem – não àquela hora, não depois do meu surto grosseiro de horas atrás. Apoiei as costas contra a parede da balada, minhas pernas estavam instáveis e embriagadas. Inferno. Agachei, desejando simplesmente não existir; aí me sentei naquela calçada suja, direto no chão. A imagem da Mia deitada, completamente nua, no chão do banheiro da sua casa me surgiu nítida na memória. Aquilo me perturbava.

Encostei a cabeça no concreto da parede e aproximei os pés do meu corpo, levantando os joelhos, só então apoiei o braço direito num deles. Esta mão rodava a minha lista de contatos do celular, enquanto a outra segurava o meu cigarro ainda inacabado. Os meus pensamentos confusos me atrapalhavam. Pressionei o nome da loira, a mesma do Vegas. E esperei tocar algumas vezes, sem raciocinar. Até que ela atendeu, também embriagada, provavelmente na rua. Perguntou-me quem era e eu expliquei, num mínimo esforço, ela pareceu rir do outro lado da linha.

_Então, pensei sobre aquele beijo... – menti.

Na verdade, não.

março 18, 2011

6 minutos

Minimizei a tela novamente, acendendo um cigarro, e retornei para o Windows Media Player. Comecei a rodar a minha lista de músicas, cada vez mais e mais para baixo, com a mão direita no mouse. Trouxe o filtro entre os dedos, de novo, até a minha boca e traguei. Minhas playlists todas já haviam me enjoado, droga. Olhava-as uma a uma, soltando a fumaça no ar. Quase escolhi a Wild Ones dos 70’s, por um momento, mas aí vi Little Boots mais para cima. E, de repente, achei uma boa idéia.

Comecei a cantarolar, ...so don’t go messing with her heart or messing with her mind or messing with the things that are inside..., entre uma tragada e outra, montando uma nova lista para substituir as antigas. Aquilo me deixava tranqüila, distraída. Pouco tempo depois, vi aparecer uma notificação no Facebook minimizado. (1). Subi mais uma vez a janela do browser, por cima do Media Player, e coloquei o cigarro na boca. Sem a menor intenção, com o canto escondido da boca, sorri ao ler a resposta da loirinha, apenas minutos depois; agora completamente abstraída da minha situação real.

“Sem beijo, sem trato. Mas se rolar um, talvez eu perca o interesse...”, vi e achei certa graça nela. Apoiei as costas para trás, de volta ao encosto da cadeira, tirando o filtro dos lábios; genial.

março 17, 2011

Incoerência?

Eram umas sete da noite, ou algo assim. O céu já estava escuro, o trânsito parado e as calçadas tomadas de gente. Aquela multidão toda me incomodava. Queria me livrar o quanto antes daquilo, da muvuca, mas não queria chegar em casa. Desci a rua acendendo um cigarro, enfiando toda a fumaça que podia para dentro. Maldição de sábado. Estava evitando checar a porcaria do celular a cada cinco minutos – mas, de certa forma masoquista, não conseguia me conter. Tirei-o novamene do bolso, já quase na esquina de casa, e olhei para a tela. Nenhuma mensagem. Mandei, então, sem planejar direito, um SMS para a Lê – na tentativa de descobrir o que ela ia fazer naquela noite. A última coisa sensata que eu posso fazer agora é ficar em casa..., pensei com razão, apesar de já estar entrando pelo portão do prédio.

De uma forma estranha, o Fer estava de saída em casa. Arrumado, meio com pressa. Não falou comigo – sequer me olhou e eu também não fiz questão de cumprimentá-lo, fui direto para o meu quarto. Contudo, no fundo, eu bem sabia: ficar ali isolada não ia tornar os meus pensamentos menos insuportáveis com o passar das horas. Se muito, os agravaria. Então, liguei o computador e coloquei a música no último volume, tentando me distrair com a droga das redes sociais. Ao abrir a página inicial, porém, me deparo com uma foto da loira do Vegas entre os meus pedidos de amizade. Camila, notei; não lembrava mesmo do nome. Ao me dar conta de quem era, pela foto, contudo, quis fechar a janela imediatamente. E o fiz, num impulso infantil.

Mano, em que merda eu fui me enfiar..., pensei. Todavia, não é, abaixar a janela do browser na tela não desaparecia com o problema que eu tinha arranjado com a Mia. Muito pelo contrário, aliás. Eu sabia que estava ali, por perto. E me incomodando. Bosta. Como eu era capaz de me odiar, às vezes; puta que pariu. A mim mesma e à minha capacidade de me apaixonar de forma estúpida! Mas como a amava, como a amava, meu... droga. Comecei a ser tomada por uma bad mais do que previsível, sozinha no quarto; olhando para a tela vazia do computador. Meu coração me doía a garganta e a cabeça. Aí, sem pensar, reabri a janela do Facebook e a encarei. Aceitei o pedido e lhe escrevi, numa tacada só.

“Pensei q. o combinado era ñ significar nd pra mim, nem pra vc. ;)”

Maus modos, claro

_Me vê a da doze.

O cara do caixa me olhou, meio torto, enfadado com os bêbados de sábado à noite que lotavam o bar de caos e decibéis extras, completamente dispensáveis, e procurou a comanda da minha mesa. Colocou-a por fim sobre o balcão, sem dar a mínima para mim. Seu estúpido. Peguei-a para mim para analisar os pedidos – me sentia consideravelmente embriagada, com dificuldade em fixar na cabeça o que eu lia; mas não fora de mim o suficiente para já voltar para casa. Não queria encarar o merda do Fernando. Não tão cedo. o problema é que não conseguiria tolerar mais uma hora daquela baboseira romântica entre a Marina e aquela garota insuportável, ali na minha frente, na mesa. Estava prestes a ser grossa com as duas; bêbada e num estado de espírito lamentável – e, sendo assim, preferia evitar uma ceninha. Busquei no bolso os meus trocados bem pouco numerosos.

_Você precisava sair da mesa assim?! – a Marina encostou em mim, de repente; falando em tom de indignação e tirando a carteira do bolso, apoiada ao meu lado no balcão.
_Eu vou pagar as quatro Itaipavas, a dose e... me vê um maço também, pode ser o Lucky – me dirigi ao atendente atrás do vidro, ignorando-a.
_Hein?! Eu estou falando com você... – ela insistiu, daquele jeito Marina de ser; mas que inferno – Precisava?! – senti aquilo começar a me irritar, estava bêbada e o timbre da sua voz ecoava nos meus ouvidos – meu, você me largou falando sozinha lá, não falou nada, não avisou, deixou a gente com a maior cara de tacho... e... e agora vai embora?! Assim, do nada?! – ela continuou e eu comecei a perder a paciência, ouvindo-a reclamar.

Cara, eu não sei qual é a grande dificuldade em interpretar os sinais mais óbvios! Se eu levantei da mesa, é porque não quero ficar ali. Se fui até o caixa, é porque vou embora. Se não me despedi, é porque não quero prolongar essa porra. Se eu não estou sorrindo, é porque, não, não estou bem. E se você traz a droga da sua namorada para um encontro com a sua ex, você deveria esperar descontentamento. Cacete, é tão difícil assim?! Mas, não, a Marina tinha que insistir.

 _O que acontece com você hoje?! – ela se irritou.

Nada, que é isso... O meu dia foi ótimo.

_Hein?! Precisava dessa ceninha toda?!? A gente estava lá conversando, de boa, todo mundo... que saco, pô. Que que deu em você agora?!?
_Nada... – tentei segurar a minha grosseria, já nervosa, contando as moedas na minha mão; e as entreguei para o atendente. Aí vi ele derrubá-las para dentro da caixa registradora e notei que a Marina estava sozinha ao meu lado – ...cadê a sua namoradinha, hun?
_Meu... – ela me olhou, parecendo realmente não entender – ...qual é o seu problema?! Ela, ela só foi no banheiro, por...
_Ótimo – disse, interrompendo-a, pegando o maço no balcão – assim não preciso falar tchau.

Me virei, já para ir embora, querendo dar o fora logo dali; sentia aquele dia de merda entalando exponencialmente na minha garganta. Mas a Marina, claro, me segurou. Desgraçada.

_O que está acontecendo?!? – ela me encarou, me pegando pelo braço, antes que eu saísse andando.
_Mano... o que você acha?!?! – surtei com ela, tentando manter a minha voz baixa; irritada – eu não gosto dela, você sabe que eu não gosto!
_Espera, você... você está com ciúmes da Bia?!
_Ciúmes?!? – revirei os olhos, achando absurdo sequer ter que me explicar – Meu, ela te tratou que nem merda não faz duas semanas, porra, te fez sentir mal por minha causa, por vir me ver... e agora eu tenho que sentar aqui e ficar fazendo social, Marina?!?! Porra, meu. Você podia ter me avisado, né, caralho!! – me revoltei – Aí eu nem aparecia nessa merda desse bar...
_E o que eu ia fazer, hein, me diz?! Eu estava na casa dela... eu ia dizer o quê?! Ia sair, do nada?!?! – ela argumentou, discutindo de volta comigo, e aquilo me lembrou das nossas brigas; a pior época de quando estávamos juntas – Sério, me diz, você acha que eu não tenho vida, né?! Que tudo gira em torno desse seu mundinho... você realmente acha que todo mundo vai largar o que está fazendo, largar a casa, a comida, a namorada, o trabalho, os amigos...; só pra vir te ver, quando você decide ligar?!
_“Decide”?!? “Decide ligar”?!?! – fiquei indignada, conseqüentemente mais alterada ainda – eu não “decidi” te ligar, Marina... não, não! Não é como se, do nada, me deu na telha atrapalhar sua tarde de sábado, “maravilhosa”, com a merda da sua namorada... vai se foder, mano!! Você acha mesmo que eu “decidi” te ligar?! Que eu não tinha nada melhor pra fazer do que me enfiar numa porra de uma briga com o Fernando e com a Mia, justo hoje; que eu queria estar nessa droga dessa confusão de novo?!?
_Desculpa... eu sei, desculpa, desculpa – ela se apressou em voltar atrás, fechando os olhos em descontentamento; eu podia ver que estava mal consigo mesma por sequer ter sugerido aquilo.
_Desencana, eu vou embora... – disse, meio deixando de lado.

Enfiei o meu maço recém-comprado no bolso, indo em direção à saída do boteco. Não queria mesmo ter que me despedir, não ia esperar a tal da Bia voltar. Não que estivesse realmente brava com a Marina em si, não mais; mas já estava de saco cheio. Então, caí fora. E não olhei para trás – se olhasse, com certeza, a veria chateada consigo mesma por ter discutido comigo; a Marina era sensível com essas coisas, talvez até demais... mesmo quando carregava parte da razão –, só continuei andando. Atravessei a Augusta até o lado da Frei Caneca e segui andando.  

março 15, 2011

Bar de esquina

Você só pode estar brincando, né..., me frustrei ao olhar para frente e ver a Marina atravessando a rua acompanhada, em frente ao Ibotirama; ambas vindo na minha direção. Merda. Traguei mais uma vez o meu cigarro já quase acabado, sentada num boteco do outro lado da calçada, e encarei a garota de mãos dadas com ela, uma morena de cabelo curtinho, mais ou menos do meu tamanho, com cara de sapatão, ...cara, era só o que me faltava.

Ela estava de jeans e uma regatinha branca, deixando à mostra uma tatuagem fina ao redor de um dos braços, a um palmo dos ombros. Tinha o corpo fino e bem-definido, eu a estava odiando antes de sequer ver de perto. A Marina só pode ter merda na cabeça para trazer essa garota aqui..., soltei a fumaça para o lado, sem tirar os olhos das duas, que só agora chegavam ao meu lado da calçada. Inferno. A tapada da minha ex-namorada, por sua vez, vinha num shorts verde-musgo, de sandália rasteira e uma blusinha branca, toda verão... estava bonita, com o cabelo castanho solto.  

_Meu, está impossível estacionar... – a Marina comentou e sorriu ao me ver – ...oi.
_Você parou muito longe? – perguntei, meio por perguntar.
_Não, mas foi difícil conseguir lugar, né? – ela se virou para a menina, em busca de validação, numa intimidade repugnante – Ah! Essa é a Bia... – aham, jura? – ...enfim vocês se conheceram!
_Então você é a famosa, hein... – ela me olhou, simpática, colocando a mão delicadamente na parte de baixo das costas da Marina e eu soltei a fumaça que acabara de tragar.
_E aí... beleza?! – disse, meio indiferente, só para não deixá-la no vácuo.

O clima ficou estranho, um breve silêncio se seguiu, mas elas pareceram ignorar. Isso é culpa minha, mano..., traguei mais uma vez, detestando aquele fim de tarde de sábado, enquanto elas se sentavam, juntando-se a mim numa mesa a umas quatro quadras de casa, ...não devia ter insistido para ela no telefone, não devia. Meu humor estava péssimo. A Mia ainda não havia me respondido e a última coisa que eu queria, agora, era contar todo o desenrolar daquela tarde de merda para a Marina, vulnerável, com a droga da sua namoradinha do lado. Como se eu já não me sentisse mal o suficiente..., observei a garota e ela cruzou o olhar comigo; aí dei um sorriso amarelo, breve.

Mal haviam se sentado, contudo, e a Bia perguntou para a Marina se ia querer algo para beber, aí levantou para chamar o garçom do lado de dentro por uma das janelas mais abaixo na calçada, a alguns passos dali. A olhei levantar da cadeira, agora de costas para nós, e imediatamente lancei um olhar de onde -diabos-você-estava-com-a-cabeça para a Marina, do outro lado da mesa. Aquela situação era ridícula, completamente desnecessária e absurda, e ela sabia. “Seja simpática”, ela disse em silêncio, li nos seus lábios, me encarando de volta da mesma forma que a minha mãe me encararia há quinze anos se eu estivesse me descomportando.

Maldição.

A tal da Bia sentou-se novamente na mesa, sem ter percebido e sorriu para a Marina, olhando-a. Eu desviei o olhar, com certo desgosto, pegando o meu copo semi-cheio de cerveja e apagando o restinho do cigarro na madeira. Dei um gole, as duas ainda se olhavam, vi através do fundo de vidro; aí dei mais um e depois outro. Enfim, pararam. O meu copo estava vazio, me pus a enchê-lo com uma garrafa de Itaipava sobre a mesa e a Marina agora me encarava como se esperasse a grande história da vez. O sol abafava o ar ao redor, refletido na calçada; estava calor.

Mesmo incomodada, comecei a lhe contar tudo o que acontecera desde aquela quarta-feira – o encontro dos dois, o Vegas, a loira, os garotos em casa, a Mia com o Fer, eu no sofá, a briga no dia seguinte, nossa conversa no quarto, o elevador e o meu eu-te-amo fora de hora... –, a Marina ouvia tudo atentamente, curiosa. A sua namoradinha também, argh. Aquilo, aliás, me desconfortou o tempo inteiro, a cada segundo, tirando o peso das minhas palavras. Não me sentia tão triste como achei que me sentiria ao pronunciá-las, ao reviver cada minuto daquele lixo de tarde. De certa forma, o meu incômodo atual parecia ofuscar o meu abatimento por tudo aquilo – foi até que fácil falar a respeito, quem diria.

_E até agora nenhuma mensagem dela? – a Marina me olhou, chateada.
_Não... ela não vai responder, Má, eu já sei bem como isso funciona. Aliás, você também sabe... ela, ela não quer lidar com essa porra toda. E eu... eu não vou ficar esperando...
_Mas...
_Não... – interrompi por um segundo o que ela ia dizer e passei as mãos no rosto, sentindo aquilo me apertar, de repente, aí admiti – ...eu vou. Eu sei que eu vou. Eu vou esperar, meu... que inferno! Mas que situação de merda... – xinguei, me odiando por estar tão à mercê da Mia, e enchi meu copo com a segunda garrafa de cerveja da mesa.
_Meu, pára, larga mão dessa garota... – a namorada até-então-muda resolveu se intrometer, do nada, que mina idiota.
_“Essa garota”...? – eu ri, achando ridículo.
_Linda, me escuta, ela... – a Marina olhou na direção da Bia enquanto falava, reprovando o seu comentário desnecessário – ...a Mia, ela... está se sentindo culpada demais. Ela vai ir atrás do Fernando, meu, você sabe disso. Vai querer se redimir, sei lá. E o que você vai fazer? Você não pode ficar aí sofrendo pelos cantos, se machucando, essa confusão toda já te colocou pra baixo demais... eu nunca te vi assim, meu... – a Marina segurou a minha mão, com um olhar de pena insuportável, e eu só deixei porque a tal da Bia estava de olho, talvez meio enciumada – ...talvez seja a, sabe, a hora de você não esperar tanto assim dela. A Mia é complicada demais para você ficar se magoando assim, meu. Ela ainda precisa se resolver direito e...
_Eu sei, mas ela... Má, ela sente alguma coisa por mim. Eu sei que sente! O que eu vou fazer, porra?!? – me exaltei, inquieta – Dar as costas pra isso logo agora que... que a gente estava chegando em algum lugar?!? É a Mia... a minha Mia, caralho. Não foi você que disse que ela precisava de... de alguém para ir lá e pegar ela pela mão?! Hein?!? Que eu tinha que ter paciência e que...
_Foi, foi – ela me cortou – só que, gata, que segurança maior você poderia dar pra ela? Você já disse que está apaixonada, ela sabe que pode confiar em você, que você vai estar lá pra ela e se a resposta não foi imediata, se na hora ela nã... – a Marina hesitou, parecendo medir suas palavras – ...escuta, se isso não fez diferença, você amar ela ou não; se não aliviou a confusão em que ela tá, meu... – interrompeu de novo e suspirou, depois prosseguiu – ...sabe, deveria ter sido diferente, a essa altura. Eu só acho que ela ainda está muito presa ao Fer, ela ainda ama ele demais pra...
_Não... não.
_Quer ouvir?! – ela brigou comigo e eu cruzei os braços, intragável, ouvindo aquela merda a contragosto – Não estou dizendo que ela não sente nada por você... é claro que sente! Mas... não sei se sobrou mais alguma coisa para você fazer, entende? Meu, você pode até esperar a poeira abaixar, mas eu acho que ela está se sentindo culpada demais para assumir o que vocês têm agora. Não acho que ela vai voltar pra você tão cedo, linda.
_Eu espero. Eu espero, porra! – argumentei, incomodada – Eu já não esperei antes, caralho?!
_É diferente, você já tá envolvida demais agora, meu, você vai...
_O que?! Me machucar?!? – ah, que novidade...
_Não faz isso, flor. Não fala assim, por favor.

E faço o que, então?!

março 12, 2011

Estaticidade lenta

Parada, em pé no meio do corredor, olhei a porta do elevador se fechar lentamente. Não, não, meu... A Mia estava do outro lado, apoiada contra uma das suas paredes, mas não me encarava de volta, de cabeça abaixada. Inferno. Os meus olhos não desviavam dos dela, contudo; mesmo que não me visse ali. Ainda que a porta estivesse prestes a se fechar por completo. Não faz isso, por favor... Cara, aquilo estava acabando comigo antes mesmo de acabar. Antes daquela porra daquele elevador descer e levá-la embora, de vez, sem me dizer uma palavra. Nada, isto é, além de um “eu preciso ir” covarde e inseguro, murmurado sem determinação, tropeçando em suas próprias sílabas. É só isso que você tem pra me dizer? Só isso mesmo?!, o meu coração se apertava ao olhá-la ir, me sentindo uma idiota completa. Maldição. Quando foi que eu perdi a noção do jogo, dessa merda de jogo?! Nenhuma reação, nada. Fui encarada por segundos a fio, inquieta, nos instantes anteriores, até ela se dar conta do que eu realmente estava falando e se meter naquele elevador, cuja porta agora se fechava diante do meu rosto. Eu estava muda, atônita. De repente, contra a minha vontade. Ahh, como queria lhe dizer; como queria impedir que aquela fresta se fechasse; enfiar a mão ali, do nada, parar, não deixar que ela se escondesse, que evitasse as minhas palavras, a droga da minha declaração mal-sucedida. Qualquer coisa, porra. Me fala qualquer coisa! Me manda à merda, diz que não me ama, mas fala..., eu a observava, conforme os últimos dez centímetros de vão entre as portas do elevador se reduziam de maneira inevitável, ... não me deixa aqui, meu, não vira as costas. A verdade é que sempre levei a minha vida de forma a validar a teoria de que, se ignorar algo o suficiente, eventualmente essa coisa desaparece. Seja uma garota apaixonada, deixando dezenas de ligações não-atendidas no meu celular, ou um problema qualquer no trabalho. Mas desta vez, para variar, só uma vez, era eu que estava implorando por um pouco de comportamento neurótico feminino, um clássico vamos-conversar-sobre-isso; desesperada por um overtalking-it. Aí olhava-a, olhava-a como se só isso fosse o suficiente para fazer aquela porra daquela porta parar, olhava-a como se o peso contido no meu par de íris fosse capaz de segurá-la ali por mais alguns instantes – e talvez fosse, de fato, se a Mia levantasse o rosto e as notasse. Só que não olhou. Não olhou. Droga, mil vezes droga, senti vontade de chorar, num impulso que não era meu. Não, isso não... não vou perder a cabeça. Senti me apertar, no segundo em que vi aquela porta se fechar, e meu coração foi invadido por onda intensa, insuportável de arrependimento. Ou um quase arrependimento, sei lá. Estava mais para uma dor, uma mágoa aguda por não poder controlar o mundo e as conseqüências do que era dito pela minha boca, desgraçada. Engoli seco. Inferno.

Bati a porta do apartamento, com força, atrás de mim, me sentindo prestes a desmoronar. O Fernando continuava lá dentro, podia sentir o cheiro do baseado queimando, vindo do corredor – me lembrando, só por existir, é claro, do quão insignificante eu podia ser para uma garota. A minha garota, que droga. Com raiva, frustrada com aquela tarde, me tranquei no meu quarto. Não queria ver o mundo por um mês. Foda-se, foda-se tudo, pensei, mas não conseguia me aquietar, andando de um lado para o outro. Após alguns minutos de auto-tortura sem fundamento, apoiei a cabeça contra o vidro da janela e fechei os olhos, respirando fundo. Por que eu fui falar?!, suspirei, sem conseguir me conter, por que eu fui assustar a porra da menina?!? Ela foi hétero a vida toda, caralho... eu sou uma idiota mesmo, não me conformava, uma novata do cacete. Aquilo ia me tirar a paz, o sono. Desgraça. Apanhei um cigarro em cima da mesa do computador e o acendi, na tentativa de me acalmar. Foi quando escutei o meu celular tocar. Uma mensagem, notei, e a abri. “Vc me ama mesmo, de verdade?”, a Mia estava perguntando, poucos minutos após deixar o prédio. Podia ter previsto essa... Traguei uma vez, soltando a fumaça, e digitei. “Amo.” – enviei de volta, na mesma hora, sem hesitar. Saí da caixa de entrada, apertando o botão de retorno no canto, e deixei o celular sobre o parapeito da janela, largado ali. Aí apoiei ambos os antebraços contra o vidro e olhei para fora, observei a rua. Eu sabia que ela não ia responder.

Me olha, garota.

Here we go again...
I kindda wanna be more than friends
So take it easy on me...
I’m afraid you’ll never satisfy


Oh-ohh, I want some more...
Oh-ohh, what are you waiting for?
Take a bite of my heart tonight

Oh-ohh, I want some more...
Oh-ohh, what are you waiting for?
What are you waiting for?

Say goodbye to my heart tonight.
(Animal - Neon Trees)

março 10, 2011

Portas, portas, portas...

A porta da frente mal havia batido atrás da Mia quando eu abri a do meu quarto, indo para o corredor. Furiosa, comigo mesma, com a droga da situação toda. Estávamos batendo o recorde de estrondos dentro do apartamento naquele dia, uma porta atrás da outra, puta que pariu. O Fernando se recuperava da discussão na sala, fumando um baseado que o denunciou ali antes mesmo de eu poder vê-lo. Andei até o fim do corredor, ele estava sentado na poltrona perpedincular ao sofá e eu, perdendo a cabeça por saber que a Mia havia acabado de sair dali, machucada. Marchei até ele, afundada no meu próprio orgulho, e apontei a porta de entrada, com raiva, começando a falar:

_Vai resolver! – olhei bem nos seus olhos, encarando-o – Vai resolver essa merda!
_Quê?! – ele se indignou, surpreso – Eu não tenho nada pra resolver, quem tem que resolver é ela!
_Não interessa!! Vai resolver... essa... – senti meus olhos se encherem de água, de repente, sem entender por que – ...essa... droga! – não demonstrei, encarando-o com raiva.
_Que diferença faz pra você, caralho?! Se ela quer ir embora, ótimo – deu um trago, fingindo indeferença, nitidamente abalado com aquilo; eu mal conseguia ouvi-lo falar aquelas babaquices – ...eu não quero ela aqui. Por mim, ela não precisa mais aparecer nessa porra dessa casa; nunca mais. Foda-se.
_Escuta aqui... – senti aquilo me doer, apertando o meu peito – ...a Mia... a Mia saiu do meu quarto chorando a... a merda do coração pra fora... e sabe por quê?! Sabe por quê?! Hein, caralho?!? – encarei-o, sentindo a minha respiração acelerar ainda mais – Porque por... por algum motivo estúpido e... e... deplorável, ela… ela te ama. Ela ainda te ama, seu babaca. Ela te ama e não consegue conviver com ela mesma! Por causa do que ela fez!! Agora, me escuta... – eu o ameacei, indignada – ...se essa garota sair daqui hoje se sentindo um... um lixo... se achando menos... ou desmerecedora dessa porcaria desse namoro, de você, Fernando... se ela... se ela andar pra fora desse prédio acreditando em uma palavra do que você disse hoje, uma palavra sequer... meu, eu tô falando sério, você vai se ver comigo. Eu não vou te perdoar; você levanta dessa porra dessa cadeira agora e vai resolver essa merda!! – levantei a voz.
_E desde quando isso é assunto seu, caralho?!? – ele gritou comigo, se levantando na minha direção – se você quer saber, eu acho mesmo que ela é. Acho que ela é tudo isso, tudo, e se ela sair daqui se sentindo um nada: por mim, que se dane. Eu não vou correr atrás dela. Já deu, chega dessa porra. Que se foda, porra.
_Cara, você realmente se acha melhor do que ela, não?! – eu o observei, sem acreditar naquilo – Hein?!? Se acha, não se acha?! Você vai mesmo deixar ela sair daqui se odiando, não é, por uma merda qualquer... – meus olhos já estavam secos, agora revoltados – ...se achando suja, achando que cometeu o pior crime do século contra você... que te magoou, te feriu; que fez uma coisa tão imperdoável, tão... tão terrível, não é?! – encarei-o – agora, me diz, o quão “terrível”, o quão imperdoável e “sujo” será que você se sentiu enquanto estava enfiado naquele quarto, nem cinco meses atrás, comendo a droga da sua ex-namorada, hein?! Porque, na boa, Fernando, se a sua moral está tão ofendida agora, imagino que você não deve ter conseguido dormir no dia seguinte, não é, caralho?! Você deve ter contado tudo pra Mia, imediatamente, no segundo em que a Júlia saiu andando daqui... não contou?!?
_Cala a boca...
_Contou ou não contou?!? Ela sabe?! A Mia sabe?!? Ou ela tá se odiando gratuitamente, hein, Fer?! Aí, do outro lado dessa porta... – briguei com ele – ...se sentindo uma vagabunda de merda enquanto você fica quieto aqui, se achando muito acima dela!!
_Não é a mesma coisa... – ele murmurou, me detestando horrores.
_Não é?! Me explica então, porra, que parte é diferente?!?
_Mano, sério... – ele passou por mim, encerrando a conversa e indo para o corredor – ...não se mete.

Covarde.

Vi-o fechar a porta do quarto, logo em seguida. Que se dane. Coloquei o cabelo para frente, cobrindo os dois lados do pescoço, e saí pela frente do apartamento, já do lado de fora, na esperança de ainda encontrar a Mia ali. Não posso, me prometi mentalmente, não posso deixar ela ir embora assim. E com “assim”, eu digo, brava comigo e consigo mesma. Com tudo, aliás, menos com o idiota do Fer – argh. Não suportava a idéia de deixá-la magoada, aquilo estava me sufocando por dentro.

Olhei para o lado do elevador, meio descrente de que iria vê-la, mas lá estava ela. Ufa. Senti o nó apertado no meu estômago alacear na mesma hora, ao encontrá-la. Encostada na parede oposta à do elevador, com o rosto semi-escondido numa das mãos e o celular na outra, digitando qualquer coisa, aparentemente. Não fazia nem quatro minutos que tinha saído, tempo suficiente para a minha discussão com o Fernando. Caminhei inquieta, e apressada, até ela e ouvi o elevador chegar, merda. A sua cabeça se ergueu e ela me ignorou, com a óbvia intenção de dar o fora dali.

_Mia, espera... por favor, você entendeu tudo errado.
_Você não precisa fazer isso... – ela desviou de mim, indo para o elevador.
_Preciso, sim. Preciso, porque eu não quero te magoar também, porra! Não hoje. Por favor, meu, fica. Olha, eu juro, eu juro que não foi nada! Uma menina... me... me atacou enquanto eu… estava muito, mas muito chapada mesmo... na casa de uns amigos, depois de uma balada, e não foi nada. Meu, eu... não troquei um beijo sequer com ela, eu...
_Na boa, não quero que você se explique – ela seguiu em direção ao elevador, ainda chorando pela discussão, mas em silêncio.
_Não, me escuta, porra... Eu sei que parece que eu estou sendo eu, como eu sempre sou, mas... eu juro que não. Não dessa vez. Eu... eu não fiquei com ninguém. Eu não queria ficar com ninguém e eu... eu disse isso pra ela, disse pra todo mundo. E ainda tomei o maior esporro do meu amigo, pô, eu...
_Você pode ficar com quem quiser – ela segurou a porta do elevador com força e me olhou, meio rancorosa –, eu não vou falar nada. Eu não deveria ter falado nada, eu... Eu acabei de passar a noite com o Fê, porra! Eu nunca deveria ter falado porcaria nenhuma, você não tem obrigação nenhuma comigo, nunca teve... – ela fez parecer ser minha culpa, as lágrimas escorriam pelo seu rosto – ...não é da minha conta o que você faz ou deixa de fazer na sua vida. Muito menos agora. Sinceramente, você faz o que você quiser...
_Caralho, Mia... como você é cabeça-dura, porra! – segurei o elevador do outro lado, pela porta, e fiquei de frente para ela – Me escuta, cacete: eu não quero. Eu não quero ficar com ninguém. Ninguém que não seja você e eu não ligo para o que quer que você tenha feito... ontem, hoje, sei lá quando, porra! – a encarei, com sinceridade, sentindo meu coração bater inquieto – Eu preciso que você acredite em mim; que quando eu digo que eu quero que você fique, é porque eu quero mesmo; e se eu disse que não fiquei com a droga da menina, é porque eu não fiquei. Eu não estou mentindo para você. Eu não preciso mentir pra você, mas que inferno. Eu não quero. Eu não quero mais isso. E não quero que você não se importe com uma droga de um chupão no meu pescoço, não quero que você me mande fazer o que eu bem entender com a minha vida, porra... porque eu não vou. Eu não vou. Não mais... Você não entende, caralho?! Eu te amo.

Isso! Perfeito, fala mesmo, sua idiota! Eu e o meu ótimo timing, argh. Aquela era a primeira vez que as palavras, de fato, saíam da minha boca e entravam no seu ouvido desavisado. As três palavras, digo. E a Mia ficou parada, me encarando, em frente ao seu lado da porta do elevador. Eu a olhei de volta e suspirei, abaixando a cabeça.

_Eu sempre te amei, meu...

março 05, 2011

O Purgatório

Entrei. Lá estava ela; subindo as calças pelas pernas, ao lado da minha cama. As lágrimas desciam, incessantes, pelo contorno das suas bochechas e escorriam até o seu queixo. A essa altura, ela sequer tentava enxugá-las, com as mãos nos botões da calça, fechando-os um a um. Nitidamente desconcertada. Filho-da-puta desgraçado, pensei, com raiva da falta de noção do Fernando. Encostei a porta, em silêncio, o meu coração continuava acelerado da discussão, não sabia direito o que fazer. Ela me ouviu, mas ignorou, e eu a olhei.

_Mia...
_Eu estou bem – respondeu na mesma hora, já me cortando.

Respirei fundo. Você vai ficar chorando aí, toda orgulhosa, ou vai me deixar ajudar... porra?!, a encarei. Não era boa com aquilo – nunca soube lidar com os meus próprios sentimentos, que dirá com os dos outros. Não suportava vê-la chorando – não suportava ver qualquer mulher chorando, aliás. Aquilo me tirava do sério, acabava comigo. A minha vontade era de ir até ela e a beijar; a beijá-la intensamente, até tirar todo o sal da sua boca; e aí beijar cada milímetro da sua pele, do seu rosto, incansável, até não sobrar uma linha de umidade, uma lágrima sequer.

Abracei-a. Porque um beijo, agora, não funcionaria – não sob as dadas circunstâncias, digo, o Fer do lado de fora e o arrependimento amargo ali do lado de dentro. Havia peso demais na consciência para um beijo, então me segurei. Andei até ela, ignorando a sua atitude eu-estou-bem estúpida, e a segurei. Senti suas mãos me empurrarem de volta, na altura do meu estômago, relutante, mas insisti; a fiz ficar. Podia sentir o seu corpo soluçar, contido; chorando, contra o meu. Até que ela me segurou de volta. Ficamos juntas, quietas, por um tempo.

_Ele... – ela começou a cochichar, de repente, como se me confessasse algo, deixando as lágrimas escorrerem no meu ombro – ...ele... ele me perguntou... do nada, e eu... eu não sabia o que fazer... – ela me apertou ainda mais; passei a mão no seu cabelo, a acalmando – ...estava tudo bem... a gente, a gente tinha acordado e... estava conversando... aí ele disse que... que um... um amigo dele... falou pra... pra ele ficar... esperto comigo... que ele não... não devia confiar em mim... e o Fer... – ela continuou, baixinho, cada vez soluçando e cedendo mais – ...o Fer não acreditou, ele... ele falou só por... por falar... hoje, na cama, sabe... ele... ele me perguntou se eu já... já tinha... traído ele ou algo assim, mas... meio de bobeira, meio só por falar, porque... – sentia sua respiração pesar, machucada – ...porque ele sabia que eu, eu ia dizer que não e a gente... ia rir disso... mas... – ela se enfiou mais e mais em mim, arrependida – ...eu não... eu não estava esperando, meu, eu fiquei... olhando para ele... que nem uma idiota! E não... não consegui dizer nada... nada... – merda, merda, merda – ...e ele percebeu... não tinha como não perceber, ele... ele surtou comigo, começou a me encher de pergunta e eu não sabia o que falar... não... não conseguia... ele me fez admitir, falou um monte pra mim... cara, como eu fui burra... eu fui muito burra... eu sou uma idiota, uma idiota completa.
_Eei... não fica assim, linda... você não ia se sentir melhor se tivesse mentido – disse, no seu ouvido – ...agora já aconteceu, meu.  
_Não, eu sou... eu sou uma idiota... – ela insistia, chorando – ...uma idiota, meu, uma estúpida... o que eu fui... o que eu fui fazer, porra... com ele... com, com a gente... a gente estava tão... tão bem... ontem... – ah, você quis dizer vocês... – ...eu não... eu não queria... não queria... machucar ele assim... desse jeito... eu... eu... – ela soluçava, já realmente fora de si, aos prantos – ...eu amo tanto, tanto... eu amo tanto ele... – o meu coração, de repente, se apertou e eu a segurei forte, num impulso – ...tanto, tanto, meu... eu não podia... não podia fazer isso... ele não vai me perdoar... nunca, nunca... eu não vou me perdoar, meu... o que... o que eu fui fazer, meu deus? Como isso... isso... sequer começou?! Eu... eu não... – ela se atrapalhava na própria fala, se desmontando em lágrimas – ...eu sou a pior pessoa do... do mundo.
_Você não... – quis responder na mesma hora, indignada – ...acredite, você não é a pior pessoa do mundo. Meu, você não é nem a pior pessoa desse apartamento! – movi o corpo para trás, de leve, segurando-a pelo rosto e a olhei, ela riu por um segundo, com os olhos inchados de chorar – escuta, qualquer coisa, qualquer coisa que você possa ter feito... – lhe garanti, passando o dedo sobre as maçãs do seu rosto, secando-as – ...eu e o Fernando, com certeza, já fizemos pior. E digo, realmente pior. Você não precisa se sentir mal. Não você, meu... – sorri para ela – ...sério. E, linda, na boa, ele é um babaca; ele nunca deveria ter reagido assim, ter falado com você daquele jeito, ter sido estúpido... – a expressão no seu rosto, de repente, mudou e ela pareceu se afastar.
_Eu... eu... – ela disse, me soltando dela, se virando para a cama – ...eu preciso ir.
_Mia? – disse, sem entender, e ela me ignorou, de frente para as suas coisas sobre o colchão; tirou o camisetão que estava vestindo, meio bruscamente... e sem nada por baixo, aparentemente, observei, sem esperar aquilo; e aí eu a segurei pela mão, a fim de chamar sua atenção – ...Mia?!
_Você... – ela me encarou, soando diferente – ...você não deveria falar dele. O que, o que a gente fez foi errado. Em todos os níveis de “errado” existentes nesse mundo, e você sabe. Então, não... não critica... não critica ele, não fala assim do Fer.
_Eu não... – a olhei de volta, sem acreditar – ...Mia, o Fer é meu amigo. Eu não estou contra ele, porra. E eu sei, o que a gente fez não foi certo, mas isso não dá direito dele falar o que quiser, desse jeito ainda, para você. Ele saiu da linha, cacete. Todo mundo saiu.
_Mas ele tinha razão...
_Sobre o quê?! Sobre você ser uma “vadia de merda”?! É isso?!? – levantei a voz, indignada – É isso que você acha?!? Você realmente acha que merece ouvir esse tipo de lixo de um panaca que não sabe se controlar?!?
_Ah! E você sabe, por um acaso?!?! – ela me encarou, com os olhos vermelhos e uma atitude intragável.

O quê?!, a olhei, me sentindo meio confusa, mas que diabos...?! Não tive sequer tempo de processar. Ela se virou e colocou a blusa que estava nas suas mãos, uma regata preta sua, largando a anterior sobre a cama, prestes a sair do quarto.

_A propósito... – se virou novamente para mim, com pressa – ...belo chupão. Deixa eu advinhar: você saiu e levou um tombo?! – ela me olhou, irônica, e eu fiquei sem resposta.

Balançou a cabeça, descrente naquilo. E murmurou para si mesma o quanto ela era idiota, com uma angústia escondida por detrás dos gestos, agora bastante determinados. Inferno. Passou por mim, sem olhar mais na minha direção, indo para a porta. Mas que inferno, porra!, cobri o rosto com as mãos e as escorreguei para os dois lados do meu pescoço. A Mia bateu a porta com força, me deixando no quarto.

E eu fiquei sozinha, me odiando. Em seguida, ouvi a porta da frente abrir e se fechar e, sem entender direito, escutei o Fer dizer-lhe mais alguma coisa antes que saísse, no mesmo nível escroto que antes. Merda. Não podia deixá-la ir embora daquele jeito – ...mas que porra de opção eu tenho?!, passei as mãos no rosto, agoniada.

E aí, claro, não me agüentei.

março 03, 2011

E a cara-de-pau

Fui direto na direção deles. Vendo-o a encurralar, gritando com ela no fim do corredor. Andei rápido, já morrendo de raiva, ouvindo a Mia chorar sem parar. Aquilo me tirava do sério. Eu precisava – de uma forma instintiva, estúpida, de dentro de mim – eu precisava, precisava fazer alguma coisa a respeito. Me aproximei sem nem calcular direito as implicaçõs daquilo e puxei o Fer pelo ombro com força, tirando-o de cima dela e me enfiando na frente dele, entre os dois. Sem pensar.

_Você passou do limite, Fernando. Já chega! Vai pra lá!! – encarei-o, com a Mia atrás de mim, chorando.
_Não se mete... – ele disse, me ignorando ali.
_Eu mandei sair de cima dela, porra!! – gritei, empurrando-o de novo.
_Isso não é assunto seu!! – ele brigou comigo, com mais ódio ainda.
_É assunto meu, sim!! É assunto meu, sim, porra!! Você não vai se comportar desse jeito, que... que merda você acha que tá fazendo, quem diabos você pensa que é, caralho?! Não com ela!!! Você ouviu?! Você ouviu, seu merda?! Não comigo aqui! Você meça bem as suas palavras, seu estúpido, e se coloque no seu lugar... Entendeu, caralho?!?! Se ela mandou sair, você sai!!! – briguei de volta, indignada.
_Se ela man... Cara, você sabe o que ela fez?! – ele apontou para ela, com ódio, olhando para a Mia ao invés de mim – você sabe o que essa vadia fez?!?! O que ela fez comigo?!?
_Não me interessa!!! Isso não te dá direito d...
_Eu não fiz nada!! Não fiz na-da!!! – a Mia se meteu, soluçando, e começou a gritar atrás de mim – você vai acreditar naquele idiota, porra?!?!
_Ele é meu amigo!! Meu amigo, cacete!! – repetiu, gritando nos meus ouvidos, me esmagando entre ele e ela, cada vez mais nervoso – O que você disse?!? Meia hora atrás?! O que foi que você me disse, hein, sua vagabunda?!?!
_Fernando... sai... de... cima, porra!!! – empurrei-o mais uma vez.
_Não se mete, caralho!! – gritou comigo, me tirando dali – sai da minha frente!! E você... – ele olhou para ela, mais uma vez – você, você sai da minha casa... Sai da minha casa agora, sua vadia! Eu não quero mais te ver na minha frente, porra!!!

Me meti, de novo, no meio dos dois. Empurrando-o.

_Fer... – ela voltou a choraramingar, desesperada, enquanto eu me enfiava na sua frente – ...por favor! Por favor, não faz isso! Não fala assim!! Eu... eu...
_Eu não sei como eu acreditei em você... – ele encostou novamente em mim, tentando chegar perto dela – ...como eu... mano... você... você tem noção do que eu te amei, do quanto eu te amei, sua filha-da-puta?!?! – vi os seus olhos marejarem, mas não chorou; tornou a ficar com raiva – Hein?! E pra quê?!? Pra você ir lá dar pra outro?!?! Pra você mentir assim pra mim, porra?!?! Na minha cara?!?! Você tem problema?? Hein?! Me fala, porra!! – a voz dele tremia e ele chegava cada vez mais perto, me apertando e a ela contra a parede; eu mantinha minhas mãos entre os nossos corpos, tentando segurá-lo – Ou sou eu o problema??!? Sou eu o problema, Mia?!?
_Não!!! Claro que não!! – ela soluçou.
_Então, o que foi, cacete?!?! – ele nos apertou mais ainda e eu comecei a empurrá-lo na direção oposta, tirando-o de cima – me larga, caralho!! Deixa ela falar... vai, me fala!! Me fala, porra!! Fala o que foi!!
_Você está perdendo a cabeça... – disse.
_Me fala!!! – ele me tirou da frente, à força, me ignorando, e botou os dois braços na parede, um de cada lado da Mia, encarando-a – Fala!!!
_Eu juro... eu juro que eu n... – ela gaguejou, sem saída.
_“Não” o quê?!? Não gostou?!?! Hein?!?! Não gostou dele?!?! Jura o quê?! Que não significou nada pra você?!?! Que você não mentiu na minha cara, porra??? – ele perdeu a calma de novo e eu vi a Mia soluçando, sem contestar, ouvindo-o ofendê-la com todos os piores nomes possíveis por minutos a fio, enquanto eu tentava tirá-lo de cima dela – Você não vale nada!! Nada!!! Você...
_Pára, por favor, amor... – ela chorava e eu, enfim, consegui; me meti novamente entre os dois, obrigando-o a dar um passo para trás, ufa.
_Sabe o que você é?! Você... – ele continuou, na mesma intensidade, fingindo que eu nem estava ali – ...você é uma vadia de merda!!
_Fernando, chega!! – gritei, de novo, voltando à discussão – Se acalma aí, porra, mas que merda!! Não foi nada!!! Que diferença faz agora?!??!
_Você... – ele parou e me olhou, indignado, do nada – ...você SABIA disso?! Você sabia disso, porra??! – começou a berrar, de novo, desta vez comigo – Você sabia dessa merda e não me contou, caralho?!?! Sua... sua desgraçada!! Sua filha de uma puta!!! Eu não acredito nisso!!! Você...
_Sabia! Sabia, sim!! – respondi, com o sangue fervendo, encarando-o – e sabe do que mais eu sei?? Sabe, Fernando?!? Hein?!?! Sabe o que mais eu sei?!? O que mais aconteceu nessa porra desse apartamento?!?!
_Você cala essa sua boca!!! – ele me ameaçou.
_Senão o quê?!?! – gritei de volta, provocando-o – Hein?! Senão o quê, seu merda?!?!
_Cala a boca!!!
ein

E aí ficamos subitamente em silêncio, por uns dois segundos. Nos entreolhando, com o ódio contido entre os dentes, sem nos mover. Sem ousar continuar – nem eu, nem ele. Inferno. Se eu falasse... se eu falasse o segredo dele... se eu contasse... o meu, de repente, ganharia proporções... mil vezes mais cretinas. Eu não podia contar, não se ficasse quieta sobre a minha parte naquela porcaria toda. Porque nenhum de nós, naquele corredor, valia um centavo. Nós três. Mas, ainda assim, nos achávamos dignos de estar ali, em pé, acusando os podres um do outro deliberadamente. Já chega, pensei.

_Essa discussão acabou... – me enchi daquilo, irritada, e me virei, enfiando a Mia meio de qualquer jeito no meu quarto, dando as costas para ele.
_Eu tô falando com você... eu tô falando com você, Mia, porra!! – ele ainda gritou para ela, puto da vida, de novo – sua biscate de merda!!
_Cala a boca, Fernando!! – bati a porta com força, deixando-a lá dentro, e me virei para falar com ele – Já chega!! Chega, porra!! Você não vai falar mais uma palavra para ela. Nem mais uma palavra ou essa merda vai ficar muito maior do que você pode imaginar, você tá me entendendo?!? Chega!! Já chega!! Acabou a discussão!!
_Mano... você bota essa garota pra fora daqui! – ele apontou pro quarto, ainda bravo – Agora!! Eu quero ela fora da minha casa!!!
_Ela sai quando eu quiser que ela saia!!
_Vai ficar se metendo, caralho?!?
_Vou, vou ficar me metendo, sim!! Já chega, cacete!! Já falou tudo o que você tinha pra falar e agora acabou!! Sossega, caralho!! Pára!!
_E eu vou parar por quê?!?! – ele se moveu na minha direção, me desafiando – Hein?! A namorada é minha, porra, eu falo o que eu quiser!!!
_Porque eu mandei parar, caralho!! – olhei nos seus olhos, com raiva, e apontei pra sua cara, toda cheia de razão – ...e ela não é mais sua namorada.
_Vai à merda... – ele tirou o meu dedo de cima do seu rosto – ...vai à merda, mano... – começou a andar, me dando as costas, e trombou em mim de propósito, passando nervoso – ...aproveita, e leva essa filha-da-puta com você! – gritou, já quase na sala.

Foda-se, seu desregulado de merda, pensei, vendo-o se afastar, e me virei para entrar no quarto atrás da Mia. Estava longe de acabar.

março 02, 2011

O pau da barraca

_Sai, caralho... Sai daqui agora!!
_Não... por favor! – ouvi a Mia soluçar.
_Cai fora, porra!! Você não me ouviu?! Sai, cacete!! Sai!! Vem aqui...
_Me solta, Fê... – ela chorava – ...não faz isso!
_Vem!!!
_Pára... por favor, me escuta.
_Então anda com as suas próprias pernas, porra!! Sai daqui! – ele começou a berrar ainda mais alto e eu me afundei no sofá, tentando não ser vista ali... Ótimo, gritaria conjugal do casal ternura, eu mereço mesmo, pensei, sem entender porra nenhuma – Some da minha frente!!!
_Vamos voltar pro quarto... por favor, meu, por favor, vem cá.
_Sai! Eu não tenho nada pra falar com você!!
_Fer... Fer! Meu, eu... eu juro que… eu n...
_Cala a boca! Eu não quero ouvir mais nada!!
_Me escuta...
_Não, porra!! Cai fora!! Some da minha frente! Sai!!
_Não, não... – ela soluçava mais ainda, soando desesperada.
_Sai AGORA!!
_Eu não vou sair!!! – ela gritou de volta, de repente.

Larguei o controle de qualquer jeito no chão e me sentei no sofá, assustada com o grau de agressividade que a discussão estava tomando. Olhei para o corredor atrás de mim e tentei entender o que diabos estava acontecendo ali, isso está estranho. Eles sequer me notaram, ambos estavam em pé, pouco mais a frente da porta do quarto do Fer, já quase na do meu. Ela, só de camisetão, provavelmente dele, segurando o que deviam ser suas roupas na mão; e ele, apenas de bermuda, com os olhos já vermelhos. Raramente vi o Fernando tão nervoso, parecia estar prestes a socar a parede. A Mia chorava e chorava, desesperada, tentando chegar perto dele – se aproximar, encostar nos seus braços – e ele a tirava de cima de si toda vez, com raiva. Ela insistia e ele discutia mais ainda com ela.

Já havia visto os dois brigarem antes, diversas vezes aliás, naquele apartamento. Sempre gritavam um com o outro, daquele jeito, não era incomum; faziam um escândalo e depois faziam as pazes, era sempre o mesmo drama. Não que eu pudesse dizer muito, afinal, eu era a mais estourada daquele apartamento e geralmente sem nenhum motivo aparente; sendo que o Fer ficava, por bem pouco, com o segundo lugar na listinha dos desregulados. Nunca fomos lá muito calmos quando discutíamos – menos ainda educados –, todos perdiam a cabeça consideravelmente fácil... mas nunca nesse nível. Aquilo era diferente.

_Se você não sair... ahh, você vai escutar... mano... você vai escutar cada merda que eu tenho pra dizer sobre você! Eu tô te falando, Mia... cai fora! Cai fora agora!! Some da minha frente!!
_Eu quero! Eu quero ouvir! – ela choramingava – por favor, eu quero te ouvir! – apertou as mãos e as roupas contra o peito, como se realmente doesse, chorando ainda mais – meu, por favor, vamos conversar! Vamos para o quarto! Fer, eu nã...
_Você não, o quê?! Hein?!?! Você não, o quê?!?!
_Fer, por favor... – ela abaixou a cabeça, soluçando.
_Você não fez o quê?! Fala pra mim!! Fala, caralho!! Olha na minha cara e fala que não fez, sua vagabunda!! – ele começou a encostar o corpo contra o dela, nervoso, e eu já comecei a me levantar no sofá, atenta – você não, o quê, hein porra?!?!
_O que você quer que eu diga?! – ela gritou de volta, de repente, ainda chorando – Importa, cacete??? Vai fazer alguma diferença?!? Vai???
_Você não vale nada!! Mano, eu... – ele balançava de um lado pro outro, com raiva, se segurando –  ...eu não acredito que... que eu... filha-da-puta, mano... sua filha-da-puta!! – perdeu o controle de novo – você é uma vadia de merda!! Você tem noção do que fez, porra?!?! Do que você fez comigo?!?! Comigo, Mia?!?! Do que todos os meus amigos tão achando agora, do que eu tô sentindo, caralho, do que você fez com a gente, com o nosso namoro, com toda essa merda?!?!
_Eu não queria, eu n...
_Com quem? – ele a encarou, puto – Com quantos, Mia?! Me fala! Me fala, cacete!! Quando?! Quando foi, hein?!? Com quem?!?!
_Com ninguém!!
_Com quem, porra?!?!
_Sai da minha frente...
_“Sai da minha frente”?! – ele disse, encurralando ela mais ainda contra a parede, a um milímetro do rosto dela – Você não queria ficar?! Hein?! Não queria?!?! Não disse que não ia sair?!? Agora você fica aqui, porra! Você fica aqui até me falar, até me contar toda essa merda direito!! Fala, cacete!!!
_Fer, sai da minha frente...
_Me fala!!
_Sai!!!
_Fala, porra... Fala o nome do desgraçado!!!
_Sai da minha frente!! – ela gritou, de novo, e ele a fechou bruscamente, impedindo-a de se mexer, segurando-a por um dos braços, pressionando-a contra a parede.

Eu levantei na mesma hora, pulando por cima do encosto do sofá, puta da vida. Já pronta para partir pra cima dele – e eu estava pouco ligando para o que ele ia dizer, essa briga já saiu do controle, mano. Ahh, perdi... perdi a cabeça no mesmo instante em que o vi segurá-la na parede, como se tivesse sido tomada por uma força irracional, assistindo-a ali, sem saída, e ele em cima dela; como se me tivesse subido todo o sangue à cabeça; como se, de repente, aquela briga fosse minha. E era.

março 01, 2011

Catatonia

O sábado chegou e uma latinha um-quinto-cheia de cerveja já choca, após passar a noite aberta fora da geladeira, agora abrigava quatro cigarros fumados pela metade, apoiada em cima da mesinha de centro. Outros dois restavam amassados no cinzeiro da sala, todos resultado daquela madrugada. Estou fumando demais... encarei-os ali, tortos, por ao menos vinte minutos antes de criar coragem para, enfim, levantar-me do sofá. O dia estava claro e quente em excesso. Não sabia dizer que horas eram e pouco me importava, estava rabugenta ao extremo.

A ressaca do dia anterior me deixara por completo. Contudo, o meu corpo seguia mole e completamente destruído. Talvez fosse o peso moral dos meus atos, sei lá – ou os pensamentos pesados que me ocorriam a cada segundos, sobre a Mia, trancada no quarto do meu melhor amigo, logo ali ao lado, e que me ocupavam a cabeça desde as quatro da manhã. Ahh, foda-se. Para falar a verdade, não acordei pensando em porra nenhuma além das curvas formadas pelos filtros esmagados no cinzeiro da mesa de centro. E isso me bastava.

Mais um dia inútil pela frente, eu já sabia. E que calor filho-da-puta. Tinha preguiça de sequer existir, sentada fracassada no sofá com a roupa do dia anterior, os pés descalços no chão e os cotovelos apoiados sobre os joelhos, deixando o rosto pesar contra as mãos. Não vai esquecer de respirar, porra..., repeti na minha cabeça e ri brevemente de mim mesma, sem achar graça verdadeira naquela situação. Levantei-me sem força de vontade alguma, apoiando as mãos no meio das coxas, e aí tirei as calças de qualquer jeito, largando-as no chão da sala.

Andei até a cozinha e apanhei qualquer salgadinho com gosto de isopor na nossa mini-dispensa do armário. Arrastei os pés de volta para a sala, enquanto abria o pacote, parando atrás do encosto do sofá e escorregando de novo para a mesma posição de cinco minutos antes. Ou seja: largada de qualquer jeito ali, deitada. Alcancei o controle da televisão, mais para lá na mesinha de centro, e coloquei no primeiro canal que achei com algum desenho animado passando. Papa-léguas. Cara, eu amava o Papa-Léguas. E o Coiote, claro, talvez até mais do que o seu inimigo com penas. Fazia milênios que não assistia aquilo! Me esparramei, toda contente, no sofá e comecei a me entupir de salgadinho para matar a fome por não ter jantado.

(...)

Um pacote inteiro, quase duas horas, uma cerveja e dois cigarros depois e eu continuava deitada, ignorando as circunstâncias em que eu me encontrava. Bem que eu gostaria de dizer que era proposital: que eu queria estar lá quando a Mia saísse daquele quarto, que queria que ela olhasse na minha cara após passar a noite trancada com o Fer no cômodo ao lado, que tinha pensado em tudo aquilo... mas a verdade é que eu não tinha. Estava sub-existindo ali por pura inércia. Fingindo que o mundo não girava e que não havia mais nada nele além da porra do Pica Pau, que agora gargalhava na minha frente na televisão, me divertindo.

Ou talvez, bom, talvez eu devesse ter saído. Ido dar uma volta, sei lá, me poupado das probabilidades desagradáveis. É, talvez. A questão é que não fui. Eu insisti, para variar, na minha própria estupidez; fiquei largada lá a tarde toda, como se não tivesse nada melhor para fazer – e não tinha, convenhamos. Até que, em um determinado momento, eu os ouvi. Já suspeitava antes que estavam acordados, mas até então não tinha escutado nada concreto. E aquilo era – ahh, se era –, concreto até demais. Mais alto do que o normal, aliás, a ponto de eu conseguir notar de uma distância considerável. No entanto, por detrás de uma porta e após o decorrer de um corredor, eu não escutava nada direito. Apenas um ruído de gente. Então, aumentei o volume da televisão e prestei atenção no desenho, meio forçosamente. E funcionou, na mesma hora.

De repente, porém, o som vindo de trás da porta aumentou. Não é possível, mano..., o meu impulso foi querer ir lá bater na droga do quarto, ...vocês estão de brincadeira comigo, caralho. Mas me contive. Enfiei uma das almofadas sobre a orelha, ainda deitada no sofá, com a lateral oposta do rosto apoiada em outra delas. Aí mal conseguia escutar a porcaria da televisão, ótimo. Não que o desenho animado realmente exigisse atenção nos diálogos, né... então, fixei os olhos na tela e continuei absorvendo imagens passivamente. Todavia, do nada, ouvi um barulho alto de porta se abrindo, sem delicadeza alguma, e tirei a almofada do ouvido, num susto.

_Sai da minha frente, porra!! – ouvi o Fer gritar do quarto.